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Série "Ocidentes" leva à TV histórias representativas das diversas fases do mítico bar do Bom Fim

06 de junho de 2014 0

Em exibição nesta semana na TVE, a série Ocidentes recria o ambiente do tradicional bar da esquina da João Telles com a Osvaldo Aranha que foi, ao mesmo tempo, cenário e personagem das mudanças comportamentais que acompanharam a capital gaúcha nas últimas quatro décadas. São quatro dramas fictícios que espelham dilemas e personalidades de seus frequentadores, artistas de várias linguagens entre eles, que por ali passaram desde que o Bom Fim era o bairro boêmio de Porto Alegre por excelência.

E isso é um elogio: as diversas fases do Ocidente estão todas ali, muito bem representadas pelos olhares de diretores que testemunharam a história que agora retratam. Mérito do mentor da série, o cineasta Fabiano de Souza, e de seu sócio, Milton do Prado, que assina a montagem e a produção-executiva de todos os episódios (esta última função juntamente com Jéssica Luz e o próprio Fabiano): foram eles que escolheram Carlos Gerbase para dirigir o trecho relativo aos anos 1980, Bruno Polidoro para o dos 2000 e João Gabriel de Queiroz para o dos 2010, além de Fabiano, ele mesmo, para o dos 1990.

Comecemos por aí, a década em que dava para ver Pulp Fiction (1994) no Baltimore ou passar pelo Bar do João antes de assistir a Júpiter Maçã berrando “Walter Victor tomador de panca” no palco do Oci. Com diálogos lindos e citações precisas (a de “educação sentimental”, mencionando Foucault e Kid Abelha, é inspiradíssima), Fabiano de Souza narra o desenrolar de uma paixão adolescente ao longo de três anos de festas no lugar. Seu personagem principal (Guilherme Kury) é a encarnação de um tipo comum, o garoto mais jovem, e notadamente tímido, a observar uma musa mais velha na pista de dança, sempre deslumbrante e eventualmente namorando um roqueiro ou, no caso, o DJ.

A sensibilidade na composição dos personagens e na observação das situações se repete sobretudo no terceiro episódio, relativo aos anos 2000, que se passa em sua maior parte no fumódromo. Bruno Polidoro usa imagens da pista para demarcar a passagem do tempo, concentrando a ação propriamente dita nas tensões que se estabelecem naquele refúgio ao ar livre. Há algo de provocativo na maneira confusa (e amoral) com que se dão as aproximações dos frequentadores: um homem (Henrique Larré) flerta com uma mulher (Carolina Sudati), que por sua vez flerta com o homem (Márcio Reolon) que havia flertado com o primeiro homem – e o espectador, no meio da fumaça daqueles cigarros compartilhados, tem uma boa ideia de um conceito, o do amor livre, que encontra guarida no Ocidente desde sempre.

É curioso, nesse sentido, comparar o episódio de Polidoro com aquele dirigido por Carlos Gerbase, que faz referência à década de 1980. Gerbase explora as tensões de bastidores de uma banda formada por mulheres – aí incluída uma paixão mal resolvida, tapas, beijos, sexo, drogas e punk rock. Em contraposição à sutileza de Polidoro, que opta pelos silêncios e pelas sugestões para evidenciar os conflitos dramáticos de sua história, Gerbase aposta essencialmente nos diálogos para estabelecer a comunicação – entre os personagens e com o espectador.

Polidoro é mais sutil e também mais romântico. Vale usar as diferenças de abordagens entre ambos para fazer um paralelo comportamental que envolve a manifestação da homoafetividade em seu tempo. A verborragia da baterista punk que protagoniza o episódio mais antigo (Joana Vieira) é simbólica de um momento em que era preciso falar mais alto para marcar posição – e no qual o Ocidente servia como uma espécie de refúgio. Nos anos 2000, o refúgio segue lá, mas, não por acaso, foi ampliado e já não carrega mais tão fortemente a pecha de gueto.

Também parece ser geracional a opção pelo cinema narrativo e da palavra – é assim o estilo de Gerbase e de seus contemporâneos gaúchos, Jorge Furtado inclusive e principalmente. Se, no episódio que retrata o Oci dos anos 1990, Fabiano de Souza leva elementos desse tipo de filme à elaboração extrema (textos são reproduzidos sobre as imagens, constituindo algo próximo à poesia concreta), o trabalho de Polidoro vira a página, mudando a forma de pôr a juventude na tela. Entenda-se “forma” no sentido fílmico e de conteúdo propriamente dito. Os próprios tipos que circulam por seu filme parecem bem menos idealizados, o que certamente se justifica, ao menos em parte, pela proximidade histórica e a consequente falta de distanciamento para a sua construção.

Parece-me correto enxergar a trama situada no período pós-2010 como uma continuação – muito próxima, ressalte-se – do episódio cronologicamente anterior: em uma festa de formatura, os afetos revelam-se múltiplos e, sobretudo, multifacetados. Destaque, nos dois episódios recentes, para os planos com composições elaboradas e os belos jogos de luzes, no interior do inferninho e fora dele, no amanhecer da cidade silenciosa. É o próprio Polidoro quem assina a fotografia do episódio dirigido por João Queiroz, o que ajuda a constituir a unidade visual que os dois filmes revelam – e que serve ainda mais para aproximá-los entre si.

Em cada um dos quatro casos, de todo modo, independentemente de escolhas estéticas e de eventuais irregularidades que cada episódio possui, a capacidade de traduzir sua época é muito bem-sucedida. E sem concessões. Tanto que, embora integre a série Histórias do Sul, terá exibições nas noites de terça a sexta-feira apenas a partir da 1h30min, e não mais cedo, como ocorreu com os especiais que o antecederam.

A reprise dos quatro episódios, um atrás do outro, começa à meia-noite de sábado para domingo.

Um por um, os quatro episódios da série Ocidentes:

Anos 1980: As Bateristas Banda de punk rock formada por garotas é abalada quando sua ex-baterista volta de Londres e diz que vai reassumir seu lugar. De Carlos Gerbase. Com Joana Vieira, Tainá Gallo, Júlia Barth e Liege Massi.

Anos 1990: A Última Festa do Século Garoto chega ao Ocidente para a última festa de 1999 e lá reencontra, em memória, amigos que foram se dispersando nos anos anteriores, especialmente uma garota mais velha. De Fabiano de Souza. Com Guilherme Kury, Miriã Possani, Fred Vasques, Mateus Almada e Carina Dias.

Anos 2000: Cinco Cigarros e um Beijo Em uma noite, jovem de 20 anos vê a noite passar enquanto observa as pessoas no fumódromo e na pista de dança. De Bruno Polidoro. Com Henrique Larré, Márcio Reolon, Carolina Sudati, Samuel Reginatto, Eduardo Cardoso e Rafael Tombini.

Anos 2010: Aurora Em uma festa de formatura, dois amigos se despedem de uma garota que vai mortar no Exterior. De João Gabriel Queiroz. Com Filipe Rossato, Mirah Laline, Francine Kliemann, Natalia Karam, Martina Fröhlich e Maí Yandara.

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