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Wes Anderson se inspira em Stefan Zweig para falar do velho e do novo em "Grande Hotel Budapeste"

03 de julho de 2014 0

Wes Anderson é um fabulador pretensioso e radical, o que lhe garante fãs e detratores em porções significativas. Faz barulho desde pelo menos Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e, com Moonrise Kingdom (2012), parecia ter atingido a medida perfeita – até quem costuma não tolerar seus maneirismos se entregou àquela aventura romântica doce e improvável. O que poderia vir depois?

Premiado neste ano no Festival de Berlim (com o grande prêmio do júri) e com estreia hoje no circuito brasileiro, Grande Hotel Budapeste não chega a ser um projeto maior do cineasta texano, mas prova o prestígio que ele alcançou aos 45 anos: mesmo com orçamento modesto (US$ 31 milhões), o filme reúne, em seu elenco, uma das maiores constelações vistas recentemente em Hollywood.

A figura central da trama é Gustave H. (Ralph Fiennes), concierge de um afamado hotel europeu do período entreguerras. Um homem do passado, polido e altivo, que Anderson compôs inspirado em Stefan Zweig (1881 – 1942), autor judeu de origem austríaca que, com a ascensão do nazismo, refugiou-se no Brasil. Ele cometeu suicídio em Petrópolis (RJ), manifestando em uma carta de despedida sua desilusão com o crescimento da intolerância e do autoritarismo na Europa e sem esperanças no futuro do chamado Novo Mundo.

Gustave tem esse desajuste em sua personalidade. Fiennes, em boa atuação, escancara cada evidência de seus conflitos, ao mesmo tempo em que se permite cacos que ressaltam o caráter fabular da história. Seu tempo de reação diante dos fatos, por exemplo, é sempre demorado, como se ele estivesse comentando a ação, algo típico de certas blagues e fundamental para estabelecer Grande Hotel Budapeste no registro cômico. Para embarcar no filme, é necessário simpatizar com essa opção formal – e tolerar os excessos que emanam dela.

Cuidado, também, para não se perder. A trajetória de Gustave H. é narrada por um escritor (Tom Wilkinson). Só que, antes de voltar à década de 1930, este escritor retorna primeiro aos anos 1980 (quando é interpretado por Jude Law) para lembrar o momento em que se hospedou no hotel e conheceu seu proprietário, Mr. Moustafa (F. Murray Abraham). É pelo depoimento de Moustafa que ele toma contato com Gustave H.

Nos anos 1930, os dois, Gustave e Moustafa, eram respectivamente mestre e aprendiz. Não à toa, o pupilo que se transforma em herdeiro do estabelecimento é um imigrante de ascendência árabe que sobe na escala social superando percalços e perseguição: a intolerância, marcante numa época de trevas do século passado, segue um tema importante no Primeiro Mundo hoje.

No fundo, Anderson está falando da passagem do tempo e das mudanças de costumes. Se Gustave faz um tipo que ficou para trás, Moustafa é alguém forjado pelo novo ambiente social. As inúmeras figuras que cruzam seu caminho, da milionária excêntrica (Tilda Swinton) ao capanga implacável (William Dafoe), do policial influente (Edward Norton) ao jovem ambicioso (Adrien Brody), são agentes que ajudam a formatar esse novo ambiente – daí uma das justificativas para a composição de personagens tão estereotipados. Aqui também vale a ressalva: é preciso tolerância para curtir Grande Hotel Budapeste. Mas as questões levantadas, mais do que na maior parte dos trabalhos pregressos do diretor, fazem o filme valer a pena.

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