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Comédia dramática espanhola “O que os Homens Falam” fala de amor pela visão masculina

06 de julho de 2014 0

O título em português pode induzir a um juízo equivocado: O que os Homens Falam não é uma versão em castelhano de E Aí… Comeu? (2012). Diferentemente dessa comédia brasileira, o filme espanhol em cartaz na Capital tem diálogos inteligentes, narrativa bem construída e atuações excepcionais. O diretor e roteirista catalão Cesc Gay ambienta em sua Barcelona natal as tramas de sua comédia dramática: da manhã à noite, o longa mostra oito homens quarentões em crise.

O que os Homens Falam encadeia meia dúzia de esquetes em que os personagens expõem fragilidades e compartilham dúvidas – existenciais, amorosas, sexuais, profissionais. Há desde o ex-marido que escolhe uma péssima hora para tentar a reconciliação com a antiga companheira – episódio estrelado pelo ótimo ator espanhol Javier Cámara, de Fale com Ela (2002) – até o pai de família louco para cometer adultério, vivido por Eduardo Noriega, protagonista da cinebiografia Che Guevara (2005).

Dois núcleos dramáticos proporcionam duelos de interpretações memoráveis, graças à sensibilidade e ao talento das duplas de atores. No primeiro conto do filme, dois amigos reencontram-se por acaso depois de anos quando um deles sai da sessão com o psicanalista – em comum, o bem-sucedido profissional liberal encarnado pelo argentino Leonardo Sbaraglia e o jornalista desempregado interpretado pelo espanhol Eduardo Fernández dividem a mesma sensação de falta de rumo na vida. Argentina e Espanha voltam a se encontrar no elenco do capítulo mais intrigante de O que os Homens Falam: em um banco de praça, um marido enganado (o argentino Ricardo Darín) divide com um conhecido (o espanhol Luis Tosar) seus sentimentos ambíguos com relação à traição.

O contraponto feminino surge mais para o fim, no irônico carrossel de flertes e revelações que lembra os filmes do francês Eric Rohmer e do americano Woody Allen. A caminho de uma festa, dois casais trocam casualmente os acompanhantes entre si. À medida que as mulheres vão revelando detalhes íntimos dos maridos, evidencia-se a superficialidade dessa amizade masculina, marcada pelo desconhecimento e pelo silêncio de parte a parte.

O filme parece o piloto de um seriado – o realizador, aliás, também escreve e dirige para a televisão espanhola. Cesc Gay acerta ao evitar os estereótipos e o maniqueísmo: o cineasta apenas apresenta os dilemas de suas criaturas, deixando o julgamento para o público. Ainda que as mulheres pareçam mais seguras e assertivas do que os homens, o longa sustenta que o mal-estar é comum a todos. O que os Homens Falam não se embrenha totalmente pelo caminho dramático – o que talvez resultasse em um filme ainda melhor –, optando por matizar o tom com toques de um melancólico humor. A frase final, dita por um dos machos desencantados, cristaliza no espectador um sorriso amargo: “Pois sim que estamos bem”.

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