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Três vezes bom cinema

11 de julho de 2014 0

Nesta semana, o Cine Santander, em Porto Alegre, estreia três filmes de autor premiados em edições recentes dos principais festivais europeus: Heli, do mexicano Amat Escalante, Vic + Flo Viram um Urso, do canadense Denis Côté, e Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho, do bósnio Danis Tanovic. Os três têm distribuição nacional pela Zeta Filmes. Confira, abaixo, breves textos sobre cada um deles:

Via-crúcis bósnia
Por Marcelo Perrone

O relato em um jornal do drama vivido por Senada Alimanovic e seu marido, Nazif Mujic, indignou o diretor bósnio Danis Tanovic. Carregando no ventre um feto morto, a mulher teve atendimento negado por não ter plano de saúde e tampouco dinheiro para realizar a cirugia emergencial. Tanovic fez da via-crúcis vivida pelo casal de sangue cigano tema de Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (2013), docudrama em que Nazif e Senada interpretam seus próprios papéis. O impacto do recurso é de tal ordem que Nazif foi consagrado com o troféu de melhor ator no Festival de Berlim.

O ofício do protagonista é simbólico. Ele é a sucata humana de um país que o discrimina por sua etnia e o exclui do sistema econômico e político erguido sob as cinzas da Guerra da Bósnia (1992 – 1995). Nessa enxuta e potente dramatização do real, Tanovic exibe um filme arrojado no seu embaralhamento de gêneros. E presta tributo aos primórdios dessa proposta narrativa lembrando Nanook do Norte (1922), filme no qual Robert Flaherty recriou – sob sua interferência dramatúrgica – a rotina de um esquimó no Alasca.

Mistério canadense
Por Daniel Feix

Era uma vez duas condenadas apaixonadas que, ao saírem da prisão, ficam livres para viver sua história de amor numa casa de campo. Premiado em Berlim, o longa canadense Vic + Flo Viram um Urso (2013) começa quase como um conto de fadas. Mas o clima misterioso e frio (ressaltado pela fotografia de paleta azulada) aos poucos revela que aquela região de estradas estreitas cercadas de mato reserva surpresas desagradáveis.

O urso do título é metafórico, mas vale notar que Denis Côté, um dos vários bons diretores quebequenses deste século 21, gosta de trabalhar com, vamos dizer assim, referências animais – vide Bestiaire (2012), exibido em Porto Alegre na Sessão Plataforma. Aqui, a relação estabelecida é entre predadores e presas. Para descobrir quais papéis cabem às protagonistas, vividas por Pierrette Robitaille e Romane Bohringer, você tem de ver o filme.

Vic + Flo não é exatamente violento. O que o faz valer a pena é a espera pela violência, pontuada pela entrega sutil de informações relevantes por parte de Côté, às vezes a partir de movimentos de câmera lentos, alongados. Nesse sentido, Vic + Flo é um desafio ao espectador – do qual, dado seu impacto estético, é impossível sair perdendo.

Violência mexicana
Por Roger Lerina

A realidade brutal do México dos desfavorecidos, expostos à violência do tráfico e da corrupção, é o pano de fundo de Heli (2013), filme de narrativa seca de Amat Escalante que levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes de 2013.

Produção independente de baixíssimo orçamento, o drama começa mostrando em imagens cruas um cadáver sendo pendurado no alto de um viaduto por um grupo de homens. A partir daí, a história conta em retrospecto os eventos que antecederam o macabro gesto.

Heli (Armando Espitia) é um rapaz que mora com a mulher e o filho bebê na mesma casa que seu pai e sua irmã adolescente, em uma cidadezinha mexicana. Os dois homens trabalham em uma fábrica de carros, enquanto a menina Estela (Andrea Vergara), mal saída da infância, vai à escola e resiste ao assédio do namorado, o recruta Beto (Juan Eduardo Palacios).

Ao esconder na casa de Estela parte da droga que seus colegas militares desviaram em uma operação de combate ao tráfico, o cadete precipita uma tragédia que literalmente invade o lar da família de Heli.

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