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A solidão urbana, um grande tema contemporâneo, no bom filme brasileiro "O Homem das Multidões"

31 de julho de 2014 0

Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos autores mais adaptados para o cinema. Entre as dezenas de longas-metragens que inspirou, contudo, pouca coisa se aproxima da versão de Cao Guimarães e Marcelo Gomes para seu conto O Homem das Multidões.

Com estreia nesta quinta-feira no país, o filme encerra a Trilogia da Solidão, que Cao iniciou com os ótimos documentários Alma do Osso (2004), sobre um ermitão que vive numa caverna no interior mineiro, e Andarilho (2007), sobre homens que vivem em estradas daquele Estado.

>> Leia mais: 10 filmes contemporâneos (ou nem tanto) sobre solidão

– Desta vez, minha ideia era fazer algo diferente, um drama urbano – explicou Cao, na pré-estreia do longa em Porto Alegre, semana passada. – Por isso chamei o Marcelo (pernambucano, diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus e Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, este último em parceria com o cearense Karim Aïnouz).

De fato, a solidão de Juvenal, o “homem das multidões” (Paulo André), é distinta daquelas vistas nos dois títulos anteriores da trilogia. Condutor de trens no metrô de Belo Horizonte e morador de uma sala do segundo andar de um prédio comercial do centro da cidade, ele vive cercado de gente. Muita gente. Mas quase não interage com ninguém. Diferentemente de sua colega de trabalho Margô (Sílvia Lourenço), que é obcecada por se relacionar com os outros – só que virtualmente.

Juvenal gosta de estar perto das pessoas, mas não de falar com elas. Margô gosta das relações interpessoais – seu problema é o encontro físico. O que interessa a Cao e Marcelo é o entendimento entre os dois. Ou a falta disso.

– A mim parece que os dois não se compreendem – comenta o mineiro Cao.

– Sim. Mas há uma identificação, algo que os aproxima mesmo assim – responde Marcelo.

Um aspecto formal chama a atenção em O Homem das Multidões: o formato da tela – a janela, para usar um termo técnico. Trata-se de um filme “quadrado”.

– É o primeiro longa-Instagram – brinca Cao.

O belo trabalho de composição dos quadros e captação do som ambiente faz com que aquilo que não é mostrado, sobretudo o que parece estar ao lado, no limite externo da tela, também seja absorvido pelo espectador. De uma maneira não usual, claro.

– É uma provocação. Enquanto outras artes já explodiram seus suportes tradicionais, o cinema segue com aquela tela horizontalizada padrão. Por que não pode ser diferente? – pergunta Cao.

A caprichada fotografia de tons pastéis também cumpre função interessante, à medida que permite que se destaquem elementos da cenografia que dizem muito sobre a vida dos personagens. Em sua maioria, esses elementos nada têm a ver com Poe e o texto original – as personalidades de Juvenal e Margô foram moldadas a partir de entrevistas com solitários em geral, que os dois cineastas realizaram e que cogitam reunir posteriormente em um documentário.

Este é outro aspecto notável de O Homem das Multidões: a complexa composição de dois grandes personagens que têm muito a dizer sobre um dos principais temas do universo contemporâneo.

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