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Petardo político (e estético): "Riocorrente" é um filme difícil, mas necessário. E imperdível

31 de julho de 2014 0

Riocorrente é um filme difícil, com distribuição restrita, que não estabelece bom diálogo com o espectador mais acomodado. Mas é daqueles títulos que deveriam ser vistos por todos. Poucas obras de arte estão tão sintonizadas com seu tempo quanto o longa de Paulo Sacramento, que estreia nesta quinta-feira em Porto Alegre.

riocorrente

 

Um fiapo de dramaturgia une quatro personagens que moram em uma São Paulo onírica, mas inapelavelmente familiar a quem vive em qualquer cidade grande brasileira: um ex-ladrão de carros (Lee Taylor), um menino de rua que este protege (Vinícius dos Anjos), um jornalista cultural (Roberto Audio) e uma garota inquieta (Simone Iliescu) que mantém um caso com os dois homens. Ela provoca ambos os amantes, exercendo seu poder de influência para aplacar a virulência de um e despertar o outro da inércia.

Diretor do potente documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (2002), montador e produtor de filmes importantes como A Concepção (2005) e Encarnação do Demônio (2007), Sacramento parte dessa premissa para construir uma narrativa livre das lógicas convencionais – a linearidade dos fatos incluída. Empilha metáforas sobre o estado de coisas, a maior parte delas relacionadas ao fogo, como se dissesse que basta uma fagulha para a cidade explodir.

– O cinema político mudou – afirma o cineasta. – Não há mais lugar para a arte que vê o mundo de maneira maniqueísta. Mocinhos e bandidos não estão mais bem definidos. Em vez de ser afirmativo, optei pelo simbolismo. Acredito mais na arte que te pega pelo sentimento do que pelo discurso propriamente dito, embora este seja um tipo de discurso.

Acompanhando a rotina dos personagens, o espectador vê performances de ícones cult da pauliceia, como a Patife Band, acompanha uma entrevista com o artista plástico Marcelo Grassmann e um show de Arnaldo Baptista que serve como uma espécie de sessão de descarrego – ou injeção de ternura para resgatar a sensibilidade escondida nas feras que encaram a selva urbana no dia a dia.

– Todos são levados ao limite em seu cotidiano. Para mim, até mais do que a mulher, quem mostra por onde recomeçar, quem abre os caminhos, é o menino. É por isso que ele se chama Exu – explica Sacramento.

De fato, no grande painel de angústias urbanas que é Riocorrente (expressão derivada de James Joyce), as aparições da criança antecedem muitos dos momentos mais explosivos, por assim dizer. No início, Exu aparece pondo para fora sua inconformidade riscando carros aleatoriamente. Ao fim, bem, você tem de ver o filme, que o desfecho guarda um de seus momentos de maior impacto e riqueza de significados.

Riocorrente é o Antes que Tu Conte Outra (o disco da Apanhador Só) do cinema: não espere facilidades, encontre um choque de realidade vestido de grande arte.

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