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O delicioso filme-testamento de Alain Resnais

04 de setembro de 2014 0

Dias antes de morrer, Alain Resnais ganhou, no Festival de Berlim, o Prêmio Alfred Bauer, concedido a produções marcadas pela inovação artística. Isso em fevereiro passado. Aos 91 anos. O filme pelo qual o cineasta francês recebeu o troféu era Amar, Beber e Cantar, uma das gemas mais preciosas da fase de reinvenção que, cheio de disposição, ele vivenciou neste século 21. O longa, último da carreira desse mestre da linguagem, pode ser visto a partir desta quinta-feira no Guion Center e no GNC Moinhos, em Porto Alegre.

Com ótimo elenco, liderado por sua mulher e musa Sabine Azéma, Amar, Beber e Cantar é um filme leve e colorido, mas muito sofisticado tanto em sua construção narrativa quanto na iconografia revelada pelos cenários expressionistas. Tudo se passa nos jardins de algumas residências, nos quais três casais ensaiam uma peça teatral e, ao mesmo tempo, expõem dramas pessoais. Falso ou verdadeiro, real ou simulacro – a dúvida que perpassa outros filmes do realizador, aqui, está no centro de suas reflexões.

O Resnais da maturidade é um discípulo do filósofo Jean Baudrillard (que lançou o conceito de simulacro nos anos 1980), mas qualquer definição soa limitadora perto da complexidade de seu trabalho. Desenhos intercalados com a ação propriamente dita fortalecem a impressão de realidade simulada, ou, no mínimo, reconstruída. Cortinas com cortes retangulares delimitam a cena, prenunciando a referência ao expressionismo alemão dos anos 1920, evidente ao final, quando enfim a ação se transfere para os ambientes internos de suas casas.

Mas o principal tema do filme é o fim – e como reagimos diante dele. Os conflitos entre os casais são despertados pela notícia da morte iminente de um amigo. Preste atenção em como a ideia da perda de alguém querido impacta especialmente o trio de mulheres (composto ainda por Caroline Sihol e Sandrine Kiberlain). Há muita ironia no comentário sobre comiseração e os caminhos do afeto nesse contexto, potencializada pela chegada de uma personagem jovem em suas sequências finais (não vamos falar muito dela para não estragar a fruição, ok?). Por óbvio, o luto da garota é bem diferente do luto dos mais velhos.

Trata-se de um testamento à altura das grandes revoluções de Alain Resnais.

TOP 10
Filmes essenciais de Alain Resnais (1922 – 2014)

Noite e Neblina (1955)
Documentário de 32 minutos, é considerado um dos primeiros filmes fundamentais sobre o Holocausto.

Hiroshima Meu Amor (1959)
Obra-prima escrita por Marguerite Duras sobre a fragmentação da memória a partir do encontro de uma francesa com um japonês. É considerada inovadora em sua narrativa constituída de flashbacks.

O Ano Passado em Marienbad (1961)
Em parceria com o escritor Alain Robbe-Grillet, Resnais construiu um filme ainda mais radical em sua narrativa não linear sobre a passagem do tempo a partir dos acontecimentos em um grande hotel.

Muriel (1963)
O diretor segue sua pesquisa sobre a construção do presente a partir do passado – e, aqui, de fantasmas de guerra como a travada à época na Argélia.

Providence (1977)
A imaginação de um escritor é o ponto de partida para Resnais explorar o embaralhamento entre vivência e construção ficcional. Roteiro de David Mercer.

Meu Tio da América (1980)
Três personagens têm a vida examinada por cientista que quer comprovar teoria sobre a interferência do ambiente na formação da personalidade.

Amores Parisienses (1997)
Um dos filmes mais descontraídos do mestre, reúne grande elenco para adaptar alguns de seus temas preferidos (história, memória, suposições, acaso) a uma ciranda amorosa na capital francesa.

Medos Privados em Lugares Públicos (2006)
Em uma Paris colorida, porém fria, pessoas buscam o amor. É o mais icônico dos longas com os quais Resnais se reinventou, depois dos 80 anos de idade.

Ervas Daninhas (2009)
Não falta humor a este ensaio sobre o desejo – e seus contratempos, referenciados desde o título.

Vocês Ainda Não Viram Nada! (2012)
A morte de um autor de teatro faz com que atores de suas peças se reúnam para homenageá-lo, em um dos filmes mais teatrais de toda a carreira de Resnais – tanto quanto este Amar, Beber e Cantar.

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