Saíram os concorrentes ao Leão de Ouro na 67ª edição do Festival de Veneza, o mais antigo entre os grandes festivais europeus de cinema, que em 2010 será realizado de 1º a 11 de setembro.
Algumas primeiras constatações sobre a lista que você pode espiar abaixo: a pequena quantidade de títulos provenientes do Oriente (há apenas dois japoneses e um vietnamita), que vinham ocupando espaço mais privilegiado nos anos anteriores, a presença do novo François Ozon, um dos principais diretores franceses que havia lançado seus dois últimos filmes (Angel e Ricky) no Festival de Berlim, a participação latino-americana resumida a um único longa, do chileno Pablo Larraín (do ótimo Tony Manero), e a grande quantidade de longas norte-americanos (são seis, com destaque para os novos Vincent Gallo, Julian Schnabel e, principalmente, o aguardadíssimo Somewhere, de Sofia Coppola). Diretores europeus tão diferentes quanto o espanhol Alex de la Iglesia, o alemão Tom Tykwer e o franco-tunisiano Abdelattif Kechiche (do recente e muito elogiado O Segredo do Grão) completam a lista.
Dois dos títulos que mais devem chamar a atenção em Veneza, no entanto, estão entre aqueles que serão exibidos fora de competição - o de abertura, Black Swan, estrelado por Natalie Portman e dirigido por Darren Aronofsky, sobre o qual você lê aqui, e o tal documentário I’m Still Here - The Lost Year of Joaquin Phoenix, em que o ator Casey Affleck conta o que andou acontecendo com o genial Joaquin Phoenix desde que ele anunciou sua “aposentadoria” precoce após estrelar o excelente Amantes, de James Gray (2008).
Confesso que este último, por toda a polêmica que o envolve, do afastamento de Phoenix até suas atitudes estranhas, das entrevistas absurdas às músicas que lançou como rapper, é um dos filmes pelos quais eu mais espero - ainda que desconfie de que seja um dos que menos têm a dizer.
Enfim, à lista dos postulantes ao Leão de Ouro:
Black Swan, de Darren Aronofsky (EUA) – filme de abertura La Pecora Nera, de Ascanio Celestini (Itália) Somewhere, de Sofia Coppola (EUA) Happy Few, de Antony Cordier (França) La Solitudine dei Numeri Primi, de Saverio Costanzo (ITA/ALE/FRA) Silent Souls, de Aleksei Fedorchenko (Rússia) Promises Written in Water, de Vincent Gallo (EUA) Road to Nowhere, de Monte Hellman (EUA) Balada Triste de Trompeta, de Alex de la Iglesia (ESP/FRA) Venus Noire, de Abdellatif Kechiche (França) Post Mortem, de Pablo Larrain (Chile/México/Alemanha) Barney’s Version, de Richard J. Lewis (Canadá/Itália) Noi Credevamo, de Mario Martone (ITA/FRA) La Passione, de Carlo Mazzacurati (Itália) 13 Assassins, de Takashi Miike (Japão/EUA) Potiche, de François Ozon (França) Meek’s Cutoff, de Kelly Reichardt (EUA) Miral, de Julian Schnabel (EUA/FRA/ITA/ISR) Norwegian Wood, de Tran Anh Hung (Japão) Attenberg, de Athina Rachel Tsangari (Grécia) Detective Dee and the Mystery of Phantom Flame, de Tsui Hark (China) Drei, Tom Tykwer (Alemanha)
Taí, liberado neste fim de semana, ainda sem legendas, o primeiro trailer de Let me In. A refilmagem de Deixa Ela Entrar, longa de vampiros produzido na Suécia com a assinatura do diretor Tomas Alfredson e que está entre os melhores filmes dos últimos anos, chega aos cinemas dos EUA em outubro - no Brasil, nenhum sinal sobre uma possível estreia no circuito.
Não, não se deve esperar nada deste projeto, assim como de todas as outras refilmagens hollywoodianas de trabalhos bem-sucedidos vindos de países de cinematografia periférica, a exemplo do espanhol Rec. A curiosidade, aqui, se deve ao fato de o original ser uma obra-prima, e de o novo longa carregar a assinatura de Matt Reeves, o cineasta por trás de Cloverfield - Monstro.
Mais: Let me In terá como protagonista, ou seja, como a pequena vampira que faz amizade com um menino que sofre bullying na escola, a jovem promessa Chloe Moretz, que antes interpretara a garotinha de (500) Dias com Ela e a hit-girl de Kick-Ass. O garoto Kodi Smit-McPhee, de A Estrada, e Richard Jenkins, de Queime Depois de Ler e O Visitante, pelo qual fora indicado ao Oscar, também estão na linha de frente do elenco.
O novo e promissor filme de Darren Aronofsky, o primeiro depois do espetacular O Lutador (2008), foi o escolhido para abrir o Festival de Veneza, em setembro. Diretor de Réquiem para um Sonho (2000), Aronofsky foi o vencedor do Leão de Ouro dois anos atrás com o sensível filme sobre a decadência do personagem praticante de luta livre interpretado por Mickey Rourke. Black Swan, longa com o qual vai voltar ao evento na cidade italiana, é o projeto autoral ao qual ele se dedica atualmente - além dele, também foi cooptado pela MGM para capitanear o novo Robocop, que tem estreia prevista para 2011, e planeja a realização de The Tiger, drama que deverá ser estrelado por Mark Wahlberg.
Mas vamos nos concentrar em Black Swan (”cisne negro”, em tradução livre). É que o longa vem sendo badalado há algum tempo por conta de uma sequência de sexo entre a protagonista, a linda Natalie Portman, e a sua pupila no mundo da dança, interpretada pela atriz Mila Kunis. Sim, Natalie vive uma bailarina veterana que mantém uma relação, pelo que se pode deduzir, profissional e também pessoal com uma dançaria mais jovem. A sinopse oficial indica que elas ficariam rivais, e a polêmica aumentou quando a produção espalhou que a tal cena quente seria de “sexo agressivo e violento, induzido por ecstasy”.
Vindo de Aronosky, que nos filmes citados aborda de maneira amoral e bastante inteligente as faces mais obscuras do comportamento humano, a alta expectativa depositada no projeto está plenamente justificada. Black Swan ainda tem no elenco Winona Ryder, Vincent Cassel e Barbara Hershey. Abaixo, as duas bailarinas em cena:
Aclamado pela crítica internacional, polêmico na França, O Profeta, de Jacques Audiard, finalmente entra em cartaz nesta sexta-feira (23/07) em Porto Alegre. O sensacional longa estrelado por Tahar Rahim e vencedor de nove prêmios César e do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, entre outras distinções, está apresentado nesta matéria aqui. Abaixo você vê o trailer e lê uma rápida crítica que complementa esse texto:
Malik El Djebena é um novo tipo de gângster, defende Jacques Audiard ao justificar o título de seu grande filme. Um profeta. Um gângster que como Michael Corleone d’O Poderoso Chefão não pôde resistir aos apelos do crime organizado, que como Henry Hill d’Os Bons Companheiros construiu sua trajetória graças à superação pessoal, que como John Dillinger e Clyde Barrow almeja mais que tudo a sensação de poder – um gângster que traz em sua composição ecos dos maiores personagens do gênero criado em Hollywood. Muito além disso, no entanto, um gângster forjado num ambiente de conflitos étnicos, que precisa agir não só conforme as noções de honra e família que o cinema norte-americano sempre explorou, mas também segundo os princípios filosófico-religiosos que se aproximaram e entraram em choque no mundo globalizado.
Se no recente Entre os Muros da Escola o diretor Laurent Cantet usou a sala de aula como metáfora dessa sociedade em estado de tensão, em O Profeta Audiard fez da prisão o seu simulacro, com seus conflitos forjados à base de preconceito e intolerância. Órfão e analfabeto, Malik só ascende entre as organizações criminosas por compreender essa realidade com exatidão. O ator Tahar Rahim está nada menos que genial: trabalhando num registro naturalista, transmite emoções máximas com movimentos mínimos. Sua expressão carrega timidez e desajuste, mas também a coragem e a perspicácia que dão verossimilhança à história e, mais que isso, envolvem o espectador. O protagonista tem uma inteligência instintiva difícil de se mostrar e ser absorvida por quem vê o filme – a não ser que haja muito talento em cena.
E não é só ele. Uma das qualidades do trabalho de Audiard é impor uniformidade às atuações e conjugar de maneira competente as inúmeras subtramas que cercam Malik – todos os personagens são complexos e a forma com que eles interagem é tão interessante que mesmo um universo difícil como esse se abre de maneira clara para o público. A atmosfera criada pelo cineasta é notável também pela fotografia que se molda a partir de cores frias, como os tons de um cinza azulado representativo da falta de horizontes para aqueles homens.
O Profeta é extremamente violento, mas aposta numa fórmula anti-espetacular para evidenciar essa violência. Três sequências são desde já históricas pela crueza com que se apresentam: aquela em que Malik sofre após ser agredido no olho por Luciani (Niels Arestrup), a do assassinato cometido pelo protagonista com uma lâmina de barbear e a do tiroteio nas ruas de Paris. Audiard chegou a ser acusado pelos fundamentalistas do cinema francês de incorporar procedimentos típicos de Hollywood ao seu filme (leia abaixo), que de fato é clássico em sua narrativa e na decupagem de muitas cenas, mas esses três pontos-chave da trama são marcados, além do virtuosismo da montagem, pela inventividade formal – nas tomadas a partir do ponto de vista do jovem com a visão limitada, por exemplo, há um efeito de limitação do campo da imagem inspirado no cinema mudo.
O impacto de O Profeta está na força dessas imagens e igualmente naquilo que elas apenas sugerem, dos silêncios dos personagens às elipses inseridas com habilidade em meio à narração dos fatos. Pode-se dizer que o italiano Gomorra, que Matteo Garrone lançou em 2008, já retratara as organizações criminosas usando armas próprias, e não só as difundidas pelo cinema dos EUA, mas, aqui, há um requinte visual e narrativo superior. A trilha sonora de Alexandre Desplat, que articula com destreza uma música incidental transcendente com ritmos contemporâneos como o rap e a introdução d’A Ópera dos Três Vinténs, de Brecht e Kurt Weill, também deixa claro: estamos diante de um filme de inspiração e qualidades raras. Imperdível.
Um fenômeno como o de Cidade de Deus
Consagrado pela crítica internacional desde a sua exibição em Cannes, O Profeta provocou na França, seu país de origem, polêmica semelhante à que cercou Cidade de Deus em 2002. O filme de Fernando Meirelles foi aplaudido em vários continentes e acabou se tornando a produção nacional mais vista fora do Brasil. Em casa, sobretudo nos meios acadêmicos, no entanto, foi acusado de “estetizar” a pobreza e a violência nas favelas.
Substitua o crime organizado que invadiu os morros cariocas por aquele que se propaga nos subúrbios das cidades francesas e você estará falando do longa de Audiard. Referência da crítica cinematográfica mundial, a revista Cahiers du Cinéma puxou a fila questionando os procedimentos éticos de aproximação do diretor do universo de seus personagens, além de acusá-lo de ter “se americanizado” – algo próximo ao que Meirelles ouviu por aqui.
Contudo, tal qual Cidade de Deus, O Profeta também angariou ferrenhos defensores em seu país. Além de inúmeras resenhas positivas, que ajudaram a criar a contradição e alimentar a polêmica em torno dos filmes, ambos ganharam seus respectivos “Oscars” nacionais, o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e o César francês – do qual a produção de Jacques Audiard saiu vencedora em nove categorias no ano passado, incluindo melhor filme, direção, ator, roteiro, fotografia e montagem.
Talvez o mais curioso nisso tudo é que, no Exterior, ainda que incorporando referências de diversas procedências, tanto Cidade de Deus quanto O Profeta são identificados como expressões genuínas de sua cultura original. Mais que isso, ambos oferecem um retrato aprofundado da sociedade que se propõem a examinar – a brasileira e a francesa –, inclusive servindo de veículo de denúncia de problemas que essa sociedade apresenta.
Taí, acima, o primeiro teaser de Bruna Surfistinha, divulgado pela Imagem Filmes. O que chama a atenção, além das imagens de Deborah Secco seminua (o que faz parte do pacote pra te levar ao cinema): a música do Cansei de Ser Sexy, perfeitamente no clima do filme, a mudança de visual da protagonista, visível em suas várias aparições durante este minuto e pouco, e a presença destacada de Drica Moraes, atriz que acaba de passar por um transplante de medula óssea como parte do tratamento para uma leucemia. O longa dirigido por Marcus Bandini e que ainda conta no elenco com Casio Gabus Mendes, Cris Lago e Fabíula Nascimento tem estreia nacional prevista para 25 de fevereiro de 2011.
Pode ser legal - se for menos moralista e medroso do que se espera de um filme brasileiro que almeja dialogar com o grande público.
Saiu a lista dos longas selecionados para o 38º Festival de Gramado. A relação completa dos 14 filmes, sete brasileiros e sete estrangeiros, você le aqui. Abaixo, algumas curiosidades sobre as seleções elaboradas por José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, a dupla de curadores.
> O sucesso surpreendente de Bezerra de Menezes e a multidão arrastada aos cinemas para ver o mais recente Chico Xavierde algum modo respingou em Gramado 2010. Ao menos dois documentários selecionados dialogam com esse novo filão da produção nacional: O Último Romance de Balzac, de Geraldo Sarno, que narra a história de um livro que o grande autor francês teria psicografado para um discípulo do médium, e O Contestado - Restos Mortais(foto abaixo), de Sylvio Back, que também utiliza relatos obtidos por meio de psicografia para falar da revolta ocorrida entre Santa Catarina e Paraná no início do século 20.
> Na coletiva de apresentação dos filmes concorrentes aos Kikitos, na manhã de hoje, a produtora gaúcha Aletéia Selonk perguntou a Avellar sobre os filmes que integrarão uma mostra paralela, à tarde, e receberão prêmios entregues por um júri formado por estudantes de cinema. A resposta do curador deu a entender que essa mostra será formada em grande parte por títulos que acabaram excluídos da mostra competitiva, aí incluídos três gaúchos, o musical Espia Só, de Saturnino Rocha, o documentário Walachai, de Rejane Zilles, e o drama A Última Estrada da Praia, de Fabiano de Souza. Este último é desde já um candidato a repetir outra produção local em 2009, Morro do Céu, de Gustavo Spolidoro, belo documentário sobre o qual só restava uma pergunta após a sua exibição: por que raios este filme não integra a mostra competitiva?
> Chama a atenção, entre os longas estrangeiros - todos os sete são latino-americanos, mantendo a tradição do festival desde o início dos anos 1990 -, a presença de um longa argentino coproduzido com o Brasil. No caso, com a Panda Filmes, de Porto Alegre. É La Vieja de Atras (foto acima), filme de Pablo José Meza, conhecido por aqui graças ao seu longa Buenos Aires 100km, lançado originalmente em 2004 e que foi exibido no Brasil. Pela qualidade desse trabalho, La Vieja de Atras promete. O filme tem no elenco os argentinos Martín Piroyansky e Adriana Aizenberg e o gaúcho Rafael Sieg.
> Ainda entre os latinos: há um filme da Nicarágua, cinematografia praticamente desconhecida no Brasil (La Yuma, de Florence Jaugey) e também outro título que tem relação com o Rio Grande do Sul: o documentário uruguaio Ojos Bien Abiertos: Un Viaje por la Sudamérica de Hoy, (foto acima) de Gonzalo Arijon. Título de caráter político, este longa documenta, em sua viagem pelo continente, o Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre. Algo na linha do que tem feito o argentino Fernando Solanas - com muito menos grife.
> Com relação aos brasileiros, embora haja os longas dos veteranos diretores Geraldo Sarno (de Viva Caririe Casa Grande e Senzala) e Sylvio Back (de Aleluia Gretchen e Lost Zweig), pode-se dizer que também não há filmes de realizadores mais conhecidos do público - de nenhuma geração. O chileno radicado no Brasil Jorge Durán é um roteirista reconhecido (assinou o texto do clássico Pixote - A Lei do Mais Fraco, de Héctor Babenco), e dirigiu recentemente É Proibido Proibir. Chega a Gramado com Não se Pode Viver sem Amor (foto acima), com Cauã Raymond, Angelo Antônio e Simone Spoladore.
> Enquanto a Noite Não Vem (foto acima), que Beto Souza e Renato Falcão realizaram a partir da obra homônima de Josué Guimarães, foi rodado com câmeras e equipamento 4k - tecnologia avançada com o dobro da resolução, por exemplo, do sistema de alta resolução HD (2k), que por si só já era revolucionário pois dava ao vídeo digital qualidade equivalente à película em sal de prata. O longa foi exibido no File, o festival paulista de linguagem eletrônica, no ano passado, em uma experiência que chamou a atenção de profissionais que trabalham com novas tecnologias de captação. Foi o primeiro filme brasileiro rodado em 4k.
Entre as sessões hors-concours, destaque, além do filme de Fabiano de Souza, para Dois Irmãos, do consagrado diretor argentino Daniel Burman, e para os brasileiros Eis Isto, de Cao Guimarães, Bróder, de Jeferson De, e para o longa coletivo 5x Favela - Agora por Nós Mesmos.
Mais sobre os filmes selecionados e a edição 2010 do festival você lê na edição desta terça-feira (20/07) do Segundo Caderno.
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O título deste post é o mesmo de um livro sobre o qual você pode ler, em inglês, aqui. Ele não foi lançado no Brasil, então vou caprichar na livre tradução: “filmes ruins que nós amamos”.
Foi nessa expressão que fiquei pensando a respeito de À Prova de Morte, filme do Tarantino lançado em 2007 mas que finalmente agora estreia no Brasil. É ótimo. Talvez, por ter deixado essa sensação de “filme perdido do grande diretor”, pareça ainda melhor. Vê-lo nos provoca aquela sensação da descoberta de algo que não deveria estar perdido. “Como é que isso aqui pôde ficar esquecido?”. Algo assim.
Pensei no livro porque ele lista filmes ruins como aqueles que Tarantino ama - e homenageia em À Prova de Morte. Sempre achei o diretor de Pulp Fiction e Kill Bill um eterno adolescente, por sua vontade de subversão das convenções, por suas obsessões como essa diante daquilo que o senso comum considera de nível baixo. Talvez nenhum outro dos longas que ele assinou desde 1992, quando estreou na direção com Cães de Aluguel, exemplifique tão bem essa ideia.
O material abaixo, que compila e acrescenta um pouco ao que saiu na edição impressa de ZH, aprofunda isso que quero dizer sobre o mestre.
Tarantino faz o péssimo virar ótimo
Estranha ironia que tenha sucedido logo com Tarantino, um realizador especialista em reciclar produtos culturais perdidos no tempo: À Prova de Morte (2007) precisou ser resgatado do limbo (leia abaixo) para finalmente poder ser apreciado pelo público brasileiro. Incompreensível que tenha se passado justamente com esta preciosidade, um filmaço que só não está entre as suas obras-primas porque talvez nem o cineasta o leve tão a sério - o que, paradoxalmente, acaba sendo uma das razões de seu encanto.
Já virou chavão, especialmente em se tratando de uma homenagem a um gênero específico - no caso, os filmes tipo exploitation, ou seja, produções baratas que exploram sexo, violência e horror -, dizer que o diretor não se limita a reproduzir seus procedimentos-padrão. Tarantino é um baita de um autor, que reafirma um estilo próprio a cada filme, mesmo que trabalhando sobre signos amplamente conhecidos. Aqui chega a inserir propositalmente problemas usuais daqueles longas, como ruídos e sujeiras sobre a película, cortes toscos e inclusive malfeitos. Não abre mão, no entanto, de atualizá-los, seja pela inserção de cenas em que personagens trocam mensagens por celular ou usam gírias típicas da contemporaneidade, deixando claro que o retrato é de tipos contemporâneos.
A questão, no entanto, é outra. À Prova de Morte é o trabalho que radicaliza uma ideia de cinema afirmada desde a sua estreia, com Cães de Aluguel (1992): a de que é possível atingir a grande arte sem falar dos mais importantes temas da humanidade, como fez Bergman, ou reinventar a própria linguagem, como fez Godard. A fruição se dá num âmbito muito mais primitivo, mas, não é exagero dizer, é tão prazerosa quanto aquela proporcionada pelos clássicos.
É de fato paradoxal: poucas vezes o realizador de Kill Bill (2003/04) foi tão infantiloide. Aqueles longos diálogos nonsense de Pulp Fiction (1994) parecem maximizados em À Prova de Morte. Crescem em duração e, às vezes, têm ainda menos função dramática - mas o espectador é capaz de implorar para que não terminem jamais. As cenas de ação, sobretudo as de perseguição e acidentes automobilísticos, são apresentadas em detalhes impressionantes. Tiram o fôlego tanto pelo excitamento da velocidade quanto pelo choque das imagens das batidas - a principal delas, narrada num faux-raccord (falsa continuidade de montagem) que repete a cena pela visão de cada uma das vítimas, é uma das melhores da história do cinema.
A própria trama segue a máxima do “é ruim mas é bom”. Tarantino narra duas ações do serial killer conhecido como Dublê Mike, que mata belas garotas usando seu carrão turbinado. Na primeira, em que predomina a tensão, ele é bem-sucedido. Na segunda, que é pura ação, as mulheres, antes focadas como verdadeiros objetos sexuais, reagem e demonstram sua força - algo que, na sua obra, aparece com frequência desde Jackie Brown (1997). A moral do cineasta é a da insubordinação. Da subversão. De gostos musicais e cinematográficos, das relações pessoais, da própria História - como se viu na alteração do resultado da II Guerra em Bastardos Inglórios (2009). É um jeito adolescente de produzir, imaturo, inconsequente, raro e verdadeiro deleite para o espectador. Longa vida a ele.
A fórmula Tarantino À Prova de Morte reafirma algumas características básicas da obra do diretor, produtor e roteirista. Confira algumas delas:
Carrões
Já foram vistos em Pulp Fiction (1994), Jackie Brown (1997) e no díptico Kill Bill (2003/04), mas em À Prova de Morte são quase personagens da história. É com eles que o protagonista Dublê Mike (Kurt Russel) aterroriza as belas garotas que cruzam seu caminho. Na perseguição final, entre sua Chevy Nova negra e um Dodge Challenger branco, até as cores dos carros são provocações sobre os conceitos de bem e mal.
Poder feminino
Em Jackie Brown e Kill Bill, Tarantino construíra histórias de exaltação da força das mulheres. Agora, sua moral é a da vingança delas para com os homens. Ela está simbolizada na reação das belas e aparentemente frágeis garotas que, de vítimas, passam a ser algozes do machão que vivia para assassiná-las - e livrava-se impunemente de qualquer possibilidade de punição.
Pés e outros fetiches
Em todos os seus longas, Tarantino exercita fetiches de forma irrestrita - por filmes, músicas, objetos como discos de vinil, pela própria cultura pop. Quando filma suas musas, abusa dos planos de seus pés. Os de Uma Thurman ficaram famosos após Kill Bill. Os de Vanessa Ferlito e Rosario Dawson são postos em destaque em longas tomadas neste À Prova de Morte. Elas são duas estrelas do grande e minuciosamente selecionado elenco feminino do longa.
Músicas esquecidas
Como de hábito, a trilha sonora é uma atração à parte, com o resgate de várias pérolas perdidas do passado. Em À Prova de Morte, há temas incidentais de filmes B, o recorrente tributo a Ennio Morricone, diálogos espirituosos do filme, faixas de nomes conhecidos como T. Rex (Jeepster) e hits fugazes dos anos 1960, como Hold Tight!, da banda Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick and Tich.
Astros em baixa
Em Pulp Fiction, foi John Travolta. Em Jackie Brown, Pam Grier. Agora,Tarantino escalou como protagonista outro astro que até então estava em baixa em Hollywood. Kurt Russell viveu sua melhor fase nos anos 1980, em filmes como Fuga de Nova York. De volta aos holofotes pelas mãos de um diretor cultuado, o ator, no entanto, parece cauteloso: seus próximos longas devem sair só em 2011.
Exaltação dos anos 1970
Tarantino ama o cinema e faz de alguns capítulos de sua história não só referências, mas momentos merecedores de adoração. Os principais exemplos estão na década de 1970, ressuscitados em filmes daquele tempo e naquilo que representaram para a cultura pop. Em À Prova de Morte, há diálogos que lembram uma porção dessas produções. Corrida contra o Destino (Vanishing Point, 1971), de Richard Sarafian, é reverenciado pelas personagens.
Artes marciais + Westers spaghettis
O cinema oriental, sobretudo o de artes marciais, e o italiano, principalmente o western spaghetti, são reciclados em quase todos os seus trabalhos. À Prova de Morte é uma homenagem aos títulos trash de estética “exploitation” (que exploram sexo, violência e horror) exibidos nos drive-in em sessões duplas, nos anos de 1970. Tanto que foi concebido como um díptico, junto ao já lançado Planeta Terror, filme de zumbis de Robert Rodriguez, no projeto batizado Grindhouse.
Autorreferências
Nem sempre Tarantino abusou delas como fez neste longa. Aqui, uma música de Kill Bill virou toque de celular, o carro e as roupas amarelas de Uma Thurman no mesmo filme são inspiração para o figurino da personagem de Mary Elizabeth Winstead, uma das tantas belas de À Prova de Morte. E o próprio diretor é ator de seu filme, como já fizera, por exemplo, em Cães de Aluguel (1992). Mais: quando entrarem em cena o xerife e seu filho, você vai lembrar deles - são os mesmos de Kill Bill. E uma última: Zoe Bell, que interpreta uma das figuras mais marcantes em À Prova de Morte, foi a dublê de Uma Thurmann no mesmo filme. Tarantino gostou tanto dela que a incorporou neste longa, que acaba sendo uma homenagem aos dublês no cinema.
À prova de erros de avaliação
À Prova de Morte foi lançado nos EUA em 2007, conforme concebido por Quentin Tarantino e seu parceiro de jornada Robert Rodriguez, diretor de Planeta Terror: os dois títulos formaram um díptico em referência aos programas duplos de filmes Grindhouse (título original do projeto) comumente exibidos nos drive-in.
O público americano não entendeu, e a arrecadação ínfima no país comprometeu sua carreira internacional. Os realizadores então remontaram os dois longas (À Prova de Morte ficou com 10 minutos a mais, ganhando a cena da lap dance de Vanessa Ferlito) para serem lançados em separado no restante do mundo.
No Brasil, o direito de distribui-los foi adquirido pela Europa Filmes, que, no entanto, depois das exibições nos festivais do Rio e de São Paulo, decidiu lançar comercialmente só o longa de zumbis de Rodriguez. O prazo previsto em contrato esgotou e, respaldada pelo sucesso de Bastardos Inglórios (2009), a Playarte adquiriu este ano os direitos do filme de Tarantino e resolveu enfim lançá-lo no mercado brasileiro.
No projeto original, uma série de trailers falsos era exibida entre os dois longas. Um deles, Machete, acabou virando filme nas mãos do próprio Rodriguez e será lançado ainda este ano nos Estados Unidos.
Tarantino, enquanto isso, admitiu que vai continuar a série Kill Bill. Especula-se que o episódio três, que estaria sendo preparado para 2014, teria Julie Dreyfuss, a Sofie Fatale, em destaque. Outros projetos futuros do cineasta são as releituras do clássico B Faster Pussycat, Kill Kill! (1965), de Russ Meyer, sobre garotas strippers que cruzam a Califórnia em carros esportivos cometendo crimes, e do filme de artes marciais Come Drink with me (1966), de King Hu, produção histórica do cinema de Hong Kong dedicado ao gênero.
Se por vezes um filme é o espelho da alma de seu diretor, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974) é exemplo de como esta relação entre criador e criação pode ser plena e vigorosa. Realizado por Sam Peckinpah (1925 – 1984) na curva descendente da carreira, no auge de seu mergulho mais profundo no álcool e sob a ira de ver seu filme anterior – Pat Garrett e Billy The Kid (1973) – mutilado pelos produtores, Peckinpah bateu na mesa. Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, aplaudido e rejeitado à época de seu lançamento pelas mesmas razões, é a síntese do cinema deste grande autor e seu projeto mais pessoal.
Forjado nos faroestes da televisão, o chamado poeta da violência revitalizou o gênero com obras como Meu Ódio Será sua Herança (1969), nas quais acrescentou elementos que contrastavam com a mitologia clássica do western consagrada por, entre outros, John Ford: brutalidade extrema potencializada pelo uso dramático e espetacular da câmera lenta e protagonistas moralmente ambíguos transitando na linha movediça entre o bem e o mal, colocados no limite por uma situação extrema – elementos que se tornaram marcas do diretor em filmes de outros gêneros, como o drama Sob o Domínio do Medo (1971) e o policial Os Implacáveis (1972).
O velho oeste de Peckinpah é um cenário desolado que está desaparecendo às portas do século 20. Seus caubóis são homens vincados pelo tempo que se arrastam para não serem atropelados pela modernidade que chega no galope dos automóveis. Estes dois mundos convivem em Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. É um filme contemporâneo que começa como um faroeste típico. Em uma fazenda mexicana, o chefão pede a cabeça do homem que engravidou sua filha. Em vez de cavalos, os pistoleiros, alguns de terno e gravata, partem em carros. A caçada seduz o pianista de bordel Bennie (Warren Oates), um dos tantos americanos que se refugiam no submundo fronteiriço. De certa forma, é um “artista” entre os brutos. Sempre de óculos escuros, com uma garrafa à mão, entre a ternura e a fúria, como Peckinpah no set e na vida.
Bennie joga-se na missão de forma obstinada. Põe a mão na tal cabeça e passa a arrastá-la em um saco tomado por moscas. O pianista, porém, é levado a uma luta suicida contra o “sistema”. Dinheiro, a horas tantas, depois de muito sangue derramado, não importa mais. Ele quer se vingar e sair de cena com dignidade. Peckinpah sabia que Bennie não tinha como vencer. Mas defendia que, homens como eles, devem morrer tentando.
Not The Messiah é um culto que prega para os já convertidos. Aos que seguem estranhos ao universo de devoção ao Monty Python, antes de apreciar este reencontro do genial grupo humorístico britânico é recomendável conhecer os trabalhos referenciais aqui citados – todos disponíveis em DVD. Trata-se aqui da recriação, na forma de um suntuoso oratório, de A Vida de Brian (1979), filme que fez muita gente rachar o bico nos cinemas com a história do sujeito que nasce no exato instante e a poucos metros de Jesus Cristo, o que o faz ser confundido com o Messias e cumprir um sina épica e hilariante até ser crucificado pelos romanos.
Criado pelo ex-python Eric Idle e encenado pela primeira vez em 2007, Not The Messiah ganhou uma noite de gala em 23 de outubro de 2009, quando fez sua première britânica no Royal Albert Hall, em Londres. A apresentação, registrada no DVD agora disponível no Brasil, integrou a série de homenagens aos 40 anos do Monty Python – o grupo foi apresentado no programa de TV Flying Circus, exibido pela BBC entre 1969 e 1974 – e também lembrou os 30 anos de A Vida de Brian.
Essa noite se tornou memorável pela presença dos três convidados que subiram ao palco com Idle, o maestro e seu habitual colaborador John Du Prez, as quatro vozes solistas e os mais de 200 integrantes da orquestra e do coral da BBC: Michael Palin, Terry Jones e Terry Gilliam – só faltou John Cleese (o sexto integrante do Monty Python, Graham Chapman, morreu em 1989). Palin é o que tem mais presença em cena, interpretando, travestido à Margareth Thatcher, a “narradora” da saga do desafortunado Brian Cohen e revivendo dois célebres personagens: o Pôncio Pilatos que não consegue pronunciar a letra “r”, e um clássico dos tempos do Flying Circus, o lenhador gay que sai do armário durante a canção Lumberjack. Not The Messiah é exemplo dos extremos de humor que o Monty Pyhon combinou de maneira insuperável. É a alta cultura impregnada de referências históricas, políticas, religiosas e filosóficas dialogando como o nonsense e a piada de salão curta e grossa.
A transposição de A Vida de Brian para o musical funciona também pelo fato de que orquestra, coral, solistas e público embarcaram no clima de anarquia que resulta numa performance coletiva – simbolizada no gran finale ao som e assobios de Always Look on the Bright Side of Life, o maior hit musical do Monty Python, que você pode ver no vídeo abaixo. Inspirado na estrutura do oratório O Messias, de Handel, Eric Idle reafirma nesse espetáculo operístico-sinfônico-humorístico o talento musical que sempre exibiu no grupo. Em carreira solo, criou os Rutles, paródia espelhada na mitologia dos Beatles, e o libreto de Spamalot, imenso sucesso da Broadway adaptado de outra incursão do Monty Python no cinema, Em Busca do Cálice Sagrado (1975). O lançamento do DVD é da Sony.
P.S.: Falando nos 40 anos do Monty Python, foi lançado no Brasil outro DVD obrigatório para os fãs, Almost the Truth, documentário sobre a história do grupo. Pena que a versão nacional seja a edição para o cinema, com 116 minutos de duração. A original traz os seis episódios de 60 minutos cada que foram exibidos na BBC, versão que saiu em DVD só lá fora.
Dica do chapa Carlos André, titular do blog Mundo Livro. Alguém com muito tempo livre e tão apaixonado por cinema como nós acaba de prestar um grande e divertido serviço. Compilou cem grandes pitis, chiliques e xingamentos do cinema (em filmes de língua inglesa, o que faz com que mesmo os não muito íntimos do idioma tenham uma ideia do bombardeio verbal). Tem cenas de filmes clássicos como Scarface (o do Brian De Palma), Laranja Mecânica e Os Bons Companheiros. Até mesmo o desenho animado Toy Story estrou na lista. Claro que deve ter faltado algum importante. Lembrou de um? Qual?
O diretor Todd Solondz deixou muita gente desconcertada com Felicidade (1998), filme que dissecava as relações familiares e sociais à luz de temas como solidão e perversões sexuais. O longa, impregnado por um tom de desencanto e por um humor peculiar na sua amargura, consolidou o nome de Solondz entre os grandes nomes do cinema independente americano - ele já havia realizado o bom Bem-Vindo à Casa das Bonecas (1995). É um autor sem meio termo, seus filmes atraem ou provocam repulsa naqueles que nada veem além de manifestos depressivos e amorais sobre a banda podre do ser humano.
Bom, tudo isso pra dizer que tem um filme novo de Solonz a caminho, Life During Wartime, ainda sem previsão de estreia no Brasil, mas com distribuição já assegurada pela Imagem Filmes. E para seus fãs a notícia fica ainda melhor com a informação de que Life During Wartime é uma continuação de Felicidade. Continuação à maneira de Solondz, que fique claro, já que ele retoma personagens com um outro elenco e novas situações, nem todas relacionadas às vistas em Felicidade. A trama mostra o psiquiatra pedófilo Bill (agora vivido por Ciarán Hinds) saindo da cadeia - após cumprir pena de 10 anos por abusar sexualmente de um amiguinho do filho - e vendo o que restou de sua família, estilhaçada pelo escândalo.
Uma curiosidade no elenco de Life During Wartime é a presença de Paul Reubens (na foto acima), ator que ficou famoso nos EUA encarnando o personagem infantil Pee Wee Herman num popular programa de TV e no cinema (dirigido por Tim Burton), até cair em desgraça e ir em cana em 1991, acusado de praticar atos obcenos em local público - em 2002, ele foi acusado de envolvimento com pornografia infantil. Confira o trailer de Life During Wartime (sem legendas).
Violência e sexo eram, naquele começo dos anos 1970, combustíveis autorais para cineastas de diferentes nacionalidades que emergiam no caldeirão da contracultura. Quando estreou, em 1974, o anárquico Corações Loucos (Les Valseuses) provocou tanta polêmica que chegou a ser chamado de versão francesa para Laranja Mecânica (1971), o clássico de Stanley Kubrick. Um exagero, sem dúvida.
Mas ao se assistir, 36 anos depois, ao filme que fez despontar as carreiras do diretor Bertrand Blier e dos atores Gérard Depardieu, Patrick Dewaere e Miou-Miou, pode- se imaginar o impacto por ele provocado à época. Proibido pela censura no Brasil, Corações Loucos só chegaria por aqui no final daquela década. Agora está nas locadoras, em DVD da Lume.
Depardieu e Dewaere vivem os jovens marginais Jean-Claude e Pierrot, que vagam pela França cometendo pequenos roubos e submetendo mulheres a constrangimentos e humilhações sexuais. São tipos mais grosseiros que violentos, já que as vítimas que seduzem e subjugam, para eles, pouca resistência oferecem ao assédio. Após um de seus atrapalhados golpes, os amigos fazem refém Marie-Ange (Miou-Miou). A garota passa a acompanhá-los na jornada sem destino e topa ser reles objeto sexual, mas também exerce nesse ménage à trois um controle psicológico que desafia os brios machistas dos bárbaros bufões.
Não existe propriamente um enredo, mas um ordenamento de episódios que buscam ilustrar o clima libertário da época em tom de farsa cômica, sob uma visão niilista e inconsequente. Diante do vazio existencial em que parte da juventude francesa mergulhou na ressaca do Maio de 68, peitar a sociedade tendo como armas a depravação e a amoralidade parecia ser, para Blier, um caminho viável. Esse contexto, digamos, intelectualizado da transgressão fez com que Corações Loucos não cruzasse a linha entre o filme de arte e o soft pornô em voga à época.
Essa tresloucada gincana é guiada pela trilha original de Stéphane Grappelli e traz duas participações especiais pelo caminho: Jeanne Moreau e então novata Isabelle Hupert, no papel de uma adolescente que vê em Jean, Pierrot e Marie a chance de romper as amarras da repressão familiar. A descontração e intimidade que Gérard Depardieu, Patrick Dewaere e Miou-Miou mostram em cena vinha da convivência deles desde os palcos parisineses, nos quais deram os primeiros passos na carreira. À época, Dewaere e Miou eram namorados - dono de um temperamento instável, ele se matou em 1982, aos 35 anos.
Fatih Akin tem apenas 36 anos, mas a obra que construiu até aqui é sólida como a de poucos cineastas contemporâneos. A mostra em cartaz no Cine Santander representa a chance de conhecê-la na íntegra, para além dos aclamados Contra a Parede (2004) e Do Outro Lado (2007): todos os seus sete longas, alguns nunca lançados no circuito no Brasil, serão exibidos até 27 de junho na sala do centro de Porto Alegre.
Do Outro Lado
Um dos mais de 2,3 milhões de descendentes de turcos que vivem na Alemanha, Akin foi criado em Hamburgo e fez da cidade portuária, a segunda mais populosa do país, um cenário marcante em praticamente todos os seus filmes. É por seus subúrbios, colônias de imigrantes, pubs baratos e despretensiosos negócios familiares que circula a maior parte de seus personagens. Em comum, além de identidades perdidas e um desajuste que é fruto sobretudo da sua inadaptação, eles têm um desejo de liberdade invariavelmente manifestado de maneira extrema.
Soul Kitchen
Mesmo em títulos diferenciados como Soul Kitchen (2009), incursão - não tão bem sucedida - pela comédia que fora exibida este ano nos cinemas em Porto Alegre, seus atores frequentemente extrapolam o registro naturalista, tão à flor da pele estão os sentidos dos homens e mulheres que eles representam. O casal protagonista de Contra a Parede (leia as sinopses abaixo), sua obra-prima, funciona como uma súmula de seu trabalho: a infelicidade dos dois está relacionada ao fato de eles não encontrarem seu lugar no mundo, e a simples perspectiva de vislumbrar uma saída os estimula a ponto de ambos perderem completamente o controle sobre seus atos.
Contra a Parede
Akin escreve e produz os seus longas, incorporando na íntegra a ideia de autoria no cinema. Também faz da trilha sonora elemento fundamental de seus filmes, reunindo da música eletrônica à de caráter folclórico, o que reforça seu caráter global. Junto a realizadores como o franco-argelino Tony Gatliff (de Exílios e Transylvania) e o norte-americano de origem iraniana Ramin Bahrani (Goodbye Solo e Chop Shop), é o cineasta da globalização - na Alemanha, o principal representante de uma onda batizada de Migrantenkino (”cinema de imigração”).
Em Julho - O Outro Lado das Férias
Exercita ele próprio a liberdade, indo do thriller policial (Rápido e Indolor, de 1998) ao documentário musical (Atravessando a Ponte - O Som de Istambul, 2005), da aventura romântica (Em Julho - O Outro Lado das Férias, 2000) ao chamado filme-coral, ou seja, aquele que possui diversos núcleos de personagens de importância equivalente na trama, o que configura uma espécie de painel (Do Outro Lado). Nos últimos seis anos obteve reconhecimento nos três grandes festivais europeus (Cannes, Berlim e Veneza), e agora prepara um título não ficcional sobre a remoção de habitantes de um vilarejo na costa da Turquia que será transformado num lixão, além da última produção da trilogia intitulada Amor, Morte e Demônio, que fora aberta com Contra a Parede e Do Outro Lado.
Dos sete títulos da mostra do Santander, os quatro mais recentes serão projetados em película, e os três mais antigos, a partir de uma matriz em DVD.
OS FILMES
Soul Kitchen (2009, 99min).
Comédia, com Adam Bousdoukos. Jovem dono de restaurante em crise vê seu negócio se reerguer mas segue em crise pessoal desde que sua ex-namorada o abandonou. Prêmio especial do júri no Festival de Veneza. (trailer abaixo)
Do Outro Lado (2007, 120min). Drama, com Nurgül Yesilçay, Baki Davrak e Hanna Schygulla. Um mosaico de personagens que se cruzam de forma inesperada entre a Alemanha e a Turquia. Melhor roteiro no Festival de Cannes e no European Film Award. (trailer abaixo)
Atravessando a Ponte - O Som de Istambul (2005, 90min). Documentário. Alexander Hacke, integrante da banda alemã Einstürzende Neubauten, passeia pelas ruas da capital turca em busca da diversidade da música local.
Contra a Parede (2004, 123min). Drama, com Birol Ünel e Sibel Kekilli. Jovem que quer fugir de sua família conservadora envolve-se com homem impulsivo 20 anos mais velho na Hamburgo contemporânea. Urso de Ouro no Festival de Berlim, entre outros prêmios. (trailer abaixo)
Solino (2002, 124min). Drama, com Christian Tasche e Antonella Attili. A trajetória de imigrantes italianos na Alemanha desde a sua chegada, nos anos 1960, até a ruptura familiar, décadas depois, passando pelos tempos de sucesso nos negócios e felicidade.
Em Julho - O Outro Lado das Férias (2000, 100min). Aventura/Romance, com Moritz Blebtreu. Professor se apaixona por jovem e decide segui-la de Hamburgo a Istambul, levando consigo garota que é apaixonada por ele.
Rápido e Indolor (1998, 100min).
Suspense, com Mehmet Kurtulus, Aleksandar Jovanovic e Adam Bousdoukos. Três imigrantes vindos da Sérvia, da Grécia e da Turquia e com aspirações muito diversas entre si se envolvem com o submundo do crime organizado na Alemanha.
A primeira cena de Maradona por Kusturica (2008) não mostra o craque argentino. Mostra o realizador bósnio fazendo um show em Buenos Aires com sua banda No Smoking e sendo chamado, no palco, de “Maradona do cinema” - o que, para aquela plateia, significa dizer “o maior cineasta do mundo”.
Em seguida, o diretor-narrador apresenta o jogador comparando-o com personagens de seus filmes, como o garoto marginal de Você se Lembra de Dolly Bell (1981) e o atrapalhado cigano protagonista de Gato Preto, Gato Branco (1998), que é ele próprio “o maior inimigo de si mesmo”. Essa sequência sintetiza com precisão o filme que acaba de chegar às locadoras do país - sem ter passado pelas salas de cinema: muito mais que um documentário sobre Diego Maradona, trata-se de um documentário sobre o encontro do craque com Emir Kusturica.
Vencedor de duas Palmas de Ouro no Festival de Cannes - em 1985, por Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, e em 1995, por Underground, Mentiras de Guerra -, o cineasta bate bola com Maradonna, transforma entrevistas em conversas informais nas quais aparece tanto quanto o jogador e, em meio às filmagens, não se constrange em dizer que este será o maior dos filmes sobre ele. Exibe poucos gols e, quando apela a imagens de arquivo, concentra-se em episódios bastante precisos, como o flagra do doping na Copa de 1994 e, sobretudo, o histórico jogo pós-Malvinas em que a Argentina bateu a Inglaterra na Copa de 1986 com dois tentos do craque, um de mão e o outro o chamado “gol do século” - apresentados com a trilha God Save the Queen, dos Sex Pistols, e intercalados com uma animação em que se vê a rainha britânica sendo decapitada.
Há uma certa ironia - em Kusturica, sempre há - nesse egocentrismo escancarado do diretor. Não é só por isso, no entanto, que ele faz bem ao filme. Os bate-papos entre documentarista e documentado são inspirados, e revelam opiniões exaltadas e confissões - “que jogador eu teria sido sem cocaína, já imaginou?”, pergunta o craque ao diretor. Também o são as viagens que fazem juntos a Belgrado (Sérvia), na qual se vê o jogador testando sua fama num país distante, e a Mar del Plata (Argentina), para se integrar a um protesto contra a presença de George W. Bush na cidade. O Maradona esquerdista, falastrão e exagerado que se revela ali é muito mais rico do que qualquer um que se poderia apresentar num documentário objetivo, tradicional, jornalístico.
Outros pontos altos de Maradona por Kusturica são as imagens de rituais da Igreja Maradoniana - monoteísta -, que existe e é levada a sério por alguns fãs em Buenos Aires, e a visita de Diego à casa onde passou a infância, em Lanús, na periferia da cidade. A conversa com um dono de bordel que integra a seita rende outra das sequências que resumem o filme: enquanto o espectador vê garotas seminuas dançando para o cineasta, ouve uma voz em off citar Jung e Freud numa tese sobre o comportamento das pessoas, suas paixões e obsessões, que obviamente incluem o maior futebolista argentino de todos os tempos.
Kusturica pode até passar dos limites, expandindo demais o foco, forçando relações dele próprio com o jogador - e, paradoxalmente, levando demais a sério as opiniões políticas estreitas do jogador. Mas o filme não deixa de valer a pena. O lançamento é da Europa Filmes.
Inventores do futebol e zelosos com a paixão dos súditos da rainha pelo nobre esporte bretão, os ingleses batem um bolão quando o esporte vira assunto no cinema - sabe bem quem viu o recente À Procura de Eric, de Ken Loach. Já o cinema brasileiro, por incrível que pareça, segue sendo um perna-de-pau nesse campo. Maldito Futebol Clube é um novo bom exemplo de como explorar o potencial de drama, ação, tensão e comédia que o futebol oferece como enredo dentro e fora das quatro linhas.
Inédito nos cinemas brasileiros, Maldito Futebol Clube (The Damned United, 2009) está agora disponível em DVD nas locadoras. O filme conta a história real de Brian Clough (vivido pelo ótimo ator Michael Sheen, de A Rainha e Frost/Nixon), até hoje reverenciado como um dos melhores técnicos de futebol da história do futebol inglês e um dos pioneiros na transformação da imagem do treinador em figura tão popular e valorizada quanto os craques do time. Ele capitaneou a transição do tipo sargentão de abrigo enclausurado na casamata para o papel do “professor” na linha executivo, de terno e gravata, marqueteiro, vaidoso e hábil no uso dos microfones e holofotes.
Clough, ex-jogador com passagem pelo English Team nos anos 1950, despontou como treinador em meados dos anos 1960 e entrou nos 1970 consagrado por uma façanha: levou o Derby County, time inexpressivo da segunda divisão, a uma série de conquistas históricas, que culminaram no título do campeonato inglês de 1972. Parte do longa mostra os bastidores dessa trajetória, em que Clough fez de um bando de brucutus um time competitivo que até jogava bonito, para os padrões ingleses. Mas o eixo dramático de Maldito Futebol Clube - daí seu título original - é a curta e conturbada passagem de Clough pelo Leeds United, em 1974. Ele chegou ao então poderoso clube como a grande contratação da temporada. Mas bateu de frente com os astros do time, fiéis ao antigo treinador, seu desafeto, um precursor da escola Dunga de futebol força e raça, que havia assumido a seleção inglesa. Sem comando do vestiário, Clough passou o diabo nas mãos dos marrentos gladiadores do Leeds, até ser demitido, apenas 44 dias depois.
Prova do quanto Clough (1935 - 2004) era bom no ofício é que logo depois ele pegou outro time pequeno, o Nottingham Forest, e o levou a dois títulos consecutivos da Liga dos Campeões da Europa, em 1979 e 1980 - ficou no clube por 18 anos. Quem dirige Maldito Futebol Clube é Tom Hooper, inglês conhecido por assinar premiadas produções para a TV, como Elizabeth I, estrelada por Helen Mirren.
Cineclube é o blog de cinema de ZH. Antes chamado Primeira Fila, é um espaço com informações, curiosidades e a opinião dos jornalistas que integram a editoria de cinema do Segundo Caderno do jornal. Quem gerencia os posts somos nós, mas todos podem participar com dicas, comentários e pitacos diversos. Vale tudo, do último blockbuster de Hollywood ao cinema ensaístico tailandês - menos chamar cinema de sétima arte.