
Rânia quer se libertar, Verônica precisa descobrir a liberdade. Silmara se frustra, Bianca não desiste, Violeta terá de se reerguer. São cinco mulheres extraordinárias, cujas jornadas representam uma das facetas mais ricas do cinema brasileiro atual: a capacidade de desenvolver bons personagens femininos.
Respectivamente, essas personagens podem ser vistas em Rânia, Era uma Vez Eu, Verônica, Falsa Loura, Riscado e O Abismo Prateado. Vêm de regiões, castas e gerações diferentes, dando forma a um panorama irregular e um tanto impreciso, mas muito consistente, da pluralidade social contemporânea verificada no país. Como se a união de todas elas, e das outras citadas no quadro abaixo, desse a medida de um certo estado de coisas, não do ponto de vista macro, mas íntimo, mesmo. Não é nada muito diferente disso que se espera de uma produção dramatúrgica consistente e reveladora.
Você pode até se dizer surpreendido, sobretudo se ainda não descobriu as boas surpresas do novíssimo cinema nacional, mas os adjetivos da frase que encerra o parágrafo anterior foram escolhidos com cuidado. Observe que não citei nenhuma personagem adaptada de matrizes literárias, nem mesmo representativa de alguma personalidade real. Se o fizesse, poderia mencionar a inventiva Cleópatra tropical do diretor Júlio Bressane (de 2008), o alter ego de Clarah Averbuck visto em Nome Próprio (2008), de Murilo Salles, a Zuzu Angel (2006) de Sérgio Resende e a Bruna Surfistinha (2011) de Marcus Baldini. Poderia, ainda, lembrar as grandes mulheres que inspiraram os documentários Elena (2012), de Petra Costa, e Laura (2012), de Felipe Barbosa, previstos para estrear nos próximos meses nos cinemas. E também fazer referência às complexas e sedutoras personagens femininas de Natimorto (2009) e Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (2011), se quisesse incluir títulos que não são necessariamente calcados nelas, e sim em histórias que acabam envolvendo-as – o que caracteriza uma diferença marcante dos 10 filmes da lista abaixo, todos formatados essencialmente sobre a intimidade de uma ou mais mulheres.
Isso: fiquemos com os longas que moldam sua dramaturgia a partir de mulheres ficcionais e originais. Por que eles existem? O que seus autores pretendem? O que faz esses projetos coexistirem em quantidade e qualidade significativas?
Para responder a essas perguntas seria necessário conhecer bem os propósitos estéticos de seus realizadores, o que nem sempre é possível, dado que uma das principais características do assim chamado novíssimo cinema nacional é a pouca, às vezes nenhuma experiência dos cineastas. Karim Aïnouz, diretor de um dos filmes basilares dos propósitos desse movimento (O Céu de Suely), fala reiteradamente sobre o desamor. Marcelo Gomes, outro dos mais experientes entre esses autores nem sempre jovens, mas de carreira invariavelmente incipiente, tem a solidão como tema recorrente. Donde se pode vislumbrar um certo gosto pela melancolia e pela desilusão – que, talvez não por coincidência, perpassam todos os 10 longas-metragens citados abaixo.
Não é de hoje que o cinema independente, marginal (o melhor cinema brasileiro), explora a sensação de deslocamento e inadequação. A tristeza, de maneira geral. Mas por que por meio das mulheres? A produção nacional do século 21 está cheia de personagens masculinos relevantes no mainstream, protagonizando os “filmes de favela”, a vertente cômica dessa produção e as incursões por gêneros como aventura e ação. Mas foi a partir das histórias essencialmente femininas que Eduardo Coutinho realizou Jogo de Cena (2007), o longa esteticamente mais revolucionário do país em décadas. E é a partir delas, mais do que deles, que se tem falado das grandes questões do país.
Talvez Rânia, Verônica, Silmara, Bianca, Violeta e tantas outras sejam reflexo de uma sociedade na qual a figura paterna, em tantos casos, se faz cada vez menos presente. Uma sociedade na qual as mães, cada vez mais, tornam-se a principal referência, não raramente a única acessível, para fatias bastante significativas da população. É uma hipótese. Talvez coincidência. O fato é que, no cinema nacional, a hora é delas.

10 filmes nacionais recentes centrados em personagens femininas:
(construídas em roteiros originais, e não a partir de matrizes literárias ou representativas de pessoas reais)
> Rânia (2012) – De Roberta Marques. Com Graziela Félix. Longa cearense premiado no Festival do Rio e selecionado para Roterdã, narra a história de uma adolescente da periferia que descobre a vocação de bailarina. Está em cartaz no CineBancários, em Porto Alegre.
> O Que se Move (2012) – De Caetano Gotardo. Com Cida Moreira, Andrea Marquee e Fernanda Vianna. Drama musical composto de três episódios sobre as dores e as alegrias de três mães. Premiado em Gramado, começa a chegar aos cinemas brasileiros a partir de 17 de maio.
> O Abismo Prateado (2011) – De Karim Aïnouz. Com Alessandra Negrini. Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, estreia nacionalmente neste dia 26 (em Porto Alegre deve demorar um pouco mais). Inspirado na canção Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, acompanha as horas de desespero de uma dentista carioca depois que ela é abandonada pelo marido.
> Era uma Vez Eu, Verônica (2011) – De Marcelo Gomes. Com Hermila Guedes. Médica recém-formada, a jovem protagonista passa por um momento de incertezas – e amadurecimento. Premiado em Brasília, estreou comercialmente no país no ano passado – mas não chegou ao circuito porto-alegrense.
> Riscado (2011) – De Gustavo Pizzi. Com Karine Teles. A vida nada fácil de uma atriz em início de carreira, que precisa se virar para sobreviver, é o ponto de partida deste longa premiado no Festival de Gramado e escrito em parceria pelo seu diretor e a protagonista. Já foi exibido nos cinemas.
> Sudoeste (2011) – De Eduardo Nunes. Com Simone Spoladore. Fábula de narrativa circular na qual uma mulher vê sua vida se desenrolar ao longo de apenas um dia num vilarejo de pescadores. Premiado nos festivais do Rio e de Havana. Também já teve sessões em Porto Alegre.
> Verônica (2008) – De Maurício Farias. Com Andréa Beltrão. Professora de escola pública do Rio tenta salvar um garoto que acaba de ficar órfão e está jurado de morte por traficantes da favela em que ele vive. Já está disponível em DVD.
> Falsa Loura (2008) – De Carlos Reichenbach. Com Rosanne Mulholland. Também já lançado nos cinemas e em DVD, foi o último – e é um dos melhores – longas de Reichenbach (1945 – 2012). Narra a história de uma operária do ABC Paulista que sustenta o pai e ama os cantores populares.
> A Casa de Alice (2007) – De Chico Teixeira. Com Carla Ribas. Manicure na faixa dos 40 anos está com a vida estagnada na periferia de São Paulo. No filme, disponível em DVD, ela tenta levar o dia a dia enfrentando diversos problemas de relacionamento com o marido e os filhos.
> O Céu de Suely (2006) – De Karim Aïnouz. Com Hermila Guedes. Garota grávida volta da capital paulista à sua cidade natal, no interior do Ceará, e fica aguardando, numa espera que se revelará infrutífera e terá consequências em sua vida, o namorado, pai de sua criança. Foi exibido no circuito e está disponível em DVD, para venda e locação.
