Oscar 2012: favoritos mais ou menos
Os Descendentes e O Artista. Dois dos principais favoritos ao Oscar, com respectivamente cinco e 10 indicações (A Invenção de Hugo Cabret, de Scorsese, teve 11, mas a imensa maioria em categorias técnicas), têm em comum o fato de serem longas discretos, tímidos em seu lançamento de pequenas proporções, surpreendentes em sua capacidade de conquistar o público. Seu encanto é inegável, ainda que ambos estejam longe do arrebatamento sugerido por uma eleição de melhor do ano. Sendo um ou o outro, o vencedor da cerimônia do dia 26 de fevereiro terá envergadura e representatividade semelhantes às de seus antecessores imediatos (O Discurso do Rei, Guerra ao Terror, Quem Quer Ser um Milionário?): um filme com qualidades, agradável de ver, porém esquecível.
Ambos são centrados em figuras masculinas plenamente contempladas em sua complexidade graças às ótimas atuações de George Clooney e Jean Dujardin – sobretudo o primeiro. É verdade que a dramaturgia de O Artista se constrói a partir da dicotomia entre a decadência do personagem de Dujardin (astro de filmes mudos) e a ascensão de Bérénice Bejo (estrela dos sonoros), mas o charme da produção está na nostalgia representada pela melancólica queda de seu protagonista masculino. O filme faz pensar sobre o avanço da tecnologia no cinema, questão crucial da indústria que atualmente se reinventa à luz do 3D e da cada vez mais próxima extinção da película, mas, neste sentido, não deixa de ser um comentário raso e ingênuo. "Não adianta resistir"? É perfeitamente possível falar sobre o tema com mais profundidade.
Jean Dujardin em O Artista, de Michel Hazanavicius
A alta cotação de Os Descendentes na Academia de Hollywood é mais compreensível. A simplicidade da trama sobre um pai ausente que precisa se reaproximar das filhas a partir da doença da mãe das crianças, com sua mensagem positiva, oposta à daqueles inúmeros longas sobre as disfuncionalidades familiares na classe média dos EUA, é apenas aparente. Clooney e o diretor Alexander Payne (que já filmara personagens masculinos interessantes em Eleição, com Matthew Broderick, As Confissões de Schmidt, com Jack Nicholson, e, o melhor de todos, Sideways: Entre umas e Outras, com Paul Giamatti) fizeram um longa cheio de humor e um charme genuíno que se explica pela leveza com que trata temas profundos como a morte, a sociabilização e as relações entre pais e filhos. Leveza e mão firme: é notável a capacidade de Payne de escapar das armadilhas do sentimentalismo barato e daquele pessimismo injustificado tão em voga atualmente – quer tratar das mazelas sociais, ok, o faça, mas com uma dramaturgia que justifique as suas escolhas.
Por que, então, Os Descendentes é esquecível? Porque sua força é limitada. Sua capacidade de encantamento tem restrições. Te desafio, desde já, a vê-lo e encontrar no filme a transcendência da grande arte. Você pode dizer que atualmente ela é rara, o que desde já contesto citando um título norte-americano e um estrangeiro que poderiam ser contemplados no Oscar – Drive, de Nicolas Winding Refn, e A Separação, de Asghar Farhadi. Dois projetos muito mais significativos, consistentes e impactantes. Dois dos filmes do ano, em todos os aspectos superiores a O Artista e Os Descendentes.
George Clooney em Os Descendentes, de Alexander Payne
Uma última observação. Não te parece bizarra, para não dizer freak, essa obsessão da Academia de Hollywood por projetos diferentes, inusuais, estranhos? Há não muito tempo foi um longa que recriava, quer dizer, tentava recriar sem tanto encantamento, o espírito dos musicais de outros tempos (Chicago). Depois veio a referência à Índia e a tal ponte Hollywood-Bollywood (Quem Quer Ser um Milionário?). Vou excluir desta lista um dos trabalhos menos acessíveis dos irmãos Coen (Onde os Fracos Não Tem Vez) porque se trata do reconhecimento a uma dupla de autores das mais significativas do cinema contemporâneo. Mas não posso deixar de lado a surpreendente escolha de Guerra ao Terror, que nem é o melhor filme sobre o conflito no Iraque (você viu Redacted, de Brian De Palma?), em detrimento do superblockbuster Avatar. Agora, é O Artista, filme sem diálogos e em preto e branco que recria, ou tenta recriar, com recursos atuais (24 quadros por segundo, por exemplo), o clima do cinema antes do advento do som.
Não que a ideia de renovação e arejamento seja inválida, pelo contrário, mas, para mim, tudo isso também é uma evidência bem clara de crise.
















