clicRBS


 

Para os filhos e os pais cinéfilos

Dois programas muito, mas muito bacanas para pais e filhos neste fevereiro de férias e muito calor: estão em cartaz as duas incursões ao universo infanto-juvenil promovidas por Wes Anderson e Spike Jonze, dois dos principais cineastas surgidos nos EUA nos últimos anos.

Anderson, realizador conhecido por Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e Viagem a Darjeeling (2007), concorre ao Oscar de melhor animação por O Fantástico Sr.Raposo (2009), adaptação da obra de Roald Dahl (o mesmo autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate) que conta a história de uma família de raposas cujo pai não consegue viver regradamente, deixando de lado atividades ilícitas como atacar os galinheiros dos fazendeiros da vizinhança. O longa, rodado com a técnica stop-motion, aquela em que cada fotograma é desenhado separadamente, é ao mesmo tempo leve, divertido e uma reflexão bem interessante sobre as relações familiares - o dia a dia das raposas funciona como uma alegoria da rotina de pais e filhos, pois elas agem como se fossem pessoas de verdade, com seus empregos, contas para pagar etc. As vozes são de astros como George Clooney, Meryl Streep e Bill Murray, entre outros.

Já Spike Jonze, o diretor de Adaptação (2002) e Quero Ser John Malkovich (1999), ambos escritos por Charlie Kaufman, agora se uniu ao próprio Maurice Sendak, autor do livro que deu origem ao filme, ao roteirista Dave Eggers e a uma equipe técnica da mais alta capacidade - o fotógrafo Lance Acord, a cantora Karen-O - para adaptar o clássico Where the Wild Things Are, traduzido no Brasil como Onde Vivem os Monstros. Trata-se de uma fábula sobre a imaginação de um menino de nove anos que, num acesso de fúria, resolve fugir da mãe (Catherine Keener) e do namorado dela (Mark Ruffalo), entrando num barco e indo parar numa ilha distante. Lá, ele vira rei de uma comunidade de criaturas grandes, peludas e esquisitas, porém muitíssimo simpáticas, que representam, cada uma, um pouco daquilo que ele é, deseja ser ou não consegue evitar em seu comportamento. É uma jornada de autodescoberta, metáfora de seu próprio crescimento - mas acessível não apenas a adultos, Ao contrário. Veja que vale a pena.

Ó os trailers, com legendas em português (o segundo, de Onde Vivem os Monstros, é genial, com a música Wake Up, que está no disco Funeral, obra-prima da banda canadense Arcade Fire):

  • Share/Save/Bookmark

Canção do amor demais

Christophe Honoré é um dos mais jovens e um dos mais talentosos realizadores da linha de frente do cinema francês. Ganhou fama e moldou um estilo próprio ao incorporar preceitos da nouvelle vague em projetos sobre os encontros e desencontros dos jovens amantes - filmes como Em Paris (2006), Canções de Amor (2007) e A Bela Junie (2008).

Fez política falando de amor ao adaptar a obra de Madame de Lafayatte quando o presidente Nicolas Sar­kozy sugeriu abolir a sua literatura das escolas francesas. Transformou Louis Garrel em seu Jean-Paul Belmondo, e até uma sósia de Anna Karina ele descobriu - Léa Seydoux, a bela Junie destacada por Tarantino para Bastardos Inglórios (2009) e por Ridley Scott para o ainda inédito Robin Hood, previsto para estrear em 2010.

Seu novo longa vem provar que Honoré é capaz de ser grande trabalhando em registros e contextos diferentes. Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar (Non ma Fille, Tu N’Iras Pas Danser, França,  2009), em cartaz em Porto Alegre, é um drama familiar focado na figura de Léna, uma jovem mãe que tinha tudo para ter uma vida estável e feliz - pais atenciosos, filhos exemplares -, mas que de alguma forma se perde em meio ao excesso de zelo a sua volta.

Léna é Chiara Mastroianni (foto abaixo), filha da francesa Catherine Deneuve e do italiano Marcelo Mastroianni. Uma ótima atriz, algo que de fato só havia mostrado, antes deste filme, em outros poucos - como A Carta, de Manoel Oliveira, e Conto de Natal, de Arnaud Desplechin. Em Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar, a trama começa quando a personagem e suas duas crianças tomam o rumo do campo. Não que seja uma viagem de férias como outra qualquer: logo o espectador percebe a sua instabilidade e que, por trás da reunião da família no interior, há uma série de tentativas de ajudá-la a se encontrar, sobretudo de sua mãe (Marie-Christine Barrault) e de sua irmã (Marina Foïs). Elas gostariam, por exemplo, que ela arrumasse um emprego e reatasse com o ex-marido (Jean-Marc Barr).

Mais que nas relações tortas da protagonista com o pai de seus filhos e com o novo amante (interpretado por Garrel), o estilo Honoré aparece nesses impulsos externos que tentam, sem sucesso, alterar o destino dos personagens. Aqui, no entanto, a dança da vida é mais melancólica, sombria que em outros trabalhos do cineasta.

Não só por isso, mas porque a narrativa anda por caminhos inusuais - o mistério sobre o destino de Léna se dissipa numa analogia com uma histó­ria ocorrida num passado distante, espécie de filme dentro do filme -, Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar é o mais arriscado e surpreendente longa de Honoré. Riscos daqueles que só correm os bons autores, surpresas daquelas cujo resultado é dos mais interessantes.

O trailer:

Adendo: em entrevista concedida à Agência Estado, que Zero Hora reproduz em sua edição impressa, Honoré (na foto abaixo) explica que resolveu mudar de ares porque queria reencontrar suas origens. “Não venho de uma família de cinéfilos. Quando dizia que seria cineasta, todos lá em casa respondiam ‘Ah, sim’, mas esperavam no fundo outra decisão minha, uma profissão de verdade. Meus longas anteriores falavam da minha adaptação a Paris, mas agora eu quis falar de família, de campo”, disse. Não, Minha Filha foi rodado na região da Provence, onde o cineasta de 39 anos nasceu e passou a infância.

Além de serem três produções com foco nas relações familiares, há outra semelhança entre o longa de Honoré e outros dois filmes franceses recentes, Conto de Natal, de Arnaud Desplechin, e Horas de Verão, de Olivier Assayas. Afirma o cineasta na mesma entrevista: “É difícil fugir de um tema como esse. Mesmo filmes que não falam da família como laços de sangue mostram outras relações familiares – Exército, escola, tráfico. Não nascemos para levar vidas solitárias. O ideal seria que fossem solidárias. Digamos que trato do que atrai e afasta as pessoas. Em comparação com os longas de Arnaud e Olivier, veja que todos – eles mais explicitamente – tratamos da morte”.

  • Share/Save/Bookmark

Oscar 2010 - os indicados

Campeões de indicações e maiores favoritos ao prêmio, Avatar e Guerra ao Terror concorrem, cada um, em nove categorias no Oscar 2010. Bastardos Inglórios foi indicado a oito categorias e Preciosa e Amor sem Escalas, a sete cada um.

Os concorrentes foram anunciados esta manhã em Los Angeles. A cerimônia de entrega das estatuetas será no dia 7 de março.

Veja abaixo a lista dos indicados nas principais categorias e confira amanhã, na edição impressa de ZH, matéria completa sobre os indicados e o favoritismo de dois filmes tão diferentes quanto o superblockbuster Avatar, que já faturou mais de US$ 2 bilhões nos cinemas, e o “pequeno” Guerra ao Terror, que arrecadou apenas US$ 16 milhões e que, com a conquista de diversos prêmios prévios, passou da condição de azarão a um dos dois principais postulantes ao maior prêmio da indústria do entretenimento.

Os filmes com título em inglês ainda não têm definida a tradução para o português.


Melhor filme

Avatar, de James Cameron
Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow
Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino
Amor sem Escalas, de Jason Reitman
Preciosa, de Lee Daniels
Um Homem Sério, de Ethan e Joel Coen
Up - Altas Aventuras, de Pete Docter e Bob Peterson
Um Sonho Possível, de John Lee Hancock
Educação, de Lone Scherfig
Distrito 9, de Neill Blomkamp

Melhor diretor
Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)
James Cameron (Avatar)
Lee Daniels (Preciosa)
Jason Reitman (Amor sem Escalas)
Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios)

Melhor ator
Jeff Bridges (Crazy Heart)
George Clooney (Amor sem Escalas)
Colin Firth (Direito de Amar)
Morgan Freeman (Invictus)
Jeremy Renner (Guerra ao Terror)

Melhor atriz
Sandra Bullock (Um Sonho Possível)
Helen Mirren (The Last Station)
Carey Mulligan (Educação)
Gabourey Sidibe (Preciosa)
Meryl Streep (Julie & Julia)

Ator coadjuvante
Matt Damon (Invictus)
Woody Harrelson (O Mensageiro)
Christopher Plummer (The Last Station)
Stanley Tucci (Um Olhar do Paraíso)
Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)

Atriz coadjuvante
Penélope Cruz (Nine)
Vera Farmiga (Amor Sem Escalas)
Maggie Gyllenhaal (Crazy Heart)
Anna Kendrick (Amor Sem Escalas)
Mo’Nique (Preciosa)

Roteiro original
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
O Mensageiro
Um Homem Sério
Up – Altas Aventuras

Roteiro adaptado
Distrito 9
Educação
In the Loop
Preciosa
Amor Sem Escalas

Fotografia
Avatar
A Fita Branca
Harry Potter e o Enigma do Príncipe
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios

Montagem
Avatar
Distrito 9
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Preciosa

Direção de arte
Avatar
O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus
Nine
Sherlock Holmes
The Young Victoria

Figurino
O Brilho de uma Paixão
Coco Antes de Chanel
O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus
Nine
The Young Victoria
Maquiagem
Il Divo
Star Trek

Música original
Avatar
O Fantástico Sr. Raposo
Guerra ao Terror
Sherlock Holmes
Up – Altas Aventuras

Canção original
The Weary Kind (Crazy Heart)
Loin de Paname (Faubourg 36)
Take It All (Nine)
Down in New Orleans e Almost There (A Princesa e o Sapo)

Som
Avatar
Guerra ao Terror
Star Trek
Up – Altas Aventuras
Bastardos Inglórios

Efeitos sonoros
Avatar
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Star Trek
Up – Altas Aventuras

Efeitos visuais
Avatar
Distrito 9
Star Trek

Longa de animação
Coraline
O Fantástico Sr. Raposo
A Princesa e o Sapo
The Secret of Kells
Up – Altas Aventuras

Filme estrangeiro
A Fita Branca, de Michael Haneke (Áustria)
O Profeta, de Jacques Audiard (França)
A Teta Assustada, de Claudia Llosa (Peru)
O Segredo dos seus Olhos, de Juan Jose Campanella (Argentina)
Ajami, de Yaron Shani (Israel)

  • Share/Save/Bookmark

Jason Reitman e os jornalistas

Jornalistas que participavam das entrevistas de lançamento de Up in The Air (aqui com o bobinho título Amor sem Escalas) mundo afora estranhavam quando o diretor Jason Reitman sacava seu celular e começava a fotografá-los. Aos curiosos diante da cena inusitada - afinal, quando é o contrário assessores dos astros costumam intervir para frear jornalistas-tietes -, Reitman explicava que fazia um registro pessoal das maratonas de imprensa, que ninguém era obrigado a posar, etc. Mas a maioria parece ter topado na boa, em que pese o cuidado que se tem lá fora com direitos de imagem e quetais jurídicos.

O resultado está no divertido vídeo abaixo, embalado pelo eternamente ótimo The Clash, com Janie Jones:

Lost In The Air: The Jason Reitman Press Tour Simulator from Jason Reitman on Vimeo.

  • Share/Save/Bookmark

Grandes momentos do cinema - Eric Rohmer (1920-2010)

Rápida e modesta homenagem a um dos grandes do cinema francês contemporâneo (pós-nouvelle vague), vai abaixo um extrato de Amor à Tarde, filme que Eric Rohmer lançou em 1972, logo após o festejado O Joelho de Claire (1970).

Rohmer morreu esta semana, aos 89 anos, deixando uma obra significativa, composta por filmes em sua maioria dedicados a investigar os paradoxos das relações amorosas e invariavelmente divididos em séries como a dos Seis Contos Morais ou a dos Contos das Quatro Estações. Esta última, composta por quatro longas-metragens, cada um com o nome de uma estação do ano, foi exibida integralmente em Porto Alegre num ciclo da Sala P.F. Gastal na virada dos anos 1990 para os 2000 - se minha memória de cinéfilo não estiver me traindo.

No total, foram 24 longas, entre os quais Minha Noite com Ela (1969) e O Raio Verde (1985), homenagem a Julio Verne que lhe rendeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, maior prêmio de toda a sua carreira.

Amor à Tarde, último de seus Seis Contos Morais, como você pode ver abaixo, vê com uma fina e significativa ironia as inquietações masculinas em relação ao desejo - e à fantasia de possuir todas as mulheres possíveis. O pequeno burguês insaciável e um tanto ridículo é interpretado por Bernard Verley. O trechinho tem legendas em inglês e também em espanhol.

Depois, na sequência, vai também uma compilação de todos os filmes de Rohmer disponíveis em DVD no Brasil (lançados pela distribuidora Europa).

Rohmer em DVD no país:

O Signo de Leão (1959)
A Padeira do Bairro (1963)
A Carreira de Suzanne (1963)
A Colecionadora (1967)
Minha Noite com Ela (1969)
O Joelho de Claire (1970)
Amor à Tarde (1972)
A Marquesa D’O (1976)
A Mulher do Aviador (1981)
O Casamento Perfeito (1982)
Pauline na Praia (1983)
Noites de Lua Cheia (1984)
O Raio Verde (1986)
As Quatro Aventuras de Reinette e Mirabelle (1987)
O Amigo de Minha Amiga (1987)
Conto de Primavera (1990)
Conto de Inverno (1992)
Conto de Verão (1996)
Conto de Outono (1998)
A Inglesa e o Duque (2001)
Os Amores de Astrée e Céladon (2007)

  • Share/Save/Bookmark

Os destaques de 2009

(compilação publicada originalmente no Segundo Caderno de Zero Hora)

2009 foi o ano de um recorde de bilheterias no país (A Era do Gelo 3) e de um sucesso nacional histórico (Se Eu Fosse Você 2). Também foi, no entanto, mais um ano de bons filmes saindo direto em DVD ou sendo exibidos nos cinemas apenas em mostras especiais - para não falar do atraso na chegada de algumas produções a Porto Alegre, quando não no Brasil inteiro.

Foi, sobretudo, um ano com bons filmes para todos os gostos, das mais diversas procedências e propostas estéticas. Hollywood, por exemplo, além dos blockbusters tradicionais, produziu longas de caráter autoral de alta qualidade, de realizadores de idades e estilos tão diferentes quanto Clint Eastwood (Gran Torino) e Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios), James Gray (Amantes) e Michael Mann (Inimigos Públicos).

Do Oriente - embora a maior parte das cinematografias da região continuem alijadas dos cinemas brasileiros - vieram títulos notáveis de países mais tradicionais, como o Japão (A Partida, de Iôjirô Takita), e de lugares cuja produção nos é menos conhecida, como Taiwan (Desejo e Perigo, de Ang Lee).

Também não faltaram bons títulos latino-americanos e sobretudo europeus, principalmente aqueles vindos de países de presença tradicionalmente marcante no circuito local, como a Itália (Almoço em Agosto, de Gianni di Gregorio) e a França (Paris, de Cédric Klapisch). Foi do país da nouvelle vague, que nos últimos tempos vem retomando a consistência produtiva, que veio, por exemplo, uma das grandes notícias do ano no cinema: Entre os Muros da Escola.

Com sua estética semidocumental e sua contundência narrativa, o longa de Laurent Cantet conseguiu transcender o universo sempre restrito dos debates culturais e mobilizou a sociedade inteira a discutir uma das questões mais importantes do mundo contemporâneo: a educação. É daqueles casos em que, ser considerado um dos melhores filmes do ano, pura e simplesmente, parece pouco para suas qualidades.

Confira, a seguir, um resumo do que foi a temporada cinematográfica de 2009, com seus destaques mais diversos, elaborados pela equipe de cinema do Segundo Caderno de ZH.

Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, França
Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, França

OS 10 MELHORES

> Entre os Muros da Escola: Dirigido por Laurent Cantet, o drama francês se passa quase todo dentro da sala de aula – mas as discussões que provoca são universais e refletem a sociedade como um todo. Um dos “acontecimentos” cinematográficos do ano.

> Desejo e Perigo: Depois da consagração em Hollywood, o diretor Ang Lee voltou a Taiwan para filmar um drama arrebatador sobre uma jovem que, durante a invasão japonesa na China em meio à II Guerra, se debate entre a resistência política e a paixão por um colaboracionista.

> Bastardos Inglórios: Quentin Tarantino alterou até o desfecho da II Guerra ao narrar a história de impiedosos caçadores de nazistas. Além do doce sabor de vingança, premiou o espectador com sequências antológicas e uma sensação de raro prazer cinematográfico.

> Deixa Ela Entrar: Não deixa de ser irônico que, enquanto Crepúsculo virou fenômeno de público, o cinema sueco tenha brindado o público com um dos melhores filmes de vampiros de todos os tempos. O longa de Tomas Alfredson tem efeitos mínimos - e emoção máxima.

> Gran Torino: Retrato comovente da relação entre um veterano de guerra ranzinza e um jovem imigrante oriental nos EUA multiétnico e intolerante, o filme marcou o encerramento da carreira de Clint Eastwood como ator. Não podia ter sido em mais alto estilo.

> Valsa com Bashir: Animação e documentário, filme autobiográfico e memorialista, o longa do israelense Ari Folman é um exercício de denúncia dos horrores da guerra tocante e original. Correu o mundo chamando a atenção para a barbárie no conflito entre judeus e palestinos.

> O Lutador: Filme da volta por cima de Mickey Rourke, é resultado da combinação entre a entrega total do protagonista e a direção precisa de Darren Aronofsky. Consta que marmanjos de todos os tamanhos se derreteram com a história de Randy “The Ram” Robinson.

> Amantes: Filme da afirmação do diretor James Gray, traz Joaquin Phoenix em atuação extraordinária como um jovem dividido entre a segurança de um amor e os riscos de outro. Sua imaturidade e bipolaridade são representativas do americano contemporâneo.

> Os Falsários: A incrível jornada do maior falsificador de dinheiro do século 20, que viveu em Porto Alegre, é revelada em seus episódios mais ricos - quando foi colaboracionista na II Guerra - neste drama do austríaco Stefan Ruzowitzky. Uma das boas surpresas do ano.

> A Bela Junie: Um dos mais promissores cineastas franceses, Christophe Honoré volta a prestar tributo à nouvelle vague no filme que revelou a nova musa Léa Seydoux. Na trama de A Bela Junie, os conflitos adolescentes têm estofo dramático e alcance filosófico.

Desejo e Perigo, de Ang Lee, Taiwan
Desejo e Perigo, de Ang Lee, Taiwan

OS VOTOS INDIVIDUAIS

> Daniel Feix: Desejo e Perigo, Entre os Muros da Escola, Gran Torino, O Lutador, Valsa com Bashir, Inimigos Públicos, Deixa Ela Entrar, Bastardos Inglórios, Amantes e A Bela Junie.

> Marcelo Perrone: Deixa Ela Entrar, Bastardos Inglórios, Amantes, Desejo e Perigo, A Partida, Os Falsários, A Bela Junie, Entre os Muros da Escola, Gran Torino e O Lutador.

> Roger Lerina: Entre os Muros da Escola, Desejo e Perigo, Gran Torino, O Lutador, Valsa com Bashir, Bastardos Inglórios, Abraços Partidos, Foi Apenas um Sonho, Paris e Goodbye Solo.

> Ticiano Osório: Deixa Ela Entrar, Bastardos Inglórios, Desejo e Perigo, A Partida, Os Falsários, Entre os Muros da Escola, Gran Torino, O Leitor, Quem Quer Ser um Milionário? e Há Tanto Tempo que te Amo.

Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson, Suécia
Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson, Suécia

OS REIS DO BORDERÔ E DO BOCA A BOCA

> O aguardado Avatar estourou em 2010 e já é o segundo filme que mais arrecadou nos cinemas em todos os tempos, perdendo apenas para Titanic (1997), também dirigido por James Cameron. Em 2009, fechou o ano como o quinto filme que mais levou gente às salas em sua primeira semana em exibição. O título nesta categoria ficou com Lua Nova, seguido de A Era do Gelo 3, Harry Potter e o Enigma do Príncipe e 2012. Foi a animação dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha que fechou o ano como o campeão de bilheterias no país - A Era do Gelo 3 foi visto por nada menos que 9,2 milhões de espectadores, número recorde na história do Brasil.

> Enquanto isso, os recordes de permanência nos cinemas ficaram com dois dos melhores filmes lançados este ano na Capital - e que só alcançaram este posto graças à propaganda boca a boca: o francês Paris, de Cédric Klapisch, e o japonês A Partida, de Iôjirô Takita. O primeiro esteve em cartaz durante 24 semanas no Guion Center, onde foi visto por mais de 8,8 mil pessoas - o total de público mobilizado pelo longa de Klapisch no Brasil inteiro não chegou a 60 mil.

Paris, de Cédric Klapisch, França
Paris, de Cédric Klapisch, França

O ASSUNTO DO ANO

> Não é de hoje que o tema dos imigrantes vem se sobressaindo na - boa – produção contemporânea. Em 2009, a coleção de bons filmes que abordou o assunto é ainda maior. Pelo menos três destaques do ano versam sobre a inadequação e a intolerância étnica, subtemas intimamente ligados à globalização e, consequentemente, à imigração.

O drama francês Bem-Vindo, de Phillipe Lioret, e as produções independentes norte-americanas O Visitante, de Thomas McCarthy, e Goodbye Solo, do diretor de origem iraniana Ramin Bahrani, todos premiados no circuito de festivais, abordam o assunto de jeitos peculiares. Enquanto o primeiro chama a atenção para a rigidez da legislação francesa para com aqueles que ajudam imigrantes ilegais, os outros tratam de maneira delicada os laços de amizade que surgem entre pessoas de origens e concepções de mundo às vezes completamente opostas.

Nada a ver com o tema, mas também reflexo de uma produção cuja marca é a diversidade, outros títulos interessantes de 2009 vieram dos mais diferentes países, a exemplo de Tony Manero (Chile), Polícia, Adjetivo (Romênia), Gigante (Uruguai), A Teta Assustada (Peru) e Aquele Querido Mês de Agosto (Portugal).

Goodbye Solo, de Ramin Bahrani, EUA
Goodbye Solo, de Ramin Bahrani, EUA

OS MELHORES DAS MOSTRAS ESPECIAIS

> Enquanto os blockbusters tomam cada vez mais conta das salas do circuito tradicional de exibição, os espaços que sobram para a produção de caráter mais autoral são cada vez mais restritos. Não são poucos os filmes que poderiam, tranquilamente, estar entre as unanimidades do ano - se tivessem conseguido entrar em meio a esse mercado restrito.

Fome, primeiro longa do videomaker e artista visual britânico Steve McQueen, e 3 Macacos, produção turca dirigida por Nuri Bilge Ceylan, são dois exemplos. O primeiro, apesar da enorme coleção de prêmios que angariou pelo mundo todo (no Festival de Cannes, no Bafta e no European Film Awards, entre outros), só foi exibido na mostra especial em comemoração aos 10 anos da Sala P.F. Gastal, na Usina do Gasômetro.

3 Macacos até teve mais sessões, mas também ficou longe de ganhar um espacinho no circuito: o longa de Ceylan, um dos cineastas turcos de maior projeção no cenário contemporâneo, foi um dos grandes destaques do Festival de Verão, em março, tendo sido exibido em duas salas de shopping da Capital.

3 Macacos, de Nuri Bilge Ceylan, Turquia
3 Macacos, de Nuri Bilge Ceylan, Turquia

OS MAIS POLÊMICOS

> A temporada começou com a estreia de um dos vencedores do Oscar que mais dividiram a crítica e, antes de chegar ao fim, viu pelo menos outros dois filmes serem recebidos com um misto de elogios rasgados e pauladas impiedosas.

Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, foi saudado pelo seu caráter lúdico e lírico, mas, ao mesmo tempo, foi comparado a algo que começava como Cidade de Deus e terminava como Caminho das Índias - ou seja, ia da invenção formal ao novelão tradicional.

Celeuma ainda maior veio com o drama de Lars Von Trier Anticristo, que acompanha o desvairado luto de um casal que acaba de perder o filho. Já no seu lançamento, em maio, no Festival de Cannes, causou escândalo, sendo acusado de gratuito, misógino e falsamente profundo. Parte dos críticos saiu no meio da sessão, e houve quem, no final, preferisse a vaia. Mas também apareceu quem o apontasse como uma obra-prima de rara intensidade.

Em outro nível, Brüno, sobre um repórter austríaco gay, dedicado à cobertura de moda, também inflamou polêmica. Muita gente se divertiu com o filme, mas houve que dissesse que, desta vez, o diretor inglês Sacha Baron Cohen, o mesmo de Borat, avançara além da conta.

Anticristo, de Lars Von Trier, Dinamarca
Anticristo, de Lars Von Trier, Dinamarca

OS LONGAS QUE NÃO PASSARAM NO CINEMA

> Se Fome e 3 Macacos ainda ganharam sessões especiais, houve filmes que, apesar de sua qualidade, só puderam ser vistos pelo porto-alegrense no DVD. Sem lugar no circuito, diversos longas que igualmente poderiam estar entre as unanimidades do ano só não estão por conta das restrições de espaços - ou da desatenção dos distribuidores nacionais.

A situação que mais chama a atenção é a de Guerra ao Terror, de Kathrin Bigelow, que foi disponibilizado há meses nas locadoras mas que, diante do favoritismo assumido em premiações como o próprio Oscar, terá um lançamento tardio - em fevereiro - nos cinemas brasileiros.

Mas há outros casos ainda mais notáveis - de filmes ainda melhores. Entre eles, o belíssimo drama belga O Silêncio de Lorna, dos irmãos Dardenne, também um filme sobre a inadequação dos imigrantes no mundo contemporâneo, e os documentários norte-americanos Um Táxi para a Escuridão, de Alex Gibney, e O Equilibrista, de James Marsch, ambos vencedores do Oscar em 2008 e 2009.

O Silêncio de Lorna, de Jean-Luc e Pierre Dardenne, Bélgica
O Silêncio de Lorna, de Jean-Luc e Pierre Dardenne, Bélgica

O ANO DELAS

> A temporada também foi delas. Kate Winslet ganhou o Oscar e esteve nos muito interessantes O Leitor, de Stephen Daldry, e Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes. A inglesa radicada na França Kristin Scott Thomas estrelou Partir, de Catherine Corsini, e Há Tanto Tempo que te Amo, de Philippe Claudel. Já Penélope Cruz, entre os trabalhos com Woody Allen (Vicky Cristina Barcelona) e Rob Marshall (Nine) protagonizou mais um belo filme de Pedro Almodóvar, Abraços Partidos, outro dos destaques de 2009.

Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes, EUA
Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes, EUA

OS MELHORES BRASILEIROS

> 2009 foi um ano atípico para o cinema brasileiro. Tudo por conta da Se Eu Fosse Você 2. O longa de Daniel Filho estreou no primeiro fim de semana da temporada e levou inacreditáveis 6,093 milhões de espectadores aos cinemas, ganhando o segundo posto entre os filmes mais vistos no país - atrás só de A Era do Gelo 3.

Mais que isso, fez a terceira maior bilheteria de um filme brasileiro em todos os tempos, anunciando uma fase de consagração das comédias populares. Não à toa, dois outros exemplares do gênero ficaram respectivamente com o segundo e o terceiro lugares entre os brasileiros mais vistos do ano: A Mulher Invisível, de Cláudio Torres, e Divã, de José Alvarenga Jr.

Mas os melhores filmes nacionais do ano foram outros. Foram alguns dos títulos representativos da onda de documentários musicais em curso no país (Loki - Arnaldo Batista, de Paulo Henrique Fontenelle, Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal) e dramas de realizadores experientes (A Erva do Rato, de Júlio Bressane) ou novatos na direção (A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele). Se Nada Mais Der Certo, que afirmou o diretor José Eduardo Belmonte entre os melhores de sua geração, também está entre os destaques da temporada.

A Era do Gelo 3, de Carlos Saldanha, EUA
A Era do Gelo 3, de Carlos Saldanha, EUA

  • Share/Save/Bookmark

Carrasco de terno e gravata

Henning Boilesen simbolizou o apoio do empresariado brasileiro à repressão militar
Henning Boilesen simbolizou o apoio do empresariado brasileiro à repressão militar

Até tombar metralhado numa calçada da capital paulista, em 15 de abril de 1971, o dinamarquês Henning Albert Boilesen ostentava uma imagem pública acima de qualquer suspeita. Líder empresarial bonachão e falastrão, representava a imagem do empreendedor estrangeiro visionário seduzido pela combinação de calor, beleza, lascívia e perspectivas comerciais do então país do futuro.
Mas a figura que emerge no documentário Cidadão Boilesen é a que se movia nas sombras da ditadura militar, capitaneando uma ainda hoje polêmica e nebulosa vaquinha entre poderosos endinheirados do mundo civil para financiar a repressão aos opositores do regime.

Apresentado em uma sessão especial na Capital em outubro passado, Cidadão Boilesen entra em cartaz nesta sexta-feira, no CineBancários e no Instituto NT. É um programa mais que recomendável para quem se interessa pela história do Brasil e por bom cinema. Eleito melhor filme brasileiro da edição 2009 do É Tudo Verdade, o mais importante festival de documentários da América Latina, e ganhador do prêmio de melhor documentário nacional concedido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), Cidadão Boilesen é o resultado de 16 anos de trabalho do jornalista e cineasta fluminense Chaim Litewski (veja entrevista abaixo).

Boilesen, naturalizado brasileiro por conta de seu casamento, chamou a atenção do diretor quando foi tema de uma reportagem de TV, em 1968. Intrigado pela desenvoltura de empresário, então presidente do poderoso grupo Ultra (de empresas como a Ultragaz), no ambiente militar, Litewski passou a investigar Boilesen a partir do assassinato deste, em 1971. Em 1993, optou por realizar o documentário.
Garimpando arquivos particulares e oficiais e coletando depoimentos em diferente países, o realizador costurou um farto e contundente material que revela, sobretudo, o aspecto mais monstruoso do executivo, desenhado ainda em sua infância na Dinamarca. Anticomunista ferrenho, Boilesen não só articulava a caixinha para financiar a Operação Bandeirante (Oban) - a grande ação paramilitar que perseguiu, prendeu e assassinou opositores do governo em São Paulo - como  tinha o prazer sádico de assistir a sessões de tortura nos calabouços.

Muita coisa mostrada no filme vem à tona pela primeira vez. Entre os entrevistados está o ex-guerrilheiro Eugênio da Paz, responsável pelo tiro de misericórdia em Boilesen. O “outro lado” está representado por personagens como Brilhante Ustra e Erasmo Dias (morto na última segunda-feira), coronéis que simbolizaram a imagem de cães de guarda do regime, e do filho brasileiro de Boilesen. Estes sublinham a imagem do empreendedor visionário, do filantropo injustiçado que, por conveniência, serviu de bode expiatório para que gente bem mais poderosa e influente do que ele permanecesse nas sombras.


Nascido em Nilópolis, Rio de Janeiro, há 55 anos, Chaim Litewski vive há quase 20 em Nova York, onde chefia o departamento de televisão da ONU. Jornalista, fez graduação e pós-graduação na Westminster University/Polytechnic of Central London, na Inglaterra, onde especializou-se em cinema. Por muitos anos viajou pelo mundo realizando documentários e reportagens sobre conflitos, emergências humanitárias e meio ambiente. Na entrevista a Zero Hora, concedida por e-mail, Litewski fala sobre a realização de Cidadão Boilesen.

Zero Hora - Embora fantástica, a história e a trajetória do Boilesen são pouco conhecidas dentro do inventário que se costuma fazer do período da repressão militar no Brasil. Como você chegou a ele e qual foi o ponto de partida para realizar o documentário?
Chaim Litewski -
Eu acho que a primeira vez que vi o Boilesen foi em 1968 numa reportagem, possivelmente na TV Tupi. No mínimo achei estranho que o presidente de uma firma importante como a Ultragaz estivesse diretamente associado aos militares, de uma maneira tão clara. Em abril de 1971, após o assassinato do Boilesen, me lembro perfeitamente de guardar os obituários, já com o intuito de, no futuro, escrever alguma coisa a respeito dele, pois nessa altura já se falava sobre uma ligação entre empresários e o aparelho repressivo da ditadura. Soube, através de amigos, que em 1977 saiu um livro sobre o Boilesen na Dinamarca - Likvider Boilesen, de Henrik Kruger, entrevistado no filme - até que, eventualmente, em fins de 1993, decidi fazer um documentário sobre o Boilesen.

ZH - Sobre o financiamento do empresariado à repressão, um dos entrevistados diz que muita coisa foi convenientemente varrida para baixo do tapete. Presumo que isso se deve ao fato de muitos desses financiadores, ou suas empresas, serem nomes conhecidos ainda em atividade. Alguma dessas revelações o surpreendeu ou até mesmo chocou?
Litewski  -
Como você, presumo que a razão pela qual esse tema continua sendo “tabu” se deve ao fato de que muitas das empresas continuam em atividade. Quanto a tua pergunta, não. Nenhuma revelação me chocou ou me surpreendeu muito.

ZH -  Sem esse apoio financeiro você acredita que a Oban seria realizada de qualquer forma?
Litewski -
Não tenho a menor dúvida de que, com ou sem a ajuda de empresários, a Operação Bandeirante teria sido realizada. A participação de empresários foi prática e simbólica ao mesmo tempo. Serviu para estreitar ainda mais as relações entre o governo militar e a classe empresarial que, obviamente, já existiam bem antes. Não esqueça que os empresários participaram ativamente do golpe militar em 1964.

ZH - Pelo que você apurou, houve financiamento semelhante em outros Estados ou essa foi uma relação criada pontualmente em São Paulo?
Litewski -
Aparentemente o apoio de empresários a repressão política ocorreu em outros estados. Ouvi historias sobre contribuições de empresários cariocas mas nunca tive acesso a provas concretas.

ZH - José Mindlin e Antônio Ermírio de Moraes são citados como exemplos de empresários que se recusaram a financiar a Oban. Foram os únicos ou apenas os mais representativos? 
Litewski -
Mindlin e Ermírio de Moraes são os mais citados. Mas certamente devem ter havidos muitos outros que se recusaram a contribuir. Ouvi dizer que o empresário do setor elétrico Kurt Rudolf Mirow, autor do livro A Ditadura dos Cartéis, também teria se recusado a contribuir, mas não tenho certeza.

ZH _ Quanto tempo você levou para reunir o farto material de arquivo que costura o filme e quais foram as maiores dificuldades nessa garimpagem?
Litewski -
O documentário foi feito episodicamente, num período de, aproximadamente, 16 anos. Estabeleci contato com vários tipos de arquivo em varias países. Esses arquivos - de documentos oficiais, fotos, filmes e vários outros - entenderam o tipo de projeto que estava realizando e, de maneira geral, ajudaram muitíssimo, facilitando acesso e busca de material relevante. Tenho certa experiência nesse tipo de trabalho. O problema de qualquer pesquisador é saber quando terminar a pesquisa. No meu caso acabou virando uma espécie de hobby. “Colecionava” informações sobre o período pesquisado. O maior problema foi ter acesso a documentos oficiais. Quando recebi o material do SNI sobre o Boilesen, me dei por satisfeito e pus um ponto final nas pesquisas.

ZH - O documentário também reúne vários entrevistados que ajudam a construir a imagem do Boilesen, grosso modo, entre santo e demônio.
Você buscou um equilíbrio entre as versões contraditórias sobre o personagem?
Litewski -
Absolutamente. Sempre achei fundamental que o documentário fosse um leque - ou colcha de retalhos - e que todos que, de alguma forma, tiveram alguma relação direta ou indireta com o personagem pudessem se manifestar. Minha opinião pessoal é que ninguém é de todo ruim ou bom. O Boilesen fez coisas positivas e negativas, como todos nos. Ele certamente gostava de coisas que muita gente dita “legal” gosta - futebol, amor, musica e bebida. Fez muita filantropia, ajudou estudantes e funcionários da Ultra. Mas ele era um sujeito violento, sem dúvida. E foi tremendamente anticomunista. Eu acho que ele tinha essa coisa de Jekyll e Hyde, essa enorme dualidade que fez dele um sujeito tão interessante. Como diz o Per Johns no documentário, ele é um verdadeiro ser ficcional pois carrega em si todas as contradições humanas…

ZH - Quais foram seus critérios na escolha dos entrevistados? Com quais deles foi mais complicada a negociação?
Litewski -
A maneira de como eu me aproximava dos possíveis entrevistados sempre foi a mesma, independentemente com quem eu falava. Sempre falei a verdade, que gostaria de realizar um documentário “multifacetário” sobre Boilesen e o surgimento da Operação Bandeirante. Que era um documentário 100 % bancado por mim, sem nenhuma ligação com meios de comunicação ou qualquer outra instituição, privada ou governamental. Fui muitíssimo bem recebido por todas as pessoas que quiseram conversar comigo. As pessoas falaram sobre o que quiseram. Muitas vezes diziam não saber sobre assuntos específicos. Tive, obviamente, que respeitar.  Sempre adiantei, em termos gerais, qual seriam os temas que iriam ser discutidos nas entrevistas. O único entrevistado que pediu as perguntas antecipadas foi o coronel Brilhante Ustra. Em vista da importância do depoimento dele para o filme não tive o menor problema em relação ao seu pedido. O critério foi que cada pessoa entrevistada deveria contribuir de alguma forma para um maior entendimento do personagem central e do período histórico retratado. Em alguns casos a negociação foi longa e complexa. Em outros casos foi bem mais simples. Obviamente muitos se recusaram a falar. Outros falaram em “off”. Ao final, conseguimos gravar umas 50 ou 60 entrevistas.

ZH -  Como foi a negociação com o filho do Boilesen? Ele impôs alguma condição específica para participar do filme?
Litewski -
Ninguém impôs nenhuma condição na participação do documentário. A negociação com o filho do Henning Boilesen foi bastante longa, talvez tenha demorado dois ou três anos para que ele finalmente concordasse participar do documentário. Dissemos para ele as mesmas coisas que dissemos para as outras pessoas. Tudo foi feito de uma maneira clara e transparente.

ZH - Você procura dar voz ao contraditório, mas logicamente a figura que toma a maior dimensão no filme é do Boilesen dissimulado e sádico. Você tentou, na medida em que isso fosse possível nesse caso, deixar o julgamento do Boilesen a cargo do espectador?
Litewski -
Essa contradição que você se refere me atraiu muito e foi uma das principais razoes em realizar o documentário. Essas dicotomias ficcionais clássicas, bem/mal, amor/ódio, sempre garantem que haverá conflito e drama - elementos fundamentais numa “boa história”. Na literatura, um dos principais exemplos disso é sem duvida, Jekyll e Hyde de Robert Louis Stevenson. Essa dicotomia faz com que a historia pessoal de Boilesen se torne ainda mais fascinante. Mas ao final cabe o espectador decidir.

ZH -_ Você foi até a Dinamarca investigar o passado do Boilesen, revelando inclusive que ele foi uma criança que sentia prazer em ver colegas de escola castigados. Isso enriquece a perfil sobremaneira. Foi um opção sua desde o começo do projeto, dado que, imagino, isso tenha provocado um significativo aumento no orçamento da produção?
Litewski -
Eu acho muito importante a parte do documentário que fala sobre a infância de Boilesen. Eu contratei um jornalista bastante conhecido na Dinamarca, Ojvind Kyro, que me ajudou na pesquisa e produção em Copenhague. Outro jornalista dinamarquês, Niels von Kohl, também me ajudou bastante. Realmente a nota escrita por um professor de Boilesen no seu cartão escolar - sobre o fato de que ele aparentava sentir um certo prazer em ver outros meninos da sua escola sendo punidos - foi surpreendente tanto para mim como para as pessoas que trabalham no Arquivo Municipal de Frederiksberg. Mas eu acho que não se pode julgar nenhum ser humano somente por uma nota num cartão escolar. Somos seres muito complexos, todos nos. Em relações aos custos da filmagem na Dinamarca: foram altos porque Dinamarca é um pais caro.

ZH - Você acredita que o Boilesen, por ser estrangeiro, possa ter tido um bode expiatório conveniente para simbolizar essa parceria entre os empresários e a repressão, como sugerem alguns de seus defensores? Existiriam “Boilesens” nacionais com papel tão relevante como o dele, mas que agiram de forma mais discreta e permaneceram nas sombras?
Litewski -
Com certeza. De maneira geral os outros empresários foram bem mais discretos (isso é dito com clareza num documento sobre o Boilesen que descobrimos no arquivo do SNI). O Boilesen por ser estrangeiro, falastrão e muito vaidoso serviu de bode expiatório. Existiram muitos outros Boilesens brasileiros que permaneceram nas sombras e devem ter tido seguramente papeis tão relevantes quanto o de Boilesen. Cabe aos historiadores e jornalistas interessados descobrir quem são esses outros personagens.

ZH- Nesse momento em que se discute no Brasil mudanças na legislação para permitir a punição de torturadores, você acredita que filmes como Cidadão Boilesen possam manter viva a memória sobre os crimes praticados no período?
Litewski -
Cidadão Boilesen serve exatamente para isso: discussão. Ficaria muito feliz se o documentário servir para que se mais fale, escreva e filme esse assunto. A história do período militar brasileiro, dentro do contexto da Guerra Fria, deve continuar sendo discutida. Cidadão Boilesen nada mais é do que uma pequena contribuição a essa discussão. Quanto a punição aos torturadores, o país possui meios legais para decidir se essas pessoas devem ou não serem julgadas. Mas é essencial que se abra os arquivos históricos. Sem acesso aos documentos oficiais tudo vira suposição e especulação.

  • Share/Save/Bookmark

O novo petardo dos Coen

Depois da consagração com Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) e Queime Depois de Ler (2008), os irmãos roteiristas e diretores Ethan e Joel Coen parecem ter conseguido manter o alto nível em Um Homem Sério (2009), filme que tem estreia nacional no Brasil marcada para 19 de fevereiro.

A crítica norte-americana aplaudiu e mesmo aquela parcela dos espectadores que estranhou Onde os Fracos Não Têm Vez recebeu muitíssimo bem o longa de humor negro sobre um professor de Física do meio oeste que vê sua vida naufragar em fracassos até que resolve pedir ajuda a três rabinos - ele é judeu. Isso que o elenco de Um Homem Sério, diferentemente dos dois títulos anteriores, sobretudo Queime Depois de Ler, não traz atores que se possam considerar chamarizes de público.

Os Coen, pode-se dizer, estão se aproximando de uma quase unanimidade que não é muito frequente no cinema contemporâneo, marcado pelo grande distanciamento entre a produção de caráter mais autoral e aquela apreciada pelo grande público. No início do primeiro dos dois vídeos abaixo há um apanhado dos elogios publicados na imprensa sobre Um Homem Sério. É algo comum em se tratando de uma peça concebida pelos próprios produtores do filme em questão, mas, neste caso, vale a pena reparar no que dizem esses elogios.

Na sequência desse vídeo de apresentação do longa, que inclusive tem entrevista com os realizadores de Fargo (1996) e Barton Fink (1991), segue o trailer oficial de Um Homem Sério. Legendado (o vídeo anterior, infelizmente, não encontrei com legendas em português).

  • Share/Save/Bookmark

Estrangeiros do Oscar 2010

Produção alemã A Fita Branca, dirigida pelo austríaco Michael Haneke
Produção alemã A Fita Branca, dirigida pelo austríaco Michael Haneke

A Fita Branca, de Michael Haneke, escolhido para representar a Alemanha, é de cara um postulante ao Oscar de filme estrangeiro de 2010. Além de realizado primorosamente, o longa, Palma de Ouro no Festival de Cannes, aborda um tema caríssimo em Hollywood: o nazi-fascismo.

Mas não é o único favorito na disputa. O elogiadíssimo Um Profeta, de Jacques Audiard, representante da França, também premiado em Cannes, e o italiano Baarìa, de Giuseppe Tornatore, surgem como dois dos principais candidatos à lista dos indicados. Esses três concorrem à categoria no Globo de Ouro juntamente com o chileno La Nana, de Sebastián Silva, e o espanhol Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar.

Um Profeta, longa de Jacques Audiard premiado em Cannes
Um Profeta, longa de Jacques Audiard premiado em Cannes

Embora as regras do Oscar tenham mudado, e a Academia de Cinema dos EUA possa indicar um filme que não foi eleito para representar o seu país, convém lembrar que La NanaAbraços Partidos foram preteridos em seus países de origem e não figuram entre os 65 pré-indicados. Esse também é o caso do uruguaio Gigante, de Adrián Biniez. O representante uruguaio na disputa é Meu Dia para Pescar, de Alvaro Brechner. O chileno é Dawnson - Isla 10, de Miguel Littin, e o espanhol, El Baile de la Victoria, de Fernando Trueba.

Baarìa é o mais recente longa do italiano Giuseppe Tornatore
Baarìa é o mais recente longa do italiano Giuseppe Tornatore

É bom lembrar também que preciosidades como o sueco Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson, o turco 3 Macacos, de Nuri Bilge Ceylan, e o francês Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, entre outros, embora tenham estreado no Brasil em 2009, foram lançados originalmente em 2008 - e, por isso, estão fora do páreo.

Uma enxuta lista de filmes que surgem com pinta de favoritos entre os selecionados dos 65 países que enviam os seus representantes está abaixo:

> Alemanha: A Fita Branca, de Michael Haneke*
> Argentina: El Secreto de Sus Ojos, de Juan José Campanella**
> Austrália: Samson and Delilah, de Warwick Thornton**
> Brasil: Salve Geral, de Sergio Rezende****
> Coreia do Sul: Mother, de Bong Joon-ho**
> Espanha: El Baile de la Victoria, de Fernando Trueba**
> França: Um Profeta, de Jacques Audiard*
> Itália: Baarìa, de Giuseppe Tornatore**
> Peru: A Teta Assustada, de Claudia Llosa***
> Romênia: Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu***

* Estreia garantida em 2010 no Brasil
** Aguarda distribuidora para ser exibido por aqui
*** Já estreou no circuito brasileiro
**** Estreou no Rio e em SP e não tem previsão de estreia em Porto Alegre

Mother, de Bong Joon-ho, foi indicado ao Independent Spirit Awards
Mother, de Bong Joon-ho, foi indicado ao Independent Spirit Awards

  • Share/Save/Bookmark

Música no cinema

Eric Elmosnino encarna Serge Gainsbourg, com Lucy Gordon no papel da modelo e musa Jane Birkin
Eric Elmosnino encarna Serge Gainsbourg, com Lucy Gordon no papel da modelo e musa Jane Birkin

Uma recente safra de cinebiografias passou em revista vida e obra de ídolos da música como Ray Charles, Johnny Cash,  Bob Dylan, Edith Piaf e Ian Curtis. Os próximos projetos do gênero, entre realizados e anunciados, mantêm a diversidade de ritmos e a relevância artística dos homenageados.

Dos filmes já concluídos, três se destacam: Serge Gainsbourg, Vie Héroïque tem como personagem o grande ídolo da música francesa que transitou pelos mais diferentes estilos musicais e se tornou uma referência do pop contemporâneo. O longa sobre a trajetória do autor do sussurante hit erótico Je T’aime moi non Plus estreia em janeiro na França e chama a atenção pela impressionante caracterização do ator Eric Elmosnino como Serge - que é pai da atriz e cantora Charlotte Gainsbourg. Com estréia prevista para este final de semana na Inglaterra, Nowhere Boy tem foco na infância e adolescência de John Lennon, destacando seus conflitos familiares, a paixão pelo rock’n'roll e a amizade com George Harrison e Paul McCartney, com quem faria história nos Beatles. Em março, entra em cartaz, nos EUA, The Runaways, que passa em revista a história da seminal banda de rock dos anos 1970 formada por garotas ainda adolescentes. No elenco estão Kristen Stewart (a Bella da saga Crepúsculo), como a guitarrista Joan Jett, e Dakota Fanning, no papel da cantora Cherie Currie - leia mais sobre esse filme no post abaixo.


Na lista de cinebiografias anunciadas, tem Michael Douglas vivendo o pianista Liberace - com Matt Damon de guarda-costas e amante do espalhafatoso músico. Bob Marley está no centro de uma disputa entre sua viúva, Rita, que desenvolve um longa de ficção, e o cineasta Martin Scorsese, que toca um documentário sobre o ídolo do reggae - a pendenga envolve os direitos de uso das músicas de Marley.

Enquanto isso, o comendiante Mike Myers ainda tenta encenar seu tributo a Keith Moon, o mítico maluquinho baterista do The Who, e o produtor Thomas Tull (de Wacthmen) garante que sai seu filme sobre o guitarrista Jimi Hendrix - os músicos Lenny Kravitz e André Benjamin (do Outkast) estão na lista de candidatos ao papel. Já a cinebiografia de Freddie Mercury parece distante, embora tenha sido especulado que o cantor do Queen seria revivido por Sacha Baron Cohen - que fica bem de bigodão, como mostrou em Borat.



  • Share/Save/Bookmark

The Runaways, enfim

Demorou, mas finalmente vem aí o filme que promete contar a história da primeira grande banda de garotas do rock, as riot girls conhecidas como The Runaways. Formado nos EUA em 1975, o grupo pintou na cena pré-punk no embalo do glam rock e já flertando com o som que vinha sendo apresentado por nomes como Ramones. À frente, entre algumas mudanças na formação, de quinteto a quarteto, despontaram três gatas ainda adolescentes: a morena Joan Jett (guitarra) e as loiras Cherie Currie (voz) e Lita Ford (guitarra).

No filme The Runaways, dirigido pela italiana Floria Sigismondi, elas são interpretadas, respectivamente, por Kristen Stewart, a Bella da saga Crepúsculo, Dakota Fanning, conhecida pela penca de filmes que faz desde criança, e Scout Taylor-Compton, sem nada relevante no currículo.

As Runaways estouraram logo de cara com o hit Cherry Bomb - alusão ao perído de TPM das minas - e tiveram um grande êxito em turnês com ingressos esgotados, subretudo no Japão. Mas rivalidades internas e um tanto de preconceito no universo machista do rock à época - que estranhava belas garotas combinando peso e melodia com temas juvenis como farra, pegação, escola e família - levariam à dissolução do grupo ainda naquela década.

Na carreira solo, Joan Jett se saiu superbem lapidando o som que fazia nas Runaways e conseguiu enorme sucesso com hinos roqueiros do porte de I Love Rock ‘n’ Roll e Bad Reputation. Lita Ford, nem tanto, sobretudo por ter investido na onda do metal farofa poser oitentista - a jaqueta de couro mostrou ter mais fôlego que o laquê e as lantejoulas. Cherie também tentou seguir sozinha, mas não vingou nem na música e tampouco no cinema.

Confira na sequência o trailer do filme The Runaways e momentos marcantes da banda e de Joan Jett solo.

  • Share/Save/Bookmark

A Alice de Tim Burton

É qualquer coisa fora de série o visual deste novo Alice in Wonderland, provavelmente Alice no País das Maravilhas no Brasil, se os distribuidores não se perderem na tradução.

Pela expectativa criada, o novo Tim Burton é candidato a ser um dos melhores, se não o melhor trabalho do visionário cineasta de 51 anos - eles, Burton e a fábula fantástica de Lewis Carroll, não parecem ter sido feitos um para o outro?

O longa estreia nos Estados Unidos em março, dois dias antes do Oscar 2010.

Por aqui? Eu é que não sei.

Esta semana a Disney liberou o segundo trailer. Dá uma olhada abaixo. E aproveita para ver, na sequência, o trailer anterior e um vídeo com a caracterização de alguns dos personagens - Mia Wasikowska como Alice, Johnny Depp como o chapeleiro maluco, Helena Bohnam Carter como a Rainha de Copas, Anne Hathaway como a Rainha Branca.



Mia quem?, você pode ter se perguntado.

Pois é, a protagonista do filme é uma atriz australiana de 20 anos, longos cabelos loiros e crespos que, depois da Alice de Tim Burton, já foi recrutada para o novo longa de Gus Van Sant e para uma nova versão de Jane Eyre, livro de Charlotte Bronte adaptado nos anos 1990 pelo diretor italiano Franco Zeffirelli.

Mia Wasikowska também já filmou com realizadora indiana Mira Nair (Amélia, lançado em 2009 e inédito no Brasil), com o cineasta Edward Zwick (Um Ato de Liberdade, 2008) e com o ator Sam Worthington, o protagonista do Avatar de James Cameron. Com Worthington a atriz esteve num tal de Morte Súbita (2007).

Ao que tudo indica, no entanto, os astros e as estrelas da Alice de Tim Burton deverão ser as figuras amalucadas com as quais ela depara quando cai na toca do Coelho Branco, dando início à jornada fantástica relatada no livro de Carroll.

  • Share/Save/Bookmark

No Brasil, “Guerra ao Terror” só em DVD

Cena do filme Guerra ao Terror
Cena do filme Guerra ao Terror

ATUALIZAÇÃO: a Imagem Filmes acaba de nos informar que - em razão da dimensão que o filme tomou, tema deste comentário - vai lançar Guerra ao Terror nos cinemas brasileiros, em 5 de fevereiro de 2010.

Como será que a distribuidora nacional de Guerra ao Terror está lidando com essa? O filme lançado no Brasil direto em DVD, em abril, indicativo da pouca fé em seu desempenho nos cinemas, se tornou um dos grandes destaques da temporada, circulando em importantes festivais sob ótima recepção da crítica. E agora vence importantes prêmios no aquecimento do Oscar, festa na qual, aliás, sua presença já é dada como certa, ainda mais que aumentou para 10 a lista de indicados a melhor filme.

Nesta terça-feira, Guerra ao Terror ganhou três importantes indicações ao Globo de Ouro: melhor filme em drama, melhor direção, para Kathryn Bigelow, e melhor roteiro. O longa já foi eleito o filme do ano pelos críticos de Nova York,  Kathryn venceu como diretora a votação da crítica de Washington, e o ator Jeremy Renner teve sua performance reconhecida pela prestigiada National Board of Review, a associação dos críticos dos EUA, como ator revelação.

Em Guerra ao Terror, Kathryn (diretora de filmes como Caçadores de Emoção) mosta o cotidiano no Iraque de um grupo de militares especialistas em garimpar e desarmar explosivos. Em sequências muito bem encenadas e de extrema tensão, o filme destaca dramas e conflitos de personagens que vivem cada dia como se fosse o último, tamanho é o risco de ir pelos ares em uma de suas missões. Curioso é que a capa do DVD brasileiro busca vender o filme com nomes de atores conhecidos que ficam apenas minutos em cena, como coadjuvantes: Ralph Fiennes, Guy Pearce e David Morse. Outra curiosidade é que o longa saiu em DVD no Brasil antes mesmo de seu lançamento comercial nos EUA e Europa, que só embalou neste segundo semestre.

Quando vi o fime achei bom, tenso, interessante nesse peculiar recorte que faz do literalmente explosivo dia a dia no front iraquiano. Mas nada que se compare, por exemplo, ao sensacional, contundente e solenemente ignorado por aqui Redacted, de Brian de Palma (não custa colocar também o trailer deste mais uma vez aqui no blog).

  • Share/Save/Bookmark

Onde os monstros têm vez

Falam muito de Avatar, e seguem falando muito de Avatar, mas eu vou confessar que tenho mais vontade de ver este filme aqui, ó:

Chama-se Where The Wild Things Are e é o novo longa de Spike Jonze, o diretor de Adaptação, Quero Ser John Malkovich, muitos videoclipes legais etc. No Brasil, o título será Onde Vivem os Monstros. A estreia nacional, por aqui, está prevista para fevereiro.

A música espetacular do trailer é cortesia da banda Arcade Fire (que já fez um show antológico em Porto Alegre) e está no disco igualmente espetacular intitulado Funeral.

Postado por Daniel Feix

  • Share/Save/Bookmark

Quatro mestres e o anti-semitismo

Quatro dos melhores cineastas do planeta resolveram se debruçar sobre o mesmo tema em seus últimos filmes. Não se trata de algo tão inusitado tendo em vista que esse tema é, por assim dizer, o já batido nazismo/anti-semitismo. Mas, como se tratam de realizadores muito diferentes entre si, e de abordagens todas tão pertinentes quanto incomuns, eu diria até inusitadas, o painel que acabam formando é dos mais interessantes.

Lhes digo que vi os quatro e gostei de todos, especialmente os dois primeiros da lista abaixo. Obras de mestres mesmo.

A Fita Branca, de Michael Haneke (Áustria/Alemanha/França)
Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, distribuição garantida no Brasil pela Imovision, é uma das obras-primas do diretor de Caché, A Professora de Piano e Violência Gratuita. Rodado todo em preto e branco, com uma fotografia ao mesmo tempo soturna e deslumbrante e com quase todos os atores desconhecidos do público internacional, o filme narra uma série de acontecimentos estranhos numa pequena comunidade do norte da Alemanha, pouco antes do início da I Guerra Mundial. São atos de violência e intolerância, alguns relacionados a crianças e à forma como a disciplina ajuda a moldar o seu comportamento, o que reforça a ideia de formação das gerações que propagariam a ideologia nazi-fascista. Absolutamente perturbador.

Adam Resurrected, de Paul Schrader (EUA/Israel/Alemanha)
Esse nem título em português tem, apesar de ter sido lançado lá em 2008. Talvez sequer estreie no Brasil, embora tenha sido exibido na Mostra Internacional de São Paulo de 2009. Seu argumento é tão ou mais inquietante quanto o de A Fita Branca: Jeff Goldblum, naquele que talvez seja o papel da sua vida, é um artista de circo que foi preso pelos alemães durante a II Guerra mas acabou poupado da camara de gás para “entreter” os outros judeus enquanto eles caminhavam para a morte. Sua história, incluindo os detalhes mais sórdidos, como a obrigação de se comportar literalmente como um cachorro para divertir os nazistas, é revivida a partir de suas lembranças em um sanatório construído em Israel. Tem alguns dos diálogos mais impressionantes dos últimos tempos. E uma mise-en-scène impecável. Filmaço.

Mais Tarde Você Vai Entender, de Amos Gitai (França/Israel/Alemanha)
A senhora que você vê no pôster acima é Jeanne Moreau, ela mesma, interpretando a mãe de um homem que busca solucionar o misterioso desaparecimento de seus avós - no caso, pais da mulher. Ele, que é vivido por Hippolyte Girardot, até tenta conversar, mas ela não gosta de falar sobre o assunto. Ao investigar o caso e descobrir que os velhos foram assassinados pelos nazistas durante a ocupação de Paris na II Guerra, vai descobrindo também porque a própria tradição judaica da família foi sendo corroída ao longo dos anos. Tudo daquele jeito que os conhecedores da obra do israelense Gitai (de Kedma, Kippur e Free Zone) já estão acostumados - Mais Tarde Você Vai Esperar é um filme enxuto, cheio de lacunas narrativas e composto de poucas sequências, quase todas costituídas de um único e longo plano. Em Porto Alegre, passou no recente Festival Varilux, mas não tem previsão de estreia no circuito.

Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino (EUA)
Todos já devem ter visto nos cinemas, e quem ainda não o fez eu aconselho a recuperar o tempo perdido - o DVD não deve demorar muito a ser lançado. Neste filme, que é estrelado por Brad Pitt e Christoph Waltz (em interpretação antológica) e que narra a cruzada de um grupo de assassinos de nazistas durante a II Guerra, o eterno adolescente Tarantino, o mais abobado entre os mestres da arte de filmar, rearranja a própria história do século 20 e cria uma série de situações inverossímeis buscando levar o espectador a um prazer cinematográfico pleno, genuíno: ao mesmo tempo em que é envolvido por cenas construídas com um rigor absoluto, de texto, montagem, interpretação, criaçao de clima de suspense, humor ou drama, às vezes tudo isso simultaneamente, o público também se sente vingado pela barbárie que foi o Holocausto. Êxtase, no mínimo, em dobro - se todos os filmes fossem assim…

Postado por Daniel Feix

  • Share/Save/Bookmark
busca