Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "cinema gaúcho"

Gramado 2014: alguns comentários sobre o festival

19 de agosto de 2014 0

O 42º Festival de Gramado teve bons filmes, melhorou em diversos aspectos a sua infraestrutura, mas teve, na cerimônia de entrega dos Kikitos, um desfecho um tanto estranho. O júri dos longas-metragens brasileiros fez uma grande confusão, garantindo que sete dos oito títulos em competição saíssem premiados do evento.

A Estrada 47, de Vicente Ferraz, foi eleito o melhor filme, e mais nada – ao menos nas principais categorias. Sobraram troféus para A Despedida, de Marcelo Galvão, e Infância, de Domingos Oliveira, alguns, inclusive, inusitados. Foi o caso de um segundo prêmio especial do júri para Fernanda Montenegro (por Infância), que enfraqueceu a escolha de Juliana Paes como melhor atriz (por A Despedida), e do Kikito de ator coadjuvante para Paulo Betti, que tem o principal papel masculino em Infância, mas que não tinha como competir com Nelson Xavier, eleito o melhor ator por A Despedida.

Esse jeitinho de contemplar a todos é simpático para com os artistas, mas dificulta que se estabeleçam juízos de valor, o que vai na contramão das propostas dos principais festivais do mundo. Para reflexão: os 39 prêmios de Gramado superam o dobro do que é concedido em Cannes, Berlim e Veneza.

Unificar as competições de longas brasileiros e latinos, além de tudo, valorizaria os títulos estrangeiros, que demonstraram sensível melhora na comparação com os anos anteriores – mas que têm seu interesse diluído em meio à disputa nacional. É necessário dizer que Gramado 2014 terminou sem apresentar filmes arrebatadores, ou mesmo que tenham sido unanimidade entre público e críticos presentes. Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, e A Luneta do Tempo, de Alceu Valença, foram os mais inventivos títulos em competição, mas venceram apenas, respectivamente, o prêmio da crítica e os troféus de trilha musical e direção de arte.

No ano em que o Rio Grande do Sul voltou a ganhar a competição de curtas (com o surpreendente Se Essa Lua Fosse Minha, produzido por alunos da Unisinos com a direção de Larissa Lewandowski), Gramado fez algumas lições de casa dignas de nota. Uma delas foi incorporar legendas em espanhol aos filmes brasileiros, o que permitiu que os convidados dos países vizinhos (não são poucos) pudessem fruí-los. Também houve mais gente dentro do Palácio dos Festivais, o que tem muito a ver com a diminuição do preço dos ingressos.

Um júri mais decidido e uma curadoria um pouco menos política (não foi a melhor seleção já feita, ao contrário do que disse Rubens Ewald Filho ao site de ZH na tarde anterior à cerimônia de entrega dos Kikitos) tornariam o festival ainda melhor.

Pílulas de Gramado 2014

> Os filmes que ficam
A grande atuação de Fernanda Montenegro e a mão afinada do diretor Domingos Oliveira devem garantir uma distribuição digna a Infância, longa inspirado nas memórias de criança do cineasta que é, de longe, seu filme com produção mais caprichada (custou R$ 2 milhões, 20 vezes mais do que Juventude). A Luneta do Tempo e Sinfonia da Necrópole têm mais a dizer, mas seu hermetismo e sua irregularidade devem dificultar suas carreiras no circuito comercial. Os cinco concorrentes latinos sofrem de um mal parecido: têm pouco apelo e não são exatamente arrebatadores, o que quer dizer que não vai ser fácil você ter a chance de ver algum deles nos cinemas.

> Justa exaltação do passado
Gramado demonstrou sabedoria ao olhar para o futuro recordando quem fez a sua história. A sentença vale tanto para debates como o que reuniu decanos da crítica gaúcha (Hiron Goidanich, o Goida, Enéas de Souza e Hélio Nascimento) quanto para as escolhas dos homenageados, o fotógrafo Walter Carvalho (Troféu Eduardo Abelin) e os atores Flávio Migliaccio (Troféu Oscarito) e Jean Pierre Noher (que, ao receber o Kikito de Cristal, lembrou de sua consagração com Um Amor de Borges, no festival de 2001).

> Festival de grandes atores
Único premiado aplaudido de pé, Nelson Xavier foi a grande atuação de Gramado 2014. O festival teve várias interpretações marcantes, das chilenas Paulina García e Valentina Muhr (Las Analfabetas), do uruguaio Felipe Dieste (El Lugar del Hijo), dos paulistas Luciana Paes e Eduardo Gomes (Sinfonia da Necrópole). Consagrar Juliana Paes, como a amante do velhinho vivido por Nelson Xavier em A Despedida, foi uma decisão arriscada e  louvável do júri, ainda que enfraquecida pelo prêmio especial para Fernanda Montenegro.

> As figuras mais marcantes
Alceu Valença foi o cara em Gramado 2014. Cantou, contou histórias e até imitou animais – houve quem classificasse o debate de seu filme A Luneta do Tempo como coletiva-show. Mas quem realmente “causou” foi o animador paulista Caio Ryuichi Yossimi. No Palácio dos Festivais, ele fez lembrar Lady Gaga (para alguns, Ru Paul) com seu figurino extravagante que emulava o visual do protagonista de seu curta de tema gay O Coração do Príncipe.

> Por mais e melhores espaços
Com ingressos a R$ 20 (já custaram R$ 100, alguns anos atrás), o público no Palácio dos Festivais cresceu. Mas é preciso mais. Gramado tem muitos convidados com lugar reservado no cinema, e vários deles não vão ver os filmes, o que deixa a sala longe de estar cheia. A falta de wi-fi nos espaços do evento e de restaurantes abertos ao fim das sessões, após a meia-noite, são outros aspectos que também precisam melhorar.

> O discurso contundente
O cinema brasileiro não vai tão bem para que um festival inteiro do porte de Gramado se realize sem maiores discussões sobre estética e mercado. O único discurso com alguma carga política de todo o evento foi enviado por Domingos Oliveira, para ser lido no Palácio dos Festivais. O diretor de Infância propôs o uso da expressão “filme útil” em lugar de “filme de arte”. Foi um jeito sutil de exaltar o cinema com conteúdo em detrimento das bobajadas que invadem as salas. Sutil mesmo. Ainda assim, foi o mais contundente discurso do 42º Festival de Gramado.

Série "Ocidentes" leva à TV histórias representativas das diversas fases do mítico bar do Bom Fim

06 de junho de 2014 0

Em exibição nesta semana na TVE, a série Ocidentes recria o ambiente do tradicional bar da esquina da João Telles com a Osvaldo Aranha que foi, ao mesmo tempo, cenário e personagem das mudanças comportamentais que acompanharam a capital gaúcha nas últimas quatro décadas. São quatro dramas fictícios que espelham dilemas e personalidades de seus frequentadores, artistas de várias linguagens entre eles, que por ali passaram desde que o Bom Fim era o bairro boêmio de Porto Alegre por excelência.

E isso é um elogio: as diversas fases do Ocidente estão todas ali, muito bem representadas pelos olhares de diretores que testemunharam a história que agora retratam. Mérito do mentor da série, o cineasta Fabiano de Souza, e de seu sócio, Milton do Prado, que assina a montagem e a produção-executiva de todos os episódios (esta última função juntamente com Jéssica Luz e o próprio Fabiano): foram eles que escolheram Carlos Gerbase para dirigir o trecho relativo aos anos 1980, Bruno Polidoro para o dos 2000 e João Gabriel de Queiroz para o dos 2010, além de Fabiano, ele mesmo, para o dos 1990.

Comecemos por aí, a década em que dava para ver Pulp Fiction (1994) no Baltimore ou passar pelo Bar do João antes de assistir a Júpiter Maçã berrando “Walter Victor tomador de panca” no palco do Oci. Com diálogos lindos e citações precisas (a de “educação sentimental”, mencionando Foucault e Kid Abelha, é inspiradíssima), Fabiano de Souza narra o desenrolar de uma paixão adolescente ao longo de três anos de festas no lugar. Seu personagem principal (Guilherme Kury) é a encarnação de um tipo comum, o garoto mais jovem, e notadamente tímido, a observar uma musa mais velha na pista de dança, sempre deslumbrante e eventualmente namorando um roqueiro ou, no caso, o DJ.

A sensibilidade na composição dos personagens e na observação das situações se repete sobretudo no terceiro episódio, relativo aos anos 2000, que se passa em sua maior parte no fumódromo. Bruno Polidoro usa imagens da pista para demarcar a passagem do tempo, concentrando a ação propriamente dita nas tensões que se estabelecem naquele refúgio ao ar livre. Há algo de provocativo na maneira confusa (e amoral) com que se dão as aproximações dos frequentadores: um homem (Henrique Larré) flerta com uma mulher (Carolina Sudati), que por sua vez flerta com o homem (Márcio Reolon) que havia flertado com o primeiro homem – e o espectador, no meio da fumaça daqueles cigarros compartilhados, tem uma boa ideia de um conceito, o do amor livre, que encontra guarida no Ocidente desde sempre.

É curioso, nesse sentido, comparar o episódio de Polidoro com aquele dirigido por Carlos Gerbase, que faz referência à década de 1980. Gerbase explora as tensões de bastidores de uma banda formada por mulheres – aí incluída uma paixão mal resolvida, tapas, beijos, sexo, drogas e punk rock. Em contraposição à sutileza de Polidoro, que opta pelos silêncios e pelas sugestões para evidenciar os conflitos dramáticos de sua história, Gerbase aposta essencialmente nos diálogos para estabelecer a comunicação – entre os personagens e com o espectador.

Polidoro é mais sutil e também mais romântico. Vale usar as diferenças de abordagens entre ambos para fazer um paralelo comportamental que envolve a manifestação da homoafetividade em seu tempo. A verborragia da baterista punk que protagoniza o episódio mais antigo (Joana Vieira) é simbólica de um momento em que era preciso falar mais alto para marcar posição – e no qual o Ocidente servia como uma espécie de refúgio. Nos anos 2000, o refúgio segue lá, mas, não por acaso, foi ampliado e já não carrega mais tão fortemente a pecha de gueto.

Também parece ser geracional a opção pelo cinema narrativo e da palavra – é assim o estilo de Gerbase e de seus contemporâneos gaúchos, Jorge Furtado inclusive e principalmente. Se, no episódio que retrata o Oci dos anos 1990, Fabiano de Souza leva elementos desse tipo de filme à elaboração extrema (textos são reproduzidos sobre as imagens, constituindo algo próximo à poesia concreta), o trabalho de Polidoro vira a página, mudando a forma de pôr a juventude na tela. Entenda-se “forma” no sentido fílmico e de conteúdo propriamente dito. Os próprios tipos que circulam por seu filme parecem bem menos idealizados, o que certamente se justifica, ao menos em parte, pela proximidade histórica e a consequente falta de distanciamento para a sua construção.

Parece-me correto enxergar a trama situada no período pós-2010 como uma continuação – muito próxima, ressalte-se – do episódio cronologicamente anterior: em uma festa de formatura, os afetos revelam-se múltiplos e, sobretudo, multifacetados. Destaque, nos dois episódios recentes, para os planos com composições elaboradas e os belos jogos de luzes, no interior do inferninho e fora dele, no amanhecer da cidade silenciosa. É o próprio Polidoro quem assina a fotografia do episódio dirigido por João Queiroz, o que ajuda a constituir a unidade visual que os dois filmes revelam – e que serve ainda mais para aproximá-los entre si.

Em cada um dos quatro casos, de todo modo, independentemente de escolhas estéticas e de eventuais irregularidades que cada episódio possui, a capacidade de traduzir sua época é muito bem-sucedida. E sem concessões. Tanto que, embora integre a série Histórias do Sul, terá exibições nas noites de terça a sexta-feira apenas a partir da 1h30min, e não mais cedo, como ocorreu com os especiais que o antecederam.

A reprise dos quatro episódios, um atrás do outro, começa à meia-noite de sábado para domingo.

Um por um, os quatro episódios da série Ocidentes:

Anos 1980: As Bateristas Banda de punk rock formada por garotas é abalada quando sua ex-baterista volta de Londres e diz que vai reassumir seu lugar. De Carlos Gerbase. Com Joana Vieira, Tainá Gallo, Júlia Barth e Liege Massi.

Anos 1990: A Última Festa do Século Garoto chega ao Ocidente para a última festa de 1999 e lá reencontra, em memória, amigos que foram se dispersando nos anos anteriores, especialmente uma garota mais velha. De Fabiano de Souza. Com Guilherme Kury, Miriã Possani, Fred Vasques, Mateus Almada e Carina Dias.

Anos 2000: Cinco Cigarros e um Beijo Em uma noite, jovem de 20 anos vê a noite passar enquanto observa as pessoas no fumódromo e na pista de dança. De Bruno Polidoro. Com Henrique Larré, Márcio Reolon, Carolina Sudati, Samuel Reginatto, Eduardo Cardoso e Rafael Tombini.

Anos 2010: Aurora Em uma festa de formatura, dois amigos se despedem de uma garota que vai mortar no Exterior. De João Gabriel Queiroz. Com Filipe Rossato, Mirah Laline, Francine Kliemann, Natalia Karam, Martina Fröhlich e Maí Yandara.

Semana para discutir o cinema gaúcho

25 de março de 2014 0

Desde que o 27 de março foi instituído o Dia do Cinema Gaúcho, não passa um ano sem programações especiais para marcar a data. Nos últimos tempos, a efeméride incorporou aquele cheiro de algo novo que está no ar na produção cinematográfica local. Há mais longas sendo finalizados, em quantidade e variedade, e já não faltam mais filmes com uma cara mais contemporânea, a exemplo dos títulos citados três posts abaixo, Castanha e Beira-Mar. Dois outros projetos podem ser descobertos esta semana pelos porto-alegrenses: o documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, que Bruno Polidoro e Cacá Nazario dedicam a Caio Fernando Abreu (estreia na sexta-feira no Cine Santander e será debatido no sábado na mesma sala) e o ensaístico Terraqueos, de Frederico Ruas (filme composto da colagem de imagens de domínio público pescadas na internet que terá sessão de lançamento na Sala P.F. Gastal nesta quarta).

Além da estreia de Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes e da sessão (única) de lançamento de Terraqueos, há uma mostra para marcar a data montada pela P.F. Gastal e pela APTC (Associação Profissional dos Técnicos Cinematográficos do RS). Entre quinta e domingo, serão exibidos 28 curtas ou longas recentes produzidos no Rio Grande do Sul. Nas noites de sexta, sábado e domingo, a sala da Usina do Gasômetro vai sediar três debates sobre a produção local: O RS e o Exterior (sexta, às 20h30min), Fora do Fora do Eixo (sábado, às 20h30min) e Perspectivas (domingo, às 20h30min). Bom momento para discussão, não apenas sobre mecanismos de fomento, mas também sobre aspectos estéticos. Ainda que a perspectiva oferecida pelas novas produções seja de renovação (no início de 2014, havia mais de 20 longas em finalização no RS; dê uma olhada nesta matéria aqui), pode-se dizer que o cinema local precisa, e muito, de arejamento.

Jorge Furtado fala de jornalismo no documentário "O Mercado de Notícias". "Beleza" também vem aí

23 de março de 2014 0

Saiu o trailer de O Mercado de Notícias, documentário de Jorge Furtado. É o primeiro dos dois novos longas-metragens do cineasta gaúcho, a ser lançado ainda em 2014 (o outro é o drama Beleza). Trata-se, basicamente, de um filme sobre jornalismo – hoje e ontem. Mais sobre o projeto nesta matéria aqui (e, aqui, matéria sobre Beleza e entrevista com o diretor). Ao trailer:

Depois de Berlim, Castanha vai a Copenhague, Nova York, Buenos Aires e Hong Kong

20 de março de 2014 0

Bom gancho para reativar este blog cinéfilo: falar de Castanha, o primeiro longa de Davi Pretto e da Tokyo Filmes, recentemente apresentado no Festival de Berlim. E, mais do que isso, talvez o principal cartão de visitas (carta de intenções?) da geração que está trazendo uma energia renovadora, essencialmente contemporânea, ao cinema produzido no Rio Grande do Sul.

“Talvez o principal cartão de visitas” porque, em primeiro lugar, ainda não assisti a Castanha. Segundo: há outros projetos anunciados para breve que chamam muito a atenção, como Beira-Mar, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, da Avante Filmes, selecionado para o Cine En Construcción, a ser realizado em Toulouse, na França. A presença do Marcio e do Filipe neste laboratório pode ser um indício de que seu filme vá seguir os passos de Castanha e construir uma carreira em grandes festivais internacionais. Quem sabe?

Mas Castanha: depois de Berlim, Davi Pretto vai apresentar o filme no Hong Kong International Film Festival, e também na seção Competencia Internacional do Bafici, de Buenos Aires, no Art of the Real, em Nova York, e na principal mostra cinematográfica da Dinamarca, o CPH PIX, de Copenhague. Isso tudo apenas em abril.

No Brasil? Bom, melhor aguardar. A mim parece uma oportunidade de o cinema gaúcho de longa-metragem fazer algo que talvez (de novo o “talvez”, agora porque a memória falha) nunca tenha feito antes: disputar os troféus Redentor no Festival do Rio, hoje uma das mais valorizadas vitrines do cinema nacional.

O certo é que o pessoal da Tokyo pretende lançar Castanha comercialmente já no segundo semestre. A distribuição está garantida. No Brasil, na Alemanha, na Áustria e também na Suíça. Avante!

Veja o teaser/trailer abaixo e clique aqui para ler a reportagem da capa do Segundo Caderno de ZH, publicada durante as filmagens, em junho do ano passado:

O humor do Prata e a resistência cinéfila

23 de outubro de 2012 1

A histórica Cinemateca Uruguaia, de muitas lembranças para gerações mais antigas de cinéfilos gaúchos, ganhou um pequeno grande filme em sua homenagem. Dirigido por Federico Veiroj (corroteirista de 25 Watts e Whisky, ambos de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll) e protagonizado por Jorge Jellinek (crítico de Montevidéu) e Manuel Martínez Carril (ex- diretor da Cinemateca), A Vida Útil estreia nesta terça-feira no CineBancários.

É a primeira produção de fora do Brasil a chegar à Capital trazida pela distribuidora Vitrine Filmes, que tem oxigenado o circuito alternativo com os bons longas da nova geração brasileira. E é, em essência, um teste à emoção dos amantes do cinema – impossível não ficar comovido depois dos 66 minutos de projeção, tamanha afetividade com que a pacata rotina da instituição é recriada pelo jovem (de 35 anos) Veiroj.

Carril, figura carimbada do Festival de Gramado, interpreta a si próprio. Jellinek encarna o personagem principal, um funcionário da Cinemateca que passa os dias entre o trabalho burocrático em sua sede e a apresentação do programa de rádio usado para divulgar a sua programação.

Logo o espectador é levado a notar, por meio do esvaziamento das atividades da instituição e da melancolia do cotidiano retratado, a decadência do lugar. Parece que ainda estamos na década de 1950, impressão reforçada por opções estéticas que remetem a filmes daquele tempo, a exemplo da trilha sonora e da fotografia em preto e branco.

A situação reflete a crise da cinefilia contemporânea, em que as salas do chamado circuito alternativo, ou de arte, lutam para manter suas portas abertas e atrair a atenção do público. Mas A Vida Útil só é bem-sucedido (e muito!) por conta da maneira com que vislumbra esta crise: o grande lance do projeto é o humor contido em seu olhar, humor este que, muito longe do deboche, apresenta- se como uma forma distanciada e, por isso, madura de auto-observação. É mais ou menos o tipo de autoironia visto não apenas em Whisky ( 2004), mas em alguma parte dos títulos argentinos que cativaram tantos espectadores brasileiros nos últimos anos. Um tipo de ironia do qual o cinema nacional raramente faz uso, até porque ele tem mais a ver com a identidade dos países do Prata do que com a do Brasil.

A Vida Útil fica em cartaz em três sessões diárias pelo menos até 8 de novembro. Para os cinéfilos, é imperdível.

Histórica e resistente Cinemateca
Fundada em 1952, em Montevidéu, a Cinemateca Uruguaia foi o oásis dos cinéfilos gaúchos que lá conseguiam ver filmes proibidos ou mutilados pela censura no Brasil nos anos 1970. Seu precioso acervo conta com cerca de 12 mil títulos. A instituição atua na área de preservação, formação (mantém uma escola de cinema) e difusão (opera quatro salas de exibição). Organiza ainda um festival internacional que, em 2013, realizará sua 31ª edição.

Reflexões sobre o 40º Festival de Gramado

20 de agosto de 2012 4

Este artigo abaixo é a versão ampliada e reunida, como fora pensada originalmente, dos dois textos que saíram na página central do Segundo Caderno de ZH desta segunda-feira. Bem ampliada, como você pode ler a seguir. Na sequência, a lista completa dos premiados ganha rápidos comentários, algo que não saiu nem no jornal, nem no seu site.

Produzida em pouco tempo e com um grande corte de recursos, a festiva 40ª edição de Gramado ficará marcada por duas voltas por cima: a do próprio festival, que ainda pena para pagar dívidas de 2011, e a da mostra competitiva de longas nacionais, que pela primeira vez em muitos anos foi melhor do que a dos filmes latino-americanos.

Será lembrada também pela primeira exibição no Brasil de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho (o grande filme do evento), pela inconsistência de todas as produções vindas de fora do país (à exceção de Artigas, La Redota) e, também, por uma mudança no foco das atenções: com poucas celebridades na cidade, em Gramado 2012 falou-se mais de cinema do que dos desfiles sobre o tapete vermelho.

Com um misto de satisfação e alívio, os organizadores circulavam entre o Palácio dos Festivais e o QG do evento comemorando a perspectiva de continuidade de seu projeto – que foi implantado às pressas, pouco mais de três meses antes de seu início, quando uma intervenção federal bloqueou as suas contas a fim de regularizar as dívidas da 39ª edição. Ainda que dependa do resultado das eleições municipais para seguir tocando o festival (a coordenadora-geral Rosa Helena Volk acumula o cargo de secretária da Cultura de Gramado), a equipe já se permite planejar a 41ª edição.

“Temos contratos fechados para dois anos. Quem estiver à frente do festival no ano que vem terá tempo e tranquilidade para trabalhar e não precisará sair do zero em janeiro”, disse Rosa Helena, horas antes da cerimônia de entrega dos Kikitos.

Algo a ser discutido pelos organizadores em 2013, e que é fundamental para definir o perfil de Gramado, é a presença de artistas de televisão na Serra. A escassez desta edição se deveu principalmente ao aperto financeiro, mas nem por isso diminuiu o festival. O que é preciso saber é se o exemplo será seguido daqui por diante, se os organizadores estarão dispostos a investir dinheiro público (via leis de renúncia fiscal) em passagens, hospedagem e mordomias a celebridades de pouca ou nenhuma relação com o cinema ou, ainda, se investirão em parcerias com patrocinadores específicos para trazê-los, algo já realizado nas últimas temporadas.

A questão, vital em se tratando de Gramado, só poderá ser respondida quando a nova coordenação tomar a frente do evento. O que pode ser repensado desde já são alguns de seus aspectos curatoriais. Funcionou, por exemplo, o perfil de valorização de uma certa produção independente nacional, com realizadores já conhecidos mas que ainda estão no primeiro ou no segundo longa, como Rubens Rewald (de Super Nada), Matheus Souza (Eu Não Faço a Menor Ideia do que Tô Fazendo da Minha Vida) e Caetano Gotardo (O que se Move), além de Kleber Mendonça Filho (do já citado O Som ao Redor).

É preciso lembrar, aqui, que a divisão da mostra competitiva de longas-metragens em dois braços, um brasileiro e outro latino-americano, foi adotada devido à fragilidade dos títulos nacionais – premiar mais filmes estrangeiros ajudou a levar Gramado, por tantos anos um espelho confiável do bom cinema brasileiro, à sua propalada crise de identidade. Já que o festival parece ter reencontrado o caminho em seu braço doméstico, talvez seja a hora de se pensar em uma reunificação, o que diminuiria a quantidade de prêmios distribuídos (são mais de 30), aumentando o valor de cada Kikito oferecido.

No palco do Palácio dos Festivais, o apresentador Leonardo Machado anunciou a cerimônia de sábado como “a grande noite do cinema brasileiro e latino”. A frase só se tornará uma verdade se Gramado trabalhar no fortalecimento, também, de seu braço internacional. Enquanto os novos longas do mexicano Carlos Reygadas e do uruguaio Pablo Stoll emendam festivais internacionais desde sua première em Cannes, enquanto o Fantaspoa exibe em primeira mão o representante argentino na corrida do Oscar (Aballay, de Fernando Spiner), enquanto o novo Carlos Sorín dá sopa por aí, Gramado apresentou apenas cinco filmes latino-americanos, entre eles os precários Diez Veces Venceremos, vindo da Argentina, e Calafate, Zoológicos Humanos, do Chile. Este é um real desafio do festival serrano: tornar homogêneo, em sua proposta estética e no seu nível de qualidade, o recorte de longas-metragens exibidos.

O júri popular também demonstra ter perdido o sentido em sua fórmula atual – ele é constituído de cinéfilos escolhidos pelos críticos dos principais jornais do país, e não simplesmente pela plateia que assiste às sessões no Palácio dos Festivais. Mais uma vez, a decisão do júri popular de Gramado coincidiu com a do júri da crítica – os dois deram seu prêmio principal a O Som ao Redor. A escolha de ambos se mostrou mais ousada do que a do júri oficial – que preferiu Colegas. Levando-se em conta os princípios de cada categoria, trata-se de uma distorção.

É verdade que esta distorção também se deveu ao perfil do júri oficial, que não continha nenhum crítico em sua formação e acabou se deixando levar pela comoção causada por Colegas. O longa de Kleber Mendonça Filho é muito superior em sua construção narrativa e seu retrato impecável da vida da classe média nas grandes cidades pautada pela insegurança, pela grosseira desigualdade social e pela herança coronelista brasileira. Mesmo o drama cômico nonsense Super Nada e o belo e triste musical O que se Move poderiam ter superado Colegas: são dois filmes muitíssimo interessantes que levaram a mostra nacional de longas-metragens para um nível alto e em sintonia com a melhor produção brasileira contemporânea.

O que mais se discutiu nos bastidores de Gramado 2012 foi a anunciada – e não concretizada – premiação em dinheiro aos vencedores. É fato que oferecer uma bolada ajuda a motivar cineastas e produtores a inscreverem seus filmes. Mas há outros aspectos a serem repensados. De pé depois de uma nova queda, um dos mais tradicionais festivais do continente parece pronto repensá-los.

Longas-metragens brasileiros

Conservador, o júri oficial errou ao não reconhecer O Som ao Redor como melhor filme. Também poderia, em vez de ter escolhido Fernanda Vianna, ter dividido o prêmio de melhor atriz entre as três atrizes-cantoras de O que se Move (as outras duas são Cida Moreira e Andrea Marquee). Além de O que se Move, Super Nada também merecia mais. E Jorge Mautner: o Filho do Holocasto, não merecia tanto, sobretudo o prêmio de melhor roteiro. Os premiados:

Melhor filme: Colegas, de Marcelo Galvão
Melhor direção: Kleber Mendonça Filho, por O Som ao Redor
Melhor ator: Marat Descartes, por Super Nada, de Rubens Rewald
Melhor atriz: Fernanda Vianna, por O que se Move, de Caetano Gotardo
Prêmio especial do júri: Ariel Goldenberg, Breno Viola e Rita Pokk, protagonistas de Colegas
Prêmio da crítica: O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
Prêmio do júri popular: O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
Melhor roteiro: Jorge Mautner: O Filho do Holocausto, de Heitor D’Alincourt e Pedro Bial
Melhor fotografia: Jorge Mautner: O Filho do Holocausto
Melhor montagem: Jorge Mautner: O Filho do Holocausto
Melhor direção de arte: Colegas
Melhor som: O Som ao Redor
Melhor trilha sonora: Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!, de Ninho Moraes e Francisco César Filho

Longas-metragens latino-americanos

Artigas, La Redota, de Cesar Charlone, só perdeu os dois Kikitos que poderia perder. É um dos grandes registros audiovisuais do mito do gaúcho e foi disparadamente o melhor filme da mostra latina, até porque os demais decepcionaram – muito embora a fotografia de Leontina e o roteiro de Vinci tenham constituído premiações justas de parte do júri. A lista:

Melhor filme: Artigas, La Redota, de Cesar Charlone (Uruguai)
Melhor direção: Cesar Charlone, por Artigas, La Redota
Melhor ator: Jorge Esmoris, por Artigas, La Redota
Melhor atriz: não foi entregue pelo júri
Prêmio da crítica: Artigas, La Redota
Prêmio do júri popular: Artigas, La Redota
Melhor roteiro: Vinci, de Eduardo del Llano Rodríguez (Cuba)
Melhor fotografia: Leontina, de Boris Peters (Chile)
Menções honrosas: direção de arte e trilha sonora de Artigas, La Redota e trilha sonora de Vinci

Curtas-metragens

Foi uma das melhores mostras de curtas de Gramado em muitos anos. O baiano O Menino do Cinco, com seu retrato sensível do conflito de classes nas grandes cidades a partir da disputa de um menino de rua com outro da classe média pela posse de um cãozinho, era, de fato, o grande filme desta mostra. Mas Di Mello, o Imorrível, merecia mais lembranças. Os prêmios técnicos para o gaúcho Casa Afogada foram todos muito bem concedidos, e só fazem pensar que as produções locais poderiam ter sido mais lembradas na seleção, com curtas como Garry, de Richard Tavares e Bruno Carboni. Acompanhe a listagem completa dos vencedores:

Melhor filme: O Menino do Cinco, de Marcelo de Oliveira e Wallace Nogueira (BA)
Melhor direção: Gilson Vargas, de Casa Afogada (RS)
Melhor ator: Thomas Oliveira e Emanuel de Sena, de O Menino do Cinco (BA)
Melhor atriz: Sabrina Greve, de O Duplo (SP)
Prêmio especial do júri: A Mão que Afaga (SP)
Prêmio da crítica: O Menino do Cinco (BA)
Prêmio do júri popular: O Menino do Cinco (BA)
Melhor roteiro: O Menino do Cinco (BA)
Melhor fotografia: Casa Afogada (RS)
Melhor montagem: Di Mello, o Imorrível (SP)
Melhor direção de arte: Casa Afogada (RS)
Melhor som: Casa Afogada (RS)
Melhor trilha sonora: Funeral à Cigana (SP)
Prêmio Aquisição Canal Brasil: O Menino do Cinco (BA)

Da série Novidades do Cinema Gaúcho

01 de fevereiro de 2012 0

Saiu o trailer do longa Os Monarcas – A Lenda, em produção no Rio Grande do Sul:

De volta a Morro do Céu

03 de novembro de 2011 0

É sempre interessante, às vezes bem pertinente, saber como andam e o que fazem os personagens dos grandes documentários depois que seus filmes foram realizados e exibidos. No caso de Morro do Céu (2009), o ótimo longa gaúcho de Gustavo Spolidoro, a gente pode ter uma provinha do que anda fazendo Bruno Storti, seu protagonista, no vídeo abaixo. O Bruno é o menino de boné branco com aba amarela. O vídeo foi postado no YouTube com o título Método Mais Fácil de Tirar Anel, com um revelador “haha” ao final.

Sorti é um jovem morador da localidade de Morro do Céu, que fica no interior do pequeno município de Cotiporã, na serra gaúcha. Um pouquinho mais sobre o filme você pode ler neste post antigo deste blog. O teaser/trailer do filme está aqui.