
Depois de um retiro sabático, voltamos à ativa com breves impressões que acabaram limadas da nossa cobertura do Oscar (logo mais, estará por aqui a ótima série que o Daniel Feix está tocando sobre cinematografias pouco conhecidas de diferentes regiões do mundo).Vamos tentar manter a bola em jogo.
> Foi o fim da picada a entrada em cena de Michelle Obama para entregar o Oscar de melhor filme a Argo. A chancela da Casa Branca seria a mesma se o filme de Ben Affleck seguisse até o capítulo seguinte da mesma história, a presepada que foi a tentativa de resgatar os reféns da embaixada americana em Teerã? O filme, lógico, não tem culpa. Eu torcia pela improvável vitória de Amor e acho A Hora Mais Escura melhor que Argo.
> Se Michelle fosse na cerimônia como "pessoa física", ainda sim seria constrangedor e de mau gosto tornar explícita essa relação entre política e entretenimento — relação essa, evidentemente, que existe, tamanha é a presença e influência do cinema americano na cultura mundial, para o bem (pela circulação de seus bons filmes) e para o mal (pela imposição mercadológica dos filmes ruins), afora questões políticas e ideológicas que cabe a cada espectador fazer juízo. Mas torná-la um evento oficial, com estúdio montado dentro da Casa Branca para celebrar um filme que exalta a inteligência e o heroísmo de um agente da CIA, enfim, foi ideia de jerico.
> A ideia não seria menos infeliz se a vitória fosse de Lincoln, embora pudesse parecer mais simpática.
> Enfim, faltou a Michelle, à assessoria da Casa Branca e, principalmente, à Academia de Hollywood, de onde partiu o convite, bom senso e respeito à tal liturgia do cargo. E foi muito brega o quadro da primeira-dama deslumbrada cercada pela soldadesca sorridente em uniforme de gala.
> Dados para se ter uma ideia da importância histórica das cinco indicações de Amor, quatro delas em categorias nobres (filme, direção, atriz, roteiro original e filme estrangeiro). Michael Haneke conseguiu um reconhecimento equiparável ao de mestres como Fellini e Bergman. Com 8 1/2, Fellini chegou ao Oscar de 1964 com cinco indicações (direção, roteiro original e filme estrangeiro e duas técnicas), ganhando a de filme estrangeiro e figurino em preto e branco. As mais destacadas participações de Bergman no Oscar foram com Gritos e Sussurros, em 1974 — com cinco indicações, curiosamente não disputando como filme estrangeiro (filme, direção, roteiro original, fotografia, vencendo nessa, e figurino) — e com Fanny & Alexander, em 1984 — consagrado com quatro estatuetas (filme estrangeiro, fotografia, direção de arte e figurino) e indicado ainda em direção e roteiro original.
> Por ter entrado na briga não apenas como o agradecido figurante forasteiro, Amor merecia mais do que o protocolar e esperado Oscar de filme estrangeiro.
> Que tenha sido a primeira e última participação de Seth MacFarlane como apresentador. Sujeito mais sem graça (assim seu pavoroso filme do ursinho Ted). Depois de o Globo Ouro vir com Ricky Gervais e a ótima dupla Tina Fey/Amy Poehler, MacFarlane vem fazer humor rasteiro sobre não entender o que atores latinos falam, bancar o adolescente deslumbrado com os peitos das atrizes e tirar onda com os "perdedores". Para fazer humor grosseiro e politicamente incorreto é preciso talento e inteligência, atributos que lhe faltam.
> A homenagem aos 50 anos de James Bond no cinema podia ter isso além do burocrático videoclipe de filmes. Seria legal reunir os atores que viveram 007 no palco. Será que pensaram nisso? George Lazenby, o Bond renegado, iria na festa? Por onde anda Sean Connery? — seu último filme é de 2003, a Liga Extraordinária. Roger Moore está com 85 anos.
> Pelo menos Bond marcou presença pela voz ainda potente de Shirley Bassey ("Goooolllldfinnnnngaaaaa!") e de Adele, que fez do tema de Operação Skyfall um dos melhores da série.
> Adele, aliás, impressiona por seu longeva permanência do topo do cenário pop em tempos de celebridades efêmeras. Ela lançou o álbum 21 em janeiro de 2011 e, desde então, empilha prêmios pelos hits do disco que ainda vende como água. Quando baixava a poeira, vem o sucesso de Skyfall.
> Christoph Waltz é bom ator, mas ainda precisa mostrar isso fora dos filmes de Tarantino. Entre Bastardo Inglórios e Django Livre, ele fez vilões caricatos em filmes ruins como Os Três Mosqueteiros e Água para Elefantes e foi nada mais do que ok no Deus da Carnificina de Polanski.
> Faltou lembrar na homenagem aos mortos de Sylvia Kristel, nossa eterna Emmanuelle.
> A vitória, 10 anos atrás, de Chicago, filme do qual ninguém mais lembra (e que ganhou o Oscar concorrendo com O Pianista, de Polanski, e Gangues de Nova York, de Scorsese) serviu de pretexto para o tributo ao "renascimento" dos musicais, um tremendo exagero.
> Oscar é isso. Diferentemente dos grandes festivais, que lançam ao mundo filmes a serem descobertos pelos cinéfilos, a festa do Oscar é a celebração da grande firma Hollywood e de seus funcionários a filmes, em sua maioria, já vistos e badalados, ótimos, bons e ruins. É sempre bom torcer por nossos favoritos, reclamar pelos esquecidos e injustiçados. E para ver as beldades no tapete vermelho, saber quem morreu e quem está vivo e forte ou se arrastando.
> Mais gente conhece ela como a guria chatonilda e marrenta da saga Crepúsculo do que por Kristen Stewart.
> O que é de linda a Charlize Theron.