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Posts na categoria "cinema internacional"

E o Imax?

24 de maio de 2013 0

Avatar em 3D, O Hobbit em 48 quadros por segundo e agora o novo Jornada nas Estrelas (ou Star Trek, como queiram) no recém-chegado a Porto Alegre Imax 3D. São todas elas experiências que cumprem o que anunciam: colocar o espectador diante de uma experiência audiovisual diferenciada. Não digo impactante, porque essa é uma percepção individual que  independe de tecnologia — como se percebe diante de obras silenciosas e em preto e branco como A Paixão de Joana D'Arc, que Carl Dreyer apresentou em 1928.

A sala com projeção Imax, instalada no complexo Cinespaço do Bourbon Wallig, foi apresentada na noite desta quinta-feira, com a sessão especial de Além da Escuridão Star Trek (por que não Star Trek — Além da Escuridão, como sugere não só a lógica como o título original, Star Trek into Darkness?). Vai ter sessão de pré-estreia aberta ao público neste sábado, às 21h30min — o filme entra em cartaz no dia 14 de junho.

O que se pode dizer do Imax é que a sensação de "imersão" vendida ao público é plena. A tela gigante, a projeção com alta definição e o som retumbante ampliam a percepção do 3D, efeito que, nesse filme, faz parte da concepção do diretor J.J. Abrams e  não resulta das recorrentes gambiarras de conversão ao formato que, de forma alguma, justificam o preço maior do ingresso.

Diferentemente das imagens escuras características da maioria das projeções 3D no Brasil (culpa de tecnologia já defasada, como explicou a ZH um especialista no ramo), o sistema Imax lança na tela prateada a imagem de dois projetores digitais de alta resolução, o que garante a luminosidade correta.

Um detalhe curioso aos mais velhos, que conheceram os grandes cinemas de calçada de Porto Alegre, como o Marrocos e o Cacique: a largura de 21 metros da tela não impressiona tanto quando a altura, de 12 metros. Essa proporção faz a imagem encher a sala praticamente do teto ao chão. Assim, o melhor lugar para se posicionar é nas fileiras mais altas. A leitura de legendas é facilitada por elas correrem num limitado espaço central da tela.

O Imax também vai exibir filmes em 2D, como Velozes e Furiosos 6, atração da semana de estreia. Nesse é de se pensar se vale pagar mais caro (terça é dia da promoção, com preço único de R$ 13).  Em breve, a sala vai apresentar um série de documentário científicos e de natureza que proporcionam o máximo da performance 3D.

Ah, e esse novo Jornada nas Estrelas é bom, o que é fundamental para o programa valer o investimento.



O que estamos vendo

10 de maio de 2013 2

Bons filmes europeus, de França, Itália, Romênia e Hungria, além do Fantaspoa e do Festival Valilux, são os destaques dos últimos dias no circuito. Dê uma olhada nos nossos textos de apresentação e comentários dos longas que atualmente estão em cartaz nos cinemas:

Depois de Maio

Reality - A Grande Ilusão

Somos Tão Jovens

O que se Move

Além das Montanhas

Atrás da Porta

Em Transe

Era uma Vez Eu, Verônica

Homem de Ferro 3

O Sonho de Lu

Fantaspoa

Festival Varilux

O que estamos vendo

22 de abril de 2013 0

De Mamá a Mama

04 de abril de 2013 1

Entra em cartaz nesta sexta-feira o filme de terror Mama, sucesso de bilheteria bastante badalado produzido por  Guillermo del Toro. É o  longa de estreia do diretor argentino radicado na Espanha Andrés Muschietti. 

Mama é o desdobramento do curta-metragem Mamá, que Muschietti lançou em 2008 e foi exibido aqui em Porto Alegre no ano seguinte, na programação do Fantaspoa, como lembra Cristian Verardi, crítico e especialista em cinema fantástico.

Confira abaixo o curta Mamá, com apresentação de Del Toro. Leia aqui sobre o longa Mama.

Jesse e Celine na Grécia

28 de março de 2013 0

Começou a circular nesta quinta-feira o trailer de Antes da Meia-Noite, terceiro capítulo da cultuada saga de encontros e desencontros entre o americano Jesse (Ethan Hawke) e a francesa Celine (Julie Delpie).  Eles  se cruzaram — e se apaixonaram —numa viagem de trem pela Europa rumo a Viena, em Antes do Amanhecer (1999), e voltaram a falar sobre a vida em Paris, trama de Antes do Pôr-do-Sol (2004).

Como no segundo filme da trilogia, Antes da Meia-Noite, que mostra o casal discutindo a relação na Grécia, tem roteiro assinado pelos atores em parceria com o diretor Richard Linklater. A estreia no Brasil está marcada para 7 de junho.

Um novo de Schrader e um velho de Friedkin

26 de março de 2013 0

Lindsay Lohan em "The Canyons" / IFC Films


Um dois-em-um sobre dois grandes cineastas americanos famosos pelo temperamento vulcânico e que optaram por seguir à margem da grande indústria: Paul Schrader e William Friedkin.

Li só agora a sensacional reportagem sobre os bastidores das filmagens de The Canyons, novo longa de Schrader, realizado em regime de mutirão entre amigos. O texto de Stephen Rodrick, publicado em janeiro no jornal The New York Times e reproduzido pela revista Piauí em sua edição de fevereiro, descreve o que muitos já previam quando o diretor escalou como sua nova estrela a garota-encrenca Lindsay Lohan: caos, ânimos exaltados e um filme que por pouco não chegou ao fim. Leia aqui o saboroso relato de Rodrick, na versão em português publicada na Piauí.

Adendo: Schrader fez fama em Hollywood anos 1970, primeiro como roteirista — escreveu para Martin Scorsese longas como Taxi Driver e Touro Indomável. Ele arriscou sua sobrevivência física e artística com um temperamento ciclotímico turbinado por excessos químicos e etílicos e a tendência suicida (costumava andar armado). Estreou como diretor em 1980, em Gigolô Americano e realizou bons filmes como A Marca da Pantera, Mishima e Temporada de Caça. Antes de The Canyons, apresentou o ótimo e impactante Adam — Memórias de Uma Guerra (2008), lançado no Brasil direto em DVD.

Confira o trailer de The Canyons:

Já Friedkin, de quem falamos há pouco por conta de seu novo filme, Killer Joe, em cartaz na Capital (veja post abaixo) lançará a versão restaurada do filme que marcou sua desgraça em Hollywood: O Comboio do Medo (1977), refilmagem de O Salário do Medo (1953), clássico do francês Henri-Georges Clouzot. Diante do grande fracasso comercial do filme à epoca, de nada adiantou o prestígio dos Oscar que ganhou com Operação França (1971) e os milhões de dólares que faturou com O Exorcista (1973). Como era um figura detestada por todos com quem trabalhava, por sua arrogância e truculência, Friedkin viu as portas dos estúdios serem fechadas em seu nariz e entrou no caminho do cinema independente. Após a première no Festival de Veneza, em setembro, Comboio do Medo ganhará edição especial em Blu-ray e DVD.

O que estamos vendo

19 de março de 2013 1

Se o blog anda meio parado não quer dizer que a gente não está ralando. É que os textos que escrevemos sobre alguns filmes em cartaz estão sendo publicados no site do Segundo Caderno. Estamos pensando numa maneira de retomar a publicação, aqui, de matérias, resenhas e entrevistas. Por enquanto, seguem os links para alguns dos escritos mais recentes.

Killler Joe

Bárbara

A Fuga

Francisco Brennand

A Parte do Anjos

Super Nada

Oz: Mágico e Poderoso

Caverna dos Sonhos Esquecidos

Volta ao mundo do cinema

05 de março de 2013 1

O link da imagem acima leva para a versão online do especial que dá título a este post e que foi apresentado todas as segundas-feiras de janeiro e fevereiro nas páginas do Segundo Caderno de ZH. Pelo menos uma das reuniões de países é um tanto improvável, mas foi como consegui falar das cinematografias que, como diz o enunciado da série, fazem por merecer a nossa atenção nestes anos 2000. Argentina, França e Itália são exemplos de países que ficaram de fora por serem cinematografias conhecidas, óbvias, ou seja, o contrário da proposta de fazer uma viagem desbravadora de novos horizontes. De acordo com o espaço disponível, deu para citar os principais filmes e cineastas de cada uma das regiões – ou, ao menos, aqueles dos quais já tivemos notícia. Este infográfico, elaborado pelo Diogo Fatturi, é um bom ponto de partida para conhecer o material, mas eu ainda prefiro a disposição gráfica que a série teve no papel. Por isso listo abaixo os oito PDFs das páginas publicadas em ZH impressa, com a íntegra dos oito textos, sobre as oito regiões nas quais a série ficou dividida. Fica como registro de um dos projetos de que mais gostei de participar no jornal. Ó:

Ásia Extrema: Zhang Ke, Hsiao-hsien, Kar Wai e Chan-wook

Leste Europeu: Tarr, Skolimowski, Kusturica e os romenos

Universo Nórdico: Hamer, Kaurismäki, Alfredson e os dinamarqueses

Oriente Exótico: de Rithy Panh a Apichatpong Weerasethakul

América Central: de Ripstein a Pereda, de Iñárritu a Reygadas

União das ex-Repúblicas Soviéticas: Sokurov, Õunpuu e Loznitsa

Mundo Ibérico: de Manoel de Oliveira a Miguel Gomes

Oriente Próximo: Ceylan, Farhadi, Makhmalbaf e Kiarostami

Falando em Almodóvar...

01 de março de 2013 0

Já que falamos de Almodóvar e seu novo longa, no post abaixo, chegou por aqui o DVD de um filme que, pelo título em português, teve de ser visto no ato: Todo Mundo Hispânico.  E, acredite, o infame trocadilho nacional para o nome original, Spanish Movie, até que faz sentido, pois segue a linha que batizou a cinessérie Todo Mundo em Pânico (Scary Movie).

Produção de 2009 lançada agora no Brasil direto em DVD, Todo Mundo Hispânico copia o modelo americano: amarrar num fio de trama a sátira a filmes populares. A diferença a favor dos espanhóis  é que o deboche destaca alguns de seus bons e ótimos filmes produzidos nos anos 2000: Os Outros, Mar Adentro, O Labirinto do Fauno, Volver e [Rec], entre outros títulos — sobra até para Onde os Fracos Não Têm Vez, estrelado nos EUA por Javier Bardem.

Talvez por isso o resultado pareça melhor, ou menos pior, do que a piada com sucessos da hora em Hollywood, filão que tem produzidos coisas abomináveis como (no Brasil) Espartalhões e Saga Molusco — e vem aí Todo Mundo em Pânico 5, avacalhando com Cisne Negro, Atividade Paronormal, etc.

Bom lembrar que a paródia a gêneros ou filmes específicos já produziu obras memoráveis como os títulos das cinesséries Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu, Top Secret, Top Gang e Corra que a Polícia Vem Aí. E que o genial Mel Brooks fez sua parte nos divertindo com clássicos do porte de Alta Ansiedade (citando filmes de Hitchcock), Banzé no Oeste (faroeste), Spaceballs (Guerra nas Estrelas) e O Jovem Frankenstein (filmes de horror da Universal). Mas a coisa hoje está numa praia de humor mais óbvio, com a grosseria se sobrepondo à  ferocidade inteligente.

Todo Mundo Hispânico tem como protagonista uma babá (decalcada na Penélope Cruz de Volver) que arruma emprego na sombria mansão (Os Outros) em que vivem, entrou outros tipos, um tetraplégico que deseja morrer (Mar Adentro) e uma garotinha visitada por uma criatura fantástica (O Labirinto do Fauno). Lá pelas tantas, a turma visita uma vila habitada por personagens almodovarianos, numa sequência bem inventiva.

A produção tem o aval de alguns dos cineastas "homenageados". Alejandro Amenébar, Juan Antonio Bayona, Alex de la Iglesia e Jaume Balagueró fazem pontas no desenrolar da trama. E no meio de tudo isso surge o  impagável  Leslie Nielsen, em seu penúltimo trabalho, no que só pode ser um afetuoso tributo ao mestre. O lançamento em DVD é da Califórnia Filmes.

Almodóvar está no ar

01 de março de 2013 1

Estreia semana que vem,  8 de março, na Espanha e chega  aqui no Brasil dia 16 de agosto o novo filme de Pedro Almodóvar, Os Amantes Passageiros. O trailer confirma que o o diretor está de volta ao humor mais escrachado de seus primeiros filmes. O cenário é um avião ameaçado de não chegar ao seu destino, ocasião que faz os passageiros viverem situações extremas para encarar o que pode ser os últimos momentos de vida: do pânico a revelações íntimas ao estranho ao lado, da excitação com o perigo ao ninguém é de ninguém. No elenco, como protagonistas ou em participações especiais, estão integrantes do primeiro time de atores almodovarianos: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Cecilia Roth, Javier Cámara e Lola Dueñas, entre outros.

O que sobra do Oscar

26 de fevereiro de 2013 3


Depois de um retiro sabático, voltamos à ativa com breves impressões que acabaram limadas da nossa cobertura do Oscar (logo mais, estará por aqui a ótima série que o Daniel Feix está tocando sobre cinematografias pouco conhecidas de diferentes regiões do mundo).Vamos tentar manter a bola em jogo.

> Foi o fim da picada a entrada em cena de Michelle Obama para entregar o Oscar de melhor filme a Argo. A chancela da Casa Branca seria a mesma se o filme de Ben Affleck seguisse até o capítulo seguinte da mesma história, a presepada que foi a tentativa de resgatar os reféns da embaixada americana em Teerã? O filme, lógico, não tem culpa. Eu torcia pela improvável vitória de Amor e acho A Hora Mais Escura melhor que Argo.

>  Se Michelle fosse na cerimônia como "pessoa física", ainda sim seria constrangedor e de mau gosto tornar explícita essa relação entre política e entretenimento — relação essa, evidentemente, que existe, tamanha é a presença e influência do cinema americano na cultura mundial, para o bem (pela circulação de seus bons filmes) e para o mal (pela imposição mercadológica dos filmes ruins), afora questões políticas e ideológicas que cabe a cada espectador fazer juízo. Mas torná-la um evento oficial, com estúdio montado dentro da Casa Branca para celebrar um filme que exalta a inteligência e o heroísmo de um agente da CIA, enfim, foi ideia de jerico.

> A ideia não seria menos infeliz se a vitória fosse de Lincoln, embora pudesse parecer mais simpática.

> Enfim, faltou a Michelle, à assessoria da Casa Branca e, principalmente, à Academia de Hollywood, de onde partiu o convite, bom senso e respeito à tal liturgia do cargo. E foi muito brega o quadro da primeira-dama deslumbrada cercada pela soldadesca sorridente em uniforme de gala.

>  Dados para se ter uma ideia da importância histórica das cinco indicações de Amor, quatro delas em categorias nobres (filme, direção, atriz, roteiro original e filme estrangeiro). Michael Haneke conseguiu um reconhecimento equiparável ao de mestres como Fellini e Bergman. Com 8 1/2, Fellini chegou ao Oscar de 1964 com cinco indicações (direção, roteiro original e filme estrangeiro e duas técnicas), ganhando a de filme estrangeiro e figurino em preto e branco. As mais destacadas participações de Bergman no Oscar foram com Gritos e Sussurros, em 1974 — com cinco indicações, curiosamente não disputando como filme estrangeiro (filme, direção, roteiro original, fotografia, vencendo nessa, e figurino) — e com Fanny & Alexander, em 1984 — consagrado com quatro estatuetas (filme estrangeiro, fotografia, direção de arte e figurino) e indicado ainda em direção e roteiro original.

> Por ter  entrado na briga não apenas como o agradecido figurante forasteiro, Amor merecia mais do que o protocolar e esperado Oscar de filme estrangeiro.

> Que tenha sido a primeira e última participação de Seth MacFarlane como apresentador. Sujeito mais sem graça (assim seu pavoroso filme do ursinho Ted). Depois de o Globo Ouro vir com Ricky Gervais e a ótima dupla Tina Fey/Amy Poehler, MacFarlane vem fazer humor rasteiro sobre não entender o que atores latinos falam, bancar o adolescente deslumbrado com os peitos das atrizes e tirar onda com os "perdedores". Para fazer humor grosseiro e politicamente incorreto é preciso talento e inteligência, atributos que lhe faltam.

> A homenagem aos 50 anos de James Bond no cinema podia ter isso além do burocrático videoclipe de filmes. Seria legal reunir os atores que viveram 007 no palco. Será que pensaram nisso? George Lazenby, o Bond renegado, iria na festa? Por onde anda Sean Connery? — seu último filme é de 2003, a Liga Extraordinária. Roger Moore está com 85 anos.

>  Pelo menos Bond marcou presença pela voz ainda potente de Shirley Bassey ("Goooolllldfinnnnngaaaaa!") e de Adele, que fez do tema de Operação Skyfall um dos melhores da série.

> Adele, aliás, impressiona por seu longeva permanência do topo do cenário pop em tempos de celebridades efêmeras. Ela lançou o álbum 21 em janeiro de 2011 e, desde então, empilha prêmios pelos hits do disco que ainda vende como água. Quando baixava a poeira, vem o sucesso de Skyfall.

> Christoph Waltz é bom ator, mas ainda precisa mostrar isso fora dos filmes de Tarantino. Entre Bastardo Inglórios e Django Livre, ele fez vilões caricatos em filmes ruins como Os Três Mosqueteiros e Água para Elefantes e foi nada mais do que ok no Deus da Carnificina de Polanski.

>  Faltou lembrar na homenagem aos mortos de Sylvia Kristel, nossa eterna Emmanuelle.

>  A vitória, 10 anos atrás, de Chicago, filme do qual ninguém mais lembra (e que ganhou o Oscar concorrendo com O Pianista, de Polanski, e Gangues de Nova York, de Scorsese) serviu de pretexto para o tributo ao "renascimento" dos musicais, um tremendo exagero.

> Oscar é isso. Diferentemente dos grandes festivais, que lançam ao mundo filmes a serem descobertos pelos cinéfilos, a festa do Oscar é a celebração da grande firma Hollywood e de seus funcionários a filmes, em sua maioria, já vistos e badalados, ótimos, bons e ruins. É sempre bom torcer por nossos favoritos, reclamar pelos esquecidos e  injustiçados. E para ver as beldades no tapete vermelho, saber quem morreu e quem está vivo e forte ou se arrastando.

> Mais gente conhece ela como a guria chatonilda e marrenta da saga Crepúsculo do que por Kristen Stewart.

>  O que é de linda a Charlize Theron.

Sempre teremos Casablanca

26 de novembro de 2012 3


Era, lá no começo da história, para ser mais um filme de aventura da linha de produção da Warner, tanto que o elenco de protagonistas inicialmente pensado era de estrelas da casa não tão estreladas assim: Ronald Reagan, Ann Sheridan e Dennis Morgan. Mas há exatos 70 anos, neste mesmo 26 de novembro, quando foi realizada em Nova York a primeira sessão pública de Casablanca, os chefões da Warner, os críticos e os espectadores presentes na première perceberam estar diante de uma daquelas obras raras do cinema que perduram no tempo tanto por sua inquestionável qualidade quanto pela mitologia que cerca sua realização. Quem viu Casabalanca não se cansa de rever.  E o prazer de cada reencontro é sempre único. É daqueles filmes sobre os  quais já não cabem digressões racionais acerca de questões formais — estas  já foram todas exaustivamente feitas. A relação com Casablanca é passional mesmo.

Casablanca é o feliz resultado de uma série de fatores improváveis que se somaram de forma positiva em sua conturbada realização. Primeiro, surgiu o interesse do chefe de produção da Warner, Hal B. Wallis, por uma peça teatral não encenada, Everybody Comes to Rick's, de Murray Burnett e Joan Alison, que estes haviam escrito a partir de vivências com os êxodos provocados pela ascensão do nazismo na Europa.

As alterações no projeto começaram pelo nome do filme, agora o mais sonoro e "exótico" Casablanca. A trama, roteirizada pelos irmãos gêmeos Julius e Philip Epstein partia do cenário de tensão e espionagem ambientado no Norte da África, região que abrigava expatriados europeus, nazistas invasores e aqueles tipos pitorescos que jogavam para os dois lados conforme o vento e o soldo.

Para a direção, foi chamado um dos gigantes da época, ele próprio um dos cineastas estrangeiros importados por Hollywood, o húngaro Michael Curtiz – conhecido por Capitão Blood, As Aventuras Robin Hood e o filme de gângster Anjos de Cara Suja e folclórico por ninguém compreender o que ele dizia no set com seu sotaque carregado.

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman chegaram aos papéis de suas vidas por vias tortas. Ele, depois que o astro George Raft, outra opção para ser Rick, não se interessou pelo personagem. Ela, após seu passe ser alugado do poderoso produtor David O. Selznick, que relutou em ceder a estrela que tinha sob contrato para um trabalho que, até então, não tinha sequer o roteiro fechado.

No documentário You Must Remember This: A Tribute to Casablanca (1992), Pia Lindström, filha de Ingrid, explica que sua mãe sentia-se muito desconfortável por filmar sem saber com quem sua personagem, Ilsa, ficaria. Com Rick, paixão de quem se separou quando Paris foi tomada pelos alemães, ou com Victor (Paul Henreid), seu atual companheiro, um líder da resistência aos nazistas? Essa dúvida foi esclarecida apenas nos instantes finas das filmagens, resultando no antológico desfecho. Curtiz brincava que essa angústia do elenco com os rumos de seus personagens era boa porque se refletia na dinâmica das interpretações.

E embora tenha conquistado junto com os Oscar de melhor filme e direção também o de roteiro, Casablanca é exemplo de um script realizado sob um caos (controlado, mas um tormento numa arte em que o planejamento é regra) que subverte qualquer manual do gênero. Os irmãos Epstein escreveram a primeiro metade do filme, na qual se sobressai o tom da aventura de espionagem, com ação e humor inspiradíssimo simbolizado em diálogos memoráveis como esses:

— Como você vai parar aqui, Rick — pergunta o movediço inspetor de polícia Louis Renault (Claude Rains).

— Vim atrás das fontes.

— Fontes, no deserto?

— Pois é, acho que me informaram mal...

(...)

— Qual sua nacionalidade? – indaga a Rick o major nazista Strasser (Conrad Veidt).

— Bêbado.

— Ah, então isso faz de você um cidadão do mundo.

Em meio à realização do filme, os Epstein se afastaram do projeto para ajudar no braço cinematográfico do esforço de guerra americano. Entrou em cena o roteirista Howard Koch, responsável pela guinada da trama ao drama romântico, à exaltação dos valores democráticos e à glória de se lutar por uma causa justa, temas que pontuam a segunda metade de Casablanca — Koch escreveu, por exemplo, a emocionante sequência em que Victor comanda o coral da A Marselhesa no bar de Rick para abafar a cantoria marcial dos soldados alemães.

Casablanca teve ainda a mão do roteirista Casey Robinson, contratado para escrever o flashback que mostra Rick e Ilsa em Paris ("São canhões ou meu coração batendo?", pergunta ela. "Nós sempre teremos, Paris", consola ele mais adiante). Foi um pedido dos produtores, que acharam necessário mostrar ao espectador a razão de Rick ficar tão abalado ao rever Ilsa e ouvir o pianista Sam tocar As Time Goes By (canção que não foi feita para o filme, pois havia sido lançada em 1931).

— De todos os botecos de todas as cidades do mundo, ela foi entrar justamente no meu — amarga Rick.

Os irmãos Epstein voltaram em tempo de escrever toda a sequência final, a do aeroporto. Pensaram em incorporar à trama a reviravolta em curso na II Guerra, com a invasão aliada no norte da África. O projeto seguiu o rumo previsto, mesmo porque os rumos da grande guerra naquele instante ainda eram incertos. Mas a frase antológica dita por Rick a Renault foi incluída posteriormente ao fim das filmagens, com Bogart chamado em casa para fazer a dublagem, e teria sido escrita por Wallis:

— Louie, eu penso que este é o começo de uma maravilhosa amizade.

Ainda está em tempo de comemorar estes 70 anos revendo Casablanca. Sorte de quem vai assistir a essa joia pela primeira vez.


Frankenweenie, uma história do terror

05 de novembro de 2012 0

A primeira sequência de Frankenweenie não podia resumir melhor o novo Tim Burton, estreia do último fim de semana no circuito: Victor Frankenstein, um menino de 10 anos, seu pai, sua mãe e seu cachorro Sparky sentam-se à frente de uma tela, botam os óculos 3D e ligam o projetor para ver uma produção caseira de terror estrelada por Victor e o cãozinho.

Frankenweenie é uma animação em preto e branco que Burton começou a fazer há sete anos, retomando um projeto do início de sua carreira, que originara um curta-metragem homônimo lançado em 1984. É muito mais do que o termo refilmagem pode sugerir. Trata-se, isso sim, de uma fábula inspirada na própria história do horror no cinema, vista com tanta graça e uma deliciosa falta de pretensão que tem tudo para agradar a toda a família – e fazer a cena descrita acima se tornar real nos cinemas, exceto, é claro, pela presença de Sparky.

É a morte do simpático e hiperativo cachorrinho que desencadeia os acontecimentos fantásticos do filme. Victor, um pequeno gênio cheio de inquietações científicas que vive isolado, sem amiguinhos na escola, resolve aproveitar a eletricidade gerada pelos raios de uma tempestade para tentar ressuscitá-lo. Como na fantástica história de Mary Shelley, um dos mitos fundadores do gênero na ficção, o experimento dá certo. E têm início, primeiro, a tentativa do protagonista de esconder o cão redivivo; depois, com o segredo revelado, os esforços de seus colegas para fazer o mesmo com seus animais de estimação – o que lhes faria, mais do que crianças felizes com seus bichinhos, candidatos a vencedores na Feira de Ciências do colégio.

Burton parece ter criado o personagem do professor dos meninos exclusivamente para homenagear Vincent Price (1911 – 1993), o lendário ator de O Corvo (1963) e O Abominável Dr. Phibes (1971), entre tantos outros. As homenagens, que já haviam passado pelo geometrismo dos longas expressionistas alemães nos planos que flagram Victor trabalhando no sótão de casa, se intensificam a partir da entrada em cena dos animais de estimação dos coleguinhas do jovem Frankenstein. Há, por exemplo, uma tartaruga que emula Godzilla e uma poodle que se engraça com Sparky não gratuitamente inspirada numa icônica "noiva de Frankenstein" da década de 1930 (leia abaixo).

O preto e branco de Frankenweenie está plenamente justificado por esta pegada retrô. Sua fotografia, aliás, é de uma riqueza rara no aproveitamento da extensa gama de tons de cinza disponíveis – e que geralmente são ignorados pelos aventureiros responsáveis por banalizar o alto contraste. Já o 3D, como acontece na maior parte dos projetos que fazem uso deste recurso, não acrescenta absolutamente nada à fruição.

Além das desnecessárias três dimensões, outra possível restrição ao novo Tim Burton é o seu final – que, no entanto, obviamente, não será antecipado neste texto. Ainda assim, Frankenweenie pode ser considerado um ponto alto da carreira mais recente do cineasta californiano radicado em Londres. Melhor do que Sombras da Noite, seu outro longa lançado em 2012, ele seguramente é.

Algumas referências dos filmes de terror ou fantasia vistas em
Frankenweenie (para além de Frankenstein de Mary Shelley):

> Gremlins (1984), de Joe Dante: entre os bichos de estimação que são reanimados pelas crianças do filme de Tim Burton estão sea monkeys, ou "kikos marinhos", inspirados em gremlins aquáticos.

> Godzilla (1954), de Ishirô Honda: a tartaruga gigante que é reanimada em Frankenweenie tem traços (e a capacidade de tocar o terror) do monstro criado pelo cineasta japonês nos anos 1950. E, também, do personagem-título de um de seus genéricos vindos do Japão – Gamera (1965), de Noriaki Yuasa.

> Vincent Price: Burton já homenageara o grande ícone dos filmes de horror dando um papel a Vincent Price em Edward Mãos de Tesoura (1990). Agora seu Mr. Rzykruski, o professor de ciências de Frankenweenie (voz de Martin Landau no original), é praticamente uma caricatura do ator.

> Expressionismo alemão: alguns planos de Frankaneweenie, notadamente no sótão da casa de Victor Frankenstein, fazem referência ao geometrismo visto na cenografia de filmes como Nosferatu (1922) e O Gabinete do Dr. Caligari (1919).

> A Múmia (1932), de Karl Freund: o hamster mumificado é chamado de Colossus em Frankenweenie em referência a este clássico do terror estrelado por Boris Karloff.

> A Noiva de Frankestein (1935), de James Whale: este outro clássico do gênero com Boris Karloff é lembrado pela cachorrinha Persephone, personagem de Frankenweenie inspirada na lendária composição da atriz Elsa Lanchester (o traço branco na vasta cabeleira não escapou aos olhos de Burton).

O humor do Prata e a resistência cinéfila

23 de outubro de 2012 1

A histórica Cinemateca Uruguaia, de muitas lembranças para gerações mais antigas de cinéfilos gaúchos, ganhou um pequeno grande filme em sua homenagem. Dirigido por Federico Veiroj (corroteirista de 25 Watts e Whisky, ambos de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll) e protagonizado por Jorge Jellinek (crítico de Montevidéu) e Manuel Martínez Carril (ex- diretor da Cinemateca), A Vida Útil estreia nesta terça-feira no CineBancários.

É a primeira produção de fora do Brasil a chegar à Capital trazida pela distribuidora Vitrine Filmes, que tem oxigenado o circuito alternativo com os bons longas da nova geração brasileira. E é, em essência, um teste à emoção dos amantes do cinema – impossível não ficar comovido depois dos 66 minutos de projeção, tamanha afetividade com que a pacata rotina da instituição é recriada pelo jovem (de 35 anos) Veiroj.

Carril, figura carimbada do Festival de Gramado, interpreta a si próprio. Jellinek encarna o personagem principal, um funcionário da Cinemateca que passa os dias entre o trabalho burocrático em sua sede e a apresentação do programa de rádio usado para divulgar a sua programação.

Logo o espectador é levado a notar, por meio do esvaziamento das atividades da instituição e da melancolia do cotidiano retratado, a decadência do lugar. Parece que ainda estamos na década de 1950, impressão reforçada por opções estéticas que remetem a filmes daquele tempo, a exemplo da trilha sonora e da fotografia em preto e branco.

A situação reflete a crise da cinefilia contemporânea, em que as salas do chamado circuito alternativo, ou de arte, lutam para manter suas portas abertas e atrair a atenção do público. Mas A Vida Útil só é bem-sucedido (e muito!) por conta da maneira com que vislumbra esta crise: o grande lance do projeto é o humor contido em seu olhar, humor este que, muito longe do deboche, apresenta- se como uma forma distanciada e, por isso, madura de auto-observação. É mais ou menos o tipo de autoironia visto não apenas em Whisky ( 2004), mas em alguma parte dos títulos argentinos que cativaram tantos espectadores brasileiros nos últimos anos. Um tipo de ironia do qual o cinema nacional raramente faz uso, até porque ele tem mais a ver com a identidade dos países do Prata do que com a do Brasil.

A Vida Útil fica em cartaz em três sessões diárias pelo menos até 8 de novembro. Para os cinéfilos, é imperdível.

Histórica e resistente Cinemateca
Fundada em 1952, em Montevidéu, a Cinemateca Uruguaia foi o oásis dos cinéfilos gaúchos que lá conseguiam ver filmes proibidos ou mutilados pela censura no Brasil nos anos 1970. Seu precioso acervo conta com cerca de 12 mil títulos. A instituição atua na área de preservação, formação (mantém uma escola de cinema) e difusão (opera quatro salas de exibição). Organiza ainda um festival internacional que, em 2013, realizará sua 31ª edição.

Os Infratores e a desglamourização do gângster

19 de outubro de 2012 0

Depois de adaptar a obra de Cormac McCarthy no muito bom A Estrada (2009), o diretor de origem australiana John Hillcoat deu ao músico Nick Cave a tarefa de escrever um roteiro sobre a lenda dos Bondurant, trio de irmãos caipiras que enfrentaram a lei nos EUA pós-Grande Depressão de 1930 e, entre seus pares, construíram a fama de “invencíveis”. Também cooptou alguns dos astros da hora em Hollywood – todos ansiosos para trabalhar com ele depois de assistirem ao seu longa anterior – e fez um filme que, ao menos entre as produções voltadas para o grande público, tem tudo para levar o título de melhor de toda a temporada.

Em cartaz desde o último fim de semana, Os Infratores é o terceiro longa escrito por Cave – os outros dois, também dirigidos por Hillcoat, são o western australiano cult A Proposta (2005) e o thriller menos conhecido por aqui Ghosts of the Civil Dead (1988). Os Infratores é um filme de gângsteres que inverte a lógica mitificadora associada ao gênero em Hollywood: saem o glamour e o charme das representações de contraventores como John Dillinger, Baby Face Nelson e Bonnie & Clyde, entra a valentia xucra de Forrest, Howard e Jack Bondurant.

O irmão mais velho, líder do trio, é interpretado por Tom Hardy, o vilão de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, com uma empatia digna de Oscar. Shia Labeuf é o caçula deslumbrado e irresponsável. Jason Clarke interpreta o irmão do meio, sujeito que fala bem menos do que bebe. Sua discrição abre espaço para o brilho dos coadjuvantes, notadamente a misteriosa ruiva vinda da cidade vivida por Jessica Chastain (indicada ao Oscar por Histórias Cruzadas) e a filha do pastor cobiçada pelo personagem de Labeuf, interpretada por Mia Wasikowska (a Alice de Tim Burton). O antagonista, cuja presença desencadeia os conflitos dramáticos, é um agente da lei enviado da metrópole brilhantemente caracterizado por Guy Pearce (Amnésia).

O cabelo engomado e o terno bem passado diferenciam o policial, evidenciando seu desprezo pelos hillbillies daquele lugar arcaico encravado nas montanhas do Estado da Virgínia. Ele está lá para destruir os infratores que produzem bebidas alcoólicas clandestinamente em plena vigência da Lei Seca. Enfrenta maior resistência não dos grandes mafiosos da época, como o Floyd Banner encarnado por Gary Oldman (personagem pouco explorado, apesar do talento do ator de O Espião que Sabia Demais), até porque seu foco está nas presas fáceis. Ou melhor, nos caipiras que faziam bourbon no quintal de casa e que, por isso, ele julgava (equivocadamente?) serem alvos acessíveis.

Hillcoat brinca com as lendas dignas de Superman em torno dos Bondurant, usando o humor para mostrar como os conceitos de mocinhos e bandidos eram volúveis, e como suas imagens podiam mudar conforme o ponto de vista. A mise en scène é coisa de mestre, mas o que mais fica de Os Infratores são suas reflexões sobre esse tipo de relação – o bem e o mal, o mito e a realidade. E, para além disso, a maneira como essas dicotomias estão intrinsecamente relacionadas à violência na definição da identidade norte-americana.

Outro ponto alto do filme é a trilha sonora concebida por Nick Cave e outro australiano, Warren Ellis, a partir de versões folk de canções como White Light/White Heat, do Velvet Underground: a música, como outros aspectos do filme, é representativa do encontro de uma América mítica com a cultura global, encontro este observado com louvável distanciamento. É uma pena que o roteiro de Cave seja quadrado e aposte apenas na repetição das fórmulas mais tradicionais. Se por um lado isso garante comunicação com o grande público, por outro limita a fruição – sem, no entanto, tirar de Os Infratores a profundidade dramática e a sensação de ser uma das melhores lições sobre a formação cultural dos EUA que Hollywood proporcionou nos últimos tempos.