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Posts na categoria "cinema internacional"

O delicioso filme-testamento de Alain Resnais

04 de setembro de 2014 0

Dias antes de morrer, Alain Resnais ganhou, no Festival de Berlim, o Prêmio Alfred Bauer, concedido a produções marcadas pela inovação artística. Isso em fevereiro passado. Aos 91 anos. O filme pelo qual o cineasta francês recebeu o troféu era Amar, Beber e Cantar, uma das gemas mais preciosas da fase de reinvenção que, cheio de disposição, ele vivenciou neste século 21. O longa, último da carreira desse mestre da linguagem, pode ser visto a partir desta quinta-feira no Guion Center e no GNC Moinhos, em Porto Alegre.

Com ótimo elenco, liderado por sua mulher e musa Sabine Azéma, Amar, Beber e Cantar é um filme leve e colorido, mas muito sofisticado tanto em sua construção narrativa quanto na iconografia revelada pelos cenários expressionistas. Tudo se passa nos jardins de algumas residências, nos quais três casais ensaiam uma peça teatral e, ao mesmo tempo, expõem dramas pessoais. Falso ou verdadeiro, real ou simulacro – a dúvida que perpassa outros filmes do realizador, aqui, está no centro de suas reflexões.

O Resnais da maturidade é um discípulo do filósofo Jean Baudrillard (que lançou o conceito de simulacro nos anos 1980), mas qualquer definição soa limitadora perto da complexidade de seu trabalho. Desenhos intercalados com a ação propriamente dita fortalecem a impressão de realidade simulada, ou, no mínimo, reconstruída. Cortinas com cortes retangulares delimitam a cena, prenunciando a referência ao expressionismo alemão dos anos 1920, evidente ao final, quando enfim a ação se transfere para os ambientes internos de suas casas.

Mas o principal tema do filme é o fim – e como reagimos diante dele. Os conflitos entre os casais são despertados pela notícia da morte iminente de um amigo. Preste atenção em como a ideia da perda de alguém querido impacta especialmente o trio de mulheres (composto ainda por Caroline Sihol e Sandrine Kiberlain). Há muita ironia no comentário sobre comiseração e os caminhos do afeto nesse contexto, potencializada pela chegada de uma personagem jovem em suas sequências finais (não vamos falar muito dela para não estragar a fruição, ok?). Por óbvio, o luto da garota é bem diferente do luto dos mais velhos.

Trata-se de um testamento à altura das grandes revoluções de Alain Resnais.

TOP 10
Filmes essenciais de Alain Resnais (1922 – 2014)

Noite e Neblina (1955)
Documentário de 32 minutos, é considerado um dos primeiros filmes fundamentais sobre o Holocausto.

Hiroshima Meu Amor (1959)
Obra-prima escrita por Marguerite Duras sobre a fragmentação da memória a partir do encontro de uma francesa com um japonês. É considerada inovadora em sua narrativa constituída de flashbacks.

O Ano Passado em Marienbad (1961)
Em parceria com o escritor Alain Robbe-Grillet, Resnais construiu um filme ainda mais radical em sua narrativa não linear sobre a passagem do tempo a partir dos acontecimentos em um grande hotel.

Muriel (1963)
O diretor segue sua pesquisa sobre a construção do presente a partir do passado – e, aqui, de fantasmas de guerra como a travada à época na Argélia.

Providence (1977)
A imaginação de um escritor é o ponto de partida para Resnais explorar o embaralhamento entre vivência e construção ficcional. Roteiro de David Mercer.

Meu Tio da América (1980)
Três personagens têm a vida examinada por cientista que quer comprovar teoria sobre a interferência do ambiente na formação da personalidade.

Amores Parisienses (1997)
Um dos filmes mais descontraídos do mestre, reúne grande elenco para adaptar alguns de seus temas preferidos (história, memória, suposições, acaso) a uma ciranda amorosa na capital francesa.

Medos Privados em Lugares Públicos (2006)
Em uma Paris colorida, porém fria, pessoas buscam o amor. É o mais icônico dos longas com os quais Resnais se reinventou, depois dos 80 anos de idade.

Ervas Daninhas (2009)
Não falta humor a este ensaio sobre o desejo – e seus contratempos, referenciados desde o título.

Vocês Ainda Não Viram Nada! (2012)
A morte de um autor de teatro faz com que atores de suas peças se reúnam para homenageá-lo, em um dos filmes mais teatrais de toda a carreira de Resnais – tanto quanto este Amar, Beber e Cantar.

De volta a "Tabu", o grande filme de 2013

29 de julho de 2014 0

De volta a cartaz na Cinemateca Paulo Amorim, Tabu foi o grande filme do ano passado, eleito tanto pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine) quanto pela Associação de Críticos do RS (Accirs). A sessão das 19h desta quarta-feira vai marcar a entrega do prêmio de melhor de 2013 por parte da Accirs. Ivo Müller, ator catarinense que fez parte do elenco do longa de Miguel Gomes, estará presente para conversar com o público após o filme.

Leia aqui a entrevista com o intérprete e, abaixo, a reprodução do meu artigo sobre Tabu publicado originalmente na revista Teorema.

Aurora e o fim da inocência

Para além das fronteiras do Terceiro Mundo, as feridas da colonização estão abertas indiscriminadamente, inclusive na Europa. Nesse contexto, tem especial relevância para o público brasileiro o fato de que a produção contemporânea mais original sobre o tema tenha vindo de Portugal. Antes que você se questione: Tabu é, entre muitas coisas, um longa-metragem sobre colonialismo. É também, fundamentalmente, um filme de cinéfilo para cinéfilos. Um projeto que se constrói sobre um riquíssimo jogo de significados, amalgamados como numa teia cujos nós se desdobram em novos caminhos estimulantes ora pelas sugestões que apresentam, ora pelas surpresas que provocam.

Conforme essa teia se desenrola, e as possibilidades de apreensão dos acontecimentos se multiplicam, vão ficando claras as ideias centrais que sustentam a proposta estética de Miguel Gomes. Note-se, aqui, o uso proposital da expressão “ideias centrais”: a fruição deste longa tão estranhamente encantador desencadeia, no espectador, uma espécie de busca, às vezes despertada por uma certa confusão de sensações, noutras por aquele espanto típico das descobertas mais impactantes. Afinal, qual é a ideia central de Tabu? – esta é uma pergunta tão presente ao longo da absorção do filme, e das consequentes reflexões sobre ele, que foi feita assim, literalmente, ao seu diretor, na entrevista reproduzida nesta mesma edição de Teorema.

A grande arte produzida no universo contemporâneo costuma refutar esse tipo de redução, e Tabu não foge à regra. Há, no entanto, eixos sobre os quais Gomes molda sua estrutura dramática. O mais evidente deles se constitui a partir das associações entre a África selvagem e o conceito de “Paraíso” e a Europa civilizada e o de “Paraíso Perdido”. Está se falando de passado e presente, de evolução histórica, por assim dizer, a partir de uma visão pessimista dos caminhos percorridos pelo homem, e principalmente das consequências que as escolhas que levam a esses caminhos provocam. Perdemos-nos, indica o realizador português, inicialmente no discreto testemunho da rotina de duas vizinhas de Lisboa e da empregada doméstica de uma delas, depois de maneira mais contundente e absolutamente arrebatadora ao examinar a vida pregressa, os remorsos, os excessos e as renúncias daquela que, entre as três, notadamente sucumbiu à insanidade.

O espectador põe-se a perguntar se a morte e a própria loucura também são assuntos de Tabu. Em vez de investir nesses ou em outros de seus muitos subtemas, Gomes se dedica a ampliar sua rede de provocações que se desdobram em novas provocações – cada vez mais, no entanto, evidenciando outro eixo sobre o qual a dramaturgia do filme se assenta, e que igualmente diz respeito à perda: o fim da inocência. É esta a grande metáfora sob a qual se acomodam inúmeras considerações de Tabu. É esta a imagem que fica ao se olhar em perspectiva para a tragédia de Aurora.

E é por aí que se justifica a referência tão marcante ao clássico homônimo de 1931 dirigido por F.W. Murnau – com codireção de Robert Flaherty, ressalte-se.

O crocodilo político

Os dois capítulos nos quais Tabu está dividido são antecedidos por um prólogo de pouco mais do que cinco minutos representativo do que Pilar, a vizinha de Aurora, está presenciando numa sessão de cinema. Diz o narrador desse prólogo, numa fabulação ao mesmo tempo esquisita e poética, que um “intrépido e infeliz” explorador branco perambula pelos confins do continente africano buscando aplacar a dor da perda de sua amada. “Taciturna e melancólica, a triste figura erra sem consolo pelo planalto inóspito” até decidir jogar o próprio corpo aos crocodilos, “fazendo seus seguidores testemunharem o horror”. Ouve-se o barulho de algo desabando sobre a água de um rio e, em seguida, há um ritual fúnebre encenado pelos tais seguidores. Dois cortes conduzem ao primeiro momento de impacto de Tabu, quando a narração afirma que “a noite se seguiu, como outras mil noites se seguirão”, vê-se a lua e, logo depois, um crocodilo, imóvel, repousando assombrado “pela figura de uma mulher de outros tempos que um misterioso pacto uniu ao animal e que a morte não poderá jamais quebrar”.

Miguel Gomes tem coragem. Num cenário de padronização dos filmes, no qual a pluralidade pode até ser maior, mas coexiste com restrições de mercado cada vez mais violentas, o cineasta decidiu fazer um longa-metragem fotografado em preto e branco no qual até a janela quadrada escolhida remete a um tipo de produção que já não existe mais. Em sua proposta de retorno à essência da linguagem cinematográfica, apresenta logo de cara essa estranha historieta, contada de um jeito tão belo quanto inusual, que vai preparar o público para a incrível jornada de Aurora (nome este que referencia outro clássico da inocência perdida a partir de uma história de amor, também dirigido por Murnau e lançado em 1927). E, ainda, para uma contundente reflexão sobre o uso da imagem nas construções ficcionais.

É que não há provas visuais de que o intrépido e infeliz explorador do prólogo tenha sido realmente devorado. Em compensação, está lá, às vistas do espectador, a “mulher de outros tempos”, dividindo o quadro com um crocodilo. É a imagem sendo descolada da ideia de realidade. Mais do que isso, Gomes faz a figura do animal retornar, na segunda parte da trama, levando o espectador a associá-la, de imediato, ao trecho inicial da narrativa. É uma fuga do bicho em direção à casa de Ventura que conduz Aurora a ir ao encontro do amante com quem construiria a sua ruína. São crocodilos diferentes, contudo. Crocodilos de outros tempos. Estaria o realizador propondo que as almas do explorador suicida e de sua amada, em uma das mil noites subsequentes à morte do homem, assombrassem aqueles que cedem às tentações mundanas, causando danos em cadeia a ambos e a diversos outros à sua volta?

É uma interpretação possível. O fundamental é entender que sua proposta consiste em associações bem mais complexas do que aqueles jogos de imagens banais, tão comuns no cenário atual de padronização da linguagem e consequente banalização da imagem. Em Tabu, uma imagem não se associa à outra vista anteriormente sem fazer o público realmente pensar sobre o que está vendo. Trata-se de um ato político, artisticamente falando.

A proposta de Gomes é retornar à inocência (tanto a África selvagem quanto o cinema sem diálogos) para capturar nela a essência de algo perdido (o poder da imagem, no caso da linguagem audiovisual, e certos princípios morais, se nos detivermos nos atos propriamente ditos de Aurora). Mas por que especificamente o Tabu (e a Aurora) de Murnau (e de Flaherty)? Pode-se conjecturar sobre isso. Pode-se, por exemplo, relevar a representatividade que um longa de mais de 80 anos atrás adquiriu ao reunir dois cineastas de talento superlativo e estilos opostos (Murnau, o expressionista, e Flaherty, o documentarista), que estavam insatisfeitos com os caminhos da indústria de Hollywood e resolveram apostar num longa não sonoro num momento em que o mercado já se voltava quase exclusivamente para os filmes falados, constituindo-se um novo marco para a produção independente. O que há de mais evidente, de todo modo, é a própria temática: a trama do filme de 1931 envolve um pescador polinésio que se apaixona por uma jovem comprometida e, com ela, desce o abismo que separa o Paraíso do Paraíso Perdido.

Céu, inferno e outros extremos

“Dando-se as mãos, os pais da humana prole./ Vagarosos lá vão com passo errante./ Afastando-se do Éden solitários”. São os versos finais do livro de cantos poéticos Paraíso Perdido, que o inglês John Milton escreveu em 1667 e é que uma das matrizes filosóficas de Tabu. Cabe ressaltar que o aspecto moral do filme de Miguel Gomes tem menos a ver com a religiosidade emanada por suas fontes mais remotas. A inocência perdida, no século 21, já é bem diferente daquela da virada dos anos 1920 para os 30 – imagine na comparação com a Idade Moderna.

Ainda assim, pode-se dizer que se trata de um filme de temática bíblica, como o são Anticristo (2009) e Melancolia (2011), o díptico sobre, respectivamente, a gênese e o apocalipse assinado pelo dinamarquês Lars von Trier – dois filmes, não por coincidência, mais políticos do que propriamente religiosos. Outra associação possível do terceiro longa de Gomes: como Melancolia, Tabu é um díptico ele próprio, cuja narrativa está dividida em duas partes bem delimitadas, algo que aliás não é apenas comum aos títulos do cinema sem diálogos, como referido pelo português na entrevista publicada nesta edição de Teorema, mas à própria ideia de contemporaneidade. Vide, por exemplo, toda a obra do tailandês Apichatpong Weerasethakul, referência da produção atual com seus filmes não raramente “divididos” em duas partes bem distintas entre si e autor de uma obra que por certo pode ser associada à lenda do crocodilo cuja aura assombra os casais de pecadores gerações após o pecado original.

É essa gama de simbolismos, sutilezas e possibilidades associativas que faz deste Tabu de 2012 um projeto tão diferente dos filmes recentes a abordarem o colonialismo, entre os quais Minha Terra, África (de Claire Dennis, 2009) é um dos expoentes máximos. Não foi gratuitamente que ele ganhou o arriscado carimbo de “mais original” entre essas produções, no parágrafo que abre este artigo. É mais no campo simbólico do que no prático que o português trabalha, como fica claro desde o título do longa – Tabu, como já foi dito no texto de José Vieira Mendes igualmente publicado nesta edição, é um monte fictício, que na realidade não existe.

Não é por acaso, para citar um exemplo do quão sofisticado é o simbolismo de Miguel Gomes, que a história de amor entre Aurora e Ventura se passa ao pé da montanha, e não em seu cume, deixando claro que o pecado foi cometido no nível terreno, distante do paraíso celestial. John Milton chega a descrever a imagem de seu pecador à procura da presença divina, que poderia surgir do alto do Monte Sinai, ou das Montanhas de Aônia…

Kitsch cor de cinza

Levando-se em conta que o multiculturalismo é um dos assuntos da hora no cinema atual, especialmente aquele produzido no continente europeu, falar de colonialismo é quase dar uma virada no jogo. Uma volta de 180 graus na reflexão sobre os choques culturais, ao menos isso. Sob determinado aspecto, Gomes tirou o olho do presente para buscar uma perspectiva histórica de um problema já exaustivamente (o que é diferente de suficientemente) debatido pelos seus pares. Trabalho de um verdadeiro arqueólogo, cavoucou referências distantes que só uma dramaturgia de nível tão alto pode legitimar. Acabou examinando relações que estão na origem fundadora de algumas tensões que chacoalham os grandes debates públicos atuais.

Há de se ressalvar, a despeito de tudo isso, que Tabu se constrói com uma narrativa irregular. Ainda que se pudesse esperar, naturalmente, duas metades bem apartadas uma da outra (Von Trier e Weerasethakul são assim, para ficar em dois exemplos já citados), há decisões do diretor que transformam a construção do Paraíso mais bem-sucedida do que a do Paraíso Perdido. Em Lisboa, Tabu é essencialmente cerebral. Na África, tem um irresistível apelo à emoção.

Coloque-se na conta deste “irresistível” a capacidade de amalgamar códigos de gênero (notadamente os romances de perdição e aquele cinema de aventuras desbravadoras), que vão envolvendo o espectador como se a ciranda de descobertas dos personagens, tanto as íntimas quanto aquelas da vida lá fora, fossem também as suas. É claro que é mais fácil se identificar com histórias intensas de amor proibido, como a que Aurora e Ventura vivenciaram na juventude, mas não é apenas por isso que Tabu cresce do meio para o fim. A falta de diálogos e a restrição dos ruídos à música e à narração em off combinam com a construção fabular proposta. Fabular e memorialística: parece uma fantasia, mas é pura contação de histórias, daquelas que, bem contadas, cativam crianças, adolescentes, adultos e velhinhos – o que filia Gomes a uma tradição que remonta, por exemplo, a Sherazade e as seculares histórias de As Mil e uma Noites.

Há também a organicidade dramática das canções da banda do jovem Ventura – há Ramones, banda que propõe uma volta à simplicidade, se não inocência, e rocks que remetem aos anos 1960, época de liberalismos e revoluções em que o Paraíso está situado, obviamente não sem sentido. E há ainda, por fim, mas não menos importante, pelo contrário, o lirismo encantador do texto narrado por um Ventura já ao fim da vida – cuja poética ao mesmo tempo precisa e rebuscada faz jus a uma tradição literária portuguesa cujas referências remotas incluem, entre outros, Eça de Queirós.

No Paraíso Perdido que é a grande cidade europeia pós-ano 2000, diferentemente disso, o que se vê é uma espécie de painel de vidas em certo ponto totalmente desperdiçadas, noutro amparando-se onde é possível na busca por afeto. Parece ser essa busca o foco inicial de Gomes, tanto que, mais do que Aurora, quem aparece no centro da trama, inicialmente, é sua vizinha Pilar. É ela que faz caridade e oferece hospedagem a estudantes em viagem, é ela que se envolve em protestos organizados contra a ONU, é ela que se comove com o drama da mulher da porta ao lado – e se dispõe a ajudá-la. Nada disso necessariamente indica carência, mas sua solidão, e mais a atmosfera melancólica, os ambientes artificiais pelos quais elas se movimentam e a ideia de impotência que perpassa a sucessão de acontecimentos, tudo isso se une para revelar as intenções do realizador.

Especialmente com a presença de Aurora, e notadamente na sequência do cassino, onde ela, tomada pela loucura, perde muito dinheiro, parece que se vai ressaltar um aspecto kitsch da sociedade contemporânea. A decadência de quem uma vez fez parte do que se chamou apropriadamente de classe dominante. Um Alain Resnais (em sua fase mais recente, claro) desprovido de seu jogo semiótico de cores vibrantes. De certo modo, em seu emaranhado de sugestões, Tabu também é isso: a crônica de costumes da sociedade do exagero. Entretanto, esse (o kitsch) é um daqueles aspectos do filme que vão ficando para trás a partir das quebras narrativas, no caso, a grande reviravolta que marca a passagem do paraíso perdido para o paraíso puro e simples, antes da ruína.

Tabu é um filme de contradições, no qual se encontram características, em princípio, opostas. O colorido excessivo da contemporaneidade retratado em um preto e branco austero, vintage. A multiplicação de provocações em uma trama dividida em duas. O princípio católico, o racionalismo radical. A crônica social de atualidades e o romantismo das histórias de paixão e de aventura de tempos idos.

Fundamentalmente, um filme que evoca a atmosfera encantadora dos clássicos e inspira aquela sensação de frescor possível apenas diante dos mais notáveis representantes da produção recente.

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Três vezes bom cinema

11 de julho de 2014 0

Nesta semana, o Cine Santander, em Porto Alegre, estreia três filmes de autor premiados em edições recentes dos principais festivais europeus: Heli, do mexicano Amat Escalante, Vic + Flo Viram um Urso, do canadense Denis Côté, e Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho, do bósnio Danis Tanovic. Os três têm distribuição nacional pela Zeta Filmes. Confira, abaixo, breves textos sobre cada um deles:

Via-crúcis bósnia
Por Marcelo Perrone

O relato em um jornal do drama vivido por Senada Alimanovic e seu marido, Nazif Mujic, indignou o diretor bósnio Danis Tanovic. Carregando no ventre um feto morto, a mulher teve atendimento negado por não ter plano de saúde e tampouco dinheiro para realizar a cirugia emergencial. Tanovic fez da via-crúcis vivida pelo casal de sangue cigano tema de Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (2013), docudrama em que Nazif e Senada interpretam seus próprios papéis. O impacto do recurso é de tal ordem que Nazif foi consagrado com o troféu de melhor ator no Festival de Berlim.

O ofício do protagonista é simbólico. Ele é a sucata humana de um país que o discrimina por sua etnia e o exclui do sistema econômico e político erguido sob as cinzas da Guerra da Bósnia (1992 – 1995). Nessa enxuta e potente dramatização do real, Tanovic exibe um filme arrojado no seu embaralhamento de gêneros. E presta tributo aos primórdios dessa proposta narrativa lembrando Nanook do Norte (1922), filme no qual Robert Flaherty recriou – sob sua interferência dramatúrgica – a rotina de um esquimó no Alasca.

Mistério canadense
Por Daniel Feix

Era uma vez duas condenadas apaixonadas que, ao saírem da prisão, ficam livres para viver sua história de amor numa casa de campo. Premiado em Berlim, o longa canadense Vic + Flo Viram um Urso (2013) começa quase como um conto de fadas. Mas o clima misterioso e frio (ressaltado pela fotografia de paleta azulada) aos poucos revela que aquela região de estradas estreitas cercadas de mato reserva surpresas desagradáveis.

O urso do título é metafórico, mas vale notar que Denis Côté, um dos vários bons diretores quebequenses deste século 21, gosta de trabalhar com, vamos dizer assim, referências animais – vide Bestiaire (2012), exibido em Porto Alegre na Sessão Plataforma. Aqui, a relação estabelecida é entre predadores e presas. Para descobrir quais papéis cabem às protagonistas, vividas por Pierrette Robitaille e Romane Bohringer, você tem de ver o filme.

Vic + Flo não é exatamente violento. O que o faz valer a pena é a espera pela violência, pontuada pela entrega sutil de informações relevantes por parte de Côté, às vezes a partir de movimentos de câmera lentos, alongados. Nesse sentido, Vic + Flo é um desafio ao espectador – do qual, dado seu impacto estético, é impossível sair perdendo.

Violência mexicana
Por Roger Lerina

A realidade brutal do México dos desfavorecidos, expostos à violência do tráfico e da corrupção, é o pano de fundo de Heli (2013), filme de narrativa seca de Amat Escalante que levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes de 2013.

Produção independente de baixíssimo orçamento, o drama começa mostrando em imagens cruas um cadáver sendo pendurado no alto de um viaduto por um grupo de homens. A partir daí, a história conta em retrospecto os eventos que antecederam o macabro gesto.

Heli (Armando Espitia) é um rapaz que mora com a mulher e o filho bebê na mesma casa que seu pai e sua irmã adolescente, em uma cidadezinha mexicana. Os dois homens trabalham em uma fábrica de carros, enquanto a menina Estela (Andrea Vergara), mal saída da infância, vai à escola e resiste ao assédio do namorado, o recruta Beto (Juan Eduardo Palacios).

Ao esconder na casa de Estela parte da droga que seus colegas militares desviaram em uma operação de combate ao tráfico, o cadete precipita uma tragédia que literalmente invade o lar da família de Heli.

Comédia dramática espanhola “O que os Homens Falam” fala de amor pela visão masculina

06 de julho de 2014 0

O título em português pode induzir a um juízo equivocado: O que os Homens Falam não é uma versão em castelhano de E Aí… Comeu? (2012). Diferentemente dessa comédia brasileira, o filme espanhol em cartaz na Capital tem diálogos inteligentes, narrativa bem construída e atuações excepcionais. O diretor e roteirista catalão Cesc Gay ambienta em sua Barcelona natal as tramas de sua comédia dramática: da manhã à noite, o longa mostra oito homens quarentões em crise.

O que os Homens Falam encadeia meia dúzia de esquetes em que os personagens expõem fragilidades e compartilham dúvidas – existenciais, amorosas, sexuais, profissionais. Há desde o ex-marido que escolhe uma péssima hora para tentar a reconciliação com a antiga companheira – episódio estrelado pelo ótimo ator espanhol Javier Cámara, de Fale com Ela (2002) – até o pai de família louco para cometer adultério, vivido por Eduardo Noriega, protagonista da cinebiografia Che Guevara (2005).

Dois núcleos dramáticos proporcionam duelos de interpretações memoráveis, graças à sensibilidade e ao talento das duplas de atores. No primeiro conto do filme, dois amigos reencontram-se por acaso depois de anos quando um deles sai da sessão com o psicanalista – em comum, o bem-sucedido profissional liberal encarnado pelo argentino Leonardo Sbaraglia e o jornalista desempregado interpretado pelo espanhol Eduardo Fernández dividem a mesma sensação de falta de rumo na vida. Argentina e Espanha voltam a se encontrar no elenco do capítulo mais intrigante de O que os Homens Falam: em um banco de praça, um marido enganado (o argentino Ricardo Darín) divide com um conhecido (o espanhol Luis Tosar) seus sentimentos ambíguos com relação à traição.

O contraponto feminino surge mais para o fim, no irônico carrossel de flertes e revelações que lembra os filmes do francês Eric Rohmer e do americano Woody Allen. A caminho de uma festa, dois casais trocam casualmente os acompanhantes entre si. À medida que as mulheres vão revelando detalhes íntimos dos maridos, evidencia-se a superficialidade dessa amizade masculina, marcada pelo desconhecimento e pelo silêncio de parte a parte.

O filme parece o piloto de um seriado – o realizador, aliás, também escreve e dirige para a televisão espanhola. Cesc Gay acerta ao evitar os estereótipos e o maniqueísmo: o cineasta apenas apresenta os dilemas de suas criaturas, deixando o julgamento para o público. Ainda que as mulheres pareçam mais seguras e assertivas do que os homens, o longa sustenta que o mal-estar é comum a todos. O que os Homens Falam não se embrenha totalmente pelo caminho dramático – o que talvez resultasse em um filme ainda melhor –, optando por matizar o tom com toques de um melancólico humor. A frase final, dita por um dos machos desencantados, cristaliza no espectador um sorriso amargo: “Pois sim que estamos bem”.

Wes Anderson se inspira em Stefan Zweig para falar do velho e do novo em "Grande Hotel Budapeste"

03 de julho de 2014 0

Wes Anderson é um fabulador pretensioso e radical, o que lhe garante fãs e detratores em porções significativas. Faz barulho desde pelo menos Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e, com Moonrise Kingdom (2012), parecia ter atingido a medida perfeita – até quem costuma não tolerar seus maneirismos se entregou àquela aventura romântica doce e improvável. O que poderia vir depois?

Premiado neste ano no Festival de Berlim (com o grande prêmio do júri) e com estreia hoje no circuito brasileiro, Grande Hotel Budapeste não chega a ser um projeto maior do cineasta texano, mas prova o prestígio que ele alcançou aos 45 anos: mesmo com orçamento modesto (US$ 31 milhões), o filme reúne, em seu elenco, uma das maiores constelações vistas recentemente em Hollywood.

A figura central da trama é Gustave H. (Ralph Fiennes), concierge de um afamado hotel europeu do período entreguerras. Um homem do passado, polido e altivo, que Anderson compôs inspirado em Stefan Zweig (1881 – 1942), autor judeu de origem austríaca que, com a ascensão do nazismo, refugiou-se no Brasil. Ele cometeu suicídio em Petrópolis (RJ), manifestando em uma carta de despedida sua desilusão com o crescimento da intolerância e do autoritarismo na Europa e sem esperanças no futuro do chamado Novo Mundo.

Gustave tem esse desajuste em sua personalidade. Fiennes, em boa atuação, escancara cada evidência de seus conflitos, ao mesmo tempo em que se permite cacos que ressaltam o caráter fabular da história. Seu tempo de reação diante dos fatos, por exemplo, é sempre demorado, como se ele estivesse comentando a ação, algo típico de certas blagues e fundamental para estabelecer Grande Hotel Budapeste no registro cômico. Para embarcar no filme, é necessário simpatizar com essa opção formal – e tolerar os excessos que emanam dela.

Cuidado, também, para não se perder. A trajetória de Gustave H. é narrada por um escritor (Tom Wilkinson). Só que, antes de voltar à década de 1930, este escritor retorna primeiro aos anos 1980 (quando é interpretado por Jude Law) para lembrar o momento em que se hospedou no hotel e conheceu seu proprietário, Mr. Moustafa (F. Murray Abraham). É pelo depoimento de Moustafa que ele toma contato com Gustave H.

Nos anos 1930, os dois, Gustave e Moustafa, eram respectivamente mestre e aprendiz. Não à toa, o pupilo que se transforma em herdeiro do estabelecimento é um imigrante de ascendência árabe que sobe na escala social superando percalços e perseguição: a intolerância, marcante numa época de trevas do século passado, segue um tema importante no Primeiro Mundo hoje.

No fundo, Anderson está falando da passagem do tempo e das mudanças de costumes. Se Gustave faz um tipo que ficou para trás, Moustafa é alguém forjado pelo novo ambiente social. As inúmeras figuras que cruzam seu caminho, da milionária excêntrica (Tilda Swinton) ao capanga implacável (William Dafoe), do policial influente (Edward Norton) ao jovem ambicioso (Adrien Brody), são agentes que ajudam a formatar esse novo ambiente – daí uma das justificativas para a composição de personagens tão estereotipados. Aqui também vale a ressalva: é preciso tolerância para curtir Grande Hotel Budapeste. Mas as questões levantadas, mais do que na maior parte dos trabalhos pregressos do diretor, fazem o filme valer a pena.

Outros 100

30 de junho de 2014 1

Impossível ver a lista de melhores filmes de todos os tempos postada abaixo pelo colega Douglas Roehrs, que compila os eleitos de atores, atrizes e executivos de Hollywood, e não pensar em como é limitado o universo de votos dessa gente. Todos os 59 primeiros colocados são produções norte-americanas, e o 60º, ou seja, o primeiro longa de fora dos EUA, é O Fabuloso Destino de Amélie Pulain. É mole? Gênio Indomável e Harry & Sally estão à frente de todo o cinema europeu, e Um Corpo que Cai, que em 2012 desbancou Cidadão Kane pela primeira vez na tradicionalíssima lista que a revista inglesa Sight & Sound publica de 10 em 10 anos em parceria com o British Film Institute (BFI), aparece apenas em 70º, uma posição atrás de Gladiador e nada menos do que 66 posições atrás de Um Sonho de Liberdade. Que coisa!

Inspirado pelo comentário do leitor Vinícius, e para lembrar que Hollywood também produz gente de cinema com conhecimento mais amplo e arejado, reproduzo abaixo a lista dos 10 melhores na eleição dos cineastas, que é realizada pela Sight & Sound e o BFI paralelamente à dos críticos e pesquisadores (que vem a ser a eleição mais popular, difundida, e que por anos foi encabeçada por Cidadão Kane e, agora, tem Um Corpo que Cai em primeiro lugar). É verdade que, entre os 358 diretores ouvidos, há gente das mais variadas gerações e procedências, de Aki Käurismaki a George Lucas, de Amos Gitai a David O. Russell. Mas a maioria, ou quase isso, faz ou já fez cinema nos EUA – incluindo Fernando Meirelles e Walter Salles. Espie:

1) Era uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu (1953)

2) 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (1968)

3) Cidadão Kane, de OrsonWelles (1941)

4) 8 ½, de Federico Fellini (1963)

5) Taxi Driver, de Martin Scorsese (1976)

6) Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola (1979)

7) O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola (1972)

8) Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock (1958)

9) O Espelho, de Andrey Tarkovsky (1974)

10) Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica (1948)

R.I.P. Tuco

25 de junho de 2014 1

Eli Wallach (1915 – 2014) estrelou montagens teatrais de Tennessee Williams na Broadway, mas, em Hollywood, foi um grande intérprete de criminosos – ladrões, gângsters, mafiosos… Brilhou em faroestes dos anos 1960, como Sete Homens e um Destino (1960), Os Desajustados (1961) e, principalmente, Três Homens em Conflito (1966). No western spaghetti de Sergio Leone, também conhecido pelo título original The Good, the Bad and the Ugly, interpretou Tuco, o feio – Clint Eastwood era o bom, e Lee Van Cleef, o mau. Seguem duas das mais memoráveis cenas desse grande personagem, um dos heróis de ficha mais suja da história do cinema, nesse filme espetacular, um dos melhores do gênero em todos os tempos. R.I.P. Eli Wallach.

"O Segundo Jogo" resume em clássico de futebol o clima na Romênia antes da revolução

10 de junho de 2014 0

Não existe uma simples partida de futebol. Da pelada na calçada à final da Copa do Mundo, estão sempre presentes os ingredientes das jornadas épicas que forjam heróis, arranham reputações e sepultam carreiras. Apresentado na mostra Fórum do Festival de Berlim, em fevereiro passado, o longa-metragem romeno O Segundo Jogo (Al Doilea Joc, 2014), de Corneliu Porumboiu, revive um desses momentos.

Destaque da nona edição do projeto Sessão Plataforma, às 20h30min desta terça-feira, na Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro, O Segundo Jogo reproduz na íntegra uma partida entre o Estrela e o Dínamo, os dois principais times de futebol da Romênia, rivais históricos, ambos fundados logo após a II Guerra e com sede na capital Bucareste.

>>> Leia mais: outros textos sobre filmes já exibidos na Sessão Plataforma: Bestiaire; Room 237; Avanti PopoloO Ato de Matar.

Em O Segundo Jogo, não há narração. Ouve-se apenas as vozes do diretor e de seu pai, Adrian Porumboiu, o juiz daquele jogo que ocorreu em 3 de dezembro de 1988. Exatamente um ano depois do maior clássico do país, teria início a revolta popular que fez ruir o regime comunista comandado com mão de ferro pelo ditador Nicolae Ceausescu.

Nas lembranças de pai e filho, a partida local espelha o clima político da Romênia à época. O Estrela foi criado no ambiente militar e tem seu nome (Steua, no original) em referência ao símbolo do Exército Vermelho soviético que acabou difundido também nas esferas militares dos países-satélites da antiga URSS. O Dínamo nasceu nos corredores no Ministério do Interior e tinha como grandes apoiadores proeminentes burocratas e agentes do aparelho de vigilância estatal.

O Estrela era, em 1988, a equipe mais poderosa da Romênia e uma das grandes forças do futebol europeu. Fez história ao ganhar a Liga dos Campeões da Europa em 1986, batendo o Barcelona na final, sob o comando do jovem craque Gheorghe Hagi, que brilharia em três Copas do Mundo com a Romênia, em 1990, 1994 e 1998.

Em meio à reprodução numa fita VHS da partida, disputada sob uma rigorosa nevasca, Adrian fala das pressões que sofria antes de entrar em campo, comenta algumas jogadas, destaca alguns jogadores. Diante das terríveis condições climáticas, em que mal se consegue ver a bola laranja cruzando um tapete branco praticamente sem marcações, o pai do diretor garante que deu condições de jogo por que “havia visibilidade suficiente”.

O filme não explica ao espectador o contexto daquele jogo. Não era uma decisão, pois ao longo da transmissão é informado o resultado das outras partidas da rodada. O Wikipédia diz que esse foi o segundo duelo do ano entre o Estrela (de vermelho) e Dínamo (de branco no primeiro tempo e de azul no segundo). Em junho, ficaram no 3 a 3. Assim, o “segundo jogo” do título pode ter tanto o significado literal quanto se referir ao outro jogo que estava sendo jogado nos bastidores — o exército acabaria chancelando o levante popular que levou culminou na execução de Ceausescu.

Se a conversa entre pai e filho colocam a narrativa em um plano íntimo e histórico um tanto distante do espectador, o filme seduz, sobretudo os fãs de futebol, pelo ar etéreo e de progressiva tensão que imprime à batalha campal. A neve constante combinada com o granulado da reprodução faz O Segundo Jogo parecer um sonho — ou pesadelo — revisto em flashback.

A horas tantas, o resultado já não importa. A peleia é bastante dura. De um lado, o futebol arte do Estrela. Do outro, o estilo “voluntarioso” do Dínamo. Carrinhos apavorantes, solas de rachar bola e a canela alheia pontuam jogadas de grande técnica que tentam empurrar a bola para dentro do gol de pé em pé.

Corneliu Porumboiu destacou-se internacionalmente em filmes premiados como a comédia A Leste de Bucareste (2006) e o drama Polícia, Adjetivo (2009), que mostraram como a Romênia reaprendeu a caminhar por conta própria sem o peso da era Ceausescu, mas sempre sob a sombra do imenso aparelho burocrático que sobreviveu para atravancar os passos dos cidadãos em tempos de democracia.

O Segundo Jogo pode ser visto como a preliminar do novo país que estava por nascer sob o grito daqueles torcedores encarangados de frio que lotavam o estádio e que acabaram se unindo nas ruas para comemorar uma conquista tão grande e emocionante quanto bater o maior rival de goleada.

A sessão tem ingresso a R$ 3, com reprise no sábado, às 18h. Um dos mais importantes projetos cinéfilos realizados na Capital, a Sessão Plataforma exibe a cada mês filmes inéditos no circuito comercial realizados por diretores com perfil autoral reconhecidos nos mais importantes festivais internacionais.

As margaridas da Primavera de Praga

02 de maio de 2014 0

A quem, como eu, não conseguirá acompanhar a Mostra Nouvelle Tcheca se enfurnando na Sala P.F. Gastal até o próximo domingo, um pequeno consolo: embora não se compare à experiência coletiva de descobrir essas 12 joias que chegam à tela do cinema da Usina do Gasômetro em 35mm — e os relatos de quem está cumprindo a maratona são dos mais entusiasmados —, é possível recuperar o prejuízo com pelo menos duas delas. As Pequenas Margaridas (1966) e Valerie e sua Semana de Deslumbramentos (1970) foram lançados em DVD no Brasil pela Lume Filmes, com os títulos As Margaridas e Valerie e a Semana das Maravilhas. Os adeptos da pesca no mar de torrents podem catar os outros longas da mostra.

Sobre as As Pequenas Margaridas (na foto acima), posso dizer que trata-se de uma das experiências mais ricas e impactantes que  o cinema já proporcionou. Vera Chytilová, diretora que morreu em março passado, aos 85 anos, tem como personagens duas jovens chamadas Maria (vividas por Ivana Karbanová e Jitka Cerhová) que se lançam em uma aventura libertária e anárquica. Não existe uma história, mas sim uma serie de situações em que elas, entre o humor ácido e o puro vandalismo, marcam posição contra as convenções políticas e sociais. É também uma demarcação de território geracional, que deixa claro que o “velho” e o “novo” estão em campos opostos e conflitantes.

Esse filme é fruto do efervescente movimento da contracultura que  floresceu em meados dos anos 1960 na antiga Tchecoslováquia, hoje República Checa, com o país sob a condição de Estado-satélite da extinta União Soviética. O  ensaio de uma utópica distensão da influência soviética, porém, foi abortado pelo Kremlin com a intervenção que se seguiu à Primavera de Praga, em 1968 . Enquanto durou, esse movimento se refletiu na sua produção artística, sobretudo no cinema. Apesar das limitações impostas, os realizadores locais absorveram de forma peculiar a influência da nouvelle vague francesa incorporando na sua temática o componente da crítica e da sátira políticas. Mas foi uma produção que circulou de forma limitada com o endurecimento do regime.

As Pequenas Margaridas espelha o paradoxal sentimento de pessimismo e desânimo embebido na disposição para chutar o balde com uma explosão de criatividade. As meninas de Vera discutem essa condição de estagnação física e existencial enquanto enchem a cara e importunam clientes de uma boate, esnobam pretendentes, exploram homens mais velhos e flanam pelas ruas aprontando suas traquinagens. Em uma ousada demarcação de território feminista, exibem-se como donas de suas mentes e corpos (se dizem irmãs, mas podem ser amigas ou amantes) e fatiam bananas e pepinos numa possível interpretação do desprezo delas pelo símbolo fálico da opressão masculina.

Vera Chytilová dá ao filme à aparência de um mosaico visual, alternado registro em preto e branco com cores berrantes. Flerta com o documental numa sequência, logo adiante se lança em um delírio que interliga dadaísmo e surrealismo e, em seguida, gira em um caleidoscópio psicodélico. Evoca tanto às trucagens mágicas das cabeças de  Méliès nos primórdios do cinema quanto à  bricolagem contemporânea da pop art.

As Pequenas Margaridas despontou com obra-prima simbólica do vanguardismo que caracterizou a  nouvelle vague tcheca. É possível ver referências a ela em filmes como Céline e Julie Vão de Barco (1974), de Jacques Rivette, e Hair (1979), de Milos Forman, diretor checo que faz parte da turma de Vera e que foi fazer uma carreira nos Estados Unidos, onde consagrou-se com os Oscar de direção por Um Estranho no Ninho (1975)  e Amadeus (1984). A cena do hippie pisoteando o banquete da família rica da namorada, em Hair, é decalcada do desfecho de As Pequenas Margaridas, filme que Vera (na tradução do DVD) dedica “a todos cuja única fonte de indignação está esmagada pela mesquinharia”.

Em cartaz em Porto Alegre, dois raros (e bons) filmes do Paraguai e da Venezuela

25 de abril de 2014 0

É raro ver, no circuito brasileiro, filmes da Venezuela e, sobretudo, do Paraguai. Nesta semana, no entanto, um exemplar de cada uma dessas duas pouco conhecidas cinematografias latino-americanas chegou ao circuito. Leia, abaixo, nossos textos sobre ambos:

Pelo Malo,
por Roger Lerina

A presença constante da Venezuela no noticiário nos últimos anos não encontra eco, infelizmente, nas telas dos cinemas – os filmes rodados no país vizinho raramente chegam ao Brasil. O sensível drama Pelo Malo vem quebrar esse jejum, trazendo à discussão problemas comuns à realidade de todo o continente latino-americano: preconceito racial e de orientação sexual, discriminação por gênero e por condição social, precariedade institucional e econômica.

Premiado em San Sebastian, longa em cartaz no CineBancários é dirigido pela cineasta e artista plástica Mariana Rondón – filha de ex-integrantes do grupo guerrilheiro FALN que, em 2007, dirigiu o drama autobiográfico Postales de LeningradoPelo Malo acompanha o cotidiano de Junior (Samuel Lange Zambrano), garoto de nove anos que não se identifica com os padrões masculinos dominantes e insiste em tentar alisar o cabelo crespo para tirar uma foto – a expressão em espanhol “pelo malo” pode ser traduzida em português como “cabelo ruim”.

O menino vive em um conjunto habitacional popular com a mãe – interpretada pela ótima Samantha Castillo –, que não consegue se estabelecer em nenhum emprego e mal dá conta de cuidar de Junior e seu irmãozinho bebê. Incompreendido e rejeitado por Marta – que leva o filho até o médico à procura de um diagnóstico para seu comportamento pouco viril –, o guri relaciona-se apenas com uma vizinha de sua idade e com a avó (Nelly Ramos). Na casa da ex-sogra de Marta, o pequeno protagonista encontra acolhida para fantasias e brincadeiras – como dublar o astro pop venezuelano Henry Stephen em uma versão tropical da música brasileira Meu Limão, Meu Limoeiro, sucesso na voz de Wilson Simonal.

A diretora de Pelo Malo foi criticada por chavistas e aplaudida por oposicionistas na Venezuela em função da denúncia de uma realidade injusta e hipócrita, marcada pelo machismo, pelo conservadorismo, pela intolerância e pela instabilidade. Tateando em busca de sua identidade e de seu lugar em um mundo hostil, o adorável Junior é um quixote mirim que entoa inocentemente a voz da diversidade em Pelo Malo.

7 Caixas,
por Daniel Feix

Depois de quase 30 anos sem produzir um longa-metragem, a cinematografia do Paraguai ressuscitou em 2006, com Hamaca Paraguaya, filme de Paz Encina que ganhou prêmios da crítica no Festival de Cannes e na Mostra de São Paulo, entre outras outras distinções. O impacto – local e global – de outro título do pequeno país vizinho que estreia esta semana no Espaço Itaú é semelhante: 7 Caixas não ganhou tantos troféus, mas bateu recordes de bilheteria no Paraguai, viajou aos festivais de Palm Springs, Toronto e San Sebastian e foi unanimemente bem-recebido pela crítica dos EUA.

Trata-se da história de um menino de 17 anos (Celso Franco) que vive de bicos, sobretudo carregamentos, no Mercado 4, espécie de feirão popular da capital Assunción. Ele sonha em ter um celular, mas o dinheiro que tem não é suficiente, longe disso. Até que lhe oferecem a exorbitante – para ele – quantia de US$ 100 para cuidar de sete misteriosas caixas.

O guri se debate sobre o que há dentro delas, foge de vilões, arruma uma parceira de aventura (Lali Gonzalez)… Os desdobramentos do conflito inicial são reveladores de aspectos sociais importantes daquele contexto: além da pobreza, são marcantes o calor forte, a violência recorrente e a dificuldade de comunicação entre os personagens. A ingenuidade também é onipresente. O problema é que ela transcende a realidade do filme – a inocência do protagonista, às vezes, é a mesma dos diretores Juan Carlos Maneglia e Tana Schembor.

Com fotografia repleta de filtros, montagem ágil e trilha moderninha, 7 Caixas a todo instante parece se colocar como um filme sobre o exótico – mais ou menos o que ocorreu com Quem Quer Ser um Milionário? (2008). Seus méritos, no entanto, também são marcantes: a ação e o suspense são conjugados com humor, o que torna a fruição leve, a despeito do conteúdo, por vezes, pesado. Não se trata de uma maneira simples – nem fácil – de abordar certas mazelas de um país tão difícil de ser retratado no cinema.

Fantaspoa chega à décima edição com mais de 150 filmes e 50 convidados

24 de abril de 2014 0

– Só por este trailer que vamos apresentar agora já dá para ter uma ideia de como o Fantaspoa cresceu.

Foi assim que João Pedro Fleck, o cara por trás do evento (juntamente com Nicolas Tonsho), anunciou esta semana a décima edição do festival fantástico realizado em Porto Alegre. O trailer contém trechos de alguns dos mais de 150 filmes (dois terços disso formados por longas-metragens) que serão exibidos entre 9 e 25 de maio no CineBancários no Santander Cultural e nas salas da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana.

Serão sete mostras, 37 sessões comentadas, mais de 50 convidados, muitos deles do Exterior, e cinco cursos de cinema, todos ministrados por profissionais vindos de fora do país. Se no ano passado um dos destaques do Fantaspoa foi a exibição da cópia restaurada e musicada ao vivo de O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, neste ano o festival vai repetir a experiência com A Morte Cansada (1921), thriller de fantasia de Fritz Lang, que terá música ao vivo a cargo do argentino Germán Suane.

São várias as promessas de bons filmes em meio à grade de programação. Um deles é o novíssimo (e ótimo) longa do diretor Nacho Vigalondo, o thriller Open Windows, estrelado por Elijah Wood e Sasha Grey (ela mesma), e que foi projetado logo em seguida à apresentação desta edição do festival a uma plateia formada por críticos e jornalistas locais. De Bruce La Bruce (um dos convidados do evento), o 10º Fantaspoa vai apresentar Gerontophilia (2013) e Otto (2008). Outras presenças de destaque serão as dos diretores BobcatGoldthwait, que vem comentar o elogiado Deus Abençoe a América (2011), e Richard Stanley, da cultuada ficção científica Hardware – O Destruidor do Futuro (1990).

Na abertura, serão celebrados os 30 anos do clássico O Vingador Tóxico (1984) que projetou a produtora independente Troma, de Michael Herz e Lloyd Kaufman, este último o diretor do longa, também presença confirmada em Porto Alegre. No encerramento, a primeira sessão pública de Jorge e Alberto Contra os Demônios Neoliberais, dos argentinos Hernán e Gonzalo Quintana, primeiro longa que conta com o selo da Fantaspoa Produções (em parceria com a El Desquicio Producción).

Eis o trailer:

As cartas redentoras de Miguel Gomes

18 de abril de 2014 0

Redemption_2

Depois de Tabu (2012), o realizador português Miguel Gomes dedicou-se a um projeto menor no tamanho mas igualmente grandioso na ambição artística. O curta-metragem Redemption, apresentado por ele em setembro de 2013 no Festival de Toronto, é como uma versão concentrada das engenhosas ferramentas narrativas e da paixão pelo cinema que o diretor mostrou também em seus outros dois longas, A Cara que Mereces (2004) e Aquele Querido Mês de Agosto (2008).

Nada muito grave, mas se você for adiante neste texto vai deparar com algumas informações que podem  arrefecer um tanto a fruição de Redemption, mas sobre as quais não se pode deixar de comentar.

Ao longo de 26 minutos, Gomes combina em Redemption uma narração ficcional epistolar (“fruto da imaginação do autor”, como explica nos créditos) com imagens de arquivos que vão de registros históricos e trechos de filmes documentais a cenas de clássicos como Milagre em Milão (1951), de Vittorio De Sica. A proposta do diretor é, por meio de quatro  histórias banais, que poderiam ter sido protagonizadas por qualquer espectador, traçar breves perfis “redentores” de líderes políticos de países europeus. Apenas nos créditos finais é informado que são eles Pedro Passos Coelho (Portugal), Silvio Berlusconi (Itália), Nicolas Sarkozy (França) e Angela Merkel (Alemanha) — o primeiro-ministro Coelho e a chanceler Angela ainda estão no cargo.

Os quatro segmentos de Redemption são construídos a partir de cartas imaginárias que narram situações que seus autores recordam ou vivem naquele instante. Vale notar que Gomes faz uso em sua ficção de alguns fatos biográficos reais dessas personalidades. E a revelação de quem são elas se dar apenas ao final, após conquistar  a empatia do espectador, parece ter como objetivo humanizá-las, colocá-las como seres passíveis de inquietações existenciais profundas e comezinhas às quais figuras públicas poderosas costumam se tornar impermeáveis.

Datada em 21 de maio de 1975, a carta de Coelho traz reflexões de um menino sobre a saudade de seus pais, que estão em Angola, que no começo daquele ano deixara de ser colônia portuguesa na África, e sobre os novos ares que pairam sobre Portugal após a Revolução dos Cravos.  Berlusconi, em 13 de julho de 2011, lembra de uma desilusão amorosa que viveu quando garoto em Milão, após a II Guerra. Em 6 de maio de 2012, de Paris, Sarkozy escreve um relato afetivo sobre a paternidade a ser lido por sua filha pequena no futuro. E em 3 de setembro de 1977, desde Leipzig, a jovem Merkel, estudante de física, faz uma descrição emocionada de seu recente casamento com um colega de faculdade, reitera sua paixão por Wagner e lembra os tempos de privações na antiga Alemanha Oriental.

Como em Tabu, o lirismo resultante da narração epistolar em Redemption,  em quatro diferentes idiomas, é por demais encantador. A harmonia narrativa entre o texto e a inventiva colagem de imagens de tão variadas procedências e o caráter histórico e político sublinhado por Gomes qualificam sobremaneira este pequeno grande filme.

Confira uma entrevista de Miguel Gomes explicando o projeto e trailers de Redemption.

"Alabama Monroe" chega atrasado, mas é uma sessão imperdível

18 de abril de 2014 0

Nem o atraso na chegada diminui o impacto de Alabama Monroe. Três meses depois de estrear em outras cidades brasileiras, onde já chegou cultuado graças ao compartilhamento via internet, este belo filme belga entrou em cartaz nesta semana no Guion Center. Premiado, entre outros, nos festivais de Berlim, Tribeca, Palm Springs e Copenhagen, além de ser indicado ao Oscar de melhor longa estrangeiro e vencer a mesma categoria no César francês, o filme de Felix van Groeningen pode agora, finalmente, ser visto na sala de cinema em Porto Alegre.

O título original é The Broken Circle Break­down, em inglês mesmo (apesar de os diálogos serem na língua flamenga), por conta da obsessão do protagonista, o músico de bluegrass Didier (Johan Heldenbergh), com a cultura norte-americana. Mas não se pode ignorar o lirismo da tradução, que une os nomes artísticos dele (Monroe) e de sua mulher e parceira musical, a tatuadora Elise (Veerle Baetens), ou Alabama.

É que a narrativa, construída de maneira engenhosa a partir de idas e vindas no tempo, provoca o espectador a pensar sobre a estranha força capaz, ao mesmo tempo, de aproximar e afastar esse casal apaixonado porém abalado pela grave doença de sua filha pequena (Nell Cattrysse). Groeningen nos apresenta tudo, da paixão inicial às brigas dolorosas, do casamento e da construção da vida a dois ao enfrentamento dos obstáculos que insistem em testar a força da estrutura familiar.

A relação guarda em si uma bipolaridade, graças à intensidade com a qual os dois que a vivenciam e, sobretudo, às suas diferenças – ele é ateu, ela, católica; ele cultua o sonho americano, ela tem os pés no chão. Quando a menina de seis anos adoece, tudo fica potencializado. E o filme cresce.

O ápice da crise de Elise, lá pelo meio da projeção, é usado pelo jovem diretor (tem 35 anos) como gancho para uma série de flashbacks que iluminam algumas sombras que porventura existissem até então. Alabama Monroe não tem as cores vibrantes do francês A Guerra Está Declarada (de Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm, 2011), outro filme sobre o mesmo tema, mas tem a luz da obra-prima romântica espanhola Os Amantes do Círculo Polar (Julio Medem, 1998): quanto mais o destino parece querer afastar o casal, mais o espectador se afeiçoa por aquele relacionamento.

O que pode quebrar um círculo aparentemente inquebrável? É uma pergunta que Groeningen joga na tela desde a música de abertura do longa, o hino gospel Will the Circle Be Unbroken, espécie de oração folk que inspirou o título e que perpassa a trama até o seu desfecho. O apelo da fé, aqui, está no mesmo nível da propaganda que vende a América como uma terra de sonhos: cultua-se o que se convém cultuar, de acordo com cada contexto e com determinadas necessidades.

É o que faz Alabama Monroe, além de lindo em sua tristeza e inventivo em sua forma, um filme politicamente contundente.

Marlon Brando na flor da idade

03 de abril de 2014 0

Hoje completam-se 90 anos do nascimento de Marlon Brando (1924 – 2004), also known as o maior ator do mundo – na opinião de muita gente, incluindo este escriba.

Rápida e humilde homenagem: em 1947, aos 23 anos, Brando foi aos estúdios da Warner para um teste de elenco para uma adaptação de Rebel Without a Cause, livro de Robert Lindner. Essa adaptação só sairia do papel, de fato, nas mãos do diretor Nicholas Ray em 1955, com James Dean como o protagonista (no Brasil, o filme se chamou Juventude Transviada). E Brando só estrearia no cinema em Espíritos Indômitos, em 1950, aos 26 anos – despontando para o estrelato no ano seguinte, como o Stanley Kowalski de Uma Rua Chamada Pecado (1951), de Elia Kazan.

O vídeo do tal teste de elenco de 1947 circula por aí, e pode ser visto abaixo. Nem precisa ser fã para achar emocionante, confira:

"Uma Estranha Amizade" aborda com sensibilidade o abismo entre-gerações

29 de março de 2014 0

Estreia do fim de semana apenas no GNC Moinhos, em Porto Alegre, Uma Estranha Amizade é um filme independente norte-americano sobre a amizade de Jane, uma menina de 21 anos (Dree Hemingway, bisneta do autor de O Velho e o Mar), com Sadie, uma senhora de 85 (Besedka Johnson, atriz não profissional que aqui estreava tardiamente no cinema e que morreu logo após as filmagens). Não é só isso, mas são poucos os longas que retratam de maneira tão sensível e perspicaz o atual abismo entre-gerações.

O diretor Sean Baker chega lá valorizando o significado dos chamados momentos mortos (aqueles nos quais, aparentemente, nada de relevante acontece) e surpreendendo o espectador com revelações pontuais acerca das motivações das duas personagens. É mais interessante, inclusive, descobrir a história sem saber muito sobre ambas: as informações (acerca do trabalho de Jane e do passado de Sadie, por exemplo) são dispostas na medida para fazer o público captar a natureza amoral e desprovida de preconceitos com que Baker constrói esse encontro.

Elas se conhecem quando a garota visita a garage sale (feiras pessoais para se desfazer de pertences usados) da mulher mais velha. Jane vive no Vale de San Fernando, periferia rica de Los Angeles, com dois amigos (Stella Maeve e James Ransone) com os quais parece não fazer muito mais do que jogar videogame e fumar maconha. De Sadie, adquire um jarro que parece uma urna mas que servirá de vaso para redecorar seu quarto. Só depois ela descobre: o objeto guarda em seu interior maços com alguns milhares de dólares. Sadie não desconfiava de que possuía o dinheiro. E Jane não sabe o que fazer com ele – e com a culpa de, eventualmente, gastar uma grana que não é sua.

De fato, ao procurar Sadie e insistir em se aproximar dela, parece que Jane busca expiar essa culpa. Mas, isso você pode saber de antemão, Uma Estranha Amizade não é um filme de perguntas e respostas óbvias: no fundo, apesar da imensa diferença de idade e visão de mundo, o vazio existencial de uma tem muito a ver com o da outra.

Não é sem razão que as escolhas de Jane e o próprio rumo que dá à sua vida parecem aleatórios. Algumas sacadas de Baker para deixar isso claro são dignas de nota. Uma delas: o cãozinho dela, mesmo sendo macho, ganhou a alcunha feminina de Starlet, simplesmente porque a garota “gostava do nome antes de escolher o cachorro”. Ao batizar o filme de Starlet (título original de Uma Estranha Amizade), o diretor enfatiza o quanto essa aleatoriedade é importante para moldar a personagem.

Tem a ver com o cinema da diretora Sofia Coppola – que, aliás, fez seu mais recente longa, Bling Ring (2013), sobre a mesma juventude do Vale de San Fernando. Mas a forma com que esse nicho social se relaciona com o restante das pessoas, neste terceiro longa de Baker (o primeiro a ganhar projeção internacional), é ainda melhor e mais complexa.