Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts na categoria "cinema internacional"

Três vezes bom cinema

11 de julho de 2014 0

Nesta semana, o Cine Santander, em Porto Alegre, estreia três filmes de autor premiados em edições recentes dos principais festivais europeus: Heli, do mexicano Amat Escalante, Vic + Flo Viram um Urso, do canadense Denis Côté, e Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho, do bósnio Danis Tanovic. Os três têm distribuição nacional pela Zeta Filmes. Confira, abaixo, breves textos sobre cada um deles:

Via-crúcis bósnia
Por Marcelo Perrone

O relato em um jornal do drama vivido por Senada Alimanovic e seu marido, Nazif Mujic, indignou o diretor bósnio Danis Tanovic. Carregando no ventre um feto morto, a mulher teve atendimento negado por não ter plano de saúde e tampouco dinheiro para realizar a cirugia emergencial. Tanovic fez da via-crúcis vivida pelo casal de sangue cigano tema de Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (2013), docudrama em que Nazif e Senada interpretam seus próprios papéis. O impacto do recurso é de tal ordem que Nazif foi consagrado com o troféu de melhor ator no Festival de Berlim.

O ofício do protagonista é simbólico. Ele é a sucata humana de um país que o discrimina por sua etnia e o exclui do sistema econômico e político erguido sob as cinzas da Guerra da Bósnia (1992 – 1995). Nessa enxuta e potente dramatização do real, Tanovic exibe um filme arrojado no seu embaralhamento de gêneros. E presta tributo aos primórdios dessa proposta narrativa lembrando Nanook do Norte (1922), filme no qual Robert Flaherty recriou – sob sua interferência dramatúrgica – a rotina de um esquimó no Alasca.

Mistério canadense
Por Daniel Feix

Era uma vez duas condenadas apaixonadas que, ao saírem da prisão, ficam livres para viver sua história de amor numa casa de campo. Premiado em Berlim, o longa canadense Vic + Flo Viram um Urso (2013) começa quase como um conto de fadas. Mas o clima misterioso e frio (ressaltado pela fotografia de paleta azulada) aos poucos revela que aquela região de estradas estreitas cercadas de mato reserva surpresas desagradáveis.

O urso do título é metafórico, mas vale notar que Denis Côté, um dos vários bons diretores quebequenses deste século 21, gosta de trabalhar com, vamos dizer assim, referências animais – vide Bestiaire (2012), exibido em Porto Alegre na Sessão Plataforma. Aqui, a relação estabelecida é entre predadores e presas. Para descobrir quais papéis cabem às protagonistas, vividas por Pierrette Robitaille e Romane Bohringer, você tem de ver o filme.

Vic + Flo não é exatamente violento. O que o faz valer a pena é a espera pela violência, pontuada pela entrega sutil de informações relevantes por parte de Côté, às vezes a partir de movimentos de câmera lentos, alongados. Nesse sentido, Vic + Flo é um desafio ao espectador – do qual, dado seu impacto estético, é impossível sair perdendo.

Violência mexicana
Por Roger Lerina

A realidade brutal do México dos desfavorecidos, expostos à violência do tráfico e da corrupção, é o pano de fundo de Heli (2013), filme de narrativa seca de Amat Escalante que levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes de 2013.

Produção independente de baixíssimo orçamento, o drama começa mostrando em imagens cruas um cadáver sendo pendurado no alto de um viaduto por um grupo de homens. A partir daí, a história conta em retrospecto os eventos que antecederam o macabro gesto.

Heli (Armando Espitia) é um rapaz que mora com a mulher e o filho bebê na mesma casa que seu pai e sua irmã adolescente, em uma cidadezinha mexicana. Os dois homens trabalham em uma fábrica de carros, enquanto a menina Estela (Andrea Vergara), mal saída da infância, vai à escola e resiste ao assédio do namorado, o recruta Beto (Juan Eduardo Palacios).

Ao esconder na casa de Estela parte da droga que seus colegas militares desviaram em uma operação de combate ao tráfico, o cadete precipita uma tragédia que literalmente invade o lar da família de Heli.

Comédia dramática espanhola “O que os Homens Falam” fala de amor pela visão masculina

06 de julho de 2014 0

O título em português pode induzir a um juízo equivocado: O que os Homens Falam não é uma versão em castelhano de E Aí… Comeu? (2012). Diferentemente dessa comédia brasileira, o filme espanhol em cartaz na Capital tem diálogos inteligentes, narrativa bem construída e atuações excepcionais. O diretor e roteirista catalão Cesc Gay ambienta em sua Barcelona natal as tramas de sua comédia dramática: da manhã à noite, o longa mostra oito homens quarentões em crise.

O que os Homens Falam encadeia meia dúzia de esquetes em que os personagens expõem fragilidades e compartilham dúvidas – existenciais, amorosas, sexuais, profissionais. Há desde o ex-marido que escolhe uma péssima hora para tentar a reconciliação com a antiga companheira – episódio estrelado pelo ótimo ator espanhol Javier Cámara, de Fale com Ela (2002) – até o pai de família louco para cometer adultério, vivido por Eduardo Noriega, protagonista da cinebiografia Che Guevara (2005).

Dois núcleos dramáticos proporcionam duelos de interpretações memoráveis, graças à sensibilidade e ao talento das duplas de atores. No primeiro conto do filme, dois amigos reencontram-se por acaso depois de anos quando um deles sai da sessão com o psicanalista – em comum, o bem-sucedido profissional liberal encarnado pelo argentino Leonardo Sbaraglia e o jornalista desempregado interpretado pelo espanhol Eduardo Fernández dividem a mesma sensação de falta de rumo na vida. Argentina e Espanha voltam a se encontrar no elenco do capítulo mais intrigante de O que os Homens Falam: em um banco de praça, um marido enganado (o argentino Ricardo Darín) divide com um conhecido (o espanhol Luis Tosar) seus sentimentos ambíguos com relação à traição.

O contraponto feminino surge mais para o fim, no irônico carrossel de flertes e revelações que lembra os filmes do francês Eric Rohmer e do americano Woody Allen. A caminho de uma festa, dois casais trocam casualmente os acompanhantes entre si. À medida que as mulheres vão revelando detalhes íntimos dos maridos, evidencia-se a superficialidade dessa amizade masculina, marcada pelo desconhecimento e pelo silêncio de parte a parte.

O filme parece o piloto de um seriado – o realizador, aliás, também escreve e dirige para a televisão espanhola. Cesc Gay acerta ao evitar os estereótipos e o maniqueísmo: o cineasta apenas apresenta os dilemas de suas criaturas, deixando o julgamento para o público. Ainda que as mulheres pareçam mais seguras e assertivas do que os homens, o longa sustenta que o mal-estar é comum a todos. O que os Homens Falam não se embrenha totalmente pelo caminho dramático – o que talvez resultasse em um filme ainda melhor –, optando por matizar o tom com toques de um melancólico humor. A frase final, dita por um dos machos desencantados, cristaliza no espectador um sorriso amargo: “Pois sim que estamos bem”.

Wes Anderson se inspira em Stefan Zweig para falar do velho e do novo em "Grande Hotel Budapeste"

03 de julho de 2014 0

Wes Anderson é um fabulador pretensioso e radical, o que lhe garante fãs e detratores em porções significativas. Faz barulho desde pelo menos Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e, com Moonrise Kingdom (2012), parecia ter atingido a medida perfeita – até quem costuma não tolerar seus maneirismos se entregou àquela aventura romântica doce e improvável. O que poderia vir depois?

Premiado neste ano no Festival de Berlim (com o grande prêmio do júri) e com estreia hoje no circuito brasileiro, Grande Hotel Budapeste não chega a ser um projeto maior do cineasta texano, mas prova o prestígio que ele alcançou aos 45 anos: mesmo com orçamento modesto (US$ 31 milhões), o filme reúne, em seu elenco, uma das maiores constelações vistas recentemente em Hollywood.

A figura central da trama é Gustave H. (Ralph Fiennes), concierge de um afamado hotel europeu do período entreguerras. Um homem do passado, polido e altivo, que Anderson compôs inspirado em Stefan Zweig (1881 – 1942), autor judeu de origem austríaca que, com a ascensão do nazismo, refugiou-se no Brasil. Ele cometeu suicídio em Petrópolis (RJ), manifestando em uma carta de despedida sua desilusão com o crescimento da intolerância e do autoritarismo na Europa e sem esperanças no futuro do chamado Novo Mundo.

Gustave tem esse desajuste em sua personalidade. Fiennes, em boa atuação, escancara cada evidência de seus conflitos, ao mesmo tempo em que se permite cacos que ressaltam o caráter fabular da história. Seu tempo de reação diante dos fatos, por exemplo, é sempre demorado, como se ele estivesse comentando a ação, algo típico de certas blagues e fundamental para estabelecer Grande Hotel Budapeste no registro cômico. Para embarcar no filme, é necessário simpatizar com essa opção formal – e tolerar os excessos que emanam dela.

Cuidado, também, para não se perder. A trajetória de Gustave H. é narrada por um escritor (Tom Wilkinson). Só que, antes de voltar à década de 1930, este escritor retorna primeiro aos anos 1980 (quando é interpretado por Jude Law) para lembrar o momento em que se hospedou no hotel e conheceu seu proprietário, Mr. Moustafa (F. Murray Abraham). É pelo depoimento de Moustafa que ele toma contato com Gustave H.

Nos anos 1930, os dois, Gustave e Moustafa, eram respectivamente mestre e aprendiz. Não à toa, o pupilo que se transforma em herdeiro do estabelecimento é um imigrante de ascendência árabe que sobe na escala social superando percalços e perseguição: a intolerância, marcante numa época de trevas do século passado, segue um tema importante no Primeiro Mundo hoje.

No fundo, Anderson está falando da passagem do tempo e das mudanças de costumes. Se Gustave faz um tipo que ficou para trás, Moustafa é alguém forjado pelo novo ambiente social. As inúmeras figuras que cruzam seu caminho, da milionária excêntrica (Tilda Swinton) ao capanga implacável (William Dafoe), do policial influente (Edward Norton) ao jovem ambicioso (Adrien Brody), são agentes que ajudam a formatar esse novo ambiente – daí uma das justificativas para a composição de personagens tão estereotipados. Aqui também vale a ressalva: é preciso tolerância para curtir Grande Hotel Budapeste. Mas as questões levantadas, mais do que na maior parte dos trabalhos pregressos do diretor, fazem o filme valer a pena.

Outros 100

30 de junho de 2014 1

Impossível ver a lista de melhores filmes de todos os tempos postada abaixo pelo colega Douglas Roehrs, que compila os eleitos de atores, atrizes e executivos de Hollywood, e não pensar em como é limitado o universo de votos dessa gente. Todos os 59 primeiros colocados são produções norte-americanas, e o 60º, ou seja, o primeiro longa de fora dos EUA, é O Fabuloso Destino de Amélie Pulain. É mole? Gênio Indomável e Harry & Sally estão à frente de todo o cinema europeu, e Um Corpo que Cai, que em 2012 desbancou Cidadão Kane pela primeira vez na tradicionalíssima lista que a revista inglesa Sight & Sound publica de 10 em 10 anos em parceria com o British Film Institute (BFI), aparece apenas em 70º, uma posição atrás de Gladiador e nada menos do que 66 posições atrás de Um Sonho de Liberdade. Que coisa!

Inspirado pelo comentário do leitor Vinícius, e para lembrar que Hollywood também produz gente de cinema com conhecimento mais amplo e arejado, reproduzo abaixo a lista dos 10 melhores na eleição dos cineastas, que é realizada pela Sight & Sound e o BFI paralelamente à dos críticos e pesquisadores (que vem a ser a eleição mais popular, difundida, e que por anos foi encabeçada por Cidadão Kane e, agora, tem Um Corpo que Cai em primeiro lugar). É verdade que, entre os 358 diretores ouvidos, há gente das mais variadas gerações e procedências, de Aki Käurismaki a George Lucas, de Amos Gitai a David O. Russell. Mas a maioria, ou quase isso, faz ou já fez cinema nos EUA – incluindo Fernando Meirelles e Walter Salles. Espie:

1) Era uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu (1953)

2) 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (1968)

3) Cidadão Kane, de OrsonWelles (1941)

4) 8 ½, de Federico Fellini (1963)

5) Taxi Driver, de Martin Scorsese (1976)

6) Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola (1979)

7) O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola (1972)

8) Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock (1958)

9) O Espelho, de Andrey Tarkovsky (1974)

10) Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica (1948)

R.I.P. Tuco

25 de junho de 2014 1

Eli Wallach (1915 – 2014) estrelou montagens teatrais de Tennessee Williams na Broadway, mas, em Hollywood, foi um grande intérprete de criminosos – ladrões, gângsters, mafiosos… Brilhou em faroestes dos anos 1960, como Sete Homens e um Destino (1960), Os Desajustados (1961) e, principalmente, Três Homens em Conflito (1966). No western spaghetti de Sergio Leone, também conhecido pelo título original The Good, the Bad and the Ugly, interpretou Tuco, o feio – Clint Eastwood era o bom, e Lee Van Cleef, o mau. Seguem duas das mais memoráveis cenas desse grande personagem, um dos heróis de ficha mais suja da história do cinema, nesse filme espetacular, um dos melhores do gênero em todos os tempos. R.I.P. Eli Wallach.

"O Segundo Jogo" resume em clássico de futebol o clima na Romênia antes da revolução

10 de junho de 2014 0

Não existe uma simples partida de futebol. Da pelada na calçada à final da Copa do Mundo, estão sempre presentes os ingredientes das jornadas épicas que forjam heróis, arranham reputações e sepultam carreiras. Apresentado na mostra Fórum do Festival de Berlim, em fevereiro passado, o longa-metragem romeno O Segundo Jogo (Al Doilea Joc, 2014), de Corneliu Porumboiu, revive um desses momentos.

Destaque da nona edição do projeto Sessão Plataforma, às 20h30min desta terça-feira, na Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro, O Segundo Jogo reproduz na íntegra uma partida entre o Estrela e o Dínamo, os dois principais times de futebol da Romênia, rivais históricos, ambos fundados logo após a II Guerra e com sede na capital Bucareste.

>>> Leia mais: outros textos sobre filmes já exibidos na Sessão Plataforma: Bestiaire; Room 237; Avanti PopoloO Ato de Matar.

Em O Segundo Jogo, não há narração. Ouve-se apenas as vozes do diretor e de seu pai, Adrian Porumboiu, o juiz daquele jogo que ocorreu em 3 de dezembro de 1988. Exatamente um ano depois do maior clássico do país, teria início a revolta popular que fez ruir o regime comunista comandado com mão de ferro pelo ditador Nicolae Ceausescu.

Nas lembranças de pai e filho, a partida local espelha o clima político da Romênia à época. O Estrela foi criado no ambiente militar e tem seu nome (Steua, no original) em referência ao símbolo do Exército Vermelho soviético que acabou difundido também nas esferas militares dos países-satélites da antiga URSS. O Dínamo nasceu nos corredores no Ministério do Interior e tinha como grandes apoiadores proeminentes burocratas e agentes do aparelho de vigilância estatal.

O Estrela era, em 1988, a equipe mais poderosa da Romênia e uma das grandes forças do futebol europeu. Fez história ao ganhar a Liga dos Campeões da Europa em 1986, batendo o Barcelona na final, sob o comando do jovem craque Gheorghe Hagi, que brilharia em três Copas do Mundo com a Romênia, em 1990, 1994 e 1998.

Em meio à reprodução numa fita VHS da partida, disputada sob uma rigorosa nevasca, Adrian fala das pressões que sofria antes de entrar em campo, comenta algumas jogadas, destaca alguns jogadores. Diante das terríveis condições climáticas, em que mal se consegue ver a bola laranja cruzando um tapete branco praticamente sem marcações, o pai do diretor garante que deu condições de jogo por que “havia visibilidade suficiente”.

O filme não explica ao espectador o contexto daquele jogo. Não era uma decisão, pois ao longo da transmissão é informado o resultado das outras partidas da rodada. O Wikipédia diz que esse foi o segundo duelo do ano entre o Estrela (de vermelho) e Dínamo (de branco no primeiro tempo e de azul no segundo). Em junho, ficaram no 3 a 3. Assim, o “segundo jogo” do título pode ter tanto o significado literal quanto se referir ao outro jogo que estava sendo jogado nos bastidores — o exército acabaria chancelando o levante popular que levou culminou na execução de Ceausescu.

Se a conversa entre pai e filho colocam a narrativa em um plano íntimo e histórico um tanto distante do espectador, o filme seduz, sobretudo os fãs de futebol, pelo ar etéreo e de progressiva tensão que imprime à batalha campal. A neve constante combinada com o granulado da reprodução faz O Segundo Jogo parecer um sonho — ou pesadelo — revisto em flashback.

A horas tantas, o resultado já não importa. A peleia é bastante dura. De um lado, o futebol arte do Estrela. Do outro, o estilo “voluntarioso” do Dínamo. Carrinhos apavorantes, solas de rachar bola e a canela alheia pontuam jogadas de grande técnica que tentam empurrar a bola para dentro do gol de pé em pé.

Corneliu Porumboiu destacou-se internacionalmente em filmes premiados como a comédia A Leste de Bucareste (2006) e o drama Polícia, Adjetivo (2009), que mostraram como a Romênia reaprendeu a caminhar por conta própria sem o peso da era Ceausescu, mas sempre sob a sombra do imenso aparelho burocrático que sobreviveu para atravancar os passos dos cidadãos em tempos de democracia.

O Segundo Jogo pode ser visto como a preliminar do novo país que estava por nascer sob o grito daqueles torcedores encarangados de frio que lotavam o estádio e que acabaram se unindo nas ruas para comemorar uma conquista tão grande e emocionante quanto bater o maior rival de goleada.

A sessão tem ingresso a R$ 3, com reprise no sábado, às 18h. Um dos mais importantes projetos cinéfilos realizados na Capital, a Sessão Plataforma exibe a cada mês filmes inéditos no circuito comercial realizados por diretores com perfil autoral reconhecidos nos mais importantes festivais internacionais.

As margaridas da Primavera de Praga

02 de maio de 2014 0

A quem, como eu, não conseguirá acompanhar a Mostra Nouvelle Tcheca se enfurnando na Sala P.F. Gastal até o próximo domingo, um pequeno consolo: embora não se compare à experiência coletiva de descobrir essas 12 joias que chegam à tela do cinema da Usina do Gasômetro em 35mm — e os relatos de quem está cumprindo a maratona são dos mais entusiasmados —, é possível recuperar o prejuízo com pelo menos duas delas. As Pequenas Margaridas (1966) e Valerie e sua Semana de Deslumbramentos (1970) foram lançados em DVD no Brasil pela Lume Filmes, com os títulos As Margaridas e Valerie e a Semana das Maravilhas. Os adeptos da pesca no mar de torrents podem catar os outros longas da mostra.

Sobre as As Pequenas Margaridas (na foto acima), posso dizer que trata-se de uma das experiências mais ricas e impactantes que  o cinema já proporcionou. Vera Chytilová, diretora que morreu em março passado, aos 85 anos, tem como personagens duas jovens chamadas Maria (vividas por Ivana Karbanová e Jitka Cerhová) que se lançam em uma aventura libertária e anárquica. Não existe uma história, mas sim uma serie de situações em que elas, entre o humor ácido e o puro vandalismo, marcam posição contra as convenções políticas e sociais. É também uma demarcação de território geracional, que deixa claro que o “velho” e o “novo” estão em campos opostos e conflitantes.

Esse filme é fruto do efervescente movimento da contracultura que  floresceu em meados dos anos 1960 na antiga Tchecoslováquia, hoje República Checa, com o país sob a condição de Estado-satélite da extinta União Soviética. O  ensaio de uma utópica distensão da influência soviética, porém, foi abortado pelo Kremlin com a intervenção que se seguiu à Primavera de Praga, em 1968 . Enquanto durou, esse movimento se refletiu na sua produção artística, sobretudo no cinema. Apesar das limitações impostas, os realizadores locais absorveram de forma peculiar a influência da nouvelle vague francesa incorporando na sua temática o componente da crítica e da sátira políticas. Mas foi uma produção que circulou de forma limitada com o endurecimento do regime.

As Pequenas Margaridas espelha o paradoxal sentimento de pessimismo e desânimo embebido na disposição para chutar o balde com uma explosão de criatividade. As meninas de Vera discutem essa condição de estagnação física e existencial enquanto enchem a cara e importunam clientes de uma boate, esnobam pretendentes, exploram homens mais velhos e flanam pelas ruas aprontando suas traquinagens. Em uma ousada demarcação de território feminista, exibem-se como donas de suas mentes e corpos (se dizem irmãs, mas podem ser amigas ou amantes) e fatiam bananas e pepinos numa possível interpretação do desprezo delas pelo símbolo fálico da opressão masculina.

Vera Chytilová dá ao filme à aparência de um mosaico visual, alternado registro em preto e branco com cores berrantes. Flerta com o documental numa sequência, logo adiante se lança em um delírio que interliga dadaísmo e surrealismo e, em seguida, gira em um caleidoscópio psicodélico. Evoca tanto às trucagens mágicas das cabeças de  Méliès nos primórdios do cinema quanto à  bricolagem contemporânea da pop art.

As Pequenas Margaridas despontou com obra-prima simbólica do vanguardismo que caracterizou a  nouvelle vague tcheca. É possível ver referências a ela em filmes como Céline e Julie Vão de Barco (1974), de Jacques Rivette, e Hair (1979), de Milos Forman, diretor checo que faz parte da turma de Vera e que foi fazer uma carreira nos Estados Unidos, onde consagrou-se com os Oscar de direção por Um Estranho no Ninho (1975)  e Amadeus (1984). A cena do hippie pisoteando o banquete da família rica da namorada, em Hair, é decalcada do desfecho de As Pequenas Margaridas, filme que Vera (na tradução do DVD) dedica “a todos cuja única fonte de indignação está esmagada pela mesquinharia”.

Em cartaz em Porto Alegre, dois raros (e bons) filmes do Paraguai e da Venezuela

25 de abril de 2014 0

É raro ver, no circuito brasileiro, filmes da Venezuela e, sobretudo, do Paraguai. Nesta semana, no entanto, um exemplar de cada uma dessas duas pouco conhecidas cinematografias latino-americanas chegou ao circuito. Leia, abaixo, nossos textos sobre ambos:

Pelo Malo,
por Roger Lerina

A presença constante da Venezuela no noticiário nos últimos anos não encontra eco, infelizmente, nas telas dos cinemas – os filmes rodados no país vizinho raramente chegam ao Brasil. O sensível drama Pelo Malo vem quebrar esse jejum, trazendo à discussão problemas comuns à realidade de todo o continente latino-americano: preconceito racial e de orientação sexual, discriminação por gênero e por condição social, precariedade institucional e econômica.

Premiado em San Sebastian, longa em cartaz no CineBancários é dirigido pela cineasta e artista plástica Mariana Rondón – filha de ex-integrantes do grupo guerrilheiro FALN que, em 2007, dirigiu o drama autobiográfico Postales de LeningradoPelo Malo acompanha o cotidiano de Junior (Samuel Lange Zambrano), garoto de nove anos que não se identifica com os padrões masculinos dominantes e insiste em tentar alisar o cabelo crespo para tirar uma foto – a expressão em espanhol “pelo malo” pode ser traduzida em português como “cabelo ruim”.

O menino vive em um conjunto habitacional popular com a mãe – interpretada pela ótima Samantha Castillo –, que não consegue se estabelecer em nenhum emprego e mal dá conta de cuidar de Junior e seu irmãozinho bebê. Incompreendido e rejeitado por Marta – que leva o filho até o médico à procura de um diagnóstico para seu comportamento pouco viril –, o guri relaciona-se apenas com uma vizinha de sua idade e com a avó (Nelly Ramos). Na casa da ex-sogra de Marta, o pequeno protagonista encontra acolhida para fantasias e brincadeiras – como dublar o astro pop venezuelano Henry Stephen em uma versão tropical da música brasileira Meu Limão, Meu Limoeiro, sucesso na voz de Wilson Simonal.

A diretora de Pelo Malo foi criticada por chavistas e aplaudida por oposicionistas na Venezuela em função da denúncia de uma realidade injusta e hipócrita, marcada pelo machismo, pelo conservadorismo, pela intolerância e pela instabilidade. Tateando em busca de sua identidade e de seu lugar em um mundo hostil, o adorável Junior é um quixote mirim que entoa inocentemente a voz da diversidade em Pelo Malo.

7 Caixas,
por Daniel Feix

Depois de quase 30 anos sem produzir um longa-metragem, a cinematografia do Paraguai ressuscitou em 2006, com Hamaca Paraguaya, filme de Paz Encina que ganhou prêmios da crítica no Festival de Cannes e na Mostra de São Paulo, entre outras outras distinções. O impacto – local e global – de outro título do pequeno país vizinho que estreia esta semana no Espaço Itaú é semelhante: 7 Caixas não ganhou tantos troféus, mas bateu recordes de bilheteria no Paraguai, viajou aos festivais de Palm Springs, Toronto e San Sebastian e foi unanimemente bem-recebido pela crítica dos EUA.

Trata-se da história de um menino de 17 anos (Celso Franco) que vive de bicos, sobretudo carregamentos, no Mercado 4, espécie de feirão popular da capital Assunción. Ele sonha em ter um celular, mas o dinheiro que tem não é suficiente, longe disso. Até que lhe oferecem a exorbitante – para ele – quantia de US$ 100 para cuidar de sete misteriosas caixas.

O guri se debate sobre o que há dentro delas, foge de vilões, arruma uma parceira de aventura (Lali Gonzalez)… Os desdobramentos do conflito inicial são reveladores de aspectos sociais importantes daquele contexto: além da pobreza, são marcantes o calor forte, a violência recorrente e a dificuldade de comunicação entre os personagens. A ingenuidade também é onipresente. O problema é que ela transcende a realidade do filme – a inocência do protagonista, às vezes, é a mesma dos diretores Juan Carlos Maneglia e Tana Schembor.

Com fotografia repleta de filtros, montagem ágil e trilha moderninha, 7 Caixas a todo instante parece se colocar como um filme sobre o exótico – mais ou menos o que ocorreu com Quem Quer Ser um Milionário? (2008). Seus méritos, no entanto, também são marcantes: a ação e o suspense são conjugados com humor, o que torna a fruição leve, a despeito do conteúdo, por vezes, pesado. Não se trata de uma maneira simples – nem fácil – de abordar certas mazelas de um país tão difícil de ser retratado no cinema.

Fantaspoa chega à décima edição com mais de 150 filmes e 50 convidados

24 de abril de 2014 0

– Só por este trailer que vamos apresentar agora já dá para ter uma ideia de como o Fantaspoa cresceu.

Foi assim que João Pedro Fleck, o cara por trás do evento (juntamente com Nicolas Tonsho), anunciou esta semana a décima edição do festival fantástico realizado em Porto Alegre. O trailer contém trechos de alguns dos mais de 150 filmes (dois terços disso formados por longas-metragens) que serão exibidos entre 9 e 25 de maio no CineBancários no Santander Cultural e nas salas da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana.

Serão sete mostras, 37 sessões comentadas, mais de 50 convidados, muitos deles do Exterior, e cinco cursos de cinema, todos ministrados por profissionais vindos de fora do país. Se no ano passado um dos destaques do Fantaspoa foi a exibição da cópia restaurada e musicada ao vivo de O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, neste ano o festival vai repetir a experiência com A Morte Cansada (1921), thriller de fantasia de Fritz Lang, que terá música ao vivo a cargo do argentino Germán Suane.

São várias as promessas de bons filmes em meio à grade de programação. Um deles é o novíssimo (e ótimo) longa do diretor Nacho Vigalondo, o thriller Open Windows, estrelado por Elijah Wood e Sasha Grey (ela mesma), e que foi projetado logo em seguida à apresentação desta edição do festival a uma plateia formada por críticos e jornalistas locais. De Bruce La Bruce (um dos convidados do evento), o 10º Fantaspoa vai apresentar Gerontophilia (2013) e Otto (2008). Outras presenças de destaque serão as dos diretores BobcatGoldthwait, que vem comentar o elogiado Deus Abençoe a América (2011), e Richard Stanley, da cultuada ficção científica Hardware – O Destruidor do Futuro (1990).

Na abertura, serão celebrados os 30 anos do clássico O Vingador Tóxico (1984) que projetou a produtora independente Troma, de Michael Herz e Lloyd Kaufman, este último o diretor do longa, também presença confirmada em Porto Alegre. No encerramento, a primeira sessão pública de Jorge e Alberto Contra os Demônios Neoliberais, dos argentinos Hernán e Gonzalo Quintana, primeiro longa que conta com o selo da Fantaspoa Produções (em parceria com a El Desquicio Producción).

Eis o trailer:

As cartas redentoras de Miguel Gomes

18 de abril de 2014 0

Redemption_2

Depois de Tabu (2012), o realizador português Miguel Gomes dedicou-se a um projeto menor no tamanho mas igualmente grandioso na ambição artística. O curta-metragem Redemption, apresentado por ele em setembro de 2013 no Festival de Toronto, é como uma versão concentrada das engenhosas ferramentas narrativas e da paixão pelo cinema que o diretor mostrou também em seus outros dois longas, A Cara que Mereces (2004) e Aquele Querido Mês de Agosto (2008).

Nada muito grave, mas se você for adiante neste texto vai deparar com algumas informações que podem  arrefecer um tanto a fruição de Redemption, mas sobre as quais não se pode deixar de comentar.

Ao longo de 26 minutos, Gomes combina em Redemption uma narração ficcional epistolar (“fruto da imaginação do autor”, como explica nos créditos) com imagens de arquivos que vão de registros históricos e trechos de filmes documentais a cenas de clássicos como Milagre em Milão (1951), de Vittorio De Sica. A proposta do diretor é, por meio de quatro  histórias banais, que poderiam ter sido protagonizadas por qualquer espectador, traçar breves perfis “redentores” de líderes políticos de países europeus. Apenas nos créditos finais é informado que são eles Pedro Passos Coelho (Portugal), Silvio Berlusconi (Itália), Nicolas Sarkozy (França) e Angela Merkel (Alemanha) — o primeiro-ministro Coelho e a chanceler Angela ainda estão no cargo.

Os quatro segmentos de Redemption são construídos a partir de cartas imaginárias que narram situações que seus autores recordam ou vivem naquele instante. Vale notar que Gomes faz uso em sua ficção de alguns fatos biográficos reais dessas personalidades. E a revelação de quem são elas se dar apenas ao final, após conquistar  a empatia do espectador, parece ter como objetivo humanizá-las, colocá-las como seres passíveis de inquietações existenciais profundas e comezinhas às quais figuras públicas poderosas costumam se tornar impermeáveis.

Datada em 21 de maio de 1975, a carta de Coelho traz reflexões de um menino sobre a saudade de seus pais, que estão em Angola, que no começo daquele ano deixara de ser colônia portuguesa na África, e sobre os novos ares que pairam sobre Portugal após a Revolução dos Cravos.  Berlusconi, em 13 de julho de 2011, lembra de uma desilusão amorosa que viveu quando garoto em Milão, após a II Guerra. Em 6 de maio de 2012, de Paris, Sarkozy escreve um relato afetivo sobre a paternidade a ser lido por sua filha pequena no futuro. E em 3 de setembro de 1977, desde Leipzig, a jovem Merkel, estudante de física, faz uma descrição emocionada de seu recente casamento com um colega de faculdade, reitera sua paixão por Wagner e lembra os tempos de privações na antiga Alemanha Oriental.

Como em Tabu, o lirismo resultante da narração epistolar em Redemption,  em quatro diferentes idiomas, é por demais encantador. A harmonia narrativa entre o texto e a inventiva colagem de imagens de tão variadas procedências e o caráter histórico e político sublinhado por Gomes qualificam sobremaneira este pequeno grande filme.

Confira uma entrevista de Miguel Gomes explicando o projeto e trailers de Redemption.

"Alabama Monroe" chega atrasado, mas é uma sessão imperdível

18 de abril de 2014 0

Nem o atraso na chegada diminui o impacto de Alabama Monroe. Três meses depois de estrear em outras cidades brasileiras, onde já chegou cultuado graças ao compartilhamento via internet, este belo filme belga entrou em cartaz nesta semana no Guion Center. Premiado, entre outros, nos festivais de Berlim, Tribeca, Palm Springs e Copenhagen, além de ser indicado ao Oscar de melhor longa estrangeiro e vencer a mesma categoria no César francês, o filme de Felix van Groeningen pode agora, finalmente, ser visto na sala de cinema em Porto Alegre.

O título original é The Broken Circle Break­down, em inglês mesmo (apesar de os diálogos serem na língua flamenga), por conta da obsessão do protagonista, o músico de bluegrass Didier (Johan Heldenbergh), com a cultura norte-americana. Mas não se pode ignorar o lirismo da tradução, que une os nomes artísticos dele (Monroe) e de sua mulher e parceira musical, a tatuadora Elise (Veerle Baetens), ou Alabama.

É que a narrativa, construída de maneira engenhosa a partir de idas e vindas no tempo, provoca o espectador a pensar sobre a estranha força capaz, ao mesmo tempo, de aproximar e afastar esse casal apaixonado porém abalado pela grave doença de sua filha pequena (Nell Cattrysse). Groeningen nos apresenta tudo, da paixão inicial às brigas dolorosas, do casamento e da construção da vida a dois ao enfrentamento dos obstáculos que insistem em testar a força da estrutura familiar.

A relação guarda em si uma bipolaridade, graças à intensidade com a qual os dois que a vivenciam e, sobretudo, às suas diferenças – ele é ateu, ela, católica; ele cultua o sonho americano, ela tem os pés no chão. Quando a menina de seis anos adoece, tudo fica potencializado. E o filme cresce.

O ápice da crise de Elise, lá pelo meio da projeção, é usado pelo jovem diretor (tem 35 anos) como gancho para uma série de flashbacks que iluminam algumas sombras que porventura existissem até então. Alabama Monroe não tem as cores vibrantes do francês A Guerra Está Declarada (de Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm, 2011), outro filme sobre o mesmo tema, mas tem a luz da obra-prima romântica espanhola Os Amantes do Círculo Polar (Julio Medem, 1998): quanto mais o destino parece querer afastar o casal, mais o espectador se afeiçoa por aquele relacionamento.

O que pode quebrar um círculo aparentemente inquebrável? É uma pergunta que Groeningen joga na tela desde a música de abertura do longa, o hino gospel Will the Circle Be Unbroken, espécie de oração folk que inspirou o título e que perpassa a trama até o seu desfecho. O apelo da fé, aqui, está no mesmo nível da propaganda que vende a América como uma terra de sonhos: cultua-se o que se convém cultuar, de acordo com cada contexto e com determinadas necessidades.

É o que faz Alabama Monroe, além de lindo em sua tristeza e inventivo em sua forma, um filme politicamente contundente.

Marlon Brando na flor da idade

03 de abril de 2014 0

Hoje completam-se 90 anos do nascimento de Marlon Brando (1924 – 2004), also known as o maior ator do mundo – na opinião de muita gente, incluindo este escriba.

Rápida e humilde homenagem: em 1947, aos 23 anos, Brando foi aos estúdios da Warner para um teste de elenco para uma adaptação de Rebel Without a Cause, livro de Robert Lindner. Essa adaptação só sairia do papel, de fato, nas mãos do diretor Nicholas Ray em 1955, com James Dean como o protagonista (no Brasil, o filme se chamou Juventude Transviada). E Brando só estrearia no cinema em Espíritos Indômitos, em 1950, aos 26 anos – despontando para o estrelato no ano seguinte, como o Stanley Kowalski de Uma Rua Chamada Pecado (1951), de Elia Kazan.

O vídeo do tal teste de elenco de 1947 circula por aí, e pode ser visto abaixo. Nem precisa ser fã para achar emocionante, confira:

"Uma Estranha Amizade" aborda com sensibilidade o abismo entre-gerações

29 de março de 2014 0

Estreia do fim de semana apenas no GNC Moinhos, em Porto Alegre, Uma Estranha Amizade é um filme independente norte-americano sobre a amizade de Jane, uma menina de 21 anos (Dree Hemingway, bisneta do autor de O Velho e o Mar), com Sadie, uma senhora de 85 (Besedka Johnson, atriz não profissional que aqui estreava tardiamente no cinema e que morreu logo após as filmagens). Não é só isso, mas são poucos os longas que retratam de maneira tão sensível e perspicaz o atual abismo entre-gerações.

O diretor Sean Baker chega lá valorizando o significado dos chamados momentos mortos (aqueles nos quais, aparentemente, nada de relevante acontece) e surpreendendo o espectador com revelações pontuais acerca das motivações das duas personagens. É mais interessante, inclusive, descobrir a história sem saber muito sobre ambas: as informações (acerca do trabalho de Jane e do passado de Sadie, por exemplo) são dispostas na medida para fazer o público captar a natureza amoral e desprovida de preconceitos com que Baker constrói esse encontro.

Elas se conhecem quando a garota visita a garage sale (feiras pessoais para se desfazer de pertences usados) da mulher mais velha. Jane vive no Vale de San Fernando, periferia rica de Los Angeles, com dois amigos (Stella Maeve e James Ransone) com os quais parece não fazer muito mais do que jogar videogame e fumar maconha. De Sadie, adquire um jarro que parece uma urna mas que servirá de vaso para redecorar seu quarto. Só depois ela descobre: o objeto guarda em seu interior maços com alguns milhares de dólares. Sadie não desconfiava de que possuía o dinheiro. E Jane não sabe o que fazer com ele – e com a culpa de, eventualmente, gastar uma grana que não é sua.

De fato, ao procurar Sadie e insistir em se aproximar dela, parece que Jane busca expiar essa culpa. Mas, isso você pode saber de antemão, Uma Estranha Amizade não é um filme de perguntas e respostas óbvias: no fundo, apesar da imensa diferença de idade e visão de mundo, o vazio existencial de uma tem muito a ver com o da outra.

Não é sem razão que as escolhas de Jane e o próprio rumo que dá à sua vida parecem aleatórios. Algumas sacadas de Baker para deixar isso claro são dignas de nota. Uma delas: o cãozinho dela, mesmo sendo macho, ganhou a alcunha feminina de Starlet, simplesmente porque a garota “gostava do nome antes de escolher o cachorro”. Ao batizar o filme de Starlet (título original de Uma Estranha Amizade), o diretor enfatiza o quanto essa aleatoriedade é importante para moldar a personagem.

Tem a ver com o cinema da diretora Sofia Coppola – que, aliás, fez seu mais recente longa, Bling Ring (2013), sobre a mesma juventude do Vale de San Fernando. Mas a forma com que esse nicho social se relaciona com o restante das pessoas, neste terceiro longa de Baker (o primeiro a ganhar projeção internacional), é ainda melhor e mais complexa.

A conversão digital

26 de março de 2014 1

side 2

Vi apenas recentemente o documentário Side by Side, de Christopher Kenneally, muito elogiado na sua passagem pelo Festival de Berlim de 2012 por apresentar o primeiro grande painel sobre o irreversível processo de conversão total do cinema ao suporte digital. O ator Keanu Reeves, coprodutor do longa, entrevista dezenas de nomes expressivos da indústria, entre diretores, fotógrafos, montadores, engenheiros e técnicos para traçar um completo histórico da transição que está sepultando o uso do agonizante filme em película. O resultado é didático aos não muito íntimos desse artesanato, aos cinéfilos e também aos que têm conhecimentos mais aprofundados sobre o tema.

Side by Side mostra que os mais de cem anos de bons serviços prestados pelo celuloide não foram espanados assim tão rapidamente pelo digital, como indica a velocidade dos avanços tecnológicos da última década. O ensaio para essa transição, lembra George Lucas, um dos pioneiros mentores do processo de conversão, teve início com a montagem eletrônica proporcionada, a partir de 1980, por sistemas como EditRoid e, na sequência, o revolucionário Avid.

O documentário sublinha a importância do diretor de fotografia inglês Anthony Dod Mantle. No embalo dos preceitos estéticos do Dogma 95, movimento lançado por cineastas dinamarqueses, ele “filmou”, para Thomas Vinterberg, Festa de Família (1998), com uma câmera Sony PC3, no suporte mini-DV (Akio Morita, fundador da Sony, colaborou muito nesses avanços, em razão de sua obstinação em colocar a excelência eletrônica a serviço do cinema).

Empolgado com o resultado de Festa de Família, em especial pela agilidade e pelos enquadramentos que a pequena câmera de mão permitia no set, o diretor Danny Boyle chamou Mantle para Extermínio (2002) — Boyle queria uma forma rápida e barata de captar imagens nas ruas de Londres transformada um cenário apocalíptico.

O suporte digital foi abraçado pelos realizadores independentes, que vislumbraram o fim das amarras impostas por grandes orçamentos e diretrizes de estúdios. Mas havia a resistência dos que não viam o digital como “cinema de verdade”, em razão, sobretudo, da baixa qualidade da imagem em relação à película. Esta barreira começou a ser vencida quando a Sony criou para George Lucas realizar Star Wars: Episódio II — Ataque dos Clones (2002) a câmera F900, a primeira no suporte HD voltada ao cinema industrial.

A parceria entre realizadores e cientistas no desenvolvimento de equipamentos, lembra o documentário, foi decisiva nessa evolução. Limitações como resolução da imagem, profundidade de campo e gama de cores foram aos poucos sendo superadas com ajuda de diretores como Michael Mann, que usou uma câmera Thompson Viper em Colateral (2004), alcançando excelentes resultados em imagens noturnas. Tradicional fabricante de câmeras analógicas, a Panavision, em parceria com a Sony, criou a Genesis, primeira câmera “full frame” (sensor no tamanho do quadro do filme 35mm), na qual se podia ainda usar sua vasta linha de lentes — Mel Gibson fez com uma dessas Apocalypto (2006).

Um passo ainda mais largo, fundamental para seduzir os que ainda viam com desconfiança a qualidade da captação de imagem digital, foi dado por Jim Jannard, milionário dono da fábrica de óculos de sol e equipamentos esportivos Oakley. Em 2007, ele apresentou a Red One, com resolução de 4K, equipamento que conquistou realizadores como Steven Soderbergh, usuário de primeira hora do digital — o resultado está em Che (2008). A pedido da David Fincher, Jannard desenvolveu modelos leves da Red One, em fibra de carbono, usados em A Rede Social (2010).

Trabalhando com engenheiros da Silicon Image, Boyle e Mantle usaram novas câmeras portáteis em Quer Quer ser um Milionário? (2008), que valeu a Mantle o histórico primeiro Oscar de melhor fotografia para um filme captado em digital. James Cameron, por sua vez, desenvolveu com a Sony a câmera F 950, com qual realizou Avatar, filme definidor da nova era do cinema digital.

A corrida entre os fabricantes, levou à criação, pela Arriflex, outra tradicional fabricante, da Alexia, câmera usada por Martin Scorsese em A Invenção de Hugo Cabret (2011) e por Lars Von Trier em Melancolia (2011). A Red respondeu com a geração Epic, usada por Fincher em Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2012) e por Peter Jackson em O Hobbit — Uma Jornada Inesperada (2012). Tanto uma como outra câmera ganharam a aprovação dos mais experientes diretores de fotografia, na linha “agora sim”.

Discorrendo sobre o progresso do digital em áreas como montagem (Scorsese lembra os tempos em que literalmente colocava seu sangue nos filmes, no processo de corte e colagem na moviola), correção de cor e efeitos especiais, Side by Side chega a etapa que, em 2012, consolidava o  fim do ciclo analógico no cinema: a distribuição de filmes e a projeção digitalizadas. O fim do celuloide na indústria, em resumo, é favas contadas. Mas os que seguem abraçados ao processo fotoquímico defendem com bons argumentos sua sobrevivência em um novo parâmetro, o da preservação.

Os realizadores que ainda defendiam, em 2012, a superioridade da película — time pequeno mas reforçado por nomes graúdos, como Christopher Nolan — falavam de texturas e nuanças ainda não alcançadas pelo digital. São vozes quase solitárias. Questões mais relevantes dizem respeito à maneira adequada de se preservar um filme. A cópia em película, defendem especialistas como Scorsese, ainda parece ser a mais segura, afinal tem sido assim há mais de cem anos. É lembrado que já foram criados mais de 80 diferentes suportes de vídeo, muitos deles não tendo hoje equipamentos de reprodução — Fincher, aliás, diz que junto a todos os trabalhos em variados suportes que guarda desde os tempos da publicidade encaixota também o respectivo aparelho reprodutor. Tem ainda a questão da fragilidade dos HDs de armazenamento etc. Mas Lucas e nomes como os irmãos Wachowski dizem que isso é bobagem, que para cada problema haverá uma plena solução.

Side by Side ilumina questões muito interessantes nesta debate tecnológico. Os tempos da película, por exemplo, diante de da liberdade permitida pelo digital n ato de fazer-apagar-refazer, exigia mais planejamento e empenho criativo dos profissionais no set e na pós-produção, dado o custo maior da empreitada com um filme rodando na câmera ? A facilidade e o barateamento do processo de se fazer cinema traz a reboque, por si só, avanços de linguagem? Diz David Lynch: “Todo mundo tem papel e lápis a mão. Mas quantas história grandiosas foram escritas? É o mesmo com o cinema”. Para ele e outros bons, segue valendo o óbvio: o digital é só uma nova ferramenta; o cinema sempre dependerá do bom uso que se fizer dela.

E de que vale todo o empenho para se chegar a excelência da imagem se as novas gerações cometem o sacrilégio de ver filmes em computador e, pior, na tela do celular? E como encarar a ameaça de o cinema deixar de ser palco de uma experiência de contemplação e desbunde coletivo na sala escura para se tornar um prazer solitário? É possível reproduzir esse espírito de coletividade no ambiente virtual? Como lidar com a enxurrada de filmes ruins que a democratização da imagem proporciona, infinitamente superior à quantidade de títulos relevantes? E o uso indiscriminado e injustificado do 3D para ampliar o faturamento?  Essas são algumas das questões lançadas pelo filme que seguem reverberando e, até aqui, ainda não encontraram respostas.

Para encerrar, uma máxima de Scorsese: “O verdadeiro autor do filme é o projecionista”. Isso porque, embora seu apego sentimental à película, o diretor saúda o fato de o suporte digital de alto padrão homologado pelos grandes estúdios (não confundir com as gambiarras que se tornaram comuns no Brasil) diminuir os riscos de ocorrer diante do espectador um dos grandes temores do cineasta: ver o filme que criou com tanto carinho e suor ser arrasado na tela grande por uma janela errada, uma cópia desgastada, um projetor capenga e descalibrado ou um som ruim.

O cinema em 70 olhares

24 de março de 2014 0

Projetos coletivos assinados por grandes cineastas costumam ser tão interessantes na sua proposta quanto irregulares no seu resultado. Mas são sempre estimulantes como forma de contrapor diferentes olhares sobre determinado tema e também como exercício de linguagem e estilo — e quem não gosta de identificar a marca de um diretor favorito em poucos frames de projeção? Entre as iniciativas mais recentes exibidas nos cinemas brasileiros, o longa Sete Dias em Havana (2012) reuniu curtas-metragens de, entre outros, Laurent Cantet, Julio Medem, Gaspar Noé, Elia Suleiman e Pablo Trapero. Ainda em 2014, será lançado Rio, Eu te Amo, que reúne os brasileiros Fernando Meirelles, José Padilha, Andrucha Waddington e Carlos Saldanha e nomes como Guillermo Arriaga, Stephan Elliott, Nadine Labaki e Paolo Sorrentino.

Após o nariz de cera, o que realmente nos traz aqui. Durante o longo período em que o blog esteve na UTI, acabou passando em branco o muito interessante  Venezia 70 — Future Reloaded, projeto que chamou a atenção pela quantidade, qualidade e diversidade dos diretores envolvidos. Para celebrar a 70 ª edição do Festival de Veneza, em 2013,  70 cineastas de diferentes gerações e nacionalidades, todos eles com passagem pelo evento italiano, foram convidados para apresentarem em filmetes de um minuto e meio a três minutos de duração visões muito livres e particulares sobre seu ofício.

Representam o Brasil na lista Walter Salles, Karim Ainouz e Júlio Bressane. Entre outros craques desta grande seleção, estão também Claire Denis, Atom Egoyan, Amos Gitai, Hong Sang-soo, Jia Zhang-ke, Abbas Kiarostami, Kim Ki-duk, Pablo Trapero, Milcho Manchevski, Brillante Mendoza,Paul Schrader, Apichatpong Weerasethakul, Bernardo Bertolucci, Ermanno Olmi e Todd Solondz.

Selecionamos alguns trabalhos de Venezia 70 — Future Reloaded, começando por uma diretora grega que não conheço, Athina Rachel Tsangari, mas que fez um filme muito inventivo nesse citado tom saudosista.  Mais filmes podem ser conferidos clicando aqui.

Athina Rachel Tsangari

Paul Schrader

Walter Salles

Bernardo Bertolucci

Pablo Trapero

Júlio Bressane

Apitchapong Weerasethakul

Claire Denis

Atom Egoyan

Jia Zhang-ke

Abbas Kiarostami (citando O Regador Regado, de 1895, de Louis Lumière)

Kim Ki-duk

Brillante Mendoza

James Franco