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Posts na categoria "cinema nacional"

Gramado 2014: alguns comentários sobre o festival

19 de agosto de 2014 0

O 42º Festival de Gramado teve bons filmes, melhorou em diversos aspectos a sua infraestrutura, mas teve, na cerimônia de entrega dos Kikitos, um desfecho um tanto estranho. O júri dos longas-metragens brasileiros fez uma grande confusão, garantindo que sete dos oito títulos em competição saíssem premiados do evento.

A Estrada 47, de Vicente Ferraz, foi eleito o melhor filme, e mais nada – ao menos nas principais categorias. Sobraram troféus para A Despedida, de Marcelo Galvão, e Infância, de Domingos Oliveira, alguns, inclusive, inusitados. Foi o caso de um segundo prêmio especial do júri para Fernanda Montenegro (por Infância), que enfraqueceu a escolha de Juliana Paes como melhor atriz (por A Despedida), e do Kikito de ator coadjuvante para Paulo Betti, que tem o principal papel masculino em Infância, mas que não tinha como competir com Nelson Xavier, eleito o melhor ator por A Despedida.

Esse jeitinho de contemplar a todos é simpático para com os artistas, mas dificulta que se estabeleçam juízos de valor, o que vai na contramão das propostas dos principais festivais do mundo. Para reflexão: os 39 prêmios de Gramado superam o dobro do que é concedido em Cannes, Berlim e Veneza.

Unificar as competições de longas brasileiros e latinos, além de tudo, valorizaria os títulos estrangeiros, que demonstraram sensível melhora na comparação com os anos anteriores – mas que têm seu interesse diluído em meio à disputa nacional. É necessário dizer que Gramado 2014 terminou sem apresentar filmes arrebatadores, ou mesmo que tenham sido unanimidade entre público e críticos presentes. Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, e A Luneta do Tempo, de Alceu Valença, foram os mais inventivos títulos em competição, mas venceram apenas, respectivamente, o prêmio da crítica e os troféus de trilha musical e direção de arte.

No ano em que o Rio Grande do Sul voltou a ganhar a competição de curtas (com o surpreendente Se Essa Lua Fosse Minha, produzido por alunos da Unisinos com a direção de Larissa Lewandowski), Gramado fez algumas lições de casa dignas de nota. Uma delas foi incorporar legendas em espanhol aos filmes brasileiros, o que permitiu que os convidados dos países vizinhos (não são poucos) pudessem fruí-los. Também houve mais gente dentro do Palácio dos Festivais, o que tem muito a ver com a diminuição do preço dos ingressos.

Um júri mais decidido e uma curadoria um pouco menos política (não foi a melhor seleção já feita, ao contrário do que disse Rubens Ewald Filho ao site de ZH na tarde anterior à cerimônia de entrega dos Kikitos) tornariam o festival ainda melhor.

Pílulas de Gramado 2014

> Os filmes que ficam
A grande atuação de Fernanda Montenegro e a mão afinada do diretor Domingos Oliveira devem garantir uma distribuição digna a Infância, longa inspirado nas memórias de criança do cineasta que é, de longe, seu filme com produção mais caprichada (custou R$ 2 milhões, 20 vezes mais do que Juventude). A Luneta do Tempo e Sinfonia da Necrópole têm mais a dizer, mas seu hermetismo e sua irregularidade devem dificultar suas carreiras no circuito comercial. Os cinco concorrentes latinos sofrem de um mal parecido: têm pouco apelo e não são exatamente arrebatadores, o que quer dizer que não vai ser fácil você ter a chance de ver algum deles nos cinemas.

> Justa exaltação do passado
Gramado demonstrou sabedoria ao olhar para o futuro recordando quem fez a sua história. A sentença vale tanto para debates como o que reuniu decanos da crítica gaúcha (Hiron Goidanich, o Goida, Enéas de Souza e Hélio Nascimento) quanto para as escolhas dos homenageados, o fotógrafo Walter Carvalho (Troféu Eduardo Abelin) e os atores Flávio Migliaccio (Troféu Oscarito) e Jean Pierre Noher (que, ao receber o Kikito de Cristal, lembrou de sua consagração com Um Amor de Borges, no festival de 2001).

> Festival de grandes atores
Único premiado aplaudido de pé, Nelson Xavier foi a grande atuação de Gramado 2014. O festival teve várias interpretações marcantes, das chilenas Paulina García e Valentina Muhr (Las Analfabetas), do uruguaio Felipe Dieste (El Lugar del Hijo), dos paulistas Luciana Paes e Eduardo Gomes (Sinfonia da Necrópole). Consagrar Juliana Paes, como a amante do velhinho vivido por Nelson Xavier em A Despedida, foi uma decisão arriscada e  louvável do júri, ainda que enfraquecida pelo prêmio especial para Fernanda Montenegro.

> As figuras mais marcantes
Alceu Valença foi o cara em Gramado 2014. Cantou, contou histórias e até imitou animais – houve quem classificasse o debate de seu filme A Luneta do Tempo como coletiva-show. Mas quem realmente “causou” foi o animador paulista Caio Ryuichi Yossimi. No Palácio dos Festivais, ele fez lembrar Lady Gaga (para alguns, Ru Paul) com seu figurino extravagante que emulava o visual do protagonista de seu curta de tema gay O Coração do Príncipe.

> Por mais e melhores espaços
Com ingressos a R$ 20 (já custaram R$ 100, alguns anos atrás), o público no Palácio dos Festivais cresceu. Mas é preciso mais. Gramado tem muitos convidados com lugar reservado no cinema, e vários deles não vão ver os filmes, o que deixa a sala longe de estar cheia. A falta de wi-fi nos espaços do evento e de restaurantes abertos ao fim das sessões, após a meia-noite, são outros aspectos que também precisam melhorar.

> O discurso contundente
O cinema brasileiro não vai tão bem para que um festival inteiro do porte de Gramado se realize sem maiores discussões sobre estética e mercado. O único discurso com alguma carga política de todo o evento foi enviado por Domingos Oliveira, para ser lido no Palácio dos Festivais. O diretor de Infância propôs o uso da expressão “filme útil” em lugar de “filme de arte”. Foi um jeito sutil de exaltar o cinema com conteúdo em detrimento das bobajadas que invadem as salas. Sutil mesmo. Ainda assim, foi o mais contundente discurso do 42º Festival de Gramado.

Petardo político (e estético): "Riocorrente" é um filme difícil, mas necessário. E imperdível

31 de julho de 2014 0

Riocorrente é um filme difícil, com distribuição restrita, que não estabelece bom diálogo com o espectador mais acomodado. Mas é daqueles títulos que deveriam ser vistos por todos. Poucas obras de arte estão tão sintonizadas com seu tempo quanto o longa de Paulo Sacramento, que estreia nesta quinta-feira em Porto Alegre.

riocorrente

 

Um fiapo de dramaturgia une quatro personagens que moram em uma São Paulo onírica, mas inapelavelmente familiar a quem vive em qualquer cidade grande brasileira: um ex-ladrão de carros (Lee Taylor), um menino de rua que este protege (Vinícius dos Anjos), um jornalista cultural (Roberto Audio) e uma garota inquieta (Simone Iliescu) que mantém um caso com os dois homens. Ela provoca ambos os amantes, exercendo seu poder de influência para aplacar a virulência de um e despertar o outro da inércia.

Diretor do potente documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (2002), montador e produtor de filmes importantes como A Concepção (2005) e Encarnação do Demônio (2007), Sacramento parte dessa premissa para construir uma narrativa livre das lógicas convencionais – a linearidade dos fatos incluída. Empilha metáforas sobre o estado de coisas, a maior parte delas relacionadas ao fogo, como se dissesse que basta uma fagulha para a cidade explodir.

– O cinema político mudou – afirma o cineasta. – Não há mais lugar para a arte que vê o mundo de maneira maniqueísta. Mocinhos e bandidos não estão mais bem definidos. Em vez de ser afirmativo, optei pelo simbolismo. Acredito mais na arte que te pega pelo sentimento do que pelo discurso propriamente dito, embora este seja um tipo de discurso.

Acompanhando a rotina dos personagens, o espectador vê performances de ícones cult da pauliceia, como a Patife Band, acompanha uma entrevista com o artista plástico Marcelo Grassmann e um show de Arnaldo Baptista que serve como uma espécie de sessão de descarrego – ou injeção de ternura para resgatar a sensibilidade escondida nas feras que encaram a selva urbana no dia a dia.

– Todos são levados ao limite em seu cotidiano. Para mim, até mais do que a mulher, quem mostra por onde recomeçar, quem abre os caminhos, é o menino. É por isso que ele se chama Exu – explica Sacramento.

De fato, no grande painel de angústias urbanas que é Riocorrente (expressão derivada de James Joyce), as aparições da criança antecedem muitos dos momentos mais explosivos, por assim dizer. No início, Exu aparece pondo para fora sua inconformidade riscando carros aleatoriamente. Ao fim, bem, você tem de ver o filme, que o desfecho guarda um de seus momentos de maior impacto e riqueza de significados.

Riocorrente é o Antes que Tu Conte Outra (o disco da Apanhador Só) do cinema: não espere facilidades, encontre um choque de realidade vestido de grande arte.

A solidão urbana, um grande tema contemporâneo, no bom filme brasileiro "O Homem das Multidões"

31 de julho de 2014 0

Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos autores mais adaptados para o cinema. Entre as dezenas de longas-metragens que inspirou, contudo, pouca coisa se aproxima da versão de Cao Guimarães e Marcelo Gomes para seu conto O Homem das Multidões.

Com estreia nesta quinta-feira no país, o filme encerra a Trilogia da Solidão, que Cao iniciou com os ótimos documentários Alma do Osso (2004), sobre um ermitão que vive numa caverna no interior mineiro, e Andarilho (2007), sobre homens que vivem em estradas daquele Estado.

>> Leia mais: 10 filmes contemporâneos (ou nem tanto) sobre solidão

– Desta vez, minha ideia era fazer algo diferente, um drama urbano – explicou Cao, na pré-estreia do longa em Porto Alegre, semana passada. – Por isso chamei o Marcelo (pernambucano, diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus e Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, este último em parceria com o cearense Karim Aïnouz).

De fato, a solidão de Juvenal, o “homem das multidões” (Paulo André), é distinta daquelas vistas nos dois títulos anteriores da trilogia. Condutor de trens no metrô de Belo Horizonte e morador de uma sala do segundo andar de um prédio comercial do centro da cidade, ele vive cercado de gente. Muita gente. Mas quase não interage com ninguém. Diferentemente de sua colega de trabalho Margô (Sílvia Lourenço), que é obcecada por se relacionar com os outros – só que virtualmente.

Juvenal gosta de estar perto das pessoas, mas não de falar com elas. Margô gosta das relações interpessoais – seu problema é o encontro físico. O que interessa a Cao e Marcelo é o entendimento entre os dois. Ou a falta disso.

– A mim parece que os dois não se compreendem – comenta o mineiro Cao.

– Sim. Mas há uma identificação, algo que os aproxima mesmo assim – responde Marcelo.

Um aspecto formal chama a atenção em O Homem das Multidões: o formato da tela – a janela, para usar um termo técnico. Trata-se de um filme “quadrado”.

– É o primeiro longa-Instagram – brinca Cao.

O belo trabalho de composição dos quadros e captação do som ambiente faz com que aquilo que não é mostrado, sobretudo o que parece estar ao lado, no limite externo da tela, também seja absorvido pelo espectador. De uma maneira não usual, claro.

– É uma provocação. Enquanto outras artes já explodiram seus suportes tradicionais, o cinema segue com aquela tela horizontalizada padrão. Por que não pode ser diferente? – pergunta Cao.

A caprichada fotografia de tons pastéis também cumpre função interessante, à medida que permite que se destaquem elementos da cenografia que dizem muito sobre a vida dos personagens. Em sua maioria, esses elementos nada têm a ver com Poe e o texto original – as personalidades de Juvenal e Margô foram moldadas a partir de entrevistas com solitários em geral, que os dois cineastas realizaram e que cogitam reunir posteriormente em um documentário.

Este é outro aspecto notável de O Homem das Multidões: a complexa composição de dois grandes personagens que têm muito a dizer sobre um dos principais temas do universo contemporâneo.

"Deus e o Diabo na Terra do Sol": 50 anos da obra-prima de Glauber Rocha

14 de julho de 2014 1

(texto publicado originalmente no caderno PrOA de Zero Hora, domingo, 13 de julho de 2014)

Deus e o Diabo na Terra do Sol foi realizado em meio à convulsão política do país, de 1963 para 64, e estreou em três cinemas do Rio de Janeiro há exatos 50 anos, no dia 10 de julho de 1964. Suas primeiras sessões privadas, realizadas nos meses anteriores, já haviam provocado assombro nos felizes convidados de seu diretor, Glauber Rocha (então com 25 anos), de acordo com descrições posteriores como aquela que o jornalista Nelson Motta entrega na sua muito contestada biografia A Primavera do Dragão (editora Objetiva). Desde a entrada em cartaz, elogios rasgados e até comparações arriscadas se sucederam, primeiro nos jornais, depois na Academia.

“É um grande filme, cruel, muitas vezes desconcertante, mas irresistivelmente belo e envolvente”, escreveu Ely Azeredo na Tribuna da Imprensa (em texto reproduzido em seu livro Olhar Crítico, editado pelo Instituto Moreira Salles). “É provável que, sem ser o maior longa já feito neste planeta, como querem alguns exagerados, deixe muito para trás a quase obra-prima de Nelson Pereira dos Santos“, continuou, citando Vidas Secas, lançado em 1963 e com o qual Deus e o Diabo e mais Os Fuzis (de Ruy Guerra, 1964) compõem a trilogia sertaneja que é a essência e a excelência do Cinema Novo.

Na Idade da Pressa, cinco décadas são mais do que suficientes para esquecimentos, injustiças e, paradoxalmente, leituras apressadas. Ainda mais em se tratando do “chato” do Glauber, como definiu recentemente um piadista. Logo Glauber, o homem que, ainda garoto, promovera uma impressionante revisão crítica da cinematografia nacional, tornara-se o nosso principal cineasta e uma figura central da cultura brasileira do século 20. Deus e o Diabo é seu filme mais importante – vamos definir assim, porque, ao menos para mim, é difícil afirmar que algum longa seja “melhor” do que Terra em Transe, que o cineasta lançaria em 1967, ou seja, aos 28 anos de idade.

Apesar da coincidência de tempo, a trama de Deus e o Diabo diz mais sobre o Brasil do ponto de vista identitário do que sobre o período específico do golpe militar. Trata-se de uma livre (bem livre) adaptação da peça de moral ateia-existencialista O Diabo e o Bom Deus, de Jean-Paul Sartre, que em Glauber tropicaliza-se a partir de uma visão complexa e perspicaz sobre as relações entre religião e poder no sertão – e o uso da violência, à serviço de um ou de outro, ou de ambos.

Manuel (Geraldo Del Rey) é um personagem-síntese do povo como massa de manobra: livre do patrão explorador (Mílton Roda), encontra-se sem saída até se juntar, ele e a mulher (Yoná Magalhães), aos fanáticos liderados pelo profeta negro São Sebastião (Lídio Silva) e, depois, ao cangaceiro Corisco (Othon Bastos). Ao mesmo tempo em que escancara facetas diferentes da exploração a partir da miséria, Glauber constrói grandes personagens, como o matador Antônio das Mortes (Maurício do Valle), contratado pela Igreja e pelos latifundiários para eliminar as ameaças ao status quo que constituem tanto o líder messiânico quanto o justiceiro do cangaço.

Deus e o Diabo é rico, em parte, pela forma barroca e a valorização das alucinações sebastianistas (“O sertão vai virar mar/ e o mar virar sertão”), que ressaltam a força e a atemporalidade do discurso religioso. A inspiração na literatura de cordel foi o caminho para explorar o lado místico daquelas relações sociais. Acabou sendo fundamental para dar transcendência ao filme e dotá-lo de uma eterna e inabalável atualidade.

Talvez mais importante ainda para seu sentido de permanência seja a modernidade da narrativa, largamente estudada, entre vários outros, pelos professores e críticos Ismail Xavier, autor de Sertão Mar (Cosac Naify) e André Setaro. Este último, baiano como Glauber, morreu aos 64 anos na última quinta-feira, dia exato do cinquentenário da estreia de Deus e o Diabo. “Antes de Glauber, o cinema nacional seguia os cânones da narrativa griffithiana (de D.W. Griffith, considerado o pai da narrativa cinematográfica), com poucas ousadias formais, exceção feita a Limite (1930), de Mário Peixoto“, escreveu Setaro, autor de Escritos sobre Cinema (Azougue Editorial). “Deus e o Diabo instaura um novo paradoxo estético ao conjugar várias influências, começando pela tragédia grega (o cego Júlio é o fio condutor), passando pelo western (a exploração dos grandes espaços) e por Luis Buñuel (o assassinato de Sebastião), até chegar a Sergei Eisenstein (a matança dos beatos em Monte Santo é influenciada pela escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin, de 1925) e Akira Kurosawa (os rodopios dissonantes de Corisco, entre outros).”

Deus e o Diabo efetua um corte longitudinal na história do cinema brasileiro, definiu Setaro. E foi fundamental para levar a produção nacional a um novo patamar de reconhecimento, resumido, por exemplo, na manifestação do alemão Fritz Lang: “É uma das mais fortes manifestações da arte cinematográfica que já vi” (reproduzida na Dicionário de Filmes Brasileiros, de Antônio Leão Neto).

Exibido em Cannes na mesma edição para a qual foi selecionado Vidas Secas, Deus e o Diabo levou seu diretor a estreitar os laços com a prestigiosa crítica francesa, além de apresentar o Cinema Novo ao circuito dos grandes festivais europeus (O Cangaceiro de Lima Barreto, em 1953, e O Pagador de Promessas de Anselmo Duarte, em 1962, ofereceram experiências diferentes da produção do país). “Vários críticos se transformaram, a partir da relação com Glauber, em defensores do cinema brasileiro, e seus veículos, em porta-vozes das ideias vindas do Hemisfério Sul”, disse o professor da Unesp Arlindo Rebechi, que pesquisou a carreira dos filmes do cineasta na Europa, em entrevista à pesquisadora Agabite Fernandes para artigo publicado na revista acadêmica Pesquisa Fapesp, no mês passado.

Foi com O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), protagonizado pelo mesmo Antônio das Mortes, que Glauber ganhou o prêmio de melhor diretor em Cannes. Mas foi com Deus e o Diabo na Terra do Sol que ele efetivamente mudou a história do cinema nacional.

O excelente filme nacional "Avanti Popolo" e a defesa do cinema do fracasso

11 de junho de 2014 0

Com estreia nesta quinta-feira em todo o país (em Porto Alegre, no CineBancários), Avanti Popolo é um dos melhores filmes da ótima safra recente do cinema nacional – que tem ainda, entre outros, Riocorrente, Exilados do Vulcão e Amor, Plástico e Barulho (os três aguardando data para estrear no circuito em Porto Alegre) e O Lobo Atrás da Porta (este em cartaz na cidade; leia texto abaixo sobre ele).

Mas: Avanti Popolo. Este drama que se aproxima do gênero ensaístico e tem forte apelo político marca a estreia do diretor Michael Wahrmann, superpremiado com o curta Avós (2009), no longa-metragem. Uruguaio que viveu muitos anos em Israel antes de se radicar em São Paulo, Wahrmann quase não trabalha com atores, e sim amigos realizadores ou pesquisadores com os quais compartilha o processo de criação – como Carlos Reichenbach, cineasta e mestre de novas gerações de cinéfilos que morreu em 2012 e que tem aqui uma de suas raras incursões como intérprete.

Na trama, um homem (André Gatti) volta à casa de seu pai (papel de Reichenbach), um senhor que vive isolado desde que seu outro filho desapareceu na mão de agentes da ditadura militar, 30 anos antes. A tentativa de comunicação entre pai e filho se dá a partir da descoberta, por parte do homem, de rolos de filmes familiares nos quais se vê a figura do irmão desaparecido. Planos em sua maioria estáticos, de grande beleza plástica, apresentam um espaço em ruínas, para usar uma expressão do próprio Wahrmann, no qual o presente não passa de uma sombra do passado. Pelo tipo de abordagem, a ideia de construção da memória lembra o trabalho de Jia Zhang-ke em Em Busca da Vida (2006) – longa que, não por acaso, tem como título original a expressão “natureza-morta” (Still Life, em inglês).

Há humor em Avanti Popolo, apesar (e além) de tudo. Ele perpassa toda a narrativa, mas salta aos olhos especialmente quando o personagem de Gatti pega um táxi com um motorista (interpretado pelo crítico Eduardo Valente) que é “especialista” em hinos nacionais (para agradar aos passageiros gringos). Trata-se de um filme leve e contundente, divertido e formalmente rebuscado – daqueles que proporcionam uma sessão descontraída mas que, depois, não saem facilmente da cabeça do espectador.

Leia entrevista que o diretor concedeu por telefone:

Ainda que incipiente (tem os curtas Avós e Oma antes de Avanti Popolo), sua obra tem um caráter ao mesmo tempo político e familiar, na qual desponta uma ideia de construção e preservação da memória – pelo viés pessoal, afetivo. Por que este tipo de abordagem te motiva?
Meus curtas retratam relações entre gerações de descendentes do Holocausto a partir do abismo de comunicação entre elas. Em Avanti Popolo, a pesquisa continua, agora deslocada para as ditaduras militares latino-americanas. Mas o princípio – do trauma, da ausência – é o mesmo. E os três filmes, de forma similar, tratam da construção da memória, de como esses grandes eventos históricos se relacionam com o presente e se manifestam em pequenos acontecimentos íntimos, cotidianos. O longa nasce mais do medo do esquecimento do que da vontade de evocação do passado. É um filme sobre o presente. E, assim sendo, nossos heróis não são mais heróis, mas pessoas comuns, com histórias quase banais. A ditadura e sua história a gente já conhece. O que me interessa é o que restou dela. Quando desligam as câmeras, e ninguém mais quer saber da sua história, o que você faz? Onde você vai? Quem te ouve? Ninguém. Você fica sozinho, com sua história de vida, com seu filho desaparecido, com as saudades, com a dor. E isso só se pode contar a partir da intimidade, da solidão. Por outro lado, as questões políticas sempre foram parte do meu fazer, já que minha entrada no cinema não vem necessariamente da cinefilia ou de uma grande paixão pela linguagem, e sim por acaso: eu queria me expressar, podia ser pelo cinema ou por qualquer outro meio. Quando jovem, em Israel, minha intenção era ser político. Eu militava nos movimentos de esquerda. As histórias das ditaduras latino-americanas me eram passadas pelos meus pais, assim como a memória dos meus avós e da II Guerra Mundial. Mesmo que esses temas apenas façam parte do meu imaginário, eles sempre foram muito presentes na minha vida. Para mim, que não sou uma pessoa muito criativa, é difícil fazer filmes sobre coisas que não são minhas.

Avanti Popolo é um filme sobre a construção da memória, mas a partir do cinema, com citações cinéfilas (o próprio título é uma delas, a cachorra que se chama Baleia, como no clássico Vidas Secas, é outra) e com atores que na verdade são cineastas ou pesquisadores do cinema. Você já disse que os personagens são baseados nos seus intérpretes. Outra informação interessante: o projeto começou como um e virou um longa depois de ter sido filmado em apenas seis dias. É verdade? Fala um pouco do processo de formatação do projeto, por favor.
O filme nasceu de uma premissa simples: um pai espera o filho desaparecido, sua espera, o absurdo dela – o que determinou um primeiro diálogo com Esperando Godot, de Becket. Daí, por livre associação, pensei em usar o (André) Gatti como protagonista. Ele era meu professor de cinema e começou a trabalhar junto comigo no roteiro e no desenvolvimento de algumas ideias. Obviamente, não podia chamar um ator profissional para o papel do pai, pois iria destoar muito do André. Na mesma época, falando com o Carlão (Reichenbach), percebi a semelhança física dele com o André. Ele aceitou, depois de alguma insistência da minha parte, e de me passar uma lista de atores melhores do que ele, lista que recusei muito educadamente. De alguma forma, como não gosto de trabalhar com atores, fui criando cenas e pensando em qual dos meus amigos e conhecidos poderia fazer o papel imaginado. A cena do taxista, por exemplo, foi escrita a partir de uma viagem real minha de táxi, e, para interpretá-la, fiquei pensando em algum amigo obsessivo, neurótico – para não dizer chato. Foi como surgiu o nome do Eduardo Valente… A essa altura, já tínhamos alguns tratamentos do roteiro e tínhamos ganhado o Prêmio Estímulo de Curta-Metragem em São Paulo, mas o roteiro se modificava o tempo todo, personagens iam sendo desenvolvidos, a estrutura narrativa ia ganhando camadas etc. Entramos no set com a perspectiva de rodar o projeto em seis ou sete dias. Alterei o plano, que era muito rígido, prevendo a filmagem de cenas do curta e alguns extras que, se dessem certo, poderiam levar a um longa. De fato, entregamos o curta em dois meses e, depois, ficamos montando um longa durante um ano, que só foi resolvido, dado como pronto, quando o curador do Festival de Roma viu o corte e pediu o filme para o seu festival (Avanti Popolo ganhou o prêmio principal do evento).

Buscando descrever os planos estáticos de dentro da casa em Avanti Popolo, alguém já usou a expressão “natureza-morta” – que aliás é o título de um dos filmes de Jia Zhang-ke (Em Busca da Vida no Brasil), um cineasta que trabalha o tema da construção da memória e, consequentemente, da identidade. Pelo conceito, natureza-morta fala de algo estático, mas, paradoxalmente, em ambos os casos há algo de inconformidade na abordagem do tema, você concorda?
Não vi Em Busca da Vida. Mas o conceito de natureza-morta estava no nosso filme quase desde o começo dos estudos de referencias de arte. Como a gente trabalhou com basicamente um plano só, por assim dizer (um plano amplo de dentro da casa do pai, repetido durante o filme), discutimos e elaboramos muito o que ele seria. Nossas referências partiram de alguns quadros renascentistas e acabaram nas polaroides de Tarkovski. A natureza-morta é um fio dramático ao longo da história da arte, e nos apegamos muito ao conceito. Não é à toa que a pintura principal da parede, dentro do quadro fílmico, apresenta uma floresta e uma lagoa, e que no meio da mesinha da sala há uma cesta de frutas muito bem composta que permanece como um elemento vivo nessa sala morta até ser “comida” pelo protagonista ao fim do filme – na mesma sequência que ele tira o quadro da floresta da parede a fim de projetar nesse espaço seus velhos filmes. A natureza-morta que substitui outra natureza-morta. Já que a memoria, também, é ruína. Como o filme trata da espera, acreditava que a forma deveria dar conta disso. Se eles esperam, nós esperamos. É o correto. É respeitoso com esses personagens e suas histórias. Seria ruim ter de acelerar, agilizar as coisas pelo meu bem fílmico. A espera gera a estagnação. O não poder enterrar o morto não permite o luto. Sem o luto, não tem superação. E aí cria-se de novo uma relação e um questionamento do papel do cinema – ou da arte – nesse âmbito. E, óbvio, de como lidamos com nosso passado. A lembrança apenas não basta. Sem confronto, como se alcança a superação? Sem questionamento, sem abrir as feridas para poder limpá-las, como continuamos? A estagnação, nesse sentido, mais do que conformidade, para mim, nasce de uma derrota, de uma desistência, tão teimosa e tão certeira no seu pessimismo, que nem a memória é capaz de curar. E aí, o que é capaz? Qual seria a inconformidade? Como faz o filho que volta à casa, que precisa lutar não só contra sua própria derrota, mas contra a derrota do pai também? O pai que cansou, o filho que cansou. Os dois que desistem. E, no final, chego eu, diretor do filme, e desisto também. A deriva é uma manifestação da inconformidade? Ou da conformidade? Não sei.

Avanti Popolo construiu uma carreira muito interessante em festivais e vem sendo muito badalado, mas em nichos restritos. Entretanto, por questões de mercado e pelo seu próprio hermetismo, está mais para o que o pesquisador Jean-Claude Bernardet chamou de “cinema irrelevante”. Há, de fato, uma distância enorme entre o grande público e o cinema de autor. Como você vislumbra a carreira do filme agora, depois dos festivais e a partir de seu encontro com plateias fora do nicho cinéfilo?
Bernardet está certo. Nós fazemos cinema irrelevante. Avanti Popolo ganhou prêmios no Brasil e no Exterior, análises e estudos diversos, foi notado pelo nicho. Ótimo. Mas ninguém vai ver este filme. Não é à toa que, ao final, nosso personagem declara que não vê mais nada. Não é à toa que o epílogo apresente a mim, o diretor, cantando um hino socialista, solitário, sem coro, sem ânimo, enquanto vemos um cinema em ruínas. Tudo o que aparece no filme são ruínas. Fiz um filme que ninguém vai ver, sei disso. E acho isso triste. Da mesma forma, ninguém leu o texto do Bernardet. E ninguém lerá esta entrevista. As pessoas não querem ler Bernardet, nem uma entrevista com um cineasta desconhecido. As pessoas querem ler a coluna da Mônica Bergamo. Então eu não posso vislumbrar a carreira do filme pensando no grande público. Nossa batalha não pode ser essa. Existe o entretenimento e a indústria, mas cada um com seu papel. O cinema de arte precisa da indústria, pois, sem ela, não temos trabalho, nem dinheiro. Mas a indústria também precisa de pessoas irrelevantes que nem a gente, que experimentem a linguagem, proponham novos caminhos, toquem em novos assuntos, duvidem, questionem, busquem a renovação. Sem isso, o cinema morre de tédio. O que me leva a concluir que “relevância” é um termo muito relativo. E que me leva a lembrar do manifesto Anti 100 Anos de Cinema, do cineasta Jonas Mekas:

“Nos tempos em que todo mundo quer ter sucesso e vender, eu quero celebrar aqueles que abraçam o fracasso, social e diariamente, para buscar o invisível, o pessoal, coisas que não trazem dinheiro ou pão e não fazem história contemporânea. Eu sou pela arte que fazemos uns para os outros, como amigos, para nós mesmos. Eu estou de pé no meio da Rodovia da Informação e rindo. Porque uma borboleta em uma pequena flor em algum lugar, acabou de bater suas asas e eu sei que todo o curso da história vai mudar drasticamente por causa desse bater de asas. E o mundo nunca mais será o mesmo. A verdadeira história do cinema é a história invisível, a história de amigos se reunindo e fazendo o que amam. Para nós, o cinema está começando a cada novo rumor do projetor, a cada novo rumor de nossas câmeras nossos corações saltam à frente, meus amigos!”.

Suspense e drama juntam-se no ótimo filme brasileiro "O Lobo Atrás da Porta"

09 de junho de 2014 0

No subúrbio carioca, um triângulo amoroso alimentado por mentira, desejo e perversidade culmina em uma tragédia hedionda. Eurípedes e Nelson Rodrigues encontram-se em O Lobo Atrás da Porta, o melhor filme brasileiro a chegar aos cinemas desde O Som ao Redor (2012). Estreia no longa-metragem do diretor Fernando Coimbra, o suspense revela as histórias que cercam o sequestro de uma criança: quando Sylvia (Fabíula Nascimento) descobre que uma desconhecida foi buscar sua filha de seis anos na escola, a polícia chama seu marido, Bernardo (Milhem Cortaz), para depor. Na delegacia, o homem confessa ao detetive interpretado pelo ator Juliano Cazarré seu caso com a bela Rosa (Leandra Leal). Aos poucos, os depoimentos de Sylvia, Bernardo e Rosa vão tecendo uma trama de amor passional, obsessão, traição e vingança.

– A origem foi uma história que eu li em 1998 em uma revista da década de 1960 sobre um crime parecido. A assassina era amante do pai da criança e, depois de presa, rejeitou qualquer defesa em seu julgamento. Ela dizia estar consciente do crime que cometeu e não se arrependia de nada. A mídia passou a chamá-la de “Fera da Penha”. Me interessou ver o quão humana na verdade era essa mulher tratada como monstro, mostrar que uma atitude como essa não é tão incomum quanto parece – explicou o diretor e roteirista em entrevista por telefone.

Um dos trunfos de O Lobo Atrás da Porta é o elenco: as longas sequências sem corte permitem que o trio central expresse paixão, verossimilhança e densidade dramática. No filme, todos falam muito – os silêncios, porém, são mais eloquentes, denunciando a falta de comunicação entre os protagonistas, que parecem agir sem pensar.

– Quando escrevi o roteiro, não estava pensando em ninguém em particular. Cada ator veio de um jeito diferente. A Rosa era difícil de encontrar: tinha que ser jovem, mas com experiência, ter uma interpretação minimalista, muito no olhar. A Leandra tem isso, um olhar firme e, ao mesmo tempo, doce. Já para interpretar Bernardo, eu não queria um galã, um cafajestão, mas um tipo que provocasse tesão na Rosa. O Milhem pode ser brutal, delicado, engraçado. A Fabíula tem essa coisa de um lado meio cômico, e as brigas do casal têm um certo humor. Juntamos os três e foi ótimo – disse Coimbra.

Para além de injetar dinamismo no thriller, a alternância de pontos de vista dos personagens na narrativa permitiu a Fernando Coimbra acrescentar complexidade à trama de O Lobo Atrás da Porta:

– Investigando a história original, vi que as versões não batiam. A realidade do filme é subjetiva para cada personagem, levando assim não somente a uma única verdade, mas a verdades diferentes e conflitantes.

Rodado com baixo orçamento, de apenas R$ 1,5 milhão, O Lobo Atrás da Porta fez sua estreia mundial no Festival de Toronto do ano passado. Melhor longa brasileiro do Festival do Rio 2013 e vencedor do prêmio de melhor atriz (Leandra), o filme já foi vendido para mais de 20 países. Está em cartaz no Brasil desde a última quinta-feira (em Porto Alegre, pode ser visto no GNC Moinhos e no Espaço Itaú).

O despojamento de Jair Rodrigues (1939 – 2014) no bom filme brasileiro "Super Nada"

08 de maio de 2014 0

Morto nesta quinta-feira, Jair Rodrigues foi responsável por uma das performances mais surpreendentes do cinema nacional recente. Como o personagem-título do bom drama de humor negro Super Nada, de Rubens Rewald, o cantor aparece em cena com um despojamento impressionante, cantando, dançando, flertando com uma garota bem mais nova do que ele – e muito mais, que é bom não adiantar porque uma das chaves para entrar neste estranho (no bom sentido) filme de Rewald (o mesmo de Corpo) é se deixar surpreender por sua trama sobre um jovem ator (Marat Descartes) que tem o personagem televisivo Super Nada como seu herói pessoal desde a infância.

Super Nada ganhou o prêmio de melhor ator (para Descartes) no Festival de Gramado de 2012. Na seção Novos Rumos do Festival do Rio do mesmo ano, levou os troféus de melhor filme e um prêmio especial do júri para a performance de Jair Rodrigues. O longa, que ganhou o circuito nacional em 2013, pode ser visto em DVD – chegou ao mercado de home vídeo em lançamento da Lume Filmes.

Sinta só o clima de Super Nada:

Tentativa de sátira com humor escrachado, "Copa de Elite" não funciona

21 de abril de 2014 0

Difundidas nos EUA (vide, recentemente, títulos como Todo Mundo em Pânico e Não É Mais um Besteirol Americano), as comédias escrachadas que parodiam o mundo do cinema não emplacam no Brasil. Totalmente Inocentes (2012), com Fábio Porchat, foi um fracasso. Copa de Elite, com outros integrantes do Porta dos Fundos à frente do elenco (Marcos Veras e Júlia Rabello), estreou ontem com bem mais barulho – e alinhada com as comédias populares mais baixas produzidas no país nos últimos anos, o que, desta vez, faz o sucesso de público ser uma possibilidade real.

Além das piadas com filmes como Se Eu Fosse Você (2006), Chico Xavier (2010) e Minha Mãe É uma Peça (2013), e com o Festival de Gramado, não faltam passagens escatológicas. Há luta de anões, um pênis “atômico” capaz de provocar grande destruição e, lá pelas tantas, uma genitália masculina tatuada no protagonista.

Protagonista este que trabalha na tropa de elite da PM e se chama Capitão (papel de Veras) – referência ao personagem de Wagner Moura no filme de José Padilha. Junto à parceira, a dona de sex shop Bia Alpistinha (referência a Bruna Surfistinha e a De Pernas pro Ar), ele persegue um ator arrogante (Rafinha Bastos) que quer matar o papa Francisco no Maracanã, em plena final da Copa entre Brasil e Argentina.

Brincadeiras infames com os hermanos não poderiam ficar de fora, assim como a gozação com a homossexualidade – no caso, de um soldado da tropa do Capitão. Ainda aparecem em cena celebridades e subcelebridades, de Anitta (que interpreta uma repórter de tevê) a Bruno de Lucca (como ele próprio), passando por Alexandre Frota (fantasiado de mãe do protagonista) e o grupo de pagode Molejo, o que revela a tentativa de diálogo com a classe média que se diverte consumindo o lado trash da fama – no elenco de Copa de Elite, a impressão é a de que só faltou um ex-BBB.

Pode dar certo, mas seria mais digno se houvesse menos baixaria. E se a sátira fosse além da mera reutilização de figuras do showbiz nacional, posicionando-as em novas situações e não apenas apresentando-as como se o riso dependesse de nada além da própria presença delas.

Coutinho e o imperador do sertão

10 de abril de 2014 0

teodorico

Segue um trecho da entrevista com o documentarista João Moreira Salles publicada no Segundo Caderno dia 7 de abril, como parte da matéria sobre o lançamento da edição especial do DVD de Cabra Marcado para Morrer.

Para ler a reportagem completa e as entrevistas com Salles e Eduardo Escorel, montador deste clássico do cinema brasileiro, clique aqui.

ZH — Você já disse que o maior documentário brasileiro é de Coutinho, mas não é Cabra…, e sim Teodorico, o Imperador do Sertão, que ele realizou em 1978 para o Globo Repórter. Essa opinião persiste?
Salles — É evidente que o escopo, a complexidade e a ambição de Cabra… são muito maiores, razão suficiente para que seja quase uma impiedade comparar os dois filmes. A frase talvez tenha sido dita para chamar atenção para uma obra pouco vista do Coutinho. Mas há razões mais do que estratégicas para elogiar Teodorico. Devo dizer que, como espectador, o documentário me causou mais impacto do que Cabra…, ao menos da primeira vez que o vi. A riqueza do mundo oral, a autorrepresentação do personagem, a mistura — palavra que Coutinho adorava — entre ficção e realidade, a presença de uma câmera e de um diretor como catalisadores da ação, o modo como um mundo social se desvela sem a necessidade de uma voz prescritiva ou moralizante. De Cabra…, a O Fim e o Princípio (2006), a Jogo de Cena (2007), todo o Coutinho está em germe ali. E com dois complicadores espantosos: o filme é anterior a Cabra... e foi produzido dentro da Rede Globo, em pleno regime militar.

Aqui abaixo está  o documentário Theodorico, O Imperador do Sertão  (com h), exibido no dia 22 de agosto de 1978, no Globo Repórter. Coutinho trabalhou no programa entre 1975 e 1984. Em 1981, durante um período de dois meses de  férias acumuladas, retomou o projeto de Cabra Marcado para Morrer, que havia abandonado em 1964 em razão do golpe militar. O Globo Repórter marcou a TV brasileira nos anos 1970 e 1980 com suas grandes reportagens documentais país afora, muitas delas assinadas por cineastas como Coutinho, Vladimir Carvalho e Walter Lima Jr., entre outros — foi o último programa jornalístico da Globo a substituir o filme 16mm pelo videotape.  Reparem que o fotógrafo de Theodorico  é Dib Lutfi, o grande parceiro de Glauber Rocha.

Essa experiência foi muito rica para Coutinho depurar o estilo que o consagraria como grande mestre do documentário nacional — também, dizia ele, por subverter algumas regras de linguagem, narrativa e postura determinadas pelo padrão Globo de qualidade. Coutinho, aliás, costumava explicar a seus entrevistados que fazia reportagens e não documentários: “Documentário é grego”, justifica ele na faixa comentada de DVD de Cabra… 

A Wikipédia tem mais informações sobre o personagem retratado por Coutinho, um arquetípico “coronel” que comanda com mão de ferro negócios e pessoas de uma cidadezinha do interior Rio Grande do Norte. Aqui tem uma reportagem com mais informações sobre os bastidores da realização. Via Google se acha de críticas a trabalhos acadêmicos sobre  Theodorico, O Imperador do Sertão.

Premiado filme brasileiro "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" empolga público; veja o curta-metragem que precedeu o longa de Daniel Ribeiro

09 de abril de 2014 0

É impressionante a reação do público verificada em algumas sessões de Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho, longa de estreia do paulistano Daniel Ribeiro que foi premiado no Festival de Berlim e que está estreando nesta semana nos cinemas brasileiros. Não que o filme seja espetacular, mas a maneira como os espectadores se deixam tocar pela jornada do protagonista, um adolescente deficiente visual que se descobre apaixonado pelo menino novo na escola, é bem impressionante.

A história toda sobre o desenvolvimento do filme está contada neste texto que fiz para a edição impressa da ZH (clicando aqui você acessa a sua versão online). Uma parte importante desse desenvolvimento diz respeito à produção e disponibilização, no YouTube, do curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho. Nessa matéria de Zero Hora, Ribeiro o definiu como um “projeto piloto” do longa. Veja abaixo e tire a prova: às vezes, parece se tratar do mesmo filme.

O duro processo de amadurecimento no bom filme nacional "Entre Nós"

28 de março de 2014 0

Diretor de Cidade dos Homens (2007), Paulo Morelli conseguiu uma pequena proeza com Entre Nós: fez um filme ao mesmo tempo jovem e memorialístico, enérgico e reflexivo, capaz de se comunicar bem com qualquer tipo de público – algo raro no cinema nacional, cada vez mais polarizado entre a erudição sem muitas concessões e o apelo popular mais rasteiro. Entre Nós é seu quarto longa-metragem. Está em cartaz desde esta quinta-feira no circuito.

A história toda se passa em uma paradisíaca casa de campo localizada em São Francisco Xavier (SP), entre as montanhas da Serra da Mantiqueira, para onde sete amigos cheios de disposição viajam para uma temporada de verão. Isso em 1992. Em seu segundo ato, a trama avança até 2002, quando seis deles voltam ao mesmo lugar para a leitura coletiva de cartas que escreveram projetando o futuro e guardaram em um baú enterrado no pátio. O sétimo integrante do grupo, Rafa (Lee Taylor), morrera em um acidente justamente naquela viagem de 10 anos antes.

Todos têm personalidades muito bem definidas pelo roteiro que Morelli desenvolveu ao lado do filho Pedro – que assina como codiretor. As boas atuações colaboram, mas o fundamental para esse resultado é a eficiência dos diálogos, coloquiais ao ponto de soarem naturais como nem sempre se vê em produções brasileiras semelhantes.

O que Felipe (Caio Blat), Lúcia (Carolina Dieckmann), Silvana (Maria Ribeiro), Cazé (Júlio Andrade), Drica (Martha Nowill) e Gus (Paulo Vilhena) têm em comum são as marcas do tempo, alguma desilusão e a certeza de que aquele otimismo juvenil onipresente se esvaiu com o passar dos anos. Todos também leem bastante, citam clássicos e, ao menos em dois casos (Felipe e Cazé), ganham a vida com literatura. É o livro que Rafa deixa inconcluído que vai despertar o principal conflito do longa. Só que, nesse caso, trata-se de um clichê a deixar quem viu As Palavras (2012) e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010), para citar dois títulos recentes, com a sensação de déjà vu.

É uma pena, porque as demais tensões que vão se revelando sob as aparências de normalidade são invariavelmente ricas. Dizem muito sobre o processo de amadurecimento, tanto em âmbito pessoal quanto profissional, e a pressão pelo sucesso que parece acompanhar aquela parte dessa geração para quem o “ser” nem sempre é tão importante quanto o “parecer”.

O visual de Entre Nós incorpora a atmosfera serrana com organicidade, graças à boa fotografia de Gustavo Hadba, e o ritmo da narrativa é fluido, muito em função da montagem competente de Lucas Gonzaga. Fosse menos pretensioso e grandiloquente em sua construção dramática, focando exclusivamente nos pequenos conflitos das relações entrecruzadas dos seis, Entre Nós seria ainda melhor.

Semana para discutir o cinema gaúcho

25 de março de 2014 0

Desde que o 27 de março foi instituído o Dia do Cinema Gaúcho, não passa um ano sem programações especiais para marcar a data. Nos últimos tempos, a efeméride incorporou aquele cheiro de algo novo que está no ar na produção cinematográfica local. Há mais longas sendo finalizados, em quantidade e variedade, e já não faltam mais filmes com uma cara mais contemporânea, a exemplo dos títulos citados três posts abaixo, Castanha e Beira-Mar. Dois outros projetos podem ser descobertos esta semana pelos porto-alegrenses: o documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, que Bruno Polidoro e Cacá Nazario dedicam a Caio Fernando Abreu (estreia na sexta-feira no Cine Santander e será debatido no sábado na mesma sala) e o ensaístico Terraqueos, de Frederico Ruas (filme composto da colagem de imagens de domínio público pescadas na internet que terá sessão de lançamento na Sala P.F. Gastal nesta quarta).

Além da estreia de Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes e da sessão (única) de lançamento de Terraqueos, há uma mostra para marcar a data montada pela P.F. Gastal e pela APTC (Associação Profissional dos Técnicos Cinematográficos do RS). Entre quinta e domingo, serão exibidos 28 curtas ou longas recentes produzidos no Rio Grande do Sul. Nas noites de sexta, sábado e domingo, a sala da Usina do Gasômetro vai sediar três debates sobre a produção local: O RS e o Exterior (sexta, às 20h30min), Fora do Fora do Eixo (sábado, às 20h30min) e Perspectivas (domingo, às 20h30min). Bom momento para discussão, não apenas sobre mecanismos de fomento, mas também sobre aspectos estéticos. Ainda que a perspectiva oferecida pelas novas produções seja de renovação (no início de 2014, havia mais de 20 longas em finalização no RS; dê uma olhada nesta matéria aqui), pode-se dizer que o cinema local precisa, e muito, de arejamento.

O cinema em 70 olhares

24 de março de 2014 0

Projetos coletivos assinados por grandes cineastas costumam ser tão interessantes na sua proposta quanto irregulares no seu resultado. Mas são sempre estimulantes como forma de contrapor diferentes olhares sobre determinado tema e também como exercício de linguagem e estilo — e quem não gosta de identificar a marca de um diretor favorito em poucos frames de projeção? Entre as iniciativas mais recentes exibidas nos cinemas brasileiros, o longa Sete Dias em Havana (2012) reuniu curtas-metragens de, entre outros, Laurent Cantet, Julio Medem, Gaspar Noé, Elia Suleiman e Pablo Trapero. Ainda em 2014, será lançado Rio, Eu te Amo, que reúne os brasileiros Fernando Meirelles, José Padilha, Andrucha Waddington e Carlos Saldanha e nomes como Guillermo Arriaga, Stephan Elliott, Nadine Labaki e Paolo Sorrentino.

Após o nariz de cera, o que realmente nos traz aqui. Durante o longo período em que o blog esteve na UTI, acabou passando em branco o muito interessante  Venezia 70 — Future Reloaded, projeto que chamou a atenção pela quantidade, qualidade e diversidade dos diretores envolvidos. Para celebrar a 70 ª edição do Festival de Veneza, em 2013,  70 cineastas de diferentes gerações e nacionalidades, todos eles com passagem pelo evento italiano, foram convidados para apresentarem em filmetes de um minuto e meio a três minutos de duração visões muito livres e particulares sobre seu ofício.

Representam o Brasil na lista Walter Salles, Karim Ainouz e Júlio Bressane. Entre outros craques desta grande seleção, estão também Claire Denis, Atom Egoyan, Amos Gitai, Hong Sang-soo, Jia Zhang-ke, Abbas Kiarostami, Kim Ki-duk, Pablo Trapero, Milcho Manchevski, Brillante Mendoza,Paul Schrader, Apichatpong Weerasethakul, Bernardo Bertolucci, Ermanno Olmi e Todd Solondz.

Selecionamos alguns trabalhos de Venezia 70 — Future Reloaded, começando por uma diretora grega que não conheço, Athina Rachel Tsangari, mas que fez um filme muito inventivo nesse citado tom saudosista.  Mais filmes podem ser conferidos clicando aqui.

Athina Rachel Tsangari

Paul Schrader

Walter Salles

Bernardo Bertolucci

Pablo Trapero

Júlio Bressane

Apitchapong Weerasethakul

Claire Denis

Atom Egoyan

Jia Zhang-ke

Abbas Kiarostami (citando O Regador Regado, de 1895, de Louis Lumière)

Kim Ki-duk

Brillante Mendoza

James Franco

Jorge Furtado fala de jornalismo no documentário "O Mercado de Notícias". "Beleza" também vem aí

23 de março de 2014 0

Saiu o trailer de O Mercado de Notícias, documentário de Jorge Furtado. É o primeiro dos dois novos longas-metragens do cineasta gaúcho, a ser lançado ainda em 2014 (o outro é o drama Beleza). Trata-se, basicamente, de um filme sobre jornalismo – hoje e ontem. Mais sobre o projeto nesta matéria aqui (e, aqui, matéria sobre Beleza e entrevista com o diretor). Ao trailer:

Getúlio Vargas no cinema

21 de março de 2014 0

O diretor João Jardim até cogitou filmar parte de seu longa-metragem Getúlio no interior gaúcho, mas acabou fechando ainda mais o foco do filme, que se passa nos 19 últimos dias de vida do ex-presidente e foi rodado em grande parte no Palácio do Catete, no Rio. Primeiro título cem por cento ficcional de Jardim (Amor? é um híbrido; Janela da Alma, Pro Dia Nascer Feliz e Lixo Extraordinário são documentários puros), Getúlio traz Tony Ramos caracterizado como o personagem-título. Muito bem caracterizado, como se pode ver abaixo, no primeiro trailer, divulgado ontem. O longa estreia nos cinemas brasileiros no simbólico 1º de maio.

Curioso e triste notar que Getúlio Vargas (1882 – 1954), uma das personalidades definidoras do século 20, nunca teve uma cinebiografia – o filme de João Jardim não parece se prestar a esta definição. Se, no Brasil, as restrições aos lançamentos de biografias são tantas, imagina aquelas impostas às produções cinematográficas sobre a vida dos homens e das mulheres mais controversos da vida pública.

Getúlio, na verdade, ganhou um documentário da diretora Ana Carolina (Getúlio Vargas, longa de 1974 com narração de Paulo Cesar Peréio) e apareceu aqui e ali em ficções históricas. São exemplos Lost Zweig (de Sylvio Back, 2002), no qual é interpretado por Renato Borghi, Olga (de Jayme Monjardim, 2004), vivido por Osmar Prado, For All – O Trampolim da Vitória (de Buza Ferraz e Luiz Carlos Lacerda, 1997), por Carlos Ferreira, e O País dos Tenentes (de João Batista de Andrade, 1987). Neste último, que é protagonizado por Paulo Autran, Getúlio é encarnado pelo idealizador da Mostra de SP, Leon Cakoff, em uma de suas raras aparições como ator.

No polêmico e inconcluído Chatô, O Rei do Brasil, cinebiografia do magnata das comunicações Assis Chateaubriand dirigida por Guilherme Fontes e protagonizada por Marco Ricca, Getúlio Vargas seria interpretado por Paulo Betti.