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Posts na categoria "cinema nacional"

Coutinho e o imperador do sertão

10 de abril de 2014 0

teodorico

Segue um trecho da entrevista com o documentarista João Moreira Salles publicada no Segundo Caderno dia 7 de abril, como parte da matéria sobre o lançamento da edição especial do DVD de Cabra Marcado para Morrer.

Para ler a reportagem completa e as entrevistas com Salles e Eduardo Escorel, montador deste clássico do cinema brasileiro, clique aqui.

ZH — Você já disse que o maior documentário brasileiro é de Coutinho, mas não é Cabra…, e sim Teodorico, o Imperador do Sertão, que ele realizou em 1978 para o Globo Repórter. Essa opinião persiste?
Salles — É evidente que o escopo, a complexidade e a ambição de Cabra… são muito maiores, razão suficiente para que seja quase uma impiedade comparar os dois filmes. A frase talvez tenha sido dita para chamar atenção para uma obra pouco vista do Coutinho. Mas há razões mais do que estratégicas para elogiar Teodorico. Devo dizer que, como espectador, o documentário me causou mais impacto do que Cabra…, ao menos da primeira vez que o vi. A riqueza do mundo oral, a autorrepresentação do personagem, a mistura — palavra que Coutinho adorava — entre ficção e realidade, a presença de uma câmera e de um diretor como catalisadores da ação, o modo como um mundo social se desvela sem a necessidade de uma voz prescritiva ou moralizante. De Cabra…, a O Fim e o Princípio (2006), a Jogo de Cena (2007), todo o Coutinho está em germe ali. E com dois complicadores espantosos: o filme é anterior a Cabra... e foi produzido dentro da Rede Globo, em pleno regime militar.

Aqui abaixo está  o documentário Theodorico, O Imperador do Sertão  (com h), exibido no dia 22 de agosto de 1978, no Globo Repórter. Coutinho trabalhou no programa entre 1975 e 1984. Em 1981, durante um período de dois meses de  férias acumuladas, retomou o projeto de Cabra Marcado para Morrer, que havia abandonado em 1964 em razão do golpe militar. O Globo Repórter marcou a TV brasileira nos anos 1970 e 1980 com suas grandes reportagens documentais país afora, muitas delas assinadas por cineastas como Coutinho, Vladimir Carvalho e Walter Lima Jr., entre outros — foi o último programa jornalístico da Globo a substituir o filme 16mm pelo videotape.  Reparem que o fotógrafo de Theodorico  é Dib Lutfi, o grande parceiro de Glauber Rocha.

Essa experiência foi muito rica para Coutinho depurar o estilo que o consagraria como grande mestre do documentário nacional — também, dizia ele, por subverter algumas regras de linguagem, narrativa e postura determinadas pelo padrão Globo de qualidade. Coutinho, aliás, costumava explicar a seus entrevistados que fazia reportagens e não documentários: “Documentário é grego”, justifica ele na faixa comentada de DVD de Cabra… 

A Wikipédia tem mais informações sobre o personagem retratado por Coutinho, um arquetípico “coronel” que comanda com mão de ferro negócios e pessoas de uma cidadezinha do interior Rio Grande do Norte. Aqui tem uma reportagem com mais informações sobre os bastidores da realização. Via Google se acha de críticas a trabalhos acadêmicos sobre  Theodorico, O Imperador do Sertão.

Premiado filme brasileiro "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" empolga público; veja o curta-metragem que precedeu o longa de Daniel Ribeiro

09 de abril de 2014 0

É impressionante a reação do público verificada em algumas sessões de Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho, longa de estreia do paulistano Daniel Ribeiro que foi premiado no Festival de Berlim e que está estreando nesta semana nos cinemas brasileiros. Não que o filme seja espetacular, mas a maneira como os espectadores se deixam tocar pela jornada do protagonista, um adolescente deficiente visual que se descobre apaixonado pelo menino novo na escola, é bem impressionante.

A história toda sobre o desenvolvimento do filme está contada neste texto que fiz para a edição impressa da ZH (clicando aqui você acessa a sua versão online). Uma parte importante desse desenvolvimento diz respeito à produção e disponibilização, no YouTube, do curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho. Nessa matéria de Zero Hora, Ribeiro o definiu como um “projeto piloto” do longa. Veja abaixo e tire a prova: às vezes, parece se tratar do mesmo filme.

O duro processo de amadurecimento no bom filme nacional "Entre Nós"

28 de março de 2014 0

Diretor de Cidade dos Homens (2007), Paulo Morelli conseguiu uma pequena proeza com Entre Nós: fez um filme ao mesmo tempo jovem e memorialístico, enérgico e reflexivo, capaz de se comunicar bem com qualquer tipo de público – algo raro no cinema nacional, cada vez mais polarizado entre a erudição sem muitas concessões e o apelo popular mais rasteiro. Entre Nós é seu quarto longa-metragem. Está em cartaz desde esta quinta-feira no circuito.

A história toda se passa em uma paradisíaca casa de campo localizada em São Francisco Xavier (SP), entre as montanhas da Serra da Mantiqueira, para onde sete amigos cheios de disposição viajam para uma temporada de verão. Isso em 1992. Em seu segundo ato, a trama avança até 2002, quando seis deles voltam ao mesmo lugar para a leitura coletiva de cartas que escreveram projetando o futuro e guardaram em um baú enterrado no pátio. O sétimo integrante do grupo, Rafa (Lee Taylor), morrera em um acidente justamente naquela viagem de 10 anos antes.

Todos têm personalidades muito bem definidas pelo roteiro que Morelli desenvolveu ao lado do filho Pedro – que assina como codiretor. As boas atuações colaboram, mas o fundamental para esse resultado é a eficiência dos diálogos, coloquiais ao ponto de soarem naturais como nem sempre se vê em produções brasileiras semelhantes.

O que Felipe (Caio Blat), Lúcia (Carolina Dieckmann), Silvana (Maria Ribeiro), Cazé (Júlio Andrade), Drica (Martha Nowill) e Gus (Paulo Vilhena) têm em comum são as marcas do tempo, alguma desilusão e a certeza de que aquele otimismo juvenil onipresente se esvaiu com o passar dos anos. Todos também leem bastante, citam clássicos e, ao menos em dois casos (Felipe e Cazé), ganham a vida com literatura. É o livro que Rafa deixa inconcluído que vai despertar o principal conflito do longa. Só que, nesse caso, trata-se de um clichê a deixar quem viu As Palavras (2012) e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010), para citar dois títulos recentes, com a sensação de déjà vu.

É uma pena, porque as demais tensões que vão se revelando sob as aparências de normalidade são invariavelmente ricas. Dizem muito sobre o processo de amadurecimento, tanto em âmbito pessoal quanto profissional, e a pressão pelo sucesso que parece acompanhar aquela parte dessa geração para quem o “ser” nem sempre é tão importante quanto o “parecer”.

O visual de Entre Nós incorpora a atmosfera serrana com organicidade, graças à boa fotografia de Gustavo Hadba, e o ritmo da narrativa é fluido, muito em função da montagem competente de Lucas Gonzaga. Fosse menos pretensioso e grandiloquente em sua construção dramática, focando exclusivamente nos pequenos conflitos das relações entrecruzadas dos seis, Entre Nós seria ainda melhor.

Semana para discutir o cinema gaúcho

25 de março de 2014 0

Desde que o 27 de março foi instituído o Dia do Cinema Gaúcho, não passa um ano sem programações especiais para marcar a data. Nos últimos tempos, a efeméride incorporou aquele cheiro de algo novo que está no ar na produção cinematográfica local. Há mais longas sendo finalizados, em quantidade e variedade, e já não faltam mais filmes com uma cara mais contemporânea, a exemplo dos títulos citados três posts abaixo, Castanha e Beira-Mar. Dois outros projetos podem ser descobertos esta semana pelos porto-alegrenses: o documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, que Bruno Polidoro e Cacá Nazario dedicam a Caio Fernando Abreu (estreia na sexta-feira no Cine Santander e será debatido no sábado na mesma sala) e o ensaístico Terraqueos, de Frederico Ruas (filme composto da colagem de imagens de domínio público pescadas na internet que terá sessão de lançamento na Sala P.F. Gastal nesta quarta).

Além da estreia de Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes e da sessão (única) de lançamento de Terraqueos, há uma mostra para marcar a data montada pela P.F. Gastal e pela APTC (Associação Profissional dos Técnicos Cinematográficos do RS). Entre quinta e domingo, serão exibidos 28 curtas ou longas recentes produzidos no Rio Grande do Sul. Nas noites de sexta, sábado e domingo, a sala da Usina do Gasômetro vai sediar três debates sobre a produção local: O RS e o Exterior (sexta, às 20h30min), Fora do Fora do Eixo (sábado, às 20h30min) e Perspectivas (domingo, às 20h30min). Bom momento para discussão, não apenas sobre mecanismos de fomento, mas também sobre aspectos estéticos. Ainda que a perspectiva oferecida pelas novas produções seja de renovação (no início de 2014, havia mais de 20 longas em finalização no RS; dê uma olhada nesta matéria aqui), pode-se dizer que o cinema local precisa, e muito, de arejamento.

O cinema em 70 olhares

24 de março de 2014 0

Projetos coletivos assinados por grandes cineastas costumam ser tão interessantes na sua proposta quanto irregulares no seu resultado. Mas são sempre estimulantes como forma de contrapor diferentes olhares sobre determinado tema e também como exercício de linguagem e estilo — e quem não gosta de identificar a marca de um diretor favorito em poucos frames de projeção? Entre as iniciativas mais recentes exibidas nos cinemas brasileiros, o longa Sete Dias em Havana (2012) reuniu curtas-metragens de, entre outros, Laurent Cantet, Julio Medem, Gaspar Noé, Elia Suleiman e Pablo Trapero. Ainda em 2014, será lançado Rio, Eu te Amo, que reúne os brasileiros Fernando Meirelles, José Padilha, Andrucha Waddington e Carlos Saldanha e nomes como Guillermo Arriaga, Stephan Elliott, Nadine Labaki e Paolo Sorrentino.

Após o nariz de cera, o que realmente nos traz aqui. Durante o longo período em que o blog esteve na UTI, acabou passando em branco o muito interessante  Venezia 70 — Future Reloaded, projeto que chamou a atenção pela quantidade, qualidade e diversidade dos diretores envolvidos. Para celebrar a 70 ª edição do Festival de Veneza, em 2013,  70 cineastas de diferentes gerações e nacionalidades, todos eles com passagem pelo evento italiano, foram convidados para apresentarem em filmetes de um minuto e meio a três minutos de duração visões muito livres e particulares sobre seu ofício.

Representam o Brasil na lista Walter Salles, Karim Ainouz e Júlio Bressane. Entre outros craques desta grande seleção, estão também Claire Denis, Atom Egoyan, Amos Gitai, Hong Sang-soo, Jia Zhang-ke, Abbas Kiarostami, Kim Ki-duk, Pablo Trapero, Milcho Manchevski, Brillante Mendoza,Paul Schrader, Apichatpong Weerasethakul, Bernardo Bertolucci, Ermanno Olmi e Todd Solondz.

Selecionamos alguns trabalhos de Venezia 70 — Future Reloaded, começando por uma diretora grega que não conheço, Athina Rachel Tsangari, mas que fez um filme muito inventivo nesse citado tom saudosista.  Mais filmes podem ser conferidos clicando aqui.

Athina Rachel Tsangari

Paul Schrader

Walter Salles

Bernardo Bertolucci

Pablo Trapero

Júlio Bressane

Apitchapong Weerasethakul

Claire Denis

Atom Egoyan

Jia Zhang-ke

Abbas Kiarostami (citando O Regador Regado, de 1895, de Louis Lumière)

Kim Ki-duk

Brillante Mendoza

James Franco

Jorge Furtado fala de jornalismo no documentário "O Mercado de Notícias". "Beleza" também vem aí

23 de março de 2014 0

Saiu o trailer de O Mercado de Notícias, documentário de Jorge Furtado. É o primeiro dos dois novos longas-metragens do cineasta gaúcho, a ser lançado ainda em 2014 (o outro é o drama Beleza). Trata-se, basicamente, de um filme sobre jornalismo – hoje e ontem. Mais sobre o projeto nesta matéria aqui (e, aqui, matéria sobre Beleza e entrevista com o diretor). Ao trailer:

Getúlio Vargas no cinema

21 de março de 2014 0

O diretor João Jardim até cogitou filmar parte de seu longa-metragem Getúlio no interior gaúcho, mas acabou fechando ainda mais o foco do filme, que se passa nos 19 últimos dias de vida do ex-presidente e foi rodado em grande parte no Palácio do Catete, no Rio. Primeiro título cem por cento ficcional de Jardim (Amor? é um híbrido; Janela da Alma, Pro Dia Nascer Feliz e Lixo Extraordinário são documentários puros), Getúlio traz Tony Ramos caracterizado como o personagem-título. Muito bem caracterizado, como se pode ver abaixo, no primeiro trailer, divulgado ontem. O longa estreia nos cinemas brasileiros no simbólico 1º de maio.

Curioso e triste notar que Getúlio Vargas (1882 – 1954), uma das personalidades definidoras do século 20, nunca teve uma cinebiografia – o filme de João Jardim não parece se prestar a esta definição. Se, no Brasil, as restrições aos lançamentos de biografias são tantas, imagina aquelas impostas às produções cinematográficas sobre a vida dos homens e das mulheres mais controversos da vida pública.

Getúlio, na verdade, ganhou um documentário da diretora Ana Carolina (Getúlio Vargas, longa de 1974 com narração de Paulo Cesar Peréio) e apareceu aqui e ali em ficções históricas. São exemplos Lost Zweig (de Sylvio Back, 2002), no qual é interpretado por Renato Borghi, Olga (de Jayme Monjardim, 2004), vivido por Osmar Prado, For All – O Trampolim da Vitória (de Buza Ferraz e Luiz Carlos Lacerda, 1997), por Carlos Ferreira, e O País dos Tenentes (de João Batista de Andrade, 1987). Neste último, que é protagonizado por Paulo Autran, Getúlio é encarnado pelo idealizador da Mostra de SP, Leon Cakoff, em uma de suas raras aparições como ator.

No polêmico e inconcluído Chatô, O Rei do Brasil, cinebiografia do magnata das comunicações Assis Chateaubriand dirigida por Guilherme Fontes e protagonizada por Marco Ricca, Getúlio Vargas seria interpretado por Paulo Betti.

Depois de Berlim, Castanha vai a Copenhague, Nova York, Buenos Aires e Hong Kong

20 de março de 2014 0

Bom gancho para reativar este blog cinéfilo: falar de Castanha, o primeiro longa de Davi Pretto e da Tokyo Filmes, recentemente apresentado no Festival de Berlim. E, mais do que isso, talvez o principal cartão de visitas (carta de intenções?) da geração que está trazendo uma energia renovadora, essencialmente contemporânea, ao cinema produzido no Rio Grande do Sul.

“Talvez o principal cartão de visitas” porque, em primeiro lugar, ainda não assisti a Castanha. Segundo: há outros projetos anunciados para breve que chamam muito a atenção, como Beira-Mar, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, da Avante Filmes, selecionado para o Cine En Construcción, a ser realizado em Toulouse, na França. A presença do Marcio e do Filipe neste laboratório pode ser um indício de que seu filme vá seguir os passos de Castanha e construir uma carreira em grandes festivais internacionais. Quem sabe?

Mas Castanha: depois de Berlim, Davi Pretto vai apresentar o filme no Hong Kong International Film Festival, e também na seção Competencia Internacional do Bafici, de Buenos Aires, no Art of the Real, em Nova York, e na principal mostra cinematográfica da Dinamarca, o CPH PIX, de Copenhague. Isso tudo apenas em abril.

No Brasil? Bom, melhor aguardar. A mim parece uma oportunidade de o cinema gaúcho de longa-metragem fazer algo que talvez (de novo o “talvez”, agora porque a memória falha) nunca tenha feito antes: disputar os troféus Redentor no Festival do Rio, hoje uma das mais valorizadas vitrines do cinema nacional.

O certo é que o pessoal da Tokyo pretende lançar Castanha comercialmente já no segundo semestre. A distribuição está garantida. No Brasil, na Alemanha, na Áustria e também na Suíça. Avante!

Veja o teaser/trailer abaixo e clique aqui para ler a reportagem da capa do Segundo Caderno de ZH, publicada durante as filmagens, em junho do ano passado:

O que estamos vendo

11 de junho de 2013 1

Canções para ver no fim de semana

31 de maio de 2013 0

Alguns dos ótimos filmes em cartaz na Capital têm como destaque também a trilha sonora, por ser toda ela excelente e elemento importante da narrativa ou por trazer uma que outra faixa com presença simbólica na trama. Como hoje é sexta-feira, selecionamos algumas canções para animar (ou nem tanto) o final de semana.

Walking On Sunshine, com Katrina & The Waves.

Do filme francês Camille Outra Vez. É a música favorita do grupo de amigas da protagonista, uma atriz abandonada pelo marido. Após uma noite de bebedeira, ela acorda em 1985, com 16 anos (embora com a mesma aparência de seus 40 e tantos).

99 Luftbalons, com Nena. Outro hit oitentista, direto da Alemanha, de Camille Outra Vez.

Até quando Esperar, com Plebe Rude. Da trilha de Faroeste Caboclo, assinada por Philippe Seabra, guitarrista da Plebe.

Terrapin, com Syd Barret. Do longa francês Depois de Maio. Ambientado no começo do anos 1970, acompanha um grupo de jovens amigos ainda inflamados pelo espírito revolucionário do Maio de 1978, mas também diante dos dilemas em relação ao futuro e o que fazer da vida.

Know, com Nick Drake. Outro belo momento para ver e ouvir em Depois de Maio. As músicas da trilha tocam praticamente na íntegra.

o

Green Onions, com Booker T and The MG’s. Mais uma de Depois de Maio.

The Mamas and The Papas, com Dedicated to The One I Love. Do documentário brasileiro Elena, tributo da diretora Petra Costa à irmã que se suicidou. (Clique aqui para ver com qualidade melhor)

Maniac, com Michael Sembello. Momento de catarse de Alessandra Negrini, doida demais na pista de dança, em O Abismo Prateado. A música fez sucesso na trilha de Flashdance (1983), estrelado por Jennifer Beals.

Unchained Melody, com John McInerny. Momento arrebatador do filme argentino O  Último Elvis. McInerny, cover do Rei do Rock na vida real, interpreta o clássico imortalizado pelos Righteous Brothers e também por Elvis Presley.

Bons filmes, grandes mulheres

15 de abril de 2013 1

Rânia quer se libertar, Verônica precisa descobrir a liberdade. Silmara se frustra, Bianca não desiste, Violeta terá de se reerguer. São cinco mulheres extraordinárias, cujas jornadas representam uma das facetas mais ricas do cinema brasileiro atual: a capacidade de desenvolver bons personagens femininos.

Respectivamente, essas personagens podem ser vistas em Rânia, Era uma Vez Eu, Verônica, Falsa Loura, Riscado e O Abismo Prateado. Vêm de regiões, castas e gerações diferentes, dando forma a um panorama irregular e um tanto impreciso, mas muito consistente, da pluralidade social contemporânea verificada no país. Como se a união de todas elas, e das outras citadas no quadro abaixo, desse a medida de um certo estado de coisas, não do ponto de vista macro, mas íntimo, mesmo. Não é nada muito diferente disso que se espera de uma produção dramatúrgica consistente e reveladora.

Você pode até se dizer surpreendido, sobretudo se ainda não descobriu as boas surpresas do novíssimo cinema nacional, mas os adjetivos da frase que encerra o parágrafo anterior foram escolhidos com cuidado. Observe que não citei nenhuma personagem adaptada de matrizes literárias, nem mesmo representativa de alguma personalidade real. Se o fizesse, poderia mencionar a inventiva Cleópatra tropical do diretor Júlio Bressane (de 2008), o alter ego de Clarah Averbuck visto em Nome Próprio (2008), de Murilo Salles, a Zuzu Angel (2006) de Sérgio Resende e a Bruna Surfistinha (2011) de Marcus Baldini. Poderia, ainda, lembrar as grandes mulheres que inspiraram os documentários Elena (2012), de Petra Costa, e Laura (2012), de Felipe Barbosa, previstos para estrear nos próximos meses nos cinemas. E também fazer referência às complexas e sedutoras personagens femininas de Natimorto (2009) e Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (2011), se quisesse incluir títulos que não são necessariamente calcados nelas, e sim em histórias que acabam envolvendo-as – o que caracteriza uma diferença marcante dos 10 filmes da lista abaixo, todos formatados essencialmente sobre a intimidade de uma ou mais mulheres.

Isso: fiquemos com os longas que moldam sua dramaturgia a partir de mulheres ficcionais e originais. Por que eles existem? O que seus autores pretendem? O que faz esses projetos coexistirem em quantidade e qualidade significativas?

Para responder a essas perguntas seria necessário conhecer bem os propósitos estéticos de seus realizadores, o que nem sempre é possível, dado que uma das principais características do assim chamado novíssimo cinema nacional é a pouca, às vezes nenhuma experiência dos cineastas. Karim Aïnouz, diretor de um dos filmes basilares dos propósitos desse movimento (O Céu de Suely), fala reiteradamente sobre o desamor. Marcelo Gomes, outro dos mais experientes entre esses autores nem sempre jovens, mas de carreira invariavelmente incipiente, tem a solidão como tema recorrente. Donde se pode vislumbrar um certo gosto pela melancolia e pela desilusão – que, talvez não por coincidência, perpassam todos os 10 longas-metragens citados abaixo.

Não é de hoje que o cinema independente, marginal (o melhor cinema brasileiro), explora a sensação de deslocamento e inadequação. A tristeza, de maneira geral. Mas por que por meio das mulheres? A produção nacional do século 21 está cheia de personagens masculinos relevantes no mainstream, protagonizando os “filmes de favela”, a vertente cômica dessa produção e as incursões por gêneros como aventura e ação. Mas foi a partir das histórias essencialmente femininas que Eduardo Coutinho realizou Jogo de Cena (2007), o longa esteticamente mais revolucionário do país em décadas. E é a partir delas, mais do que deles, que se tem falado das grandes questões do país.

Talvez Rânia, Verônica, Silmara, Bianca, Violeta e tantas outras sejam reflexo de uma sociedade na qual a figura paterna, em tantos casos, se faz cada vez menos presente. Uma sociedade na qual as mães, cada vez mais, tornam-se a principal referência, não raramente a única acessível, para fatias bastante significativas da população. É uma hipótese. Talvez coincidência. O fato é que, no cinema nacional, a hora é delas.

10 filmes nacionais recentes centrados em personagens femininas:
(construídas em roteiros originais, e não a partir de matrizes literárias ou representativas de pessoas reais)

> Rânia (2012) – De Roberta Marques. Com Graziela Félix. Longa cearense premiado no Festival do Rio e selecionado para Roterdã, narra a história de uma adolescente da periferia que descobre a vocação de bailarina. Está em cartaz no CineBancários, em Porto Alegre.

> O Que se Move (2012) – De Caetano Gotardo. Com Cida Moreira, Andrea Marquee e Fernanda Vianna. Drama musical composto de três episódios sobre as dores e as alegrias de três mães. Premiado em Gramado, começa a chegar aos cinemas brasileiros a partir de 17 de maio.

> O Abismo Prateado (2011) – De Karim Aïnouz. Com Alessandra Negrini. Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, estreia nacionalmente neste dia 26 (em Porto Alegre deve demorar um pouco mais). Inspirado na canção Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, acompanha as horas de desespero de uma dentista carioca depois que ela é abandonada pelo marido.

> Era uma Vez Eu, Verônica (2011) – De Marcelo Gomes. Com Hermila Guedes. Médica recém-formada, a jovem protagonista passa por um momento de incertezas – e amadurecimento. Premiado em Brasília, estreou comercialmente no país no ano passado – mas não chegou ao circuito porto-alegrense.

> Riscado (2011) – De Gustavo Pizzi. Com Karine Teles. A vida nada fácil de uma atriz em início de carreira, que precisa se virar para sobreviver, é o ponto de partida deste longa premiado no Festival de Gramado e escrito em parceria pelo seu diretor e a protagonista. Já foi exibido nos cinemas.

> Sudoeste (2011) – De Eduardo Nunes. Com Simone Spoladore. Fábula de narrativa circular na qual uma mulher vê sua vida se desenrolar ao longo de apenas um dia num vilarejo de pescadores. Premiado nos festivais do Rio e de Havana. Também já teve sessões em Porto Alegre.

> Verônica (2008) – De Maurício Farias. Com Andréa Beltrão. Professora de escola pública do Rio tenta salvar um garoto que acaba de ficar órfão e está jurado de morte por traficantes da favela em que ele vive. Já está disponível em DVD.

> Falsa Loura (2008) – De Carlos Reichenbach. Com Rosanne Mulholland. Também já lançado nos cinemas e em DVD, foi o último – e é um dos melhores – longas de Reichenbach (1945 – 2012). Narra a história de uma operária do ABC Paulista que sustenta o pai e ama os cantores populares.

> A Casa de Alice (2007) – De Chico Teixeira. Com Carla Ribas. Manicure na faixa dos 40 anos está com a vida estagnada na periferia de São Paulo. No filme, disponível em DVD, ela tenta levar o dia a dia enfrentando diversos problemas de relacionamento com o marido e os filhos.

> O Céu de Suely (2006) – De Karim Aïnouz. Com Hermila Guedes. Garota grávida volta da capital paulista à sua cidade natal, no interior do Ceará, e fica aguardando, numa espera que se revelará infrutífera e terá consequências em sua vida, o namorado, pai de sua criança. Foi exibido no circuito e está disponível em DVD, para venda e locação.

O humor do Prata e a resistência cinéfila

23 de outubro de 2012 1

A histórica Cinemateca Uruguaia, de muitas lembranças para gerações mais antigas de cinéfilos gaúchos, ganhou um pequeno grande filme em sua homenagem. Dirigido por Federico Veiroj (corroteirista de 25 Watts e Whisky, ambos de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll) e protagonizado por Jorge Jellinek (crítico de Montevidéu) e Manuel Martínez Carril (ex- diretor da Cinemateca), A Vida Útil estreia nesta terça-feira no CineBancários.

É a primeira produção de fora do Brasil a chegar à Capital trazida pela distribuidora Vitrine Filmes, que tem oxigenado o circuito alternativo com os bons longas da nova geração brasileira. E é, em essência, um teste à emoção dos amantes do cinema – impossível não ficar comovido depois dos 66 minutos de projeção, tamanha afetividade com que a pacata rotina da instituição é recriada pelo jovem (de 35 anos) Veiroj.

Carril, figura carimbada do Festival de Gramado, interpreta a si próprio. Jellinek encarna o personagem principal, um funcionário da Cinemateca que passa os dias entre o trabalho burocrático em sua sede e a apresentação do programa de rádio usado para divulgar a sua programação.

Logo o espectador é levado a notar, por meio do esvaziamento das atividades da instituição e da melancolia do cotidiano retratado, a decadência do lugar. Parece que ainda estamos na década de 1950, impressão reforçada por opções estéticas que remetem a filmes daquele tempo, a exemplo da trilha sonora e da fotografia em preto e branco.

A situação reflete a crise da cinefilia contemporânea, em que as salas do chamado circuito alternativo, ou de arte, lutam para manter suas portas abertas e atrair a atenção do público. Mas A Vida Útil só é bem-sucedido (e muito!) por conta da maneira com que vislumbra esta crise: o grande lance do projeto é o humor contido em seu olhar, humor este que, muito longe do deboche, apresenta- se como uma forma distanciada e, por isso, madura de auto-observação. É mais ou menos o tipo de autoironia visto não apenas em Whisky ( 2004), mas em alguma parte dos títulos argentinos que cativaram tantos espectadores brasileiros nos últimos anos. Um tipo de ironia do qual o cinema nacional raramente faz uso, até porque ele tem mais a ver com a identidade dos países do Prata do que com a do Brasil.

A Vida Útil fica em cartaz em três sessões diárias pelo menos até 8 de novembro. Para os cinéfilos, é imperdível.

Histórica e resistente Cinemateca
Fundada em 1952, em Montevidéu, a Cinemateca Uruguaia foi o oásis dos cinéfilos gaúchos que lá conseguiam ver filmes proibidos ou mutilados pela censura no Brasil nos anos 1970. Seu precioso acervo conta com cerca de 12 mil títulos. A instituição atua na área de preservação, formação (mantém uma escola de cinema) e difusão (opera quatro salas de exibição). Organiza ainda um festival internacional que, em 2013, realizará sua 31ª edição.

E a Febre do Rato, hein?

03 de setembro de 2012 4

É curiosíssima a trajetória de A Febre do Rato em Porto Alegre. O terceiro longa de Cláudio Assis teve sessões de pré-estreia em quatro fins de semana entre julho e agosto – quando aliás publicamos em ZH o texto abaixo. Sumiu assim que o Unibanco Arteplex fechou para reformas e só voltou agora, com a reabertura do mesmo complexo, com o nome Espaço Itaú de Cinema. Sua estreia na cidade, no fim de semana que passou, deu-se apenas no próprio Espaço Itaú. O resultado que o filme poderá obter, após esta verdadeira lambança que foi o seu lançamento por aqui? É difícil prever, mas não será fácil que ele encontre o seu público desta maneira. Dê uma olhada no texto de apresentação e comentário dele e não deixe de ir ao cinema, porque, como digo a seguir, seus defeitos não diminuem o fato de que se trata de uma das melhores novidades da produção nacional recente.

O diretor pernambucano Cláudio Assis costuma causar ainda mais escândalo do que os filmes que assina – o irregular Amarelo Manga (2002), o ótimo Baixio das Bestas (2006) e, agora, este A Febre do Rato. Faz parte da proposta: cineasta doidão provoca a tudo e a todos com postura radical transformada em longas que buscam a poesia na violência verbal e no choque visual. Às vezes dá certo. Às vezes, nem tanto. Em um mesmo longa, inclusive.

É o caso de A Febre do Rato, grande vencedor do Festival de Paulínia do ano passado, ocasião em que superou, entre outros concorrentes, O Palhaço, de Selton Mello. No filme, o sempre ótimo Irandhir Santos (o deputado/antagonista de Tropa de Elite 2 e o narrador-protagonista de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo) interpreta um poeta popular anacrônico, militante do anarquismo e editor de fanzine que sai pelas ruas do Recife gritando seus textos com um megafone enquanto dirige um carro velho. Zizo é o seu nome.“Febre do rato”, gíria local recifense para indicar “fora de controle”, é como ele batizou o zine.

Zizo prega a libertinagem. Seus poemas, no entanto, têm uma notável doçura – eles revelam o talento superlativo do roteirista Hilton Lacerda, autor de todos os versos recitados. Não é uma contradição: Zizo é um romântico libertário, que defende – e pratica – o sexo livre, sem que isso o impeça de se apaixonar intensamente e tentar, de todas as maneiras, conquistar a estudante Eneida (Nanda Costa). O relacionamento ideal, ele diz na trama, é aquele que um amigo sensível (Matheus Nachtergaele) mantém com a transexual de tratamento mais rude a quem chama de “macho da minha vida” (Tânia Granussi).

A dicotomia regramento versus subversão está na essência de A Febre do Rato, à medida que o filme narra uma clássica história de amor não realizado (Eneida o admira, mas não cai na lábia do poeta), tão tradicional que é quase careta, mas que se apresenta ao espectador por meio de um discurso completamente desprovido de moral. A bela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho espelha o visual do fanzine revelando Recife às avessas, bem diferente da cidade dos cartões-postais coloridos, bem parecida com o centro urbano pulsante visto nos Super-8 sujos de Paulo Bruscky e no folk rock poético de Chico Science.

Há momentos de pura inspiração mais intimistas, como o da conversa de Zizo e Eneida no barco, e verdadeiramente espetaculares, como aquele em que o poeta dá um discurso inflamado conclamando seus seguidores a tirarem a roupa no meio da rua – uma das sequências mais impressionantes do cinema brasileiro recente. Há, em contrapartida, um certo maneirismo visto em alguns movimentos e angulações de câmera e na própria criação de situações exageradas, que pouco acrescentam à construção dramática ou narrativa.

Se antes Cláudio Assis já dava a impressão de forçar a mão para aumentar o impacto daquilo que apresenta, aqui, em determinados momentos, soa repetitivo. Provoca, consequentemente, a sensação de déjà vu, quando não de ter criado algo de certo modo fake. Para um filme sanguíneo, enérgico, que aposta no risco – situação por princípio interessante –, não se trata de algo definitivamente comprometedor. Com seus defeitos, A Febre do Rato é uma das melhores novidades da temporada no cinema nacional.

Mosaicos sobre o mundo

22 de agosto de 2012 1

Pitaco do chapa Ticiano Osório sobre 360, de Fernando Meirelles:

Fui ver o 360, do Fernando Meirelles. Achei muito mais cativante, inteligente e emocionante do que sugerem muitas críticas americanas. Na ciranda amorosa, embalada por uma trilha sonora muito legal e plural, há pelo menos uma história originalíssima, a que envolve o personagem interpretado por Ben Foster (foto acima), uma espécie de Ryan Gosling menos favorecido pela genética. Não vou contar aqui para não tirar o impacto.

Mas o mais bacana de 360 é ver como o filme fecha, é coerente com a carreira do Meirelles. Aliás, não é à toa que Fernando Meirelles e Walter Salles, que algumas semanas atrás lançou seu Na Estrada, são os cineastas brasileiros de maior projeção e, na minha modesta opinião, nosssos melhores no ofício. Ambos têm uma OBRA; seus filmes são unidos por marcas autorais (não confundir com clichês).

Salles faz filmes mais íntimos, mais centrados em um personagem, e focados na busca empreendida por esse personagem, geralmente uma jornada física e espiritual. São road movies sobre identidade. Meirelles quer sempre espelhar o tempo em que vivemos, refletir sobre os males contemporâneos, e para isso abre mais seu foco, fragmenta a ação em núcleos de personagens, cria seu microcosmo. São mosaicos sobre o mundo.

Reflexões sobre o 40º Festival de Gramado

20 de agosto de 2012 4

Este artigo abaixo é a versão ampliada e reunida, como fora pensada originalmente, dos dois textos que saíram na página central do Segundo Caderno de ZH desta segunda-feira. Bem ampliada, como você pode ler a seguir. Na sequência, a lista completa dos premiados ganha rápidos comentários, algo que não saiu nem no jornal, nem no seu site.

Produzida em pouco tempo e com um grande corte de recursos, a festiva 40ª edição de Gramado ficará marcada por duas voltas por cima: a do próprio festival, que ainda pena para pagar dívidas de 2011, e a da mostra competitiva de longas nacionais, que pela primeira vez em muitos anos foi melhor do que a dos filmes latino-americanos.

Será lembrada também pela primeira exibição no Brasil de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho (o grande filme do evento), pela inconsistência de todas as produções vindas de fora do país (à exceção de Artigas, La Redota) e, também, por uma mudança no foco das atenções: com poucas celebridades na cidade, em Gramado 2012 falou-se mais de cinema do que dos desfiles sobre o tapete vermelho.

Com um misto de satisfação e alívio, os organizadores circulavam entre o Palácio dos Festivais e o QG do evento comemorando a perspectiva de continuidade de seu projeto – que foi implantado às pressas, pouco mais de três meses antes de seu início, quando uma intervenção federal bloqueou as suas contas a fim de regularizar as dívidas da 39ª edição. Ainda que dependa do resultado das eleições municipais para seguir tocando o festival (a coordenadora-geral Rosa Helena Volk acumula o cargo de secretária da Cultura de Gramado), a equipe já se permite planejar a 41ª edição.

“Temos contratos fechados para dois anos. Quem estiver à frente do festival no ano que vem terá tempo e tranquilidade para trabalhar e não precisará sair do zero em janeiro”, disse Rosa Helena, horas antes da cerimônia de entrega dos Kikitos.

Algo a ser discutido pelos organizadores em 2013, e que é fundamental para definir o perfil de Gramado, é a presença de artistas de televisão na Serra. A escassez desta edição se deveu principalmente ao aperto financeiro, mas nem por isso diminuiu o festival. O que é preciso saber é se o exemplo será seguido daqui por diante, se os organizadores estarão dispostos a investir dinheiro público (via leis de renúncia fiscal) em passagens, hospedagem e mordomias a celebridades de pouca ou nenhuma relação com o cinema ou, ainda, se investirão em parcerias com patrocinadores específicos para trazê-los, algo já realizado nas últimas temporadas.

A questão, vital em se tratando de Gramado, só poderá ser respondida quando a nova coordenação tomar a frente do evento. O que pode ser repensado desde já são alguns de seus aspectos curatoriais. Funcionou, por exemplo, o perfil de valorização de uma certa produção independente nacional, com realizadores já conhecidos mas que ainda estão no primeiro ou no segundo longa, como Rubens Rewald (de Super Nada), Matheus Souza (Eu Não Faço a Menor Ideia do que Tô Fazendo da Minha Vida) e Caetano Gotardo (O que se Move), além de Kleber Mendonça Filho (do já citado O Som ao Redor).

É preciso lembrar, aqui, que a divisão da mostra competitiva de longas-metragens em dois braços, um brasileiro e outro latino-americano, foi adotada devido à fragilidade dos títulos nacionais – premiar mais filmes estrangeiros ajudou a levar Gramado, por tantos anos um espelho confiável do bom cinema brasileiro, à sua propalada crise de identidade. Já que o festival parece ter reencontrado o caminho em seu braço doméstico, talvez seja a hora de se pensar em uma reunificação, o que diminuiria a quantidade de prêmios distribuídos (são mais de 30), aumentando o valor de cada Kikito oferecido.

No palco do Palácio dos Festivais, o apresentador Leonardo Machado anunciou a cerimônia de sábado como “a grande noite do cinema brasileiro e latino”. A frase só se tornará uma verdade se Gramado trabalhar no fortalecimento, também, de seu braço internacional. Enquanto os novos longas do mexicano Carlos Reygadas e do uruguaio Pablo Stoll emendam festivais internacionais desde sua première em Cannes, enquanto o Fantaspoa exibe em primeira mão o representante argentino na corrida do Oscar (Aballay, de Fernando Spiner), enquanto o novo Carlos Sorín dá sopa por aí, Gramado apresentou apenas cinco filmes latino-americanos, entre eles os precários Diez Veces Venceremos, vindo da Argentina, e Calafate, Zoológicos Humanos, do Chile. Este é um real desafio do festival serrano: tornar homogêneo, em sua proposta estética e no seu nível de qualidade, o recorte de longas-metragens exibidos.

O júri popular também demonstra ter perdido o sentido em sua fórmula atual – ele é constituído de cinéfilos escolhidos pelos críticos dos principais jornais do país, e não simplesmente pela plateia que assiste às sessões no Palácio dos Festivais. Mais uma vez, a decisão do júri popular de Gramado coincidiu com a do júri da crítica – os dois deram seu prêmio principal a O Som ao Redor. A escolha de ambos se mostrou mais ousada do que a do júri oficial – que preferiu Colegas. Levando-se em conta os princípios de cada categoria, trata-se de uma distorção.

É verdade que esta distorção também se deveu ao perfil do júri oficial, que não continha nenhum crítico em sua formação e acabou se deixando levar pela comoção causada por Colegas. O longa de Kleber Mendonça Filho é muito superior em sua construção narrativa e seu retrato impecável da vida da classe média nas grandes cidades pautada pela insegurança, pela grosseira desigualdade social e pela herança coronelista brasileira. Mesmo o drama cômico nonsense Super Nada e o belo e triste musical O que se Move poderiam ter superado Colegas: são dois filmes muitíssimo interessantes que levaram a mostra nacional de longas-metragens para um nível alto e em sintonia com a melhor produção brasileira contemporânea.

O que mais se discutiu nos bastidores de Gramado 2012 foi a anunciada – e não concretizada – premiação em dinheiro aos vencedores. É fato que oferecer uma bolada ajuda a motivar cineastas e produtores a inscreverem seus filmes. Mas há outros aspectos a serem repensados. De pé depois de uma nova queda, um dos mais tradicionais festivais do continente parece pronto repensá-los.

Longas-metragens brasileiros

Conservador, o júri oficial errou ao não reconhecer O Som ao Redor como melhor filme. Também poderia, em vez de ter escolhido Fernanda Vianna, ter dividido o prêmio de melhor atriz entre as três atrizes-cantoras de O que se Move (as outras duas são Cida Moreira e Andrea Marquee). Além de O que se Move, Super Nada também merecia mais. E Jorge Mautner: o Filho do Holocasto, não merecia tanto, sobretudo o prêmio de melhor roteiro. Os premiados:

Melhor filme: Colegas, de Marcelo Galvão
Melhor direção: Kleber Mendonça Filho, por O Som ao Redor
Melhor ator: Marat Descartes, por Super Nada, de Rubens Rewald
Melhor atriz: Fernanda Vianna, por O que se Move, de Caetano Gotardo
Prêmio especial do júri: Ariel Goldenberg, Breno Viola e Rita Pokk, protagonistas de Colegas
Prêmio da crítica: O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
Prêmio do júri popular: O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
Melhor roteiro: Jorge Mautner: O Filho do Holocausto, de Heitor D’Alincourt e Pedro Bial
Melhor fotografia: Jorge Mautner: O Filho do Holocausto
Melhor montagem: Jorge Mautner: O Filho do Holocausto
Melhor direção de arte: Colegas
Melhor som: O Som ao Redor
Melhor trilha sonora: Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!, de Ninho Moraes e Francisco César Filho

Longas-metragens latino-americanos

Artigas, La Redota, de Cesar Charlone, só perdeu os dois Kikitos que poderia perder. É um dos grandes registros audiovisuais do mito do gaúcho e foi disparadamente o melhor filme da mostra latina, até porque os demais decepcionaram – muito embora a fotografia de Leontina e o roteiro de Vinci tenham constituído premiações justas de parte do júri. A lista:

Melhor filme: Artigas, La Redota, de Cesar Charlone (Uruguai)
Melhor direção: Cesar Charlone, por Artigas, La Redota
Melhor ator: Jorge Esmoris, por Artigas, La Redota
Melhor atriz: não foi entregue pelo júri
Prêmio da crítica: Artigas, La Redota
Prêmio do júri popular: Artigas, La Redota
Melhor roteiro: Vinci, de Eduardo del Llano Rodríguez (Cuba)
Melhor fotografia: Leontina, de Boris Peters (Chile)
Menções honrosas: direção de arte e trilha sonora de Artigas, La Redota e trilha sonora de Vinci

Curtas-metragens

Foi uma das melhores mostras de curtas de Gramado em muitos anos. O baiano O Menino do Cinco, com seu retrato sensível do conflito de classes nas grandes cidades a partir da disputa de um menino de rua com outro da classe média pela posse de um cãozinho, era, de fato, o grande filme desta mostra. Mas Di Mello, o Imorrível, merecia mais lembranças. Os prêmios técnicos para o gaúcho Casa Afogada foram todos muito bem concedidos, e só fazem pensar que as produções locais poderiam ter sido mais lembradas na seleção, com curtas como Garry, de Richard Tavares e Bruno Carboni. Acompanhe a listagem completa dos vencedores:

Melhor filme: O Menino do Cinco, de Marcelo de Oliveira e Wallace Nogueira (BA)
Melhor direção: Gilson Vargas, de Casa Afogada (RS)
Melhor ator: Thomas Oliveira e Emanuel de Sena, de O Menino do Cinco (BA)
Melhor atriz: Sabrina Greve, de O Duplo (SP)
Prêmio especial do júri: A Mão que Afaga (SP)
Prêmio da crítica: O Menino do Cinco (BA)
Prêmio do júri popular: O Menino do Cinco (BA)
Melhor roteiro: O Menino do Cinco (BA)
Melhor fotografia: Casa Afogada (RS)
Melhor montagem: Di Mello, o Imorrível (SP)
Melhor direção de arte: Casa Afogada (RS)
Melhor som: Casa Afogada (RS)
Melhor trilha sonora: Funeral à Cigana (SP)
Prêmio Aquisição Canal Brasil: O Menino do Cinco (BA)