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Posts na categoria "cinema nacional"

Bons filmes, grandes mulheres

15 de abril de 2013 1

Rânia quer se libertar, Verônica precisa descobrir a liberdade. Silmara se frustra, Bianca não desiste, Violeta terá de se reerguer. São cinco mulheres extraordinárias, cujas jornadas representam uma das facetas mais ricas do cinema brasileiro atual: a capacidade de desenvolver bons personagens femininos.

Respectivamente, essas personagens podem ser vistas em Rânia, Era uma Vez Eu, Verônica, Falsa Loura, Riscado e O Abismo Prateado. Vêm de regiões, castas e gerações diferentes, dando forma a um panorama irregular e um tanto impreciso, mas muito consistente, da pluralidade social contemporânea verificada no país. Como se a união de todas elas, e das outras citadas no quadro abaixo, desse a medida de um certo estado de coisas, não do ponto de vista macro, mas íntimo, mesmo. Não é nada muito diferente disso que se espera de uma produção dramatúrgica consistente e reveladora.

Você pode até se dizer surpreendido, sobretudo se ainda não descobriu as boas surpresas do novíssimo cinema nacional, mas os adjetivos da frase que encerra o parágrafo anterior foram escolhidos com cuidado. Observe que não citei nenhuma personagem adaptada de matrizes literárias, nem mesmo representativa de alguma personalidade real. Se o fizesse, poderia mencionar a inventiva Cleópatra tropical do diretor Júlio Bressane (de 2008), o alter ego de Clarah Averbuck visto em Nome Próprio (2008), de Murilo Salles, a Zuzu Angel (2006) de Sérgio Resende e a Bruna Surfistinha (2011) de Marcus Baldini. Poderia, ainda, lembrar as grandes mulheres que inspiraram os documentários Elena (2012), de Petra Costa, e Laura (2012), de Felipe Barbosa, previstos para estrear nos próximos meses nos cinemas. E também fazer referência às complexas e sedutoras personagens femininas de Natimorto (2009) e Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (2011), se quisesse incluir títulos que não são necessariamente calcados nelas, e sim em histórias que acabam envolvendo-as – o que caracteriza uma diferença marcante dos 10 filmes da lista abaixo, todos formatados essencialmente sobre a intimidade de uma ou mais mulheres.

Isso: fiquemos com os longas que moldam sua dramaturgia a partir de mulheres ficcionais e originais. Por que eles existem? O que seus autores pretendem? O que faz esses projetos coexistirem em quantidade e qualidade significativas?

Para responder a essas perguntas seria necessário conhecer bem os propósitos estéticos de seus realizadores, o que nem sempre é possível, dado que uma das principais características do assim chamado novíssimo cinema nacional é a pouca, às vezes nenhuma experiência dos cineastas. Karim Aïnouz, diretor de um dos filmes basilares dos propósitos desse movimento (O Céu de Suely), fala reiteradamente sobre o desamor. Marcelo Gomes, outro dos mais experientes entre esses autores nem sempre jovens, mas de carreira invariavelmente incipiente, tem a solidão como tema recorrente. Donde se pode vislumbrar um certo gosto pela melancolia e pela desilusão – que, talvez não por coincidência, perpassam todos os 10 longas-metragens citados abaixo.

Não é de hoje que o cinema independente, marginal (o melhor cinema brasileiro), explora a sensação de deslocamento e inadequação. A tristeza, de maneira geral. Mas por que por meio das mulheres? A produção nacional do século 21 está cheia de personagens masculinos relevantes no mainstream, protagonizando os “filmes de favela”, a vertente cômica dessa produção e as incursões por gêneros como aventura e ação. Mas foi a partir das histórias essencialmente femininas que Eduardo Coutinho realizou Jogo de Cena (2007), o longa esteticamente mais revolucionário do país em décadas. E é a partir delas, mais do que deles, que se tem falado das grandes questões do país.

Talvez Rânia, Verônica, Silmara, Bianca, Violeta e tantas outras sejam reflexo de uma sociedade na qual a figura paterna, em tantos casos, se faz cada vez menos presente. Uma sociedade na qual as mães, cada vez mais, tornam-se a principal referência, não raramente a única acessível, para fatias bastante significativas da população. É uma hipótese. Talvez coincidência. O fato é que, no cinema nacional, a hora é delas.

10 filmes nacionais recentes centrados em personagens femininas:
(construídas em roteiros originais, e não a partir de matrizes literárias ou representativas de pessoas reais)

> Rânia (2012) – De Roberta Marques. Com Graziela Félix. Longa cearense premiado no Festival do Rio e selecionado para Roterdã, narra a história de uma adolescente da periferia que descobre a vocação de bailarina. Está em cartaz no CineBancários, em Porto Alegre.

> O Que se Move (2012) – De Caetano Gotardo. Com Cida Moreira, Andrea Marquee e Fernanda Vianna. Drama musical composto de três episódios sobre as dores e as alegrias de três mães. Premiado em Gramado, começa a chegar aos cinemas brasileiros a partir de 17 de maio.

> O Abismo Prateado (2011) – De Karim Aïnouz. Com Alessandra Negrini. Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, estreia nacionalmente neste dia 26 (em Porto Alegre deve demorar um pouco mais). Inspirado na canção Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, acompanha as horas de desespero de uma dentista carioca depois que ela é abandonada pelo marido.

> Era uma Vez Eu, Verônica (2011) – De Marcelo Gomes. Com Hermila Guedes. Médica recém-formada, a jovem protagonista passa por um momento de incertezas – e amadurecimento. Premiado em Brasília, estreou comercialmente no país no ano passado – mas não chegou ao circuito porto-alegrense.

> Riscado (2011) – De Gustavo Pizzi. Com Karine Teles. A vida nada fácil de uma atriz em início de carreira, que precisa se virar para sobreviver, é o ponto de partida deste longa premiado no Festival de Gramado e escrito em parceria pelo seu diretor e a protagonista. Já foi exibido nos cinemas.

> Sudoeste (2011) – De Eduardo Nunes. Com Simone Spoladore. Fábula de narrativa circular na qual uma mulher vê sua vida se desenrolar ao longo de apenas um dia num vilarejo de pescadores. Premiado nos festivais do Rio e de Havana. Também já teve sessões em Porto Alegre.

> Verônica (2008) – De Maurício Farias. Com Andréa Beltrão. Professora de escola pública do Rio tenta salvar um garoto que acaba de ficar órfão e está jurado de morte por traficantes da favela em que ele vive. Já está disponível em DVD.

> Falsa Loura (2008) – De Carlos Reichenbach. Com Rosanne Mulholland. Também já lançado nos cinemas e em DVD, foi o último – e é um dos melhores – longas de Reichenbach (1945 – 2012). Narra a história de uma operária do ABC Paulista que sustenta o pai e ama os cantores populares.

> A Casa de Alice (2007) – De Chico Teixeira. Com Carla Ribas. Manicure na faixa dos 40 anos está com a vida estagnada na periferia de São Paulo. No filme, disponível em DVD, ela tenta levar o dia a dia enfrentando diversos problemas de relacionamento com o marido e os filhos.

> O Céu de Suely (2006) – De Karim Aïnouz. Com Hermila Guedes. Garota grávida volta da capital paulista à sua cidade natal, no interior do Ceará, e fica aguardando, numa espera que se revelará infrutífera e terá consequências em sua vida, o namorado, pai de sua criança. Foi exibido no circuito e está disponível em DVD, para venda e locação.

O humor do Prata e a resistência cinéfila

23 de outubro de 2012 1

A histórica Cinemateca Uruguaia, de muitas lembranças para gerações mais antigas de cinéfilos gaúchos, ganhou um pequeno grande filme em sua homenagem. Dirigido por Federico Veiroj (corroteirista de 25 Watts e Whisky, ambos de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll) e protagonizado por Jorge Jellinek (crítico de Montevidéu) e Manuel Martínez Carril (ex- diretor da Cinemateca), A Vida Útil estreia nesta terça-feira no CineBancários.

É a primeira produção de fora do Brasil a chegar à Capital trazida pela distribuidora Vitrine Filmes, que tem oxigenado o circuito alternativo com os bons longas da nova geração brasileira. E é, em essência, um teste à emoção dos amantes do cinema – impossível não ficar comovido depois dos 66 minutos de projeção, tamanha afetividade com que a pacata rotina da instituição é recriada pelo jovem (de 35 anos) Veiroj.

Carril, figura carimbada do Festival de Gramado, interpreta a si próprio. Jellinek encarna o personagem principal, um funcionário da Cinemateca que passa os dias entre o trabalho burocrático em sua sede e a apresentação do programa de rádio usado para divulgar a sua programação.

Logo o espectador é levado a notar, por meio do esvaziamento das atividades da instituição e da melancolia do cotidiano retratado, a decadência do lugar. Parece que ainda estamos na década de 1950, impressão reforçada por opções estéticas que remetem a filmes daquele tempo, a exemplo da trilha sonora e da fotografia em preto e branco.

A situação reflete a crise da cinefilia contemporânea, em que as salas do chamado circuito alternativo, ou de arte, lutam para manter suas portas abertas e atrair a atenção do público. Mas A Vida Útil só é bem-sucedido (e muito!) por conta da maneira com que vislumbra esta crise: o grande lance do projeto é o humor contido em seu olhar, humor este que, muito longe do deboche, apresenta- se como uma forma distanciada e, por isso, madura de auto-observação. É mais ou menos o tipo de autoironia visto não apenas em Whisky ( 2004), mas em alguma parte dos títulos argentinos que cativaram tantos espectadores brasileiros nos últimos anos. Um tipo de ironia do qual o cinema nacional raramente faz uso, até porque ele tem mais a ver com a identidade dos países do Prata do que com a do Brasil.

A Vida Útil fica em cartaz em três sessões diárias pelo menos até 8 de novembro. Para os cinéfilos, é imperdível.

Histórica e resistente Cinemateca
Fundada em 1952, em Montevidéu, a Cinemateca Uruguaia foi o oásis dos cinéfilos gaúchos que lá conseguiam ver filmes proibidos ou mutilados pela censura no Brasil nos anos 1970. Seu precioso acervo conta com cerca de 12 mil títulos. A instituição atua na área de preservação, formação (mantém uma escola de cinema) e difusão (opera quatro salas de exibição). Organiza ainda um festival internacional que, em 2013, realizará sua 31ª edição.

E a Febre do Rato, hein?

03 de setembro de 2012 4

É curiosíssima a trajetória de A Febre do Rato em Porto Alegre. O terceiro longa de Cláudio Assis teve sessões de pré-estreia em quatro fins de semana entre julho e agosto – quando aliás publicamos em ZH o texto abaixo. Sumiu assim que o Unibanco Arteplex fechou para reformas e só voltou agora, com a reabertura do mesmo complexo, com o nome Espaço Itaú de Cinema. Sua estreia na cidade, no fim de semana que passou, deu-se apenas no próprio Espaço Itaú. O resultado que o filme poderá obter, após esta verdadeira lambança que foi o seu lançamento por aqui? É difícil prever, mas não será fácil que ele encontre o seu público desta maneira. Dê uma olhada no texto de apresentação e comentário dele e não deixe de ir ao cinema, porque, como digo a seguir, seus defeitos não diminuem o fato de que se trata de uma das melhores novidades da produção nacional recente.

O diretor pernambucano Cláudio Assis costuma causar ainda mais escândalo do que os filmes que assina – o irregular Amarelo Manga (2002), o ótimo Baixio das Bestas (2006) e, agora, este A Febre do Rato. Faz parte da proposta: cineasta doidão provoca a tudo e a todos com postura radical transformada em longas que buscam a poesia na violência verbal e no choque visual. Às vezes dá certo. Às vezes, nem tanto. Em um mesmo longa, inclusive.

É o caso de A Febre do Rato, grande vencedor do Festival de Paulínia do ano passado, ocasião em que superou, entre outros concorrentes, O Palhaço, de Selton Mello. No filme, o sempre ótimo Irandhir Santos (o deputado/antagonista de Tropa de Elite 2 e o narrador-protagonista de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo) interpreta um poeta popular anacrônico, militante do anarquismo e editor de fanzine que sai pelas ruas do Recife gritando seus textos com um megafone enquanto dirige um carro velho. Zizo é o seu nome.“Febre do rato”, gíria local recifense para indicar “fora de controle”, é como ele batizou o zine.

Zizo prega a libertinagem. Seus poemas, no entanto, têm uma notável doçura – eles revelam o talento superlativo do roteirista Hilton Lacerda, autor de todos os versos recitados. Não é uma contradição: Zizo é um romântico libertário, que defende – e pratica – o sexo livre, sem que isso o impeça de se apaixonar intensamente e tentar, de todas as maneiras, conquistar a estudante Eneida (Nanda Costa). O relacionamento ideal, ele diz na trama, é aquele que um amigo sensível (Matheus Nachtergaele) mantém com a transexual de tratamento mais rude a quem chama de “macho da minha vida” (Tânia Granussi).

A dicotomia regramento versus subversão está na essência de A Febre do Rato, à medida que o filme narra uma clássica história de amor não realizado (Eneida o admira, mas não cai na lábia do poeta), tão tradicional que é quase careta, mas que se apresenta ao espectador por meio de um discurso completamente desprovido de moral. A bela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho espelha o visual do fanzine revelando Recife às avessas, bem diferente da cidade dos cartões-postais coloridos, bem parecida com o centro urbano pulsante visto nos Super-8 sujos de Paulo Bruscky e no folk rock poético de Chico Science.

Há momentos de pura inspiração mais intimistas, como o da conversa de Zizo e Eneida no barco, e verdadeiramente espetaculares, como aquele em que o poeta dá um discurso inflamado conclamando seus seguidores a tirarem a roupa no meio da rua – uma das sequências mais impressionantes do cinema brasileiro recente. Há, em contrapartida, um certo maneirismo visto em alguns movimentos e angulações de câmera e na própria criação de situações exageradas, que pouco acrescentam à construção dramática ou narrativa.

Se antes Cláudio Assis já dava a impressão de forçar a mão para aumentar o impacto daquilo que apresenta, aqui, em determinados momentos, soa repetitivo. Provoca, consequentemente, a sensação de déjà vu, quando não de ter criado algo de certo modo fake. Para um filme sanguíneo, enérgico, que aposta no risco – situação por princípio interessante –, não se trata de algo definitivamente comprometedor. Com seus defeitos, A Febre do Rato é uma das melhores novidades da temporada no cinema nacional.

Mosaicos sobre o mundo

22 de agosto de 2012 1

Pitaco do chapa Ticiano Osório sobre 360, de Fernando Meirelles:

Fui ver o 360, do Fernando Meirelles. Achei muito mais cativante, inteligente e emocionante do que sugerem muitas críticas americanas. Na ciranda amorosa, embalada por uma trilha sonora muito legal e plural, há pelo menos uma história originalíssima, a que envolve o personagem interpretado por Ben Foster (foto acima), uma espécie de Ryan Gosling menos favorecido pela genética. Não vou contar aqui para não tirar o impacto.

Mas o mais bacana de 360 é ver como o filme fecha, é coerente com a carreira do Meirelles. Aliás, não é à toa que Fernando Meirelles e Walter Salles, que algumas semanas atrás lançou seu Na Estrada, são os cineastas brasileiros de maior projeção e, na minha modesta opinião, nosssos melhores no ofício. Ambos têm uma OBRA; seus filmes são unidos por marcas autorais (não confundir com clichês).

Salles faz filmes mais íntimos, mais centrados em um personagem, e focados na busca empreendida por esse personagem, geralmente uma jornada física e espiritual. São road movies sobre identidade. Meirelles quer sempre espelhar o tempo em que vivemos, refletir sobre os males contemporâneos, e para isso abre mais seu foco, fragmenta a ação em núcleos de personagens, cria seu microcosmo. São mosaicos sobre o mundo.

Reflexões sobre o 40º Festival de Gramado

20 de agosto de 2012 4

Este artigo abaixo é a versão ampliada e reunida, como fora pensada originalmente, dos dois textos que saíram na página central do Segundo Caderno de ZH desta segunda-feira. Bem ampliada, como você pode ler a seguir. Na sequência, a lista completa dos premiados ganha rápidos comentários, algo que não saiu nem no jornal, nem no seu site.

Produzida em pouco tempo e com um grande corte de recursos, a festiva 40ª edição de Gramado ficará marcada por duas voltas por cima: a do próprio festival, que ainda pena para pagar dívidas de 2011, e a da mostra competitiva de longas nacionais, que pela primeira vez em muitos anos foi melhor do que a dos filmes latino-americanos.

Será lembrada também pela primeira exibição no Brasil de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho (o grande filme do evento), pela inconsistência de todas as produções vindas de fora do país (à exceção de Artigas, La Redota) e, também, por uma mudança no foco das atenções: com poucas celebridades na cidade, em Gramado 2012 falou-se mais de cinema do que dos desfiles sobre o tapete vermelho.

Com um misto de satisfação e alívio, os organizadores circulavam entre o Palácio dos Festivais e o QG do evento comemorando a perspectiva de continuidade de seu projeto – que foi implantado às pressas, pouco mais de três meses antes de seu início, quando uma intervenção federal bloqueou as suas contas a fim de regularizar as dívidas da 39ª edição. Ainda que dependa do resultado das eleições municipais para seguir tocando o festival (a coordenadora-geral Rosa Helena Volk acumula o cargo de secretária da Cultura de Gramado), a equipe já se permite planejar a 41ª edição.

"Temos contratos fechados para dois anos. Quem estiver à frente do festival no ano que vem terá tempo e tranquilidade para trabalhar e não precisará sair do zero em janeiro", disse Rosa Helena, horas antes da cerimônia de entrega dos Kikitos.

Algo a ser discutido pelos organizadores em 2013, e que é fundamental para definir o perfil de Gramado, é a presença de artistas de televisão na Serra. A escassez desta edição se deveu principalmente ao aperto financeiro, mas nem por isso diminuiu o festival. O que é preciso saber é se o exemplo será seguido daqui por diante, se os organizadores estarão dispostos a investir dinheiro público (via leis de renúncia fiscal) em passagens, hospedagem e mordomias a celebridades de pouca ou nenhuma relação com o cinema ou, ainda, se investirão em parcerias com patrocinadores específicos para trazê-los, algo já realizado nas últimas temporadas.

A questão, vital em se tratando de Gramado, só poderá ser respondida quando a nova coordenação tomar a frente do evento. O que pode ser repensado desde já são alguns de seus aspectos curatoriais. Funcionou, por exemplo, o perfil de valorização de uma certa produção independente nacional, com realizadores já conhecidos mas que ainda estão no primeiro ou no segundo longa, como Rubens Rewald (de Super Nada), Matheus Souza (Eu Não Faço a Menor Ideia do que Tô Fazendo da Minha Vida) e Caetano Gotardo (O que se Move), além de Kleber Mendonça Filho (do já citado O Som ao Redor).

É preciso lembrar, aqui, que a divisão da mostra competitiva de longas-metragens em dois braços, um brasileiro e outro latino-americano, foi adotada devido à fragilidade dos títulos nacionais – premiar mais filmes estrangeiros ajudou a levar Gramado, por tantos anos um espelho confiável do bom cinema brasileiro, à sua propalada crise de identidade. Já que o festival parece ter reencontrado o caminho em seu braço doméstico, talvez seja a hora de se pensar em uma reunificação, o que diminuiria a quantidade de prêmios distribuídos (são mais de 30), aumentando o valor de cada Kikito oferecido.

No palco do Palácio dos Festivais, o apresentador Leonardo Machado anunciou a cerimônia de sábado como "a grande noite do cinema brasileiro e latino". A frase só se tornará uma verdade se Gramado trabalhar no fortalecimento, também, de seu braço internacional. Enquanto os novos longas do mexicano Carlos Reygadas e do uruguaio Pablo Stoll emendam festivais internacionais desde sua première em Cannes, enquanto o Fantaspoa exibe em primeira mão o representante argentino na corrida do Oscar (Aballay, de Fernando Spiner), enquanto o novo Carlos Sorín dá sopa por aí, Gramado apresentou apenas cinco filmes latino-americanos, entre eles os precários Diez Veces Venceremos, vindo da Argentina, e Calafate, Zoológicos Humanos, do Chile. Este é um real desafio do festival serrano: tornar homogêneo, em sua proposta estética e no seu nível de qualidade, o recorte de longas-metragens exibidos.

O júri popular também demonstra ter perdido o sentido em sua fórmula atual – ele é constituído de cinéfilos escolhidos pelos críticos dos principais jornais do país, e não simplesmente pela plateia que assiste às sessões no Palácio dos Festivais. Mais uma vez, a decisão do júri popular de Gramado coincidiu com a do júri da crítica – os dois deram seu prêmio principal a O Som ao Redor. A escolha de ambos se mostrou mais ousada do que a do júri oficial – que preferiu Colegas. Levando-se em conta os princípios de cada categoria, trata-se de uma distorção.

É verdade que esta distorção também se deveu ao perfil do júri oficial, que não continha nenhum crítico em sua formação e acabou se deixando levar pela comoção causada por Colegas. O longa de Kleber Mendonça Filho é muito superior em sua construção narrativa e seu retrato impecável da vida da classe média nas grandes cidades pautada pela insegurança, pela grosseira desigualdade social e pela herança coronelista brasileira. Mesmo o drama cômico nonsense Super Nada e o belo e triste musical O que se Move poderiam ter superado Colegas: são dois filmes muitíssimo interessantes que levaram a mostra nacional de longas-metragens para um nível alto e em sintonia com a melhor produção brasileira contemporânea.

O que mais se discutiu nos bastidores de Gramado 2012 foi a anunciada – e não concretizada – premiação em dinheiro aos vencedores. É fato que oferecer uma bolada ajuda a motivar cineastas e produtores a inscreverem seus filmes. Mas há outros aspectos a serem repensados. De pé depois de uma nova queda, um dos mais tradicionais festivais do continente parece pronto repensá-los.

Longas-metragens brasileiros

Conservador, o júri oficial errou ao não reconhecer O Som ao Redor como melhor filme. Também poderia, em vez de ter escolhido Fernanda Vianna, ter dividido o prêmio de melhor atriz entre as três atrizes-cantoras de O que se Move (as outras duas são Cida Moreira e Andrea Marquee). Além de O que se Move, Super Nada também merecia mais. E Jorge Mautner: o Filho do Holocasto, não merecia tanto, sobretudo o prêmio de melhor roteiro. Os premiados:

Melhor filme: Colegas, de Marcelo Galvão
Melhor direção: Kleber Mendonça Filho, por O Som ao Redor
Melhor ator: Marat Descartes, por Super Nada, de Rubens Rewald
Melhor atriz: Fernanda Vianna, por O que se Move, de Caetano Gotardo
Prêmio especial do júri: Ariel Goldenberg, Breno Viola e Rita Pokk, protagonistas de Colegas
Prêmio da crítica: O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
Prêmio do júri popular: O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
Melhor roteiro: Jorge Mautner: O Filho do Holocausto, de Heitor D'Alincourt e Pedro Bial
Melhor fotografia: Jorge Mautner: O Filho do Holocausto
Melhor montagem: Jorge Mautner: O Filho do Holocausto
Melhor direção de arte: Colegas
Melhor som: O Som ao Redor
Melhor trilha sonora: Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!, de Ninho Moraes e Francisco César Filho

Longas-metragens latino-americanos

Artigas, La Redota, de Cesar Charlone, só perdeu os dois Kikitos que poderia perder. É um dos grandes registros audiovisuais do mito do gaúcho e foi disparadamente o melhor filme da mostra latina, até porque os demais decepcionaram – muito embora a fotografia de Leontina e o roteiro de Vinci tenham constituído premiações justas de parte do júri. A lista:

Melhor filme: Artigas, La Redota, de Cesar Charlone (Uruguai)
Melhor direção: Cesar Charlone, por Artigas, La Redota
Melhor ator: Jorge Esmoris, por Artigas, La Redota
Melhor atriz: não foi entregue pelo júri
Prêmio da crítica: Artigas, La Redota
Prêmio do júri popular: Artigas, La Redota
Melhor roteiro: Vinci, de Eduardo del Llano Rodríguez (Cuba)
Melhor fotografia: Leontina, de Boris Peters (Chile)
Menções honrosas: direção de arte e trilha sonora de Artigas, La Redota e trilha sonora de Vinci

Curtas-metragens

Foi uma das melhores mostras de curtas de Gramado em muitos anos. O baiano O Menino do Cinco, com seu retrato sensível do conflito de classes nas grandes cidades a partir da disputa de um menino de rua com outro da classe média pela posse de um cãozinho, era, de fato, o grande filme desta mostra. Mas Di Mello, o Imorrível, merecia mais lembranças. Os prêmios técnicos para o gaúcho Casa Afogada foram todos muito bem concedidos, e só fazem pensar que as produções locais poderiam ter sido mais lembradas na seleção, com curtas como Garry, de Richard Tavares e Bruno Carboni. Acompanhe a listagem completa dos vencedores:

Melhor filme: O Menino do Cinco, de Marcelo de Oliveira e Wallace Nogueira (BA)
Melhor direção: Gilson Vargas, de Casa Afogada (RS)
Melhor ator: Thomas Oliveira e Emanuel de Sena, de O Menino do Cinco (BA)
Melhor atriz: Sabrina Greve, de O Duplo (SP)
Prêmio especial do júri: A Mão que Afaga (SP)
Prêmio da crítica: O Menino do Cinco (BA)
Prêmio do júri popular: O Menino do Cinco (BA)
Melhor roteiro: O Menino do Cinco (BA)
Melhor fotografia: Casa Afogada (RS)
Melhor montagem: Di Mello, o Imorrível (SP)
Melhor direção de arte: Casa Afogada (RS)
Melhor som: Casa Afogada (RS)
Melhor trilha sonora: Funeral à Cigana (SP)
Prêmio Aquisição Canal Brasil: O Menino do Cinco (BA)

Carlão, Fausto e o paraíso imaginário

27 de junho de 2012 0

Carlos Reichenbach, morto há poucos dias aos 67 anos, será homenageado nesta sexta-feira com uma edição especial do projeto Raros da Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. A sessão, gratuita e com início marcado para as 20h30min, é uma oportunidade que o público da cidade tem para ver no cinema Filme Demência (1986), que o próprio Carlão considerava o seu melhor longa.

A homenagem é especial porque o cineasta era um admirador da proposta do Raros, que foi criado em maio de 2003 e lhe inspirou a realizar as populares Sessões do Comodoro no Cinesesc de São Paulo. Carlão era um colaborador do Raros, contribuindo com o envio de vários filmes, avisa o pessoal da P.F. Gastal. Foi o convidado da edição número cem do projeto, realizada há exatos cinco anos, em 22 de junho de 2007. Na ocasião, participou de uma sessão histórica, exibindo a versão recém-restaurada de seu clássico Lilian M – Relatório Confidencial (1975).

A trama de Filme Demência, escrita em conjunto com o crítico de cinema Inácio Araújo, acompanha a trajetória de Fausto, um industrial à beira da falência que num momento de crise rompe seus  laços familiares e, munido de uma arma, mergulha na noite de São Paulo em busca de um paraíso imaginário. Trata-se de uma livre adaptação do Fausto de Goethe, transposto para a realidade brasileira. Os comentários serão do jornalista Carlos Thomaz Albornoz e do montador e professor de cinema Milton do Prado, dois amigos e admiradores de Reichenbach em Porto Alegre (Albornoz chegou a atuar em Bens Confiscados, que Carlão rodou no litoral gaúcho e lançou em 2004).

Ainda homenagens: a Abraccine, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, publicou um dossiê com diversos textos sobre o Comodoro, entre os quais uma entrevista que fiz com o mestre em 2001, quando ele foi homenageado no Festival de Gramado. Vá ao blog/site da entidade, clicando aqui, e desça até a Parte I para ler. E leia também o Adeus ao Comodoro publicado em ZH um dia após a sua morte. Viva Carlão!

Vou filmando até morrer

14 de junho de 2012 4

Nesta quinta-feira o cinema brasileiro perdeu Carlos Reichenbach, diretor de alguns filmes muito bons (Anjos do Arrabalde, Alma Corsária, Lilian M: Relatório Confidencial, Falsa Loura Filme Demência), mestre de gerações inteiras de eternos aprendizes da linguagem e verdadeira enciclopédia do cinema e da música popular. Quem cruzou com Carlão, mesmo que por poucos instantes, como é o caso deste fã inveterado, inevitavelmente se deixou contaminar pela paixão com que ele se expressava ao falar de Samuel Fuller, Luís Sérgio Person e tantos outros que o inspiraram, ou piraram, para usar um termo adequado ao efeito que os bons filmes produziam sobre ele.

Não só os bons filmes. Carlão era um apaixonado pela expressão artística mais genuína, aquela que permitia ao espectador enxergar a alma do artista. Tolerava defeitos desde que os propósitos de seu autor fizessem valer a pena e, quando via talento combinado com honestidade intelectual, apaixonava-se com uma convicção absolutamente incomum. Um dos momentos mais marcantes das três entrevistas que fiz com ele foi quando contou como admirava as escolhas de sua mulher, Lygia: "Fiz Anjos do Arrabalde (sobre o universo das professoras de escolas públicas) em homenagem a ela e ao que relatou de suas experiências (como dentista) em projetos sociais numa escola da periferia", disse, numa das três ocasiões.

Filme Demência, que afirmou ser seu preferido e sua obra mais pessoal, ele assinou pensando num acerto de contas com o pai, morto quando tinha 13 anos. Para a mãe tinha a intenção de dedicar Um Anjo Desarticulado, projeto que nunca pôde concluir e que definiu assim no blog Olhos Livres, no ano passado: "(O filme) Não me deixa mais dormir direito, nem morrer. Vai contar um pouco a história da vida da minha mãe da Estônia ao Brasil, na década de 1920, e ilustrar uma fantasia pessoal, emocional e afetiva a respeito de Lenin". Ao ser homenageado no Festival de Brasília, em 2010, Carlão disse a frase que está no título deste post, com o seguinte complemento: "Filmando até morrer – seria a morte ideal, né?".

"Foi uma das pessoas mais bonitas que conheci", definiu o crítico José Geraldo Couto, numa das primeiras manifestações a circularem após a notícia de sua morte. Fácil de entender.

(Atualização do dia seguinte: clique aqui para ler Adeus ao Comodoro, o material que sai no jornal impresso deste sábado)


Carlão dirigindo Sandra Bréa em Sede de Amar

Os 30 anos de Palma de Ouro

28 de maio de 2012 0

Encerrado mais um Festival de Cannes, o feito de O Pagador de Promessa segue inigualado. O filme de Anselmo Duarte  (1920 – 2009) é detentor da única Palma de Ouro conquistada pelo cinema nacional, há 50 anos. A data foi devidamente celebrada por ZH no dia 23 passado, na matéria em que entrevistamos Leonardo Villar e Glória Menezes, protagonistas do longa (você pode conferir  clicando aqui).

Logo depois, nosso querido amigo Goida ligou para dar o toque. Em 1992, na ocasião dos 30 anos da Palma de Ouro, foi realizada uma homenagem a O Pagador de Promessas no Festival de Gramado. Em agosto daquele ano, o filme foi escolhido para a abrir a 20ª edição do evento, com presença de Anselmo, Glória, Leonardo, Norma Bengell e Dionísio Azevedo, também integrantes do elenco, e do produtor Oswaldo Massaini (todos ele na foto acima).

Crítico de cinema e um dos principais articuladores e incentivadores do Festival de Gramado, Goida lembra que não foi nada fácil convencer Anselmo a vir receber a homenagem, pois o diretor, então com 72 anos,  não gostava muito de sair de casa.

Pesquisando em nosso arquivo, achamos algumas fotos e a cobertura da noite especial, que se deu em um momento nefasto para o cinema brasileiro –, a produção havia sido paralisada com extinção da Embrafilme pelo governo Collor, que naquele momento agonizava em meio à crise que culminaria no processso de impeachment (a programação de Gramado em 1992 foi majoritariamente de filmes latinos).

Antes da projeção, seguida por aplausos em pé da plateia, Anselmo disse:

- Estou satisfeito em ver que o Brasil não é um país desmemoriado, têm a lembrança do que ocorreu há 30 anos. Espero que esse reconhecimento possa servir de incentivo aos jovens que estão fazendo cinema nesse país.

Anselmo também comentou à situação caótica do cinema nacional à epoca, destacando como agravante o fechamento de salas de exibição e culpando exibidorer e negociantes. E garantiu que não iria mais filmar, apesar de haver recebido uma proposta do Governo Federal para voltar à ativa.

– A saída seria eu trocar de nome e ir filmar no Exterior. Tudo o que fiz depois foi taxado de quadrado, acadêmico.  Não quero mais.

Envergonhemo-nos

21 de maio de 2012 9

É uma vergonha.

Tem a ver com o que diz o Perrone nos dois posts anteriores deste blog, tem a ver com decisões de distribuidores, atuação de críticos e postura de realizadores. Mas é, sobretudo, culpa dos espectadores.

De volta após quatro curtas semanas de férias, tomei pé de alguns números que só atestam a situação calamitosa do (bom) cinema nacional recente. Luz nas Trevas, retorno em excelente estilo do lendário Bandido da Luz Vermelha de Sganzerla. O Homem que Não Dormia, elogiado longa lyncheano de Edgard Navarro. Girimunho, linda combinação de autoficção, Guimarães Rosa e Apichatpong Weerasethakul. Uma Longa Viagem, o vencedor do Festival de Gramado que conta com o apelo da presença de Caio Blat. Nenhum deles superou, até aqui, atenção para este dado, a marca dos 3 mil ingressos vendidos nas salas brasileiras.

O fato de Xingu ter feito menos espectadores do que se imaginava, não só no RS (menos de 400 mil no país inteiro), e de Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios sequer ter batido na casa dos 50 mil (apesar de Camila Pitanga) não é ocasional. Está cada vez mais claro que o público está disposto a ver cinema nacional – desde que sejam comédias populares ou blockbusters com apelo social que transcende o cinema (Tropa de Elite é um ótimo exemplo). E só. Títulos de outros perfis invariavelmente naufragam em sua tentativa de comunicação com o público. Fossem vistos por 20 mil pessoas, filmes como Girimunho não poderiam ser considerados um fracasso, afinal, são indiscutivelmente mais restritos. Mas 1,2 mil na primeira semana de Uma Longa Viagem e 2,3 mil em poucos dias a mais para um filme-acontecimento tão significativo como Luz nas Trevas são números inexplicáveis.

A má estratégia dos distribuidores, a falta de atenção da crítica, o bairrismo dos gaúchos, enfim, os motivos para esta situação podem ser muitos, e os mais diversos. Todos, no entanto, são secundários. O fundamental é o desinteresse do público.

O que mais lamento é que este desinteresse coincide com o surgimento de novas gerações de cineastas talentosos, capazes de produzir longas belíssimos como O Céu sobre os OmbrosRiscado Além da Estrada, entre outros. Em outras palavras: você está perdendo filmes muitíssimo interessantes, te liga.

Lançados e jogados

19 de maio de 2012 4

Um eco tardio ainda relacionado ao tema abaixo, sobre a relação do público local com o cinema nacional. Entraram em cartaz em Porto Alegre nesta sexta-feira oito filmes. Três deles são brasileiros: O Homem que não Dormia, de Edgar Navarro, Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat, e Romance de Formação, de Julia de Simone. Nenhum deles realizou cabine de imprensa.

Do elogiado O Homem que não Dormia ficou-se sabendo da chegada em cima da hora, com a programação enviada pela sala exibidora (está em cartaz em apenas uma e em dois horários). Romance de Formação entrou em uma sala e em apenas um horário. Nenhum dos dois ganhou espaço no jornal. Uma Longa Viagem teve melhor sorte por já ser conhecido dos festivais em que foi premiado (como Gramado e Paulínia). Ganhou uma página.

O espaço no jornal faz ou não faz diferença no desempenho de um filme pequeno? Já demos matérias de capa recentemente e avaliações muito positivas para filmes como os do projeto Vitrine (exemplo de divulgação competente), Heleno, Eu Receberia as Piores Notícias..., entre outros tantos que não foram exatamente sucesso de público - ou chegaram ao seu público potencialmente certo, vá saber. Mas dá para cravar que, se com divulgação pode mesmo assim ser ruim, sem divulgação alguma será ainda pior.

Mesmo que se assista a O Homem que não Dormia e a Romance de Formação no final de semana e se consiga um espaço nos próximos dias para falar deles, o estrago foi feito, pois a performance dos primeiros dias em cartaz costuma ser decisiva para o futuro de um filme com lançamento modesto.

Girimunho, que entra em cartaz nos próximos dias, teve cabine de imprensa nesta sexta-feira, o que dá um prazo decente para que busque no decorrer da semana entrevistar seus diretores (Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.) e preparar um bom material para a estreia.

A conclusão disso tudo é que realizadores e distribuidores não podem reclamar de interesse de público por um filme  se o público por vezes desconhece a existência desse filme.  E não estamos falando de marketing pesado, mas sim de um simples release, uma foto decente, um DVD de serviço que seja diante do custo de realização de uma cabine. A impressão que passa é que às vezes nem os responsáveis pelo filme acreditam nele, ao ponto de jogá-lo  no circuito à própria sorte tão somente para cumprir cotas, metas, compromissos com investidores, etc. E nem vamos entrar no complexo mérito daqueles que não dependem de bilheteria por  já terem sido remunerados lá no início do projeto pelas leis de incentivo.

Ainda sobre "Xingu" e os gaúchos

11 de maio de 2012 10

Uma consideração que imagino ser relevante nessa bronca do Fernando Meirelles com o público gaúcho por conta do fraco, na avaliação dele, desempenho de Xingu por aqui. O tema já deu pano pra manga em ZH, a começar por um texto exclusivo enviado pelo diretor e na reportagem que procurou investigar qual é, afinal, o gosto cinéfilo do espectador local (leia aqui).

Bom, um ponto importante a destacar é que os números nacionais de Xingu, mais de 300 mil espectadores, não são de todo ruins para um filme que, apesar do grande lançamento, não tem o perfil comercial que seus produtores possam ter imaginado que tivesse – para ser vendido, por exemplo, como uma aventura de heróis desbravadores em terras habitadas por índios hostis. Um indício disso é a percepção que reproduzo a seguir, de que o filme, pelo menos por aqui, não chegou adequadamente a seu público potencial.

Quem fala é Mônica Kanitz, programadora das três salas de cinema da Casa de Cultura Mario Quintana:

"Até já encaminhei para ele (Meirelles) um e-mail com algumas considerações... Acho, por exemplo, que um filme como esse não pode entrar num Cinemark da vida - o público-pipoca não tem esse perfil. O problema é que os caras querem arrecadar, querem grana, aí desconsideram a Cinemateca (nosso ingresso fica na média de R$ 5). Peguei o filme para dar continuidade e coloquei numa sessão só, na Paulo Amorim (150 lugares). No sábado passado, a sessão teve 123 pessoas, no domingo, 141 (mandamos gente embora, inclusive). E as duas sessões foram aplaudidas no final! Claro que isso foi no final de semana, mas mesmo durante a semana o público é sempre bom (com metade da sala, em média). Agora, por causa do Fantaspoa, tive que colocar o filme na Norberto Lubisco (50 lugares), mas agendamos duas sessões para tentar acomodar todo mundo. Outro detalhe muito importante: várias escolas estão ligando para agendar sessões para 50, 60 alunos. Já temos cinco marcadas para os próximos dias! Vamos fazer, inclusive, sessões pela manhã! Acho que um filme como o Xingu tinha que ter um lançamento mais bem pensado, valorizando escolas e os cinemas que têm um perfil alternativo, de autor. Tenho certeza que vai ficar muito tempo na Cinemateca - enquanto o público estiver bacana, nós vamos mantê-lo em cartaz!".

Diante disso, é equivocado generalizar que houve rejeição ao filme no RS. As pessoas estão indo assistir e estão gostando. Pode não ser na quantidade que Meirelles gostaria, mas isso é literalmente outro negócio.

Por fim, vale lembrar que essa bronca do cineasta com os gaúchos não é de agora. E o curioso é que tem filme dele que, proporcionalmente, saiu-se melhor aqui do que nas capitais de São Paulo e Rio, caso de Ensaio sobre a Cegueira. Os dados foram apurados pelo Carlos André Moreira junto ao Filme B, para a matéria acima referida: Rio : 98.452 espectadores (1,5% dos habitantes); São Paulo: 235.603 ( 2% dos habitantes); Porto Alegre: 40.409 (2,8% dos habitantes).

Em entrevista a ZH, em 2010, Meirelles já havia manifestado essa, digamos, indisposição com os gaúchos:

P – Há diferenças entre os públicos de um Estado e de outro no Brasil? Que diferenças seriam essas? R – Ha diferenças sim, mas nada comparada as diferenças que há entre o mercado gaúcho e o resto do Brasil. Há filmes que só vão bem no Rio Grande do Sul e outros que são solenemente ignorados aí.

P – Baseado na experiência com seus filmes, você considera que (...) o gaúcho seria mais resistente ao cinema nacional?

R – Do meu ponto de vista daqui do norte, cinema nacional para gaúcho é o cinema feito pelo Jorge Furtado, pelo Gerbase, Reichenbach, Paulo Nascimento, Nadotti, etc. Nem sei se os gaúchos sabem que existe terra habitada ao norte de Frederico Westphalen.

A quem tiver mais interesse nessa pendenga sem fim (e sem propósito) do cinema nacional x gaúchos, já tratamos do tema AQUI e AQUI.

Estreias da semana - 11/11/11

11 de novembro de 2011 0

Os 3, de Nando Olival - aqui o texto, abaixo o vídeo:

Dublar ou não dublar, eis a (velha) questão

07 de novembro de 2011 2

O Segundo Caderno publicou, pouco tempo atrás, uma matéria sobre a questão da dublagem no cinema, em cima da percepção, comprovada em números, de que aumentou nos últimos anos a oferta de filmes falados em português em outros gêneros além do infantil. Foram ouvidas diferentes fontes, do público que rejeita a dublagem aos distribuidores e exibidores que a justificam em razão de uma crescente preferência deste mesmo público - e pesquisas de opinião sustentam que os espectadores, em sua maioria, preferem mesmo filmes dublados. A pauta incluiu também a televisão por assinatura, na qual os canais que exibem filmes e seriados dublados são os campões de audiência - credita-se grande parte dessa tendência ao maior acesso da classe C à TV paga. O tema desperta reações inflamadas, sobretudo daqueles que veem na dublagem uma interferência grave na obra original, mesmo com o  fato de que em países de grande tradição cinéfila, como França, Itália e Alemanha, a dublagem ser regra.

Essa introdução toda é para dizer que a discussão pró e contra a dublagem não vem de hoje no Brasil e já foi, inclusive, tema de discussão nas mais altas esferas. Num daqueles ótimos acasos que ocorrem quando se tenta arrumar uma estante de livros em casa, calhou de cair na minha frente - e justo nessa página – o referencial livro A Crítica de Cinema em Porto Alegre na Década de 1960,  da jornalista, professora e pesquisadora de cinema gaúcha Fatimarlei Lunardelli.

A autora lembra que esse debate entre legendagem e dublagem ganhou força no Brasil em 1960, em meio à discussão de um projeto cinematográfico nacionalista, e foi decidido no campo da crítica. O epicentro da questão foi o projeto de lei do então senador federal gaúcho Geraldo Lindgren (PRP). Em novembro daquele ano, com organização da Cinemateca Brasileira, foi realizada em São Paulo a Primeira Convenção Nacional da Crítica Cinematográfica. que colocou o tema em pauta e concluiu:

"Tendo em vista que a dublagem de películas estrangeiras na fase atual do cinema brasileiro aumentará a capacidade de penetração de filmes que, hoje, legendados, nem sempre atingem com facilidade as plateias; e considerando que tramita no Congresso Nacional projeto de lei tornando obrigatória a dublagem (...), os críticos de todo o país (...) manifestam aos legisladores a sua repulsa total ao projeto em causa".

Destaca Fatimarlei que críticos e intelectuais de todo o país contrários ao projeto argumentavam que a dublagem seria prejudicial ao cinema brasileiro, que teria de competir por público também no terreno do idioma, e aumentaria os custos dos distribuidores, que poderiam reduzir a importação e a consequente oferta no país de títulos estrangeiros. Visto à distância, esse primeiro item para justificar a contrariedade ao projeto parece hoje meio forçado - e teve resultado inócuo para salvaguardar e incrementar a produção nacional.

A pressão fez o  projeto ser rejeitado, e o relatório do senador Mem de Sá traduziu o pensamento dominante:

" A voz, tanto quanto o gesto, o físico, a expressão, caracteriza o artista e lhe faculta, de maneira personalíssima, o meio de se afirmar e de transmitir ao público a sua forma de viver as emoções e os sentimentos do personagem (...) Imponha-se-lhe , pelo artifício da dublagem, outra voz, e ele já não será o mesmo. Sua arte foi distorcida e corrompida (...)

Mas, apesar do consenso, a autora questiona a pouca importância que os críticos dão ao fato de que a total fruição do filme também pode ser comprometida ao se desviar os olhos da imagem para se acompanhar as legendas na parte inferior da tela. Uma observação muito interessante feita no livro destaca o posicionamento de Paulo Emilio Sales Gomes, um dos mais importantes e influentes nomes do pensamento crítico no Brasil. Ele reconhecia a importância da voz original nos filmes, mas questionava:

" Os críticos do mundo inteiro fazem de conta que não tem importância o fato de não entenderam a língua falada numa porção considerável das fitas que discutem. Todos desprezam a dublagem e estão certos. Ao mesmo tempo, porém, apenas porque o letreiro superposto permite compreender do que se trata, se convencem de que estão plenamente capacitados para julgar películas dialogadas em línguas que desconhecem.

(...) Não sei se o conhecimento da língua sueca me faria gostar mais, ou menos, da obra de Bergman. Afirmo simplesmente que recebo menos do que existe, e que nada me permite afirmar que haja maior significação naquilo que compreendo do que naquilo que ignoro. O cinema sueco, o japonês, o russo, e outros, que dentre nós amamos tanto, constituem na realidade universos que só nos são acessíveis numa proporção bem limitada".

Uma câmera na mão, uma estrada pela frente

07 de novembro de 2011 7

Nunca houve um ano como 2011 no cinema brasileiro. Não que nesta temporada a produção nacional esteja quebrando recordes de ocupação do mercado ou que tenha atingido um patamar de qualidade superior. Não se trata disso. O feito alcançado é menor, mas representa muito para uma cinematografia que patina para conquistar espaço no circuito e, ao mesmo tempo, evoluir esteticamente. Em 2011, uma nova geração de cineastas está conseguindo apresentar seus longas-metragens nas salas do país e, o que é mais importante, está trazendo alternativas não apenas de exibição, mas também de produção – a maneira com que estes longas são realizados não raramente se reflete na forma dos filmes e se revela diretamente responsável por alguns de seus aspectos mais positivos.

Até o fim de outubro, mais de 80 títulos brasileiros já haviam estreado no circuito nacional desde 1º de janeiro. Em toda a temporada 2010, foram 76 filmes. Pelo menos desde 2006 a média tem ficado entre 70 e 80 estreias anuais, segundo o Filme B, principal portal de dados do mercado nacional. Em 2011, a conta deve bater na casa dos cem longas, se confirmadas as previsões. Não se pode dizer que estes números, em si, representam uma evolução, dado que tem havido uma quantidade variável, porém significativa, de produções irrelevantes tanto pela ocupação das salas quanto pelo conteúdo que oferecem. A questão é que o aumento de lançamentos, este ano, coincide com a aparição de uma nova safra de realizadores que está conseguindo renovar a produção nacional. Em outras palavras, a diferença a mais no total de longas lançados representa a aparição de uma real novidade, que diz respeito à estética e vai além da objetividade dos números.

Essa novidade está nas referências contemporâneas de A Alegria, na chamada política à reflexão sobre a imagem e a narrativa cinematográfica de Os Residentes, na notável construção da protagonista de Riscado, na linda fábula sobre o tempo e a ausência que é o ainda inédito no circuito Sudoeste. A renovação é abrangente e está, também, em três road movies recentes que usam a estrada como elemento cênico e narrativo fundamental: Estrada para Ythaca, Além da Estrada e A Última Estrada da Praia. Em cartaz desde esta sexta-feira (04/11) em mostra da Cinemateca Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, esses três longas têm em comum os baixos orçamentos, a criatividade de realização para suplantá-lo, vários momentos inspirados e, consequência de tudo isso, uma vitalidade rara.

Jill Mulleady e Esteban Feune de Colombi em Além da Estrada

A criatividade, em todos os casos, não diz respeito apenas a aspectos financeiros ou de viabilização dos filmes. É a tradução, em termos práticos, de ideias sobre a linguagem e os caminhos que ela tem percorrido desde o surgimento das câmeras digitais portáteis, da popularização dos vídeos caseiros na internet, de uma espécie de globalização da imagem que nos aproximou de cinematografias antes distantes como a de alguns países da Ásia e do Leste Europeu e, ainda, da rejeição do mercado e também do grande público às produções que ousam ser diferentes daquilo que se vê estabelecido no mainstream – do cinema ou da televisão. Trata-se de uma via de duas mãos: as novas gerações que estão empenhadas em fazer filmes autorais incorporam um imaginário alternativo cada vez mais difundido, porém, ao mesmo tempo, são excluídas do esquema das grandes distribuidoras. O que as fez entrar para a estatística em 2011 foi buscar soluções não somente para realizar os seus longas, mas também para distribuí-los.

A Última Estrada da Praia, adaptação gaúcha de O Louco do Cati, de Dyonelio Machado, foi concebido como um programa da série Escritores, da RBS TV, que tinha duração de menos de meia hora e foi ao ar em 2007. Virou um longa-metragem que cavou seu lugar no circuito porque seu diretor, Fabiano de Souza, soube agir potencializando os recursos limitados de que dispunha e também porque a sua produtora, Okna, resolveu ela própria distribuir o filme batendo à porta dos exibidores – as salas de cinema propriamente ditas. O caso de Estrada para Ythaca e Além da Estrada é outro: ambos fazem parte de um projeto de distribuição criado pela Vitrine Filmes que está dando a pelo menos 20 títulos recentes a oportunidade de exibição nos cinemas de grandes cidades brasileiras. Não é exatamente uma ação entre amigos, sobretudo porque a Vitrine é uma produtora profissional, estabelecida no mercado (em São Paulo), o que significa dizer que não trabalha para “dar uma forcinha”, e sim porque acredita nos filmes nos quais investe.

É bom lembrar que A Última Estrada da Praia não é o primeiro e nem será o último projeto surgido nesses termos, e que chega ao mercado dessa forma. E ainda que a Vitrine, embora precursora devido ao tamanho de sua empreitada, não está inventando nada. O que é preciso ressaltar é que iniciativas assim só existem porque, por trás delas, há uma significativa demanda de produção. Não houvesse Estrada para Ythaca e Além da Estrada, entre alguns outros (inclusive citados anteriormente), não haveria distribuição da Vitrine. Não houvesse a inquietação artística de Fabiano de Souza, não haveria o seu filme e, consequentemente, o esforço da Okna.

Miriã Possani, Marcos Contreras, Rafael Sieg e Marcelo Adams em A Última Estrada da Praia

Estrada para Ythaca e Além da Estrada são duas verdadeiras cartas de intenções da novíssima produção nacional. O primeiro é assinado pelos irmãos Luiz e Ricardo Pretti e pelos primos Guto Parente e Pedro Diógenes, quarteto que integra o coletivo Alumbramento, de Fortaleza (CE). No filme, os quatro são autores, técnicos e personagens numa viagem de carro rumo a Ythaca – Homero e Kaváfis são referências ao mesmo tempo eruditas e espirituosas: eles estão de porre quando resolvem partir, em homenagem a um amigo que perderam e que por isso não pode compartilhar aquela celebração, mas o que importa, no fundo, não é o objetivo final, e sim o que a experiência de percorrer aquele caminho proporcionará. Embora assente sua base dramatúrgica sobre citações (Glauber, Godard e Caetano em uma única sequência, por exemplo), que fortalecem o longa como manifesto estético, o inesperado cumpre papel fundamental no envolvimento do espectador com os autores-personagens. Em vez de se diluir, a noção de autoria se fortalece. Graças ao sistema de produção. Numa cinematografia que, a despeito do barateamento dos equipamentos de captação e montagem, repete à exaustão sistemas de produção envelhecidos e nem sempre eficazes porque emulam Hollywood mesmo que não consigam reproduzir seus resultados, trata-se de algo muito pertinente.

Também responsável por longas como Sábado à Noite, Praia do Futuro e Os Monstros, o Alumbramento tem como uma das marcas de seu trabalho a incorporação de elementos da linguagem das artes visuais – não por acaso um traço recorrente do cinema contemporâneo universal, e não à toa uma característica do melhor road movie brasileiro dos últimos anos, Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009). Além da Estrada, nesse sentido, é bem diferente.

Coprodução Brasil-Uruguai, o primeiro longa do bom diretor de curtas-metragens Charly Braun, 31 anos, está longe de termos como clássico e acadêmico, mas sua abordagem da linguagem é um tantinho mais tradicional. Seu vigor, paradoxalmente, é raro até mesmo em meio ao que o país produziu de mais interessante nos últimos tempos. O caráter semidocumental é responsável apenas em parte por esse resultado: há de se considerar que, na história do jovem argentino rico que, após a morte dos pais, viaja ao encontro de um terreno herdado pela família no litoral do Uruguai, há não apenas a abertura para o imprevisível e o inesperado, mas, fundamentalmente, um tom ainda mais confessional do que o de Ythaca. Os lugares visitados pelo protagonista (vivido pelo argentino Esteban Feune de Colombi) nas províncias uruguaias de Rocha e Maldonado fazem parte do imaginário pessoal do diretor, que morou ou tem familiares nos dois países do Prata – como fica evidente nos créditos finais, quando são exibidas fotografias suas nos locais onde Além da Estrada foi filmado.

O frescor narrativo e o sentido de verdade de suas imagens devem-se a essa combinação. Ou melhor, devem-se, isso sim, à capacidade de Braun de manipular a linguagem a partir dessas opções – não é a simples escolha de um caminho que vai determinar o sucesso de um projeto, mas essa escolha aliada ao talento de quem o percorre. Não deixa de ser uma metáfora para o novíssimo cinema brasileiro como um todo, este que se joga à estrada disposto a enfrentá-la mesmo sem saber o que vai encontrar pela frente e, mais do que isso, pronto para encará-la ainda que ela revele as angústias e os dilemas particulares de seus realizadores. Além da Estrada, aliás, tem uma mise-en-scène melhor do meio para o fim, e atinge seu ápice na belíssima sequência final, o que permite vislumbrar que, conforme passa o tempo em campo, mais adaptada – ou entregue – está a equipe de filmagens. Hoje em dia, as novas gerações provam, mais importante do que ir atrás de recursos buscando usá-los apenas para reproduzir fórmulas do passado é ter disposição para, com os recursos que se tem, mergulhar nas revelações que o desconhecido pode trazer.

Estrada para Ythaca, de Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes

O melhor da novíssima geração

Entre os bons filmes dos jovens cineastas brasileiros há títulos cuja abordagem aproxima a linguagem do cinema à das artes plásticas, casos, por exemplo, de Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo (CE, 2009), e do longa de direção coletiva Praia do Futuro (CE, 2008) - ambos do grupo cearense Alumbramento. Há, também, em quantidade maior, aqueles que visitam os limites do documentário, como Terras, de Maya Da-Rin (RJ, 2009), Álbum de Família, de Wallace Nogueira (BA, 2010), e Morro do Céu, (RS, 2009), no qual o diretor Gustavo Spolidoro acompanha o dia a dia de um adolescente no interior do município de Cotiporã, na serra gaúcha. Outros:

> O Céu sobre os Ombros (MG, 2010). O documentário de Sérgio Borges acompanha - ou seria reencena? - episódios da vida de três personagens sui generis que moram em Belo Horizonte. Estreia nacional marcada para 18 de novembro.

> Terra Deu, Terra Come (SP, 2009). Filme de estreia do diretor Rodrigo Siqueira, é um falso documentário provocativo e sofisticado sobre um ritual fúnebre de matriz africana encenado na região de Diamantina (MG). Estreou em Porto Alegre em março de 2011.

> Um Lugar ao Sol (PE, 2009). Dirigido por Gabriel Mascaro (de Avenida Brasília Formosa, 2010, também distribuído pela Vitrine Filmes), é um documentário incômodo sobre a vida dos privilegiados moradores de coberturas de grandes cidades brasileiras. Já passou no circuito.

> Chantal Akerman, de Cá (RJ, 2010). Filme de Leonardo Luiz Ferreira (crítico de cinema) e Gustavo Beck (de A Casa de Sandro, 2009) que investiga as ideias da artista belga Chantal Akerman a partir de uma entrevista registrada num único plano. Estreou via Vitrine Filmes.

> Pacific (PE, 2010). O revelador, premiado e controvertido longa de Marcelo Pedroso narra um cruzeiro de Recife a Fernando de Noronha usando somente imagens das câmeras particulares dos passageiros. Vencedor do CineEsquemaNovo 2011, já foi exibido no circuito.

> Estrada Real da Cachaça (RJ, 2009). De Minas Gerais a Paraty (RJ), o diretor Pedro Urano refaz o percurso dos fabricantes artesanais de cachaça e usa a bebida para promover um encontro do espectador com a cultura popular brasileira. Também já foi exibido nos cinemas.

Lwei, um dos três personagens de O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges

Além de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz (a dupla de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo), outros cineastas de uma geração anterior, mas com inquietações semelhantes de linguagem, abriram caminho para o que vem sendo chamado de novíssimo cinema brasileiro. Entre eles estão Cao Guimarães (de Andarilho e Ex Isto), José Eduardo Belmonte (A Concepção e Meu Mundo em Perigo), Joel Pizzini (500 Almas e Anabasys) e Lírio Ferreira (O Homem que Engarrafava Nuvens e Cartola - Música para os Olhos). Há ainda realizadores da mesma geração dos cineastas que despontam em 2011, mas que estrearam antes no longa-metragem, como Eryk Rocha (Rocha que Voa e Transeunte), Bruno Safadi (Meu Nome É Dindi e Belair), Petrus Cariry (O Grão e Mãe e Filho), Marília Rocha (Aboio e A Falta que me Faz) e Bruno Vianna (Ressaca e Cafuné). Reuni-los nem sempre faz sentido, afinal, a diversidade de nomes corresponde à diversidade de suas propostas estéticas, mas pode-se dizer que a linha mestra desta produção é formada por ficções que refletem sobre as próprias imagens que apresentam a partir de três tipos de abordagem - as que exploram o registro documental, as que se enquadram na vertente batizada de "autoficção" e as que pensam a sua narrativa a partir da emulação de referências do universo contemporâneo. Alguns de seus destaques:

> Riscado (RJ, 2010). Trabalhando no registro semidocumental, o diretor Gustavo Pizzi (parceiro do produtor Cavi Borges, referência da nova produção carioca) constrói com sua mulher, Karine Teles, um retrato intimista de uma atriz e suas agruras para vencer na carreira artítica. Premiado em Gramado e no Festival do Rio, já estreou no circuito nacional.

> Os Residentes (MG, 2010). Mais político dos filmes da geração, o longa de Tiago Mata Machado retoma o espírito libertário dos anos 1960 para narrar a trajetória de um grupo que instaura uma "zona autônoma temporária" numa casa abandonada. Os protagonistas são os gaúchos Gustavo Jahn e Melissa Dullius. Estreou em Porto Alegre no CineBancários.

> Estrada para Ythaca (CE, 2010). Também realizadores de Os Monstros (2011), em que filmam a sua própria incompreensão como artistas, Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes são autores e personagens deste road movie que é um dos bons exemplos do que se convencionou chamar de autoficção no país. Já foi exibido nos cinemas.

> Além da Estrada (Brasil/Uruguai, 2010). Primeiro longa de Charly Braun, incorpora imagens e personagens reais à narrativa ficcional de um jovem argentino que viaja pelo litoral uruguaio. Premiado nos festivais Lume e do Rio, tem trilha sonora e referências pop e algumas sequências, ao final, memoráveis. Também já passou no circuito.

> A Alegria (RJ, 2010). Título de maior projeção da trilogia Coração de Fogo, que a dupla Felipe Bragança e Marina Meliande compôs sobre a juventude brasileira com os longas Desassossego (2010) e A Fuga da Mulher Gorila (2009). Emula a obra do tailandês Apichatpong Weerasethakul para falar de violência e opressão no Rio de Janeiro atual. Estreou na Sala P.F. Gastal e no Unibanco Arteplex e nas últimas semanas voltou ao circuito da capital gaúcha.

> A Última Estrada da Praia (RS, 2010). Diretor dos ótimos curtas Cinco Naipes e Um Estrangeiro em Porto Alegre, Fabiano de Souza na nouvelle vague francesa as principais referências para elaborar a consistente dramaturgia deste road movie litorâneo sobre jovens em busca de liberdade. Já estreou, primeiramente, em Porto Alegre - em outras capitais, deve ficar para 2012.

Gustavo Jahn e Melissa Dullius em Os Residentes

De volta a Morro do Céu

03 de novembro de 2011 0

É sempre interessante, às vezes bem pertinente, saber como andam e o que fazem os personagens dos grandes documentários depois que seus filmes foram realizados e exibidos. No caso de Morro do Céu (2009), o ótimo longa gaúcho de Gustavo Spolidoro, a gente pode ter uma provinha do que anda fazendo Bruno Storti, seu protagonista, no vídeo abaixo. O Bruno é o menino de boné branco com aba amarela. O vídeo foi postado no YouTube com o título Método Mais Fácil de Tirar Anel, com um revelador "haha" ao final.

Sorti é um jovem morador da localidade de Morro do Céu, que fica no interior do pequeno município de Cotiporã, na serra gaúcha. Um pouquinho mais sobre o filme você pode ler neste post antigo deste blog. O teaser/trailer do filme está aqui.