Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts na categoria "DVD"

Bons filmes, grandes mulheres

15 de abril de 2013 1

Rânia quer se libertar, Verônica precisa descobrir a liberdade. Silmara se frustra, Bianca não desiste, Violeta terá de se reerguer. São cinco mulheres extraordinárias, cujas jornadas representam uma das facetas mais ricas do cinema brasileiro atual: a capacidade de desenvolver bons personagens femininos.

Respectivamente, essas personagens podem ser vistas em Rânia, Era uma Vez Eu, Verônica, Falsa Loura, Riscado e O Abismo Prateado. Vêm de regiões, castas e gerações diferentes, dando forma a um panorama irregular e um tanto impreciso, mas muito consistente, da pluralidade social contemporânea verificada no país. Como se a união de todas elas, e das outras citadas no quadro abaixo, desse a medida de um certo estado de coisas, não do ponto de vista macro, mas íntimo, mesmo. Não é nada muito diferente disso que se espera de uma produção dramatúrgica consistente e reveladora.

Você pode até se dizer surpreendido, sobretudo se ainda não descobriu as boas surpresas do novíssimo cinema nacional, mas os adjetivos da frase que encerra o parágrafo anterior foram escolhidos com cuidado. Observe que não citei nenhuma personagem adaptada de matrizes literárias, nem mesmo representativa de alguma personalidade real. Se o fizesse, poderia mencionar a inventiva Cleópatra tropical do diretor Júlio Bressane (de 2008), o alter ego de Clarah Averbuck visto em Nome Próprio (2008), de Murilo Salles, a Zuzu Angel (2006) de Sérgio Resende e a Bruna Surfistinha (2011) de Marcus Baldini. Poderia, ainda, lembrar as grandes mulheres que inspiraram os documentários Elena (2012), de Petra Costa, e Laura (2012), de Felipe Barbosa, previstos para estrear nos próximos meses nos cinemas. E também fazer referência às complexas e sedutoras personagens femininas de Natimorto (2009) e Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (2011), se quisesse incluir títulos que não são necessariamente calcados nelas, e sim em histórias que acabam envolvendo-as – o que caracteriza uma diferença marcante dos 10 filmes da lista abaixo, todos formatados essencialmente sobre a intimidade de uma ou mais mulheres.

Isso: fiquemos com os longas que moldam sua dramaturgia a partir de mulheres ficcionais e originais. Por que eles existem? O que seus autores pretendem? O que faz esses projetos coexistirem em quantidade e qualidade significativas?

Para responder a essas perguntas seria necessário conhecer bem os propósitos estéticos de seus realizadores, o que nem sempre é possível, dado que uma das principais características do assim chamado novíssimo cinema nacional é a pouca, às vezes nenhuma experiência dos cineastas. Karim Aïnouz, diretor de um dos filmes basilares dos propósitos desse movimento (O Céu de Suely), fala reiteradamente sobre o desamor. Marcelo Gomes, outro dos mais experientes entre esses autores nem sempre jovens, mas de carreira invariavelmente incipiente, tem a solidão como tema recorrente. Donde se pode vislumbrar um certo gosto pela melancolia e pela desilusão – que, talvez não por coincidência, perpassam todos os 10 longas-metragens citados abaixo.

Não é de hoje que o cinema independente, marginal (o melhor cinema brasileiro), explora a sensação de deslocamento e inadequação. A tristeza, de maneira geral. Mas por que por meio das mulheres? A produção nacional do século 21 está cheia de personagens masculinos relevantes no mainstream, protagonizando os “filmes de favela”, a vertente cômica dessa produção e as incursões por gêneros como aventura e ação. Mas foi a partir das histórias essencialmente femininas que Eduardo Coutinho realizou Jogo de Cena (2007), o longa esteticamente mais revolucionário do país em décadas. E é a partir delas, mais do que deles, que se tem falado das grandes questões do país.

Talvez Rânia, Verônica, Silmara, Bianca, Violeta e tantas outras sejam reflexo de uma sociedade na qual a figura paterna, em tantos casos, se faz cada vez menos presente. Uma sociedade na qual as mães, cada vez mais, tornam-se a principal referência, não raramente a única acessível, para fatias bastante significativas da população. É uma hipótese. Talvez coincidência. O fato é que, no cinema nacional, a hora é delas.

10 filmes nacionais recentes centrados em personagens femininas:
(construídas em roteiros originais, e não a partir de matrizes literárias ou representativas de pessoas reais)

> Rânia (2012) – De Roberta Marques. Com Graziela Félix. Longa cearense premiado no Festival do Rio e selecionado para Roterdã, narra a história de uma adolescente da periferia que descobre a vocação de bailarina. Está em cartaz no CineBancários, em Porto Alegre.

> O Que se Move (2012) – De Caetano Gotardo. Com Cida Moreira, Andrea Marquee e Fernanda Vianna. Drama musical composto de três episódios sobre as dores e as alegrias de três mães. Premiado em Gramado, começa a chegar aos cinemas brasileiros a partir de 17 de maio.

> O Abismo Prateado (2011) – De Karim Aïnouz. Com Alessandra Negrini. Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, estreia nacionalmente neste dia 26 (em Porto Alegre deve demorar um pouco mais). Inspirado na canção Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, acompanha as horas de desespero de uma dentista carioca depois que ela é abandonada pelo marido.

> Era uma Vez Eu, Verônica (2011) – De Marcelo Gomes. Com Hermila Guedes. Médica recém-formada, a jovem protagonista passa por um momento de incertezas – e amadurecimento. Premiado em Brasília, estreou comercialmente no país no ano passado – mas não chegou ao circuito porto-alegrense.

> Riscado (2011) – De Gustavo Pizzi. Com Karine Teles. A vida nada fácil de uma atriz em início de carreira, que precisa se virar para sobreviver, é o ponto de partida deste longa premiado no Festival de Gramado e escrito em parceria pelo seu diretor e a protagonista. Já foi exibido nos cinemas.

> Sudoeste (2011) – De Eduardo Nunes. Com Simone Spoladore. Fábula de narrativa circular na qual uma mulher vê sua vida se desenrolar ao longo de apenas um dia num vilarejo de pescadores. Premiado nos festivais do Rio e de Havana. Também já teve sessões em Porto Alegre.

> Verônica (2008) – De Maurício Farias. Com Andréa Beltrão. Professora de escola pública do Rio tenta salvar um garoto que acaba de ficar órfão e está jurado de morte por traficantes da favela em que ele vive. Já está disponível em DVD.

> Falsa Loura (2008) – De Carlos Reichenbach. Com Rosanne Mulholland. Também já lançado nos cinemas e em DVD, foi o último – e é um dos melhores – longas de Reichenbach (1945 – 2012). Narra a história de uma operária do ABC Paulista que sustenta o pai e ama os cantores populares.

> A Casa de Alice (2007) – De Chico Teixeira. Com Carla Ribas. Manicure na faixa dos 40 anos está com a vida estagnada na periferia de São Paulo. No filme, disponível em DVD, ela tenta levar o dia a dia enfrentando diversos problemas de relacionamento com o marido e os filhos.

> O Céu de Suely (2006) – De Karim Aïnouz. Com Hermila Guedes. Garota grávida volta da capital paulista à sua cidade natal, no interior do Ceará, e fica aguardando, numa espera que se revelará infrutífera e terá consequências em sua vida, o namorado, pai de sua criança. Foi exibido no circuito e está disponível em DVD, para venda e locação.

Um novo de Schrader e um velho de Friedkin

26 de março de 2013 0

Lindsay Lohan em "The Canyons" / IFC Films


Um dois-em-um sobre dois grandes cineastas americanos famosos pelo temperamento vulcânico e que optaram por seguir à margem da grande indústria: Paul Schrader e William Friedkin.

Li só agora a sensacional reportagem sobre os bastidores das filmagens de The Canyons, novo longa de Schrader, realizado em regime de mutirão entre amigos. O texto de Stephen Rodrick, publicado em janeiro no jornal The New York Times e reproduzido pela revista Piauí em sua edição de fevereiro, descreve o que muitos já previam quando o diretor escalou como sua nova estrela a garota-encrenca Lindsay Lohan: caos, ânimos exaltados e um filme que por pouco não chegou ao fim. Leia aqui o saboroso relato de Rodrick, na versão em português publicada na Piauí.

Adendo: Schrader fez fama em Hollywood anos 1970, primeiro como roteirista — escreveu para Martin Scorsese longas como Taxi Driver e Touro Indomável. Ele arriscou sua sobrevivência física e artística com um temperamento ciclotímico turbinado por excessos químicos e etílicos e a tendência suicida (costumava andar armado). Estreou como diretor em 1980, em Gigolô Americano e realizou bons filmes como A Marca da Pantera, Mishima e Temporada de Caça. Antes de The Canyons, apresentou o ótimo e impactante Adam — Memórias de Uma Guerra (2008), lançado no Brasil direto em DVD.

Confira o trailer de The Canyons:

Já Friedkin, de quem falamos há pouco por conta de seu novo filme, Killer Joe, em cartaz na Capital (veja post abaixo) lançará a versão restaurada do filme que marcou sua desgraça em Hollywood: O Comboio do Medo (1977), refilmagem de O Salário do Medo (1953), clássico do francês Henri-Georges Clouzot. Diante do grande fracasso comercial do filme à epoca, de nada adiantou o prestígio dos Oscar que ganhou com Operação França (1971) e os milhões de dólares que faturou com O Exorcista (1973). Como era um figura detestada por todos com quem trabalhava, por sua arrogância e truculência, Friedkin viu as portas dos estúdios serem fechadas em seu nariz e entrou no caminho do cinema independente. Após a première no Festival de Veneza, em setembro, Comboio do Medo ganhará edição especial em Blu-ray e DVD.

Sempre teremos Casablanca

26 de novembro de 2012 3


Era, lá no começo da história, para ser mais um filme de aventura da linha de produção da Warner, tanto que o elenco de protagonistas inicialmente pensado era de estrelas da casa não tão estreladas assim: Ronald Reagan, Ann Sheridan e Dennis Morgan. Mas há exatos 70 anos, neste mesmo 26 de novembro, quando foi realizada em Nova York a primeira sessão pública de Casablanca, os chefões da Warner, os críticos e os espectadores presentes na première perceberam estar diante de uma daquelas obras raras do cinema que perduram no tempo tanto por sua inquestionável qualidade quanto pela mitologia que cerca sua realização. Quem viu Casabalanca não se cansa de rever.  E o prazer de cada reencontro é sempre único. É daqueles filmes sobre os  quais já não cabem digressões racionais acerca de questões formais — estas  já foram todas exaustivamente feitas. A relação com Casablanca é passional mesmo.

Casablanca é o feliz resultado de uma série de fatores improváveis que se somaram de forma positiva em sua conturbada realização. Primeiro, surgiu o interesse do chefe de produção da Warner, Hal B. Wallis, por uma peça teatral não encenada, Everybody Comes to Rick's, de Murray Burnett e Joan Alison, que estes haviam escrito a partir de vivências com os êxodos provocados pela ascensão do nazismo na Europa.

As alterações no projeto começaram pelo nome do filme, agora o mais sonoro e "exótico" Casablanca. A trama, roteirizada pelos irmãos gêmeos Julius e Philip Epstein partia do cenário de tensão e espionagem ambientado no Norte da África, região que abrigava expatriados europeus, nazistas invasores e aqueles tipos pitorescos que jogavam para os dois lados conforme o vento e o soldo.

Para a direção, foi chamado um dos gigantes da época, ele próprio um dos cineastas estrangeiros importados por Hollywood, o húngaro Michael Curtiz – conhecido por Capitão Blood, As Aventuras Robin Hood e o filme de gângster Anjos de Cara Suja e folclórico por ninguém compreender o que ele dizia no set com seu sotaque carregado.

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman chegaram aos papéis de suas vidas por vias tortas. Ele, depois que o astro George Raft, outra opção para ser Rick, não se interessou pelo personagem. Ela, após seu passe ser alugado do poderoso produtor David O. Selznick, que relutou em ceder a estrela que tinha sob contrato para um trabalho que, até então, não tinha sequer o roteiro fechado.

No documentário You Must Remember This: A Tribute to Casablanca (1992), Pia Lindström, filha de Ingrid, explica que sua mãe sentia-se muito desconfortável por filmar sem saber com quem sua personagem, Ilsa, ficaria. Com Rick, paixão de quem se separou quando Paris foi tomada pelos alemães, ou com Victor (Paul Henreid), seu atual companheiro, um líder da resistência aos nazistas? Essa dúvida foi esclarecida apenas nos instantes finas das filmagens, resultando no antológico desfecho. Curtiz brincava que essa angústia do elenco com os rumos de seus personagens era boa porque se refletia na dinâmica das interpretações.

E embora tenha conquistado junto com os Oscar de melhor filme e direção também o de roteiro, Casablanca é exemplo de um script realizado sob um caos (controlado, mas um tormento numa arte em que o planejamento é regra) que subverte qualquer manual do gênero. Os irmãos Epstein escreveram a primeiro metade do filme, na qual se sobressai o tom da aventura de espionagem, com ação e humor inspiradíssimo simbolizado em diálogos memoráveis como esses:

— Como você vai parar aqui, Rick — pergunta o movediço inspetor de polícia Louis Renault (Claude Rains).

— Vim atrás das fontes.

— Fontes, no deserto?

— Pois é, acho que me informaram mal...

(...)

— Qual sua nacionalidade? – indaga a Rick o major nazista Strasser (Conrad Veidt).

— Bêbado.

— Ah, então isso faz de você um cidadão do mundo.

Em meio à realização do filme, os Epstein se afastaram do projeto para ajudar no braço cinematográfico do esforço de guerra americano. Entrou em cena o roteirista Howard Koch, responsável pela guinada da trama ao drama romântico, à exaltação dos valores democráticos e à glória de se lutar por uma causa justa, temas que pontuam a segunda metade de Casablanca — Koch escreveu, por exemplo, a emocionante sequência em que Victor comanda o coral da A Marselhesa no bar de Rick para abafar a cantoria marcial dos soldados alemães.

Casablanca teve ainda a mão do roteirista Casey Robinson, contratado para escrever o flashback que mostra Rick e Ilsa em Paris ("São canhões ou meu coração batendo?", pergunta ela. "Nós sempre teremos, Paris", consola ele mais adiante). Foi um pedido dos produtores, que acharam necessário mostrar ao espectador a razão de Rick ficar tão abalado ao rever Ilsa e ouvir o pianista Sam tocar As Time Goes By (canção que não foi feita para o filme, pois havia sido lançada em 1931).

— De todos os botecos de todas as cidades do mundo, ela foi entrar justamente no meu — amarga Rick.

Os irmãos Epstein voltaram em tempo de escrever toda a sequência final, a do aeroporto. Pensaram em incorporar à trama a reviravolta em curso na II Guerra, com a invasão aliada no norte da África. O projeto seguiu o rumo previsto, mesmo porque os rumos da grande guerra naquele instante ainda eram incertos. Mas a frase antológica dita por Rick a Renault foi incluída posteriormente ao fim das filmagens, com Bogart chamado em casa para fazer a dublagem, e teria sido escrita por Wallis:

— Louie, eu penso que este é o começo de uma maravilhosa amizade.

Ainda está em tempo de comemorar estes 70 anos revendo Casablanca. Sorte de quem vai assistir a essa joia pela primeira vez.


Antonioni e o eclipse das relações

06 de agosto de 2012 1

Não faz muito, A Aventura, A Noite e O Eclipse saíram isoladamente em DVD. Mas fã que é fã vai gostar mesmo é da reunião dos três clássicos na bela caixa que a distribuidora Versátil acaba de disponibilizar no mercado, apinhada de extras, em comemoração aos seus 50 anos.

Em se tratando destes três filmes, os fãs não são poucos.

Lançados entre 1960 e 1962, os longas-metragens compõem a chamada Trilogia da Incomunicabilidade do italiano Michelangelo Antonioni (1912 – 2007), um dos marcos do moderno cinema europeu. No fundo, seus temas são os mais ordinários – e fascinantes – que o cinema abordou de Rossellini a Wong Kar Wai: a glória e a agonia dos relacionamentos a partir das dificuldades de acomodar ambições individuais a um contexto de coletividade, ainda que esta coletividade, muitas vezes, seja representada pela simples constituição de um casal.

Coube a Antonioni, e também a Godard, entre outros contemporâneos, levar a chamada "crise do casal" a um posto nobre entre as abordagens ditas autorais na produção cinematográfica do pós-Guerra. A curiosidade é que tanto Antonioni quanto Godard, e igualmente Rossellini, foram casados com suas musas, respectivamente Monica Vitti, Anna Karina e Ingrid Bergman, estrelas que acabaram inspirando e também protagonizando alguns de seus filmes sobre o assunto.

A linda Monica Vitti é personagem-chave nos três longas da Trilogia da Incomunicabilidade. Em A Aventura (1960), interpreta a amiga de uma garota que some durante a uma viagem a uma ilha do Mediterrâneo, e que acaba flertando com seu namorado quando eles procuram pela desaparecida. Em A Noite (1961), é a bela estranha cuja presença ajuda a evidenciar a deterioração do casamento entre os personagens de Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni. Em O Eclipse (1962), ela sai de uma relação para emendar outra com o belo porém ausente personagem de Alain Delon, mas a dificuldade de estabelecer uma sintonia entre eles vai determinar um vazio intransponível entre um e outro.

A longa e silenciosa sequência de imagens de uma Roma inabitada, ao fim do terceiro e último filme, usa um recurso fundamental da forma da trilogia – a emulação da arquitetura dos ambientes na construção dramática – para resumir este vazio instransponível entre os homens e as mulheres de Antonioni. O mais interessante é observar que a impossibilidade do amor e da realização pessoal a partir da aproximação do outro se dá não pela própria presença do outro, mas por aquilo que esta presença desperta na gente. Mais do que isso, A Aventura, A Noite e O Eclipse são ensaios poderosos sobre a opressão que a vida social é capaz de promover. São a perfeita materialização do existencialismo em voga em sua época – símbolo da forma com que uma das mais notáveis gerações de artistas do século 20 vislumbrou a derrota das relações diante dos apelos oferecidos pela modernidade.

Para constatar sua atualidade formal e temática, convém rever os três longas com tempo – que hoje, meio século depois, parece ainda mais restrito. Detalhe para os extras: há depoimentos de Antonioni e Monica Vitti, trailers e cinejornais da época, filmes curtos sobre a passagem de O Eclipse pelo Festival de Cannes (no ano seguinte à consagração de A Noite) e sobre as ideias do cineasta que com seu olhar pessimista "mudou o mundo" – para repetir uma expressão do próprio documentário que vem junto ao box da trilogia.

A Aventura (L'Avventura)
Drama, Itália/França, 1960, 143min. Com Gabriele Ferzetti, Lea Massari e Monica Vitti. Durante um cruzeiro pela costa da Sicília, uma mulher desaparece. Seria assassinato, acidente ou suicídio? Enquanto a procuram, seu namorado e sua melhor amiga começam a se envolver amorosamente. Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes.

A Noite (La Notte)
Drama, Itália/França, 1961, 115min. Com Jeanne Moreau, Marcello Mastroianni e Monica Vitti. Após 10 anos de casamento, Lidia e Giovanni passam uma noite permeada de angústia e luxúria, numa busca involuntária de respostas para a crise de seu relacionamento. Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim.

O Eclipse (L'Eclisse)
Drama, Itália/França, 1962, 126min. Com Monica Vitti, Alain Delon e Francisco Rabal. Logo após terminar o relacionamento com o namorado, Vittoria conhece Piero, um jovem operador da bolsa de valores. Apaixonados, iniciam um conturbado romance pelas ruas de Roma. Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes.

Blade Runner, 30 anos

25 de junho de 2012 0

Em 25 de junho de 1982, chegava aos cinemas dos EUA Blade Runner, filme que ao estrear no Brasil, um mês depois, dia 26 de julho, ganhou o subtítulo O Caçador de Andróides (com o devido acento).  Nem a crítica, tampouco o público reconheceu de imediato a qualidade daquele que o tempo e o progressivo culto dos fãs consolidaria como um marco da ficção científica. Costuma se relacionar esse culto à redescoberta do filme com  a versão que o diretor Ridley Scott lançou em 1992. De fato, as mudanças que ele fez jogaram nova luz sobre a distopia futurista que segue vívida e impactante  30 anos depois. Mas esse reconhecimento vem de antes, assim que o longa original começou a circular em VHS e teve o tempo devido para ser depurado.

Antes de prosseguirmos, uma dica. O blog amigo Mundo Livro celebra a data com  textos sobre Philip K. Dick,  autor do romance que inspirou Blade Runner, e sobre as diferenças entre livro e filme.

Não custa relembra aos que chegam agora. Blade Runner, terceiro longa de Scott, sucessor de outra joia da ficção científica, Alien – O Oitavo Passageiro (1977), foi renegado pelo diretor em seu lançamento. Depois de ele estourar o orçamento e criar um clima bem ruim no set por conta de seu perfeccionismo e da antipatia mútua entre ele e o ator protagonista, Harrison Ford, Blade Runner foi finalizado a sua revelia pelos produtores, que acrescentaram a narração em off, para “ajudar o espectador a compreender melhor o enredo”,  e pelo final que usou cenas externas não aproveitadas por Stanley Kubrick em O Iluminado.

Eu sempre achei essa versão original tão boa quanto a “versão do diretor” que Scott lançou em 1992. Mas ele também não ficou satisfeito com essa, alegando que trabalhou às pressas para cumprir o prazo do lançamento comemorativo aos 10 anos do lançamento. Nesse corte, Scott eliminou a narração em off, mudou o final e deixou explícita a sugestão de ser Deckard, o caçador de androides vivido por Harrison Ford, também um dos chamados replicantes.

Então, em 2007, Scott apresentou no Festival de Veneza seu “final cut”, versão que, garante ele, seria a definitiva (veja abaixo um resumo de todas as versões conhecidas do filme).  Nos últimos anos, Blade Runner ganhou diferentes edições em DVD e Blu-ray. E tem mais uma saindo agora, comemorativa aos 30 anos do lançamento. É uma caixa que traz tudo o que já saiu antes, incluindo o corte final em Blu-ray e DVD e as outras versões do filme, mais extras inéditos, livreto com mais de mil imagens e a miniatura do veículo/nave spinner.

O material extra que tem saído nessas reedições é por demais saboroso para fãs novos e veteranos e reforça a mitologia perene de Blade Runner. O filme sobrevive como obra visionária e referencial tanto em seu conceito sombrio do futuro nas questões existenciais que aborda antecipando questões éticas, científicas e religiosas relacionadas à engenharia genética.

Entre as cenas de bastidores recuperadas, estão ensaios com o elenco.  Lembram da bela cena em que o replicante Roy (Rutger Hauer), ao morrer, deixa escapar de sua mão uma pomba branca? Pois a tal pomba, encharcada pela chuva constante característica do filme, não conseguia voar, devido ao peso da água, mostra o making of. A solução foi inserir a cena de outra pomba voadora. Hauer, aliás se dedicou com tanto empenho ao papel que o crédito pela seqüência final do filme é todo dele. Foi do ator a ideia da pomba e foi ele quem escreveu, no set, o antológico e emotivo discurso final de Roy, que termina com “(...) esses momentos serão perdidos, como lágrimas na chuva. Hora de morrer” - a fala original prevista no roteiro era muito piegas, lembra Hauer.

Aqui seguem um pouco mais detalhadas as principais diferenças entre as cinco (!) versões de Blade Runner, que, a rigor, são variações de apenas duas . E fica a expectativa da sequência anunciada por Scott, ainda sem data prevista de produção. O diretor antecipou apenas que a trama deve se passar alguns anos depois de 2019 e que a protagonista deve ser um mulher - uma participação de Harrison Ford já foi especulada. Notícia essa que, diante do resultado de Prometheus na retomada do universo Alien, deve ser encaras pelos fãs de Blade Runner com toda calma possível.

Versão original (1982) – Após uma conturbada produção, estreou nos cinemas com grande expectativa, mas não fez o sucesso de público e crítica previstos. Quando prazo e orçamento estouraram, os produtores assumirem o controle do filme e impuseram, por considerar a trama  sombria e confusa , a narração em off do ator Harrison Ford em várias cenas (algumas até estavam previstas no roteiro original, para acentuar e clima noir) . Criaram ainda um “final feliz”, com Deckard e a replicante Rachel partindo ao raiar do dia – com imagens captadas e não usadas por Stanley Kubrik para a abertura de O Iluminado. Sessões de meia-noite e o posterior lançamento em VHS tornaram Blade Runner filme de culto. Seu visual arrojado influenciou a emergente produção de videoclipes para a MTV, a moda e comerciais dos mais variados produtos. Com tempo, além da aproximação da realidade com temas abordados no longa (clonagem, engenharia genética, caos e degradação social das metrópoles, sociedades multiétnicas), Blade Runner consolidou sua posição com clássico do cinema.

Versão internacional (1982) – Em alguns países circulou essa cópia com três cenas violentas cortadas da versão original exibida nos EUA: a que o replicante Roy (Rurger Hauer) perfulha os olhos de seu criador ao matá-lo, outra em que a replicante Pris (Daryl Hannah) arrasta o policial Deckard (Harrison Ford) pelas narinas e uma terceira que mostra a mão de Roy sendo perfurada por um prego.

Versão do diretor (1992) – Em 1989, um funcionário da Warner, procurando a cópia de Blade Runner para uma sessão especial, encontrou uma versão do filme tal qual Scott pretendia lançá-la 10 anos antes. A exibição dessa versão então inédita fez grande sucesso e estimulou o diretor a relançar o filme, sem a narração e sem o final feliz – o que proporcionou uma nova leitura da obra. A principal mudança, no entanto, foi a inclusão de uma cena em que Deckard sonha com um unicórnio, referência ao fato de ele próprio talvez ser um replicante. Ridley Scott diz que é. Harrison Ford diz que isso é bobagem, que o tira é bem humano.

Versão definitiva (2007) – Além de melhorias de som e imagem, foi corrigida com a cena da morte da replicante Zhora (percebia-se claramente que era uma dublê quebrando as vidraças). A atriz Joanna Cassidy foi chamada filmar novos takes. Outra correção feita foi em relação o número de replicantes a serem mortos por Deckard. Um erro de continuidade informa dois números. Primeiro, o correto, quatro. Depois, quando lhe explicam que seis replicantes rebeldes fugiram para Terra e um já havia sido morto, fica claro que restam cinco. Isso porque as cenas da quinta replicante, Mary, não foram feitas por falta de tempo e grana (a atriz mostra seu desconsolo nos extras, primeiro por perder o papel de Pris para Daryl Hannah e depois por ver Mary limada). A cena com o número errado foi redublada e agora dizem a Deckard que dois deles já morreram em uma tentativa de invadir o prédio do engenheiro genético que os criou.

Original Print – Esta quinta versão do filme, raríssima, está presente nas edições especiais americanas dos DVDs. Na verdade, é a primeira, um copião exibido em sessões internas da Warner e em sessões para testar a receptividade do público. Tem uma seqüência de abertura diferente e narração em off em apenas poucas cenas, como indicava o roteiro original.

PS.: Por fim, não se pode desassociar em Blade Runner a imagem do som. Pois até a inesquecível trilha sonora do filme tem versões diferentes. O autor da trilha é o músico grego Vangelis. Por estar na época envolvido com o longa Carruagens de Fogo (que lhe valeu o Oscar por um dos temas mais conhecidos da história do cinema), ele deixou suas partituras a cargo da The New American Orchestra, que executa música que está no filme. Posteriormente, Vangelis lançou sua própria versão, com novos temas e leves mudanças nas faixas conhecidas.


eXistenZ e as mutações de Cronenberg

11 de junho de 2012 1

Depois de um filme como este, qual será o próximo? Esta é uma pergunta particularmente pertinente em se tratando do canadense David Cronenberg.

Um dos mais interessantes cineastas em atividade, Cronenberg tem emendado projetos muito distintos entre si desde eXistenZ (1999), até aqui a última de suas ficções científicas orgânicas e existencialistas calcadas em temas como mutações, biotecnologia e futurismo. Spider (2002) não proporcionou exatamente uma quebra em suas ambições estéticas, mas a obra-prima Marcas da Violência (2004) sim.

E se o longa seguinte, o igualmente ótimo Senhores do Crime (2007), deixou uma ideia de continuidade em suas inquietações, o que dizer da investigação da relação entre Freud e Jung em Um Método Perigoso (2011), um dos corpos mais estranhos – em Cronenberg, esta expressão nunca é por acaso – em sua filmografia? Mais: o que esperar de Cosmópolis (2012), definido como um filme-catástrofe que acompanha 24 horas na vida de um milionário nova-iorquino vivido pelo galã crepuscular – outra palavra de múltiplos significados – Robert Pattinson e que tem estreia no Brasil prevista para 10 de agosto?

Independentemente das respostas, voltar a eXistenZ faz cada vez mais sentido. O longa acaba de chegar ao DVD no Brasil, em lançamento da Magnus Opus – mais um caso de um bom filme lançado pela não muito considerada distribuidora de home vídeo. Trata-se de uma trama na qual, num futuro não determinado, uma criadora de jogos de realidade virtual (Jennifer Jason Leigh) é perseguida por fanáticos rivais. Seu parceiro de fuga, um pacato assistente de mar­keting (Jude Law), funciona como mediador da aproximação do espectador: ele inicialmente é uma figura estranha ao universo de imersão interativa no qual cada jogador recebe um plug na coluna vertebral para poder transcender os limites do organismo entrando num mundo paralelo e experimentando sensações extracorpóreas.

Aos poucos, como era de se prever, a distinção entre o real e o virtual ficam borradas. Nesse clima onírico, Cronenberg põe em debate temas da hora para além da evolução tecnocientífica que fazem Matrix, outra ficção científica lançada em 1999, no crepúsculo do milênio, parecer brincadeira de criança: o terrorismo internacional, a violência conspirativa, o fanatismo fundamentalista e a cada vez menos domada curiosidade acerca dos limites da existência.

O sentido de permanência de eXistenZ também se fortalece a partir de seu realismo visual – não há, no filme, aquela parafernália futurista que às vezes, ao contrário do que propõem seus realizadores, torna as produções do gênero tão datadas. Depois do menos inspirado Um Método Perigoso, nada melhor do que rever um bom Cronenberg para relembrar sua capacidade visionária de interpretar o homem e o seu tempo.

A ver o que será de Cosmópolis.