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Posts na categoria "memória"

O fim de uma grande parceria na Sala P.F. Gastal

29 de abril de 2013 0

Atualização: na noite desta segunda-feira foi anunciado que Marcus Mello assume a Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre. Boa sorte a ele e que seu ótimo trabalho como programador tenha continuidade na função de gestor.

Quem acompanha mais de perto a gestão e o funcionamento dos órgãos públicos ligados à área cultural conhece bem a realidade do cobertor curto, da falta de apoio de governos que não dimensionam a relevância do setor, do desinteresse da iniciativa privada por iniciativas que não geram alto impacto popular e dos administradores que, ou resignados ou desmotivados com a aridez financeira e os entraves burocráticos do dia a dia, tocam o bola em frente para cumprir tabela. Por isso, e em meio à marcha lenta em que seguem os grandes projetos culturais em Porto Alegre, como tão bem mostrou o Daniel Feix no Segundo Caderno desta segunda-feira, é que recebemos com tristeza o afastamento – não por vontade dele, diga-se – do Bernardo José de Souza da Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre.

Desde 2005 no cargo, Bernardo, com a fundamental parceria de Marcus Mello (ambos na foto acima), crítico de cinema e programador da Sala P.F. Gastal, sempre remou contra a maré para fazer daquele espaço no terceiro andar da Usina do Gasômetro um ponto de referência cinéfila no Brasil, pela alta qualidade de sua programação e pelo coelhos que a dupla, incrivelmente, costumava tirar da cartola. Figura antenada e viajada, Bernardo foi atrás de parcerias e, muitas vezes, dos próprios realizadores para viabilizar a exibição na Capital de uma programação que antes nos causava inveja por ficar restrita a Rio e São Paulo. Se formos entrar nas seara das artes visuais, o empenho de Bernardo permitiu que Porto Alegre recebesse dezenas de mostras, exposições e instalações badaladas em circuitos culturais dos EUA e da Europa.

Mas fico na área que acompanho mais de perto, a cinematográfica. E vale aqui destacar iniciativas memoráveis como essas abaixo, entre tantas, que fizeram a gente aqui no Segundo Caderno, a cada programação anunciada na P.F. Gastal – sempre acompanhada por catálogos e folders graficamente empenhados – nos perguntássemos: "Como eles conseguem?" Funcionário de carreira do município, Marcus Mello – essa é a nossa torcida – deve seguir tocando a programação Sala P.F. Gastal. Que ele ganhe um parceiro à altura, como foi Bernardo nessa já inesquecível dobradinha que formaram para mostrar o quanto a cena cultural de Porto Alegre carece de iniciativas pessoais que se sobreponham à miopia e à inoperância dos governos.

— Mostra Ásia, que apresentou na Capital filmes de dois cineastas orientais aclamados nos principais festivais do mundo: Hou Hsiao-hsien (Millennium Mambo e Three Times) e Apichatpong Weerasethakul (Síndromes e um Século e Mal dos Trópicos).

— A presença na Capital do cineasta americano Jonathan Caouette, para a apresentar o desconcertante documentário Tarnation.

— Sessão exclusiva no Brasil de Hunger, premiado longa de estreia do diretor britânico Steve McQueen (posteriormente conhecido por Shame).

— Restrospetiva da obra da diretora francesa Claire Denis, um dos principais nomes do cinema contemporâneo, com presença da própria.

— Mostra Pensando o You Tube: A TV do Futuro ou o Futuro das Imagens?, que exibiu, em 2006, pérolas audiovisuais desengavetadas com a popularização do YouTube.

— Restrospetiva da obra de Ke n n e t h  A n g e r, polêmico e cultuado realizador americano que veio à Capital conferir a instalação que exibiu seus principais filmes.

— E, mais recentemente, a mostra dedicada a Jonas Mekas, realizador lituano que foi parceiro de Andy Warhol e padrinho do cinema norte-americano de vanguarda dos anos 60 e 70.

— Bernardo sai deixando encaminhada uma retrospectiva com filmes do cultuado cineasta húngaro Béla Tarr.

Adeus, Roger Ebert

04 de abril de 2013 1

Roger Ebert, que morreu nesta quinta-feira aos 70 anos, foi um dos mais célebres críticos de cinema de seu tempo. O mais popular, provavelmente. "Um crítico cinematográfico com alma de poeta", segundo texto de Rick Cogan, um de seus colegas no Chicago Sun-Times. Um homem que amava os filmes com devoção, percebia-se em muitos artigos que ele publicou, como estes dois linkados abaixo, em inglês, sobre títulos lançados recentemente.

Amor, de Michael Haneke

O Quarteto, de Dustin Hoffman

Terça-feira passada, Ebert havia anunciado em seu blog que iria diminuir o ritmo em razão do tratamento do câncer que debilitou severamente sua saúde. Disse que iria começar a realizar um antigo sonho: rever seus filmes preferidos e escrever apenas eventualmente.  Mas Ebert morreu surpreendendo a todos seu admiradores. Ele foi o primeiro crítico de cinema  ganhar o prêmio Pulitzer.

Conhecido por seu trabalho como resenhista no jornal Chicago Sun-Times, Ebert ficou conhecido por qualidades raras no exercício da crítica voltada a um público amplo e heterogêneo: harmonizava a imensa cultura cinéfila com a prosa clara e a abordagem profunda, sem nunca se deixar levar pelas afetações que contaminam, por exemplo, aquele tipo de análise em que o crítico disputa o holofote com o filme criticado.

Nos textos de Ebert se encontra opinião, informação, humor, emoção e eventuais digressões que podem levar a caminhos prazerosos como a descoberta de um título obscuro ou um de diretor esquecido, ou ainda a referências que espelham o estado de espírito da época em que foi escrito.

Um de seus textos mais memoráveis  é sobre A Doce Vida, de Fellini, reproduzida em um de seus livros lançados no Brasil. Na análise, Ebert fala de como suas impressões sobre o filme ganharam novas perspectivas no decorrer dos anos e das revisões, à medida que envelheceu e compreendeu melhor o desencanto existencial do personagem de Marcello Mastroianni.

Além das resenhas no jornal, Ebert mantinha um blog e era bastante ativo nos seus perfis no Facebook e no Twitter. Escreveu mais de 300 críticas em 2012, apesar de suas limitações físicas. Teve presença de destaque na televisão, criou seu próprio festival de cinema (o Ebertfest), costumava fazer concorridas análises de filmes quadro a quadro em universidades americanas e era muito requisitado para gravar comentários em DVDs. A paixão cinéfila, mais que o ofício de crítico, o aproximou de aficionados como Martin Scorsese, de quem era amigo – o diretor está envolvido na produção de um documentário sobre Ebert.

" Nesta etapa da minha vida, além de escrever sobre filmes, posso escrever sobre como é como lidar com os desafios e as limitações que a doença impõe a você . O câncer voltou e passei muitos dias no hospital. Nos dias ruins, posso escrever sobre a vulnerabilidade que acompanha a doença. Nos dias bons, possa me extasiar com um filme tão bom que me transporta para além da doença", disse em seu comunicado de terça-feira.

Ebert havia anunciado ainda o lançamento, na próxima semana, de seu novo site, que abrigará um acervo de mais de 10 mil de seus comentários e também textos de seus colaboradores em dezenas de países, iniciativa que permitia espaço a títulos de cinematografias periféricas como a asiática e a latino-americana. Tinha entre seus projetos ainda um novo programa de TV e a criação de games e aplicativos sobre cinema.

Leia mais sobre a morte de Roger Ebert.

Veja um vídeo  (em inglês) em que Ebert relata a experiência de falar por meio de um programa de computador e, abaixo, outro, do programa de TV que apresentava com o crítico Gene Siskel, comentando Os Bons Companheiros, de Scorsese.

Jesse e Celine na Grécia

28 de março de 2013 0

Começou a circular nesta quinta-feira o trailer de Antes da Meia-Noite, terceiro capítulo da cultuada saga de encontros e desencontros entre o americano Jesse (Ethan Hawke) e a francesa Celine (Julie Delpie).  Eles  se cruzaram — e se apaixonaram —numa viagem de trem pela Europa rumo a Viena, em Antes do Amanhecer (1999), e voltaram a falar sobre a vida em Paris, trama de Antes do Pôr-do-Sol (2004).

Como no segundo filme da trilogia, Antes da Meia-Noite, que mostra o casal discutindo a relação na Grécia, tem roteiro assinado pelos atores em parceria com o diretor Richard Linklater. A estreia no Brasil está marcada para 7 de junho.

Um novo de Schrader e um velho de Friedkin

26 de março de 2013 0

Lindsay Lohan em "The Canyons" / IFC Films


Um dois-em-um sobre dois grandes cineastas americanos famosos pelo temperamento vulcânico e que optaram por seguir à margem da grande indústria: Paul Schrader e William Friedkin.

Li só agora a sensacional reportagem sobre os bastidores das filmagens de The Canyons, novo longa de Schrader, realizado em regime de mutirão entre amigos. O texto de Stephen Rodrick, publicado em janeiro no jornal The New York Times e reproduzido pela revista Piauí em sua edição de fevereiro, descreve o que muitos já previam quando o diretor escalou como sua nova estrela a garota-encrenca Lindsay Lohan: caos, ânimos exaltados e um filme que por pouco não chegou ao fim. Leia aqui o saboroso relato de Rodrick, na versão em português publicada na Piauí.

Adendo: Schrader fez fama em Hollywood anos 1970, primeiro como roteirista — escreveu para Martin Scorsese longas como Taxi Driver e Touro Indomável. Ele arriscou sua sobrevivência física e artística com um temperamento ciclotímico turbinado por excessos químicos e etílicos e a tendência suicida (costumava andar armado). Estreou como diretor em 1980, em Gigolô Americano e realizou bons filmes como A Marca da Pantera, Mishima e Temporada de Caça. Antes de The Canyons, apresentou o ótimo e impactante Adam — Memórias de Uma Guerra (2008), lançado no Brasil direto em DVD.

Confira o trailer de The Canyons:

Já Friedkin, de quem falamos há pouco por conta de seu novo filme, Killer Joe, em cartaz na Capital (veja post abaixo) lançará a versão restaurada do filme que marcou sua desgraça em Hollywood: O Comboio do Medo (1977), refilmagem de O Salário do Medo (1953), clássico do francês Henri-Georges Clouzot. Diante do grande fracasso comercial do filme à epoca, de nada adiantou o prestígio dos Oscar que ganhou com Operação França (1971) e os milhões de dólares que faturou com O Exorcista (1973). Como era um figura detestada por todos com quem trabalhava, por sua arrogância e truculência, Friedkin viu as portas dos estúdios serem fechadas em seu nariz e entrou no caminho do cinema independente. Após a première no Festival de Veneza, em setembro, Comboio do Medo ganhará edição especial em Blu-ray e DVD.

Sempre teremos Casablanca

26 de novembro de 2012 3


Era, lá no começo da história, para ser mais um filme de aventura da linha de produção da Warner, tanto que o elenco de protagonistas inicialmente pensado era de estrelas da casa não tão estreladas assim: Ronald Reagan, Ann Sheridan e Dennis Morgan. Mas há exatos 70 anos, neste mesmo 26 de novembro, quando foi realizada em Nova York a primeira sessão pública de Casablanca, os chefões da Warner, os críticos e os espectadores presentes na première perceberam estar diante de uma daquelas obras raras do cinema que perduram no tempo tanto por sua inquestionável qualidade quanto pela mitologia que cerca sua realização. Quem viu Casabalanca não se cansa de rever.  E o prazer de cada reencontro é sempre único. É daqueles filmes sobre os  quais já não cabem digressões racionais acerca de questões formais — estas  já foram todas exaustivamente feitas. A relação com Casablanca é passional mesmo.

Casablanca é o feliz resultado de uma série de fatores improváveis que se somaram de forma positiva em sua conturbada realização. Primeiro, surgiu o interesse do chefe de produção da Warner, Hal B. Wallis, por uma peça teatral não encenada, Everybody Comes to Rick's, de Murray Burnett e Joan Alison, que estes haviam escrito a partir de vivências com os êxodos provocados pela ascensão do nazismo na Europa.

As alterações no projeto começaram pelo nome do filme, agora o mais sonoro e "exótico" Casablanca. A trama, roteirizada pelos irmãos gêmeos Julius e Philip Epstein partia do cenário de tensão e espionagem ambientado no Norte da África, região que abrigava expatriados europeus, nazistas invasores e aqueles tipos pitorescos que jogavam para os dois lados conforme o vento e o soldo.

Para a direção, foi chamado um dos gigantes da época, ele próprio um dos cineastas estrangeiros importados por Hollywood, o húngaro Michael Curtiz – conhecido por Capitão Blood, As Aventuras Robin Hood e o filme de gângster Anjos de Cara Suja e folclórico por ninguém compreender o que ele dizia no set com seu sotaque carregado.

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman chegaram aos papéis de suas vidas por vias tortas. Ele, depois que o astro George Raft, outra opção para ser Rick, não se interessou pelo personagem. Ela, após seu passe ser alugado do poderoso produtor David O. Selznick, que relutou em ceder a estrela que tinha sob contrato para um trabalho que, até então, não tinha sequer o roteiro fechado.

No documentário You Must Remember This: A Tribute to Casablanca (1992), Pia Lindström, filha de Ingrid, explica que sua mãe sentia-se muito desconfortável por filmar sem saber com quem sua personagem, Ilsa, ficaria. Com Rick, paixão de quem se separou quando Paris foi tomada pelos alemães, ou com Victor (Paul Henreid), seu atual companheiro, um líder da resistência aos nazistas? Essa dúvida foi esclarecida apenas nos instantes finas das filmagens, resultando no antológico desfecho. Curtiz brincava que essa angústia do elenco com os rumos de seus personagens era boa porque se refletia na dinâmica das interpretações.

E embora tenha conquistado junto com os Oscar de melhor filme e direção também o de roteiro, Casablanca é exemplo de um script realizado sob um caos (controlado, mas um tormento numa arte em que o planejamento é regra) que subverte qualquer manual do gênero. Os irmãos Epstein escreveram a primeiro metade do filme, na qual se sobressai o tom da aventura de espionagem, com ação e humor inspiradíssimo simbolizado em diálogos memoráveis como esses:

— Como você vai parar aqui, Rick — pergunta o movediço inspetor de polícia Louis Renault (Claude Rains).

— Vim atrás das fontes.

— Fontes, no deserto?

— Pois é, acho que me informaram mal...

(...)

— Qual sua nacionalidade? – indaga a Rick o major nazista Strasser (Conrad Veidt).

— Bêbado.

— Ah, então isso faz de você um cidadão do mundo.

Em meio à realização do filme, os Epstein se afastaram do projeto para ajudar no braço cinematográfico do esforço de guerra americano. Entrou em cena o roteirista Howard Koch, responsável pela guinada da trama ao drama romântico, à exaltação dos valores democráticos e à glória de se lutar por uma causa justa, temas que pontuam a segunda metade de Casablanca — Koch escreveu, por exemplo, a emocionante sequência em que Victor comanda o coral da A Marselhesa no bar de Rick para abafar a cantoria marcial dos soldados alemães.

Casablanca teve ainda a mão do roteirista Casey Robinson, contratado para escrever o flashback que mostra Rick e Ilsa em Paris ("São canhões ou meu coração batendo?", pergunta ela. "Nós sempre teremos, Paris", consola ele mais adiante). Foi um pedido dos produtores, que acharam necessário mostrar ao espectador a razão de Rick ficar tão abalado ao rever Ilsa e ouvir o pianista Sam tocar As Time Goes By (canção que não foi feita para o filme, pois havia sido lançada em 1931).

— De todos os botecos de todas as cidades do mundo, ela foi entrar justamente no meu — amarga Rick.

Os irmãos Epstein voltaram em tempo de escrever toda a sequência final, a do aeroporto. Pensaram em incorporar à trama a reviravolta em curso na II Guerra, com a invasão aliada no norte da África. O projeto seguiu o rumo previsto, mesmo porque os rumos da grande guerra naquele instante ainda eram incertos. Mas a frase antológica dita por Rick a Renault foi incluída posteriormente ao fim das filmagens, com Bogart chamado em casa para fazer a dublagem, e teria sido escrita por Wallis:

— Louie, eu penso que este é o começo de uma maravilhosa amizade.

Ainda está em tempo de comemorar estes 70 anos revendo Casablanca. Sorte de quem vai assistir a essa joia pela primeira vez.


Viver a Vida, 50 anos

20 de setembro de 2012 1

Viver a Vida, o Godard que me arrebatou quando da descoberta do cinema francês dos anos 1960, completa hoje 50 anos. Não é o melhor filme do diretor (meu voto vai para O Desprezo), mas é um dos mais significativos de toda a sua carreira: funciona como súmula de alguns dos princípios formais da nouvelle vague, escancara sua paixão pela musa Anna Karina e é um dos mais bem-sucedidos em sua proposta de narrativa fragmentada – nos 12 episódios referidos no subtítulo original (em francês, Vivre sa Vie: Film en Douze Tableaux). Muito da tristeza tocante de seu final se deve, além da precisa construção da protagonista desiludida que acaba se dedicando à prostituição, ao encontro que ela tem com o filósofo francês Brice Parain. Com ele, trava um longo diálogo no décimo primeiro capítulo do filme, em sequência reproduzida abaixo. Fica como homenagem à efeméride:

Sobre Kane, Hitchcock e a lista do BFI

07 de agosto de 2012 2

O dia chegou. Até então imbatível nas listas de melhor filme de todos os tempos, eis que Cidadão Kane saiu do topo. Ao menos no tradicional levantamento do British Film Institute (BFI), feito com críticos a cada 10 anos, o novo campeão é Um Corpo que Cai. Em seis décadas, é a primeira vez que Kane é desbancado.

Teria a obra-prima de Orson Welles perdido força com o tempo? Estaria o culto a Hitchcock, que teve início com a nova onda francesa dos anos 1950 e 60, fortalecido entre as gerações mais jovens? Por que este filme do mestre do suspense e não Psicose, Interlúdio ou Intriga Internacional? E por que não O Encouraçado Potemkin ou O Poderoso Chefão, principais “ameaças” a Kane em tantas listas passadas e inclusive na mais recente do American Film Institute (AFI), de 2007?

Algumas respostas – e outras perguntas – começam a aparecer por aí. Roger Ebert, o mais popular crítico norte-americano, votante na lista do BFI, disse em seu blog que já esperava a renovação, tendo em vista a gradual ascensão de Um Corpo que Cai. Dez anos atrás, a diferença entre o 45º longa de Hitchcock e o primeiro de Welles era de cinco votos. Isso num universo de 846. Agora, o filme estrelado por Kim Novak e James Stewart roubou a liderança e abriu 34 votos de distância – 191 a 157, contra 107 do terceiro colocado (Tokyo Story).

– Penso que uma das razões possíveis da queda de Cidadão Kane seja uma espécie de esgotamento. Depois de meio século dizendo que ele é o maior título de todos os tempos, os críticos se cansam e se voltam para outros trabalhos igualmente extraordinários – avalia o crítico brasileiro José Geraldo Couto, lembrando também que há uma natural renovação da crítica e dos próprios realizadores. – Truffaut dizia que Kane era o filme que mais tinha inspirado novos cineastas. Mas as gerações que sofreram essa influência estão acabando, e para as novas gerações as suas inovações já são moeda corrente.

Não custa reafirmar o quão revolucionária foi a estreia de Orson Welles – algo que não se pode dizer do longa de Hitchcock, como pontua Luiz Zanin Oricchio, presidente da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine):

– Eu jamais tiraria Kane da primeira posição, embora considere Um Corpo que Cai a obra-prima de Hitchcock. Ok. Só que Kane é muito mais inovador e completo. O que houve, a meu ver, é efeito da revalorização de Hitchcock por Truffaut e o pessoal da nouvelle vague. De alguma forma, esse trabalho crítico dos franceses mudou a posição de Hitchcock no ranking da crítica e esse efeito passou para novas gerações que, curiosamente, sentem-se ligadas mais ao pensamento da nouvelle vague do que a tendências concorrentes.

O olhar apaixonado da nova crítica para com os filmes e as ideias do cinema francês pós-Acossado é perceptível, e talvez não se repita com tanta intensidade entre os cineastas. Na lista paralela que o BFI fez apenas com a votação dos diretores (358 no total), Tokyo Story lidera. Kane e 2001 – Uma Odisseia no Espaço estão empatados em segundo. Um Corpo que Cai é o sétimo, ao lado de O Poderoso Chefão e atrás de 8 ½ (que é o quarto), Taxi Driver (o quinto) e Apocalipse Now (sexto).

– É grave, a meu ver, um filme como Encouraçado Potemkin aparecer apenas na 11ª posição, o que indica desvalorização do cinema político. Talvez esta desvalorização se reflita também na omissão da obra-prima de Chaplin Tempos Modernos entre os 50 melhores – diz Zanin.

Professor e crítico em São Paulo, Sérgio Rizzo considera “mais reveladora” a ascensão de Um Corpo que Cai do que a queda “ligeira, ligeiríssima” de Cidadão Kane:

– Este movimento confirma o elevado prestígio de Hitchcock, espécie de representante de um “esperanto” do cinema, capaz de agradar a especialistas e a uma grande massa de espectadores, inclusive jovens, como demonstrou o público da retrospectiva de sua obra e dos cursos em torno dela realizados em 2011. Ministrei um desses cursos, na Casa do Saber, e cerca de metade da turma que foi estudar Hitchcock tinha menos de 30 anos.

Rei deposto

O segundo lugar de Kane na lista do British Film Institute (BFI) representa uma queda em relação ao que se viu nas últimas décadas. É possível, no entanto, interpretá-lo de outro modo: só um grande filme, talvez o maior de todos, se mantém por tanto tempo no topo.

– A “medalha de prata” de Kane equivale a um atestado de que o longa resiste como um marco para a compreensão do cinema moderno – defende Sérgio Rizzo, crítico de São Paulo. – Mais de 70 anos depois de seu lançamento, lá continua ele, ainda firme e forte.

Enquanto Rizzo diz “soltar rojões” para a colocação de Tokyo Story, do japonês Yasujiro Ozu, terceiro mais lembrado entre os 846 críticos ouvidos no levantamento do BFI e primeiro entre os 358 cineastas, Luiz Zanin Oricchio disse a ZH achar “pouco” a 10ª colocação de 8 ½, o “crème de la crème de Fellini”. Mas a lista é “respeitabilíssima” e “não contém qualquer aberração”, afirma Zanin.

Contestáveis são os rankings que se propagam em votações massivas de fãs via internet, caso, por exemplo, daquele que é exibido pelo IMDb.com, o maior banco de dados do cinema. Mesmo que só tenha votos de produtores e cinéfilos cadastrados, alguns títulos já se aproximam de 1 milhão de avaliações, ostentando notas bizarras como a que conduz o drama Um Sonho de Liberdade (1994), com Tim Robbins e Morgan Freeman, ao topo entre os melhores filmes já lançados.

– No fundo, acho tudo isso muito divertido – diz Ana Maria Bahiana, jornalista brasileira que faz a cobertura de Hollywood em Los Angeles. – Uma lista é só isso: a opinião de um grupo de pessoas num determinado momento. Querer ler mais do que isso num ranking é dar a ele uma importância que ele não tem. Apesar de, como disse, ser divertido.

A troca voraz de informações dos novos tempos, como lembra o americano Roger Ebert em pensata sobre a nova lista do BFI publicada em seu blog, faz com que as listas recentes sejam particularmente diferentes daquelas publicadas em outras décadas. “Na era do DVD, todos os 50 primeiros colocados estão disponíveis”, escreve Ebert, “ao passo que, em 1952 (quando saiu o primeiro ranking do BFI), a não ser por sessões isoladas, a maioria deles só podia ser encontrada em algumas poucas cidades grandes”.

É interessante notar, também, a ausência de produções recentes – algo que não acontecia antes, vide o exemplo de A Aventura, de Antonioni, vice-campeão no levantamento feito em 1962, apenas dois anos após seu lançamento. Na lista deste ano, há apenas dois filmes lançados depois de 2000 entre os 50 mais bem colocados: Amor à Flor da Pele (2000), de Wong Kar Wai, e Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch, em 24º e 28º, respectivamente.

Em compensação, há três longas lançados nos anos 1920 entre os 10 primeiros (Aurora, O Homem com a Câmera e A Paixão de Joana d’Arc). Além disso, o 11º colocado é O Encouraçado Potemkin, que Sergei Eisenstein lançou em 1925, e o 12º, O Atalante, que Jean Vigo lançou em 1934.

Só depois deles, em 13º, é que vem Acossado (1959), de Godard, o marco inicial da nouvelle vague tão cultuada pelos críticos mais jovens. O que não deixa de ser curioso, embora talvez signifique pouco além de uma opinião de um grupo de especialistas num determinado momento.

O novo ranking do BFI, votação de críticos e especialistas:
1. Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchc1ock (1958)
2. Cidadão Kane, de Orson Welles (1941)
3. Tokyo Story, de Yasujiro Ozu (1953)
4. A Regra do Jogo, de Jean Renoir (1939)
5. Aurora, de F.W. Murnau (1927)
6. 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (1968)
7. Rastros de Ódio, de John Ford (1956)
8. O Homem da Câmera, de Dziga Vertov (1929)
9. A Paixão de Joana d’Arc, de Carl Theodor Dreyer (1927)
10. 8 ½, de Federico Fellini (1963)

O ranking paralelo do BFI, com votos apenas de cineastas:
1. Tokyo Story, de Yasujiro Ozu (1953)
2. 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (1968)
Cidadão Kane, de Orson Welles (1941)
4. 8 ½, de Federico Fellini (1963)
5. Taxi Driver, de Martin Scorsese (1976)
6. Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola (1979)
7. O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola (1972)
Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock (1958)
9. O Espelho, de Andrey Tarkovsky (1974)
10. Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica (1948)

O mais recente filme do American Filme Institute (AFI), de 2007:
1. Cidadão Kane, de Orson Welles (1941)
2. O Poderoso Chefão, de F.F. Coppola (1972)
3. Casablanca, de Michael Curtiz (1942)
4. Touro Indomável, de Martin Scorsese (1990)
5. Cantando na Chuva, de Stanley Donen e Gene Kelly (1952)
6. ...E o Vento Levou, de Victor Fleming (1939)
7. Lawrence da Arábia, de David Lean (1962)
8. A Lista de Schindler, de Steven Spielberg (1993)
9. Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock (1958)
10. O Mágico de Oz, de Victor Fleming (1939)

O ranking do IMDb.com, com votação de cinéfilos pela internet:
1. Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont (1994)
2. O Poderoso Chefão, de F.F. Coppola (1972)
3. O Poderoso Chefão II, de F.F. Coppola (1974)
4. Pulp Fiction, de Quentin Tarantino (1994)
5. Três Homens em Conflito, de Sergio Leone (1966)
6. 12 Homens e uma Sentença, de Sidney Lumet (1957)
7. A Lista de Schindler, de Steven Spielberg (1993)
8. Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan (2008)
9. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, de Peter Jackson (2003)
10. Star Wars – Episódio V: O Império Contra-Ataca, de Irvin Kershner (1980)

Antonioni e o eclipse das relações

06 de agosto de 2012 1

Não faz muito, A Aventura, A Noite e O Eclipse saíram isoladamente em DVD. Mas fã que é fã vai gostar mesmo é da reunião dos três clássicos na bela caixa que a distribuidora Versátil acaba de disponibilizar no mercado, apinhada de extras, em comemoração aos seus 50 anos.

Em se tratando destes três filmes, os fãs não são poucos.

Lançados entre 1960 e 1962, os longas-metragens compõem a chamada Trilogia da Incomunicabilidade do italiano Michelangelo Antonioni (1912 – 2007), um dos marcos do moderno cinema europeu. No fundo, seus temas são os mais ordinários – e fascinantes – que o cinema abordou de Rossellini a Wong Kar Wai: a glória e a agonia dos relacionamentos a partir das dificuldades de acomodar ambições individuais a um contexto de coletividade, ainda que esta coletividade, muitas vezes, seja representada pela simples constituição de um casal.

Coube a Antonioni, e também a Godard, entre outros contemporâneos, levar a chamada "crise do casal" a um posto nobre entre as abordagens ditas autorais na produção cinematográfica do pós-Guerra. A curiosidade é que tanto Antonioni quanto Godard, e igualmente Rossellini, foram casados com suas musas, respectivamente Monica Vitti, Anna Karina e Ingrid Bergman, estrelas que acabaram inspirando e também protagonizando alguns de seus filmes sobre o assunto.

A linda Monica Vitti é personagem-chave nos três longas da Trilogia da Incomunicabilidade. Em A Aventura (1960), interpreta a amiga de uma garota que some durante a uma viagem a uma ilha do Mediterrâneo, e que acaba flertando com seu namorado quando eles procuram pela desaparecida. Em A Noite (1961), é a bela estranha cuja presença ajuda a evidenciar a deterioração do casamento entre os personagens de Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni. Em O Eclipse (1962), ela sai de uma relação para emendar outra com o belo porém ausente personagem de Alain Delon, mas a dificuldade de estabelecer uma sintonia entre eles vai determinar um vazio intransponível entre um e outro.

A longa e silenciosa sequência de imagens de uma Roma inabitada, ao fim do terceiro e último filme, usa um recurso fundamental da forma da trilogia – a emulação da arquitetura dos ambientes na construção dramática – para resumir este vazio instransponível entre os homens e as mulheres de Antonioni. O mais interessante é observar que a impossibilidade do amor e da realização pessoal a partir da aproximação do outro se dá não pela própria presença do outro, mas por aquilo que esta presença desperta na gente. Mais do que isso, A Aventura, A Noite e O Eclipse são ensaios poderosos sobre a opressão que a vida social é capaz de promover. São a perfeita materialização do existencialismo em voga em sua época – símbolo da forma com que uma das mais notáveis gerações de artistas do século 20 vislumbrou a derrota das relações diante dos apelos oferecidos pela modernidade.

Para constatar sua atualidade formal e temática, convém rever os três longas com tempo – que hoje, meio século depois, parece ainda mais restrito. Detalhe para os extras: há depoimentos de Antonioni e Monica Vitti, trailers e cinejornais da época, filmes curtos sobre a passagem de O Eclipse pelo Festival de Cannes (no ano seguinte à consagração de A Noite) e sobre as ideias do cineasta que com seu olhar pessimista "mudou o mundo" – para repetir uma expressão do próprio documentário que vem junto ao box da trilogia.

A Aventura (L'Avventura)
Drama, Itália/França, 1960, 143min. Com Gabriele Ferzetti, Lea Massari e Monica Vitti. Durante um cruzeiro pela costa da Sicília, uma mulher desaparece. Seria assassinato, acidente ou suicídio? Enquanto a procuram, seu namorado e sua melhor amiga começam a se envolver amorosamente. Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes.

A Noite (La Notte)
Drama, Itália/França, 1961, 115min. Com Jeanne Moreau, Marcello Mastroianni e Monica Vitti. Após 10 anos de casamento, Lidia e Giovanni passam uma noite permeada de angústia e luxúria, numa busca involuntária de respostas para a crise de seu relacionamento. Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim.

O Eclipse (L'Eclisse)
Drama, Itália/França, 1962, 126min. Com Monica Vitti, Alain Delon e Francisco Rabal. Logo após terminar o relacionamento com o namorado, Vittoria conhece Piero, um jovem operador da bolsa de valores. Apaixonados, iniciam um conturbado romance pelas ruas de Roma. Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes.

Chris Marker (1921-2012)

30 de julho de 2012 2

Filósofo, documentarista, fotógrafo e escritor, o francês Chris Marker morreu em Paris, aos 91 anos. No dia de seu aniversário, bizarra coincidência registrada no mês passado com o brasileiro Carlos Reichenbach. Marker (pronuncia-se Markér) foi tudo isso que está ali na primeira frase, parceiro de Alain Resnais e Costa-Gavras e ainda um prolífico autor de curtas-metragens, entre eles a obra-prima absoluta La Jetée (1962), sempre citado como o filme que inspirou o longa Os 12 Macacos (1995), de Terry Gillian.

Vamos deixar bem claro: em seus pouco mais de 26 minutos de duração, Lá Jetée é um dos maiores filmes de ficção científica de todos os tempos, independentemente de ter ajudado a dar vida a outro projeto mais conhecido pelo público. Marker dizia se tratar de um "foto-romance", já que é composto (quase) exclusivamente de "fotografias filmadas". As imagens congeladas ilustram uma história, toda ela narrada em off, sobre as lembranças de um sobrevivente da Terceira Guerra Mundial que vive como prisioneiro nos subterrâneos de uma Paris destruída.

Trata-se de um ensaio poético fascinante sobre a memória, que você pode assistir na íntegra abaixo. Fica como homenagem a um dos grandes nomes do cinema do século 20.

Carlão, Fausto e o paraíso imaginário

27 de junho de 2012 0

Carlos Reichenbach, morto há poucos dias aos 67 anos, será homenageado nesta sexta-feira com uma edição especial do projeto Raros da Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. A sessão, gratuita e com início marcado para as 20h30min, é uma oportunidade que o público da cidade tem para ver no cinema Filme Demência (1986), que o próprio Carlão considerava o seu melhor longa.

A homenagem é especial porque o cineasta era um admirador da proposta do Raros, que foi criado em maio de 2003 e lhe inspirou a realizar as populares Sessões do Comodoro no Cinesesc de São Paulo. Carlão era um colaborador do Raros, contribuindo com o envio de vários filmes, avisa o pessoal da P.F. Gastal. Foi o convidado da edição número cem do projeto, realizada há exatos cinco anos, em 22 de junho de 2007. Na ocasião, participou de uma sessão histórica, exibindo a versão recém-restaurada de seu clássico Lilian M – Relatório Confidencial (1975).

A trama de Filme Demência, escrita em conjunto com o crítico de cinema Inácio Araújo, acompanha a trajetória de Fausto, um industrial à beira da falência que num momento de crise rompe seus  laços familiares e, munido de uma arma, mergulha na noite de São Paulo em busca de um paraíso imaginário. Trata-se de uma livre adaptação do Fausto de Goethe, transposto para a realidade brasileira. Os comentários serão do jornalista Carlos Thomaz Albornoz e do montador e professor de cinema Milton do Prado, dois amigos e admiradores de Reichenbach em Porto Alegre (Albornoz chegou a atuar em Bens Confiscados, que Carlão rodou no litoral gaúcho e lançou em 2004).

Ainda homenagens: a Abraccine, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, publicou um dossiê com diversos textos sobre o Comodoro, entre os quais uma entrevista que fiz com o mestre em 2001, quando ele foi homenageado no Festival de Gramado. Vá ao blog/site da entidade, clicando aqui, e desça até a Parte I para ler. E leia também o Adeus ao Comodoro publicado em ZH um dia após a sua morte. Viva Carlão!

Blade Runner, 30 anos

25 de junho de 2012 0

Em 25 de junho de 1982, chegava aos cinemas dos EUA Blade Runner, filme que ao estrear no Brasil, um mês depois, dia 26 de julho, ganhou o subtítulo O Caçador de Andróides (com o devido acento).  Nem a crítica, tampouco o público reconheceu de imediato a qualidade daquele que o tempo e o progressivo culto dos fãs consolidaria como um marco da ficção científica. Costuma se relacionar esse culto à redescoberta do filme com  a versão que o diretor Ridley Scott lançou em 1992. De fato, as mudanças que ele fez jogaram nova luz sobre a distopia futurista que segue vívida e impactante  30 anos depois. Mas esse reconhecimento vem de antes, assim que o longa original começou a circular em VHS e teve o tempo devido para ser depurado.

Antes de prosseguirmos, uma dica. O blog amigo Mundo Livro celebra a data com  textos sobre Philip K. Dick,  autor do romance que inspirou Blade Runner, e sobre as diferenças entre livro e filme.

Não custa relembra aos que chegam agora. Blade Runner, terceiro longa de Scott, sucessor de outra joia da ficção científica, Alien – O Oitavo Passageiro (1977), foi renegado pelo diretor em seu lançamento. Depois de ele estourar o orçamento e criar um clima bem ruim no set por conta de seu perfeccionismo e da antipatia mútua entre ele e o ator protagonista, Harrison Ford, Blade Runner foi finalizado a sua revelia pelos produtores, que acrescentaram a narração em off, para “ajudar o espectador a compreender melhor o enredo”,  e pelo final que usou cenas externas não aproveitadas por Stanley Kubrick em O Iluminado.

Eu sempre achei essa versão original tão boa quanto a “versão do diretor” que Scott lançou em 1992. Mas ele também não ficou satisfeito com essa, alegando que trabalhou às pressas para cumprir o prazo do lançamento comemorativo aos 10 anos do lançamento. Nesse corte, Scott eliminou a narração em off, mudou o final e deixou explícita a sugestão de ser Deckard, o caçador de androides vivido por Harrison Ford, também um dos chamados replicantes.

Então, em 2007, Scott apresentou no Festival de Veneza seu “final cut”, versão que, garante ele, seria a definitiva (veja abaixo um resumo de todas as versões conhecidas do filme).  Nos últimos anos, Blade Runner ganhou diferentes edições em DVD e Blu-ray. E tem mais uma saindo agora, comemorativa aos 30 anos do lançamento. É uma caixa que traz tudo o que já saiu antes, incluindo o corte final em Blu-ray e DVD e as outras versões do filme, mais extras inéditos, livreto com mais de mil imagens e a miniatura do veículo/nave spinner.

O material extra que tem saído nessas reedições é por demais saboroso para fãs novos e veteranos e reforça a mitologia perene de Blade Runner. O filme sobrevive como obra visionária e referencial tanto em seu conceito sombrio do futuro nas questões existenciais que aborda antecipando questões éticas, científicas e religiosas relacionadas à engenharia genética.

Entre as cenas de bastidores recuperadas, estão ensaios com o elenco.  Lembram da bela cena em que o replicante Roy (Rutger Hauer), ao morrer, deixa escapar de sua mão uma pomba branca? Pois a tal pomba, encharcada pela chuva constante característica do filme, não conseguia voar, devido ao peso da água, mostra o making of. A solução foi inserir a cena de outra pomba voadora. Hauer, aliás se dedicou com tanto empenho ao papel que o crédito pela seqüência final do filme é todo dele. Foi do ator a ideia da pomba e foi ele quem escreveu, no set, o antológico e emotivo discurso final de Roy, que termina com “(...) esses momentos serão perdidos, como lágrimas na chuva. Hora de morrer” - a fala original prevista no roteiro era muito piegas, lembra Hauer.

Aqui seguem um pouco mais detalhadas as principais diferenças entre as cinco (!) versões de Blade Runner, que, a rigor, são variações de apenas duas . E fica a expectativa da sequência anunciada por Scott, ainda sem data prevista de produção. O diretor antecipou apenas que a trama deve se passar alguns anos depois de 2019 e que a protagonista deve ser um mulher - uma participação de Harrison Ford já foi especulada. Notícia essa que, diante do resultado de Prometheus na retomada do universo Alien, deve ser encaras pelos fãs de Blade Runner com toda calma possível.

Versão original (1982) – Após uma conturbada produção, estreou nos cinemas com grande expectativa, mas não fez o sucesso de público e crítica previstos. Quando prazo e orçamento estouraram, os produtores assumirem o controle do filme e impuseram, por considerar a trama  sombria e confusa , a narração em off do ator Harrison Ford em várias cenas (algumas até estavam previstas no roteiro original, para acentuar e clima noir) . Criaram ainda um “final feliz”, com Deckard e a replicante Rachel partindo ao raiar do dia – com imagens captadas e não usadas por Stanley Kubrik para a abertura de O Iluminado. Sessões de meia-noite e o posterior lançamento em VHS tornaram Blade Runner filme de culto. Seu visual arrojado influenciou a emergente produção de videoclipes para a MTV, a moda e comerciais dos mais variados produtos. Com tempo, além da aproximação da realidade com temas abordados no longa (clonagem, engenharia genética, caos e degradação social das metrópoles, sociedades multiétnicas), Blade Runner consolidou sua posição com clássico do cinema.

Versão internacional (1982) – Em alguns países circulou essa cópia com três cenas violentas cortadas da versão original exibida nos EUA: a que o replicante Roy (Rurger Hauer) perfulha os olhos de seu criador ao matá-lo, outra em que a replicante Pris (Daryl Hannah) arrasta o policial Deckard (Harrison Ford) pelas narinas e uma terceira que mostra a mão de Roy sendo perfurada por um prego.

Versão do diretor (1992) – Em 1989, um funcionário da Warner, procurando a cópia de Blade Runner para uma sessão especial, encontrou uma versão do filme tal qual Scott pretendia lançá-la 10 anos antes. A exibição dessa versão então inédita fez grande sucesso e estimulou o diretor a relançar o filme, sem a narração e sem o final feliz – o que proporcionou uma nova leitura da obra. A principal mudança, no entanto, foi a inclusão de uma cena em que Deckard sonha com um unicórnio, referência ao fato de ele próprio talvez ser um replicante. Ridley Scott diz que é. Harrison Ford diz que isso é bobagem, que o tira é bem humano.

Versão definitiva (2007) – Além de melhorias de som e imagem, foi corrigida com a cena da morte da replicante Zhora (percebia-se claramente que era uma dublê quebrando as vidraças). A atriz Joanna Cassidy foi chamada filmar novos takes. Outra correção feita foi em relação o número de replicantes a serem mortos por Deckard. Um erro de continuidade informa dois números. Primeiro, o correto, quatro. Depois, quando lhe explicam que seis replicantes rebeldes fugiram para Terra e um já havia sido morto, fica claro que restam cinco. Isso porque as cenas da quinta replicante, Mary, não foram feitas por falta de tempo e grana (a atriz mostra seu desconsolo nos extras, primeiro por perder o papel de Pris para Daryl Hannah e depois por ver Mary limada). A cena com o número errado foi redublada e agora dizem a Deckard que dois deles já morreram em uma tentativa de invadir o prédio do engenheiro genético que os criou.

Original Print – Esta quinta versão do filme, raríssima, está presente nas edições especiais americanas dos DVDs. Na verdade, é a primeira, um copião exibido em sessões internas da Warner e em sessões para testar a receptividade do público. Tem uma seqüência de abertura diferente e narração em off em apenas poucas cenas, como indicava o roteiro original.

PS.: Por fim, não se pode desassociar em Blade Runner a imagem do som. Pois até a inesquecível trilha sonora do filme tem versões diferentes. O autor da trilha é o músico grego Vangelis. Por estar na época envolvido com o longa Carruagens de Fogo (que lhe valeu o Oscar por um dos temas mais conhecidos da história do cinema), ele deixou suas partituras a cargo da The New American Orchestra, que executa música que está no filme. Posteriormente, Vangelis lançou sua própria versão, com novos temas e leves mudanças nas faixas conhecidas.


Vou filmando até morrer

14 de junho de 2012 4

Nesta quinta-feira o cinema brasileiro perdeu Carlos Reichenbach, diretor de alguns filmes muito bons (Anjos do Arrabalde, Alma Corsária, Lilian M: Relatório Confidencial, Falsa Loura Filme Demência), mestre de gerações inteiras de eternos aprendizes da linguagem e verdadeira enciclopédia do cinema e da música popular. Quem cruzou com Carlão, mesmo que por poucos instantes, como é o caso deste fã inveterado, inevitavelmente se deixou contaminar pela paixão com que ele se expressava ao falar de Samuel Fuller, Luís Sérgio Person e tantos outros que o inspiraram, ou piraram, para usar um termo adequado ao efeito que os bons filmes produziam sobre ele.

Não só os bons filmes. Carlão era um apaixonado pela expressão artística mais genuína, aquela que permitia ao espectador enxergar a alma do artista. Tolerava defeitos desde que os propósitos de seu autor fizessem valer a pena e, quando via talento combinado com honestidade intelectual, apaixonava-se com uma convicção absolutamente incomum. Um dos momentos mais marcantes das três entrevistas que fiz com ele foi quando contou como admirava as escolhas de sua mulher, Lygia: "Fiz Anjos do Arrabalde (sobre o universo das professoras de escolas públicas) em homenagem a ela e ao que relatou de suas experiências (como dentista) em projetos sociais numa escola da periferia", disse, numa das três ocasiões.

Filme Demência, que afirmou ser seu preferido e sua obra mais pessoal, ele assinou pensando num acerto de contas com o pai, morto quando tinha 13 anos. Para a mãe tinha a intenção de dedicar Um Anjo Desarticulado, projeto que nunca pôde concluir e que definiu assim no blog Olhos Livres, no ano passado: "(O filme) Não me deixa mais dormir direito, nem morrer. Vai contar um pouco a história da vida da minha mãe da Estônia ao Brasil, na década de 1920, e ilustrar uma fantasia pessoal, emocional e afetiva a respeito de Lenin". Ao ser homenageado no Festival de Brasília, em 2010, Carlão disse a frase que está no título deste post, com o seguinte complemento: "Filmando até morrer – seria a morte ideal, né?".

"Foi uma das pessoas mais bonitas que conheci", definiu o crítico José Geraldo Couto, numa das primeiras manifestações a circularem após a notícia de sua morte. Fácil de entender.

(Atualização do dia seguinte: clique aqui para ler Adeus ao Comodoro, o material que sai no jornal impresso deste sábado)


Carlão dirigindo Sandra Bréa em Sede de Amar

eXistenZ e as mutações de Cronenberg

11 de junho de 2012 1

Depois de um filme como este, qual será o próximo? Esta é uma pergunta particularmente pertinente em se tratando do canadense David Cronenberg.

Um dos mais interessantes cineastas em atividade, Cronenberg tem emendado projetos muito distintos entre si desde eXistenZ (1999), até aqui a última de suas ficções científicas orgânicas e existencialistas calcadas em temas como mutações, biotecnologia e futurismo. Spider (2002) não proporcionou exatamente uma quebra em suas ambições estéticas, mas a obra-prima Marcas da Violência (2004) sim.

E se o longa seguinte, o igualmente ótimo Senhores do Crime (2007), deixou uma ideia de continuidade em suas inquietações, o que dizer da investigação da relação entre Freud e Jung em Um Método Perigoso (2011), um dos corpos mais estranhos – em Cronenberg, esta expressão nunca é por acaso – em sua filmografia? Mais: o que esperar de Cosmópolis (2012), definido como um filme-catástrofe que acompanha 24 horas na vida de um milionário nova-iorquino vivido pelo galã crepuscular – outra palavra de múltiplos significados – Robert Pattinson e que tem estreia no Brasil prevista para 10 de agosto?

Independentemente das respostas, voltar a eXistenZ faz cada vez mais sentido. O longa acaba de chegar ao DVD no Brasil, em lançamento da Magnus Opus – mais um caso de um bom filme lançado pela não muito considerada distribuidora de home vídeo. Trata-se de uma trama na qual, num futuro não determinado, uma criadora de jogos de realidade virtual (Jennifer Jason Leigh) é perseguida por fanáticos rivais. Seu parceiro de fuga, um pacato assistente de mar­keting (Jude Law), funciona como mediador da aproximação do espectador: ele inicialmente é uma figura estranha ao universo de imersão interativa no qual cada jogador recebe um plug na coluna vertebral para poder transcender os limites do organismo entrando num mundo paralelo e experimentando sensações extracorpóreas.

Aos poucos, como era de se prever, a distinção entre o real e o virtual ficam borradas. Nesse clima onírico, Cronenberg põe em debate temas da hora para além da evolução tecnocientífica que fazem Matrix, outra ficção científica lançada em 1999, no crepúsculo do milênio, parecer brincadeira de criança: o terrorismo internacional, a violência conspirativa, o fanatismo fundamentalista e a cada vez menos domada curiosidade acerca dos limites da existência.

O sentido de permanência de eXistenZ também se fortalece a partir de seu realismo visual – não há, no filme, aquela parafernália futurista que às vezes, ao contrário do que propõem seus realizadores, torna as produções do gênero tão datadas. Depois do menos inspirado Um Método Perigoso, nada melhor do que rever um bom Cronenberg para relembrar sua capacidade visionária de interpretar o homem e o seu tempo.

A ver o que será de Cosmópolis.

Bradbury: de John Huston a Truffaut

06 de junho de 2012 1

O escritor Ray Bradbury, que morreu ontem, aos 91 anos, deu nova dimensão à ficção científica, começam a apontar os textos de obituário que pipocam por aí. Os cinéfilos também vão lembrar que o autor norte-americano teve pelo menos duas referências bem sólidas no cinema, uma pelas mãos de John Huston e outra pelas de François Truffaut.

Para Huston, ele roteirizou a adaptação de Moby Dick, de Herman Melville, lançada em 1956 – período de auge da popularidade de Bradbury. A colaboração com Truffaut não foi ativa: o autor não participou da adaptação da obra-prima Fahrenheit 451 – o cineasta francês assinou o roteiro junto a Jean-Louis Richard.

A célebre trama de perseguição em um mundo que vive sob um regime totalitário no qual os livros são proibidos, assim como o pensamento crítico (451ºF é a temperatura na qual o papel queima), constitui o único filme que Truffaut rodou (predominantemente) em inglês. Lembro que não foi fácil encontrá-lo, no tempo do VHS, quando de maneira obsessiva decidi que veria todos os filmes dos grandes realizadores europeus do pós-neorrealismo italiano: no final dos anos 1990, Fahrenheit 451 só circulava no Brasil em cópias ilegais, que naquela época de fiscalização menos rigorosa até podiam ser encontradas nas velhas videolocadoras.

É um belíssimo exercício de gênero de Truffaut e uma das melhores ficções científicas de seu tempo – o longa foi lançado em 1966, 13 anos após a publicação do livro original de Bradbury. Em DVD ele está disponível no mercado brasileiro, veja um bom trailer (sem legendas) clicando aqui.

Só que ao contrário II

05 de junho de 2012 0

Os ótimos (só que ao contrário) exemplos do post anterior e de seus comentários fizeram lembrar aquela que para mim foi a pior tradução de título que as distribuidoras brasileiras já foram capazes de cometer. L'âge des Ténèbres (2007), de Denys Arcand, que originalmente significa A Idade das Trevas, foi traduzido como A Era da Inocência - verdadeira barbárie que, além de impor ao título algo oposto à reflexão proposta pelo diretor canadense, ignorou a ideia de continuidade histórica da trilogia da qual ainda fazem parte os ótimos O Declínio do Império Americano (1986) e o vencedor do Oscar As Invasões Bárbaras (2007).

À época do lançamento do longa, foi impossível não dedicar boa parte do comentário publicado nas páginas de ZH para esta questão, literalmente porque, como digo no texto, "a tradução já saiu privando o espectador de entender uma das premissas do filme".

Olhe:

Com receio de que o título "para baixo" espantasse o público dos cinemas, os distribuidores brasileiros transformaram A Idade das Trevas, nome original do filme do canadense Denys Arcand, em A Era da Inocência. Quem é cinéfilo já se acostumou à falta de sentido de algumas traduções dos títulos das produções estrangeiras, mas é impossível falar sobre esta, especificamente, sem entrar no assunto. Primeiro porque Arcand se propõe a discutir um mundo sombrio – daí as "trevas" – que é consequência de diversos fatores culturais, políticos e sociais literalmente opostos à ideia de "inocência". Segundo porque A Idade das Trevas, ou melhor, A Era da Inocência, tanto quanto O Declínio do Império Americano (1986) e diferentemente de As Invasões Bárbaras (2003), com os quais forma uma trilogia informal sobre esse mundo sombrio, é um filme de diálogo difícil com o grande público que tanta preocupação rendeu à distribuidora nacional.

A "era das trevas", como alguns historiadores caracterizam a Idade Média, foi um período histórico que se seguiu às chamadas invasões bárbaras, que por sua vez haviam posto fim ao decadente Império Romano. Arcand, no entanto, está falando da contemporaneidade – seguindo a premissa de que a história se repete, está fazendo uma relação do universo desolador da atualidade com a barbárie que levou o homem a invadir territórios alheios recentemente, que por sua vez tem relação com o declínio de outro império, o norte-americano. A tradução já saiu privando o espectador de entender uma das premissas do filme.

A ação, em A Era da Inocência, gira em torno de uma espécie de personagem-símbolo dessa época – Jean-Marc Leblanc, interpretado com precisão por Marc Labrèche. Tudo em sua vida é terrível – mulher e filhas não o amam, sua comida é artificial, suas relações são todas mediadas pelo "politicamente correto" e seu trabalho é mecânico e revela total impotência diante do mundo. O homem, então, sonha – e o que vislumbra são situações totalmente díspares da realidade, que têm a ver com sexo, dinheiro, sucesso e poder.

As imagens desses sonhos, que ocupam grande parte da narrativa, têm um humor às vezes sutil, noutras sarcástico – há piadas que provocam dos fãs de O Senhor dos Aneis à indústria que tem em Brad Pitt um ícone do grande ator. As ironias fazem de A Era da Inocência um filme bastante distinto dos exclusivamente dramáticos O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras – mas igualmente bem sucedido: ao sabotar instituições como a família, a mídia e outros pilares importantes da "idade das trevas", Arcand desperta no espectador o senso de humanidade, de alerta, de convocação a refletir sobre essa época.

O diretor é cético, mas, como já sucedera anteriormente, não fez um filme que se encerra no próprio pessimismo – armadilha à qual sucumbem tantos outros realizadores, como o alemão Oskar Roehler em Partículas Elementares, também em cartaz em Porto Alegre. O recolhimento final do protagonista pode ser interpretado como uma desistência, mas seu destino não fica claro – é como se Arcand deixasse a questão em aberto, incitando o público a pensar sobre o futuro de Leblanc, que afinal de contas é o futuro de todos nós.