Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

"Taxi Driver" em seu devido lugar

29 de maio de 2014 0

taxi blog

Nunca consegui assistir a Taxi Driver (1976) no cinema. Perdi a chance em algumas reprises e acabei vendo pela primeira vez na TV, depois em VHS. Comprei o DVD com uma edição especial cheia de extras e, depois, o Blu-ray igualmente turbinado e que dá ideia mais aproximada da beleza visual que resultou da parceria de Martin Scorsese com o diretor de fotografia Michael Chapman.

Assim, é grande a minha expectativa para encaixar uma das três sessões que Taxi Driver vai ter no Cinemark Barrashopping, dentro do projeto que faz ressurgir diante dos cinéfilos filmes clássicos em cópias restauradas e reluzentes por conta da projeção digital de alta performance que se impõe como novo padrão nas salas de exibição. Leia mais sobre o projeto aqui.

Como todo grande filme, Taxi Driver tem uma mitologia saborosa nos bastidores de sua realização. O roteiro foi escrito por Paul Schrader, sujeito ciclotímico e apaixonado por armas que inspirou-se em experiências e paranoias pessoais para escrever a história que ficou por anos circulando em Hollywood até Scorsese ser aceito para tocar o projeto. Isso mesmo, ser aceito. Tanto Schrader quanto os produtores do filme relutaram em confiar Taxi Driver a Scorsese quando este se interessou pelo roteiro, no começo dos anos 1970. Schrader ofereceu Taxi Driver primeiro a Brian De Palma, que achou a história pesada demais para ser transformada por ele  em um filme comercial. Foi somente após se consagrar com Caminhos Perigosos (1973), com Harvey Keitel e Robert De Niro no elenco, que Scorsese passou a ser levado a sério como aquele que seria capaz de apresentar um dos personagens mais icônicos do cinema: Travis Bickle, veterano da Guerra do Vietnã que deseja  limpar das ruas de Nova York da sujeira humana que cruza seu caminho nas madrugadas.

Bickle é um tipo solitário e perturbado que tenta se reintegrar à sociedade que parece ignorar sua existência. Sem traquejo para o convívio social mais afetivo, ele tenta se aproximar da bela assistente de um político em campanha (vivida por Cybill Shepherd). Rejeitado, decide encanar uma espécie de anjo vingador, missão que o faz pelo caminho se tornar protetor da jovem prostituta Iris (papel de Jodie Foster, então com 12 anos).

O tom pessimista e amoral que faz de Bickle, ao mesmo tempo, vilão e herói da melancólica jornada de quem não tem nada a perder, a evocação do cinema noir na narração em off,  a Nova York sórdida e decrépita que emerge à margem dos cartões-postais, a antológica atuação de De Niro fizeram de Taxi Driver um dos filmes mais vigorosos da Nova Hollywood, movimento que renovou o cinema americano nos anos 1970.

Anos atrás, uma rede britânica de cinemas perguntou a personalidades qual a melhor frase dita em um filme. Em primeiro lugar, uma de Bickle em Taxi Driver: “You talkin’ to me?” (“Tá falando comigo?”), dita diante do espelho no momento de transição do personagem rumo à ciranda de violência que terá como desfecho um banho de sangue no cortiço onde opera o cafetão (Keitel) de Iris — a pedido de Scorsese, Chapman suavizou o tom vermelho-sangue na pós-produção para a sequência não ficar parecer tão chocante aos espectadores mais sensíveis. Na segunda colocação ficou a célebre apresentação do polido agente secreto 007, na voz de Sean Connery: “Bond, James Bond”.

"No Limite do Amanhã" é uma mistura interessante entre ação e ficção científica

29 de maio de 2014 0

Com estreia nesta quinta-feira em todo o circuito, No Limite do Amanhã mistura ação com ficção científica, Guerra dos Mundos (2005) com Contra o Tempo (2011): vai a um futuro indefinido para narrar a luta de um major norte-americano (Tom Cruise) contra um exército de alienígenas poderosos que tomaram o continente europeu. Mas, espera, ele os enfrenta sozinhos? É claro que não! Sem a ajuda de uma parceira linda e loira (Emily Blunt), o herói não conseguiria salvar o mundo.

Brincadeiras à parte, No Limite do Amanhã foge dos clichês narrativos dos filmes-catástrofe ao emular o longa de Duncan Jones (Contra o Tempo) no qual um agente do governo tinha o poder de voltar ao passado para mudar o curso dos acontecimentos. Aqui, a coisa é ainda mais engenhosa (mas muito bem articulada no roteiro que adapta a obra do japonês Hiroshi Sakurazaka): ao se engalfinhar com um alien no campo de batalha, o major é “contaminado” pelo inimigo, tendo acesso aos seus poderes, que incluem o controle da passagem do tempo.

A partir daí ele passa a reviver, repetidamente, aquele mesmo dia. E tome tiros e luta corporal com as estranhas criaturas, numa praia inglesa à qual o espectador é levado de uma forma que lembra a recriação do Dia D da II Guerra Mundial em O Resgate do Soldado Ryan (1998): se o filme de Steven Spielberg usava o potencial imersivo das novas tecnologias de então (salas stadium, som digital em seis canais), No Limite do Amanhã explora as possibilidades do 3D com competência, tornando as sequências de confronto um espetáculo de entretenimento à parte.

É como nos videogames, em que a morte não significa o fim, mas o início de uma nova vida: aprendendo com os erros, a cada recomeço o herói (e sua bela parceira) consegue avançar mais, eliminando batalhões e batalhões para chegar ao big boss do mal. Isso em uma Europa devastada. Entre os cenários usados, chamam a atenção o Louvre parisiense, completamente inundado, e uma Trafalgar Square londrina a servir de base para helicópteros do exército.

No Limite do Amanhã custou US$ 180 milhões, fortuna superada apenas pelos projetos com os quais a indústria almeja arrecadações na casa do US$ 1 bilhão. Pode-se dizer que se trata de um teste para Tom Cruise, galã de imagem desgastada, e também para Doug Liman, produtor da Trilogia Bourne (2002 – 2007) e diretor de Sr. & Sra. Smith (2005) que havia deixado a correria de lado para realizar o bom drama Jogo de Poder (2010) e agora está de volta aos blockbusters de ação para as massas.

Ação de qualidade, inventiva em sua construção narrativa e com uma pitada de humor que faz toda a diferença, você vai ver.

O despojamento de Jair Rodrigues (1939 – 2014) no bom filme brasileiro "Super Nada"

08 de maio de 2014 0

Morto nesta quinta-feira, Jair Rodrigues foi responsável por uma das performances mais surpreendentes do cinema nacional recente. Como o personagem-título do bom drama de humor negro Super Nada, de Rubens Rewald, o cantor aparece em cena com um despojamento impressionante, cantando, dançando, flertando com uma garota bem mais nova do que ele – e muito mais, que é bom não adiantar porque uma das chaves para entrar neste estranho (no bom sentido) filme de Rewald (o mesmo de Corpo) é se deixar surpreender por sua trama sobre um jovem ator (Marat Descartes) que tem o personagem televisivo Super Nada como seu herói pessoal desde a infância.

Super Nada ganhou o prêmio de melhor ator (para Descartes) no Festival de Gramado de 2012. Na seção Novos Rumos do Festival do Rio do mesmo ano, levou os troféus de melhor filme e um prêmio especial do júri para a performance de Jair Rodrigues. O longa, que ganhou o circuito nacional em 2013, pode ser visto em DVD – chegou ao mercado de home vídeo em lançamento da Lume Filmes.

Sinta só o clima de Super Nada:

As margaridas da Primavera de Praga

02 de maio de 2014 0

A quem, como eu, não conseguirá acompanhar a Mostra Nouvelle Tcheca se enfurnando na Sala P.F. Gastal até o próximo domingo, um pequeno consolo: embora não se compare à experiência coletiva de descobrir essas 12 joias que chegam à tela do cinema da Usina do Gasômetro em 35mm — e os relatos de quem está cumprindo a maratona são dos mais entusiasmados —, é possível recuperar o prejuízo com pelo menos duas delas. As Pequenas Margaridas (1966) e Valerie e sua Semana de Deslumbramentos (1970) foram lançados em DVD no Brasil pela Lume Filmes, com os títulos As Margaridas e Valerie e a Semana das Maravilhas. Os adeptos da pesca no mar de torrents podem catar os outros longas da mostra.

Sobre as As Pequenas Margaridas (na foto acima), posso dizer que trata-se de uma das experiências mais ricas e impactantes que  o cinema já proporcionou. Vera Chytilová, diretora que morreu em março passado, aos 85 anos, tem como personagens duas jovens chamadas Maria (vividas por Ivana Karbanová e Jitka Cerhová) que se lançam em uma aventura libertária e anárquica. Não existe uma história, mas sim uma serie de situações em que elas, entre o humor ácido e o puro vandalismo, marcam posição contra as convenções políticas e sociais. É também uma demarcação de território geracional, que deixa claro que o “velho” e o “novo” estão em campos opostos e conflitantes.

Esse filme é fruto do efervescente movimento da contracultura que  floresceu em meados dos anos 1960 na antiga Tchecoslováquia, hoje República Checa, com o país sob a condição de Estado-satélite da extinta União Soviética. O  ensaio de uma utópica distensão da influência soviética, porém, foi abortado pelo Kremlin com a intervenção que se seguiu à Primavera de Praga, em 1968 . Enquanto durou, esse movimento se refletiu na sua produção artística, sobretudo no cinema. Apesar das limitações impostas, os realizadores locais absorveram de forma peculiar a influência da nouvelle vague francesa incorporando na sua temática o componente da crítica e da sátira políticas. Mas foi uma produção que circulou de forma limitada com o endurecimento do regime.

As Pequenas Margaridas espelha o paradoxal sentimento de pessimismo e desânimo embebido na disposição para chutar o balde com uma explosão de criatividade. As meninas de Vera discutem essa condição de estagnação física e existencial enquanto enchem a cara e importunam clientes de uma boate, esnobam pretendentes, exploram homens mais velhos e flanam pelas ruas aprontando suas traquinagens. Em uma ousada demarcação de território feminista, exibem-se como donas de suas mentes e corpos (se dizem irmãs, mas podem ser amigas ou amantes) e fatiam bananas e pepinos numa possível interpretação do desprezo delas pelo símbolo fálico da opressão masculina.

Vera Chytilová dá ao filme à aparência de um mosaico visual, alternado registro em preto e branco com cores berrantes. Flerta com o documental numa sequência, logo adiante se lança em um delírio que interliga dadaísmo e surrealismo e, em seguida, gira em um caleidoscópio psicodélico. Evoca tanto às trucagens mágicas das cabeças de  Méliès nos primórdios do cinema quanto à  bricolagem contemporânea da pop art.

As Pequenas Margaridas despontou com obra-prima simbólica do vanguardismo que caracterizou a  nouvelle vague tcheca. É possível ver referências a ela em filmes como Céline e Julie Vão de Barco (1974), de Jacques Rivette, e Hair (1979), de Milos Forman, diretor checo que faz parte da turma de Vera e que foi fazer uma carreira nos Estados Unidos, onde consagrou-se com os Oscar de direção por Um Estranho no Ninho (1975)  e Amadeus (1984). A cena do hippie pisoteando o banquete da família rica da namorada, em Hair, é decalcada do desfecho de As Pequenas Margaridas, filme que Vera (na tradução do DVD) dedica “a todos cuja única fonte de indignação está esmagada pela mesquinharia”.

Em cartaz em Porto Alegre, dois raros (e bons) filmes do Paraguai e da Venezuela

25 de abril de 2014 0

É raro ver, no circuito brasileiro, filmes da Venezuela e, sobretudo, do Paraguai. Nesta semana, no entanto, um exemplar de cada uma dessas duas pouco conhecidas cinematografias latino-americanas chegou ao circuito. Leia, abaixo, nossos textos sobre ambos:

Pelo Malo,
por Roger Lerina

A presença constante da Venezuela no noticiário nos últimos anos não encontra eco, infelizmente, nas telas dos cinemas – os filmes rodados no país vizinho raramente chegam ao Brasil. O sensível drama Pelo Malo vem quebrar esse jejum, trazendo à discussão problemas comuns à realidade de todo o continente latino-americano: preconceito racial e de orientação sexual, discriminação por gênero e por condição social, precariedade institucional e econômica.

Premiado em San Sebastian, longa em cartaz no CineBancários é dirigido pela cineasta e artista plástica Mariana Rondón – filha de ex-integrantes do grupo guerrilheiro FALN que, em 2007, dirigiu o drama autobiográfico Postales de LeningradoPelo Malo acompanha o cotidiano de Junior (Samuel Lange Zambrano), garoto de nove anos que não se identifica com os padrões masculinos dominantes e insiste em tentar alisar o cabelo crespo para tirar uma foto – a expressão em espanhol “pelo malo” pode ser traduzida em português como “cabelo ruim”.

O menino vive em um conjunto habitacional popular com a mãe – interpretada pela ótima Samantha Castillo –, que não consegue se estabelecer em nenhum emprego e mal dá conta de cuidar de Junior e seu irmãozinho bebê. Incompreendido e rejeitado por Marta – que leva o filho até o médico à procura de um diagnóstico para seu comportamento pouco viril –, o guri relaciona-se apenas com uma vizinha de sua idade e com a avó (Nelly Ramos). Na casa da ex-sogra de Marta, o pequeno protagonista encontra acolhida para fantasias e brincadeiras – como dublar o astro pop venezuelano Henry Stephen em uma versão tropical da música brasileira Meu Limão, Meu Limoeiro, sucesso na voz de Wilson Simonal.

A diretora de Pelo Malo foi criticada por chavistas e aplaudida por oposicionistas na Venezuela em função da denúncia de uma realidade injusta e hipócrita, marcada pelo machismo, pelo conservadorismo, pela intolerância e pela instabilidade. Tateando em busca de sua identidade e de seu lugar em um mundo hostil, o adorável Junior é um quixote mirim que entoa inocentemente a voz da diversidade em Pelo Malo.

7 Caixas,
por Daniel Feix

Depois de quase 30 anos sem produzir um longa-metragem, a cinematografia do Paraguai ressuscitou em 2006, com Hamaca Paraguaya, filme de Paz Encina que ganhou prêmios da crítica no Festival de Cannes e na Mostra de São Paulo, entre outras outras distinções. O impacto – local e global – de outro título do pequeno país vizinho que estreia esta semana no Espaço Itaú é semelhante: 7 Caixas não ganhou tantos troféus, mas bateu recordes de bilheteria no Paraguai, viajou aos festivais de Palm Springs, Toronto e San Sebastian e foi unanimemente bem-recebido pela crítica dos EUA.

Trata-se da história de um menino de 17 anos (Celso Franco) que vive de bicos, sobretudo carregamentos, no Mercado 4, espécie de feirão popular da capital Assunción. Ele sonha em ter um celular, mas o dinheiro que tem não é suficiente, longe disso. Até que lhe oferecem a exorbitante – para ele – quantia de US$ 100 para cuidar de sete misteriosas caixas.

O guri se debate sobre o que há dentro delas, foge de vilões, arruma uma parceira de aventura (Lali Gonzalez)… Os desdobramentos do conflito inicial são reveladores de aspectos sociais importantes daquele contexto: além da pobreza, são marcantes o calor forte, a violência recorrente e a dificuldade de comunicação entre os personagens. A ingenuidade também é onipresente. O problema é que ela transcende a realidade do filme – a inocência do protagonista, às vezes, é a mesma dos diretores Juan Carlos Maneglia e Tana Schembor.

Com fotografia repleta de filtros, montagem ágil e trilha moderninha, 7 Caixas a todo instante parece se colocar como um filme sobre o exótico – mais ou menos o que ocorreu com Quem Quer Ser um Milionário? (2008). Seus méritos, no entanto, também são marcantes: a ação e o suspense são conjugados com humor, o que torna a fruição leve, a despeito do conteúdo, por vezes, pesado. Não se trata de uma maneira simples – nem fácil – de abordar certas mazelas de um país tão difícil de ser retratado no cinema.

Fantaspoa chega à décima edição com mais de 150 filmes e 50 convidados

24 de abril de 2014 0

– Só por este trailer que vamos apresentar agora já dá para ter uma ideia de como o Fantaspoa cresceu.

Foi assim que João Pedro Fleck, o cara por trás do evento (juntamente com Nicolas Tonsho), anunciou esta semana a décima edição do festival fantástico realizado em Porto Alegre. O trailer contém trechos de alguns dos mais de 150 filmes (dois terços disso formados por longas-metragens) que serão exibidos entre 9 e 25 de maio no CineBancários no Santander Cultural e nas salas da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana.

Serão sete mostras, 37 sessões comentadas, mais de 50 convidados, muitos deles do Exterior, e cinco cursos de cinema, todos ministrados por profissionais vindos de fora do país. Se no ano passado um dos destaques do Fantaspoa foi a exibição da cópia restaurada e musicada ao vivo de O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, neste ano o festival vai repetir a experiência com A Morte Cansada (1921), thriller de fantasia de Fritz Lang, que terá música ao vivo a cargo do argentino Germán Suane.

São várias as promessas de bons filmes em meio à grade de programação. Um deles é o novíssimo (e ótimo) longa do diretor Nacho Vigalondo, o thriller Open Windows, estrelado por Elijah Wood e Sasha Grey (ela mesma), e que foi projetado logo em seguida à apresentação desta edição do festival a uma plateia formada por críticos e jornalistas locais. De Bruce La Bruce (um dos convidados do evento), o 10º Fantaspoa vai apresentar Gerontophilia (2013) e Otto (2008). Outras presenças de destaque serão as dos diretores BobcatGoldthwait, que vem comentar o elogiado Deus Abençoe a América (2011), e Richard Stanley, da cultuada ficção científica Hardware – O Destruidor do Futuro (1990).

Na abertura, serão celebrados os 30 anos do clássico O Vingador Tóxico (1984) que projetou a produtora independente Troma, de Michael Herz e Lloyd Kaufman, este último o diretor do longa, também presença confirmada em Porto Alegre. No encerramento, a primeira sessão pública de Jorge e Alberto Contra os Demônios Neoliberais, dos argentinos Hernán e Gonzalo Quintana, primeiro longa que conta com o selo da Fantaspoa Produções (em parceria com a El Desquicio Producción).

Eis o trailer:

Tentativa de sátira com humor escrachado, "Copa de Elite" não funciona

21 de abril de 2014 0

Difundidas nos EUA (vide, recentemente, títulos como Todo Mundo em Pânico e Não É Mais um Besteirol Americano), as comédias escrachadas que parodiam o mundo do cinema não emplacam no Brasil. Totalmente Inocentes (2012), com Fábio Porchat, foi um fracasso. Copa de Elite, com outros integrantes do Porta dos Fundos à frente do elenco (Marcos Veras e Júlia Rabello), estreou ontem com bem mais barulho – e alinhada com as comédias populares mais baixas produzidas no país nos últimos anos, o que, desta vez, faz o sucesso de público ser uma possibilidade real.

Além das piadas com filmes como Se Eu Fosse Você (2006), Chico Xavier (2010) e Minha Mãe É uma Peça (2013), e com o Festival de Gramado, não faltam passagens escatológicas. Há luta de anões, um pênis “atômico” capaz de provocar grande destruição e, lá pelas tantas, uma genitália masculina tatuada no protagonista.

Protagonista este que trabalha na tropa de elite da PM e se chama Capitão (papel de Veras) – referência ao personagem de Wagner Moura no filme de José Padilha. Junto à parceira, a dona de sex shop Bia Alpistinha (referência a Bruna Surfistinha e a De Pernas pro Ar), ele persegue um ator arrogante (Rafinha Bastos) que quer matar o papa Francisco no Maracanã, em plena final da Copa entre Brasil e Argentina.

Brincadeiras infames com os hermanos não poderiam ficar de fora, assim como a gozação com a homossexualidade – no caso, de um soldado da tropa do Capitão. Ainda aparecem em cena celebridades e subcelebridades, de Anitta (que interpreta uma repórter de tevê) a Bruno de Lucca (como ele próprio), passando por Alexandre Frota (fantasiado de mãe do protagonista) e o grupo de pagode Molejo, o que revela a tentativa de diálogo com a classe média que se diverte consumindo o lado trash da fama – no elenco de Copa de Elite, a impressão é a de que só faltou um ex-BBB.

Pode dar certo, mas seria mais digno se houvesse menos baixaria. E se a sátira fosse além da mera reutilização de figuras do showbiz nacional, posicionando-as em novas situações e não apenas apresentando-as como se o riso dependesse de nada além da própria presença delas.

As cartas redentoras de Miguel Gomes

18 de abril de 2014 0

Redemption_2

Depois de Tabu (2012), o realizador português Miguel Gomes dedicou-se a um projeto menor no tamanho mas igualmente grandioso na ambição artística. O curta-metragem Redemption, apresentado por ele em setembro de 2013 no Festival de Toronto, é como uma versão concentrada das engenhosas ferramentas narrativas e da paixão pelo cinema que o diretor mostrou também em seus outros dois longas, A Cara que Mereces (2004) e Aquele Querido Mês de Agosto (2008).

Nada muito grave, mas se você for adiante neste texto vai deparar com algumas informações que podem  arrefecer um tanto a fruição de Redemption, mas sobre as quais não se pode deixar de comentar.

Ao longo de 26 minutos, Gomes combina em Redemption uma narração ficcional epistolar (“fruto da imaginação do autor”, como explica nos créditos) com imagens de arquivos que vão de registros históricos e trechos de filmes documentais a cenas de clássicos como Milagre em Milão (1951), de Vittorio De Sica. A proposta do diretor é, por meio de quatro  histórias banais, que poderiam ter sido protagonizadas por qualquer espectador, traçar breves perfis “redentores” de líderes políticos de países europeus. Apenas nos créditos finais é informado que são eles Pedro Passos Coelho (Portugal), Silvio Berlusconi (Itália), Nicolas Sarkozy (França) e Angela Merkel (Alemanha) — o primeiro-ministro Coelho e a chanceler Angela ainda estão no cargo.

Os quatro segmentos de Redemption são construídos a partir de cartas imaginárias que narram situações que seus autores recordam ou vivem naquele instante. Vale notar que Gomes faz uso em sua ficção de alguns fatos biográficos reais dessas personalidades. E a revelação de quem são elas se dar apenas ao final, após conquistar  a empatia do espectador, parece ter como objetivo humanizá-las, colocá-las como seres passíveis de inquietações existenciais profundas e comezinhas às quais figuras públicas poderosas costumam se tornar impermeáveis.

Datada em 21 de maio de 1975, a carta de Coelho traz reflexões de um menino sobre a saudade de seus pais, que estão em Angola, que no começo daquele ano deixara de ser colônia portuguesa na África, e sobre os novos ares que pairam sobre Portugal após a Revolução dos Cravos.  Berlusconi, em 13 de julho de 2011, lembra de uma desilusão amorosa que viveu quando garoto em Milão, após a II Guerra. Em 6 de maio de 2012, de Paris, Sarkozy escreve um relato afetivo sobre a paternidade a ser lido por sua filha pequena no futuro. E em 3 de setembro de 1977, desde Leipzig, a jovem Merkel, estudante de física, faz uma descrição emocionada de seu recente casamento com um colega de faculdade, reitera sua paixão por Wagner e lembra os tempos de privações na antiga Alemanha Oriental.

Como em Tabu, o lirismo resultante da narração epistolar em Redemption,  em quatro diferentes idiomas, é por demais encantador. A harmonia narrativa entre o texto e a inventiva colagem de imagens de tão variadas procedências e o caráter histórico e político sublinhado por Gomes qualificam sobremaneira este pequeno grande filme.

Confira uma entrevista de Miguel Gomes explicando o projeto e trailers de Redemption.

"Alabama Monroe" chega atrasado, mas é uma sessão imperdível

18 de abril de 2014 0

Nem o atraso na chegada diminui o impacto de Alabama Monroe. Três meses depois de estrear em outras cidades brasileiras, onde já chegou cultuado graças ao compartilhamento via internet, este belo filme belga entrou em cartaz nesta semana no Guion Center. Premiado, entre outros, nos festivais de Berlim, Tribeca, Palm Springs e Copenhagen, além de ser indicado ao Oscar de melhor longa estrangeiro e vencer a mesma categoria no César francês, o filme de Felix van Groeningen pode agora, finalmente, ser visto na sala de cinema em Porto Alegre.

O título original é The Broken Circle Break­down, em inglês mesmo (apesar de os diálogos serem na língua flamenga), por conta da obsessão do protagonista, o músico de bluegrass Didier (Johan Heldenbergh), com a cultura norte-americana. Mas não se pode ignorar o lirismo da tradução, que une os nomes artísticos dele (Monroe) e de sua mulher e parceira musical, a tatuadora Elise (Veerle Baetens), ou Alabama.

É que a narrativa, construída de maneira engenhosa a partir de idas e vindas no tempo, provoca o espectador a pensar sobre a estranha força capaz, ao mesmo tempo, de aproximar e afastar esse casal apaixonado porém abalado pela grave doença de sua filha pequena (Nell Cattrysse). Groeningen nos apresenta tudo, da paixão inicial às brigas dolorosas, do casamento e da construção da vida a dois ao enfrentamento dos obstáculos que insistem em testar a força da estrutura familiar.

A relação guarda em si uma bipolaridade, graças à intensidade com a qual os dois que a vivenciam e, sobretudo, às suas diferenças – ele é ateu, ela, católica; ele cultua o sonho americano, ela tem os pés no chão. Quando a menina de seis anos adoece, tudo fica potencializado. E o filme cresce.

O ápice da crise de Elise, lá pelo meio da projeção, é usado pelo jovem diretor (tem 35 anos) como gancho para uma série de flashbacks que iluminam algumas sombras que porventura existissem até então. Alabama Monroe não tem as cores vibrantes do francês A Guerra Está Declarada (de Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm, 2011), outro filme sobre o mesmo tema, mas tem a luz da obra-prima romântica espanhola Os Amantes do Círculo Polar (Julio Medem, 1998): quanto mais o destino parece querer afastar o casal, mais o espectador se afeiçoa por aquele relacionamento.

O que pode quebrar um círculo aparentemente inquebrável? É uma pergunta que Groeningen joga na tela desde a música de abertura do longa, o hino gospel Will the Circle Be Unbroken, espécie de oração folk que inspirou o título e que perpassa a trama até o seu desfecho. O apelo da fé, aqui, está no mesmo nível da propaganda que vende a América como uma terra de sonhos: cultua-se o que se convém cultuar, de acordo com cada contexto e com determinadas necessidades.

É o que faz Alabama Monroe, além de lindo em sua tristeza e inventivo em sua forma, um filme politicamente contundente.

Em cartaz no CineBancários, bom drama colombiano reflete o medo do fim

14 de abril de 2014 0

E se o mundo tivesse acabado, conforme aquela interpretação do calendário Maia que vislumbrava o apocalipse em dezembro de 2012? Ok, já é 2014 e continuamos aqui, mas o drama colombiano Crônica do Fim do Mundo, que está em cartaz no CineBancários, se passa nos meses anteriores à previsão, acompanhando a jornada de um homem solitário de 70 anos (Victor Hugo Morant) que, crente da iminência do fim, resolve telefonar para os desafetos que acumulou ao longo de toda a vida e lhes dizer aquilo que ficou engasgado ao longo das décadas.

E se o mundo não acabar? Lá pelas tantas, é o que se pergunta o filho do protagonista, sujeito de 35 anos (Jimmy Vasquez) que acaba de ter um filho, passa por alguns problemas profissionais e em seu casamento e, cada vez mais, precisa se aproximar de seu velho para dar-lhe assistência. “Ouvi dizer que o fim será, na verdade, em 2020″, ele conversa com um amigo.

É curioso observar o comportamento de ambos, a forma como se reaproximam e como eles lidam com seus problemas – os inventados e os reais, com os quais deparam durante o desenvolvimento da trama. Neste sentido, o fato de o filme tratar de uma situação já, por assim dizer, superada, é ainda mais estimulante: ressalta a dicotomia entre a realidade palpável e os universos paralelos imaginados. Os dramas pessoais que levam à fuga estão todos ali, apresentados paulatinamente, com habilidade, pelo diretor Mauricio Cuervo. Alguns deles, quem for ao cinema vai perceber, permitem estabelecer uma relação interessante entre o protagonista e a sociedade em que ele está inserido – algo na linha do que faz o chileno Gloria (2013), exibido há pouco em Porto Alegre.

Isso e a ótima atuação de Morant são o melhor de Crônica do Fim do Mundo. Há mais. Isolado em seu apartamento, o protagonista tem a oportunidade de ver as ruas de Bogotá em vídeos que o filho faz com seu celular, em passeios pela cidade, e traz para ambos assistirem juntos. Não que esses filmes dentro do filme sejam um primor, mas a simbologia ali contida é rica – a abordagem inter-gerações faz a reflexão sobre o fim crescer exponencialmente.

É como se os propósitos comuns aos argentinos A Velha dos Fundos (2010) e Lugares Comuns (2003), para citar outros dois representantes da produção latino-americana recente, fossem articulados em um único longa-metragem. Crônica do Fim do Mundo está longe de ser uma obra-prima, mas se trata de um comentário contundente acerca de tipos recorrentes na produção do continente – e o contexto que o cerca.

Coutinho e o imperador do sertão

10 de abril de 2014 0

teodorico

Segue um trecho da entrevista com o documentarista João Moreira Salles publicada no Segundo Caderno dia 7 de abril, como parte da matéria sobre o lançamento da edição especial do DVD de Cabra Marcado para Morrer.

Para ler a reportagem completa e as entrevistas com Salles e Eduardo Escorel, montador deste clássico do cinema brasileiro, clique aqui.

ZH — Você já disse que o maior documentário brasileiro é de Coutinho, mas não é Cabra…, e sim Teodorico, o Imperador do Sertão, que ele realizou em 1978 para o Globo Repórter. Essa opinião persiste?
Salles — É evidente que o escopo, a complexidade e a ambição de Cabra… são muito maiores, razão suficiente para que seja quase uma impiedade comparar os dois filmes. A frase talvez tenha sido dita para chamar atenção para uma obra pouco vista do Coutinho. Mas há razões mais do que estratégicas para elogiar Teodorico. Devo dizer que, como espectador, o documentário me causou mais impacto do que Cabra…, ao menos da primeira vez que o vi. A riqueza do mundo oral, a autorrepresentação do personagem, a mistura — palavra que Coutinho adorava — entre ficção e realidade, a presença de uma câmera e de um diretor como catalisadores da ação, o modo como um mundo social se desvela sem a necessidade de uma voz prescritiva ou moralizante. De Cabra…, a O Fim e o Princípio (2006), a Jogo de Cena (2007), todo o Coutinho está em germe ali. E com dois complicadores espantosos: o filme é anterior a Cabra... e foi produzido dentro da Rede Globo, em pleno regime militar.

Aqui abaixo está  o documentário Theodorico, O Imperador do Sertão  (com h), exibido no dia 22 de agosto de 1978, no Globo Repórter. Coutinho trabalhou no programa entre 1975 e 1984. Em 1981, durante um período de dois meses de  férias acumuladas, retomou o projeto de Cabra Marcado para Morrer, que havia abandonado em 1964 em razão do golpe militar. O Globo Repórter marcou a TV brasileira nos anos 1970 e 1980 com suas grandes reportagens documentais país afora, muitas delas assinadas por cineastas como Coutinho, Vladimir Carvalho e Walter Lima Jr., entre outros — foi o último programa jornalístico da Globo a substituir o filme 16mm pelo videotape.  Reparem que o fotógrafo de Theodorico  é Dib Lutfi, o grande parceiro de Glauber Rocha.

Essa experiência foi muito rica para Coutinho depurar o estilo que o consagraria como grande mestre do documentário nacional — também, dizia ele, por subverter algumas regras de linguagem, narrativa e postura determinadas pelo padrão Globo de qualidade. Coutinho, aliás, costumava explicar a seus entrevistados que fazia reportagens e não documentários: “Documentário é grego”, justifica ele na faixa comentada de DVD de Cabra… 

A Wikipédia tem mais informações sobre o personagem retratado por Coutinho, um arquetípico “coronel” que comanda com mão de ferro negócios e pessoas de uma cidadezinha do interior Rio Grande do Norte. Aqui tem uma reportagem com mais informações sobre os bastidores da realização. Via Google se acha de críticas a trabalhos acadêmicos sobre  Theodorico, O Imperador do Sertão.

Premiado filme brasileiro "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" empolga público; veja o curta-metragem que precedeu o longa de Daniel Ribeiro

09 de abril de 2014 0

É impressionante a reação do público verificada em algumas sessões de Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho, longa de estreia do paulistano Daniel Ribeiro que foi premiado no Festival de Berlim e que está estreando nesta semana nos cinemas brasileiros. Não que o filme seja espetacular, mas a maneira como os espectadores se deixam tocar pela jornada do protagonista, um adolescente deficiente visual que se descobre apaixonado pelo menino novo na escola, é bem impressionante.

A história toda sobre o desenvolvimento do filme está contada neste texto que fiz para a edição impressa da ZH (clicando aqui você acessa a sua versão online). Uma parte importante desse desenvolvimento diz respeito à produção e disponibilização, no YouTube, do curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho. Nessa matéria de Zero Hora, Ribeiro o definiu como um “projeto piloto” do longa. Veja abaixo e tire a prova: às vezes, parece se tratar do mesmo filme.

Marlon Brando na flor da idade

03 de abril de 2014 0

Hoje completam-se 90 anos do nascimento de Marlon Brando (1924 – 2004), also known as o maior ator do mundo – na opinião de muita gente, incluindo este escriba.

Rápida e humilde homenagem: em 1947, aos 23 anos, Brando foi aos estúdios da Warner para um teste de elenco para uma adaptação de Rebel Without a Cause, livro de Robert Lindner. Essa adaptação só sairia do papel, de fato, nas mãos do diretor Nicholas Ray em 1955, com James Dean como o protagonista (no Brasil, o filme se chamou Juventude Transviada). E Brando só estrearia no cinema em Espíritos Indômitos, em 1950, aos 26 anos – despontando para o estrelato no ano seguinte, como o Stanley Kowalski de Uma Rua Chamada Pecado (1951), de Elia Kazan.

O vídeo do tal teste de elenco de 1947 circula por aí, e pode ser visto abaixo. Nem precisa ser fã para achar emocionante, confira:

"Uma Estranha Amizade" aborda com sensibilidade o abismo entre-gerações

29 de março de 2014 0

Estreia do fim de semana apenas no GNC Moinhos, em Porto Alegre, Uma Estranha Amizade é um filme independente norte-americano sobre a amizade de Jane, uma menina de 21 anos (Dree Hemingway, bisneta do autor de O Velho e o Mar), com Sadie, uma senhora de 85 (Besedka Johnson, atriz não profissional que aqui estreava tardiamente no cinema e que morreu logo após as filmagens). Não é só isso, mas são poucos os longas que retratam de maneira tão sensível e perspicaz o atual abismo entre-gerações.

O diretor Sean Baker chega lá valorizando o significado dos chamados momentos mortos (aqueles nos quais, aparentemente, nada de relevante acontece) e surpreendendo o espectador com revelações pontuais acerca das motivações das duas personagens. É mais interessante, inclusive, descobrir a história sem saber muito sobre ambas: as informações (acerca do trabalho de Jane e do passado de Sadie, por exemplo) são dispostas na medida para fazer o público captar a natureza amoral e desprovida de preconceitos com que Baker constrói esse encontro.

Elas se conhecem quando a garota visita a garage sale (feiras pessoais para se desfazer de pertences usados) da mulher mais velha. Jane vive no Vale de San Fernando, periferia rica de Los Angeles, com dois amigos (Stella Maeve e James Ransone) com os quais parece não fazer muito mais do que jogar videogame e fumar maconha. De Sadie, adquire um jarro que parece uma urna mas que servirá de vaso para redecorar seu quarto. Só depois ela descobre: o objeto guarda em seu interior maços com alguns milhares de dólares. Sadie não desconfiava de que possuía o dinheiro. E Jane não sabe o que fazer com ele – e com a culpa de, eventualmente, gastar uma grana que não é sua.

De fato, ao procurar Sadie e insistir em se aproximar dela, parece que Jane busca expiar essa culpa. Mas, isso você pode saber de antemão, Uma Estranha Amizade não é um filme de perguntas e respostas óbvias: no fundo, apesar da imensa diferença de idade e visão de mundo, o vazio existencial de uma tem muito a ver com o da outra.

Não é sem razão que as escolhas de Jane e o próprio rumo que dá à sua vida parecem aleatórios. Algumas sacadas de Baker para deixar isso claro são dignas de nota. Uma delas: o cãozinho dela, mesmo sendo macho, ganhou a alcunha feminina de Starlet, simplesmente porque a garota “gostava do nome antes de escolher o cachorro”. Ao batizar o filme de Starlet (título original de Uma Estranha Amizade), o diretor enfatiza o quanto essa aleatoriedade é importante para moldar a personagem.

Tem a ver com o cinema da diretora Sofia Coppola – que, aliás, fez seu mais recente longa, Bling Ring (2013), sobre a mesma juventude do Vale de San Fernando. Mas a forma com que esse nicho social se relaciona com o restante das pessoas, neste terceiro longa de Baker (o primeiro a ganhar projeção internacional), é ainda melhor e mais complexa.

O duro processo de amadurecimento no bom filme nacional "Entre Nós"

28 de março de 2014 0

Diretor de Cidade dos Homens (2007), Paulo Morelli conseguiu uma pequena proeza com Entre Nós: fez um filme ao mesmo tempo jovem e memorialístico, enérgico e reflexivo, capaz de se comunicar bem com qualquer tipo de público – algo raro no cinema nacional, cada vez mais polarizado entre a erudição sem muitas concessões e o apelo popular mais rasteiro. Entre Nós é seu quarto longa-metragem. Está em cartaz desde esta quinta-feira no circuito.

A história toda se passa em uma paradisíaca casa de campo localizada em São Francisco Xavier (SP), entre as montanhas da Serra da Mantiqueira, para onde sete amigos cheios de disposição viajam para uma temporada de verão. Isso em 1992. Em seu segundo ato, a trama avança até 2002, quando seis deles voltam ao mesmo lugar para a leitura coletiva de cartas que escreveram projetando o futuro e guardaram em um baú enterrado no pátio. O sétimo integrante do grupo, Rafa (Lee Taylor), morrera em um acidente justamente naquela viagem de 10 anos antes.

Todos têm personalidades muito bem definidas pelo roteiro que Morelli desenvolveu ao lado do filho Pedro – que assina como codiretor. As boas atuações colaboram, mas o fundamental para esse resultado é a eficiência dos diálogos, coloquiais ao ponto de soarem naturais como nem sempre se vê em produções brasileiras semelhantes.

O que Felipe (Caio Blat), Lúcia (Carolina Dieckmann), Silvana (Maria Ribeiro), Cazé (Júlio Andrade), Drica (Martha Nowill) e Gus (Paulo Vilhena) têm em comum são as marcas do tempo, alguma desilusão e a certeza de que aquele otimismo juvenil onipresente se esvaiu com o passar dos anos. Todos também leem bastante, citam clássicos e, ao menos em dois casos (Felipe e Cazé), ganham a vida com literatura. É o livro que Rafa deixa inconcluído que vai despertar o principal conflito do longa. Só que, nesse caso, trata-se de um clichê a deixar quem viu As Palavras (2012) e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010), para citar dois títulos recentes, com a sensação de déjà vu.

É uma pena, porque as demais tensões que vão se revelando sob as aparências de normalidade são invariavelmente ricas. Dizem muito sobre o processo de amadurecimento, tanto em âmbito pessoal quanto profissional, e a pressão pelo sucesso que parece acompanhar aquela parte dessa geração para quem o “ser” nem sempre é tão importante quanto o “parecer”.

O visual de Entre Nós incorpora a atmosfera serrana com organicidade, graças à boa fotografia de Gustavo Hadba, e o ritmo da narrativa é fluido, muito em função da montagem competente de Lucas Gonzaga. Fosse menos pretensioso e grandiloquente em sua construção dramática, focando exclusivamente nos pequenos conflitos das relações entrecruzadas dos seis, Entre Nós seria ainda melhor.