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O excelente filme nacional "Avanti Popolo" e a defesa do cinema do fracasso

11 de junho de 2014 0

Com estreia nesta quinta-feira em todo o país (em Porto Alegre, no CineBancários), Avanti Popolo é um dos melhores filmes da ótima safra recente do cinema nacional – que tem ainda, entre outros, Riocorrente, Exilados do Vulcão e Amor, Plástico e Barulho (os três aguardando data para estrear no circuito em Porto Alegre) e O Lobo Atrás da Porta (este em cartaz na cidade; leia texto abaixo sobre ele).

Mas: Avanti Popolo. Este drama que se aproxima do gênero ensaístico e tem forte apelo político marca a estreia do diretor Michael Wahrmann, superpremiado com o curta Avós (2009), no longa-metragem. Uruguaio que viveu muitos anos em Israel antes de se radicar em São Paulo, Wahrmann quase não trabalha com atores, e sim amigos realizadores ou pesquisadores com os quais compartilha o processo de criação – como Carlos Reichenbach, cineasta e mestre de novas gerações de cinéfilos que morreu em 2012 e que tem aqui uma de suas raras incursões como intérprete.

Na trama, um homem (André Gatti) volta à casa de seu pai (papel de Reichenbach), um senhor que vive isolado desde que seu outro filho desapareceu na mão de agentes da ditadura militar, 30 anos antes. A tentativa de comunicação entre pai e filho se dá a partir da descoberta, por parte do homem, de rolos de filmes familiares nos quais se vê a figura do irmão desaparecido. Planos em sua maioria estáticos, de grande beleza plástica, apresentam um espaço em ruínas, para usar uma expressão do próprio Wahrmann, no qual o presente não passa de uma sombra do passado. Pelo tipo de abordagem, a ideia de construção da memória lembra o trabalho de Jia Zhang-ke em Em Busca da Vida (2006) – longa que, não por acaso, tem como título original a expressão “natureza-morta” (Still Life, em inglês).

Há humor em Avanti Popolo, apesar (e além) de tudo. Ele perpassa toda a narrativa, mas salta aos olhos especialmente quando o personagem de Gatti pega um táxi com um motorista (interpretado pelo crítico Eduardo Valente) que é “especialista” em hinos nacionais (para agradar aos passageiros gringos). Trata-se de um filme leve e contundente, divertido e formalmente rebuscado – daqueles que proporcionam uma sessão descontraída mas que, depois, não saem facilmente da cabeça do espectador.

Leia entrevista que o diretor concedeu por telefone:

Ainda que incipiente (tem os curtas Avós e Oma antes de Avanti Popolo), sua obra tem um caráter ao mesmo tempo político e familiar, na qual desponta uma ideia de construção e preservação da memória – pelo viés pessoal, afetivo. Por que este tipo de abordagem te motiva?
Meus curtas retratam relações entre gerações de descendentes do Holocausto a partir do abismo de comunicação entre elas. Em Avanti Popolo, a pesquisa continua, agora deslocada para as ditaduras militares latino-americanas. Mas o princípio – do trauma, da ausência – é o mesmo. E os três filmes, de forma similar, tratam da construção da memória, de como esses grandes eventos históricos se relacionam com o presente e se manifestam em pequenos acontecimentos íntimos, cotidianos. O longa nasce mais do medo do esquecimento do que da vontade de evocação do passado. É um filme sobre o presente. E, assim sendo, nossos heróis não são mais heróis, mas pessoas comuns, com histórias quase banais. A ditadura e sua história a gente já conhece. O que me interessa é o que restou dela. Quando desligam as câmeras, e ninguém mais quer saber da sua história, o que você faz? Onde você vai? Quem te ouve? Ninguém. Você fica sozinho, com sua história de vida, com seu filho desaparecido, com as saudades, com a dor. E isso só se pode contar a partir da intimidade, da solidão. Por outro lado, as questões políticas sempre foram parte do meu fazer, já que minha entrada no cinema não vem necessariamente da cinefilia ou de uma grande paixão pela linguagem, e sim por acaso: eu queria me expressar, podia ser pelo cinema ou por qualquer outro meio. Quando jovem, em Israel, minha intenção era ser político. Eu militava nos movimentos de esquerda. As histórias das ditaduras latino-americanas me eram passadas pelos meus pais, assim como a memória dos meus avós e da II Guerra Mundial. Mesmo que esses temas apenas façam parte do meu imaginário, eles sempre foram muito presentes na minha vida. Para mim, que não sou uma pessoa muito criativa, é difícil fazer filmes sobre coisas que não são minhas.

Avanti Popolo é um filme sobre a construção da memória, mas a partir do cinema, com citações cinéfilas (o próprio título é uma delas, a cachorra que se chama Baleia, como no clássico Vidas Secas, é outra) e com atores que na verdade são cineastas ou pesquisadores do cinema. Você já disse que os personagens são baseados nos seus intérpretes. Outra informação interessante: o projeto começou como um e virou um longa depois de ter sido filmado em apenas seis dias. É verdade? Fala um pouco do processo de formatação do projeto, por favor.
O filme nasceu de uma premissa simples: um pai espera o filho desaparecido, sua espera, o absurdo dela – o que determinou um primeiro diálogo com Esperando Godot, de Becket. Daí, por livre associação, pensei em usar o (André) Gatti como protagonista. Ele era meu professor de cinema e começou a trabalhar junto comigo no roteiro e no desenvolvimento de algumas ideias. Obviamente, não podia chamar um ator profissional para o papel do pai, pois iria destoar muito do André. Na mesma época, falando com o Carlão (Reichenbach), percebi a semelhança física dele com o André. Ele aceitou, depois de alguma insistência da minha parte, e de me passar uma lista de atores melhores do que ele, lista que recusei muito educadamente. De alguma forma, como não gosto de trabalhar com atores, fui criando cenas e pensando em qual dos meus amigos e conhecidos poderia fazer o papel imaginado. A cena do taxista, por exemplo, foi escrita a partir de uma viagem real minha de táxi, e, para interpretá-la, fiquei pensando em algum amigo obsessivo, neurótico – para não dizer chato. Foi como surgiu o nome do Eduardo Valente… A essa altura, já tínhamos alguns tratamentos do roteiro e tínhamos ganhado o Prêmio Estímulo de Curta-Metragem em São Paulo, mas o roteiro se modificava o tempo todo, personagens iam sendo desenvolvidos, a estrutura narrativa ia ganhando camadas etc. Entramos no set com a perspectiva de rodar o projeto em seis ou sete dias. Alterei o plano, que era muito rígido, prevendo a filmagem de cenas do curta e alguns extras que, se dessem certo, poderiam levar a um longa. De fato, entregamos o curta em dois meses e, depois, ficamos montando um longa durante um ano, que só foi resolvido, dado como pronto, quando o curador do Festival de Roma viu o corte e pediu o filme para o seu festival (Avanti Popolo ganhou o prêmio principal do evento).

Buscando descrever os planos estáticos de dentro da casa em Avanti Popolo, alguém já usou a expressão “natureza-morta” – que aliás é o título de um dos filmes de Jia Zhang-ke (Em Busca da Vida no Brasil), um cineasta que trabalha o tema da construção da memória e, consequentemente, da identidade. Pelo conceito, natureza-morta fala de algo estático, mas, paradoxalmente, em ambos os casos há algo de inconformidade na abordagem do tema, você concorda?
Não vi Em Busca da Vida. Mas o conceito de natureza-morta estava no nosso filme quase desde o começo dos estudos de referencias de arte. Como a gente trabalhou com basicamente um plano só, por assim dizer (um plano amplo de dentro da casa do pai, repetido durante o filme), discutimos e elaboramos muito o que ele seria. Nossas referências partiram de alguns quadros renascentistas e acabaram nas polaroides de Tarkovski. A natureza-morta é um fio dramático ao longo da história da arte, e nos apegamos muito ao conceito. Não é à toa que a pintura principal da parede, dentro do quadro fílmico, apresenta uma floresta e uma lagoa, e que no meio da mesinha da sala há uma cesta de frutas muito bem composta que permanece como um elemento vivo nessa sala morta até ser “comida” pelo protagonista ao fim do filme – na mesma sequência que ele tira o quadro da floresta da parede a fim de projetar nesse espaço seus velhos filmes. A natureza-morta que substitui outra natureza-morta. Já que a memoria, também, é ruína. Como o filme trata da espera, acreditava que a forma deveria dar conta disso. Se eles esperam, nós esperamos. É o correto. É respeitoso com esses personagens e suas histórias. Seria ruim ter de acelerar, agilizar as coisas pelo meu bem fílmico. A espera gera a estagnação. O não poder enterrar o morto não permite o luto. Sem o luto, não tem superação. E aí cria-se de novo uma relação e um questionamento do papel do cinema – ou da arte – nesse âmbito. E, óbvio, de como lidamos com nosso passado. A lembrança apenas não basta. Sem confronto, como se alcança a superação? Sem questionamento, sem abrir as feridas para poder limpá-las, como continuamos? A estagnação, nesse sentido, mais do que conformidade, para mim, nasce de uma derrota, de uma desistência, tão teimosa e tão certeira no seu pessimismo, que nem a memória é capaz de curar. E aí, o que é capaz? Qual seria a inconformidade? Como faz o filho que volta à casa, que precisa lutar não só contra sua própria derrota, mas contra a derrota do pai também? O pai que cansou, o filho que cansou. Os dois que desistem. E, no final, chego eu, diretor do filme, e desisto também. A deriva é uma manifestação da inconformidade? Ou da conformidade? Não sei.

Avanti Popolo construiu uma carreira muito interessante em festivais e vem sendo muito badalado, mas em nichos restritos. Entretanto, por questões de mercado e pelo seu próprio hermetismo, está mais para o que o pesquisador Jean-Claude Bernardet chamou de “cinema irrelevante”. Há, de fato, uma distância enorme entre o grande público e o cinema de autor. Como você vislumbra a carreira do filme agora, depois dos festivais e a partir de seu encontro com plateias fora do nicho cinéfilo?
Bernardet está certo. Nós fazemos cinema irrelevante. Avanti Popolo ganhou prêmios no Brasil e no Exterior, análises e estudos diversos, foi notado pelo nicho. Ótimo. Mas ninguém vai ver este filme. Não é à toa que, ao final, nosso personagem declara que não vê mais nada. Não é à toa que o epílogo apresente a mim, o diretor, cantando um hino socialista, solitário, sem coro, sem ânimo, enquanto vemos um cinema em ruínas. Tudo o que aparece no filme são ruínas. Fiz um filme que ninguém vai ver, sei disso. E acho isso triste. Da mesma forma, ninguém leu o texto do Bernardet. E ninguém lerá esta entrevista. As pessoas não querem ler Bernardet, nem uma entrevista com um cineasta desconhecido. As pessoas querem ler a coluna da Mônica Bergamo. Então eu não posso vislumbrar a carreira do filme pensando no grande público. Nossa batalha não pode ser essa. Existe o entretenimento e a indústria, mas cada um com seu papel. O cinema de arte precisa da indústria, pois, sem ela, não temos trabalho, nem dinheiro. Mas a indústria também precisa de pessoas irrelevantes que nem a gente, que experimentem a linguagem, proponham novos caminhos, toquem em novos assuntos, duvidem, questionem, busquem a renovação. Sem isso, o cinema morre de tédio. O que me leva a concluir que “relevância” é um termo muito relativo. E que me leva a lembrar do manifesto Anti 100 Anos de Cinema, do cineasta Jonas Mekas:

“Nos tempos em que todo mundo quer ter sucesso e vender, eu quero celebrar aqueles que abraçam o fracasso, social e diariamente, para buscar o invisível, o pessoal, coisas que não trazem dinheiro ou pão e não fazem história contemporânea. Eu sou pela arte que fazemos uns para os outros, como amigos, para nós mesmos. Eu estou de pé no meio da Rodovia da Informação e rindo. Porque uma borboleta em uma pequena flor em algum lugar, acabou de bater suas asas e eu sei que todo o curso da história vai mudar drasticamente por causa desse bater de asas. E o mundo nunca mais será o mesmo. A verdadeira história do cinema é a história invisível, a história de amigos se reunindo e fazendo o que amam. Para nós, o cinema está começando a cada novo rumor do projetor, a cada novo rumor de nossas câmeras nossos corações saltam à frente, meus amigos!”.

"O Segundo Jogo" resume em clássico de futebol o clima na Romênia antes da revolução

10 de junho de 2014 0

Não existe uma simples partida de futebol. Da pelada na calçada à final da Copa do Mundo, estão sempre presentes os ingredientes das jornadas épicas que forjam heróis, arranham reputações e sepultam carreiras. Apresentado na mostra Fórum do Festival de Berlim, em fevereiro passado, o longa-metragem romeno O Segundo Jogo (Al Doilea Joc, 2014), de Corneliu Porumboiu, revive um desses momentos.

Destaque da nona edição do projeto Sessão Plataforma, às 20h30min desta terça-feira, na Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro, O Segundo Jogo reproduz na íntegra uma partida entre o Estrela e o Dínamo, os dois principais times de futebol da Romênia, rivais históricos, ambos fundados logo após a II Guerra e com sede na capital Bucareste.

>>> Leia mais: outros textos sobre filmes já exibidos na Sessão Plataforma: Bestiaire; Room 237; Avanti PopoloO Ato de Matar.

Em O Segundo Jogo, não há narração. Ouve-se apenas as vozes do diretor e de seu pai, Adrian Porumboiu, o juiz daquele jogo que ocorreu em 3 de dezembro de 1988. Exatamente um ano depois do maior clássico do país, teria início a revolta popular que fez ruir o regime comunista comandado com mão de ferro pelo ditador Nicolae Ceausescu.

Nas lembranças de pai e filho, a partida local espelha o clima político da Romênia à época. O Estrela foi criado no ambiente militar e tem seu nome (Steua, no original) em referência ao símbolo do Exército Vermelho soviético que acabou difundido também nas esferas militares dos países-satélites da antiga URSS. O Dínamo nasceu nos corredores no Ministério do Interior e tinha como grandes apoiadores proeminentes burocratas e agentes do aparelho de vigilância estatal.

O Estrela era, em 1988, a equipe mais poderosa da Romênia e uma das grandes forças do futebol europeu. Fez história ao ganhar a Liga dos Campeões da Europa em 1986, batendo o Barcelona na final, sob o comando do jovem craque Gheorghe Hagi, que brilharia em três Copas do Mundo com a Romênia, em 1990, 1994 e 1998.

Em meio à reprodução numa fita VHS da partida, disputada sob uma rigorosa nevasca, Adrian fala das pressões que sofria antes de entrar em campo, comenta algumas jogadas, destaca alguns jogadores. Diante das terríveis condições climáticas, em que mal se consegue ver a bola laranja cruzando um tapete branco praticamente sem marcações, o pai do diretor garante que deu condições de jogo por que “havia visibilidade suficiente”.

O filme não explica ao espectador o contexto daquele jogo. Não era uma decisão, pois ao longo da transmissão é informado o resultado das outras partidas da rodada. O Wikipédia diz que esse foi o segundo duelo do ano entre o Estrela (de vermelho) e Dínamo (de branco no primeiro tempo e de azul no segundo). Em junho, ficaram no 3 a 3. Assim, o “segundo jogo” do título pode ter tanto o significado literal quanto se referir ao outro jogo que estava sendo jogado nos bastidores — o exército acabaria chancelando o levante popular que levou culminou na execução de Ceausescu.

Se a conversa entre pai e filho colocam a narrativa em um plano íntimo e histórico um tanto distante do espectador, o filme seduz, sobretudo os fãs de futebol, pelo ar etéreo e de progressiva tensão que imprime à batalha campal. A neve constante combinada com o granulado da reprodução faz O Segundo Jogo parecer um sonho — ou pesadelo — revisto em flashback.

A horas tantas, o resultado já não importa. A peleia é bastante dura. De um lado, o futebol arte do Estrela. Do outro, o estilo “voluntarioso” do Dínamo. Carrinhos apavorantes, solas de rachar bola e a canela alheia pontuam jogadas de grande técnica que tentam empurrar a bola para dentro do gol de pé em pé.

Corneliu Porumboiu destacou-se internacionalmente em filmes premiados como a comédia A Leste de Bucareste (2006) e o drama Polícia, Adjetivo (2009), que mostraram como a Romênia reaprendeu a caminhar por conta própria sem o peso da era Ceausescu, mas sempre sob a sombra do imenso aparelho burocrático que sobreviveu para atravancar os passos dos cidadãos em tempos de democracia.

O Segundo Jogo pode ser visto como a preliminar do novo país que estava por nascer sob o grito daqueles torcedores encarangados de frio que lotavam o estádio e que acabaram se unindo nas ruas para comemorar uma conquista tão grande e emocionante quanto bater o maior rival de goleada.

A sessão tem ingresso a R$ 3, com reprise no sábado, às 18h. Um dos mais importantes projetos cinéfilos realizados na Capital, a Sessão Plataforma exibe a cada mês filmes inéditos no circuito comercial realizados por diretores com perfil autoral reconhecidos nos mais importantes festivais internacionais.

Suspense e drama juntam-se no ótimo filme brasileiro "O Lobo Atrás da Porta"

09 de junho de 2014 0

No subúrbio carioca, um triângulo amoroso alimentado por mentira, desejo e perversidade culmina em uma tragédia hedionda. Eurípedes e Nelson Rodrigues encontram-se em O Lobo Atrás da Porta, o melhor filme brasileiro a chegar aos cinemas desde O Som ao Redor (2012). Estreia no longa-metragem do diretor Fernando Coimbra, o suspense revela as histórias que cercam o sequestro de uma criança: quando Sylvia (Fabíula Nascimento) descobre que uma desconhecida foi buscar sua filha de seis anos na escola, a polícia chama seu marido, Bernardo (Milhem Cortaz), para depor. Na delegacia, o homem confessa ao detetive interpretado pelo ator Juliano Cazarré seu caso com a bela Rosa (Leandra Leal). Aos poucos, os depoimentos de Sylvia, Bernardo e Rosa vão tecendo uma trama de amor passional, obsessão, traição e vingança.

– A origem foi uma história que eu li em 1998 em uma revista da década de 1960 sobre um crime parecido. A assassina era amante do pai da criança e, depois de presa, rejeitou qualquer defesa em seu julgamento. Ela dizia estar consciente do crime que cometeu e não se arrependia de nada. A mídia passou a chamá-la de “Fera da Penha”. Me interessou ver o quão humana na verdade era essa mulher tratada como monstro, mostrar que uma atitude como essa não é tão incomum quanto parece – explicou o diretor e roteirista em entrevista por telefone.

Um dos trunfos de O Lobo Atrás da Porta é o elenco: as longas sequências sem corte permitem que o trio central expresse paixão, verossimilhança e densidade dramática. No filme, todos falam muito – os silêncios, porém, são mais eloquentes, denunciando a falta de comunicação entre os protagonistas, que parecem agir sem pensar.

– Quando escrevi o roteiro, não estava pensando em ninguém em particular. Cada ator veio de um jeito diferente. A Rosa era difícil de encontrar: tinha que ser jovem, mas com experiência, ter uma interpretação minimalista, muito no olhar. A Leandra tem isso, um olhar firme e, ao mesmo tempo, doce. Já para interpretar Bernardo, eu não queria um galã, um cafajestão, mas um tipo que provocasse tesão na Rosa. O Milhem pode ser brutal, delicado, engraçado. A Fabíula tem essa coisa de um lado meio cômico, e as brigas do casal têm um certo humor. Juntamos os três e foi ótimo – disse Coimbra.

Para além de injetar dinamismo no thriller, a alternância de pontos de vista dos personagens na narrativa permitiu a Fernando Coimbra acrescentar complexidade à trama de O Lobo Atrás da Porta:

– Investigando a história original, vi que as versões não batiam. A realidade do filme é subjetiva para cada personagem, levando assim não somente a uma única verdade, mas a verdades diferentes e conflitantes.

Rodado com baixo orçamento, de apenas R$ 1,5 milhão, O Lobo Atrás da Porta fez sua estreia mundial no Festival de Toronto do ano passado. Melhor longa brasileiro do Festival do Rio 2013 e vencedor do prêmio de melhor atriz (Leandra), o filme já foi vendido para mais de 20 países. Está em cartaz no Brasil desde a última quinta-feira (em Porto Alegre, pode ser visto no GNC Moinhos e no Espaço Itaú).

Série "Ocidentes" leva à TV histórias representativas das diversas fases do mítico bar do Bom Fim

06 de junho de 2014 0

Em exibição nesta semana na TVE, a série Ocidentes recria o ambiente do tradicional bar da esquina da João Telles com a Osvaldo Aranha que foi, ao mesmo tempo, cenário e personagem das mudanças comportamentais que acompanharam a capital gaúcha nas últimas quatro décadas. São quatro dramas fictícios que espelham dilemas e personalidades de seus frequentadores, artistas de várias linguagens entre eles, que por ali passaram desde que o Bom Fim era o bairro boêmio de Porto Alegre por excelência.

E isso é um elogio: as diversas fases do Ocidente estão todas ali, muito bem representadas pelos olhares de diretores que testemunharam a história que agora retratam. Mérito do mentor da série, o cineasta Fabiano de Souza, e de seu sócio, Milton do Prado, que assina a montagem e a produção-executiva de todos os episódios (esta última função juntamente com Jéssica Luz e o próprio Fabiano): foram eles que escolheram Carlos Gerbase para dirigir o trecho relativo aos anos 1980, Bruno Polidoro para o dos 2000 e João Gabriel de Queiroz para o dos 2010, além de Fabiano, ele mesmo, para o dos 1990.

Comecemos por aí, a década em que dava para ver Pulp Fiction (1994) no Baltimore ou passar pelo Bar do João antes de assistir a Júpiter Maçã berrando “Walter Victor tomador de panca” no palco do Oci. Com diálogos lindos e citações precisas (a de “educação sentimental”, mencionando Foucault e Kid Abelha, é inspiradíssima), Fabiano de Souza narra o desenrolar de uma paixão adolescente ao longo de três anos de festas no lugar. Seu personagem principal (Guilherme Kury) é a encarnação de um tipo comum, o garoto mais jovem, e notadamente tímido, a observar uma musa mais velha na pista de dança, sempre deslumbrante e eventualmente namorando um roqueiro ou, no caso, o DJ.

A sensibilidade na composição dos personagens e na observação das situações se repete sobretudo no terceiro episódio, relativo aos anos 2000, que se passa em sua maior parte no fumódromo. Bruno Polidoro usa imagens da pista para demarcar a passagem do tempo, concentrando a ação propriamente dita nas tensões que se estabelecem naquele refúgio ao ar livre. Há algo de provocativo na maneira confusa (e amoral) com que se dão as aproximações dos frequentadores: um homem (Henrique Larré) flerta com uma mulher (Carolina Sudati), que por sua vez flerta com o homem (Márcio Reolon) que havia flertado com o primeiro homem – e o espectador, no meio da fumaça daqueles cigarros compartilhados, tem uma boa ideia de um conceito, o do amor livre, que encontra guarida no Ocidente desde sempre.

É curioso, nesse sentido, comparar o episódio de Polidoro com aquele dirigido por Carlos Gerbase, que faz referência à década de 1980. Gerbase explora as tensões de bastidores de uma banda formada por mulheres – aí incluída uma paixão mal resolvida, tapas, beijos, sexo, drogas e punk rock. Em contraposição à sutileza de Polidoro, que opta pelos silêncios e pelas sugestões para evidenciar os conflitos dramáticos de sua história, Gerbase aposta essencialmente nos diálogos para estabelecer a comunicação – entre os personagens e com o espectador.

Polidoro é mais sutil e também mais romântico. Vale usar as diferenças de abordagens entre ambos para fazer um paralelo comportamental que envolve a manifestação da homoafetividade em seu tempo. A verborragia da baterista punk que protagoniza o episódio mais antigo (Joana Vieira) é simbólica de um momento em que era preciso falar mais alto para marcar posição – e no qual o Ocidente servia como uma espécie de refúgio. Nos anos 2000, o refúgio segue lá, mas, não por acaso, foi ampliado e já não carrega mais tão fortemente a pecha de gueto.

Também parece ser geracional a opção pelo cinema narrativo e da palavra – é assim o estilo de Gerbase e de seus contemporâneos gaúchos, Jorge Furtado inclusive e principalmente. Se, no episódio que retrata o Oci dos anos 1990, Fabiano de Souza leva elementos desse tipo de filme à elaboração extrema (textos são reproduzidos sobre as imagens, constituindo algo próximo à poesia concreta), o trabalho de Polidoro vira a página, mudando a forma de pôr a juventude na tela. Entenda-se “forma” no sentido fílmico e de conteúdo propriamente dito. Os próprios tipos que circulam por seu filme parecem bem menos idealizados, o que certamente se justifica, ao menos em parte, pela proximidade histórica e a consequente falta de distanciamento para a sua construção.

Parece-me correto enxergar a trama situada no período pós-2010 como uma continuação – muito próxima, ressalte-se – do episódio cronologicamente anterior: em uma festa de formatura, os afetos revelam-se múltiplos e, sobretudo, multifacetados. Destaque, nos dois episódios recentes, para os planos com composições elaboradas e os belos jogos de luzes, no interior do inferninho e fora dele, no amanhecer da cidade silenciosa. É o próprio Polidoro quem assina a fotografia do episódio dirigido por João Queiroz, o que ajuda a constituir a unidade visual que os dois filmes revelam – e que serve ainda mais para aproximá-los entre si.

Em cada um dos quatro casos, de todo modo, independentemente de escolhas estéticas e de eventuais irregularidades que cada episódio possui, a capacidade de traduzir sua época é muito bem-sucedida. E sem concessões. Tanto que, embora integre a série Histórias do Sul, terá exibições nas noites de terça a sexta-feira apenas a partir da 1h30min, e não mais cedo, como ocorreu com os especiais que o antecederam.

A reprise dos quatro episódios, um atrás do outro, começa à meia-noite de sábado para domingo.

Um por um, os quatro episódios da série Ocidentes:

Anos 1980: As Bateristas Banda de punk rock formada por garotas é abalada quando sua ex-baterista volta de Londres e diz que vai reassumir seu lugar. De Carlos Gerbase. Com Joana Vieira, Tainá Gallo, Júlia Barth e Liege Massi.

Anos 1990: A Última Festa do Século Garoto chega ao Ocidente para a última festa de 1999 e lá reencontra, em memória, amigos que foram se dispersando nos anos anteriores, especialmente uma garota mais velha. De Fabiano de Souza. Com Guilherme Kury, Miriã Possani, Fred Vasques, Mateus Almada e Carina Dias.

Anos 2000: Cinco Cigarros e um Beijo Em uma noite, jovem de 20 anos vê a noite passar enquanto observa as pessoas no fumódromo e na pista de dança. De Bruno Polidoro. Com Henrique Larré, Márcio Reolon, Carolina Sudati, Samuel Reginatto, Eduardo Cardoso e Rafael Tombini.

Anos 2010: Aurora Em uma festa de formatura, dois amigos se despedem de uma garota que vai mortar no Exterior. De João Gabriel Queiroz. Com Filipe Rossato, Mirah Laline, Francine Kliemann, Natalia Karam, Martina Fröhlich e Maí Yandara.

"Taxi Driver" em seu devido lugar

29 de maio de 2014 0

taxi blog

Nunca consegui assistir a Taxi Driver (1976) no cinema. Perdi a chance em algumas reprises e acabei vendo pela primeira vez na TV, depois em VHS. Comprei o DVD com uma edição especial cheia de extras e, depois, o Blu-ray igualmente turbinado e que dá ideia mais aproximada da beleza visual que resultou da parceria de Martin Scorsese com o diretor de fotografia Michael Chapman.

Assim, é grande a minha expectativa para encaixar uma das três sessões que Taxi Driver vai ter no Cinemark Barrashopping, dentro do projeto que faz ressurgir diante dos cinéfilos filmes clássicos em cópias restauradas e reluzentes por conta da projeção digital de alta performance que se impõe como novo padrão nas salas de exibição. Leia mais sobre o projeto aqui.

Como todo grande filme, Taxi Driver tem uma mitologia saborosa nos bastidores de sua realização. O roteiro foi escrito por Paul Schrader, sujeito ciclotímico e apaixonado por armas que inspirou-se em experiências e paranoias pessoais para escrever a história que ficou por anos circulando em Hollywood até Scorsese ser aceito para tocar o projeto. Isso mesmo, ser aceito. Tanto Schrader quanto os produtores do filme relutaram em confiar Taxi Driver a Scorsese quando este se interessou pelo roteiro, no começo dos anos 1970. Schrader ofereceu Taxi Driver primeiro a Brian De Palma, que achou a história pesada demais para ser transformada por ele  em um filme comercial. Foi somente após se consagrar com Caminhos Perigosos (1973), com Harvey Keitel e Robert De Niro no elenco, que Scorsese passou a ser levado a sério como aquele que seria capaz de apresentar um dos personagens mais icônicos do cinema: Travis Bickle, veterano da Guerra do Vietnã que deseja  limpar das ruas de Nova York da sujeira humana que cruza seu caminho nas madrugadas.

Bickle é um tipo solitário e perturbado que tenta se reintegrar à sociedade que parece ignorar sua existência. Sem traquejo para o convívio social mais afetivo, ele tenta se aproximar da bela assistente de um político em campanha (vivida por Cybill Shepherd). Rejeitado, decide encanar uma espécie de anjo vingador, missão que o faz pelo caminho se tornar protetor da jovem prostituta Iris (papel de Jodie Foster, então com 12 anos).

O tom pessimista e amoral que faz de Bickle, ao mesmo tempo, vilão e herói da melancólica jornada de quem não tem nada a perder, a evocação do cinema noir na narração em off,  a Nova York sórdida e decrépita que emerge à margem dos cartões-postais, a antológica atuação de De Niro fizeram de Taxi Driver um dos filmes mais vigorosos da Nova Hollywood, movimento que renovou o cinema americano nos anos 1970.

Anos atrás, uma rede britânica de cinemas perguntou a personalidades qual a melhor frase dita em um filme. Em primeiro lugar, uma de Bickle em Taxi Driver: “You talkin’ to me?” (“Tá falando comigo?”), dita diante do espelho no momento de transição do personagem rumo à ciranda de violência que terá como desfecho um banho de sangue no cortiço onde opera o cafetão (Keitel) de Iris — a pedido de Scorsese, Chapman suavizou o tom vermelho-sangue na pós-produção para a sequência não ficar parecer tão chocante aos espectadores mais sensíveis. Na segunda colocação ficou a célebre apresentação do polido agente secreto 007, na voz de Sean Connery: “Bond, James Bond”.

"No Limite do Amanhã" é uma mistura interessante entre ação e ficção científica

29 de maio de 2014 0

Com estreia nesta quinta-feira em todo o circuito, No Limite do Amanhã mistura ação com ficção científica, Guerra dos Mundos (2005) com Contra o Tempo (2011): vai a um futuro indefinido para narrar a luta de um major norte-americano (Tom Cruise) contra um exército de alienígenas poderosos que tomaram o continente europeu. Mas, espera, ele os enfrenta sozinhos? É claro que não! Sem a ajuda de uma parceira linda e loira (Emily Blunt), o herói não conseguiria salvar o mundo.

Brincadeiras à parte, No Limite do Amanhã foge dos clichês narrativos dos filmes-catástrofe ao emular o longa de Duncan Jones (Contra o Tempo) no qual um agente do governo tinha o poder de voltar ao passado para mudar o curso dos acontecimentos. Aqui, a coisa é ainda mais engenhosa (mas muito bem articulada no roteiro que adapta a obra do japonês Hiroshi Sakurazaka): ao se engalfinhar com um alien no campo de batalha, o major é “contaminado” pelo inimigo, tendo acesso aos seus poderes, que incluem o controle da passagem do tempo.

A partir daí ele passa a reviver, repetidamente, aquele mesmo dia. E tome tiros e luta corporal com as estranhas criaturas, numa praia inglesa à qual o espectador é levado de uma forma que lembra a recriação do Dia D da II Guerra Mundial em O Resgate do Soldado Ryan (1998): se o filme de Steven Spielberg usava o potencial imersivo das novas tecnologias de então (salas stadium, som digital em seis canais), No Limite do Amanhã explora as possibilidades do 3D com competência, tornando as sequências de confronto um espetáculo de entretenimento à parte.

É como nos videogames, em que a morte não significa o fim, mas o início de uma nova vida: aprendendo com os erros, a cada recomeço o herói (e sua bela parceira) consegue avançar mais, eliminando batalhões e batalhões para chegar ao big boss do mal. Isso em uma Europa devastada. Entre os cenários usados, chamam a atenção o Louvre parisiense, completamente inundado, e uma Trafalgar Square londrina a servir de base para helicópteros do exército.

No Limite do Amanhã custou US$ 180 milhões, fortuna superada apenas pelos projetos com os quais a indústria almeja arrecadações na casa do US$ 1 bilhão. Pode-se dizer que se trata de um teste para Tom Cruise, galã de imagem desgastada, e também para Doug Liman, produtor da Trilogia Bourne (2002 – 2007) e diretor de Sr. & Sra. Smith (2005) que havia deixado a correria de lado para realizar o bom drama Jogo de Poder (2010) e agora está de volta aos blockbusters de ação para as massas.

Ação de qualidade, inventiva em sua construção narrativa e com uma pitada de humor que faz toda a diferença, você vai ver.

O despojamento de Jair Rodrigues (1939 – 2014) no bom filme brasileiro "Super Nada"

08 de maio de 2014 0

Morto nesta quinta-feira, Jair Rodrigues foi responsável por uma das performances mais surpreendentes do cinema nacional recente. Como o personagem-título do bom drama de humor negro Super Nada, de Rubens Rewald, o cantor aparece em cena com um despojamento impressionante, cantando, dançando, flertando com uma garota bem mais nova do que ele – e muito mais, que é bom não adiantar porque uma das chaves para entrar neste estranho (no bom sentido) filme de Rewald (o mesmo de Corpo) é se deixar surpreender por sua trama sobre um jovem ator (Marat Descartes) que tem o personagem televisivo Super Nada como seu herói pessoal desde a infância.

Super Nada ganhou o prêmio de melhor ator (para Descartes) no Festival de Gramado de 2012. Na seção Novos Rumos do Festival do Rio do mesmo ano, levou os troféus de melhor filme e um prêmio especial do júri para a performance de Jair Rodrigues. O longa, que ganhou o circuito nacional em 2013, pode ser visto em DVD – chegou ao mercado de home vídeo em lançamento da Lume Filmes.

Sinta só o clima de Super Nada:

As margaridas da Primavera de Praga

02 de maio de 2014 0

A quem, como eu, não conseguirá acompanhar a Mostra Nouvelle Tcheca se enfurnando na Sala P.F. Gastal até o próximo domingo, um pequeno consolo: embora não se compare à experiência coletiva de descobrir essas 12 joias que chegam à tela do cinema da Usina do Gasômetro em 35mm — e os relatos de quem está cumprindo a maratona são dos mais entusiasmados —, é possível recuperar o prejuízo com pelo menos duas delas. As Pequenas Margaridas (1966) e Valerie e sua Semana de Deslumbramentos (1970) foram lançados em DVD no Brasil pela Lume Filmes, com os títulos As Margaridas e Valerie e a Semana das Maravilhas. Os adeptos da pesca no mar de torrents podem catar os outros longas da mostra.

Sobre as As Pequenas Margaridas (na foto acima), posso dizer que trata-se de uma das experiências mais ricas e impactantes que  o cinema já proporcionou. Vera Chytilová, diretora que morreu em março passado, aos 85 anos, tem como personagens duas jovens chamadas Maria (vividas por Ivana Karbanová e Jitka Cerhová) que se lançam em uma aventura libertária e anárquica. Não existe uma história, mas sim uma serie de situações em que elas, entre o humor ácido e o puro vandalismo, marcam posição contra as convenções políticas e sociais. É também uma demarcação de território geracional, que deixa claro que o “velho” e o “novo” estão em campos opostos e conflitantes.

Esse filme é fruto do efervescente movimento da contracultura que  floresceu em meados dos anos 1960 na antiga Tchecoslováquia, hoje República Checa, com o país sob a condição de Estado-satélite da extinta União Soviética. O  ensaio de uma utópica distensão da influência soviética, porém, foi abortado pelo Kremlin com a intervenção que se seguiu à Primavera de Praga, em 1968 . Enquanto durou, esse movimento se refletiu na sua produção artística, sobretudo no cinema. Apesar das limitações impostas, os realizadores locais absorveram de forma peculiar a influência da nouvelle vague francesa incorporando na sua temática o componente da crítica e da sátira políticas. Mas foi uma produção que circulou de forma limitada com o endurecimento do regime.

As Pequenas Margaridas espelha o paradoxal sentimento de pessimismo e desânimo embebido na disposição para chutar o balde com uma explosão de criatividade. As meninas de Vera discutem essa condição de estagnação física e existencial enquanto enchem a cara e importunam clientes de uma boate, esnobam pretendentes, exploram homens mais velhos e flanam pelas ruas aprontando suas traquinagens. Em uma ousada demarcação de território feminista, exibem-se como donas de suas mentes e corpos (se dizem irmãs, mas podem ser amigas ou amantes) e fatiam bananas e pepinos numa possível interpretação do desprezo delas pelo símbolo fálico da opressão masculina.

Vera Chytilová dá ao filme à aparência de um mosaico visual, alternado registro em preto e branco com cores berrantes. Flerta com o documental numa sequência, logo adiante se lança em um delírio que interliga dadaísmo e surrealismo e, em seguida, gira em um caleidoscópio psicodélico. Evoca tanto às trucagens mágicas das cabeças de  Méliès nos primórdios do cinema quanto à  bricolagem contemporânea da pop art.

As Pequenas Margaridas despontou com obra-prima simbólica do vanguardismo que caracterizou a  nouvelle vague tcheca. É possível ver referências a ela em filmes como Céline e Julie Vão de Barco (1974), de Jacques Rivette, e Hair (1979), de Milos Forman, diretor checo que faz parte da turma de Vera e que foi fazer uma carreira nos Estados Unidos, onde consagrou-se com os Oscar de direção por Um Estranho no Ninho (1975)  e Amadeus (1984). A cena do hippie pisoteando o banquete da família rica da namorada, em Hair, é decalcada do desfecho de As Pequenas Margaridas, filme que Vera (na tradução do DVD) dedica “a todos cuja única fonte de indignação está esmagada pela mesquinharia”.

Em cartaz em Porto Alegre, dois raros (e bons) filmes do Paraguai e da Venezuela

25 de abril de 2014 0

É raro ver, no circuito brasileiro, filmes da Venezuela e, sobretudo, do Paraguai. Nesta semana, no entanto, um exemplar de cada uma dessas duas pouco conhecidas cinematografias latino-americanas chegou ao circuito. Leia, abaixo, nossos textos sobre ambos:

Pelo Malo,
por Roger Lerina

A presença constante da Venezuela no noticiário nos últimos anos não encontra eco, infelizmente, nas telas dos cinemas – os filmes rodados no país vizinho raramente chegam ao Brasil. O sensível drama Pelo Malo vem quebrar esse jejum, trazendo à discussão problemas comuns à realidade de todo o continente latino-americano: preconceito racial e de orientação sexual, discriminação por gênero e por condição social, precariedade institucional e econômica.

Premiado em San Sebastian, longa em cartaz no CineBancários é dirigido pela cineasta e artista plástica Mariana Rondón – filha de ex-integrantes do grupo guerrilheiro FALN que, em 2007, dirigiu o drama autobiográfico Postales de LeningradoPelo Malo acompanha o cotidiano de Junior (Samuel Lange Zambrano), garoto de nove anos que não se identifica com os padrões masculinos dominantes e insiste em tentar alisar o cabelo crespo para tirar uma foto – a expressão em espanhol “pelo malo” pode ser traduzida em português como “cabelo ruim”.

O menino vive em um conjunto habitacional popular com a mãe – interpretada pela ótima Samantha Castillo –, que não consegue se estabelecer em nenhum emprego e mal dá conta de cuidar de Junior e seu irmãozinho bebê. Incompreendido e rejeitado por Marta – que leva o filho até o médico à procura de um diagnóstico para seu comportamento pouco viril –, o guri relaciona-se apenas com uma vizinha de sua idade e com a avó (Nelly Ramos). Na casa da ex-sogra de Marta, o pequeno protagonista encontra acolhida para fantasias e brincadeiras – como dublar o astro pop venezuelano Henry Stephen em uma versão tropical da música brasileira Meu Limão, Meu Limoeiro, sucesso na voz de Wilson Simonal.

A diretora de Pelo Malo foi criticada por chavistas e aplaudida por oposicionistas na Venezuela em função da denúncia de uma realidade injusta e hipócrita, marcada pelo machismo, pelo conservadorismo, pela intolerância e pela instabilidade. Tateando em busca de sua identidade e de seu lugar em um mundo hostil, o adorável Junior é um quixote mirim que entoa inocentemente a voz da diversidade em Pelo Malo.

7 Caixas,
por Daniel Feix

Depois de quase 30 anos sem produzir um longa-metragem, a cinematografia do Paraguai ressuscitou em 2006, com Hamaca Paraguaya, filme de Paz Encina que ganhou prêmios da crítica no Festival de Cannes e na Mostra de São Paulo, entre outras outras distinções. O impacto – local e global – de outro título do pequeno país vizinho que estreia esta semana no Espaço Itaú é semelhante: 7 Caixas não ganhou tantos troféus, mas bateu recordes de bilheteria no Paraguai, viajou aos festivais de Palm Springs, Toronto e San Sebastian e foi unanimemente bem-recebido pela crítica dos EUA.

Trata-se da história de um menino de 17 anos (Celso Franco) que vive de bicos, sobretudo carregamentos, no Mercado 4, espécie de feirão popular da capital Assunción. Ele sonha em ter um celular, mas o dinheiro que tem não é suficiente, longe disso. Até que lhe oferecem a exorbitante – para ele – quantia de US$ 100 para cuidar de sete misteriosas caixas.

O guri se debate sobre o que há dentro delas, foge de vilões, arruma uma parceira de aventura (Lali Gonzalez)… Os desdobramentos do conflito inicial são reveladores de aspectos sociais importantes daquele contexto: além da pobreza, são marcantes o calor forte, a violência recorrente e a dificuldade de comunicação entre os personagens. A ingenuidade também é onipresente. O problema é que ela transcende a realidade do filme – a inocência do protagonista, às vezes, é a mesma dos diretores Juan Carlos Maneglia e Tana Schembor.

Com fotografia repleta de filtros, montagem ágil e trilha moderninha, 7 Caixas a todo instante parece se colocar como um filme sobre o exótico – mais ou menos o que ocorreu com Quem Quer Ser um Milionário? (2008). Seus méritos, no entanto, também são marcantes: a ação e o suspense são conjugados com humor, o que torna a fruição leve, a despeito do conteúdo, por vezes, pesado. Não se trata de uma maneira simples – nem fácil – de abordar certas mazelas de um país tão difícil de ser retratado no cinema.

Fantaspoa chega à décima edição com mais de 150 filmes e 50 convidados

24 de abril de 2014 0

– Só por este trailer que vamos apresentar agora já dá para ter uma ideia de como o Fantaspoa cresceu.

Foi assim que João Pedro Fleck, o cara por trás do evento (juntamente com Nicolas Tonsho), anunciou esta semana a décima edição do festival fantástico realizado em Porto Alegre. O trailer contém trechos de alguns dos mais de 150 filmes (dois terços disso formados por longas-metragens) que serão exibidos entre 9 e 25 de maio no CineBancários no Santander Cultural e nas salas da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana.

Serão sete mostras, 37 sessões comentadas, mais de 50 convidados, muitos deles do Exterior, e cinco cursos de cinema, todos ministrados por profissionais vindos de fora do país. Se no ano passado um dos destaques do Fantaspoa foi a exibição da cópia restaurada e musicada ao vivo de O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, neste ano o festival vai repetir a experiência com A Morte Cansada (1921), thriller de fantasia de Fritz Lang, que terá música ao vivo a cargo do argentino Germán Suane.

São várias as promessas de bons filmes em meio à grade de programação. Um deles é o novíssimo (e ótimo) longa do diretor Nacho Vigalondo, o thriller Open Windows, estrelado por Elijah Wood e Sasha Grey (ela mesma), e que foi projetado logo em seguida à apresentação desta edição do festival a uma plateia formada por críticos e jornalistas locais. De Bruce La Bruce (um dos convidados do evento), o 10º Fantaspoa vai apresentar Gerontophilia (2013) e Otto (2008). Outras presenças de destaque serão as dos diretores BobcatGoldthwait, que vem comentar o elogiado Deus Abençoe a América (2011), e Richard Stanley, da cultuada ficção científica Hardware – O Destruidor do Futuro (1990).

Na abertura, serão celebrados os 30 anos do clássico O Vingador Tóxico (1984) que projetou a produtora independente Troma, de Michael Herz e Lloyd Kaufman, este último o diretor do longa, também presença confirmada em Porto Alegre. No encerramento, a primeira sessão pública de Jorge e Alberto Contra os Demônios Neoliberais, dos argentinos Hernán e Gonzalo Quintana, primeiro longa que conta com o selo da Fantaspoa Produções (em parceria com a El Desquicio Producción).

Eis o trailer:

Tentativa de sátira com humor escrachado, "Copa de Elite" não funciona

21 de abril de 2014 0

Difundidas nos EUA (vide, recentemente, títulos como Todo Mundo em Pânico e Não É Mais um Besteirol Americano), as comédias escrachadas que parodiam o mundo do cinema não emplacam no Brasil. Totalmente Inocentes (2012), com Fábio Porchat, foi um fracasso. Copa de Elite, com outros integrantes do Porta dos Fundos à frente do elenco (Marcos Veras e Júlia Rabello), estreou ontem com bem mais barulho – e alinhada com as comédias populares mais baixas produzidas no país nos últimos anos, o que, desta vez, faz o sucesso de público ser uma possibilidade real.

Além das piadas com filmes como Se Eu Fosse Você (2006), Chico Xavier (2010) e Minha Mãe É uma Peça (2013), e com o Festival de Gramado, não faltam passagens escatológicas. Há luta de anões, um pênis “atômico” capaz de provocar grande destruição e, lá pelas tantas, uma genitália masculina tatuada no protagonista.

Protagonista este que trabalha na tropa de elite da PM e se chama Capitão (papel de Veras) – referência ao personagem de Wagner Moura no filme de José Padilha. Junto à parceira, a dona de sex shop Bia Alpistinha (referência a Bruna Surfistinha e a De Pernas pro Ar), ele persegue um ator arrogante (Rafinha Bastos) que quer matar o papa Francisco no Maracanã, em plena final da Copa entre Brasil e Argentina.

Brincadeiras infames com os hermanos não poderiam ficar de fora, assim como a gozação com a homossexualidade – no caso, de um soldado da tropa do Capitão. Ainda aparecem em cena celebridades e subcelebridades, de Anitta (que interpreta uma repórter de tevê) a Bruno de Lucca (como ele próprio), passando por Alexandre Frota (fantasiado de mãe do protagonista) e o grupo de pagode Molejo, o que revela a tentativa de diálogo com a classe média que se diverte consumindo o lado trash da fama – no elenco de Copa de Elite, a impressão é a de que só faltou um ex-BBB.

Pode dar certo, mas seria mais digno se houvesse menos baixaria. E se a sátira fosse além da mera reutilização de figuras do showbiz nacional, posicionando-as em novas situações e não apenas apresentando-as como se o riso dependesse de nada além da própria presença delas.

As cartas redentoras de Miguel Gomes

18 de abril de 2014 0

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Depois de Tabu (2012), o realizador português Miguel Gomes dedicou-se a um projeto menor no tamanho mas igualmente grandioso na ambição artística. O curta-metragem Redemption, apresentado por ele em setembro de 2013 no Festival de Toronto, é como uma versão concentrada das engenhosas ferramentas narrativas e da paixão pelo cinema que o diretor mostrou também em seus outros dois longas, A Cara que Mereces (2004) e Aquele Querido Mês de Agosto (2008).

Nada muito grave, mas se você for adiante neste texto vai deparar com algumas informações que podem  arrefecer um tanto a fruição de Redemption, mas sobre as quais não se pode deixar de comentar.

Ao longo de 26 minutos, Gomes combina em Redemption uma narração ficcional epistolar (“fruto da imaginação do autor”, como explica nos créditos) com imagens de arquivos que vão de registros históricos e trechos de filmes documentais a cenas de clássicos como Milagre em Milão (1951), de Vittorio De Sica. A proposta do diretor é, por meio de quatro  histórias banais, que poderiam ter sido protagonizadas por qualquer espectador, traçar breves perfis “redentores” de líderes políticos de países europeus. Apenas nos créditos finais é informado que são eles Pedro Passos Coelho (Portugal), Silvio Berlusconi (Itália), Nicolas Sarkozy (França) e Angela Merkel (Alemanha) — o primeiro-ministro Coelho e a chanceler Angela ainda estão no cargo.

Os quatro segmentos de Redemption são construídos a partir de cartas imaginárias que narram situações que seus autores recordam ou vivem naquele instante. Vale notar que Gomes faz uso em sua ficção de alguns fatos biográficos reais dessas personalidades. E a revelação de quem são elas se dar apenas ao final, após conquistar  a empatia do espectador, parece ter como objetivo humanizá-las, colocá-las como seres passíveis de inquietações existenciais profundas e comezinhas às quais figuras públicas poderosas costumam se tornar impermeáveis.

Datada em 21 de maio de 1975, a carta de Coelho traz reflexões de um menino sobre a saudade de seus pais, que estão em Angola, que no começo daquele ano deixara de ser colônia portuguesa na África, e sobre os novos ares que pairam sobre Portugal após a Revolução dos Cravos.  Berlusconi, em 13 de julho de 2011, lembra de uma desilusão amorosa que viveu quando garoto em Milão, após a II Guerra. Em 6 de maio de 2012, de Paris, Sarkozy escreve um relato afetivo sobre a paternidade a ser lido por sua filha pequena no futuro. E em 3 de setembro de 1977, desde Leipzig, a jovem Merkel, estudante de física, faz uma descrição emocionada de seu recente casamento com um colega de faculdade, reitera sua paixão por Wagner e lembra os tempos de privações na antiga Alemanha Oriental.

Como em Tabu, o lirismo resultante da narração epistolar em Redemption,  em quatro diferentes idiomas, é por demais encantador. A harmonia narrativa entre o texto e a inventiva colagem de imagens de tão variadas procedências e o caráter histórico e político sublinhado por Gomes qualificam sobremaneira este pequeno grande filme.

Confira uma entrevista de Miguel Gomes explicando o projeto e trailers de Redemption.

"Alabama Monroe" chega atrasado, mas é uma sessão imperdível

18 de abril de 2014 0

Nem o atraso na chegada diminui o impacto de Alabama Monroe. Três meses depois de estrear em outras cidades brasileiras, onde já chegou cultuado graças ao compartilhamento via internet, este belo filme belga entrou em cartaz nesta semana no Guion Center. Premiado, entre outros, nos festivais de Berlim, Tribeca, Palm Springs e Copenhagen, além de ser indicado ao Oscar de melhor longa estrangeiro e vencer a mesma categoria no César francês, o filme de Felix van Groeningen pode agora, finalmente, ser visto na sala de cinema em Porto Alegre.

O título original é The Broken Circle Break­down, em inglês mesmo (apesar de os diálogos serem na língua flamenga), por conta da obsessão do protagonista, o músico de bluegrass Didier (Johan Heldenbergh), com a cultura norte-americana. Mas não se pode ignorar o lirismo da tradução, que une os nomes artísticos dele (Monroe) e de sua mulher e parceira musical, a tatuadora Elise (Veerle Baetens), ou Alabama.

É que a narrativa, construída de maneira engenhosa a partir de idas e vindas no tempo, provoca o espectador a pensar sobre a estranha força capaz, ao mesmo tempo, de aproximar e afastar esse casal apaixonado porém abalado pela grave doença de sua filha pequena (Nell Cattrysse). Groeningen nos apresenta tudo, da paixão inicial às brigas dolorosas, do casamento e da construção da vida a dois ao enfrentamento dos obstáculos que insistem em testar a força da estrutura familiar.

A relação guarda em si uma bipolaridade, graças à intensidade com a qual os dois que a vivenciam e, sobretudo, às suas diferenças – ele é ateu, ela, católica; ele cultua o sonho americano, ela tem os pés no chão. Quando a menina de seis anos adoece, tudo fica potencializado. E o filme cresce.

O ápice da crise de Elise, lá pelo meio da projeção, é usado pelo jovem diretor (tem 35 anos) como gancho para uma série de flashbacks que iluminam algumas sombras que porventura existissem até então. Alabama Monroe não tem as cores vibrantes do francês A Guerra Está Declarada (de Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm, 2011), outro filme sobre o mesmo tema, mas tem a luz da obra-prima romântica espanhola Os Amantes do Círculo Polar (Julio Medem, 1998): quanto mais o destino parece querer afastar o casal, mais o espectador se afeiçoa por aquele relacionamento.

O que pode quebrar um círculo aparentemente inquebrável? É uma pergunta que Groeningen joga na tela desde a música de abertura do longa, o hino gospel Will the Circle Be Unbroken, espécie de oração folk que inspirou o título e que perpassa a trama até o seu desfecho. O apelo da fé, aqui, está no mesmo nível da propaganda que vende a América como uma terra de sonhos: cultua-se o que se convém cultuar, de acordo com cada contexto e com determinadas necessidades.

É o que faz Alabama Monroe, além de lindo em sua tristeza e inventivo em sua forma, um filme politicamente contundente.

Em cartaz no CineBancários, bom drama colombiano reflete o medo do fim

14 de abril de 2014 0

E se o mundo tivesse acabado, conforme aquela interpretação do calendário Maia que vislumbrava o apocalipse em dezembro de 2012? Ok, já é 2014 e continuamos aqui, mas o drama colombiano Crônica do Fim do Mundo, que está em cartaz no CineBancários, se passa nos meses anteriores à previsão, acompanhando a jornada de um homem solitário de 70 anos (Victor Hugo Morant) que, crente da iminência do fim, resolve telefonar para os desafetos que acumulou ao longo de toda a vida e lhes dizer aquilo que ficou engasgado ao longo das décadas.

E se o mundo não acabar? Lá pelas tantas, é o que se pergunta o filho do protagonista, sujeito de 35 anos (Jimmy Vasquez) que acaba de ter um filho, passa por alguns problemas profissionais e em seu casamento e, cada vez mais, precisa se aproximar de seu velho para dar-lhe assistência. “Ouvi dizer que o fim será, na verdade, em 2020″, ele conversa com um amigo.

É curioso observar o comportamento de ambos, a forma como se reaproximam e como eles lidam com seus problemas – os inventados e os reais, com os quais deparam durante o desenvolvimento da trama. Neste sentido, o fato de o filme tratar de uma situação já, por assim dizer, superada, é ainda mais estimulante: ressalta a dicotomia entre a realidade palpável e os universos paralelos imaginados. Os dramas pessoais que levam à fuga estão todos ali, apresentados paulatinamente, com habilidade, pelo diretor Mauricio Cuervo. Alguns deles, quem for ao cinema vai perceber, permitem estabelecer uma relação interessante entre o protagonista e a sociedade em que ele está inserido – algo na linha do que faz o chileno Gloria (2013), exibido há pouco em Porto Alegre.

Isso e a ótima atuação de Morant são o melhor de Crônica do Fim do Mundo. Há mais. Isolado em seu apartamento, o protagonista tem a oportunidade de ver as ruas de Bogotá em vídeos que o filho faz com seu celular, em passeios pela cidade, e traz para ambos assistirem juntos. Não que esses filmes dentro do filme sejam um primor, mas a simbologia ali contida é rica – a abordagem inter-gerações faz a reflexão sobre o fim crescer exponencialmente.

É como se os propósitos comuns aos argentinos A Velha dos Fundos (2010) e Lugares Comuns (2003), para citar outros dois representantes da produção latino-americana recente, fossem articulados em um único longa-metragem. Crônica do Fim do Mundo está longe de ser uma obra-prima, mas se trata de um comentário contundente acerca de tipos recorrentes na produção do continente – e o contexto que o cerca.

Coutinho e o imperador do sertão

10 de abril de 2014 0

teodorico

Segue um trecho da entrevista com o documentarista João Moreira Salles publicada no Segundo Caderno dia 7 de abril, como parte da matéria sobre o lançamento da edição especial do DVD de Cabra Marcado para Morrer.

Para ler a reportagem completa e as entrevistas com Salles e Eduardo Escorel, montador deste clássico do cinema brasileiro, clique aqui.

ZH — Você já disse que o maior documentário brasileiro é de Coutinho, mas não é Cabra…, e sim Teodorico, o Imperador do Sertão, que ele realizou em 1978 para o Globo Repórter. Essa opinião persiste?
Salles — É evidente que o escopo, a complexidade e a ambição de Cabra… são muito maiores, razão suficiente para que seja quase uma impiedade comparar os dois filmes. A frase talvez tenha sido dita para chamar atenção para uma obra pouco vista do Coutinho. Mas há razões mais do que estratégicas para elogiar Teodorico. Devo dizer que, como espectador, o documentário me causou mais impacto do que Cabra…, ao menos da primeira vez que o vi. A riqueza do mundo oral, a autorrepresentação do personagem, a mistura — palavra que Coutinho adorava — entre ficção e realidade, a presença de uma câmera e de um diretor como catalisadores da ação, o modo como um mundo social se desvela sem a necessidade de uma voz prescritiva ou moralizante. De Cabra…, a O Fim e o Princípio (2006), a Jogo de Cena (2007), todo o Coutinho está em germe ali. E com dois complicadores espantosos: o filme é anterior a Cabra... e foi produzido dentro da Rede Globo, em pleno regime militar.

Aqui abaixo está  o documentário Theodorico, O Imperador do Sertão  (com h), exibido no dia 22 de agosto de 1978, no Globo Repórter. Coutinho trabalhou no programa entre 1975 e 1984. Em 1981, durante um período de dois meses de  férias acumuladas, retomou o projeto de Cabra Marcado para Morrer, que havia abandonado em 1964 em razão do golpe militar. O Globo Repórter marcou a TV brasileira nos anos 1970 e 1980 com suas grandes reportagens documentais país afora, muitas delas assinadas por cineastas como Coutinho, Vladimir Carvalho e Walter Lima Jr., entre outros — foi o último programa jornalístico da Globo a substituir o filme 16mm pelo videotape.  Reparem que o fotógrafo de Theodorico  é Dib Lutfi, o grande parceiro de Glauber Rocha.

Essa experiência foi muito rica para Coutinho depurar o estilo que o consagraria como grande mestre do documentário nacional — também, dizia ele, por subverter algumas regras de linguagem, narrativa e postura determinadas pelo padrão Globo de qualidade. Coutinho, aliás, costumava explicar a seus entrevistados que fazia reportagens e não documentários: “Documentário é grego”, justifica ele na faixa comentada de DVD de Cabra… 

A Wikipédia tem mais informações sobre o personagem retratado por Coutinho, um arquetípico “coronel” que comanda com mão de ferro negócios e pessoas de uma cidadezinha do interior Rio Grande do Norte. Aqui tem uma reportagem com mais informações sobre os bastidores da realização. Via Google se acha de críticas a trabalhos acadêmicos sobre  Theodorico, O Imperador do Sertão.