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Em cartaz em Porto Alegre, dois raros (e bons) filmes do Paraguai e da Venezuela

25 de abril de 2014 0

É raro ver, no circuito brasileiro, filmes da Venezuela e, sobretudo, do Paraguai. Nesta semana, no entanto, um exemplar de cada uma dessas duas pouco conhecidas cinematografias latino-americanas chegou ao circuito. Leia, abaixo, nossos textos sobre ambos:

Pelo Malo,
por Roger Lerina

A presença constante da Venezuela no noticiário nos últimos anos não encontra eco, infelizmente, nas telas dos cinemas – os filmes rodados no país vizinho raramente chegam ao Brasil. O sensível drama Pelo Malo vem quebrar esse jejum, trazendo à discussão problemas comuns à realidade de todo o continente latino-americano: preconceito racial e de orientação sexual, discriminação por gênero e por condição social, precariedade institucional e econômica.

Premiado em San Sebastian, longa em cartaz no CineBancários é dirigido pela cineasta e artista plástica Mariana Rondón – filha de ex-integrantes do grupo guerrilheiro FALN que, em 2007, dirigiu o drama autobiográfico Postales de LeningradoPelo Malo acompanha o cotidiano de Junior (Samuel Lange Zambrano), garoto de nove anos que não se identifica com os padrões masculinos dominantes e insiste em tentar alisar o cabelo crespo para tirar uma foto – a expressão em espanhol “pelo malo” pode ser traduzida em português como “cabelo ruim”.

O menino vive em um conjunto habitacional popular com a mãe – interpretada pela ótima Samantha Castillo –, que não consegue se estabelecer em nenhum emprego e mal dá conta de cuidar de Junior e seu irmãozinho bebê. Incompreendido e rejeitado por Marta – que leva o filho até o médico à procura de um diagnóstico para seu comportamento pouco viril –, o guri relaciona-se apenas com uma vizinha de sua idade e com a avó (Nelly Ramos). Na casa da ex-sogra de Marta, o pequeno protagonista encontra acolhida para fantasias e brincadeiras – como dublar o astro pop venezuelano Henry Stephen em uma versão tropical da música brasileira Meu Limão, Meu Limoeiro, sucesso na voz de Wilson Simonal.

A diretora de Pelo Malo foi criticada por chavistas e aplaudida por oposicionistas na Venezuela em função da denúncia de uma realidade injusta e hipócrita, marcada pelo machismo, pelo conservadorismo, pela intolerância e pela instabilidade. Tateando em busca de sua identidade e de seu lugar em um mundo hostil, o adorável Junior é um quixote mirim que entoa inocentemente a voz da diversidade em Pelo Malo.

7 Caixas,
por Daniel Feix

Depois de quase 30 anos sem produzir um longa-metragem, a cinematografia do Paraguai ressuscitou em 2006, com Hamaca Paraguaya, filme de Paz Encina que ganhou prêmios da crítica no Festival de Cannes e na Mostra de São Paulo, entre outras outras distinções. O impacto – local e global – de outro título do pequeno país vizinho que estreia esta semana no Espaço Itaú é semelhante: 7 Caixas não ganhou tantos troféus, mas bateu recordes de bilheteria no Paraguai, viajou aos festivais de Palm Springs, Toronto e San Sebastian e foi unanimemente bem-recebido pela crítica dos EUA.

Trata-se da história de um menino de 17 anos (Celso Franco) que vive de bicos, sobretudo carregamentos, no Mercado 4, espécie de feirão popular da capital Assunción. Ele sonha em ter um celular, mas o dinheiro que tem não é suficiente, longe disso. Até que lhe oferecem a exorbitante – para ele – quantia de US$ 100 para cuidar de sete misteriosas caixas.

O guri se debate sobre o que há dentro delas, foge de vilões, arruma uma parceira de aventura (Lali Gonzalez)… Os desdobramentos do conflito inicial são reveladores de aspectos sociais importantes daquele contexto: além da pobreza, são marcantes o calor forte, a violência recorrente e a dificuldade de comunicação entre os personagens. A ingenuidade também é onipresente. O problema é que ela transcende a realidade do filme – a inocência do protagonista, às vezes, é a mesma dos diretores Juan Carlos Maneglia e Tana Schembor.

Com fotografia repleta de filtros, montagem ágil e trilha moderninha, 7 Caixas a todo instante parece se colocar como um filme sobre o exótico – mais ou menos o que ocorreu com Quem Quer Ser um Milionário? (2008). Seus méritos, no entanto, também são marcantes: a ação e o suspense são conjugados com humor, o que torna a fruição leve, a despeito do conteúdo, por vezes, pesado. Não se trata de uma maneira simples – nem fácil – de abordar certas mazelas de um país tão difícil de ser retratado no cinema.

Fantaspoa chega à décima edição com mais de 150 filmes e 50 convidados

24 de abril de 2014 0

– Só por este trailer que vamos apresentar agora já dá para ter uma ideia de como o Fantaspoa cresceu.

Foi assim que João Pedro Fleck, o cara por trás do evento (juntamente com Nicolas Tonsho), anunciou esta semana a décima edição do festival fantástico realizado em Porto Alegre. O trailer contém trechos de alguns dos mais de 150 filmes (dois terços disso formados por longas-metragens) que serão exibidos entre 9 e 25 de maio no CineBancários no Santander Cultural e nas salas da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana.

Serão sete mostras, 37 sessões comentadas, mais de 50 convidados, muitos deles do Exterior, e cinco cursos de cinema, todos ministrados por profissionais vindos de fora do país. Se no ano passado um dos destaques do Fantaspoa foi a exibição da cópia restaurada e musicada ao vivo de O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, neste ano o festival vai repetir a experiência com A Morte Cansada (1921), thriller de fantasia de Fritz Lang, que terá música ao vivo a cargo do argentino Germán Suane.

São várias as promessas de bons filmes em meio à grade de programação. Um deles é o novíssimo (e ótimo) longa do diretor Nacho Vigalondo, o thriller Open Windows, estrelado por Elijah Wood e Sasha Grey (ela mesma), e que foi projetado logo em seguida à apresentação desta edição do festival a uma plateia formada por críticos e jornalistas locais. De Bruce La Bruce (um dos convidados do evento), o 10º Fantaspoa vai apresentar Gerontophilia (2013) e Otto (2008). Outras presenças de destaque serão as dos diretores BobcatGoldthwait, que vem comentar o elogiado Deus Abençoe a América (2011), e Richard Stanley, da cultuada ficção científica Hardware – O Destruidor do Futuro (1990).

Na abertura, serão celebrados os 30 anos do clássico O Vingador Tóxico (1984) que projetou a produtora independente Troma, de Michael Herz e Lloyd Kaufman, este último o diretor do longa, também presença confirmada em Porto Alegre. No encerramento, a primeira sessão pública de Jorge e Alberto Contra os Demônios Neoliberais, dos argentinos Hernán e Gonzalo Quintana, primeiro longa que conta com o selo da Fantaspoa Produções (em parceria com a El Desquicio Producción).

Eis o trailer:

Tentativa de sátira com humor escrachado, "Copa de Elite" não funciona

21 de abril de 2014 0

Difundidas nos EUA (vide, recentemente, títulos como Todo Mundo em Pânico e Não É Mais um Besteirol Americano), as comédias escrachadas que parodiam o mundo do cinema não emplacam no Brasil. Totalmente Inocentes (2012), com Fábio Porchat, foi um fracasso. Copa de Elite, com outros integrantes do Porta dos Fundos à frente do elenco (Marcos Veras e Júlia Rabello), estreou ontem com bem mais barulho – e alinhada com as comédias populares mais baixas produzidas no país nos últimos anos, o que, desta vez, faz o sucesso de público ser uma possibilidade real.

Além das piadas com filmes como Se Eu Fosse Você (2006), Chico Xavier (2010) e Minha Mãe É uma Peça (2013), e com o Festival de Gramado, não faltam passagens escatológicas. Há luta de anões, um pênis “atômico” capaz de provocar grande destruição e, lá pelas tantas, uma genitália masculina tatuada no protagonista.

Protagonista este que trabalha na tropa de elite da PM e se chama Capitão (papel de Veras) – referência ao personagem de Wagner Moura no filme de José Padilha. Junto à parceira, a dona de sex shop Bia Alpistinha (referência a Bruna Surfistinha e a De Pernas pro Ar), ele persegue um ator arrogante (Rafinha Bastos) que quer matar o papa Francisco no Maracanã, em plena final da Copa entre Brasil e Argentina.

Brincadeiras infames com os hermanos não poderiam ficar de fora, assim como a gozação com a homossexualidade – no caso, de um soldado da tropa do Capitão. Ainda aparecem em cena celebridades e subcelebridades, de Anitta (que interpreta uma repórter de tevê) a Bruno de Lucca (como ele próprio), passando por Alexandre Frota (fantasiado de mãe do protagonista) e o grupo de pagode Molejo, o que revela a tentativa de diálogo com a classe média que se diverte consumindo o lado trash da fama – no elenco de Copa de Elite, a impressão é a de que só faltou um ex-BBB.

Pode dar certo, mas seria mais digno se houvesse menos baixaria. E se a sátira fosse além da mera reutilização de figuras do showbiz nacional, posicionando-as em novas situações e não apenas apresentando-as como se o riso dependesse de nada além da própria presença delas.

As cartas redentoras de Miguel Gomes

18 de abril de 2014 0

Redemption_2

Depois de Tabu (2012), o realizador português Miguel Gomes dedicou-se a um projeto menor no tamanho mas igualmente grandioso na ambição artística. O curta-metragem Redemption, apresentado por ele em setembro de 2013 no Festival de Toronto, é como uma versão concentrada das engenhosas ferramentas narrativas e da paixão pelo cinema que o diretor mostrou também em seus outros dois longas, A Cara que Mereces (2004) e Aquele Querido Mês de Agosto (2008).

Nada muito grave, mas se você for adiante neste texto vai deparar com algumas informações que podem  arrefecer um tanto a fruição de Redemption, mas sobre as quais não se pode deixar de comentar.

Ao longo de 26 minutos, Gomes combina em Redemption uma narração ficcional epistolar (“fruto da imaginação do autor”, como explica nos créditos) com imagens de arquivos que vão de registros históricos e trechos de filmes documentais a cenas de clássicos como Milagre em Milão (1951), de Vittorio De Sica. A proposta do diretor é, por meio de quatro  histórias banais, que poderiam ter sido protagonizadas por qualquer espectador, traçar breves perfis “redentores” de líderes políticos de países europeus. Apenas nos créditos finais é informado que são eles Pedro Passos Coelho (Portugal), Silvio Berlusconi (Itália), Nicolas Sarkozy (França) e Angela Merkel (Alemanha) — o primeiro-ministro Coelho e a chanceler Angela ainda estão no cargo.

Os quatro segmentos de Redemption são construídos a partir de cartas imaginárias que narram situações que seus autores recordam ou vivem naquele instante. Vale notar que Gomes faz uso em sua ficção de alguns fatos biográficos reais dessas personalidades. E a revelação de quem são elas se dar apenas ao final, após conquistar  a empatia do espectador, parece ter como objetivo humanizá-las, colocá-las como seres passíveis de inquietações existenciais profundas e comezinhas às quais figuras públicas poderosas costumam se tornar impermeáveis.

Datada em 21 de maio de 1975, a carta de Coelho traz reflexões de um menino sobre a saudade de seus pais, que estão em Angola, que no começo daquele ano deixara de ser colônia portuguesa na África, e sobre os novos ares que pairam sobre Portugal após a Revolução dos Cravos.  Berlusconi, em 13 de julho de 2011, lembra de uma desilusão amorosa que viveu quando garoto em Milão, após a II Guerra. Em 6 de maio de 2012, de Paris, Sarkozy escreve um relato afetivo sobre a paternidade a ser lido por sua filha pequena no futuro. E em 3 de setembro de 1977, desde Leipzig, a jovem Merkel, estudante de física, faz uma descrição emocionada de seu recente casamento com um colega de faculdade, reitera sua paixão por Wagner e lembra os tempos de privações na antiga Alemanha Oriental.

Como em Tabu, o lirismo resultante da narração epistolar em Redemption,  em quatro diferentes idiomas, é por demais encantador. A harmonia narrativa entre o texto e a inventiva colagem de imagens de tão variadas procedências e o caráter histórico e político sublinhado por Gomes qualificam sobremaneira este pequeno grande filme.

Confira uma entrevista de Miguel Gomes explicando o projeto e trailers de Redemption.

"Alabama Monroe" chega atrasado, mas é uma sessão imperdível

18 de abril de 2014 0

Nem o atraso na chegada diminui o impacto de Alabama Monroe. Três meses depois de estrear em outras cidades brasileiras, onde já chegou cultuado graças ao compartilhamento via internet, este belo filme belga entrou em cartaz nesta semana no Guion Center. Premiado, entre outros, nos festivais de Berlim, Tribeca, Palm Springs e Copenhagen, além de ser indicado ao Oscar de melhor longa estrangeiro e vencer a mesma categoria no César francês, o filme de Felix van Groeningen pode agora, finalmente, ser visto na sala de cinema em Porto Alegre.

O título original é The Broken Circle Break­down, em inglês mesmo (apesar de os diálogos serem na língua flamenga), por conta da obsessão do protagonista, o músico de bluegrass Didier (Johan Heldenbergh), com a cultura norte-americana. Mas não se pode ignorar o lirismo da tradução, que une os nomes artísticos dele (Monroe) e de sua mulher e parceira musical, a tatuadora Elise (Veerle Baetens), ou Alabama.

É que a narrativa, construída de maneira engenhosa a partir de idas e vindas no tempo, provoca o espectador a pensar sobre a estranha força capaz, ao mesmo tempo, de aproximar e afastar esse casal apaixonado porém abalado pela grave doença de sua filha pequena (Nell Cattrysse). Groeningen nos apresenta tudo, da paixão inicial às brigas dolorosas, do casamento e da construção da vida a dois ao enfrentamento dos obstáculos que insistem em testar a força da estrutura familiar.

A relação guarda em si uma bipolaridade, graças à intensidade com a qual os dois que a vivenciam e, sobretudo, às suas diferenças – ele é ateu, ela, católica; ele cultua o sonho americano, ela tem os pés no chão. Quando a menina de seis anos adoece, tudo fica potencializado. E o filme cresce.

O ápice da crise de Elise, lá pelo meio da projeção, é usado pelo jovem diretor (tem 35 anos) como gancho para uma série de flashbacks que iluminam algumas sombras que porventura existissem até então. Alabama Monroe não tem as cores vibrantes do francês A Guerra Está Declarada (de Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm, 2011), outro filme sobre o mesmo tema, mas tem a luz da obra-prima romântica espanhola Os Amantes do Círculo Polar (Julio Medem, 1998): quanto mais o destino parece querer afastar o casal, mais o espectador se afeiçoa por aquele relacionamento.

O que pode quebrar um círculo aparentemente inquebrável? É uma pergunta que Groeningen joga na tela desde a música de abertura do longa, o hino gospel Will the Circle Be Unbroken, espécie de oração folk que inspirou o título e que perpassa a trama até o seu desfecho. O apelo da fé, aqui, está no mesmo nível da propaganda que vende a América como uma terra de sonhos: cultua-se o que se convém cultuar, de acordo com cada contexto e com determinadas necessidades.

É o que faz Alabama Monroe, além de lindo em sua tristeza e inventivo em sua forma, um filme politicamente contundente.

Em cartaz no CineBancários, bom drama colombiano reflete o medo do fim

14 de abril de 2014 0

E se o mundo tivesse acabado, conforme aquela interpretação do calendário Maia que vislumbrava o apocalipse em dezembro de 2012? Ok, já é 2014 e continuamos aqui, mas o drama colombiano Crônica do Fim do Mundo, que está em cartaz no CineBancários, se passa nos meses anteriores à previsão, acompanhando a jornada de um homem solitário de 70 anos (Victor Hugo Morant) que, crente da iminência do fim, resolve telefonar para os desafetos que acumulou ao longo de toda a vida e lhes dizer aquilo que ficou engasgado ao longo das décadas.

E se o mundo não acabar? Lá pelas tantas, é o que se pergunta o filho do protagonista, sujeito de 35 anos (Jimmy Vasquez) que acaba de ter um filho, passa por alguns problemas profissionais e em seu casamento e, cada vez mais, precisa se aproximar de seu velho para dar-lhe assistência. “Ouvi dizer que o fim será, na verdade, em 2020″, ele conversa com um amigo.

É curioso observar o comportamento de ambos, a forma como se reaproximam e como eles lidam com seus problemas – os inventados e os reais, com os quais deparam durante o desenvolvimento da trama. Neste sentido, o fato de o filme tratar de uma situação já, por assim dizer, superada, é ainda mais estimulante: ressalta a dicotomia entre a realidade palpável e os universos paralelos imaginados. Os dramas pessoais que levam à fuga estão todos ali, apresentados paulatinamente, com habilidade, pelo diretor Mauricio Cuervo. Alguns deles, quem for ao cinema vai perceber, permitem estabelecer uma relação interessante entre o protagonista e a sociedade em que ele está inserido – algo na linha do que faz o chileno Gloria (2013), exibido há pouco em Porto Alegre.

Isso e a ótima atuação de Morant são o melhor de Crônica do Fim do Mundo. Há mais. Isolado em seu apartamento, o protagonista tem a oportunidade de ver as ruas de Bogotá em vídeos que o filho faz com seu celular, em passeios pela cidade, e traz para ambos assistirem juntos. Não que esses filmes dentro do filme sejam um primor, mas a simbologia ali contida é rica – a abordagem inter-gerações faz a reflexão sobre o fim crescer exponencialmente.

É como se os propósitos comuns aos argentinos A Velha dos Fundos (2010) e Lugares Comuns (2003), para citar outros dois representantes da produção latino-americana recente, fossem articulados em um único longa-metragem. Crônica do Fim do Mundo está longe de ser uma obra-prima, mas se trata de um comentário contundente acerca de tipos recorrentes na produção do continente – e o contexto que o cerca.

Coutinho e o imperador do sertão

10 de abril de 2014 0

teodorico

Segue um trecho da entrevista com o documentarista João Moreira Salles publicada no Segundo Caderno dia 7 de abril, como parte da matéria sobre o lançamento da edição especial do DVD de Cabra Marcado para Morrer.

Para ler a reportagem completa e as entrevistas com Salles e Eduardo Escorel, montador deste clássico do cinema brasileiro, clique aqui.

ZH — Você já disse que o maior documentário brasileiro é de Coutinho, mas não é Cabra…, e sim Teodorico, o Imperador do Sertão, que ele realizou em 1978 para o Globo Repórter. Essa opinião persiste?
Salles — É evidente que o escopo, a complexidade e a ambição de Cabra… são muito maiores, razão suficiente para que seja quase uma impiedade comparar os dois filmes. A frase talvez tenha sido dita para chamar atenção para uma obra pouco vista do Coutinho. Mas há razões mais do que estratégicas para elogiar Teodorico. Devo dizer que, como espectador, o documentário me causou mais impacto do que Cabra…, ao menos da primeira vez que o vi. A riqueza do mundo oral, a autorrepresentação do personagem, a mistura — palavra que Coutinho adorava — entre ficção e realidade, a presença de uma câmera e de um diretor como catalisadores da ação, o modo como um mundo social se desvela sem a necessidade de uma voz prescritiva ou moralizante. De Cabra…, a O Fim e o Princípio (2006), a Jogo de Cena (2007), todo o Coutinho está em germe ali. E com dois complicadores espantosos: o filme é anterior a Cabra... e foi produzido dentro da Rede Globo, em pleno regime militar.

Aqui abaixo está  o documentário Theodorico, O Imperador do Sertão  (com h), exibido no dia 22 de agosto de 1978, no Globo Repórter. Coutinho trabalhou no programa entre 1975 e 1984. Em 1981, durante um período de dois meses de  férias acumuladas, retomou o projeto de Cabra Marcado para Morrer, que havia abandonado em 1964 em razão do golpe militar. O Globo Repórter marcou a TV brasileira nos anos 1970 e 1980 com suas grandes reportagens documentais país afora, muitas delas assinadas por cineastas como Coutinho, Vladimir Carvalho e Walter Lima Jr., entre outros — foi o último programa jornalístico da Globo a substituir o filme 16mm pelo videotape.  Reparem que o fotógrafo de Theodorico  é Dib Lutfi, o grande parceiro de Glauber Rocha.

Essa experiência foi muito rica para Coutinho depurar o estilo que o consagraria como grande mestre do documentário nacional — também, dizia ele, por subverter algumas regras de linguagem, narrativa e postura determinadas pelo padrão Globo de qualidade. Coutinho, aliás, costumava explicar a seus entrevistados que fazia reportagens e não documentários: “Documentário é grego”, justifica ele na faixa comentada de DVD de Cabra… 

A Wikipédia tem mais informações sobre o personagem retratado por Coutinho, um arquetípico “coronel” que comanda com mão de ferro negócios e pessoas de uma cidadezinha do interior Rio Grande do Norte. Aqui tem uma reportagem com mais informações sobre os bastidores da realização. Via Google se acha de críticas a trabalhos acadêmicos sobre  Theodorico, O Imperador do Sertão.

Premiado filme brasileiro "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" empolga público; veja o curta-metragem que precedeu o longa de Daniel Ribeiro

09 de abril de 2014 0

É impressionante a reação do público verificada em algumas sessões de Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho, longa de estreia do paulistano Daniel Ribeiro que foi premiado no Festival de Berlim e que está estreando nesta semana nos cinemas brasileiros. Não que o filme seja espetacular, mas a maneira como os espectadores se deixam tocar pela jornada do protagonista, um adolescente deficiente visual que se descobre apaixonado pelo menino novo na escola, é bem impressionante.

A história toda sobre o desenvolvimento do filme está contada neste texto que fiz para a edição impressa da ZH (clicando aqui você acessa a sua versão online). Uma parte importante desse desenvolvimento diz respeito à produção e disponibilização, no YouTube, do curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho. Nessa matéria de Zero Hora, Ribeiro o definiu como um “projeto piloto” do longa. Veja abaixo e tire a prova: às vezes, parece se tratar do mesmo filme.

Marlon Brando na flor da idade

03 de abril de 2014 0

Hoje completam-se 90 anos do nascimento de Marlon Brando (1924 – 2004), also known as o maior ator do mundo – na opinião de muita gente, incluindo este escriba.

Rápida e humilde homenagem: em 1947, aos 23 anos, Brando foi aos estúdios da Warner para um teste de elenco para uma adaptação de Rebel Without a Cause, livro de Robert Lindner. Essa adaptação só sairia do papel, de fato, nas mãos do diretor Nicholas Ray em 1955, com James Dean como o protagonista (no Brasil, o filme se chamou Juventude Transviada). E Brando só estrearia no cinema em Espíritos Indômitos, em 1950, aos 26 anos – despontando para o estrelato no ano seguinte, como o Stanley Kowalski de Uma Rua Chamada Pecado (1951), de Elia Kazan.

O vídeo do tal teste de elenco de 1947 circula por aí, e pode ser visto abaixo. Nem precisa ser fã para achar emocionante, confira:

"Uma Estranha Amizade" aborda com sensibilidade o abismo entre-gerações

29 de março de 2014 0

Estreia do fim de semana apenas no GNC Moinhos, em Porto Alegre, Uma Estranha Amizade é um filme independente norte-americano sobre a amizade de Jane, uma menina de 21 anos (Dree Hemingway, bisneta do autor de O Velho e o Mar), com Sadie, uma senhora de 85 (Besedka Johnson, atriz não profissional que aqui estreava tardiamente no cinema e que morreu logo após as filmagens). Não é só isso, mas são poucos os longas que retratam de maneira tão sensível e perspicaz o atual abismo entre-gerações.

O diretor Sean Baker chega lá valorizando o significado dos chamados momentos mortos (aqueles nos quais, aparentemente, nada de relevante acontece) e surpreendendo o espectador com revelações pontuais acerca das motivações das duas personagens. É mais interessante, inclusive, descobrir a história sem saber muito sobre ambas: as informações (acerca do trabalho de Jane e do passado de Sadie, por exemplo) são dispostas na medida para fazer o público captar a natureza amoral e desprovida de preconceitos com que Baker constrói esse encontro.

Elas se conhecem quando a garota visita a garage sale (feiras pessoais para se desfazer de pertences usados) da mulher mais velha. Jane vive no Vale de San Fernando, periferia rica de Los Angeles, com dois amigos (Stella Maeve e James Ransone) com os quais parece não fazer muito mais do que jogar videogame e fumar maconha. De Sadie, adquire um jarro que parece uma urna mas que servirá de vaso para redecorar seu quarto. Só depois ela descobre: o objeto guarda em seu interior maços com alguns milhares de dólares. Sadie não desconfiava de que possuía o dinheiro. E Jane não sabe o que fazer com ele – e com a culpa de, eventualmente, gastar uma grana que não é sua.

De fato, ao procurar Sadie e insistir em se aproximar dela, parece que Jane busca expiar essa culpa. Mas, isso você pode saber de antemão, Uma Estranha Amizade não é um filme de perguntas e respostas óbvias: no fundo, apesar da imensa diferença de idade e visão de mundo, o vazio existencial de uma tem muito a ver com o da outra.

Não é sem razão que as escolhas de Jane e o próprio rumo que dá à sua vida parecem aleatórios. Algumas sacadas de Baker para deixar isso claro são dignas de nota. Uma delas: o cãozinho dela, mesmo sendo macho, ganhou a alcunha feminina de Starlet, simplesmente porque a garota “gostava do nome antes de escolher o cachorro”. Ao batizar o filme de Starlet (título original de Uma Estranha Amizade), o diretor enfatiza o quanto essa aleatoriedade é importante para moldar a personagem.

Tem a ver com o cinema da diretora Sofia Coppola – que, aliás, fez seu mais recente longa, Bling Ring (2013), sobre a mesma juventude do Vale de San Fernando. Mas a forma com que esse nicho social se relaciona com o restante das pessoas, neste terceiro longa de Baker (o primeiro a ganhar projeção internacional), é ainda melhor e mais complexa.

O duro processo de amadurecimento no bom filme nacional "Entre Nós"

28 de março de 2014 0

Diretor de Cidade dos Homens (2007), Paulo Morelli conseguiu uma pequena proeza com Entre Nós: fez um filme ao mesmo tempo jovem e memorialístico, enérgico e reflexivo, capaz de se comunicar bem com qualquer tipo de público – algo raro no cinema nacional, cada vez mais polarizado entre a erudição sem muitas concessões e o apelo popular mais rasteiro. Entre Nós é seu quarto longa-metragem. Está em cartaz desde esta quinta-feira no circuito.

A história toda se passa em uma paradisíaca casa de campo localizada em São Francisco Xavier (SP), entre as montanhas da Serra da Mantiqueira, para onde sete amigos cheios de disposição viajam para uma temporada de verão. Isso em 1992. Em seu segundo ato, a trama avança até 2002, quando seis deles voltam ao mesmo lugar para a leitura coletiva de cartas que escreveram projetando o futuro e guardaram em um baú enterrado no pátio. O sétimo integrante do grupo, Rafa (Lee Taylor), morrera em um acidente justamente naquela viagem de 10 anos antes.

Todos têm personalidades muito bem definidas pelo roteiro que Morelli desenvolveu ao lado do filho Pedro – que assina como codiretor. As boas atuações colaboram, mas o fundamental para esse resultado é a eficiência dos diálogos, coloquiais ao ponto de soarem naturais como nem sempre se vê em produções brasileiras semelhantes.

O que Felipe (Caio Blat), Lúcia (Carolina Dieckmann), Silvana (Maria Ribeiro), Cazé (Júlio Andrade), Drica (Martha Nowill) e Gus (Paulo Vilhena) têm em comum são as marcas do tempo, alguma desilusão e a certeza de que aquele otimismo juvenil onipresente se esvaiu com o passar dos anos. Todos também leem bastante, citam clássicos e, ao menos em dois casos (Felipe e Cazé), ganham a vida com literatura. É o livro que Rafa deixa inconcluído que vai despertar o principal conflito do longa. Só que, nesse caso, trata-se de um clichê a deixar quem viu As Palavras (2012) e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010), para citar dois títulos recentes, com a sensação de déjà vu.

É uma pena, porque as demais tensões que vão se revelando sob as aparências de normalidade são invariavelmente ricas. Dizem muito sobre o processo de amadurecimento, tanto em âmbito pessoal quanto profissional, e a pressão pelo sucesso que parece acompanhar aquela parte dessa geração para quem o “ser” nem sempre é tão importante quanto o “parecer”.

O visual de Entre Nós incorpora a atmosfera serrana com organicidade, graças à boa fotografia de Gustavo Hadba, e o ritmo da narrativa é fluido, muito em função da montagem competente de Lucas Gonzaga. Fosse menos pretensioso e grandiloquente em sua construção dramática, focando exclusivamente nos pequenos conflitos das relações entrecruzadas dos seis, Entre Nós seria ainda melhor.

A conversão digital

26 de março de 2014 1

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Vi apenas recentemente o documentário Side by Side, de Christopher Kenneally, muito elogiado na sua passagem pelo Festival de Berlim de 2012 por apresentar o primeiro grande painel sobre o irreversível processo de conversão total do cinema ao suporte digital. O ator Keanu Reeves, coprodutor do longa, entrevista dezenas de nomes expressivos da indústria, entre diretores, fotógrafos, montadores, engenheiros e técnicos para traçar um completo histórico da transição que está sepultando o uso do agonizante filme em película. O resultado é didático aos não muito íntimos desse artesanato, aos cinéfilos e também aos que têm conhecimentos mais aprofundados sobre o tema.

Side by Side mostra que os mais de cem anos de bons serviços prestados pelo celuloide não foram espanados assim tão rapidamente pelo digital, como indica a velocidade dos avanços tecnológicos da última década. O ensaio para essa transição, lembra George Lucas, um dos pioneiros mentores do processo de conversão, teve início com a montagem eletrônica proporcionada, a partir de 1980, por sistemas como EditRoid e, na sequência, o revolucionário Avid.

O documentário sublinha a importância do diretor de fotografia inglês Anthony Dod Mantle. No embalo dos preceitos estéticos do Dogma 95, movimento lançado por cineastas dinamarqueses, ele “filmou”, para Thomas Vinterberg, Festa de Família (1998), com uma câmera Sony PC3, no suporte mini-DV (Akio Morita, fundador da Sony, colaborou muito nesses avanços, em razão de sua obstinação em colocar a excelência eletrônica a serviço do cinema).

Empolgado com o resultado de Festa de Família, em especial pela agilidade e pelos enquadramentos que a pequena câmera de mão permitia no set, o diretor Danny Boyle chamou Mantle para Extermínio (2002) — Boyle queria uma forma rápida e barata de captar imagens nas ruas de Londres transformada um cenário apocalíptico.

O suporte digital foi abraçado pelos realizadores independentes, que vislumbraram o fim das amarras impostas por grandes orçamentos e diretrizes de estúdios. Mas havia a resistência dos que não viam o digital como “cinema de verdade”, em razão, sobretudo, da baixa qualidade da imagem em relação à película. Esta barreira começou a ser vencida quando a Sony criou para George Lucas realizar Star Wars: Episódio II — Ataque dos Clones (2002) a câmera F900, a primeira no suporte HD voltada ao cinema industrial.

A parceria entre realizadores e cientistas no desenvolvimento de equipamentos, lembra o documentário, foi decisiva nessa evolução. Limitações como resolução da imagem, profundidade de campo e gama de cores foram aos poucos sendo superadas com ajuda de diretores como Michael Mann, que usou uma câmera Thompson Viper em Colateral (2004), alcançando excelentes resultados em imagens noturnas. Tradicional fabricante de câmeras analógicas, a Panavision, em parceria com a Sony, criou a Genesis, primeira câmera “full frame” (sensor no tamanho do quadro do filme 35mm), na qual se podia ainda usar sua vasta linha de lentes — Mel Gibson fez com uma dessas Apocalypto (2006).

Um passo ainda mais largo, fundamental para seduzir os que ainda viam com desconfiança a qualidade da captação de imagem digital, foi dado por Jim Jannard, milionário dono da fábrica de óculos de sol e equipamentos esportivos Oakley. Em 2007, ele apresentou a Red One, com resolução de 4K, equipamento que conquistou realizadores como Steven Soderbergh, usuário de primeira hora do digital — o resultado está em Che (2008). A pedido da David Fincher, Jannard desenvolveu modelos leves da Red One, em fibra de carbono, usados em A Rede Social (2010).

Trabalhando com engenheiros da Silicon Image, Boyle e Mantle usaram novas câmeras portáteis em Quer Quer ser um Milionário? (2008), que valeu a Mantle o histórico primeiro Oscar de melhor fotografia para um filme captado em digital. James Cameron, por sua vez, desenvolveu com a Sony a câmera F 950, com qual realizou Avatar, filme definidor da nova era do cinema digital.

A corrida entre os fabricantes, levou à criação, pela Arriflex, outra tradicional fabricante, da Alexia, câmera usada por Martin Scorsese em A Invenção de Hugo Cabret (2011) e por Lars Von Trier em Melancolia (2011). A Red respondeu com a geração Epic, usada por Fincher em Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2012) e por Peter Jackson em O Hobbit — Uma Jornada Inesperada (2012). Tanto uma como outra câmera ganharam a aprovação dos mais experientes diretores de fotografia, na linha “agora sim”.

Discorrendo sobre o progresso do digital em áreas como montagem (Scorsese lembra os tempos em que literalmente colocava seu sangue nos filmes, no processo de corte e colagem na moviola), correção de cor e efeitos especiais, Side by Side chega a etapa que, em 2012, consolidava o  fim do ciclo analógico no cinema: a distribuição de filmes e a projeção digitalizadas. O fim do celuloide na indústria, em resumo, é favas contadas. Mas os que seguem abraçados ao processo fotoquímico defendem com bons argumentos sua sobrevivência em um novo parâmetro, o da preservação.

Os realizadores que ainda defendiam, em 2012, a superioridade da película — time pequeno mas reforçado por nomes graúdos, como Christopher Nolan — falavam de texturas e nuanças ainda não alcançadas pelo digital. São vozes quase solitárias. Questões mais relevantes dizem respeito à maneira adequada de se preservar um filme. A cópia em película, defendem especialistas como Scorsese, ainda parece ser a mais segura, afinal tem sido assim há mais de cem anos. É lembrado que já foram criados mais de 80 diferentes suportes de vídeo, muitos deles não tendo hoje equipamentos de reprodução — Fincher, aliás, diz que junto a todos os trabalhos em variados suportes que guarda desde os tempos da publicidade encaixota também o respectivo aparelho reprodutor. Tem ainda a questão da fragilidade dos HDs de armazenamento etc. Mas Lucas e nomes como os irmãos Wachowski dizem que isso é bobagem, que para cada problema haverá uma plena solução.

Side by Side ilumina questões muito interessantes nesta debate tecnológico. Os tempos da película, por exemplo, diante de da liberdade permitida pelo digital n ato de fazer-apagar-refazer, exigia mais planejamento e empenho criativo dos profissionais no set e na pós-produção, dado o custo maior da empreitada com um filme rodando na câmera ? A facilidade e o barateamento do processo de se fazer cinema traz a reboque, por si só, avanços de linguagem? Diz David Lynch: “Todo mundo tem papel e lápis a mão. Mas quantas história grandiosas foram escritas? É o mesmo com o cinema”. Para ele e outros bons, segue valendo o óbvio: o digital é só uma nova ferramenta; o cinema sempre dependerá do bom uso que se fizer dela.

E de que vale todo o empenho para se chegar a excelência da imagem se as novas gerações cometem o sacrilégio de ver filmes em computador e, pior, na tela do celular? E como encarar a ameaça de o cinema deixar de ser palco de uma experiência de contemplação e desbunde coletivo na sala escura para se tornar um prazer solitário? É possível reproduzir esse espírito de coletividade no ambiente virtual? Como lidar com a enxurrada de filmes ruins que a democratização da imagem proporciona, infinitamente superior à quantidade de títulos relevantes? E o uso indiscriminado e injustificado do 3D para ampliar o faturamento?  Essas são algumas das questões lançadas pelo filme que seguem reverberando e, até aqui, ainda não encontraram respostas.

Para encerrar, uma máxima de Scorsese: “O verdadeiro autor do filme é o projecionista”. Isso porque, embora seu apego sentimental à película, o diretor saúda o fato de o suporte digital de alto padrão homologado pelos grandes estúdios (não confundir com as gambiarras que se tornaram comuns no Brasil) diminuir os riscos de ocorrer diante do espectador um dos grandes temores do cineasta: ver o filme que criou com tanto carinho e suor ser arrasado na tela grande por uma janela errada, uma cópia desgastada, um projetor capenga e descalibrado ou um som ruim.

Semana para discutir o cinema gaúcho

25 de março de 2014 0

Desde que o 27 de março foi instituído o Dia do Cinema Gaúcho, não passa um ano sem programações especiais para marcar a data. Nos últimos tempos, a efeméride incorporou aquele cheiro de algo novo que está no ar na produção cinematográfica local. Há mais longas sendo finalizados, em quantidade e variedade, e já não faltam mais filmes com uma cara mais contemporânea, a exemplo dos títulos citados três posts abaixo, Castanha e Beira-Mar. Dois outros projetos podem ser descobertos esta semana pelos porto-alegrenses: o documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, que Bruno Polidoro e Cacá Nazario dedicam a Caio Fernando Abreu (estreia na sexta-feira no Cine Santander e será debatido no sábado na mesma sala) e o ensaístico Terraqueos, de Frederico Ruas (filme composto da colagem de imagens de domínio público pescadas na internet que terá sessão de lançamento na Sala P.F. Gastal nesta quarta).

Além da estreia de Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes e da sessão (única) de lançamento de Terraqueos, há uma mostra para marcar a data montada pela P.F. Gastal e pela APTC (Associação Profissional dos Técnicos Cinematográficos do RS). Entre quinta e domingo, serão exibidos 28 curtas ou longas recentes produzidos no Rio Grande do Sul. Nas noites de sexta, sábado e domingo, a sala da Usina do Gasômetro vai sediar três debates sobre a produção local: O RS e o Exterior (sexta, às 20h30min), Fora do Fora do Eixo (sábado, às 20h30min) e Perspectivas (domingo, às 20h30min). Bom momento para discussão, não apenas sobre mecanismos de fomento, mas também sobre aspectos estéticos. Ainda que a perspectiva oferecida pelas novas produções seja de renovação (no início de 2014, havia mais de 20 longas em finalização no RS; dê uma olhada nesta matéria aqui), pode-se dizer que o cinema local precisa, e muito, de arejamento.

O cinema em 70 olhares

24 de março de 2014 0

Projetos coletivos assinados por grandes cineastas costumam ser tão interessantes na sua proposta quanto irregulares no seu resultado. Mas são sempre estimulantes como forma de contrapor diferentes olhares sobre determinado tema e também como exercício de linguagem e estilo — e quem não gosta de identificar a marca de um diretor favorito em poucos frames de projeção? Entre as iniciativas mais recentes exibidas nos cinemas brasileiros, o longa Sete Dias em Havana (2012) reuniu curtas-metragens de, entre outros, Laurent Cantet, Julio Medem, Gaspar Noé, Elia Suleiman e Pablo Trapero. Ainda em 2014, será lançado Rio, Eu te Amo, que reúne os brasileiros Fernando Meirelles, José Padilha, Andrucha Waddington e Carlos Saldanha e nomes como Guillermo Arriaga, Stephan Elliott, Nadine Labaki e Paolo Sorrentino.

Após o nariz de cera, o que realmente nos traz aqui. Durante o longo período em que o blog esteve na UTI, acabou passando em branco o muito interessante  Venezia 70 — Future Reloaded, projeto que chamou a atenção pela quantidade, qualidade e diversidade dos diretores envolvidos. Para celebrar a 70 ª edição do Festival de Veneza, em 2013,  70 cineastas de diferentes gerações e nacionalidades, todos eles com passagem pelo evento italiano, foram convidados para apresentarem em filmetes de um minuto e meio a três minutos de duração visões muito livres e particulares sobre seu ofício.

Representam o Brasil na lista Walter Salles, Karim Ainouz e Júlio Bressane. Entre outros craques desta grande seleção, estão também Claire Denis, Atom Egoyan, Amos Gitai, Hong Sang-soo, Jia Zhang-ke, Abbas Kiarostami, Kim Ki-duk, Pablo Trapero, Milcho Manchevski, Brillante Mendoza,Paul Schrader, Apichatpong Weerasethakul, Bernardo Bertolucci, Ermanno Olmi e Todd Solondz.

Selecionamos alguns trabalhos de Venezia 70 — Future Reloaded, começando por uma diretora grega que não conheço, Athina Rachel Tsangari, mas que fez um filme muito inventivo nesse citado tom saudosista.  Mais filmes podem ser conferidos clicando aqui.

Athina Rachel Tsangari

Paul Schrader

Walter Salles

Bernardo Bertolucci

Pablo Trapero

Júlio Bressane

Apitchapong Weerasethakul

Claire Denis

Atom Egoyan

Jia Zhang-ke

Abbas Kiarostami (citando O Regador Regado, de 1895, de Louis Lumière)

Kim Ki-duk

Brillante Mendoza

James Franco

Jorge Furtado fala de jornalismo no documentário "O Mercado de Notícias". "Beleza" também vem aí

23 de março de 2014 0

Saiu o trailer de O Mercado de Notícias, documentário de Jorge Furtado. É o primeiro dos dois novos longas-metragens do cineasta gaúcho, a ser lançado ainda em 2014 (o outro é o drama Beleza). Trata-se, basicamente, de um filme sobre jornalismo – hoje e ontem. Mais sobre o projeto nesta matéria aqui (e, aqui, matéria sobre Beleza e entrevista com o diretor). Ao trailer: