A sensação que fica é de que a Festa da Uva, pouco a pouco, está se transformando em um estorvo, desculpem a franqueza. Pronto, falei. Ela não é assumida pela cidade, ou por uma parte da cidade, como deveria. Porque ela não é levada à cidade, não é despertada na cidade com o entusiasmo que se esperava para a época.
O sintoma central dessa sensação é que boa parte dos caxienses resmunga fortemente contra os desfiles no Centro, porque atravancam as ruas, porque isso e porque aquilo, e a organização até se curvou a esse clamor nesta edição: eliminou os desfiles diurnos e os tornou menores. É um recuo preocupante. Há inclusive quem queira confinar o desfile e a Festa dentro do parque de exposições, ou, no máximo, na Perimetral Norte. Será um equívoco monumental.
O fato é que essas idéias que carregam uma má vontade ou, no mínimo, uma visão reducionista da Festa e de sua integração com a cidade transpiram ora aqui, ora ali. O que é desconfortante. O movimento precisa ser justo o contrário: mais e mais cheiro de festa sair do parque e inundar a cidade. A Festa da Uva precisa ser uma festa de Caxias e para Caxias, e os visitantes serão consequência.
A Festa da Uva como conceito é uma programação essencial, decisiva até, que deve ser valorizada sempre a partir de seu caráter comunitário. Em alguns momentos, e não são poucos, ela consegue ser popular, em especial nos shows de pagode e sertanejo universitário ou quando é facilitada a presença do público. E, quando isso acontece, quando a população invade os Pavilhões, isso contagia, pois o encontro de milhares de pessoas se dá em torno da Festa.
Mas onde está esse entusiasmo tão necessário de que se falou antes? As ruas de Caxias, os bairros precisariam estar, desde bem antes, encharcados de Festa da Uva, imersos na cultura, no ambiente, no significado. Não são só fôlderes e cartazes em postes e algumas reformas estruturais no parque. Tudo isso é necessário e obrigatório, mas é preciso muito mais, e é justamente essa motivação central que parece escassa, porque chega cada vez com menos força à cidade. Falta um mês, era para os bairros estarem envolvidos, para programações tomarem conta das ruas maciçamente, para o visual e o aroma da cidade estarem alterados. A cidade deveria estar vibrando. Está longe disso.