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A vergonha de Dona Maria

19 de setembro de 2014 0

Outro compartilhamento desse nosso período alucinado em que precisamos nos dividir entre tantas polêmicas. Desta vez, o episódio não ganhou os jornais. Deveria. Está ganhando agora alguns centímetros de página, e é merecido. Foi um achado o que me foi possível testemunhar. A história é bonita, e vale a pena abrir espaço para histórias bonitas neste emaranhado de dificuldades, especialmente neste período de eleição em que precisamos escolher gente que não faz concessões, de jeito nenhum, à chance de levar vantagem.
Não sei o nome da mulher. Tinha ali algo entre 50 e 60 anos e uma existência calejada. Cruzei com ela dentro de uma ótica na Avenida Júlio. Podemos chamá-la de Maria, que é um nome emblemático para a luta das mulheres. Talvez o nome dela fosse mesmo Maria, há boa probabilidade de assim ser. Inicialmente, era uma cliente como outra qualquer no balcão da loja. Mas parecia se desculpar com alguma dose de veemência em sua conversa com a atendente, e aquele rumo improvável começou a despertar minha atenção. Passei a me interessar e a espichar o pescoço para entreouvir a conversação.
Argumentava a nossa Maria que já havia ligado dias atrás para a loja, mas entendeu por bem de ir pessoalmente. Afinal, não conseguiria cumprir o compromisso assumido. Entendeu ser essa uma dificuldade que exigia uma ocasião solene para a formalização daquela dificuldade inesperada e para renovar a intenção de pagar tudo o que devia. Por alguma intercorrência financeira qualquer, não pôde Dona Maria cumprir com as prestações contratadas e estava ali, transparente, para admitir sua incapacidade, ao que a atendente assentia de forma compreensiva. Em dado momento, o diálogo evoluiu para um tom mais grave:
- Imagina você, acordar de manhã e constatar que não é possível pagar as contas assumidas? – envergonhava-se a mulher diante da atendente.
Nesta fase de sua confissão, Dona Maria baixou a cabeça e começou a chorar, um atestado eloquente de sua intenção ao relatar o infortúnio financeiro que a impedia de seguir pagando as contas na forma combinada. Ela simplesmente não conseguia conviver com a ideia de deixar de cumprir um compromisso assumido. Que parâmetro, o de Dona Maria. Um belo espelho para nossos candidatos, para qualquer eleição.

Filhos que matam os pais

18 de setembro de 2014 0

Vivemos um ano vertiginoso. Por esses dias, estamos envolvidos por megapolêmicas sobre intransigências e intolerâncias, por macroacontecimentos, sem contar o sempre tenso ambiente pré-eleitoral. Nessas condições, temos boa probabilidade de deixar passar histórias que o jornal noticia no canto de página, nem por isso isentas de dramatismo. Recolhi duas anotações de perfil semelhante para compartilhar.
Em Vacaria e São Francisco de Paula, filhos adolescentes mataram seus pais. Essa incidência estatística que brotou assim, em um intervalo de 48 horas, não pode passar sem maior reflexão. Os dois casos guardam alguma semelhança. Em Vacaria, na madrugada de sábado, um filho de 15 anos esfaqueou o pai no pescoço. Em São Chico, na noite de domingo, outro filho, este de 17 anos, atirou no pai com uma espingarda.
Ambos os filhos eram adolescentes. Em ambos os casos, a culminância da relação conflituosa deu-se de forma trágica em residências onde se encontravam apenas o filho algoz e a vítima paterna. Foram crimes perpetrados na íntima convivência, em ambientes domésticos, restritos, de uma casa de um bairro de uma cidade simples como Vacaria, de uma moradia remota de uma localidade do distrito de Cazuza Ferreira em São Chico. Um cenário, este último, mais reservado e tranquilo, teoricamente a salvo e à distância de estresses e conflitos típicos das cidades.
Dois filhos adolescentes que matam os pais em 48 horas não é pouca coisa. Mas os acontecimentos vertiginosos praticamente engoliram essa rápida sequência de tragédias familiares. No entanto, é preciso prestar atenção no que ocorre em nossas ruas, em nossas cidades. No caso de Vacaria, há uma suspeita de esquizofrenia sobre o autor da facada repentina e mortal, mas as mortes dos pais por seus filhos permitem especular uma impaciência ou uma incapacidade de resolver conflitos que pode extrapolar perigosamente. Na mesma Vacaria, no final de agosto, outro filho, este na casa dos 30 anos, já havia matado outro pai. Por que três filhos, dois deles adolescentes, mataram seus pais em tão pouco tempo? É uma questão importante demais para ser deixada de lado. A intransigência e a intolerância, não raro, podem crescer e se voltar para dentro de casa, desde cedo.

Passado e futuro

17 de setembro de 2014 0

O Rio Grande do Sul tem dificuldade de conciliar-se com o futuro. Exemplos não faltam, o mais recente deles o do CTG que incendiou para mostrar à juíza de Livramento que ambiente de CTG não deve tolerar casamento gay. Mas os mais frequentes vêm da política, que ainda é palco para contendas, só que verbais _ ainda menos mal.
Aqui entre nós, diferenças políticas viram animosidades inconciliáveis, e quem perde é o Estado, que não pode prescindir do debate em bom nível e das mediações possíveis para as respostas à população. Mas aqui, água é água, vinho é vinho e azeite é azeite. Temos as nossas dicotomias, e a elas morreremos agarrados. Não se defendem concessões à identidade das ideias de cada um, apenas a possibilidade de trânsito, contato e abertura para reflexões, acima das ideias preconcebidas.
Mas o Rio Grande do Sul também tem dificuldade de conciliar-se com o passado. Alguns entendem desnecessária a tarefa. Querem olhar apenas para o futuro. Destinam a tradição ao lixo da história, e corre-se o risco de colocar a criança fora junto com a água do balde. Há uma base histórica que não se apaga, a riqueza das expressões, das construções culturais acumuladas. Uma bela música da Califórnia, um conto de Sergio Faraco, uma lenda, a alma da gente do campo. Ao mesmo tempo, há toda uma distorção presente na tradição, que impede as conciliações do dia de hoje, uma supervalorização ao formalismo histórico em detrimento das possibilidades humanas do presente. E fala mais alto o rigor das proibições.
Ocorre que subestimar o ambiente onde surge a tradição em nome da crítica a essa tradição também pode ser fatal. É o nosso ambiente, nossa realidade, com toda a riqueza cultural que deles surge, com cheiro de chão, gente e poesia. A tradição, qualquer tradição, deturpa e deteriora, e também pode revelar. De novo aqui, quando a Semana Farroupilha coincide com os acontecimentos recentes, os olhares para o passado e o futuro não se conciliam no presente. Bem ao nosso estilo. Temos fama e retrospecto de irreconciliáveis. Que pena. Ninguém é melhor do que ninguém. Temos de aprender a conviver, com jeito, respeito, um pouco de história e uma dose de desapego às nossas próprias ideias.

Nossa sina e perdição

16 de setembro de 2014 1

O que é o espírito, exatamente, não se sabe. Os teólogos têm as suas teses. Os sacerdotes têm essa noção teológica, mais a intuição. Mas vá definir esse sentimento interior, que combina um pouco de razão, outra pitada de emoção, um espaço para nossos medos e, portanto, para a transcendência, tudo isso mediado pela ética e pela intenção. Resulta em algo que não se sabe exatamente o que é, quem sabe similar ao espírito que nos move.
Foi Jean-Paul Sartre quem sentenciou: “O inferno são os outros.” Sartre não era gaúcho, nem despertamos sua curiosidade intelectual. Mas seu veredicto ajuda a nos traduzir. É o que constatamos na ação dos incendiários lá na fronteira, contra o CTG, aqui em Porto Alegre, contra a casa da menina Patrícia, aquela do Caso Aranha. O inferno é o outro com quem eu não concordo. As reações às discordâncias e às diferenças parecem mais exacerbadas entre nós. É do estilo do gaúcho, e então nos aproximamos do diagnóstico sartreano. Temos devoção pelas convicções, nos aferramos a elas, e isso não é virtude nem façanha, tem sido nossa sina e perdição. É decorrência de nossos entreveros ao longo da história. É bom tema para refletir na Semana Farroupilha.
Então, diante das barbáries da semana passada, o que temos feito é sair atrás de explicação para elas. Pois bem, há esse fundamento histórico, combinado com a falta de refinamento e dedicação às coisas do espírito. Alguns traduzem que é falta de educação, pura e simplesmente. Outros, que é falta de Deus ou de religião o que torna alguns tão embrutecidos, capazes de reações trogloditas e primitivas diante das diferenças de entendimento do mundo e da expressão das vivências. Para outros, é a falta de cultura que embrutece a alma. Particularmente, diria que é falta de espiritualidade, seja lá o que isso for, e cada um tem a sua definição. Espiritualidade como algo que nos capacite a sermos mais humanos, mais abertos e generosos para o outro, aquele de Sartre, que é verdadeiramente “o inferno” quando não sabemos conviver com as diferenças.
O que nos falta, e é a razão central de nossos males, é ter os outros como motivação da existência. Isto é, não pensarmos apenas em nós. Muito além da educação imprescindível, nos falta o exercício do espírito. Ou, se quiserem, o cultivo da espiritualidade.

E o fio lá

15 de setembro de 2014 1

O fio está a dois metros do chão na Perimetral. Está ao alcance da mão, é só erguer o braço. Ou nem isso é preciso, pois o fio está apoiado nos galhos de uma árvore. Há outras situações pela cidade, inúmeras delas. Há risco evidente, há uma imobiliária funcionando ali, então os responsáveis pelo negócio foram atrás de resolver a situação. Enveredaram, como era previsível, por um caminho de horrores, um túnel-fantasma, já bem conhecido da população.
Mas de quem é o fio? Começa por aí. Vários protocolos depois, a RGE diz que não é dela. A GVT também. A Anatel, a agência reguladora, pelo menos confirmou que era da GVT. A operadora disse que ia ver, mas não foi. A Anatel, então, estipulou prazo para uma solução, que não foi cumprido. E ficou por isso. E o fio lá, pendente. Depois que o caso saiu na imprensa, aí a GVT foi ver. E disse que não é com ela, que consta no fio a inscrição “Embratel”. E o fio lá.
Não queira ficar na mão das operadoras. O alerta é desnecessário, todos nós sabemos bem. É um dos maiores desrespeitos _ há outros, como a saúde pública e os bancos _institucionalizados neste país. Na BR-116, é preciso retirar fios para abrir espaço à passarela do São Ciro. A prefeitura dá prazo, os fios não saem, a prefeitura submete-se quase a um mendigar. Um desrespeito à comunidade. Enquanto isso, na tevê, garotos e garotas-propaganda nos oferecem um mundo maravilhoso.
Interessante especular por que o país tolera providências à distância, que, logicamente, serão empurradas com a barriga. Pelo telefone é muito mais fácil enrolar o cliente. Houve um tempo em que o atendimento tinha endereço, era olho no olho do atendente. Mas os tempos são outros, ditos modernos. E, de forma inacreditável, o país tolera, pois até já se legisla a respeito, e há profissão consolidada, o operador de telemarketing. Nada contra o operador, tudo contra a estratégia do negócio, o desrespeito institucionalizado.
Então não se resolve o fio pendente na Perimetral. Já faz mais de mês. É inacreditável. Não se resolvem muitos outros fios. E o país tolera tudo sem reagir. É do nosso estilo, aliás. A sociedade não sabe se organizar. É só de forma organizada que se responde a desrespeitos ou descasos. Então as operadoras deitam e rolam.

A vida nunca mais será a mesma por aqui

13 de setembro de 2014 5

Esse caso do incêndio em um CTG em Santana do Livramento vem envolvido em infindáveis componentes colaterais, além do fato propriamente dito. E acarreta múltiplos desdobramentos e consequências. É ponta para tudo que é lado. Significa que o assunto é quase inesgotável. Nessas condições, sempre é importante identificar questões centrais, ponderar os pesos de cada uma, mas não só isso, pois aspectos periféricos costumam ser ricos em detalhes.
Por exemplo, o MTG se apressou em dizer que o tal CTG não era filiado ao movimento. Isso não tem grande importância para a questão de fundo, a não ser isentar o MTG de posicionar-se diante do assunto, já que não se trata de um filiado seu. Em resumo, o MTG diz que o CTG não é um CTG. Só que é. E tem patrão, e o patrão é tradicionalista, e adotou uma postura de vanguarda no meio.
É fato inescapável, está posta a questão da reação ao casamento gay em um CTG para exame e opinião geral. Tanto é assim que o estrago para o Estado é enorme, e isso vem logo na sequência do Caso Aranha. O Rio Grande e os gaúchos deveriam refletir bem mais sobre essa mania de nos aferrarmos a convicções, estilos e veemências, que não raro descamba para a dificuldade ou inviabilidade da convivência com as diferenças. Esse traço nos identifica. Terrível. Também, com uma sequência assim, um caso atrás do outro!…
Fala-se ainda em provocação da parte da juíza, ou vontade de aparecer do patrão e das meninas enamoradas. Isso não tem maior relevância, é manobra diversionista. Sejam quais forem os interesses, eles não mascaram as questões centrais colocadas, e é sobre essas que devemos refletir bastante, é para elas que devemos ter respostas. O patrão, aliás, é figura relevante e central. Se batesse o pé, como ordenam os manuais da tradição, o casório não saía, e até haveria polêmica semelhante, mas sem muita novidade nisso. Porém, o patrão aceitou, e agora o casório será transformado em um marco para toda movimentação gaúcha de reação a intolerâncias automáticas, a normas e regras de conduta retiradas de manuais. O que é bom. Ainda mais bem na véspera da Semana Farroupilha. Essa sim é a questão central. Já deu enorme bafafá, e ele vai se prolongar. A vida nunca mais será a mesma por aqui. Ainda bem.

O patrão do CTG topou

11 de setembro de 2014 1

Há detalhes enriquecedores nesta estrondosa polêmica desenrolada a partir do momento em que alguns celerados resolveram tocar fogo em um CTG de Santana do Livramento que sediaria, e ainda deve sediar, o casamento de duas jovens neste sábado. Precisa reforçar: o que é enriquecedor são alguns dos detalhes que produziram esta polêmica, que promovem avanços à discussão.
CTG é centro de tradições. Algo de muito importante nesta definição é a transparência dos tradicionalistas. Quer dizer, os adeptos do movimento deixam claro de pronto sobre o que se trata: culto às tradições, uma devoção, quase uma religião. Deveria estar claro para todo mundo.
Anos atrás, teci essas mesmas considerações diante da polêmica da Tchê Music em CTGs. Ora, o fenômeno Tchê Music de alguma forma interferia na tradicional música gaúcha. Então baixou-se o decreto: em CTG, não, porque se intromete na tradição, e daqui a pouco as referências se perdem. É um raciocínio semelhante ao que ocorre na Igreja Católica e ajuda a compreender por que a instituição tem tanta dificuldade em fazer concessões a qualquer tipo de flexibilização.
No caso do casamento entre as duas jovens, entre tantos casais que também se casarão no mesmo ato, há a sutileza dos detalhes enriquecedores: o patrão do CTG topou. Isso muda centralmente o raciocínio. Quem deveria tratar de proteger as tradições entende que é possível, mais do que uma concilição ainda distante, um valioso e desarmado ato de aproximação entre dois mundos que aparentemente – só aparentemente – não se tocam. Isso é cultura de paz na prática, então vale mais que tudo. E outro detalhe decisivo: as jovens enamoradas, também desarmadas de espírito, entenderam que não há problema algum em celebrar a formalização de sua história de amor em um CTG. Seja lá por qual motivo, quem sabe porque até são adeptas da tradição, mas sucumbiram às armadilhas do amor.
Então é isso: algumas das participações que ajudaram a tramar tudo o que desembocou no tresloucado ato de colocar fogo no CTG permitem avanços preciosos. Ajudam a desarmar espíritos para, no futuro, quem sabe, até aliviar conflitos seculares. Claro que o episódio traz à tona uma carga de intolerância acumulada. Mas a lógica do parto é que, em geral, ele vem acompanhado da dor.

Um sinal que nunca vem

11 de setembro de 2014 3

Caxias perde uma oportunidade atrás da outra para se mostrar uma cidade mais humana. Caxias conviveu rapidamente com as bicicletas na Perimetral aos domingos. Parece irrelevante esse recuo da ciclofaixa, mas é uma sinalização do estilo de cidade, do modo de vida que se pretende. Era outro cenário, agradável, a apontar para a distensão dos espíritos e a convivência, para a velocidade reduzida, para o lazer, para a interferência no mundo dos automóveis. Era outra Caxias por algumas horas na Perimetral, que não aquela a que estamos acostumados. Mas durou pouco.
De forma inacreditável, a administração acabou com a ciclofaixa sob alegação de que motoristas desrespeitavam o espaço demarcado com cones e pintura no asfalto. Isso era fato, e produzia insegurança aos ciclistas, mas a resposta óbvia era multar os motoristas infratores, nunca devolver o espaço a eles, de mão beijada.
Então não tem mais bicicleta na Perimetral. No conjunto das medidas para o trânsito, não veio uma só para contemplar mais segurança e espaço aos pedestres. Na 116, a passarela do São Ciro ameaça chegar a mais um fim de ano sem estar pronta. De novo inacreditável. No Planalto, onde é imaginada outra passarela, houve outra morte agora. Esses assuntos deveriam ser sinalizados como prioridade, com a imposição de manifestações oficiais apontando para a resposta pronta. Mas não: em se tratando de pedestre, é o marasmo.
A Casa Rosa da Alfredo Chaves perdeu-se entre os vãos de duas torres. Mas elas são modernas, é o que interessa. A Casa Rosa da Tronca, de traços arquitetônicos encantadores, foi ao chão. Não existe mais. Caxias é repetitiva, perde oportunidade de se apresentar mais graciosa, mais cuidadosa com sua memória. A Lagoa do Rizzo, preciosa área de lazer, não é tratada com esmero, o que espanta os moradores. Sugeriu-se uma praça para os bairros da região conhecida como Burgo, para mudar a cara da cidade, mas não houve interesse.
As lideranças dão demonstrações, uma atrás da outra, que se importam é com uma Caxias forte, vertiginosa, e rápida. Uma cidade para poucos, longe da intenção apregoada de ser para todos. Caxias não sinaliza que quer tornar-se mais humana, apesar do discurso. Um pequeno sinal que fosse faria toda a diferença. Mas ele nunca vem.

O novo sempre vem

10 de setembro de 2014 0

Um dos hinos da minha geração apregoava que “o novo sempre vem”. Que bom que assim é. O novo é inexorável. “Vejo vir vindo no vento cheiro da nova estação.” Simplesmente virá, em algum momento, é uma força da natureza, é um fenômeno social, ainda que não se deva ignorar o componente político, forças políticas que se opõem ao novo ou que simplesmente não concordem com ele em determinadas circunstâncias.
Então o novo virou discurso e bandeira política, historicamente. Discursar pelo novo é um tanto velho. E não se sabe exatamente do que se trata, mas o que é novo, por si só, tem uma força monumental. Cabe lembrar uma célebre expressão diante de programas de governo: o papel aceita tudo. Da mesma forma, o vento acolhe todos os discursos, e quem quiser pode embrulhar suas propostas em vistoso papel que as vestem com estampas aparentemente novas. Fernando Collor um dia foi o novo. Pelo menos disse que era. Luiz Inácio e o PT também. E todos esses, e muitos outros, convenceram muita gente.
Essa busca, no entanto, algumas vezes escapa ao controle. Significa jogar-se atrás do novo pelo novo. Aí perde o sentido. Outros costumam perseguir obstinadamente a diferença com o propósito, ora bolas, de ser diferente. Assim é que cultivamos algumas neuroses no âmbito do comportamento, e essas duas certamente são clássicas: a neurose do novo e a neurose da diferença. Não precisa ser assim, vale relembrar, pois “o novo sempre vem”.
Há no momento uma candidata à Presidência, Marina Silva, que defende ardorosamente a “nova política”. E a Igreja Católica, no bojo de um documento recente aprovado em Aparecida, fala em “nova evangelização”. A dificuldade está em detalhar essas novidades. José Ivo Sartori, aliado de Marina, deu uma declaração primorosa ao tentar explicar como é a “nova política”. “A nova política é fazer as coisas como antigamente”, disse ele. Aí embolou: quer dizer que o novo pode estar lá atrás?
Na verdade, o que precisamos é identificar as exigências de cada momento e lugar, quais as melhores respostas, e correr atrás, com habilidade para ter bons parceiros na caminhada. Isso sim – pelo menos a mim parece, humildemente – tem cheiro de novo. E fiquemos tranquilos: pode demorar um pouco, mas “o novo sempre vem”.

O mercado da Avenida Júlio

09 de setembro de 2014 4

É gente demais em Caxias do Sul. A cidade já tem cara de metrópole. É a constatação que salta aos olhos quando se circula em um sábado na Avenida Júlio. Diz o IBGE que somos 470 mil por aqui, na última atualização. Em contraponto, muitos caxienses juram que Caxias tem mais de 500 mil habitantes. Não contaram um por um, mas não são poucos os que têm certeza, total convicção de que o IBGE, cuja função principal é contar a população, está equivocado. Caxias, portanto, teria, sim, mais de meio milhão de pessoas.
Prefiro ficar com o IBGE, que tem retrospecto, pessoal e aparato técnico para a contagem do número de habitantes. Ainda assim, sejam “só” 470 mil moradores em Caxias do Sul, é gente demais. Pela Júlio, é uma enxurrada de pessoas, a essa altura de procedências diversificadas: tem senegalês, haitiano, índios, até italiano, brasileiro e pelo duro, cada um tratando de sobreviver, com a forma de ocupação que lhe é possível encontrar. Entre esse pessoal todo, muitos, muitos, muitos vendedores ambulantes, dezenas deles.
Vende-se de tudo na Júlio, toda sorte de quinquilharias em biombos móveis prontos para serem desarmados. Não só nas esquinas, mas no meio das quadras, de 10 em 10 metros tem gente parada, encostada nas paredes, vendendo, vendendo, vendendo… Especialmente CDs, DVDs, bijuterias, lenços, óculos, cintos, badulaques, chás. A Avenida Júlio virou um corredor do comércio ambulante, um mercado a céu aberto.
Nesta hora da constatação visual, algo precisa ser lembrado: não pode. Claro que existe a questão social: quem não pode vender na Júlio, daqui a pouco vai fazer outra coisa bem mais problemática, e é preciso administrar essa questão com sensibilidade social. Mas, no rigor da lei, não pode. É uma difícil equação. Donde surge uma conclusão inescapável: a fiscalização perdeu o jogo. Os ambulantes estão em avalanche, a luta é desigual.
Assim é a Júlio aos sábados: um fervilhar de pessoas, uma inundação do comércio informal, com produtos de procedência incerta ou algum artesanato que tenta mostrar sua cara. A cidade pulsa frenética, a cara da cidade já se confunde, mas esse não é problema. Está difícil, isto sim, harmonizar espaço para todos, mas harmonizar é preciso. Que complexo e instigante desafio.