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E chegou o Dia das Mães!

09 de maio de 2015 0

Pois bem, estamos no Dia das Mães. Essa data é emblemática para representar a velocidade dos dias. No início do ano, é habitual um exercício de figuração: lembramos que, daqui a pouco, é Páscoa, daqui a pouco é Dia das Mães. E já é Dia das Mães, o que nos causa uma perplexidade ensaiada, mas nos faz cair em si: é bom aligeirar o passo.
Mas não demais. O vagar, mais do que uma recomendação para a sanidade da alma e a leveza do espírito, é uma exigência prática. Ou deveria. Quem aligeira excessivamente o passo pode cair nos buracos abertos para as obras do SIM.
Dessa forma, o Dia das Mães é importante não apenas por seu aspecto intrínseco, de reconhecer essa figura que não tem preço. Abençoados os que podem abraçar a mãe. A data é emblemática sob o ponto de vista cronológico. Significa que o ano adquire velocidade e estamos no meio da confusão.
Na esquina da Visconde com a Pinheiro, por exemplo, a esquina mais confusa desde as obras do SIM. Ali dobravam todos os ônibus para a Zona Norte, e a Visconde, por si só, é uma confusão geral. Então se funde com a Pinheiro estrangulada. Deu até agressão envolvendo motorista e fiscal. Coisas do ano que embala e tira qualquer um do sério.
Tirar do sério foi o que aconteceu com o rapaz que depredou e ameaçou pessoas em um ambulatório em São Marcos. Foi esta semana, no ritmo de um ano repleto de acusações detalhadas de corrupção. Mas também com saque das caixas de leite que despencaram de um caminhão na 122. O pessoal sentiu-se à vontade para pegar sua caixinha. Afinal, ninguém é de ferro. É gente para quem o que acontece na Petrobras é uma roubalheira _ no que estão certos, aliás. É o cada um por si, na Petrobras e aqui no nosso quintal.
Cada um por si. A cereja no bolo foi o foguetório em um condomínio na Princesa Isabel, em Porto Alegre, para comemorar a morte do traficante Teréu. Que se deu esta semana, na Pasc, porque antes, lá no início do ano, quando pensamos no Dia das Mães que viria, foi assassinado o traficante Xândi no Litoral. E desde então é uma mortandade, culminando com o foguetório no condomínio onde, dias atrás, Xândi teve sua imagem grafitada na fachada. Se quiserem, a gente sai da sala.
E já é Dia das Mães. O ano embala em uma velocidade vertiginosa. Aliás, mamães: feliz Dia das Mães! Só não estranhem o mau jeito dos dias. Para isso, recomendam-se calma e serenidade. Fazem muito bem ao espírito.

Os desgarrados da modernidade

08 de maio de 2015 0

Caxias do Sul está longe de ser uma Porto Alegre, para citar um exemplo que nos é próximo. Lá na Capital, há exércitos de moradores de rua esparramados sob viadutos e marquises, em parques, praças e calçadas. Por aqui, eles voltaram a improvisar dormitório sob o viaduto do Cinquentenário, e a prefeitura contabiliza 30 endereços fixos para moradores de rua.
Normalmente, eles são levados às ruas por envolvimento com drogas, segregação social, falta de oportunidades e desencanto com a vida. Não querem saber de albergues e suas regras, preferindo uma fugaz e enganosa sensação de liberdade que os torna expostos. É uma questão social difícil. A modernidade os lança às ruas em ritmo industrial, e o raio de atuação dos órgãos de assistência social é restrito porque, em tese, ninguém é obrigado a deixar as ruas. Restam programas de inclusão, bem mais trabalhosos e que exigem obstinação dos profissionais e serviços que se dedicam ao tema.
Esses moradores de rua lembram os desgarrados de Mário Barbará, música vencedora da Califórnia do distante 1981. Mas aqueles eram desgarrados românticos: “Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas / Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas / Carregam lixo, vendem revistas, juntam baganas / E são pingentes das avenidas da Capital / Eles se escondem pelos botecos entre cortiços…” Os de agora são os desgarrados da modernidade. Não têm cais do porto nem dinheiro para gastar em botecos. Os poucos trocados que alguns arrecadam, sabe lá como, têm destino certo. Se os desgarrados de Barbará afundavam as mágoas e lembranças no álcool – “Então são tragos, muitos estrados, por toda a noite…” -, os de agora se apegam a coisa muito pior, um poço sem fundo, o crack.
Os desgarrados de Barbará ainda se reuniam para contar histórias, constituíam uma comunidade. Eram românticos, de fato. Com o agravamento dos dias, com o desmantelamento desses laços já frágeis, eles anteciparam os desgarrados da modernidade, que costumam quedar-se no silêncio, na droga e no desencanto. Os de Barbará tinha até horizontes: “Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho.” Para os desgarrados da modernidade, o pouco que sobrava de sonho foi-lhes arrancado. Talvez lá no fundo, alguns ainda resistam, sob viadutos e marquises.

Os buracos do SIM

07 de maio de 2015 1

Já não bastava o trânsito no estado em que está no centro da cidade, agora alguns motoristas desandaram a despencar dentro dos buracos do SIM. Já foram três, um indício de que não está havendo as adaptações necessárias e adequadas. Dos motoristas e das obras. É preciso cair a ficha: neste momento, são obrigatórios movimentos muito mais cuidadosos nas ruas do Centro. Mais vagarosos, portanto, e aí reside, diante da cultura reinante, grande parte da dificuldade.
Primeiro, é preciso os buracos do SIM estarem bem sinalizados, com as proteções adequadas. Segundo, são imprescindíveis a paciência e a prudência. De nada adianta ser afoito, tentar transpor obstáculos físicos, pois se corre o risco de ficar pelo caminho, de não chegar a lugar nenhum. Terceiro, exige-se perícia diante da sucessão de buracos do SIM e para conviver com um exército de motoristas apressados e pedestres que se multiplicam. Um motorista tentou transpor a fronteira demarcada pela tela laranja, que indica problemas à frente. Outro efetuou uma manobra insuficiente para acessar os pontilhões até as garagens. Deram-se mal, era previsível.
Os buracos das obras do SIM, inevitáveis para permitir melhorias com a meritória intenção de privilegiar o transporte coletivo, imprimem ao trânsito a figura da corrida de obstáculos. Muitos questionam o fato de as obras se desenrolarem simultaneamente na Sinimbu, na Pinheiro Machado e na Moreira César. Ao contrário, talvez seja até melhor. A previsão é de que as obras na Pinheiro e Sinimbu estejam concluídas até outubro, quem sabe novembro, e terão demorado menos de um ano para tanto transtorno. Está razoável. Talvez o grande “buraco estratégico” das obras do SIM seja a tranqueira das transversais. Aí sim. Reabrem-se transversais na Sinimbu e fecham-se na Pinheiro, como é o caso da Coronel Flores, ou vice-versa. Então, bate-se em novo obstáculo logo adiante.
Mas o grande “buraco” da mobilidade caxiense, que certamente poderia estar contemplado no pacote de obras do SIM, mas não está, é a falta de previsão estratégica de mais espaço e mais proteção aos pedestres. Há motoristas se precipitando em buracos inevitáveis do SIM. São buracos temporários. A cidade não-pensada para os pedestres é outro tipo de buraco, mais permanente.

A saúde é de deixar enfurecido

06 de maio de 2015 1

Não se tem maiores detalhes sobre o perfil do homem que depredou um ambulatório em São Marcos. Sabe-se que estava atrás de um remédio de uso continuado, que não lhe foi fornecido, e então explodiu, quebrando o que havia pela frente e ameaçando pessoas com um pedaço de pau.
Episódios como esse têm pipocado em hospitais pelo país, a sugerir que há alguma ligação com as extremas dificuldades na área da saúde, traduzidas em demora no atendimento e todo tipo de obstáculo de acesso ao serviço e a medicações.
Explosões de fúria costumam relacionar-se a uma combinação de fatores da personalidade, como agressividade e descontrole, mas também a desrespeitos sucessivos que configuram um histórico. Tanto foi, tanto foi, que o homem teve seu ataque no ambulatório. Sem saber de mais detalhes sobre seu temperamento e sua motivação pessoal, não é de descartar essa hipótese. Acessos de fúria, em algum momento, maiores ou menores, descontrolados ou domesticados, quem já não os experimentou diante de contrariedades? O que extrapolou agora foi o nível de agressividade.
O acesso de fúria também se desenrola, nesse caso, a partir das formalidades da máquina pública. Ao que se diz, uma servidora teria informado o pobre homem de que ele não poderia ter acesso ao medicamento que pretendia porque estaria cadastrado ao SUS em Caxias. E, diante da informação dele de que já residia em São Marcos, exigiu o comprovante de residência. Por um lado, o SUS é universal, e o contribuinte é contribuinte em Caxias ou São Marcos. Ele quer acesso a serviço tão delicado, como os da área da saúde. E sua pretensão é justa. No entanto, as filigranas administrativas pedem que os municípios assumam a municipalização da saúde, e aí se materializa um enquadramento burocrático que culmina na exigência do comprovante de residência.
O homem não aguentou. Não há informações sobre seu nível individual de agressividade. Mas o peso e o enredamento da máquina pública e a falta de recursos para a saúde podem deixar qualquer um enfurecido. A situação já foi longe demais. É uma imprudência, que volta e meia extravasa em comportamentos mais agressivos também em postos de saúde. A maioria talvez controle seus ímpetos, sabe-se lá a que custos. Outros não.

Quem convence o ministro Padilha?

05 de maio de 2015 0

Primeiro, o ministro da Aviação Civil classificou o Aeroporto Hugo Cantergiani como “condenado” dias atrás, quando esteve em Porto Alegre. No final de semana, reportagem da RBS TV mostrou que há cinco aeroportos prioritários para o Ministério da Aviação Civil, dentro do Programa de Desenvolvimento da Aviação Regional: Passo Fundo, Santa Rosa, Santo Ângelo, São Borja e Rio Grande.
Caxias do Sul é a segunda maior cidade do Estado. A demanda pela oferta de voos é óbvia, mas o aeroporto da cidade não está incluído entre as prioridades do ministério. Essa situação é reiterada. As lideranças da cidade já sabem muito bem desse diagnóstico oficial. Mas não dá para ficar esperando por Vila Oliva.
Será preciso forçar, pressionar, manter os contatos necessários para que, pelo menos, o Hugo Cantergiani possa operar sem perder mais voos. Será preciso convencer o ministro e o governo de que Caxias do Sul merece um aeroporto em condições básicas de segurança.
Quem convence?

A Feira do Livro na Praça Dante é uma riqueza

05 de maio de 2015 0

Ao fim e ao cabo, a Feira do Livro permanecerá na Praça Dante. É o que importa, e é uma boa notícia. Cogitou-se da Estação Férrea. Não é um mau lugar, tecnicamente falando. Talvez, consideradas as condições operacionais e de espaço, fosse a Estação Férrea até uma acomodação melhor para a Feira do Livro do que a Praça Dante, onde a estrutura fica mais apertada. Mas é um belo exemplo de que a técnica não deve se impor por si só. Há outros aspectos. Por isso, quando se discute o lugar para os desfiles da Festa da Uva, prender-se apenas a questões técnicas é limitado demais.
Cada um tem sua ótica ao defender a Feira do Livro na Praça Dante. Os livreiros, por exemplo, pensam no público, em mais público. Nas vendas também, pois não podem se desligar desse aspecto.
O estímulo à leitura e à cultura também sai ganhando. Muito mais gente passa na Praça Dante e para na Feira do Livro. É o que se pode chamar de atração gravitacional de um público periférico. Não é ruim, pelo contrário. Aproxima essa público, para quem a Praça Dante é meramente um corredor de passagem, da leitura e das ações culturais. Os livreiros, de novo, estão interessados neste detalhe da permanência da Feira do Livro na Praça Dante.
Essa opção de cenário para o evento literário também agrada aos que têm preocupações urbanas. A Feira valoriza o Centro, e esse fator é decisivo. Há quem se preocupe com os prejuízos às pedras da praça, aos canteiros ou com a presença dos ratos, ou com os banheiros. São detalhes a serem observados, sim, mas aí já é sintonia fina, é preciso encontrar soluções pontuais para eles. A decisão, no entanto, tem de ser estratégica, pensar na cidade globalmente, o que é melhor para a cidade. Vale para o desfile da Festa da Uva. A cidade tem dificuldade em pensar estrategicamente. Sob o ponto de vista urbano, Feira do Livro na Praça Dante é uma riqueza. Não conflita com valorizar a Estação Férrea como polo cultural, mas consolidar o Centro como espaço de encontro e convivência é vital para Caxias. Não é o caso de ser contra mudança, nem de se apegar ao tradicional, mas de identificar o que é mais importante para a cidade.
Neste momento, a Feira do Livro na Praça Dante contribui mais. E nada impede que, para outra condição de cidade, a Feira possa buscar outros ares, ou outro formato, incluindo a Estação Férrea.

A faixa terá de ser respeitada

04 de maio de 2015 0

Na pequena praia do Litoral Norte, o motorista parou, educadamente, para que pudesse atravessar na faixa de segurança. Mas o que vinha em sentido contrário não parou. A atitude do segundo motorista foi falta de costume, de hábito, de educação. Indica a falta de uma cultura e de um ambiente em que se respeitam as outras pessoas. Sintoma grave que o procedimento de cada um diante de uma faixa de segurança revela com exatidão.
Conta-se informalmente que assim foi no acidente que tirou a vida de Dona Maria, há uma semana, na Rua Pio XII. Uma rua pra lá de perigosa, que está a merecer providências urgentes. Dona Maria, 78 anos, saíra para caminhar e, logo depois do portão de casa, havia uma faixa de segurança. O primeiro motorista parou e ela começou a travessia. Mas o segundo não teria parado. Ninguém confirma essa versão, mas é o que se conta.
Essas situações corriqueiras dão bem a dimensão da tarefa que é preciso encarar, todos nós, comandados e orientados pelos órgãos de trânsito. Temos o desafio de fazer a faixa ser respeitada.
Algumas cidades pequenas, outras até médias, conseguem a façanha. Em Torres, por exemplo, cidade com trânsito caótico pelo volume de visitantes, a faixa costuma ser respeitada. Dá tranqueira, sim, mas é assim que tem de funcionar. A prioridade no trânsito, afinal, deve ser o pedestre. Em Caxias, estamos a léguas submarinas e oceânicas do respeito à faixa de segurança. Mas ele precisa acontecer.
Então, das duas uma: ou se considera a tarefa impossível, e aí é cada um por si, ou então se assume o desafio de fazer a faixa ser respeitada. Cabe aos órgãos de trânsito dar o sinal. Se a faixa segue desrespeitada no cotidiano sob o olhar complacente da Secretaria de Trânsito, está dado o recado: é cada um por si. Se quiser transmitir a mensagem oposta, a secretaria tem de adotar providências emblemáticas em defesa do pedestre e da faixa. Nesse caso, será preciso uma mudança de cultura e de comportamento, uma senhora empreitada, mas é o único caminho possível. Nas perimetrais, por exemplo, as faixas terão de valer, diante da fúria dos motoristas. Mas como se faz para oferecer essa garantia aos pedestres? Há várias alternativas, que terão de ser tentadas, custe o que custar. Afinal, não estamos condenados ao desrespeito.
Todo mundo pode ajudar, mas os pedestres e a cidade aguardam um sinal emblemático dos órgãos públicos de que o respeito à faixa é pra valer.

Como é uma cidade pouco humana, na prática

01 de maio de 2015 0

A tragédia anunciada na Rua Pio XII, que se consumou tristemente segunda-feira, o atropelamento que causou a morte de Dona Maria, 78 anos, querida na comunidade do bairro São José, expõe a urgência da radicalização dos esforços e providências para imprimir humanidade à cidade.
O que houve na Pio XII foi exatamente isso: a tradução na prática do que significa a falta de humanidade nas ruas. Significa vidas em grande risco e vidas perdidas. Quem sabe cai a ficha.
As ruas, quaisquer que sejam, devem priorizar a segurança dos pedestres, e não a mobilidade para carros, ônibus e caminhões. Claro que se deve buscar uma mobilidade eficiente, mas não às custas da segurança dos pedestres. Na Pio XII, a situação é aguda. O desequilíbrio dessa equação, em benefício dos veículos e em prejuízo dos pedestres, é gritante.
Essa deveria ser a ótica predominante das autoridades do trânsito: a segurança dos pedestres. E, na Pio XII, essa demanda essencial resta simplesmente ignorada. Os motoristas deitam e rolam, sem embaraços. Mais hora, menos hora, iria dar no que deu. Verifica-se na Pio XII, assim como em outras vias da cidade, a completa impotência das faixas de segurança, e esse é um aspecto central do debate. Elas até existem, ela existia na esquina onde Dona Maria foi atropelada. Mas praticamente ninguém respeita a faixa. Pior: no caso cotidiano da Pio XII, combina-se esse desrespeito generalizado com a alta velocidade. Conta-se informalmente que, neste acidente, um motorista teria cometido a raridade de tentar respeitar a faixa e parou para Dona Maria passar, mas quem não teria parado foi o motorista da outra faixa.
Então, a tarefa que está colocada para as autoridades de trânsito é fazer a faixa de segurança ser respeitada. Dureza, mas uma obrigação. Se preciso, que se recorra à combinação de outros recursos preventivos, como defensas, sinaleiras, obstáculos físicos para os carros, fiscalização em pontos críticos, mas essa tarefa deve ser assumida com radicalidade. Não há outro caminho possível.
A segurança para os pedestres não pode ser deixada para depois. A cidade precisa protegê-los com unhas e dentes, entre eles idosos e crianças. Precisa ser escolha técnica e uma decisão clara, mas a cidade escolhe pensar primeiro nos carros.
A consequência é triste, dolorida. E desumana.

Vai estourar nos de sempre

30 de abril de 2015 0

O governador Sartori deve apresentar a Caravana da Miséria ao Ministério Público, Defensoria Pública, Legislativo, Judiciário e Tribunal de Contas. Esse pessoal todo recebeu um bom aumento no início do ano. A qualquer trabalhador é devida a reposição da inflação, é justo, mas aumento acima do índice inflacionário é generosidade explícita. Ocorre que para tudo existe um contexto, que é esquecido para uns e lembrado para outros.
Quando percebeu que a crise era séria, o governo sacou da cartola a Caravana da Transparência, batizada de Caravana da Miséria, e saiu Rio Grande afora para explicar à população a razão do aperto do cinto, esperando que cada gaúcho e cada gaúcha contribuam para a superação do momento muito difícil. Mas são sempre os mesmos os que são chamados a contribuir. Os primos ricos, esses são poupados do sacrifício, sob argumento de que não cabe ao governo interferir nos demais poderes e órgãos. Agora, quatro meses após assumir, o governo quer protelar reposição salarial acordada com os policiais. Estoura nos de sempre.
Mas por que o governo não lembra os membros de Ministério Público, Defensoria Pública, Legislativo, Judiciário e Tribunal de Contas do contexto das finanças públicas? Como se precisasse… Deveria chamá-los a dar sua contribuição, em especial os que ganham mais, muito mais do que professores e policiais, para poupar a sociedade gaúcha de mais sacrifícios. Mas não. Sanciona-se o aumento a essas categorias sem um pio. É de uma obviedade apalermante que, se o aumento é generoso para os primos ricos, sobrará menos para os primos pobres, como se vê agora.
Então, levar a Caravana da Miséria a esse pessoal do Ministério Público, do Tribunal de Contas, do Legislativo, do Judiciário se justifica. Eles fazem de conta que não entendem o que está se passando. Que tal convocá-los a uma cota de pequeno sacrifício, por assim dizer, já que ganham muito bem, para que não se suspendam as horas extras de policiais nem aumentos anteriormente acordados? Não haverá governante capaz desse diálogo franco, desse papo reto? Vai estourar nos de sempre eternamente, na educação e na segurança? Até quando assistiremos boquiabertos a aumentos salariais pacíficos para quem ganha mais e a uma cota maior de sacrifícios para quem recebe menos?

A hora chegou para o brasileiro na Indonésia

29 de abril de 2015 0

O brasileiro que entrou com cocaína na Indonésia estava avisado das consequências. Então agora não adianta espernear. É uma racionalidade comum, utilizada com frequência diante das notícias sobre sua execução, consumada ontem. Cada povo – ou cada governo – com sua cultura. Na Indonésia, pelo visto, as leis são rigorosas e a aplicação delas vai até as últimas consequências. Entrar com drogas no país é crime inadmissível, punido com a morte.
A sanha punitiva extrema também é bastante popular no Brasil. Há grande simpatia pela chamada pena capital. Dizem até que ela é amplamente majoritária no espírito da população. Não é de se duvidar, mas, felizmente, ela não vigora. Seria um deus-nos-acuda se vigorasse, especialmente entre nós, brasileiros, vocacionados para despejar penas mais duras sobre determinadas camadas da população. Eis aqui um exemplo de alguma lucidez da parte dos legisladores, que não se deixam levar pelo clamor popular. Clamores nem sempre são bons conselheiros.
Essa racionalidade insensível e rigorosa é posta à prova quando chega a hora. E a hora chegou para o brasileiro na Indonésia. Mesmo assim, alguns permanecem nela. É o caso do governo indonésio, indiferente ao fato de que um punhado de mortes nada acrescenta no combate ao tráfico. Por aqui, muitos também permanecem no rigorismo inclemente. O brasileiro estava avisado. Portanto, sua alma, sua palma, como já dizia o Visconde de Sabugosa. Mas nem todos levam a dureza do coração a esse ponto. Há os adeptos da pena extremada que, quando chega a hora, resolvem refletir um pouco e colocam a reflexão diante da encruzilhada da vida e da morte. É prudente e alentador. E então vacilam. E já não têm tanta certeza. E passam a considerar a hipótese de que, afinal de contas, talvez não seja para tanto, a cogitar de uma segunda chance, que não houve para o brasileiro na Indonésia, mesmo que ele estivesse avisado da consequência. É que a humanidade ainda pulsa, exceto para os que são feito pedras.
Esta hora é um momento de extrema angústia para os familiares do brasileiro que viveu os últimos dias no corredor da morte. Muitos não se comovem com isso, e seguem na racionalidade dura e inquebrantável. Corações duros não fazem concessões ao erro e às fragilidades humanas, doa a quem doer. É uma completa irracionalidade.