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A notícia que chega da aldeia

07 de março de 2015 0

Agora quem morreu foi Seu Celso, o alfaiate. É a notícia vigorosa e forte o suficiente para vencer os mais de 500 quilômetros que nos separam da aldeia e abrir espaço entre os escândalos da Petrobras e o atraso no salário dos servidores do Estado. Aldeia é a cidade, o lugar onde a gente nasce. Com os anos, já se foram Seu Ivo, barbeiro e tocador do sino da igreja, Seu Milton, o latoeiro, Seu Mário, o estofador, Dona Ana, a diretora, Seu Balsemão, o bolicheiro, e tantos outros, gente que conheci na infância e acompanhava a trajetória muito à distância. As profissões, como se percebe, eram de um outro tempo. Pois volta e meia uma aparição, uma menção ou um encontro ocasional tinham o extraordinário poder de fazer destampar a caixa da memória, com todas as suas consequências.
Agora quem partiu foi o alfaiate. Seu Celso era irmão da igreja que minha mãe frequentava, e ela levou-me até ele para que providenciasse uma fatiota, como se dizia na época, um paletó com a calça curta para o guri franzino fazer o exame de admissão com 10 anos de idade. Aquilo era uma solenidade que exigia roupa especial. O exame de admissão era como um vestibular para passar do ensino primário para o ginasial. Ambas as etapas compunham o que é hoje o ensino fundamental e, até pouco tempo, era o 1º Grau. Dava-se ali, ao findar o quinto ano do colégio.
Então minha mãe levou-me para tirar as medidas, ao que Seu Celso procedeu com a simplicidade e a candura que o caracterizavam. Tinha um bigode econômico e recebeu-nos com a fala mansa, uma trena no ombro, a presteza no trato, a delicadeza de gestos. Morava à beira dos trilhos, e o trem quase roçava na parede da casa. Tinha três filhos que regulavam comigo na idade e me pareceram uns diabinhos ao primeiro contato, mas depois tornaram-se amigos importantes. Hoje, sumiram por aí. Um deles estava em Rondônia, outro na Paraíba, o terceiro não sei que rumo tomou. Assim é a vida. Os amigos se dispersam e as trajetórias não se recompõem, muito menos se reaproximam, sem que tomemos providências.
A notícia sobre a passagem de Seu Celso, o alfaiate, é uma pancada na razão mais funcional. Chegada assim, de repente, ela desnorteia e nos confronta com nossas memórias, o que elas significam e o que temos feito com elas.

Lazer no São Vicente não interessa à cidade

06 de março de 2015 2

O assunto Monumento ao Imigrante voltou agora na Câmara. O vereador Gustavo Toigo está propondo que o monumento seja declarado símbolo da cidade. Faz sentido. Então, a colega Denise Pessôa aproveitou a oportunidade para desengavetar a preocupação com a chamada Praça do Imigrante, no entorno, projeto de anos que exige algumas desapropriações. É bem razoável.
Uma área de lazer na região do Monumento ao Imigrante, com ligação sobre a BR-116 por meio de passarela com a praça em frente qualifica a cidade. Caxias do Sul precisa ser inundada de áreas de lazer e convivência. Aí é que está a dificuldade.
Há carências bem mais graves na cidade quando o assunto é lazer. Por exemplo: não há cristo que faça algum vereador ou integrante do Executivo se interessar pela falta de opções de lazer para a rapaziada dos bairros São Vicente, Jardelino Ramos e Jardim América, na região conhecida como Antena. Ou algum acadêmico ou estudioso da área da arquitetura e do urbanismo. Não há propostas ou iniciativas. Como se o assunto não fosse importante. E parece que não é mesmo, para a cidade. O silêncio é gritante. E olha que as consequências da falta de área de lazer nessa região ao lado da Rodoviária são desastrosas. Respingam com força sobre meninos e meninas que ficam expostos à ociosidade _ ou coisa muito pior, que decorre dessa ociosidade. Alguns _ não poucos _ são até assassinados quando se enredam em um envolvimento mais traiçoeiro. Há vidas que se perdem na adolescência. Terrível
Existe até área de consumo de crack na redondeza, atrás do que alguns chamam de “Muro de Berlim”, um prédio em ruínas na esquina da Avenida Brasil com Ernesto Alves, que tem espaço para uma bela área de lazer e convívio capaz de revolucionar a relação da cidade com os três bairros. Um vislumbre das possibilidades deveria fazer surgir interessados na ideia, que ainda por cima tem relação com a história da cidade, pois ali havia uma cervejaria histórica. A bola está picando, mas ninguém chuta, e os meninos, as meninas e a comunidade seguem expostos e sem lazer.
Por quase todas a cidade há áreas de lazer. Na região do São Vicente, ela não existe, mas isso não interessa a ninguém. É intrigante. É preocupante. E desanimador.

O que levam os carteiros

05 de março de 2015 0

Mais um episódio da série “o mundo perdeu a graça”.
Os moradores do loteamento Mariani estão bastante preocupados porque o carteiro não passa mais em duas ruas. Há cães soltos que investem contra ele. Até aí, nada de novo. Sempre foi assim, os cachorros a perambular pelas ruas. Os cães de bairro costumam ser vigilantes para detectar a presença de forasteiros. Carteiros lhes chamam particularmente a atenção. Como os humanos, alguns são acolhedores e receptivos, mas há os agressivos. Então os Correios não têm entregado mais a correspondência, sob alegação de risco à integridade física dos carteiros. É compreensível.
Mas há uma mudança de fundo. Os moradores estão preocupados com as contas a pagar, com os boletos que não lhes são entregues. Aí surge o transtorno, porque, para pagar uma conta cujo boleto se extravia, é uma dificuldade, e nem todo mundo é íntimo da internet como se imagina.
Mas a preocupação é com as contas, e só. É o que os carteiros trazem hoje em dia. Cartas, como antes, são uma raridade. Daquelas em que algum querido distante contava da saudade, e de como ia a vida em outra cidade, e queria saber detalhes de como andavam as coisas com o destinatário, e até expressava uma angústia mais funda. Ou cartas daquelas pontilhadas de juras de amor, que expressavam o desejo ardente de estar perto da pessoa amada e anunciavam um encontro próximo. Esse tipo de mensagem quase não existe mais. Só boleto para pagar. Perdeu a graça, a vida.
Houve até uma canção dos anos 60 sobre o tema. Quem é adulto em fase já adiantada certamente conhece Please, Mr. Postman, dos Carpenters. É um clássico, uma melodia inconfundível na voz de Karen Carpenter, que marcou época: “Please, Mr. Postman, look and see if there’s a letter, a letter for me.” Por favor, senhor carteiro, olhe e veja se há uma carta, uma carta para mim. Era essa a expectativa reinante diante de carteiros anos atrás, que fazia corações baterem mais forte diante da espera, e que a música muito bem traduzia.
Os cachorros nas ruas já existiam, mas correspondências assim não têm mais. Só boleto para pagar. Os moradores do Mariani esperam boletos para pagar. É quase só o que chega pelos Correios. Perdeu bastante da graça, a vida.

A Avenida Júlio deserta

04 de março de 2015 1

Houve um tempo em que casais saíam para exercitar o flerte na Praça Dante. Alinhavar namoros, muitos dos quais evoluíram e entregaram à cidade uma geração de caxienses. Não é súbito acesso de saudosismo, mas esse retrospecto da Praça Dante é um fato, e é oportuno assinalar.
Houve um tempo em que casais passeavam na Avenida Júlio de mãos dadas atraídos pelas vitrines.
Mas o mundo perde a graça, progressivamente. Vai ficar pior. As redes sociais são muito eficientes e facilitam os contatos, mas não têm o glamour da cidade de antigamente. Hoje em dia, o que se vê aos domingos e mesmo no início das noites de qualquer dia da semana é a Avenida Júlio sorumbática, sombria, taciturna, inerte. As lojas todas, desde a Praça Dante até São Pelegrino, baixam as portas que já nem são mais pantográficas. Para os lados de Lourdes não é diferente. Essas pantográficas ainda permitiam entrever as vitrines e os produtos em exposição. As portas atuais fecham tudo, escondem tudo da vista do eventual e raro passante, em nome da prevenção à insegurança, aos furtos e arrombamentos. Ora, insegurança gera mais insegurança. Sem atrativos, e com menos gente caminhando nas ruas, a Júlio torna-se mais… insegura.
Passe pela Júlio pouco depois das 8 da noite. Ou no domingo à tarde. É uma tristeza. Que foi feito do centro da cidade! Aliás, o Centro… Está a merecer uma política, uma estratégia de boa revitalização capaz de promover o convívio e a redescoberta dessa área nobre da cidade. O Centro tem muitos encantos, simplesmente desprezados. Cabe alinhavar uma política capaz de atrair programações e empreendimentos para o centro histórico. A revitalização da unidade da Eberle da Sinimbu será pontual. É preciso uma ação mais ampla e estratégica, para todo o Centro, devolver a ele mais efervescência e glamour, com espaços e atividades fixas nas áreas culturais, de lazer, da gastronomia, levando em conta o perfil da região como ponto de encontro. Quando será? Será?
Essa preocupação inexiste na área do planejamento urbano. Sem ela, o Centro vai morrer e se degradar ainda mais. E ficar cada vez mais triste. O mundo, com cada vez mais shoppings, perde a graça progressivamente.

Jackson, Seu Finimundi e Romário

03 de março de 2015 0

O que Jackson Bottim, seu Carlos Finimundi e o adolescente Romário de Oliveira têm em comum? É simples, eles correm atrás. Jackson e Romário começam a correr agora, desde cedo. Seu Finimundi passou a vida correndo e não quer saber de parar.
Jackson, 10 anos, ficou tetraplégico devido a um atropelamento em Garibaldi. Isso não o intimida. Esta semana, prosseguiu seus estudos, agora no 5º ano do ensino fundamental, e está obstinado em ir à aula todo dia. Está feliz, diz a mãe, Simoni.
Seu Finimundi tem 93 anos de vida e 70 anos de estrada na empresa que ajudou a fundar, a Dambroz. É uma lição de vida. E segue dando expediente todo dia.
Romário, 14 anos, pula da cama às 5h, todo dia, para estudar. Enfrenta caminhadas de madrugada, ainda noite escura, em terreno pedregoso e cheio de acidentes, mais cansativos e pouco confortáveis deslocamentos de ônibus. E faz tudo de volta depois da aula para ajudar no trabalho da propriedade rural onde mora a família no resto da tarde.
Não se tem notícia de que a característica central de cada um seja reclamar da vida. Sabe-se de gente que esnoba e despreza a escola, preferindo a esperteza e a ociosidade. E de outros que são ágeis em reclamar se o transporte escolar não passa na frente da escola ou se o colégio do filho fica no bairro ao lado. Tem até mesmo quem não leve a criança à aula por conta de obstáculos como esses.
Claro que os órgãos dos governos estão aí para harmonizar e melhor organizar as situações, mas para estudar deveria valer qualquer coisa, todo esforço possível. Lembro de colegas meus que atravessavam a cidade a pé para estudar. Naquele tempo, transporte escolar não havia. Cada um que se virasse como pudesse. E não caía pedaço de ninguém.
Exercer a cidadania, cobrar, reivindicar, está valendo o tempo todo. Mas tais atitudes ganham credibilidade e se fortalecem quando acompanhadas da iniciativa e do esforço pessoal. Certamente que Jackson, Seu Finimundi e Romário sentem a cada dia a gratificação e a realização do esforço pessoal. E ainda encontram tempo para o bom convívio em família e com amigos. Outros preferem a esperteza, e o sentido da vida se perde, e a vida coletiva torna-se pior.
Correr atrás faz bem à saúde e à cidadania.

Falta gente como Taís

28 de fevereiro de 2015 0

A saga da mulher que investiu diante dos motoristas que faziam fila para abastecer em um posto de gasolina na BR-116 é comovente e ao mesmo tempo importante. Quase épica. Ela surgiu entre os carros pregando no deserto. Os motoristas abasteciam preventivamente, para não serem pegos sem combustível devido a um eventual desabastecimento. A mulher não se intimidou e bradava para que não abastecessem, para não aceitarem o preço do combustível, lembrando a lei da oferta e da procura. Alguns motoristas faziam o contraponto de que precisavam trabalhar, mas ela não abria concessões.
_ Não trabalharemos então. Nós ficaremos em casa ou andaremos de ônibus.
Há várias leituras desse surpreendente episódio, e elas são bastante interessantes.
Primeiro, a coragem da mulher. Praticamente ninguém mais toma a frente diante de questões como essa. Prefere seguir o curso normal de sua vida. “Temos de trabalhar”, disseram alguns motoristas. A mulher se impôs sozinha, com voz firme e forte para ser escutada, em um ambiente francamente desfavorável ao que tinha a dizer, um posto de gasolina. Assumiu atitude que há muito tempo caiu em desuso, de manifestar-se com destemor. Falta convencer parceiros para a empreitada, tornar viável a proposta. Mas ela foi à luta, transmitiu uma ideia, tentou interferir. Isso tem feito uma falta danada em nosso país.
Segundo, ela tentou ajudar o movimento dos caminhoneiros pela ponta invertida, na bomba do combustível. Aparentemente, é insustentável, sem chance de êxito. Mas deixou seu recado, e com boa dose de lógica: “Se sobra produto, abaixa o preço.” É a principal reivindicação dos caminhoneiros.
Ainda alertou para o que realmente importa:
_ Nós vamos ficar sem alimentos. Não adianta abastecer os carros se não tem caminhão na estrada.
E ousou sugerir ficar em casa ou andar de ônibus, em terra devotada ao automóvel.
Aparentemente sem futuro, uma voz solitária no deserto, a mensagem dessa mulher, uma gerente de empresa chamada Taís, chama atenção, principalmente pela indignação e capacidade de iniciativa. Está faltando mais gente com a coragem, a energia e o destemor de Taís.

'Que honra fazer parte deste momento'

27 de fevereiro de 2015 1

Que jornada! se diria tempos atrás. Jornada é uma expressão mais épica e localizada. Essa expressão foi atualizada para “que momento!”, algo mais difuso, que de alguma forma nos chega e nos envolve em um ambiente que queremos realçar.
Jornada transmite uma ideia mais operativa e proativa. Quem sabe a sociedade tenha de ser mais épica e preparar-se para duras jornadas para desmontar todo o aparato que sustenta a crise moral em que estamos metidos. Em português claro, para desmontar a corrupção, a esperteza, os desmandos, os privilégios, que estão espalhados por todo o país, e não apenas na esfera do poder.
Temos a compreensível inclinação de relacionar todos os nossos males, que compõem uma lista sem fim, para radiografar o momento, desde todas as modalidades de corrupção à situação terrível de nossas escolas e hospitais, passando pela deseducação geral que se manifesta nas ruas. Faz parte do diagnóstico necessário, e está correto. Porém, será justo com nós mesmos que esse diagnóstico seja completo. Pode ser uma questão de viés, do ângulo da observação de cada um, mas é mais do que isso, é de abrangência: não deixar que aspectos desse “momento” restem desvalorizados e sem o registro necessário e exato. O efeito é surpreendente.
Ao escrever esta semana duas crônicas que perguntavam se este país tem conserto, fui abalroado pelo comentário deixado por um leitor, de nome Anderson, no blog que assino. Ao mesmo tempo em que concorda sobre todas as nossas mazelas, ele acrescenta: “Contudo, comemoremos a limpeza que está acontecendo em níveis não visíveis dessa existência. Que honra poder fazer parte deste momento. As malandragens, fraudes e demais situações vindo à tona corroboram isso.”
Ele tem toda a razão. Dos carros de luxo e iates confiscados a Eike Batista à prisão dos donos de empreiteiras na Operação Lava-Jato _, que já se estendem por meses, quem diria! _, passando pelas minúcias desvendadas do esquema bilionário de financiamento a partidos políticos, inclusive com devolução de dinheiro público, aí tem uma novidade, com lances épicos. Quem seria capaz de imaginar, pouco tempo atrás, um ambiente assim? É um signficativo progresso da nossa parte.
Que jornada!

Clamores querem dizer alguma coisa

26 de fevereiro de 2015 3

Os políticos costumam ignorar clamores. Clamores são importantes. Querem dizer alguma coisa, estar atento e responder a eles é boa recomendação, embora não se deva seguir cegamente os clamores. A maioria da população, por exemplo, é a favor da pena de morte.
Dilma Rousseff ganhou a eleição arranhando, em meio aos escândalos da Petrobras. Com uma carga tributária beirando os 40% do PIB e submetida a serviços de baixa qualidade, boa parte da população já não aguenta mais a situação, não tem gordura para queimar. Pois iniciado o governo, veio aumento de impostos. Para os combustíveis.
Neste momento, o clamor precisa ser observado, em nome de alguma harmonia possível para o país, mesmo que ao custo de algum desequilíbrio contábil momentâneo. Claro que o equilíbrio fiscal é essencial, mas há momentos em que é preciso ter sensibilidade aos clamores. Quem sabe algum tempo depois seria possível. Mas aumento de imposto numa hora dessas? A população juntou uma coisa com a outra: aumento de combustível e escândalos na Petrobras. A conclusão é lógica: estava financiando a esperteza. Afora isso, o país está amordaçado pela carga tributária, clama por um afrouxamento do nó da gravata, e o que vem: aumento de imposto, e para os combustíveis.
É muita desatenção aos clamores. Depois a situação escapa ao controle, como agora, e não adianta reclamar. A população já não aguenta mais privilégios, e o que fez o novo governo estadual, que começou com o forte discurso da contenção de gastos? Carimbou aumentos para os maiores salários, andou de helicóptero sem necessidade, comprou lençóis de cetim. Pede pra levar.
No âmbito nacional, uma consequência de enorme impacto está em curso: os caminhoneiros fazem bloqueios nas estradas para reivindicar a redução do preço do diesel, que o governo já disse que não dará. Então as cargas começam a não chegar, ameaça faltar produto básico e está criado um ambiente de enorme turbulência. Tudo porque não se dá importância aos sinais e ao pedido de socorr que vêm das ruas. Há vezes em que a medida técnica mais recomendada deve dar lugar a saber ouvir, ser sensível e ter habilidade para responder aos clamores da população.
É atitude sábia. Mas geralmente desprezada.

Este país tem conserto? - parte 2

25 de fevereiro de 2015 2

O flamante Honda Civic flanava pela Matteo Gianella na segunda-feira à noite quando do vidro traseiro entreaberto esgueirou-se a mão de um dos ocupantes para destinar diretamente à rua uma certa embalagem já sem serventia. Lixo atirado à rua, em português claro. Direto do Honda Civic metálico. A falta de educação é democrática, está em todos os níveis sociais. Não é privilégio nem exclusividade de ninguém.
Ontem, esta coluna refletia sobre se terá conserto este país. Alinhava como exemplos as fraudes em avalanche e a praga resistente dos motoristas que dirigem depois de beber e, com frequência, causam acidentes terríveis. Pois o lixo direto na rua, como bem demonstrou um ocupante do Honda Civic, é outra evidência de que, aparentemente, o país não tem conserto no médio prazo, pelo menos. E olha que já tem lei em vigor em diversas cidades da região, Caxias do Sul entre elas, para multar quem joga sujeira em via pública. É uma lei, como se costuma dizer, para inglês ver, pois praticamente limita-se a flagrantes da parte da fiscalização. É delito de comprovação muito difícil para os demais cidadãos. E a fiscalização, como se sabe, raramente está disponível. Então, como comprovar que a embalagem partiu do Honda Civic?
Há outros exemplos de que consertar este país é tarefa dramática. Mais um: a estrutura física das escolas públicas, muitas delas aos cacos. É uma tristeza. Um símbolo. Dói no coração. Corta-se de tudo nos orçamentos públicos, como está se vendo agora no Estado, menos os privilégios. Resultado é que falta dinheiro para tanta necessidade essencial, nesse caso traduzida pela valorização do professor e pelas boas condições dos prédios e equipamentos das escolas.
São questões singelas, como não atirar lixo na rua pela janela do Honda Civic, ou básicas, como oferecer boas condições para a educação, que são desatendidas de forma constrangedora e desanimadora, a ponto de gerar o questionamento sobre se o país tem conserto. Questões de consciência pessoal, como dirigir depois de beber, ou de ordem moral, como a prática de fraudes, o apego à ideia de levar vantagem a qualquer custo. Por que acontecem tais “deslizes” é, antes de tudo, pela falta de familiaridade e desinteresse em valorizar tudo aquilo que tem bom efeito coletivo.

Este país tem conserto?

24 de fevereiro de 2015 3

Assistir a telejornais, de manhã, de tarde, de noite, de madrugada, é confrontar-se com um manancial inesgotável de espertezas de todo tipo. É uma fraude atrás da outra, de diversificadas modalidades e estilos. E vejam bem: assinadas não apenas por políticos, mas também por pessoas comuns. Os políticos levam a fama, quando na verdade eles nos representam.
Não vamos conseguir consertar este país, é a sensação fulgurante. Será preciso remover uma cultura impregnada. Algo como a limpeza das cavalariças de Augias, um dos 12 trabalhos de Hércules, o semideus da mitologia grega. O rei Augias tinha grandes rebanhos, não se sabe exatamente se de cavalos ou gado. A sugestão de que fossem cavalos é devido à expressão “cavalariças” para designar a tarefa atirada ao colo de Hércules. Então os estábulos acumularam enorme quantidade de estrume ao longo dos anos, pela falta de limpeza. Trabalho para Hércules, que teve de limpar os estábulos impregnados. Guarda semelhança com a cultura da esperteza, que suja o ambiente do país há séculos e o torna malcheiroso.
Mas Hércules conseguiu. Nós não estamos conseguindo varrer as espertezas. Sequer conseguimos controlar os que dirigem depois de beber. Força-tarefa após força-tarefa, blitz após blitz, fim de semana após fim de semana, uma penca de motoristas sai a dirigir depois de beber. Desta vez, no final de semana, 26 motoristas foram flagrados, ou 10% dos condutores abordados. Por falta de força-tarefa é que não é, pelo menos aqui em Caxias. Mas a praga não cede, boa parte dos motoristas é incapaz de se comover com a evidência de que beber e dirigir é prática irresponsável e até criminosa. Pelo contrário, tem os que avisam sobre as barreiras nas redes sociais. É uma tristeza. Não vamos conseguir.
Está aí o caso dessa criança inocente, de 20 dias, que perdeu a vida em Vila Flores. O bafômetro apontou que um dos motoristas estava alcoolizado. A esperteza e a falta de noção geral estão impregnadas na vida nacional. Removê-las é tarefa que guarda semelhança com a limpeza das cavalariças de Augias. Só não temos como atirar todo o trabalho sobre as costas de um semideus, como na mitologia grega. A tarefa precisa ser assumida por nós mesmos. Será que conseguimos?