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Um dia de gigantes

17 de novembro de 2014 0

Foi um dia de gigantes, a quinta-feira. Nos salões da CIC, pela manhã, Paulo Bellini, Raul Randon, Adelino Colombo e Lourenço Castelan protagonizaram o que foi chamado de Encontro de Gigantes. Com espontaneidade e carisma, dividiram um pouco de suas trajetórias e experiências. Os quatro têm contribuição inegável ao crescimento da região. A capacidade empreendedora é exemplar. Muito mais não precisa ser dito. A obra de cada um, materializada em grandes empresas, produção e milhares de empregos, fala por si.
Nas ruas de Lourdes, à tardinha, dois senegaleses, Seringhe Khadim Fall e Makadon Goeye, frustraram as pretensões de um assaltante. Protagonizaram o que pode ser chamado de Atitude de Gigantes, pela força moral da iniciativa de perseguir um ladrão que havia atacado uma mulher. Fizeram eles o que não é comum, não só pelo desconhecimento da vocação nativa para a indiferença, mas fundamentalmente por caráter. Deixando para trás as desconfianças de que eles e seus patrícios são alvo por aqui, fizeram o que entenderam certo. Atitude que, coincidentemente, foi exemplar. Deram exemplo a muitos caxienses.
Tudo o mais já foi dito a respeito da atitude dos dois senegaleses. Apenas ainda cabe lembrar que, na Câmara, chegou a ser falado que essa gente deveria voltar para o lugar de onde veio. Cartas e cartas foram endereçadas ao jornal e mensagens das mais raivosas foram postadas no Facebook com teor discriminatório. A cidade deveria pedir desculpas aos senegaleses. Agora surge um indício daquilo que deveria ser o óbvio: senegaleses entre nós, ou qualquer imigrante, pode não ser tão ruim como tentou se vender. Muito antes pelo contrário.
Como bem lembrou tempos atrás um feliz painel publicitário assinado pela Soama, só existem duas raças no universo: a humana e a desumana. Esta segunda costuma fazer distinção onde não deve. À parte essa diferença decisiva, estamos todos no mesmo barco. Isto é, fazemos parte de uma só comunidade cósmica e universal. Ninguém é melhor do que ninguém de antemão e barreiras entre pessoas existem para fins administrativos. Vencido esse pormenor, cabe agradecer pela oportunidade da convivência. Em alguns casos, temos o privilégio de conviver com gigantes. Independentemente da origem de cada um.

A cidade deve agradecer

15 de novembro de 2014 0

Uma breve história de amor se infiltrou no cotidiano da cidade nos últimos dias. Teve apenas dois capítulos e, aparentemente, um anticlímax como desfecho. Nem por isso deixou de ser bonita, significativa e importante.
Histórias de amor em uma cidade de quase meio milhão de habitantes existem por todo lado, com enredos próprios e desdobramentos surpreendentes. Histórias de amor são encharcadas de humanidades e imperfeições. Por isso mesmo tocantes, envolventes, repletas de incertezas e impossibilidades. Praticamente todas elas, mesmo a mais comum, renderiam belos romances. Algumas são rápidas, outras, duradouras, profundas e até dramáticas. A grande maioria, no entanto, não transpira, segue escondida, enclausurada sob forma de sonhos secretos ou compartilhados com os mais próximos. Apenas algumas tomam a forma concreta, e podem se desmanchar no ar. Ou não. E dessas que se materializam um dia, só algumas poucas são autossustentáveis e atravessam os anos, não interessando a forma que adquirem, mas a troca que se renova e perpetua.
Pois a história de amor em dois capítulos que veio à tona essa semana teve a magia de quebrar o ritmo da cidade. Absorvidos quase que o tempo todo por nossos afazeres e obrigações, de repente nos confrontamos com dois personagens: Jorge convidou Christian a fugir com ele sob garantia de “felicidade eterna”. Ao que Christian agradeceu e, educadamente, disse não. Pronto: uma história de amor tornada pública sob forma de duas singelas faixas de pano expostas em via pública no bairro São José. E foi o que bastou para, de alguma forma, aliviar ambientes , estimular imaginários, cogitações e até produzir alguma reflexão.Belos efeitos, talvez não imaginados pelos protagonistas.
Interessante observar ainda: a história de amor do São José dispensou o ambiente virtual em tempos de internet e redes sociais que costumam monopolizar as atenções, ganhou as ruas e assumiu visibilidade real. A efemeridade dela, dois rápidos capítulos, só aparentemente frustrou expectativas. Histórias de amor não valem pelo desfecho, mas simplesmente por acontecerem. Tornam a realidade menos áspera e ranzinza, e a vida ainda mais bela.
A cidade deve agradecer aos dois protagonistas do São José.

O caos ao redor dos colégios

14 de novembro de 2014 3

Quem disse que é simples organizar a vida em uma cidade média com quase meio milhão de habitantes? Não é mesmo. Particularmente, há uma situação de convivência coletiva que há décadas exige a harmonização de conflitos, mas o poder público é incompetente para organizá-la: é a entrada e saída dos alunos dos colégios particulares da cidade.
Sempre foi e ainda é péssimo, com infrações cotidianas aos regramentos básicos de trânsito: parada em fila dupla, sobre faixa de segurança, em lugar não- permitido. A fiscalização é um exército numericamente insignificante e não dá conta de controlar a situação. A consequência é que os motoristas interpretam essa dificuldade de fiscalizar como um sinal de que vale tudo. E botam pra quebrar.
Agora, a prefeitura entendeu por remodelar o trânsito na Sinimbu e retirou as vagas de estacionamento de São Pelegrino até o Centro, mas alguns pais de alunos do São Carlos estão anunciando uma desobediência: seguirão parando na porta do colégio para deixar seus filhos alegando insegurança. Querem a permissão para o embarque e desembarque. A prefeitura disse que irá analisar “com boa vontade” o assunto, mas por educação. Só pode ser. Reduzir calçada para criar vaga é que não pode.
Com todo o respeito a esses pais e compreensão à justificativa de que temem que a insegurança e a violência se manifestem contra seus filhos, não será possível. Se o precedente se abrir, qualquer pessoa terá o mesmo direito de deixar seu carro na porta de onde quer chegar, em fila dupla ou qualquer lugar. Afinal, a insegurança é para todos, não poupa ninguém. Se os pais têm medo, devem levar seus filhos pela mão até o portão dos colégios, e não despachá-los do carro. Se faltam vagas para estacionar perto, faltam para todos. Se a meninada vai de van, então cabe à empresa transportadora, à escola e à segurança pública ou privada a prevenção ao redor das escolas. Sem atropelos ao funcionamento da cidade, ao interesse coletivo.
O que poderiam os pais alegar é isonomia à confusão que ocorre nos portões de quase todas as demais escolas particulares. Diante do São José, do Carmo, do Murialdo, do Madre Imilda, a fila dupla campeia solta. Seria um argumento mais justo sob o ponto de vista da igualdade de tratamento, mas é claro que um erro não justifica outro.
Se a prefeitura tem convicção na retirada do estacionamento, deve manter a medida, sem exceção. Se não tiver, então será um deus-nos-acuda, um cada-um-por-si. Aliás, já é mais ou menos assim. O que precisa é moralizar de verdade o caos ao redor dos colégios.

O peso de um símbolo na Pinheiro Machado

13 de novembro de 2014 1

O antigo prédio do INSS é um símbolo. A máquina pública tornou-se pesada demais. A costa do Japão foi varrida por um tsunami há poucos anos e, meses depois, as estradas estavam reconstruídas. No Brasil, não se consegue cercar um prédio público. São proteções contra a esperteza.
A esperteza generalizada é que nos enreda, porque é preciso preveni-la nas contratações públicas. Já foi assim na passarela do São Ciro. Lá na BR, a obra precisou ser desmembrada em remoção de uma estação de gás, estaqueamento e estrutura armada. Para cada uma dessas etapas, houve licitações que não atraíam interessados, e o processo para cada fase precisava ser repetido três vezes, como decurso de todos os prazos. Então a passarela, que recebeu ordem de início em 29 de junho de 2011, ainda não está pronta.
No antigo INSS, já se tentaram dois certames licitatórios para cercar o prédio. Algo prosaico. Mas não houve interessados em um trabalho orçado em R$ 23 mil. A terceira licitação está em curso. Assim escorrem pelo ralo nosso tempo e o patrimônio público e providências singelas não acontecem por anos, enquanto o Japão reconstrói estradas. As restaurações de rodovias pelo Crema são outro mau exemplo de como tudo demora. Em 2012, o governador anunciou que, no verão seguinte, a Rota estaria em boas condições. Passaram-se os verões de 2013 e de 2014, e já vamos entrar no de 2015.
Porém, voltemos ao antigo prédio do INSS. É um símbolo. Como tal, a administração pública – no caso a municipal, porque a edificação está cedida pelo Ministério da Previdência – deveria irresignar-se e não permitir que seja desmantelado por drogados e vândalos. Deveria providenciar barricadas. Porque o peso de um símbolo é enorme. Na verdade, a lei geral das licitações, a 8.666, deixa aberta a possibilidade da dispensa “quando caracterizada urgência de atendimento de situação que possa ocasionar prejuízo ou comprometer a segurança de pessoas, obras, serviços, equipamentos e outros bens”. É o caso.
Mas a administração pública não esperneia e tolera lá na Pinheiro Machado a materialização de um símbolo que lhe corrói as entranhas e a credibilidade. E símbolos são um estrago monumental. Quem consertará a máquina pública em nosso país? Estamos condenados a ela?

Passarela Diego Zachi Carlotto

12 de novembro de 2014 0

Deve se confirmar. A passarela para pedestres no bairro São Ciro deve se chamar mesmo Passarela Diego Zachi Carlotto. Diego era aluno da Escola Estadual Érico Veríssimo e morreu atropelado no dia 17 de dezembro de 2008, então com 11 anos.
Projeto para a denominação será apresentado pelo vereador Rafael Bueno (PCdoB).
A passarela deve ficar pronta exatamente seis anos depois da morte de Diego.

Passarela, uma realização pessoal

12 de novembro de 2014 0

Desde que a reivindicação de uma passarela no São Ciro tomou forma, escutei todo tipo de objeção à alternativa. As consequências nefastas do tráfego pesado de uma BR sempre incomodaram os moradores do São Ciro. Mas a ideia se encorpou mesmo foi logo após a triste morte de um aluno da Escola Estadual Érico Veríssimo, o menino Diego, então com 11 anos, em 18 de dezembro de 2008. Significa que a estrutura deverá estar concluída seis anos após sua morte. Como demorou! Seria uma lembrança importante a passarela levar seu nome.
Desde aquele tempo, sempre fui um defensor da passarela. Alguma coisa precisava ser feita, a BR, como estava, não poderia ficar, a colecionar mortes de alunos, adolescentes, jovens, idosos na região do São Ciro. Então, testemunhar domingo a passarela içada sobre a rodovia, a compor um cenário urbano que aponta para o respeito à vida e ao pedestre, foi uma realização pessoal. Ainda que sem o fundamento técnico, sempre me pareceu ser essa a melhor alternativa, porque não cria obstáculos de fluxo aos veículos em um trecho já congestionado, em que qualquer outra interferência, seja lombada física ou eletrônica, agravaria ainda mais a situação. O pedestre não teria a menor chance.
Não falta quem diga que muita gente não utilizará a passarela. Pode ser, sim. Mas o poder público terá oferecido o equipamento preventivo. E a escola, como principal interessada, saberá desenvolver ações educativas com seus alunos e a comunidade. O triste é a necessidade de cogitar de um muro de concreto, que não custa barato, para forçar o uso da passarela, o que deveria se dar de forma espontânea e inteligente.
Será forçoso registrar ainda, com certo embaraço para nós, caxienses, que a passarela do São Ciro só se fortaleceu como ideia a partir da intervenção da deputada federal Manuela D’Ávila, que é de Porto Alegre. A emenda conquistada – R$ 300 mil – impôs sua execução. Não fosse esse pormenor, e a BR-116, no São Ciro, estaria negligenciada até hoje, pois nunca foi diagnosticada como ponto crítico do trânsito caxiense. Em consequência, não havia iniciativas concretas. As mortes eram entendidas como baixas inevitáveis da guerra do trânsito.
Agora a passarela está quase pronta. É uma grande notícia. Que venham as outras. Faltam mais umas quatro ou cinco.

A foto que não foi vista

11 de novembro de 2014 0

O governador José Ivo Sartori desdenha do rumor que existe no meio político caxiense. Chamou de “questiúncula”. Passaram-se, no entanto, duas semanas de sua eleição para governador e uma “questiúncula” permanece intrigante. Há uma foto que não foi vista. E isso, é claro, tem seus significados. Efeitos que já se projetam sutilmente para 2016. Embora até lá, pela proximidade política dos protagonistas e pela habilidade de um deles em particular, Edson Néspolo, é bastante provável que a dificuldade criada seja bem administrada. Na política é assim, o tempo costuma colocar as coisas em seus lugares.
Quinta-feira passada, o governador eleito foi fazer uma visita oficial, que classificou de “cortesia”, ao prefeito de Porto Alegre, José Fortunati. Teve foto, é claro. Uma semana antes, o prefeito Alceu Barbosa Velho e seu chefe de gabinete, o já referido Néspolo, receberam a visita de um dos coordenadores da campanha de Sartori, ex-secretário das Finanças de Alceu, Carlos Búrigo. Tudo em casa, portanto, registrado com foto.
Na segunda-feira após a eleição, Sartori veio a Caxias comemorar o feito com os caxienses na Praça Dante. O prefeito Alceu retornara da Alemanha no sábado a tempo de votar em Sartori para governador e Dilma Rousseff para presidente, segundo declarou seu voto. Na segunda, Alceu passou a tarde conferindo as obras do SIM. À noite, no entanto, contrariando a tendência natural das coisas, não foi ao encontro de Sartori na praça. Esse detalhe passou quase despercebido.
Desde então, o que intriga é que Sartori e Alceu não se encontraram para a confraternização natural. Se isso ocorreu, não houve foto, pelo menos não se viu. As agendas não convergiram. Politicamente, é intrigante, porque a foto selaria o êxito da aliança entre PMDB e PDT caxiense, um trunfo para fortalecer e consolidar desde já esta via política para 2016. O PDT, inclusive, fez foto de seus principais líderes, Alceu entre eles, reunidos em apoio a Sartori. Mas desde então, peemedebistas representativos se queixam de que Alceu praticamente não participou da campanha de Sartori. Gerou mal-estar, não desceu nada bem.
A eleição deste ano deixou desdobramentos para a política caxiense. Talvez a foto ainda apareça. Até agora, no entanto, ela não foi vista.

Como se muda o mundo

10 de novembro de 2014 0

Hoje em dia, há outras formas de mudar o mundo. Elas têm a ver com a tecnologia, especialmente. A tecnologia revolucionou a forma de se comunicar, de aproximar as pessoas. O mundo era um, agora é outro. No entanto, a tecnologia sequer arranhou o coração das pessoas. E o que muda de verdade o mundo é o que toca o coração das pessoas. Temos aí um impasse, portanto, um sério paradoxo.
A tecnologia facilita o trânsito do conhecimento, da cultura e das boas ideias, mas também das más. A mensagem pode chegar mais rápido hoje, o que é útil. Mas o conteúdo delas… E, com mensagens mais rápidas e ao alcance da mão, perdeu-se interesse, ao que parece, na redução das distâncias físicas, o que não é nada bom. Quase tudo pode se resolver à distância.
Há um comercial de tevê, de um dos principais bancos privados do país, que enumera algumas atitudes politicamente corretas e carimba o bordão: “isso muda o mundo”. Então, conforme o tal comercial, andar de bicicleta “muda o mundo”, estimular uma criança a ler “muda o mundo”.
Vamos ser claros: solto assim, não muda. Uma criança pode aprender a ler e aprontar misérias ao longo da existência. Temos fartos exemplos. O que muda o mundo é a superação do individualismo. Simples assim. Isso muda o mundo. Sintomaticamente, esse enunciado não consta do comercial do banco. Para convencer alguém a superar o individualismo é preciso tocar o coração, fazê-lo abrir-se para a generosidade. Isso muda o mundo.
Hoje o mundo é outro por causa da tecnologia. Mas não mudou, porque tal transformação não interferiu na superação do individualismo. Há boas suspeitas de que se verificou o contrário. Em outros tempos, 1968 mudou o mundo, porque resultou em conquistas do comportamento e da cultura que aproximaram as pessoas. O envolvimento político dos jovens para derrubar ditaduras mudou o mundo, porque pensava nas liberdades coletivas.
Há 25 anos, a queda do Muro de Berlim mudou o mundo, porque derrubou uma barreira simbólica, apontou para outro tempo, de uma vivência unificada possível. Nos nossos dias, o que realmente pode mudar o mundo é a disseminação da cultura de paz, que trabalha o desarme de conflitos a partir da vivência de valores essenciais, como o respeito ao outro.
Mudar o mundo sempre será possível. Perdemos completamente o foco, no entanto.

Nem tudo cabe no Parque da Festa da Uva

08 de novembro de 2014 1

O Parque da Festa da Uva deve ser considerado com cuidado. Por esses dias, muito do que não tem lugar na cidade está sendo remetido diretamente ao parque. Agora foi o Presépio de Rolhas. Nem tudo, no entanto, deve parar na Festa da Uva.
Tudo que tem perfil turístico relaciona-se com a vocação do parque. Pode ir para lá. É o caso, essencialmente, das réplicas, do salão comunitário recentemente construído, com capela, o que fomenta, inclusive, o convívio comunitário a partir do parque, com DNA no parque. Missas estão sendo celebradas no último domingo de cada mês. É superválido. É o caso, também, de piqueniques com propósitos solidários que já se realizam no parque. A junção e o convívio se dão no parque, é lá que tais programações adquirem mais sentido. Vale também para a ideia de Réveillon que a prefeitura quer fazer este ano. Está associada ao parque, nascerá no parque, estará intimamente ligada ao parque.
Mas nem tudo deveria parar por lá. O que tem raiz comunitária em outras geografias da cidade, o que promove o convívio em outros endereços, seria muito bom que não fosse levado ao parque. No entanto, parece que basta surgir um impasse que de pronto a Festa da Uva é lembrada como depositária de atividades com alguma dificuldade para acontecer. Aí é ruim.
É o caso do já citado Presépio de Rolhas. Nasceu em Ana Rech, fortaleceu a comunidade de Ana Rech, lembra Ana Rech, mas agora se vai rumo ao parque. Porque houve um impasse, havia um custo de manutenção, na Festa será mais visto, é o que se argumenta. Mas deveria estar no coração de Ana Rech,valorizado, protegido, viabilizado pela comunidade, porque foi lá que nasceu. A ciclovia saiu da Perimetral aos domingos justo no momento em que essa via começava a receber sopros de humanização. Pois a Perimetral Norte agora é só dos carros. Os desfiles da Festa da Uva, volta e meia se tenta retirar da Sinimbu para levar ao parque. Seria o confinamento do espírito da Festa. Felizmente, a lucidez está prevalecendo e parece estar consolidada a ideia de que os desfiles devem ser na Sinimbu.
É preciso cuidado no tratamento ao parque. Nem tudo cabe no parque. Ele não pode servir de pretexto para enfraquecer outros vínculos comunitários e oportunidade de convívio.

Bandoleiros da cidade média

07 de novembro de 2014 2

Estar do lado de fora está cada vez mais arriscado. Sempre foi. Mas agora em Caxias do Sul, reta final de 2014, não basta manter-se distante da confusão. As balas vão procurar quem está distraído, absorvido pelas preocupações mais íntimas. Pode-se pagar um preço por estar alheio à movimentação ao redor, mas às vezes nem essa precaução adianta. As balas chegam assim mesmo.
“São os tempos”, é como se diz usualmente. Os tempos são outros, mais alucinantes, confusos e perigosos. Caxias do Sul, por exemplo, coleciona três balas perdidas recentes. Claro que as razões para as balas perdidas e todas as outras balas que cortam o ar, centenas delas, não são assim tão simplistas. Mas não está errado lançar mão do recurso retórico de que “são os tempos”. São mesmo, só que, apenas assim, é incompleto.
Então, andar na rua em Caxias tem os riscos adicionais da época. Antes, era mais o risco do assalto, ou de algum acidente maluco. Agora tem de estar atento às balas traiçoeiras. Que o digam uma professora no Fátima Baixo, um menino de 2 anos no Fátima Alto e agora uma menina de 16 anos no De Zorzi. Todos baleados a esmo.
Até há pouco, era raro uma bala perdida em Caxias. Agora tornou-se habitual. Resultado do maior volume de adeptos do crime, que saem as ruas como bandoleiros da cidade média, dos tempos modernos. O resultado são as balas possíveis em qualquer rua, a qualquer momento. Tempos atrás, até se dizia que a violência e a ação da bandidagem eram um reflexo torto das oportunidades desiguais, uma tese “romântica”, por assim dizer, mas incompleta. Hoje, a popularidade do crime é resultado da impunidade.
Os bandidos não são burros, fazem análise de cenário, traçam estratégias de médio e longo prazo. Quer dizer, escolhem a carreira, diante das facilidades reinantes e da estimativa de retorno com baixo risco. Como no mercado de trabalho, alguns são mais qualificados, porém outros nem tanto no manuseio das técnicas e ferramentas de trabalho, das relações estabelecidas e dos estilos de atuação. Como são cada vez mais numerosos e não temem os órgãos de segurança, os “acidentes de trabalho” e os conflitos se sucedem pelo caminho. Então as balas se extraviam por aí. Cada vez mais. Muito cuidado, portanto.