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A última barbaridade de 2014

07 de janeiro de 2015 1

O ano não terminaria sem uma última barbaridade. 2014 foi um escândalo, uma sucessão industrial delas. Está se falando de barbaridades, primitivismos, acontecimentos que em nada combinam com os ditos princípios da modernidade, como “sustentabilidade” e “diversidade”, palavras bem ao gosto de tanta gente. Barbaridades do gênero de um Jair Bolsonaro, da discriminação que sugeriu a senegaleses, haitianos e ganeses retornarem para o lugar de onde vieram. Ou da trapalhada recente com os extintores. Pois o ano não terminaria sem uma última barbaridade, e ela veio no penúltimo dia, sem tempo para a repercussão necessária: em Caxias do Sul, seguem matando pombos na praça central. Caxias do Sul é a cidade onde se matam pombos.
Aliás, esse tipo de barbaridade já havia se materializado em abril, também na Praça Dante. Aliás, outra vez: o extermínio de agora, de outras dezenas de pombos por envenenamento, talvez tenha se dado para “comemorar” o primeiro aniversário da primeira mortandade, em dezembro de 2013. Como ninguém nunca descobriu nada, o exterminador de pombos sente-se à vontade. Sente-se em casa em Caxias. Tem muita gente que até o elogia, porque os pombos têm mais é que saírem de cena para nunca mais, uma vez que causam efeitos nocivos à saúde pública. A mortandade é uma ação de vanguarda ambiental, quem sabe.
A Secretaria do Meio Ambiente, que é a quem cabe cuidar do ambiente, desfere a reação protocolar para essas ocasiões, diz que vai ver quem é que fez, e coisa e tal. Mas o fato é que nunca se descobre quem espalha veneno para os pombos em plena Praça Dante. O exterminador entende o recado e, em breve, deve entrar em ação novamente. Quem sabe a mortandade repetida três vezes não instigue os órgãos públicos a ficarem alertas para ver quem faz. Quem sabe, também, as câmeras de vigilância da Praça Dante não inventem de funcionar uma vez só, o suficiente para decifrar o mistério da identidade do exterminador.
Cogitar de matar pombos é uma barbaridade. Levar adiante a empreitada torna ainda maior o disparate. E cometê-la na Praça Dante, fica um absurdo mais grave ainda. Foi a última de 2014.
Caxias é a cidade onde se matam pombos. Mas que barbaridade!

O futuro começa agora, e começou mal

30 de dezembro de 2014 0

“Hoje é um novo dia de um novo tempo, que começou nesses nossos dias.” O jingle de fim de ano da Globo tem quatro décadas e coloca um senhor compromisso: o futuro começa hoje. Até já começou. Mas, para tanta gente, muitos caxienses entre eles, isso é uma sonora bobagem. Apesar de acharem a música bonitinha e até a adotarem para acalmar a própria consciência, esse papo de futuro não cola. Outro futuro começa daqui dois dias, quando será 2015. Mas o marco de fim de ano só serve quando se decide mudar de verdade, o que é bem raro. Em geral, resoluções pessoais e metas de governo estão fadadas ao fracasso, esfarelam-se já em janeiro e não resistem a fevereiro.
Mas, como bem lembra a musiquinha da Globo, o futuro já começou. E, se assim é, o futuro não recomenda. Vamos ficar apenas com dezembro: a Câmara aprovou um loteamento classe A em Caxias, ainda que o empreendimento vá exigir o corte de milhares de árvores. Milhares. Algumas coisas foram ditas pelo órgão municipal do meio ambiente, como por exemplo: o que se cortará no Samuara é mais ou menos o que se corta em pouco tempo para empreendimentos do gênero espalhados pela cidade. A “mancha verde” deixará de existir, um impacto evidente e indiscutível sobre o microclima, que depois interfere no clima sob forma de irregularidade das chuvas e falta d’água, estamos vendo bem. Agora, semana que passou, uma empresa pintou o Dal Bó e o Tega de verde com o despejo de seus dejetos industriais. Um escândalo. Um crime ambiental. Assim estamos.
A propósito da autorização da Câmara para o loteamento classe A, o jornalista Régis Vargas enviou um comentário à coluna, já inspirado pelo jingle da Globo, que todo dezembro costuma embalar as salas de estar dos lares caxienses. Escreveu ele: “Caxias do Sul está deixando de ser um bom lugar para se viver, se continuarmos somente visando às construções em concreto, em detrimento da preservação do verde, da água, da qualidade de vida. O futuro da cidade, embora alguns não queiram ver ou opinar, está sendo determinado agora.” Alguma dúvida?
O futuro, insiste o jingle da Globo, está sendo feito hoje, esse novo dia de um novo tempo. Na antessala de 2015, estamos mal. O futuro, portanto, está sendo muito mal feito agora.

A falta do atestado de óbito

29 de dezembro de 2014 0

Contexto é importante. Sinalizações também.As atitudes e comportamentos de cada um não devem desconsiderar o contexto. Ao mandar soltar o motorista embriagado que provocou o acidente causador da morte de uma jovem em Capão da Canoa, a juíza tomou essa decisão porque faltava o atestado de óbito. Ateve-se ao formalismo, desconsiderou o contexto.
Nem sempre o contexto deve ser preponderante, mas ele precisa ser considerado. Boa parte da população quer a pena de morte, por exemplo. É um contexto. Nem por isso ela deve ser incorporada ao regramento penal do país. Mas, com frequência, o contexto é fundamental. O formalismo do atestado de óbito não está tecnicamente incorreto. E há diferenças pessoais que produzem efeitos em todas as esferas, relações, profissões, que devem ser respeitadas. São diferenças de estilo. Há juízes mais rigorosos ao formalismo, outros menos. Mas o exame de contexto é imprescindível, porque as decisões correm o risco de ficar soltas no espaço, sem vínculos com a realidade. Não que se deva prender e arrebentar porque assim exige o clamor popular. Mas sim, recomenda-se sondar o ambiente ao redor para captar o impacto de uma decisão.
A realidade nacional clama por sinalizações pedagógicas capazes de moralizar um pouco o ambiente de impunidade. Nesse caso de Capão, alargar essa concessão não atropelava o formalismo não cumprido da inexistência do atestado, porque estava lá o corpo estendido no chão. A juíza poderia, sem violentar seu rigor formal, contemplar a pedagogia da pena. Mas julgou melhor dispensar o contexto. Foi uma oportunidade desperdiçada.
Tempos atrás, os vereadores caxienses decidiram aumentar de 17 para 23 o número de cadeiras na Câmara. Agiram dentro da previsão legal, até o limite possível, mas ignoraram o clamor popular, que não queria mais vagas. Neste caso, era importante sinalizar à população que ela pode ser ouvida pelos agentes públicos, pois se tratava de fortalecer a política como atividade, dar-lhe um pouco de credibilidade. Mas os vereadores entenderam por ignorar o contexto. Desperdiçaram oportunidade de ouro de fortalecer a política.
Sinalizações são decisivas. Para a população entender o recado, sentir-se valorizada e até protegida. Ou pode ser bem o contrário.

Francisco, um argentino

27 de dezembro de 2014 0

A cada diz que passa, cresce minha curiosidade em saber como se desenrolaram as correlações de força entre os cardeais da Igreja Católica que culminaram na indicação e na escolha do cardeal Bergoglio como pontífice. Levando-se em conta o histórico trânsito do poder na hierarquia da Igreja, alguém deve ter calculado mal os alinhavos das costuras políticas, e deu no que deu: o papa Francisco está saindo melhor do que a encomenda. Começa pelo nome. Como ninguém nunca havia pensado antes nesta homenagem à simplicidade de São Francisco de Assis entre toda a milenar relação de papas que comandaram a Igreja Católica? É sintomático. Pois o argentino Bergoglio pensou.
Agora o ano se encerra com duas intervenções preciosas de Francisco. Primeiro, sua participação essencial na aproximação entre Cuba e Estados Unidos, de tal forma que desponta reluzente a mensagem da convivência possível entre os diferentes, e não a da ruptura. Isso é um legado para a humanidade. Segundo, o discurso anual do Papa para integrantes da Igreja e do governo do Vaticano, ao encerrar-se o ano. Papa Francisco foi cirúrgico, falou sem temor e foi direto ao ponto, as “infidelidades ao Evangelho”. Entre elas, os aspectos relacionados ao que chamou de “Alzheimer espiritual” e da “cara fúnebre”. No caso do Alzheimer espiritual, referiu-se ao esquecimento do fervor da fé, entre outras coisas, por “petrificação mental e espiritual” e “excesso de planejamento e funcionalismo”. Isto é, verbalizou ele, o Papa, em linguagem clara, o que a compreensão popular percebe da Igreja Católica.
Ano passado, Francisco já havia surpreendido o mundo com outra preciosa lição de humildade e respeito à diversidade e a vida, ensinamentos centrais com frequência negligenciados pelo clero e pela Igreja, quando pronunciou a célebre frase “Se uma pessoa é gay e busca a Deus, quem sou eu para julgá-la?” Pois ele repete a dose em 2014 e credencia-se como sinal de esperança para a humanidade. Papa Francisco, um argentino!
Alguém errou no alinhavo político costurado no Vaticano. Pensou uma coisa e saiu outra. Mas, sendo assim, foi uma escolha guiada pelo Espírito Santo. Tomara suas intervenções prossigam decisivas em 2015 e nos anos que vêm pela frente.
Longa vida e longo pontificado a Francisco.

Caxias não quis, e ainda não quer

26 de dezembro de 2014 0

O incêndio do Cine Ópera, que completou 20 anos agora, é o maior símbolo, a melhor tradução das prioridades caxienses, daquilo que o conjunto da cidade mais valoriza. Cultura e memória, portanto, não ocupam as primeiras posições dessa lista, na escala de prioridades. Elas servem para belos discursos, mas, na hora do vamos ver, ficam de lado para dar lugar a outros valores. Simples assim, insofismável, pois o fato viu-se aí, há 20 anos, a comprovar essa realidade. Isso, aliás, já se sabe. Logo depois, a população desinteressou-se da investigação para apurar responsabilidades sobre o caso, e o incêndio do Ópera ficou por isso mesmo. Sintomático. A obviedade de que esse nobre espaço da cultura, da arquitetura e da memória transformou-se em uma garagem para carros é quase um clichê para traduzir a cidade.
Os carros são o símbolo mais à mão e recorrente para esse perfil de cidade, um componente utilitário, uma das pontas que forçam esse crescimento que se dá a qualquer custo e leva tudo por diante. No coração da cidade, na Praça Dante, o espaço onde antes havia uma pracinha para crianças foi cedido aos carros. Em São Pelegrino, tentou-se estreitar calçadas e retirar ipês para oferecer mais espaço aos carros. Por crescimento, na tradução nativa, entenda-se tornar espaços e funcionalidades em facilitadores de retorno e ganho financeiro. Outra ponta vigorosa é a construção civil, que leva a memória e o verde por diante. Ninguém é contra a funcionalidade dos carros e a necessidade de mais prédios, como se fosse necessário enfatizar. Mas vamos com calma.
Caxias, se quisesse, poderia ter outra feição. A pracinha ainda repleta de crianças na Avenida Júlio. O Ópera preservado e esbanjando vitalidade. A Casa Rosa dos Eberle reluzente na Alfredo Chaves, e não banhada agora por uma nesga de sol que se infiltra entre duas torres portentosas. Mais espaço para pedestres no Centro. Caxias poderia ser assim, se quisesse. Pelo menos, chegou-se a algum encaminhamento possível quanto às unidades da antiga Eberle no Centro e na Maesa, mas poderia ser muito mais, a imprimir uma feição de cidade que valoriza memória, ambiente e pedestres.
Em outras palavras, Caxias do Sul poderia ser muito mais encantadora e humana, sem abrir mão de crescer. Mas assim não quis, e ainda não quer.

Revitalizar cada vez mais é preciso

23 de dezembro de 2014 0

A prefeitura promoveu semana passada um encontro sobre a revitalização do Largo da Estação Férrea, ação complementar à já anunciada Praça do Trem. A administração também busca atrair interessados para reforma no Parque da Lagoa, no Desvio Rizzo. A licitação terá de ser repetida.
São iniciativas importantes para fortalecer espaços de convivência.
Há outros endereços pedindo para ser revitalizados. A Praça da Bandeira deveria ser o próximo, mas está pendurada pela solicitação de um estudo arqueológico.
Por revitalização, deve se entender locais de convívio e atração de moradores, que fique claro. Outro espaço que merece um estudo profundo de revitalização, e ações ousadas, é o centro histórico da cidade, Praça Dante à frente. Fica a sugestão para um início de conversa.

Agora chama-se 'food trucks'. Bonito!

22 de dezembro de 2014 0

Minha cidade, o Alegrete, não é uma cidade industrial. Longe disso. O forte é a agropecuária, arroz e criação de gado. Mas havia por lá uma indústria, quase 40 anos atrás. Chamava-se Montipó & Wasquevite e fabricava trailers para fins do comércio alimentício, com a estrutura de uma cozinha planejada para a finalidade de lanches rápidos, inclusive com uma prensa para prensar os tradicionais xis. Não havia cidade do Estado que não tivesse um trailer daqueles.
Passei boa parte da universidade comendo xis prensado, uma modalidade que não conquistou simpatia de Porto Alegre para o norte do Estado, Caxias do Sul inclusive, mas que, de Santa Maria para baixo, era extremamente popular. E saborosa. Xis prensado é uma delícia. Tanto que as prensas para prensar xis, de tanto uso que tinham, logo ficavam embebidas em gordura, o que era de fácil constatação a um exame visual preliminar. Mas isso não assustava ninguém, e aquele xis prensado de bacon com ovo encharcado de maionese era inigualável e comíamos a qualquer hora, até nas madrugadas, depois das festas de fim de semana. Bem ao avesso do que recomendam hoje os princípios de uma alimentação saudável.
Em Alegrete, ainda existem os trailers da Montipó & Wasquevite. Em Santa Maria, não havia esquina da generosa e ampla Avenida Rio Branco ou da Presidente Vargas sem um trailer para alimentação rápida, que quebrava o galho de muita gente. Tinha trailer por todo lado da cidade. E comia-se o lanche de forma improvisada com os amigos e colegas de faculdade, sentado em bancos de madeira ou nos canteiros de flores que havia ao redor.
Pois hoje noticia-se que a forte tendência da economia para o comércio de refeições rápidas são os chamados “food trucks” – só podia ser em inglês. São “caminhões de comida”, em bom português. Difunde-se o termo, imprime-se uma nova roupagem, dá-se uma feição moderna, bem ao gosto da moda, e vira “mania gastronômica”. Ora, os pratos oferecidos podem ser diversos, além do xis, mais refinados, mas comida de rua sempre houve, sempre fez parte do cenário urbano. Agora chama-se “food trucks”. Bonito! Os trailers da Montipó & Wasquevite eram “food trucks”, então. Assim cria-se o que se chama de tendência, e os desavisados acreditam que é tudo muito moderno. A publicidade e o marketing são fascinantes.

A utilidade do jornalismo comunitário

20 de dezembro de 2014 0

Esta sexta-feira revestiu-se das peculiaridades de um dia marcante. Particularmente, por revelar a importância de uma determinada modalidade do jornalismo, o jornalismo comunitário. Nesta sexta-feira, a passarela sobre a BR-116, no São Ciro, foi dada, enfim, como extraoficialmente concluída. Sempre pareceu improvável que a obra fosse finalizada, tantos foram os contratempos e as desconfianças. Mas, na prática, está pronta, e as pessoas já começam a fazer a travessia da BR por cima da passarela.
Desde o dia 18 de dezembro de 2008, um dia após a triste morte por atropelamento do menino Diego Zachi Carlotto, que caminhava pelo acostamento com sua mãe, e nem era uma travessia da BR, este colunista defendeu a necessidade de medidas preventivas para alunos, idosos e trabalhadores, todos numerosos nas margens da rodovia, na região do São Ciro. E acompanhou passo a passo todos os entraves, embaraços e o ritmo lento dos pequenos avanços ao longo desses seis anos. Até chegar esta sexta-feira, quando a passarela ficou pronta e a travessia foi liberada.
Por isso, o dia é marcante e gratificante: permite constatar a materialidade de uma obra que vai salvar vidas, à parte o desdém de muitos que se apressam em identificar os outros tantos que continuarão a se arriscar no meio da pista. Foi muito difícil a passarela chegar até o fim. Mas a mobilização comunitária, especialmente da comunidade da Escola Érico Veríssimo, apoiada por este jornalismo comunitário, tornou realidade outro cenário na BR, de respeito ao pedestre. A passarela do São Ciro, além de sua importância objetiva, é símbolo de outros tempos na 116, mais humanos e respeitosos.
Sintomaticamente, a conclusão da passarela coincide com a despedida do editor-chefe do Pioneiro, Roberto Nielsen, que cometeu a insanidade de franquear a este colunista o espaço da crônica diária. Essa coincidência torna-se, emblematicamente, uma homenagem a Roberto, pela capacidade de traduzir de forma palpável o que o exercício persistente e insistente do jornalismo comunitário, tão caro a ele, pode garantir em benefício de uma comunidade.
É uma feliz coincidência. Obrigado, Roberto. Parabéns, comunidade do São Ciro.

O país dos absurdos e a recaída da obviedade

19 de dezembro de 2014 0

A gente já nem fala, porque é de uma obviedade gritante. Fica chato falar de obviedades, é mais do mesmo. Então toca-se a vida atrás de outros temas mais empolgantes e surpreendentes, mas aí mora um problema: deixa-se de falar do absurdo da obviedade que é deputados federais e senadores estipularem salário de R$ 33,7 mil, igual ao dos ministros do Supremo. É muito dinheiro, claramente uma exorbitância, ainda que deputado devesse ter sua remuneração justa, porém austera, como exige a ocasião. O Brasil é o país dos absurdos. Começa aí, deputado federal ganhando mais do que a presidente da República. São dois absurdos em um golpe só: o valor estratosférico e a primazia sobre a primeira mandatária da nação.
Falar que o Brasil é o país dos absurdos é a recaída da obviedade, que tanto se teme e se quer evitar. Mas como evitar? O Rio Grande também é. Aqui, os deputados estaduais irão ganhar R$ 25,3 mil, como o governador. Ora, deputado, aqui e lá, não tem de ser o maior salário, isso é de uma limpidez constrangedora. Mas os absurdos não se esgotam aí. Por lá, os deputados, a exemplo dos ministros do Supremo, fixam os próprios salários, dentro de um teto pra lá de confortável, e estipulam faixas em cascata para seus colegas parlamentares dos Estados e municípios. E vem promotor, e vem delegado, e vem juiz, e vem procurador, e vem coronel da Brigada, e vem conselheiro do TCE, tudo na fila da cascata. E ainda tem o auxílio-moradia para os magistrados, os pobres.
Por aqui, a base aliada do governo eleito, que constata uma crise fenomenal nas finanças estaduais, vota o aumento dos deputados além da inflação. É estapafúrdio. E o Executivo abaixa a cabeça, sob alegação de que um poder não pode interferir em outro, mas o Legislativo interfere no Executivo, que tem a chave do cofre. Aí pode. O que não pode é dar o aumento justo, merecido e historicamente represado aos professores. Aí ressurgem a austeridade esquecida, a Lei de Responsabilidade Fiscal. E não haverá deputado, é claro, para fazer a seguinte lei: congelem-se vencimentos e privilégios dos primos ricos do serviço público enquanto professor não tiver o salário que merece. Simples assim.
Perdoem, por hoje, o surto de obviedade. Mas é preciso não negligenciar com o óbvio.

Mundo do faz de conta

18 de dezembro de 2014 0

O companheiro dos últimos dias da ex-princesa da Festa da Uva Henriette Vaccari anda postando fotos na prisão. Está de posse de um celular, ele e um batalhão de presos. Todos os dias entram celulares em presídios. É uma infração tão grave, pela regra desprezada e pelas consequências que um celular dentro da prisão acarreta, de apoio ao crime organizado, que deveria significar punição funcional automática para os agentes públicos que devem controlar a entrada dos aparelhos em presídios. Mas assim não é. E se assim fosse, nas constantes reincidências, eles não paravam em pé. O governo sabe há décadas que os celulares entram em presídios todos os dias, como entrou o celular do companheiro da ex-princesa. Mas é incapaz de resolver esse problema corriqueiro. Virou deboche.
Os pais continuam parando seus carros onde não devem, na Sinimbu, inclusive sobre a faixa de segurança, para deixar seus filhos no São Carlos. Param na cara dura, no atropelo mais deslavado e escancarado às regras de trânsito. É assim também com a fila dupla na frente das escolas particulares. É um jeitinho abominável, porque esses motoristas prejudicam outros motoristas e outras pessoas. Na regra geral, não há fiscalização, porque faltam fiscais, e as administrações não contratam mais fiscais porque a Lei de Responsabilidade Fiscal não permite empilhar fiscais, porque estouraria o teto do gasto possível com pessoal. Mas, com poucos fiscais, vira o reino do faz de conta.
Vale o mesmo para o vandalismo que campeia sem combate, para a pichação de prédios. Nada disso pode, está claro, mas são consideradas ações de “menor potencial ofensivo”, e são deixadas de lado, sem investigação policial, pois a polícia tem muito mais o que fazer, e também ela padece da falta de gente. Estamos condenados a essas infrações crônicas a leis e regrinhas elementares.
Vamos falar sério. Boa parte da população faz de conta que cumpre as leis e as regras. E as administrações e governos fazem de conta que governam. Passam os anos, e não conseguem impedir que celular entre na prisão, que motoristas parem em lugares onde atrapalham a vida da cidade. Não conseguem a mais singela organização para colocar ordem na casa. E não há qualquer sinal de que, no curto prazo, irão conseguir.
Atestado maior de incompetência não há.