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Macacos

06 de setembro de 2014 0

Macacos, em sua diversidade de modelos, quer dizer, espécies, são animais extremamente simpáticos, de expressões encantadoras. Competem com os cachorros. E são inteligentes. E brincalhões. Como se vê, concentram ótimos predicados, bastante procurados no mundo moderno.
O substantivo macaco é usado como designação comum a todos os símios ou primatas. No entanto, a palavra e o seu significado são historicamente empregados para algumas caracterizações e qualificações pelos humanos que extrapolam seu conteúdo objetivo. Entre elas, incorporam a conotação racista. Assim é que está consolidado que, ao chamar-se uma pessoa negra de macaco, incorre-se na prática de racismo. É muito mais do que uma convenção: macacos são associados com negros sob influência das discussões evolucionistas, desde muito tempo. E ainda há o atropelo do aspecto objetivo a ser desmascarado: negro é negro, e macaco é macaco.
A questão, portanto, são os conteúdos histórico, objetivo e o subjacente para a palavra macaco, que vem oculto ou difuso, associação e distorções que são resultado de significados incorporados e deturpados pelo ser humano. A associação de macacos com negros remete a uma ponta de uma cadeia “evolucionista”, e aí incorre o grande estrago racista, bem além da eventual coincidência de cor com determinada espécie de macacos.
Portanto, toda a polêmica que sacudiu o Estado e o país esta semana é importante para reafirmar que a relação feita ao chamar-se o goleiro Aranha de macaco é, sim, ato ostensivo de racismo. Não se pode desprezar ou amenizar essa consequência, como muitos tentaram fazer, ainda que no embalo da suposta ingenuidade de uma menina de 23 anos, que diz ter feito “automaticamente” o que tantos outros já fizeram.
De resto, os macacos não são culpados da apropriação vil da palavra que os designa por humanos interessados em perpetuar uma relação histórica opressiva e de dominação. O episódio na Arena serve de alerta para não subestimar significados, entendimentos consolidados, convencionados ou meramente o entendimento que uma dada palavra pode suscitar em alguém. Não se falam palavras impunemente. Todas elas têm suas consequências.E algumas delas, bem graves.

É com todos nós

05 de setembro de 2014 0

Então chegamos um mês antes das eleições, sob desconfiança geral. Nenhuma novidade. Nos acostumamos a conviver com o que consideramos descrédito da política e dos políticos, e não há incorreção nisso. Esse descrédito é tecido pelos maus políticos. No entanto, há uma falha aí: cobra-se eficiência plena, mas política é uma atividade humana, portanto imperfeita. Grande parte dessa imperfeição é causada pelo peso da máquina pública, que existe devido a mecanismos de precaução e desconfiança gerada por nosso comportamento coletivo.
Na esfera pública, é preciso prevenir espertezas, afinal os recursos são de todos, oferecer a mesma chance para todo mundo, afinal, não deve haver privilégios e as oportunidades, teoricamente, devem ser iguais. É preciso respeitar todos os trâmites formais, contemplar interesses de diversas áreas e segmentos por meio de licenças e autorizações, harmonizar conflitos, prever o direito a recursos. Uma trabalheira, e a legislação administrativa precisa contemplar tudo isso. Então a máquina torna-se pesadíssima, e fica difícil a administração pública dar vazão aos pensamentos e doutrinas políticas e programas de governo.
Some-se a essa cultura administrativa a esperteza propriamente dita, dos políticos que representam a parte que se julga esperta da sociedade, e a política não funciona. Dizendo melhor, quando funciona, é muito devagar. A velocidade da política é paquidérmica, a da vida real é de Fórmula 1. O descompasso é medonho.
Então as análises desmantelam a política e cada ato político. Chega a um ponto que político é criticado quando não faz, mas também quando faz _ é comum criticar-se a demagogia ou que só fez porque é ano eleitoral. Ocorre que as análises, além da tarefa inerente de descrever com exatidão e interpretar cenários, têm outra obrigação: suplantar o ceticismo, apontar para alguma esperança. Mais do que isso, devem estimular a participação.
Neste mês que ainda temos, devemos pensar a política, e nosso voto, como algo que é nossa responsabilidade, bem além daquele mundo asqueroso que muitos se apressam em alardear como justificativa para não se envolver. Política não é só isso que dizem dela. E queiram ou não alguns, não há outros atalhos até nossas soluções.

A Sinimbu é ponto cego

04 de setembro de 2014 1

Um arrastão dos ladrões dentro de um hotel tradicional na principal via de tráfego de uma cidade do porte de Caxias do Sul, a quatro quadras da Praça Dante, é o fim da picada. Entraram, foram até diversos quartos, renderam uma dezena de hóspedes, foram agressivos e violentos. Estavam em seis. E a polícia, 48 horas depois, tateia atrás de pistas, porque o hotel não tinha câmeras. E tampouco havia câmeras nas ruas, nas redondezas.
Esse desaparelhamento tecnológico público e privado deixa claras algumas evidências. A primeira delas é que não há lugar inimaginável e indevassável aos ladrões. Portanto, tudo é possível, e é preciso estar preparado, isto é, aparelhado. O hotel não tinha câmeras, primeiro, porque requer investimento, e segundo, porque soa improvável a petulância dos ladrões em uma rua como a Sinimbu, movimentada, central, havendo tantas outras possibilidades e endereços pela cidade. Então, há uma suposição de que tal investimento em câmeras pode ser menos prioritário.
A segunda das evidências é que faltam planificação e estratégia no mapeamento e na cobertura das ruas da cidade pelas câmeras em via pública. Foge à compreensão que a Sinimbu, no endereço onde houve o assalto, seja região de sombras, um ponto cego para a vigilância eletrônica. Os órgãos de segurança contam com um número limitado de câmeras, que precisam cobrir bairros e pontos estratégicos, é certo. Mas esse tipo de investimento pelo poder público está cada vez mais obrigatório, popular e acessível. Então é preciso ter o mapeamento resolvido, podendo haver complementações desse monitoramento em parceria com empresas e condomínios que possuem câmeras, buscando imagens onde o equipamento em via pública não alcança.
Ao mesmo tempo, os ladrões usam maçaricos, marretas, agem com mobilidade em assaltos de menor porte e repercussão, mas não menos nefastos sob o ponto de vista dos estragos materiais e psicológicos que produzem. O tempo passa, a tecnologia avança e, quando se imagina que uma Copa do Mundo trouxe o tal legado em investimentos para a área da segurança, percebe-se que estamos sem estratégia e equipamentos para prevenir um ataque violento de ladrões em um hotel no centro de Caxias do Sul. É dramático.

A menina

03 de setembro de 2014 3

Claro que a menina foi na onda. E gritou “ma – ca – co” separado em sílabas para o goleiro do Santos. Claro que não foi a primeira, nem será a última. Claro que o ambiente de futebol costuma ser mais permissivo, digamos assim, como se estivesse ao desabrigo das boas regras de conduta, do respeito, até da ética. Tem uma ética própria, é o que se diz. Claro que se chama juiz de ladrão, ou adversário de f.d.p.. Claro que se tenta ludibriar a arbitragem, que se simula uma falta, que se dá o tapa e se esconde a mão, a tal da ética própria. Está claro tudo isso.
Então, muitos – não foram poucos – tentam diluir nesse ambiente a manifestação injuriosa da torcedora – e do grupo onde ela estava, que ela não estava sozinha. E então se sugere para ir devagar, que tanta gente comete “coisa muito pior” e não está na cadeia. Está se exagerando, muitos se apressaram em dizer. Claro que as demasias são condenáveis. Até já se apedrejou a casa da menina em Porto Alegre. Claro que será preciso lembrar que há muitos outros que já falaram “ma – ca – co”, igualzinho assim, claro que há criminosos da pior espécie soltos por aí. Esse contexto ajuda a posicionar as peças, a relativizar o que ocorreu.
Tudo isso faz parte. Só o que não pode ser esquecido é que ambiente de futebol não pode interditar a razão. Ou qualquer outro ambiente que favoreça manifestações em massa, que tornam as pessoas mais valentes. Nem pode exercer poder anestésico capaz de fazer esquecer a vida real e suas responsabilidades. Então a menina – de 23 anos, é bom lembrar – foi de uma imaturidade constrangedora, injuriosa e preconceituosa. Ela tornou-se a face visível do mal, e que não se torne só ela o bode aquele. Mas vai aprender e amadurecer na marra, de uma forma dolorida, mas não mais cruel do que o efeito causado por seu ato. Existe previsão legal para o que fez, e a menina não está imune, ainda que outros possam ter escapado na base da esperteza e da cultura da impunidade.
Está na hora de começar a se desmontar todo esse aparato de esperteza e permissividade. Lamenta-se pela menina, que foi na onda e provavelmente nem seja racista, se ela parar para refletir, o que já deve ter feito. Mas a sociedade deve lamentar pelo goleiro. O que a menina fez – e tantos outros fazem – tem nome, e é muito grave. Não dá mais para passar a mão na cabeça.

Sai da frente

02 de setembro de 2014 5

Amplia-se em mais duas quadras a retirada do estacionamento na Rua Sinimbu. Agora não é mais possível estacionar entre a Feijó e a Moreira César. Até então, já não era mais possível da Moreira até a Praça Dante. O objetivo é, em pouco tempo, estabelecer uma condição de fluidez duplicada para o transporte coletivo, o que é meritório.
Porém, o que isso significa na prática, com impacto ampliado desde ontem? Significa que a cidade está mais feroz. Antes, enquanto uma sinaleira estava com a luz vermelha acesa, havia nas horas mais agudas três fileiras de carros com o motor roncando à espera de o sinal verde aparecer. Agora, são quatro fileiras. Piorou ou não?
A conclusão é inequívoca: em pouco tempo, os ônibus estarão trafegando em duas pistas na Sinimbu. Muito bom. Porém, esse avanço não se dá às custas do espaço do automóvel, que mantém preservadas as duas pistas atuais. É a fileira de carros parados que sai, um respiro na rua diante da avalanche do tráfego. Agora não há mais, substituída que foi por mais uma pista de carros, a quarta, com o motor roncando à espera de o sinal verde aparecer. Sai da frente, portanto, em mais uma pista, a última que faltava.
Teoricamente, a cidade ganha em fluidez, até trancar de novo, pois a demanda de mais espaço para os carros logo se esgota outra vez. E tudo volta a trancar. É ruim. A batalha do trânsito é batalha perdida. A menos que seja restringido o espaço dos carros nas ruas centrais. Só assim, e não adianta fechar os olhos diante do que não tem escapatória.
Então, vale esmiuçar o que significam na prática mais duas quadras sem estacionamento na Sinimbu: as pessoas, em especial idosos, crianças e todas aquelas com alguma restrição de movimentos, têm desde ontem mais dificuldade em fazer a travessia da rua em um trecho maior, com quatro pistas de carros em movimento a transpor. Não custa lembrar: antes eram três.
Então o discurso oficial fala em cidade mais humana e demonstra ter a compreensão de que os pedestres precisam de mais atenção. Na prática, porém, as medidas anunciadas até agora não contemplam essa necessidade. Quando os pedestres terão mais espaço e segurança em Caxias do Sul?
Desde ontem, a cidade está mais feroz e menos humana em mais duas quadras.

O banco da Júlio

01 de setembro de 2014 0

Gosto das circunstâncias. Mais do que gostar, respeito-as, porque não cabe gostar ou não gostar delas, uma vez que circunstâncias existem, e ponto. Gosto, isso sim, de todo e qualquer raciocínio que as leva em conta, porque assim é que deve ser com as melhores reflexões. Circunstâncias não são acaso, é bom evitar essa confusão. São muito mais contexto. Têm força, as circunstâncias. E são capazes de produzir situações que, com frequência, nos colocam diante de descobertas, e descobertas são sempre bem-vindas.
Pois então, que bela descoberta fiz no início da tarde deste sábado! Por obra de circunstâncias cotidianas, vi-me colocado diante de um pequeno momento de espera que desembocou na esquina da Avenida Júlio com a Borges de Medeiros, em um início de tarde esplendoroso de fim de inverno. E foi aí que me dei conta: há nessa esquina um singelo banco de madeira com recortes coloniais e armação em ferro. Um encanto. Particularmente ali, na Júlio com a Borges, pendem acima do banco os galhos de uma árvore de porte pequeno ainda, em fase de crescimento, a produzir um cenário pitoresco.
O banco estava vago e sentei sem hesitar para desfrutar daqueles poucos minutos na Júlio, sob o frescor do sol e da temperatura agradável. Ah, a minha cidade, a cidade que tenho em mente, ela seria repleta de bancos como aquele, de onde se pode ver a cidade passar, um fugaz ponto de encontro para trocar impressões ou jogar alguma conversa fora. A minha cidade é bem mais uma cidade que tem muitos bancos do que uma cidade que se movimenta rápida, não estando impedido o atendimento a essas duas necessidades urbanas.
Foi então que me surgiu a curiosidade sobre se haveria na Júlio outros bancos iguais àquele. Descobri mais três, todos nesta mesma quadra, da Borges até a Marquês do Herval. Bancos que, se não estou enganado, foram colocados pela administração municipal para definir esse trecho da avenida como um espaço próprio para os Papais Noéis durante o período pré-natalino.
Pois quero fazer um pedido à prefeitura: que esparrame bancos como este da esquina com a Borges por toda a Júlio. E depois – por que não? – pela cidade inteira, ou pelo menos em pontos estratégicos. Eu sei que a vida hoje está mais corrida, que sentar em bancos parece ter mais a ver com décadas atrás. Só parece. Esses bancos tão prosaicos podem ajudar a tornar uma cidade mais humana, muito mais encantadora. E que baita ajuda seria!

O afastamento de antigos parceiros

29 de agosto de 2014 1

O PT cria seus próprios problemas. Agora tenta mais uma reeleição, o quarto governo da série petista, com Dilma Rousseff. Mas, conforme dados da mais recente pesquisa eleitoral, o partido pode ter os planos de mais quatro anos no poder seriamente atrapalhados por uma chapa composta em dobradinha por Marina Silva e Beto Albuquerque. Quer dizer, dois parceiros de longa data, com inegável aproximação doutrinária com o PT. Marina saiu dos próprios quadros petistas, Beto é representante clássico de um partido que leva o Socialismo no nome, da mesma matriz do PT.
Quer dizer: não precisava ambos estarem em alternativas distintas, concorrendo frontalmente na disputa pelo governo, mas sim somando forças em torno de um mesmo programa.
Porém, não estão. E isso se dá, esse afastamento, por uma falta de habilidade terrível, que de resto é histórica na esquerda, de promover a boa convivência entre os mais próximos, mesmo assim com suas diferenças, em nome do fortalecimento estratégico de uma alternativa mais de esquerda. É o olho gordo do poder. Ocupantes de escalões mais abaixo nas esferas partidárias e de governo ficam se bicando, emitem declarações provocativas, e a relação política vai se decompondo, se deteriorando. Foi o que aconteceu.
Enquanto isso, o mesmo PT vai de braços com o pedaço mais fisiológico do PMDB, em nome daquele palavrão político que se chama governabilidade. Em nome também do tempo na tevê.
Marina e o PT têm suas diferenças. Mas Marina nasceu dentro do PT. Petistas e socialistas têm suas diferenças. Mas sempre foram próximos, vizinhos no espectro político desde o surgimento de ambos no Brasil, desde o tempo de José Paulo Bisol e de Lula, parceiros de uma mesma chapa à Presidência.
No entanto, ao longo do caminho, as diferenças são supervalorizadas por falta de habilidade em tratá-las. Então o PT agora se vê ameaçado por uma alternativa que lhe é conhecida, com gente que se acostumou a transitar no mesmo espaço social e político, mas que traz junto adversários que não perdem tempo. Tivesse mais habilidade para garantir espaço e trânsito para quadros importantes, o PT hoje estaria mais tranquilo. O PT é bom em criar embaraços para si próprio.

No tempo da degola

28 de agosto de 2014 0

Decapitações havia em idades primitivas. Soubemos em algum livro de história que detalhava o funcionamento da guilhotina, muito popular na Revolução Francesa. O criador do aparelho, o médico francês Joseph-Ignace Guillotin, donde o nome, considerava esse método de pena de morte mais humano do que o enforcamento ou o uso do machado, informam as referências enciclopédicas. Ou soubemos das decapitações na Bíblia. Os registros da época atestam ter sido a cabeça do profeta João Batista, que batizou Jesus nas águas do Rio Jordão, servida numa bandeja a pedido de Salomé, que era filha de Herodíades, mulher do famoso Herodes, por ordem da mãe dela, porque João Batista teria denunciado malfeitos do governante. Malfeitos sempre deram problema.
A degola esteve nos entreveros, nas “guerra braba de irmão contra irmão”, como o fronteiriço Mário Barbará tratou magistralmente do assunto sob a ótica regional na música Colorada, nas memoráveis Califórnias dos anos 70: “Olha a faca de bom corte olha o medo na garganta / O talho certo e a morte no sangue que se levanta / Onde havia um lenço branco brota um rubro de sol por / Se o lenço era colorado o novo é da mesma cor (…) Era no tempo do inimigo não se poupa / Prisioneiro era defunto e se não fosse era exceção / Botavam nele a gravata colorada / Que era o nome da degola nestes tempos de leão”.
A degola sempre mexeu com o imaginário.
Pois agora a degola, a decapitação, enche o ambiente da sala de nossa casa toda noite, na hora do telejornal. No chão frio das celas em Pedrinhas no início do ano, agora na penitenciária de Cascavel, onde ainda se teve o requinte de jogarem-se os corpos de um altura de 15 metros. Ou por obra dos terroristas sírios no deserto, que colocaram a faca na garganta do jornalista americano. Tudo filmado com microfone de lapela para gravar o discurso do algoz, convicto da tarefa que assumiu com destemor, que entende ser messiânica e revolucionária. Tudo gravado por câmeras para logo ser disponibilizado na web. É a degola moderna, pelo menos no aparato.
A diferença é que hoje temos o universo online, a tecnologia mobile e as redes sociais. E, claro, um pouco mais de democracia, é um alento. Mas, entre peleias, fundamentalismos, revoluções e vinganças cruéis, as cabeças seguem rolando no chão.

Quem manda nas ruas

27 de agosto de 2014 6

As ruas de Caxias do Sul estão de pernas para o ar no que se refere a cada motorista fazer o que quer. É grave, mas é isso mesmo. Claro que parte deles é cumpridora dos regramentos, mas outra boa parte faz o que quer. A Secretaria de Trânsito, por meio da fiscalização, precisa colocar moral na pensão, mas não tem se concentrado o suficiente nesta tarefa. Certamente porque o time de fiscais é pequeno, e tem de revezar por turnos. Ainda por cima, a cidade é muito grande, e não pode a fiscalização estar em todos os lugares. No entanto, será justamente por isso que as ações contra os infratores no que se refere especialmente ao ato de estacionar veículos deveria ser ostensiva. Já que não é possível estar em todos os lugares, que fique o aviso, para não deixar dúvidas.
Porém, não é isso o que acontece. Há motoristas que deitam e rolam, e vamos nos fixar especificamente sobre esse ato de estacionar, que reflete de forma límpida e inequívoca o desrespeito aos menos aparelhados no trânsito, os pedestres.
Recentemente, dois motoristas estacionaram sem a menor cerimônia, em pleno dia, na Dezoito do Forte, altura da FSG, e – pasmem! – na Avenida Júlio. Neste segundo caso, ainda por cima em vaga para deficiente, e por cerca de quatro horas. É o cúmulo. Era caso de ação emblemática da fiscalização. Além desses dois exemplos acintosos, há outras situações gritantes: os motoristas não param de estacionar seus carros sobre calçadas sem serem molestados. Essa infração específica é crônica e vem de anos, os motoristas se achando os donos das calçadas a ponto de criar um ambiente pernicioso aos pedestres que já é cotidiano. Outra situação histórica é o escancarado, abusado e nunca resolvido jeitinho da fila dupla nos portões dos colégios. Será que não tem jeito de resolver?
A carga e descarga é outro escândalo. Na Alfredo Chaves, defronte à Casa Rosa, ex-Família Eberle, os caminhões interrompem o trânsito sistematicamente diante daquela obra que mutilou severamente a memória da cidade. Há regras com previsão de horários, e elas devem ser cumpridas, ou então que se alterem essas regras. E ainda tem carros sobre faixas de segurança e sobre vagas para idosos e deficientes. É desrespeito por todo lado.
A Fiscalização de Trânsito precisa mostrar quem é que manda nas ruas de Caxias do Sul.

Abra sua mente

26 de agosto de 2014 0

A Semana da Juventude, agora em agosto, utilizou o sugestivo tema Abra Sua Mente em uma das atividades, para mostrar que álcool e direção não combinam. Importante, mas um tema tão promissor estreitou-se assim, em um único foco.
“Abra sua mente” é bom conselho. Para isso, no entanto, muito parafuso há por apertar. E quando se trata de juventude, ou de ações politicamente corretas de âmbito universal, isto é, não somente direcionadas a jovens, essas recomendações focadas e específicas como forma de abrir a mente costumam vir desprovidas do que se pode chamar de enlace e, principalmente, de motivação.
Para ficar só em dois exemplos representativos, combate à mistura álcool-direção e preocupações ambientais são as recomendações específicas preferidas, ao mesmo tempo corretas e importantes. Mas costumam vir soltas, sem o dito enlace. Não dirigir depois de beber pura e simplesmente? Certo, mas precisa transpor o âmbito mais imediato e individual. Precisa essa decisão pessoal ter um alcance mais amplo, ter um enlace maior, uma determinação decidida pela proteção à vida, a sua vida e a dos outros, um ato ao mesmo tempo de respeito e humildade. Então, não dirigir depois de beber será uma entre tantas ações com esse propósito estratégico de melhorar a realidade.
Substituir sacolinhas de plástico pelas de tecido ou separar o lixo também precisam ser atitudes que vão além da necessária e imprescindível consciência ambiental. Se assim não for, elas estarão desplugadas da motivação essencial, que é a proteção do meio ambiente, sim, mas detalhe decisivo: meio ambiente que é de todos nós e de todas as espécies.
Abrir a mente de verdade é desapegar-se, é abrir-se à generosidade. Ser generoso é pensar nos outros. Precisamos fazer esse enlace de nossas atitudes com esse contexto vital mais amplo, onde existimos nós e todos os demais. E daí retirarmos nossa motivação, a propulsão para nossas atitudes, que passam a ter uma fonte contínua de energia, sem se esgotar cada ato em si mesmo. A motivação é querer o bem do outro. Abrir a mente, acima de tudo, é conectar-se a essas descobertas.