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A esfinge Michel Temer

10 de abril de 2015 0

Chamam atenção a longevidade, a discrição, a trajetória e a imposição política de uma nome da república: Michel Temer. Tantos outros são preferidos pela imprensa, alçados aos holofotes, a uma superexposição e até à execração pública. Não é o caso de Temer, que encarna o perfil da raposa política, no melhor sentido da expressão.
Esta semana, essa imposição política se manifestou de forma categórica, se ainda havia alguma dúvida. Alçado à condição de articulador político do governo, único em condições de fazê-lo a ponto de controlar o PMDB e sua tinhosa bancada, Michel Temer surgiu no cenário para enquadrar o peemedebista rebelde _ se é que isso é possível _ Eduardo Cunha, presidente da Câmara.
Também esta semana, em outro fórum, nos salões da CIC, ninguém menos do que Pedro Simon vaticinou: Temer é o nome do PMDB para 2018. Ninguém tem dúvida sobre as credenciais de Simon para emitir declarações sobre o partido e a república. Pois também ele está se rendendo a Michel Temer. É uma façanha. Vale lembrar que o PMDB gaúcho, durante muito tempo, inflou-se de orgulho por diferenciar-se do PMDB do resto do país. Pois Temer, a cada aparição em solo gaúcho, tradicionalmente hostil ao PMDB nacional, não perde a elegância em suas manifestações, demonstra paciência e bom humor e vai consolidando seu espaço para transitar também aqui com o respeito político necessário.
A imprensa, as redes sociais e as manifestações de rua apontam o dedo para tantos políticos. É uma vocação. Mas não conseguem chamuscar Temer, até porque ele faz seus movimentos com relativo resguardo e preservação. Temer sempre foi alvo de muitas ressalvas, representante máximo de um PMDB interessado em cargos, que não arreda pé dos governos. Mas ninguém, imprensa, Ministério Público e Polícia Federal, nunca cavoucou uma irregularidade capaz de voltar-se contra ele. Temer, apesar de sua trajetória _ próxima e até orientadora desse PMDB de verniz fisiológico _ sugerir coisa bem diferente, mantém-se impoluto e irretocável, como os ternos que veste e sua expressão facial.
Pois esse Temer que é o próprio centro político em pessoa, equidistante de tudo, consolida-se no cenário nacional com imposição política e uma credibilidade em outros tempos improvável. É fruto de fazer as coisas com respeito, habilidade e sem cometer deslizes. É um político tradicional, mas raro, uma esfinge ainda por ser decifrada.

O desamparo de Cristiano, um cidadão como os demais

09 de abril de 2015 0

A coluna recebeu o desabafo de um morador do bairro Colina do Sol. Seu nome é Cristiano Lucena dos Santos da Fonseca, e ele trabalha no estoque de uma loja de ferramentas. Tais características não deixam dúvidas: é uma pessoa comum. Vejam o que ele conta:
“Preciso de uma vaga em uma escolinha infantil para minha filha, pois minha esposa e eu trabalhamos e, ainda assim, não temos condições de pagar uma escolinha particular. Há algum tempo, protocolei um pedido de vaga na Secretaria da Educação, mas não conseguimos. Fui informado que deveria procurar a Defensoria Pública. Passei a semana tentando ligar para a Defensoria por várias vezes seguidas, sem que ninguém atendesse. Depois de me informar com um e com outro, fui lá na sexta-feira, pois neste dia tenho um horário de trabalho menor. Depois de chegar lá às 8 horas e descobrir que abria às 9, esperei na fila. Descubro, então, pelo atendente que na sexta só recebem urgências. Perguntei se o telefone estava com problema. O rapaz me disse que não. Achei no mínimo um deboche, pois órgão público tem que ser acessível.” Cristiano Lucena dos Santos da Fonseca.
A situação é frequente. Cristiano não deixou um telefone ou um e-mail para conferir o desfecho da história. Não importa. Ele passou pela situação que descreveu desanimado, frustrado e com uma ponta de tristeza. Assim como ele, muitas pessoas tropeçam desorientadas no serviço público todo dia. Mas não só no serviço público. Nas empresas privadas também. Há, sim, bons e até ótimos funcionários. Mas a sensação é de que existe um exército de servidores _ é o que todos deveriam ser _ que não se comovem e não facilitam a vida do cidadão. E as repartições nas quais trabalham _ as empresas privadas também _ reproduzem ou veem cristalizadas essa cultura de desinformação e desinteresse. O que custa à Defensoria Pública informar bem claro a quem precisa do serviço que às sextas-feiras só são atendidas urgências? E o telefone, por que ninguém atende?
Além de tudo a que é submetido, insegurança, ônibus lotados, serviços precários, taxas e filas de todo o tipo, a pessoa comum sente-se desamparada. É uma história triste e deplorável. Quem se habilita a modificar esse cenário? Mudá-lo depende de uma postura respeitosa diante das pessoas e da vida.

Os alvos preferidos da nação

08 de abril de 2015 0

O Brasil ficou sabendo nesta terça-feira à noite quem venceu o BBB 15: o caipira César ou a suspirosa Amanda. Ambos faziam parte do grupo de espirituosos desta edição do Big Brohter. Também integravam esse time a cinquentona Marisa e o platônico Adrilles. Eram capazes de sacadas bem-humoradas e divertidas, algumas até inteligentes, mesmo em momentos tensos do programa. Eram capazes de surpreender.
Ao tecer tais considerações, algumas pessoas reagiam estupefatas e perplexas:
- Mas como? Você olha o Big Brother?
Olhar não é propriamente a expressão. Não altero o rumo dos afazeres pessoais para olhar o Big Brother. Mas também não me esquivo nem me escondo se cruzo na frente da tevê, como fazem questão de apregoar tantas pessoas, sobre quem o contato com o Big Brother parece ter efeitos contagiosos, para quem alardear que não passa perto do Big Brother parece se transformar em atestado de uma suposta idoneidade cultural e intelectual. Então desandam a desancar o BBB. E tem coisa bem pior na televisão brasileira, como uma série de programas ditos humorísticos, desrespeitosos e de mau gosto. Mas o alvo é o BBB. É ele quem confere um certo charme fácil e fajuto a quem faz a crítica.
Esse comportamento guarda alguma dose de semelhança com a reação de boa parte dos brasileiros diante da presidente Dilma Rousseff no momento. Estão aí as pesquisas de impopularidade da presidente. Para muitos, Dilma tem encarnado todos os males da nação. Como presidente, esse raciocínio automático até tem lógica, uma lógica presidencialista, mas nem sempre há relação direta de causa e efeito, da presidente Dilma com o malfeito ou a incompetência. Não importa, Dilma é o alvo de comentários e sentenças definitivas, que desconsideram ou ignoram sua história e trajetória. É pau na presidente Dilma, e supostamente fica comprovada a capacidade de alguém formular um raciocínio político e mais: de perceber de longe tramas insuspeitas como ninguém.
O BBB e a presidente Dilma personificam os alvos preferidos da nação: a Globo e os políticos, a ideia popular de poder. Mas é bom abrir o olho. Há muitos detalhes e sutilezas em jogo. Não é tão simplificado assim.

O Caxias precisa ficar desnorteado

07 de abril de 2015 5

Fracassos se oferecem como momentos de profunda introspeção. Podem ser individuais ou coletivos, pontuais ou prolongados. Esses últimos, mais especificamente, são fruto da falta de planejamento, do afrouxamento dos controles, da incapacidade de correção de rumos. Quando eles chegam, são relativamente anunciados, era uma consequência possível e previsível. Já os fracassos individuais podem ter causas episódicas, circunstanciais, até mais acidentais. Nos coletivos, essas causas são entrelaçadas, o que torna mais aguda a falta de planejamento e de providências. É o caso do Caxias, fulminado por um fracasso retumbante que começou cedo e só culminou agora, para tristeza profunda de seu apaixonado torcedor.
Fracassos desnorteiam. Nem pode ser diferente, e é preciso desnortear para que seja possível readquirir o norte sem a contaminação do fracasso recente. O Brasil já levou os 7 a 1, o Juventude fez uma viagem da Série A à Série D sem escalas. O momento é de escombros no Centenário. E agora, estrago consumado, é produtivo que assim seja.
É preciso consternar-se com o fracasso, sim. É direito adquirido. Sangrar, até chorar. Olhar em volta, ruminar, buscar e oferecer apoio aos parceiros de sempre, alcançados pelo infortúnio. Respirar fundo. Curtir o momento. As grandes perdas são momentos intensos, únicos. Devem, sim, ser curtidas. Mas também é preciso logo retomar a visão. E se alguma coisa tem utilidade no fracasso, é o efeito gerador da reação, que ele favorece. Limpar a área, começar de novo, começar do zero, vacinar-se contra os mesmos erros são algumas das possibilidades oferecidas por um fracasso.
Essa é a tarefa do Caxias a partir de agora. Talvez não necessariamente de imediato. Nem precisa ser. Ainda há muita poeira em meio aos escombros, ainda é compreensível que o momento seja de recolhimento, de prostração, de perplexidade, de dor. É preciso respeitar as etapas. Só é intransferível: daqui a pouco, é preciso fazer tudo o que não foi feito com a competência que se exige. No caso do Caxias, ao que parece, exige pensar bem antes, traçar uma estratégia sobre o que se quer para o futebol, como vai ser, e fazer como foi pensado. Chega de improvisação, que vem de há muito tempo. Sangrar agora, sim. Mas fazer bem feito logo depois.

Ponto número 1 é a valorização do pedestre

06 de abril de 2015 0

Ou é para valer, ou não é. A ideia de imprimir a Caxias do Sul uma face mais humana foi empunhada desde o início pela atual administração e tomara esse seja ainda um desafio a ser enfrentado e respondido. Mas não é a realidade do momento. Para se ter uma cidade mais humana, o ponto número 1 é a valorização do pedestre. Porque humaniza o trânsito na relação pessoa x carro, e o trânsito, a mobilidade, os deslocamentos, a movimentação nas ruas, tudo isso está no centro do funcionamento de uma cidade.
Então, se, nessa relação, a valorização pende para o pedestre, maravilha: há um processo de humanização da cidade em curso. Mas assim não é. Não há orientações administrativas, nem diretrizes, nem providências visíveis na direção da proteção ao pedestre. E não só isso: elas precisam ser ostensivas, para sinalizar, para dar a indicação de que numa cidade está se vivendo um outro tempo, um outro momento, um outro ambiente, de valorização da pessoa a partir de sua condição de mais fragilidade, de maior exposição na relação com os carros. Há dois casos emblemáticos a comprovar que persiste a desatenção e o desrespeito ao pedestre em Caxias.
Atendendo a uma justa mobilização, foi repintada uma faixa de segurança no trevo do HG, na BR-116. Claro que não é suficiente. Nenhum motorista para. Na Perimetral Norte há faixas de segurança. Claro que, também ali, nenhum motorista para. Nunca pararam. Passam voando. Ação ostensiva de proteção ao pedestre é identificar a condição de fragilidade e tomar a providência preventiva imediata, visível. Precisa mais no HG. Precisa muito mais nas perimetrais. De forma ostensiva.
O caso mais escandaloso é o dos motoristas que estacionam seus carros sobre calçadas. Deixam os veículos em fila, ao lado um do outro, não restando espaço para o pedestre em ruas movimentadas, a Pinheiro Machado e a Sinimbu. Bem no Centro. É o desrespeito completo. Aqui, é preciso que a autoridade de trânsito venha a público e deixe bem claro: isso não pode, será severamente fiscalizado, não vai prosseguir assim. Precisa uma ação ostensiva, emblemática, para não deixar dúvidas. Mas os carros sobre as calçadas proliferam, cada vez mais. Um sinal claro de que os motoristas sentem-se à vontade.
Respeito ao pedestre, não há. Humanização da cidade, não há. Ou é para valer, ou não é.

Pau que nasce torto pode desentortar

04 de abril de 2015 0

Em linguagem mais cuidadosa, são os adágios populares, ou simplesmente ditados. Diz o ditado: e aí vem uma compreensão popular sintetizada, ou simplificada, em poucas palavras. Em alguns casos, esse poder de síntese fruto da chamada “sabedoria popular” é algo digno de nota. Em outros, é simplificação pura.
Há três casos clássicos desses ditados populares que não dá para engolir, mas muita gente engole. “De boas intenções, o inferno está cheio.” Esse ditado poderia muito bem ter surgido no Brasil de hoje, na sociedade de hoje. Porque torna explícita nossa preocupação com o resultado. O que importa é o resultado da intenção, não a intenção. Ora, nada mais nobre, comovente e honesto do que a boa intenção, em especial aquela que, por um motivo ou por outro, não chegou a ser concretizada. Mas foi tentada. Suspeito, inclusive, de que não há boas intenções habitando o inferno. Boas intenções tentadas vão direto para o céu. É bem o contrário de nossos dias, quando o resultado tem de se manifestar e, se assim não for, não vale a pena.
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.” Essa é uma máxima do Barão de Itararé, e deve ser dada a ela o desconto do humor. Mas é um primor de presunção e desprezo. As sutilezas da vida e a boa compreensão da realidade não são privilégio daqueles “de onde mais se espera”. Longe disso. Então, é bom estar de ouvidos e olhos bem abertos, inclusive e especialmente perto daqueles “de onde menos se espera”.
O terceiro ditado é o mais anticristão e antipascal que conheço: “Pau que nasce torto morre torto”, tão ao gosto de quem prega que “bandido bom é bandido morto”. Até rimou. Em primeiro lugar, nenhum pau nasce torto. Pois tal ditado decreta a impossibilidade do renascimento. Jamais vai renascer, “morre torto”. Ora, “pau que nasce torto” pode desentortar. Isso é a Páscoa. O renascimento está ao alcance de qualquer um, em qualquer masmorra, em qualquer depósito de presos, a qualquer momento. São os mistérios da vida, que se esgueira pelas frestas, indiferente a quem acha que sabe tudo sobre ela.
A mensagem central da Páscoa é o renascimento. Quem despreza renascimentos, ou decreta impossibilidades, lamento, mas não entendeu nada.
Boa Páscoa a todos os leitores.

Liturgias são importantes, na Semana Santa ou na ordenação de um bispo

03 de abril de 2015 0

Liturgias são repletas de símbolos, de sinais exteriores, de respeito às formas, mas vão além do mero formalismo porque elas encerram conteúdos convencionados por um grupo específico, em geral por comunidades religiosas. Liturgias costumam contar, portanto, com a atenção respeitosa e compenetrada. Precisam, no entanto, ter sentido, fazer parte da vivência de uma comunidade, traduzir e simbolizar experiências reais.
Liturgia, aparentemente, é coisa de religião. Mas não só. Envolve aspectos, procedimentos, detalhes característicos a uma instituição, a uma cultura. Por isso se fala, por exemplo, em “liturgia do cargo”. Diz-se que um líder está à altura do cargo que ocupa quando seus atos estão em consonância com essa “liturgia do cargo”. Isto é, quando esse líder faz jus a ocupar um cargo por entender sua real dimensão. A revista Veja, surpreendentemente, rendeu-se à presidente Dilma Rousseff na solenidade de posse para o primeiro mandato e disse que ela cumpriu com louvor a liturgia do cargo. Isto é inacreditável, mas aconteceu.
Religiões são o universo dos símbolos. A cruz, e daí por diante. E a liturgia dá forma e curso a esses símbolos, unifica-os a ponto de dar um sentido, de funcionar como um discurso simbólico que é expressão de uma religiosidade, de uma crença, ou de objetivos nobres _ o bem-estar social, por exemplo. A Semana Santa está cheia de símbolos e da recuperação de fragmentos históricos por meio de encenações. A liturgia unifica as etapas dessa celebração central para a vida cristã, da Paixão e Morte até a Páscoa, favorecendo um sentido para toda a mensagem, isto é, para a devoção e significado da experiência da Páscoa.
Dias atrás, tivemos uma ordenação episcopal que até agora dá o que falar. Esteve repleta de liturgia e paramentos. Nada contra liturgias. Só que elas devem fazer parte da vivência de uma comunidade. Sem isso, assumem o peso da formalidade. Liturgia pode não fazer sentido a quem é externo a um grupo, mas tem sua importância, pois símbolos são poderosos. E, de preferência, devem ser leves e simples. Isto é, não devem pesar nem serem vistosas a ponto de ofuscar o conteúdo. São os cuidados para uma boa liturgia, na Semana Santa ou na ordenação de um bispo. Há os que não a compreendem, mas ela tem seu sentido.

Nosso estoque de crimes recentes

02 de abril de 2015 0

A cultura de paz está perdendo o jogo, e as consequências são graves. Na verdade, a cultura de paz talvez esteja começando a virar o jogo, e isso é um longo processo, que já começou. É outra leitura possível. O fato é que, no momento, as coisas estão mal paradas em Caxias. Está se matando por qualquer coisa, por motivos banais, em qualquer lugar. Cada vez se intimida menos as más intenções, os matadores de ocasião e os matadores com currículo. Cada vez mais, sentem-se livres e desimpedidos para chegar e começar a atirar.
No inventário recente de nossos assassinatos e atentados, temos uma mulher de mais de 60 anos morta no portão de casa, um morador de rua morto a cadeiradas e paneladas, um homem baleado na Praça João Pessoa, no meio do burburinho, um jovem assassinado na Estação Férrea, no meio de mais burburinho, e outro homem morto com quatro tiros na pracinha do Fátima às 3 horas de domingo, no meio de muitas pessoas. É um estoque de crimes de alta voltagem, de elevado carga de violência, que não pode passar sem reflexão, mas vai passando, porque a cidade está acostumada com assassinatos às dezenas, e tanto faz.
Os três últimos casos, tudo indica, são rixas anteriores alimentadas na trajetória pregressa de alguns dos envolvidos. Ou seja, nesses casos, a cultura de paz não passa nem perto dessa gente. São pessoas acostumadas a resolver pendengas à bala. A cultura de paz trabalha com solução de conflitos, com desarme de espíritos, e isso é uma longa história. Mas estamos longe, cultura de paz ainda soa algo teórico e discurso de intelectual. Que seja, mas ela traduz um caminho poderoso _ outro é a paz como manifestação da justiça _ para atacar a sanha assassina, fundamentado na humildade, com foco na resolução de conflitos. Para isso, é preciso exercitar concessões e entendimentos, mas nosso estilo de vida não combina com essas coisas. Até a própria noção de cidadania induz a poucas concessões, a fazer valer direitos a qualquer custo. A pretensão é legítima e essencial, mas geradora de conflitos com potencial para evoluir.
Disseminar e fortalecer um ambiente em que os conflitos se esvaziam é tarefa decisiva para acabar com a violência, com nosso estoque estúpido de crimes. Quem puder que ajude, que entre nessa empreitada. Será um tijolo na construção da paz.

O que é uma cidade mais humana, afinal de contas?

01 de abril de 2015 3

O que é uma cidade humanizada? Tanto tem se falado nisso, e é um conceito-chave para a qualidade de vida. Saúde e educação devem ser bons e essenciais serviços prestados à população, condições inafastáveis para uma boa qualidade de vida, bem como o transporte coletivo. Mas essas exigências podem até estar atendidas e ainda assim uma cidade ser fria e distante. Qualidade de vida precisa incluir lazer e boa convivência.
Uma cidade humanizada é uma cidade em que as pessoas ganham as ruas e espaços públicos em avalanche. Tem de melhorar a segurança, portanto. Não pode um homem ser morto na pracinha da comunidade, no Fátima, com quatro tiros às 3 horas da tarde de domingo, na quadra de futebol, em meio a muitos moradores do bairro, entre eles a mulher e os filhos pequenos. Isso simplesmente afugenta as pessoas da praça para suas casas. Desumaniza por completo.
Essa cidade mais humana ainda tem, obrigatoriamente, de tratar bem os pedestres, de oferecer boas calçadas e segurança a eles. E muito espaço, quanto mais melhor. Em uma cidade mais humana, as pessoas são atraídas aos espaços públicos, para as ruas, para as praças, para os parques, para pontos de encontro. Sentem-se à vontade neles, a qualquer hora. E essa efervescência acaba, aos poucos, por se constituir em uma cultura, em uma inclinação para os encontros.
A cidade mais humana é necessariamente menos apressada. Para tudo isso, deve ser acolhedora em seus ambientes. Portanto, a arborização, os recantos, o paisagismo e a tranquilidade ajudam. E deve ter esses ambientes disseminados pelos bairros. Não pode as crianças e famílias do Jardelino Ramos, do São Vicente, não dispor de uma pracinha. Deve haver segurança, programações de lazer, comunitárias, esportivas, culturais, capazes de produzir pontos de encontro, de consolidar espaços de convivência. A cidade mais humana convive, a cidade mais humana é mais festiva.
Caxias precisa passar por uma boa cirurgia para tornar-se mais humana, fortalecer as relações comunitárias e interpessoais. É possível, e até relativamente simples. E não custa caro. Só precisa haver a decisão política e administrativa de estimular o convívio, cuidar dos parques, da iluminação, das árvores, dos pedestres. Aí dificulta.

Quando menos é mais no coração das pessoas

31 de março de 2015 2

O Papa Francisco, sim, está sabendo interpretar o que vai no sentimento das pessoas. É uma honrosa exceção. E o que as pessoas anseiam daqueles que ocupam posições públicas nada mais é do que… simplicidade. Gostariam de identificar seres humanos com necessidades e preocupações comuns, corriqueiras. Papa Francisco, com frequência, dá demonstrações de despojamento. Não se vê Sua Santidade embarcar no peso exagerado das liturgias e dos paramentos, ainda que liturgias sejam respeitáveis. Elas não são um problema, pelo contrário. São carregadas de símbolos, mas devem estar em sintonia com a realidade e as demais pessoas. A vestimenta do Papa, por exemplo, é branca e simples, com uma cruz ao peito. E ele até já expressou desejos de andar de ônibus e de comer uma pizza. Atividades comuns a qualquer mortal.
Mas, como se disse antes, Papa Francisco tem se revelado uma exceção em identificar os anseios das pessoas. Não precisava, por exemplo, uma liturgia vistosa para ordenação de um bispo, como se viu semana passada em Caxias do Sul. A liturgia mais simples e discreta faria muito melhor ao coração dos fiéis católicos, ainda que eles sejam simpáticos a Dom Leomar Brustolin, e não há motivos para que assim não seja, pelo contrário. Em geral, menos é mais no coração das pessoas. O anseio por simplicidade ficou de lado.
Não precisava, também, uma Pajero-Dakar de R$ 160 mil para ficar à disposição do prefeito. Um carro confortável, menos vistoso, como vistosa se disse da liturgia, teria aceitação tranquila pela população. Certamente por isso, a opção pela Pajero-Dakar foi bastante criticada por muitas pessoas. O anseio por simplicidade não foi levado em conta. Outra vez.
Agora, o presidente da Câmara quer um anexo suntuoso no Congresso, e anuncia que terá até shopping center. Entendeu desnecessário sondar o coração das pessoas, a quem não é preciso mais do que simplicidade para a execução das tarefas e funções públicas.
Quem propuser simplicidade, certamente tocará o coração das pessoas. É o anseio que grita silencioso, para quem souber ouvir. Mas, em geral, as pessoas públicas desprezam esse sentimento coletivo. Quem tiver capacidade de identificá-lo, e de responder a ele, como Francisco, somará muitos pontos e terá mais chances de ser aceito e entendido. Fica a dica.