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Aylan e Ana Clara

12 de setembro de 2015 0

Passam-se alguns dias, pouco mais de uma semana, e o pequeno Aylan vai ficando para trás. Aylan, no entanto, terá a memória eternamente blindada contra o passar dos anos por obra da foto que comoveu o planeta. O que só comprova a importância da foto que chocou muitas pessoas.
É uma característica de nosso tempo, já detectada meio século atrás, quando Caetano perguntava “quem lê tanta notícia?” Nem é tão recente assim essa característica, mas é que agora está multiplicada sob forma de avalanche: um assunto vai empurrado o outro, vai soterrando o outro, a tal ponto que Aylan vai ficando para trás.
Ana Clara já ficou, pelo menos a repercussão em torno de sua morte, pois Ana Clara não se apaga, agora é uma estrela. Já são dois meses, que se completarão na próxima semana, da morte da menina de 11 anos que comoveu Caxias. O assunto vai sendo substituído por outros, sem que o crime esteja esclarecido, nem haja qualquer esboço de providência para garantir segurança nas ruas.
O drama dos refugiados ainda está em evidência, o debate sobre o tema cresceu, mas a imposição do corpo frágil de Aylan em uma praia da Turquia como assunto predominante vai arrefecendo.
Aylan e Ana Clara estão eternizados. E é natural que, aos poucos, cedam espaço para outros acontecimentos. Mas essa saída gradual de cena, do palco dos desdobramentos cotidianos, traz junto um componente adicional: enfraquece e afrouxa o nó de nossos compromissos existenciais. E precisamos ser convocados e cobrados permanentemente à consciência desses compromissos. Não viemos ao mundo a passeio, apenas para contemplação, diversão ou ócio. Temos a tarefa intransferível de ajudar para tornar melhor a realidade ao nosso redor. É o que se designa como compromisso existencial, baseado no respeito, na preocupação com os outros e com o que é de todos. Mas que é negligenciado por muita gente, e aí reside uma causa central de nossas mazelas.
Episódios comoventes como os de Ana Clara e Aylan permitem cair em si e apertar parafusos, recobrar a necessidade de responder a nossos compromissos existenciais. Mas o que se espera é que não seja preciso essa modalidade dramática de tratamento de choque para só então reagirmos a nossos compromissos com a vida.

Assaltos tornaram-se banais

11 de setembro de 2015 1

Na forma, o assalto de ontem a uma joalheria na Avenida Júlio de Castilhos foi similar ao que ocorreu um dia antes em um supermercado na Feijó Júnior. Os assaltantes entram, ameaçam caixas, atendentes e funcionários com uma arma de fogo ou uma faca, raspam os caixas, gavetas e balcões e saem tranquilamente.
É a mesma operacionalização – o tal “modus operandi” – dos assaltos ao comércio, às lotéricas, às farmácias. Entram, anunciam, ameaçam, recolhem, viram as costas e vão embora, não raro caminhando. Neste assalto da joalheira, houve uma sofisticação, o uso de toucas ninja, a indicar que os autores possuem uma organização maior que a dos assaltantes habituais. Estes ficam circulando de carro pela cidade e, ao sabor das circunstâncias, elegem um alvo. Ou chegam e se vão caminhando mesmo, inclusive sozinhos. Esse ambiente não dá margem a muita contestação: a insegurança avançou algumas casas, subiu alguns degraus.
Notem ainda o detalhe que essa ocorrência da Júlio comprova, assim como tantas outras também deixam evidente. A Júlio está cheia de câmeras. Mas os ladrões não dão a menor importância a elas. Esses equipamentos em nada inibem os assaltos, a indicar um desprezo, uma indiferença às câmeras
Então, está tudo muito tranquilo. O assaltante decide, entra, faz e vai embora, sem ser molestado, em uma repetição alarmante, sem discriminar bairro ou endereço. Justiça seja feita, a Brigada consegue esboçar um enfrentamento a esse exército de assaltantes, mas não dá conta de todo mundo, uma vez que tem desvantagem numérica e quem é preso logo volta às ruas. Aí fica desigual, e recomeça tudo de novo, para desespero e pavor de funcionários, comerciários, atendentes, que trabalham com os nervos à flor da pele, sem falar nos motoristas e cobradores, quer dizer, operadores de sistema do transporte coletivo.
Nessa encrenca estamos todos metidos. Esse é nosso mundo, a realidade que construímos. A esse ponto chegamos. Os assaltos tornaram-se banais, e não haverá saída, neste momento, sem o reforço da tropa, para o que não há nenhuma cogitação. Então estamos condenados a esse cenário, e a tendência é de agravamento. O que resta fica por conta de cada um: cautela, atenção, prevenção. É o que temos para o momento. O quadro é esse.

Que cidade queremos ser?

10 de setembro de 2015 1

Mas o que é que há? Que cidade é esta? Onde queremos chegar? Que conceito urbano existe, a ser perseguido nas ações de planejamento no município? Aos poucos se confirma: todas as programações comunitárias, históricas, cívicas e culturais estão saindo da Praça Dante. Agora a secretária da Cultura anuncia que a edição deste ano deve ser a última da Feira do Livro na praça. A alegação é o custo para instalação da estrutura.
Quando a melhor visão urbanística é promover o centro das cidades, levar mais programações para esse centro de gravidade urbano, para estimular o encontro e a convivência, em Caxias do Sul tudo sai do Centro: desfiles da Festa da Uva, do Sete de Setembro, do Vinte de Setembro, do Carnaval, agora essa perspectiva com jeito de decisão tomada quanto à Feira do Livro. Com mais gente no Centro, com mais atrativos, mais humana fica a cidade, conforme consta nos discursos oficiais. Mas a intenção, ao que parece, é desocupar a Praça Dante. É um contrassenso. Paira grande curiosidade agora, com a programação de Natal… O pinheirinho e a Casa do Papai Noel serão levados também para a Plácido de Castro? Quem sabe o chafariz vai junto?
Nós bem sabemos como é que funciona: quando se desocupa um espaço, logo ele é ocupado por quem se sente mais à vontade em espaços menos movimentados, e a ele são dadas outras destinações. Fica espaço disponível para destinações menos nobres, até. Quanto a atrações noturnas para o centro histórico, então, nada se pensa, nada é estimulado… Ficam a Praça Dante e arredores, aquele belo espaço urbano, sem aproveitamento, sem estímulos. Desse jeito, não é surpresa que a degradação dessas regiões avance. E a insegurança também.
Fica parecendo que cada ação tomada – a mudança de lugar de todos os desfiles, daqui a pouco da Feira do Livro – não guarda relação com o pensamento urbano que se tem – ou não se tem – para o centro da cidade, o que se pretende no Centro. A Feira do Livro sairá, ao que se diz, por uma questão de custos. Mas qual a cidade que se quer? Estamos relegando, com a ajuda de ações administrativas, espaços públicos nobres e importantes à ociosidade, ao desaproveitamento, à falta de atrativos. Depois, reclamaremos da insegurança e da degradação.

A cidade está cheia de sujismundos

09 de setembro de 2015 1

O que explica o fato de boa parte da população de Caxias do Sul integrar o time dos sujismundos? Sujismundo foi um personagem de animação muito popular nos anos 70, que estrelava peças publicitárias para estimular um pouco de educação ambiental. Sujismundo não gostava de limpeza, ao mesmo tempo era simpático e disposto a receber advertências e reconhecer seus deslizes, ainda que fosse dado a reincidências. Por isso, a campanha publicitária caiu no gosto popular e ficou no imaginário e na memória de muita gente. Escreva Sujismundo no Google ou no Youtube e divirta-se.
A campanha era um primor de simplicidade e clareza. Ao final do pequeno filme, vinha o bordão “Povo desenvolvido é povo limpo”, ao melhor sotaque dos governos do período militar. Mas isso não retira a importância da campanha. A peça publicitária também dizia que “Sujismundo não respeita o bem comum.” Nada mais ignorado hoje do que esse conceito traduzido por “bem comum”. Ninguém liga mais para isso, a maioria não sabe o que “bem comum” significa.
Estão faltando iniciativas e ideias como os filmezinhos do Sujismundo. Faltam ideias simples e boas para disseminar boas práticas, quem diria! E a expressão Sujismundo ficou eternizada para designar aqueles que não adotam boas práticas de higiene nem se preocupam com o meio ambiente, um pedaço desse esquecido “bem comum”.
Pois boa parte da população de Caxias integra, sim, o time dos sujismundos. Maus moradores, sem nenhum respeito ou senso coletivo, descartam móveis, poltronas, sofás, tapetes nas áreas de represa. O volume de lixo recolhido ao ar livre pela Codeca em lixões espalhados pela cidade foi, em agosto, de 138 toneladas. Em março, eram 85 toneladas. Quer dizer, a situação se agrava. Maus empresários já emprestaram ao Tega e aos demais arroios da cidade todas as cores do arco-íris com o lançamento de dejetos industriais diretamente na água. Então, a cidade está cheia de sujismundos.
São crimes ambientais, que precisam de punição exemplar. A pena, aliás, é rigorosa, mas nem sempre chega. E falhamos também nos pequenos atos, no papel solto no chão. Parte dos caxienses integra o time dos sujismundos porque não sabe o que é bem comum, não está nem aí para isso nem tem senso coletivo e de respeito aos outros e à natureza.

Bom para o desfile, ruim para a Festa

08 de setembro de 2015 0

Semana passada, sustentei por aqui que estratégia não é nosso forte. Tornou-se inexorável que a Festa da Uva anuncie nos próximos dias a mudança dos locais dos desfiles para a Plácido de Castro, retirando-os da Sinimbu. Há poucos dias, o presidente da Festa, Edson Néspolo, reiterou aquilo que é lógico sob o ponto de vista administrativo, mas dentro de uma circunstância que foi criada. Não tem lógica e é oneroso, indicou ele, desmontar a estrutura armada na Plácido de Castro para os desfiles de Carnaval e levá-la para a Sinimbu. É cristalino. Mas, então, evidencia-se aquilo que já se disse nesta página: no momento em que a prefeitura indicou a Plácido para os desfiles de Carnaval, estava encaminhado os desfiles da Festa da Uva para o mesmo endereço.
Mas estratégia não é nosso forte. A roupagem da argumentação para a transferência de palco procura ser técnica. Certamente que haverá um punhado de justificativas técnicas a favor da Plácido. Mas a favor da Sinimbu também. E contra a Plácido, e contra a Sinimbu, da mesma forma. Os cenários se equivalem. Sequer as obras do trânsito servem de argumento para a saída dos desfiles da Sinimbu, uma vez que elas já estarão concluídas. O que decide é a vontade de levar os desfiles para a Plácido, atendendo a determinados reclames. Simples assim.
Ocorre que essa justificada preocupação técnica evidencia foco no desfile, e não foco mais amplo, estratégico, na Festa como um todo. Causa até perplexidade que essa visão mais abrangente seja desconsiderada, desvalorizada por quem deveria. Porque se o desfile na Plácido pode ser melhor tecnicamente falando, para a Festa da Uva não é. O que interessa, ou deveria interessar, à Festa da Uva é alcançar mais gente, ir até o maior número possível de moradores, com maior visibilidade, com mais centralidade na vida da cidade. A Festa fica mais forte quando alcança mais pessoas, quando atinge mais fortemente a comunidade, quando envolve mais moradores, quando convence mais pessoas a se aproximar e participar da celebração toda. A Festa deve querer, portanto, mais contato com as pessoas. Mas, então, a decisão será a de afastar o desfile para o lado, para o canto. Não faz sentido.
Estratégia não é nosso forte. Isso é generalizado. Na Festa da Uva, não é diferente.

O desafio na prática para as novas soberanas

07 de setembro de 2015 1

Nem bem saiu o resultado do concurso e o novo trio de soberanas da Festa da Uva já é colocado diante de uma série de perguntas. São as primeiras manifestações da nova realeza. Uma delas: qual o desafio pessoal, agora que a escolha já está feita? Ouvi de uma das princesas que o desafio é contribuir para tornar a Festa da Uva ainda maior. Foi uma boa resposta, levando-se em conta que é preciso responder no calor dos acontecimentos.
Pois bem, para que a Festa da Uva torne-se ainda maior, é necessário que ela se torne mais forte. Não é a troca de uma palavra pela outra, mas é que uma delas é mais completa do que a outra. Este é o desafio colocado diante das novas soberanas: ajudar a tornar a Festa da Uva ainda mais forte. Então, ela se tornará maior, consequentemente. E, para ser mais forte, eis o desafio na prática: é preciso que a Festa da Uva seja levada a todos os bairros, à periferia, ao chão batido, às escolas e alunos dos bairros mais distantes, a todos os moradores, às comunidades que, com suas diferenças e identidades próprias, compõem a comunidade maior. Só assim a Festa da Uva fica mais forte, poderá ser maior.
É o momento, então, de sair do Pavilhão 2, além dos ecos do concurso, onde ainda imperou um enfoque maior na italianidade, pelas músicas, pelos vestidos, pelos sobrenomes. O que é compreensível, pois a festa é da uva, e o cultivo da uva está assentado em uma matriz cultural e de formação italiana. Mas, a partir de agora, é preciso conquistar todos os demais moradores, que hoje contribuem para a construção da cidade, pois a festa é de Caxias do Sul, precisa ser de todos os caxienses. É preciso que mais e mais pessoas sintam-se à vontade para assumir a Festa da Uva como festa também delas, conquistá-los como parte dessa identidade comunitária. Em geral, falha-se nesse propósito.
Para essa tarefa, em nada contribui a retirada inexorável dos desfiles da Sinimbu para a Plácido de Castro, sob argumento com roupagem técnica. Porque retira visibilidade da festa, retira centralidade, distancia dos moradores um pedaço vital da festa, esconde os desfiles, arreda-os mais para o canto. Nesse caso, as novas soberanas terão de fazer um pouco mais de força para tornar a festa mais forte, para torná-la maior.
Toda sorte e todo apoio a elas na empreitada.

Nada deve ser mais importante do que o pequeno Aylan

05 de setembro de 2015 0

A imagem do pequeno corpo do menino Aylan em uma praia turca, recolhido por um agente da guarda costeira, é poderosa. Nada deve ser mais importante do que ela neste ano, provavelmente nos próximos, e por um bom tempo. Eis aí a utilidade do calendário para marcar o tempo, que delimita décadas, períodos, épocas com precisão. Esses intervalos tornam-se passíveis de serem caracterizados, esmiuçados, expostos à reflexão.
A imagem do menino Aylan sem vida precisa ser uma referência central desse nosso tempo, como foi a foto da menina fugindo da guerra décadas atrás. Uma imagem que marcou um tempo, a nos lembrar de um horror que não deve mais voltar. Pois diante do pequeno Aylan, tudo o mais pode e deve esperar. Aumento do ICMS, Operação Lava-Jato, soberanas da Festa da Uva, tudo isso fica para logo depois.
Aylan se impõe porque remete a uma questão central. Nada pode ser mais importante do que a dignidade da existência, do que condições humanitárias, sem degradações, insanidades, atrocidades. E é essa condição geral da humanidade que deve ser perseguida em todo canto do mundo, sem espaço para países e regiões onde se acampam a miséria, a escassez de toda ordem, a desigualdade, a intolerância. Líderes, países, grandes corporações, até cada um de nós costumamos negligenciar com as questões humanitárias, com a necessidade de serem perseguidas obstinadamente. A humanidade deveria se deter em um mutirão geopolítico diante de como está organizada, diante de países que forçam condições degradantes, que geram a autoexpulsão de pessoas e de crianças como Aylan.
A foto do guarda-costeiro turco com o menino nos braços é carregada de todo esse significado objetivo, mas também da ternura possível. Apesar de dramática, a cena é uma composição de traços sensíveis na sua forma. A ponto de permitir divagações mais leves. Aylan parece dormir nos braços do guarda-costeiro, que o carrega ternamente no colo. Quais terão sido as últimas brincadeiras de Aylan antes de ser chamado para a viagem? O que se passa na alma do guarda-costeiro, incumbido de tão dolorosa tarefa?
Que o pequeno Aylan nos lembre para sempre de nossos compromissos com a existência. Ele deve nos cobrar à razão e à sensibilidade. A humanidade tem essa dívida com Aylan.

As fotos do pequeno Aylan

04 de setembro de 2015 0

Estabeleceu-se um debate em torno das fotos do menino Aylan, 3 anos, estampadas na capa dos principais jornais do mundo, nas edições de ontem. O pequeno corpo do menino sírio foi recolhido sem vida por um guarda costeiro em uma praia da Turquia, consequência dos naufrágios de embarcações pequenas e improvisadas superlotadas de imigrantes em fuga para a Europa. Era chocante demais para ser publicada ou resultou em superexposição do menino, eis o debate.
Entre os argumentos pela não-publicação está a tese de que mostrar a tragédia de Aylan pouco acrescentaria. É um engano central. Sem as fotos, o drama dos imigrantes sucumbiria na avalanche de notícias, e a vida seguiria seu curso, rumo à próxima atrocidade e ao agravamento das situações degradantes e desumanas. Agora, a dramaticidade está aí escancarada, e é bom que seja assim, ainda que o preço seja uma imagem chocante, que nos incomoda muito durante o café da manhã.
Deve incomodar mesmo. A morte de Aylan, neste caso, não terá sido completamente em vão. A imagem tornou-se um símbolo não só do naufrágio dos refugiados, mas de outro naufrágio, da forma como nos organizamos em sociedade, e precisa ser um ponto de inflexão para a humanidade. Assim, a publicação das fotos está justificada. Precisa atropelar e sacudir consciências, com urgência.
A questão que deve ser agenda central para a humanidade é: por que e como se dá o encadeamento dos fatos que levaram o corpo do pequeno Aylan até a praia. Sábado passado, enquanto o menino ainda brincava, a coluna procurou refletir sobre a urgência do assunto:
“Tal cenário (dos refugiados) evidencia a persistência de regiões e países de elevados níveis de dramaticidade social, com fome, doenças, perseguições, falta de oportunidades e escassez, de onde as pessoas tentam sair de qualquer forma. Tal cenário é revelador da incapacidade dos países, líderes mundiais e grandes empresas de garantir condições mínimas de vida digna, uma repartição decente das riquezas e uma definição das prioridades a partir de critérios humanitários. Quem diria que, em um ambiente de imersão na tecnologia, esse item ainda conste de forma aguda no topo da agenda da humanidade.”
Até quando?

Estratégia não é nosso forte

03 de setembro de 2015 0

É característica da maioria das mobilizações sindicais: são explosivas, algumas delas em tom de enfrentamento, e buscam a visibilidade, a consequência direta, o que costuma ser entendido como um instrumento de impacto para a tomada de consciência diante de situações que precisam mudar e para fragilizar posições adversárias.
Afinada com essa percepção esteve a decisão de um grupo de representantes de setores do funcionalismo, que se plantaram na madrugada em frente aos portões da Visate, impedindo a saída dos ônibus do transporte coletivo. Eram servidores, policiais civis, professores, policiais militares da reserva, integrantes de categorias historicamente prejudicadas, reconhecidamente ultrajados ao receberem R$ 600 na data do pagamento, quando deveriam merecer o salário integral.
Entende-se a dramática situação dos servidores, mas acabaram prejudicando justo a parte mais sofrida da população. Muitos acordaram cedo e ficaram na parada esperando o ônibus que não passou. Não tem muito nexo. Há um problema de estratégia nesse tipo de mobilização.
Estratégia não é nosso forte como sociedade. Começa que os governos não valorizam a educação. Começa tudo torto, e depois é preciso construir presídios. Aí não tem dinheiro, e os delinquentes acabam soltos porque não há lugar para todos eles nas penitenciárias. E sobrevêm a violência, as tragédias e o sentimento de impunidade. Tudo de pernas para o ar. Sem falar que fica seriamente comprometida a capacitação para crescer.
Nas Câmaras, outro exemplo. Parlamentares divergem habitualmente com ironias, grosserias e em tom desrespeitoso. Discordam em tom belicoso. O que fazem é implodir pontes. Nenhuma preocupação estratégica com aprovar boas medidas. Dias depois, precisam do apoio de quem desrespeitaram antes. Não vão levar, é claro.
No caso dos manifestantes do portão da Visate, ou aqueles que trancam ruas e rodovias, eles retiram a simpatia da população, em vez de ganharem adesões. De novo, é questão de estratégia. Levar camadas da população junto, ou obter a simpatia delas, parece tornar um movimento mais forte. Mas isso é desperdiçado em nome da ação mais ostensiva para fragilizar oponentes. Vá entender. Dar tiro no pé parece uma vocação.

Na expressão, o cansaço de anos

02 de setembro de 2015 2

Testemunhei os professores na rua, a se manifestar, a cobrar salário em dia. Prestei atenção no olhar deles, na expressão corporal, e o que salta aos olhos é o cansaço de anos, o que não os impede de cobrar o que a eles é devido historicamente pelos governos, pela sociedade.
Observar as condições a que estão submetidos os professores é revoltante. E tem ainda os agentes penitenciários, os policiais, os fiscais, o quadro técnico. Todos estão mobilizados a exigir respeito. Não vai fazer cair dinheiro do céu no curto prato para colocar os salários em dia. Mas mobilizar-se é o que resta. O contrário é entregar os pontos.
No mesmo dia em que o sargento Ronaldo ganhou os 600 reais da primeira parcela do salário de agosto, ele foi morto enquanto estaria fazendo o popular “bico”, jornada adicional para engordar a renda. É emblemático. É um momento triste para o Estado, para os servidores, para a sociedade.
Entra neste contexto, para tornar o cenário ainda mais indecente, o abismo salarial existente entre funções do Estado – todas elas importantes, não se nega. Mas não pode haver abismo salarial entre promotor, procurador, deputado e professor. Nem pode haver privilégio como os auxílios para a magistratura enquanto outros servidores são submetidos a sacrifício. Não pode um magistrado, ganhar entre R$ 20 mil e R$ 30 mil, ou um pouco menos, ou um pouco mais. Não pode um salário inicial de carreira ser elevado a dois dígitos de mil reais e um professor receber cerca de R$ 2 mil depois de anos – a custa de muito sacrifício. Não pode o que julga conflitos receber 10 vezes mais do que os educadores que, em tese, devem promover a educação, que desarma conflitos lá no início. É um contrassenso espetacular, um equívoco estratégico gigantesco, contra o qual não há iniciativa nem reflexão. Parece não interessar à sociedade, que só tem olhos para os altos salários e distorções igualmente graves que prosperam nos parlamentos.
A hora é de definição da peça orçamentária do Estado para 2016. Se está sobrando dinheiro em certos órgãos financiados pelo Executivo a ponto de elevar salários acima dos R$ 20 mil, que esses repasses sejam contidos até que as categorias que recebem menos sejam atendidas prioritariamente.
Mas quem lidera essa discussão? Ninguém. É triste o cenário atual do serviço público.