Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Celular é o Poltergeist do milênio

11 de março de 2015 0

Tem se ouvido aqui e ali um zumzum, um murmúrio de descontentamento com a utilização excessiva das redes sociais. Contribui para isso a utilização sem nenhuma noção que um exército de pessoas tem feito dessa incrível disponibilidade tecnológica. Contraditoriamente, de forma quase selvagem e primitiva.
Um dos últimos casos foi esse de um torcedor que estava em uma cadeira de rodas na arquibancada e levantou-se para vibrar com um gol de seu time em Porto Alegre. Foi massacrado nas redes, onde desemboca toda uma ânsia de evidência e ostentação, como enganador da boa-fé dos outros por algum interesse escuso. O rapaz, como havia boa probabilidade de ser, era mesmo cadeirante. Particularmente neste momento de acirramento político, há toda uma fúria jogada na rede, da qual é conveniente passar bem longe.
O telefone celular, já se disse aqui algumas vezes, é o Poltergeist do milênio. Poltergeist foi um filme escrito e produzido por Steven Spileberg nos Anos 80 em que a televisão assumia esse papel como concentradora de atenções e dificultadora das relações interpessoais. Na cena final, a família empurra o aparelho de tevê para fora de casa.
É fácil perceber que tais características podem estar associadas ao telefone celular, smpartphone, tablet e toda a parafernália eletrônica que nos assola. A novidade é que agora há esse zumzum, a sugerir que a ficha pode estar caindo. É uma boa notícia.
Parece desnecessário reforçar a importância dessas novas tecnologias. Não está sob questão. O que se registra é que pessoas começam a fazer a constatação óbvia, ainda que tardia, de que têm se tornado escravas desses aparelhinhos, o tempo todo. Falta recuperar a noção de que há vida das boas longe de smartphones e redes sociais. Falta, também, ocorrer um acréscimo qualitativo, que ainda está sufocado. Precisa evoluir e crescer a noção de que sacar de smartphones em ambiente público ou não, quando há outras pessoas em um grupo, é de um profundo mau gosto, um gesto deseducado, deselegante, uma poluição tecnológica e social. Quase assim como alguém fumar no mesmo espaço onde há mais gente. Mas um dia vamos chegar lá, ainda que seja por overdose, é inevitável.

Sobre panelaços e luzes piscantes

10 de março de 2015 0

O Brasil está sacudido. Teve panelaço e luz piscante em apartamentos domingo à noite na hora em que a presidente falava à nação pela tevê. Ainda foi bem localizado nas grandes cidades, mas isso vai se expandir com a confusão reinante, os maus resultados do governo e a repercussão da mídia e redes sociais, onde tudo é muito impulsivo. Haverá novas adesões, e está agendado um protesto nacional para domingo agora, dia 15.
O governo está acossado, e a zona de turbulência política e social é forte. Traduzindo para o português claro, há muito descontentamento na população. Qual o tamanho dele é uma boa questão. Porém, o PT também é forte, e haverá resposta. De outras vezes, as ruas engoliram o governo e sua fraca representação popular. Desta vez, é diferente. É um cenário novo, de algum enfrentamento em um momento talvez pré-convulsivo.
O projeto do governo petista, que ainda foi capaz de reeleger Dilma, patina agora seriamente por uma questão central combinada com três outras altamente explosivas. A questão central é que o país não cresceu. Pelo contrário, encolheu. Houvesse pelo menos um pibinho, e o cenário para a presidente Dilma seria outro, menos difícil. Ainda por cima, junto convergem preços que, se não estão fora de controle, como a inflação de antigamente, são sentidos no bolso, especialmente a partir da elevação em áreas ultrassensíveis, como a dos combustíveis e energia; a corrupção generalizada, que a população interpreta ser centralmente de Dilma e do PT; e o remédio, o ajuste fiscal que é combustível jogado em um momento explosivo e respinga até na tradicional base de sustentação, os trabalhadores, insatisfeitos com regras mais duras. É muito percalço junto.
O que resulta no final é o descontentamento contra o que está aí, isto é, o governo. Não é para menos: junta corrupção, aumento de preços e aperto de cintos e a indignação ganha um contexto compreensível. Mas, ainda assim, panelaços e luzes piscantes têm parte de manifestação espontânea, outra parte de interesses políticos e econômicos. Recomenda-se prudência na neblina. Onde tudo irá desembocar dependerá muito da habilidade do governo em se mostrar confiável outra vez. Terá de convencer e virar o jogo. Neste momento, dado o contexto, é muito difícil. Vai sangrar bastante.

O casal da parada do Hemocentro

09 de março de 2015 0

As sinaleiras da cidade são importantes. Uma obviedade, pela função de disciplinar o trânsito. Mas não é só. O sinal vermelho, quem diria, aquela espera em geral estressante e até perigosa, também pode ser um momento único, a desvendar cenas belas e surpreendentes.
Sábado agora, início da tarde, sinaleira da Ernesto Alves com Marechal Floriano. Aquela do Hemocentro. Um casal aparentando ambos entre 60 e 70 anos estava sentando no único banco disponível sob o abrigo da parada do ônibus, e vestia-se com esmero. Visivelmente, a mulher não se sentia bem. De olhos fechados, sua cabeça encontrava amparo e apoio no ombro do companheiro, ele de cabelo branco escorrido, cuidadosamente alinhado, provavelmente com gel. O homem também inclinava a cabeça em direção à mulher e segurava ternamente sua mão. A cena toda poderia muito bem ser uma pintura.
Não é possível ter certeza sobre o roteiro cumprido pelo casal, mas há boa probabilidade, pelo estado aparente da mulher, de ela ter buscado apoio médico no Pronto-Atendimento, o Postão, bem ao lado, e agora ao casal restava a alternativa do transporte coletivo para retornar para casa. Uma espera desconfortável, que poderia ser ainda pior não houvesse aquele banco abençoado.
A cena é sugestiva, particularmente neste final de semana de lista de políticos envolvidos com o megaescândalo da Petrobras. Bem sabemos que se tornou habitual e corriqueira a cobrança de propina, bilionária no caso da Petrobras, ao que se recorre com extraordinário desembaraço e voracidade em nosso país para benefício próprio, de empreiteiras, de políticos e de partidos. Estão aí as transcrições das delações premiadas, que desvendam o tamanho do apetite pelo dinheiro público. Delações que só aconteceram quando os delatores foram abatidos em pleno voo, a popular boca na botija. E a gatunagem e a esperteza não ficam restritas ao ambiente político, se não que estão disseminadas por toda a sociedade.
Enquanto isso, o casal precisa recorrer ao SUS e ao transporte coletivo, e o faz de forma terna e plasticamente irretocável, mesmo que em convívio com as agruras dos serviços públicos. Há dois Brasis, e muitos outros tons intermediários, aparentemente irreconciliáveis. Uma reconciliação só será possível quando os brasileiros compuserem outro cenário, bem mais justo e respeitoso, para o casal que esperava o ônibus na parada da Ernesto.

A notícia que chega da aldeia

07 de março de 2015 0

Agora quem morreu foi Seu Celso, o alfaiate. É a notícia vigorosa e forte o suficiente para vencer os mais de 500 quilômetros que nos separam da aldeia e abrir espaço entre os escândalos da Petrobras e o atraso no salário dos servidores do Estado. Aldeia é a cidade, o lugar onde a gente nasce. Com os anos, já se foram Seu Ivo, barbeiro e tocador do sino da igreja, Seu Milton, o latoeiro, Seu Mário, o estofador, Dona Ana, a diretora, Seu Balsemão, o bolicheiro, e tantos outros, gente que conheci na infância e acompanhava a trajetória muito à distância. As profissões, como se percebe, eram de um outro tempo. Pois volta e meia uma aparição, uma menção ou um encontro ocasional tinham o extraordinário poder de fazer destampar a caixa da memória, com todas as suas consequências.
Agora quem partiu foi o alfaiate. Seu Celso era irmão da igreja que minha mãe frequentava, e ela levou-me até ele para que providenciasse uma fatiota, como se dizia na época, um paletó com a calça curta para o guri franzino fazer o exame de admissão com 10 anos de idade. Aquilo era uma solenidade que exigia roupa especial. O exame de admissão era como um vestibular para passar do ensino primário para o ginasial. Ambas as etapas compunham o que é hoje o ensino fundamental e, até pouco tempo, era o 1º Grau. Dava-se ali, ao findar o quinto ano do colégio.
Então minha mãe levou-me para tirar as medidas, ao que Seu Celso procedeu com a simplicidade e a candura que o caracterizavam. Tinha um bigode econômico e recebeu-nos com a fala mansa, uma trena no ombro, a presteza no trato, a delicadeza de gestos. Morava à beira dos trilhos, e o trem quase roçava na parede da casa. Tinha três filhos que regulavam comigo na idade e me pareceram uns diabinhos ao primeiro contato, mas depois tornaram-se amigos importantes. Hoje, sumiram por aí. Um deles estava em Rondônia, outro na Paraíba, o terceiro não sei que rumo tomou. Assim é a vida. Os amigos se dispersam e as trajetórias não se recompõem, muito menos se reaproximam, sem que tomemos providências.
A notícia sobre a passagem de Seu Celso, o alfaiate, é uma pancada na razão mais funcional. Chegada assim, de repente, ela desnorteia e nos confronta com nossas memórias, o que elas significam e o que temos feito com elas.

Lazer no São Vicente não interessa à cidade

06 de março de 2015 2

O assunto Monumento ao Imigrante voltou agora na Câmara. O vereador Gustavo Toigo está propondo que o monumento seja declarado símbolo da cidade. Faz sentido. Então, a colega Denise Pessôa aproveitou a oportunidade para desengavetar a preocupação com a chamada Praça do Imigrante, no entorno, projeto de anos que exige algumas desapropriações. É bem razoável.
Uma área de lazer na região do Monumento ao Imigrante, com ligação sobre a BR-116 por meio de passarela com a praça em frente qualifica a cidade. Caxias do Sul precisa ser inundada de áreas de lazer e convivência. Aí é que está a dificuldade.
Há carências bem mais graves na cidade quando o assunto é lazer. Por exemplo: não há cristo que faça algum vereador ou integrante do Executivo se interessar pela falta de opções de lazer para a rapaziada dos bairros São Vicente, Jardelino Ramos e Jardim América, na região conhecida como Antena. Ou algum acadêmico ou estudioso da área da arquitetura e do urbanismo. Não há propostas ou iniciativas. Como se o assunto não fosse importante. E parece que não é mesmo, para a cidade. O silêncio é gritante. E olha que as consequências da falta de área de lazer nessa região ao lado da Rodoviária são desastrosas. Respingam com força sobre meninos e meninas que ficam expostos à ociosidade _ ou coisa muito pior, que decorre dessa ociosidade. Alguns _ não poucos _ são até assassinados quando se enredam em um envolvimento mais traiçoeiro. Há vidas que se perdem na adolescência. Terrível
Existe até área de consumo de crack na redondeza, atrás do que alguns chamam de “Muro de Berlim”, um prédio em ruínas na esquina da Avenida Brasil com Ernesto Alves, que tem espaço para uma bela área de lazer e convívio capaz de revolucionar a relação da cidade com os três bairros. Um vislumbre das possibilidades deveria fazer surgir interessados na ideia, que ainda por cima tem relação com a história da cidade, pois ali havia uma cervejaria histórica. A bola está picando, mas ninguém chuta, e os meninos, as meninas e a comunidade seguem expostos e sem lazer.
Por quase todas a cidade há áreas de lazer. Na região do São Vicente, ela não existe, mas isso não interessa a ninguém. É intrigante. É preocupante. E desanimador.

O que levam os carteiros

05 de março de 2015 0

Mais um episódio da série “o mundo perdeu a graça”.
Os moradores do loteamento Mariani estão bastante preocupados porque o carteiro não passa mais em duas ruas. Há cães soltos que investem contra ele. Até aí, nada de novo. Sempre foi assim, os cachorros a perambular pelas ruas. Os cães de bairro costumam ser vigilantes para detectar a presença de forasteiros. Carteiros lhes chamam particularmente a atenção. Como os humanos, alguns são acolhedores e receptivos, mas há os agressivos. Então os Correios não têm entregado mais a correspondência, sob alegação de risco à integridade física dos carteiros. É compreensível.
Mas há uma mudança de fundo. Os moradores estão preocupados com as contas a pagar, com os boletos que não lhes são entregues. Aí surge o transtorno, porque, para pagar uma conta cujo boleto se extravia, é uma dificuldade, e nem todo mundo é íntimo da internet como se imagina.
Mas a preocupação é com as contas, e só. É o que os carteiros trazem hoje em dia. Cartas, como antes, são uma raridade. Daquelas em que algum querido distante contava da saudade, e de como ia a vida em outra cidade, e queria saber detalhes de como andavam as coisas com o destinatário, e até expressava uma angústia mais funda. Ou cartas daquelas pontilhadas de juras de amor, que expressavam o desejo ardente de estar perto da pessoa amada e anunciavam um encontro próximo. Esse tipo de mensagem quase não existe mais. Só boleto para pagar. Perdeu a graça, a vida.
Houve até uma canção dos anos 60 sobre o tema. Quem é adulto em fase já adiantada certamente conhece Please, Mr. Postman, dos Carpenters. É um clássico, uma melodia inconfundível na voz de Karen Carpenter, que marcou época: “Please, Mr. Postman, look and see if there’s a letter, a letter for me.” Por favor, senhor carteiro, olhe e veja se há uma carta, uma carta para mim. Era essa a expectativa reinante diante de carteiros anos atrás, que fazia corações baterem mais forte diante da espera, e que a música muito bem traduzia.
Os cachorros nas ruas já existiam, mas correspondências assim não têm mais. Só boleto para pagar. Os moradores do Mariani esperam boletos para pagar. É quase só o que chega pelos Correios. Perdeu bastante da graça, a vida.

A Avenida Júlio deserta

04 de março de 2015 1

Houve um tempo em que casais saíam para exercitar o flerte na Praça Dante. Alinhavar namoros, muitos dos quais evoluíram e entregaram à cidade uma geração de caxienses. Não é súbito acesso de saudosismo, mas esse retrospecto da Praça Dante é um fato, e é oportuno assinalar.
Houve um tempo em que casais passeavam na Avenida Júlio de mãos dadas atraídos pelas vitrines.
Mas o mundo perde a graça, progressivamente. Vai ficar pior. As redes sociais são muito eficientes e facilitam os contatos, mas não têm o glamour da cidade de antigamente. Hoje em dia, o que se vê aos domingos e mesmo no início das noites de qualquer dia da semana é a Avenida Júlio sorumbática, sombria, taciturna, inerte. As lojas todas, desde a Praça Dante até São Pelegrino, baixam as portas que já nem são mais pantográficas. Para os lados de Lourdes não é diferente. Essas pantográficas ainda permitiam entrever as vitrines e os produtos em exposição. As portas atuais fecham tudo, escondem tudo da vista do eventual e raro passante, em nome da prevenção à insegurança, aos furtos e arrombamentos. Ora, insegurança gera mais insegurança. Sem atrativos, e com menos gente caminhando nas ruas, a Júlio torna-se mais… insegura.
Passe pela Júlio pouco depois das 8 da noite. Ou no domingo à tarde. É uma tristeza. Que foi feito do centro da cidade! Aliás, o Centro… Está a merecer uma política, uma estratégia de boa revitalização capaz de promover o convívio e a redescoberta dessa área nobre da cidade. O Centro tem muitos encantos, simplesmente desprezados. Cabe alinhavar uma política capaz de atrair programações e empreendimentos para o centro histórico. A revitalização da unidade da Eberle da Sinimbu será pontual. É preciso uma ação mais ampla e estratégica, para todo o Centro, devolver a ele mais efervescência e glamour, com espaços e atividades fixas nas áreas culturais, de lazer, da gastronomia, levando em conta o perfil da região como ponto de encontro. Quando será? Será?
Essa preocupação inexiste na área do planejamento urbano. Sem ela, o Centro vai morrer e se degradar ainda mais. E ficar cada vez mais triste. O mundo, com cada vez mais shoppings, perde a graça progressivamente.

Jackson, Seu Finimundi e Romário

03 de março de 2015 0

O que Jackson Bottim, seu Carlos Finimundi e o adolescente Romário de Oliveira têm em comum? É simples, eles correm atrás. Jackson e Romário começam a correr agora, desde cedo. Seu Finimundi passou a vida correndo e não quer saber de parar.
Jackson, 10 anos, ficou tetraplégico devido a um atropelamento em Garibaldi. Isso não o intimida. Esta semana, prosseguiu seus estudos, agora no 5º ano do ensino fundamental, e está obstinado em ir à aula todo dia. Está feliz, diz a mãe, Simoni.
Seu Finimundi tem 93 anos de vida e 70 anos de estrada na empresa que ajudou a fundar, a Dambroz. É uma lição de vida. E segue dando expediente todo dia.
Romário, 14 anos, pula da cama às 5h, todo dia, para estudar. Enfrenta caminhadas de madrugada, ainda noite escura, em terreno pedregoso e cheio de acidentes, mais cansativos e pouco confortáveis deslocamentos de ônibus. E faz tudo de volta depois da aula para ajudar no trabalho da propriedade rural onde mora a família no resto da tarde.
Não se tem notícia de que a característica central de cada um seja reclamar da vida. Sabe-se de gente que esnoba e despreza a escola, preferindo a esperteza e a ociosidade. E de outros que são ágeis em reclamar se o transporte escolar não passa na frente da escola ou se o colégio do filho fica no bairro ao lado. Tem até mesmo quem não leve a criança à aula por conta de obstáculos como esses.
Claro que os órgãos dos governos estão aí para harmonizar e melhor organizar as situações, mas para estudar deveria valer qualquer coisa, todo esforço possível. Lembro de colegas meus que atravessavam a cidade a pé para estudar. Naquele tempo, transporte escolar não havia. Cada um que se virasse como pudesse. E não caía pedaço de ninguém.
Exercer a cidadania, cobrar, reivindicar, está valendo o tempo todo. Mas tais atitudes ganham credibilidade e se fortalecem quando acompanhadas da iniciativa e do esforço pessoal. Certamente que Jackson, Seu Finimundi e Romário sentem a cada dia a gratificação e a realização do esforço pessoal. E ainda encontram tempo para o bom convívio em família e com amigos. Outros preferem a esperteza, e o sentido da vida se perde, e a vida coletiva torna-se pior.
Correr atrás faz bem à saúde e à cidadania.

Falta gente como Taís

28 de fevereiro de 2015 0

A saga da mulher que investiu diante dos motoristas que faziam fila para abastecer em um posto de gasolina na BR-116 é comovente e ao mesmo tempo importante. Quase épica. Ela surgiu entre os carros pregando no deserto. Os motoristas abasteciam preventivamente, para não serem pegos sem combustível devido a um eventual desabastecimento. A mulher não se intimidou e bradava para que não abastecessem, para não aceitarem o preço do combustível, lembrando a lei da oferta e da procura. Alguns motoristas faziam o contraponto de que precisavam trabalhar, mas ela não abria concessões.
_ Não trabalharemos então. Nós ficaremos em casa ou andaremos de ônibus.
Há várias leituras desse surpreendente episódio, e elas são bastante interessantes.
Primeiro, a coragem da mulher. Praticamente ninguém mais toma a frente diante de questões como essa. Prefere seguir o curso normal de sua vida. “Temos de trabalhar”, disseram alguns motoristas. A mulher se impôs sozinha, com voz firme e forte para ser escutada, em um ambiente francamente desfavorável ao que tinha a dizer, um posto de gasolina. Assumiu atitude que há muito tempo caiu em desuso, de manifestar-se com destemor. Falta convencer parceiros para a empreitada, tornar viável a proposta. Mas ela foi à luta, transmitiu uma ideia, tentou interferir. Isso tem feito uma falta danada em nosso país.
Segundo, ela tentou ajudar o movimento dos caminhoneiros pela ponta invertida, na bomba do combustível. Aparentemente, é insustentável, sem chance de êxito. Mas deixou seu recado, e com boa dose de lógica: “Se sobra produto, abaixa o preço.” É a principal reivindicação dos caminhoneiros.
Ainda alertou para o que realmente importa:
_ Nós vamos ficar sem alimentos. Não adianta abastecer os carros se não tem caminhão na estrada.
E ousou sugerir ficar em casa ou andar de ônibus, em terra devotada ao automóvel.
Aparentemente sem futuro, uma voz solitária no deserto, a mensagem dessa mulher, uma gerente de empresa chamada Taís, chama atenção, principalmente pela indignação e capacidade de iniciativa. Está faltando mais gente com a coragem, a energia e o destemor de Taís.

'Que honra fazer parte deste momento'

27 de fevereiro de 2015 1

Que jornada! se diria tempos atrás. Jornada é uma expressão mais épica e localizada. Essa expressão foi atualizada para “que momento!”, algo mais difuso, que de alguma forma nos chega e nos envolve em um ambiente que queremos realçar.
Jornada transmite uma ideia mais operativa e proativa. Quem sabe a sociedade tenha de ser mais épica e preparar-se para duras jornadas para desmontar todo o aparato que sustenta a crise moral em que estamos metidos. Em português claro, para desmontar a corrupção, a esperteza, os desmandos, os privilégios, que estão espalhados por todo o país, e não apenas na esfera do poder.
Temos a compreensível inclinação de relacionar todos os nossos males, que compõem uma lista sem fim, para radiografar o momento, desde todas as modalidades de corrupção à situação terrível de nossas escolas e hospitais, passando pela deseducação geral que se manifesta nas ruas. Faz parte do diagnóstico necessário, e está correto. Porém, será justo com nós mesmos que esse diagnóstico seja completo. Pode ser uma questão de viés, do ângulo da observação de cada um, mas é mais do que isso, é de abrangência: não deixar que aspectos desse “momento” restem desvalorizados e sem o registro necessário e exato. O efeito é surpreendente.
Ao escrever esta semana duas crônicas que perguntavam se este país tem conserto, fui abalroado pelo comentário deixado por um leitor, de nome Anderson, no blog que assino. Ao mesmo tempo em que concorda sobre todas as nossas mazelas, ele acrescenta: “Contudo, comemoremos a limpeza que está acontecendo em níveis não visíveis dessa existência. Que honra poder fazer parte deste momento. As malandragens, fraudes e demais situações vindo à tona corroboram isso.”
Ele tem toda a razão. Dos carros de luxo e iates confiscados a Eike Batista à prisão dos donos de empreiteiras na Operação Lava-Jato _, que já se estendem por meses, quem diria! _, passando pelas minúcias desvendadas do esquema bilionário de financiamento a partidos políticos, inclusive com devolução de dinheiro público, aí tem uma novidade, com lances épicos. Quem seria capaz de imaginar, pouco tempo atrás, um ambiente assim? É um signficativo progresso da nossa parte.
Que jornada!