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Carnaval numa hora dessas

14 de fevereiro de 2015 0

A corrupção é generalizada. E não é privilégio apenas dos políticos. Estes, aliás, nos representam, gostemos ou não. É possível reunir um resumido inventário de notícias ruins, só as deste ano. As denúncias nos chegam em avalanche dos intestinos da Petrobras. As negociatas envolvem grandes empresários, políticos e partidos. Não fica aí. Tem outras no ambiente médico, para a indicação e implantação de próteses, que valem gordas comissões. Tem a fraude mais recente, a do seguro-desemprego, que lesa trabalhadores e o dinheiro público. E a nossa já conhecida fraude do leite.
O governo optou por mais aumento de impostos, quando a população que tenta ser honesta já não aguenta mais. Imposto sobre a gasolina, inclusive, claro que com aumento de preço. Então alguns donos de postos se aproveitaram para esticar o reajuste. O preço da luz também vai aumentar. Por aqui, quem choraminga as pitangas escassas e a crise das finanças públicas anda comprando lençóis de cetim ou viajando de helicóptero, indiferente à contradição do discurso. A economia do país anda para trás e até as demissões voltaram.
É muita notícia ruim. Em meio a esse cenário, foi autoconcedido aumento generoso para ministros das cortes, ministros de Estado, deputados, magistrados, secretários, chefes de Executivos e vices em geral, Ministério Público, enquanto se cortam horas-extras dos policiais militares. Mas não para aí. Ainda tem o auxílio-moradia para parte desse pessoal, que certamente precisa, coitados! Devem invejar os professores, que não precisam de tal auxílio.
Então chega a sexta-feira, quando se instala o Carnaval, o sábado, o domingo, até a terça-feira. Uma festa nem um pouco santa, aliás, patrocinada por dinheiro de origem pra lá de duvidosa. E o senso comum cai de pau no Carnaval e naqueles que se esbaldam como se não houvesse amanhã. Chegam a rabiscar no asfalto: “pouco pão, muito circo”. Mas, apesar de tudo, Carnaval é uma festa popular, enraizada na cultura deste país, e festejar é saudável. Motivos sempre se descobrirá, ainda mais quando a festa é em comunidade. Festejar é possível e recomendável, mas sem esquecer todo o resto, como muitos tentam simplificar.
Chegou o Carnaval. Quem gosta, não se acanhe, apesar da Petrobras e de tudo o mais.

O lugar dos desfiles e a cara da cidade

13 de fevereiro de 2015 0

A preocupação central de Caxias do Sul, ou pelo menos insistente, é com sua funcionalidade. A cidade tem de funcionar, com prioridade a determinados critérios, entre eles a mobilidade urbana, a rapidez dos deslocamentos, a resposta satifatória aos demais serviços. É respeitável e faz parte da agenda de qualquer cidade.
Esse é o perfil de Caxias do Sul, tanto que muitos de seus moradores torcem o nariz toda vez que se prenuncia e se arma um desfile qualquer na Sinimbu, desses que acontecem uma vez a cada ano, ou a cada dois anos. Desfile quer dizer festa, celebração comunitária, mas não adianta, não é argumento convincente. Muita gente não quer saber da menor perturbação, mesmo que breve, mesmo que more no Centro. A prefeitura sempre resistiu bravamente à retirada de desfiles da Sinimbu, mas agora saiu de lá o Carnaval, empurrado pelas obras no centro da cidade. Está aberta a porteira.
É uma pena os desfiles deixarem a Sinimbu. Perde a cidade com um saudável ar de festa por alguns dias, ganha a chamada funcionalidade, mobilidade à frente. Quem não gosta de festa? Pois cidade também deve festejar, arredar de lugar seus móveis e utensílios por algumas horas, como fazemos em nossas casas quando convidamos nossos queridos e há motivo para celebrar.
No embalo da saída do Carnaval, abriu-se a porta para a discussão sobre a retirada dos desfiles da Festa da Uva, ano que vem. Essa possibilidade está envernizada sob a forma de um debate anunciado para acontecer, mas a insistência com que o assunto volta à pauta mal se avizinha uma nova Festa da Uva é reveladora e sintomática.
Agora entreabriu-se a porta. Já passou um boi. A área da Maesa como polo cultural não é má ideia, pelo contrário. Porém, desfiles que saem do Centro tornam mais difícil a ressonância para as festas _ da Uva, Carnaval, Vinte de Setembro. Quer dizer: com menos ressonância, a cidade torna-se menos festiva, menos comunitária, porém mais ágil.
É uma senhora perda, em que uma coisa está longe de compensar a outra. Claro que todo mundo quer uma cidade em que o trânsito e os serviços funcionem, como deve ser. Só não deveria haver mal algum em combinar-se essa justa pretensão com uns dias de festa no coração da cidade. Parte dos moradores, no entanto, franze a testa.

O asfalto da Plácido de Castro

12 de fevereiro de 2015 1

A polêmica “pouco pão, muito circo”, reaberta devido a uma pichação no asfalto da Plácido de Castro, recém pavimentada para receber os desfiles de Carnaval em Caxias do Sul, é muito antiga. Remonta a décadas, inclusive ao tempo da ditadura, época em que se discutia muito o que se chamava de alienação, efeito atribuído centralmente ao Carnaval e ao futebol, que fariam milhares de brasileiros desprezarem e se desinteressarem da vida real para encherem estádios, passarelas e, àquele tempo, salões dos clubes.
Para o bem geral, esse debate foi se sofisticando aos poucos e assumindo outras nuances, superando a visão esquemática do preto e do branco. Ainda bem que a vida, em geral, não é tão simplificada assim, Carnaval mais futebol igual alienação.
É que muita gente pode gostar espontânea e sinceramente de Carnaval e futebol, e não há pecado nisso, como durante anos se tentou fazer crer. A dificuldade não é essa, mas sim desinformar-se e desprezar tudo o mais que acontece em nossa realidade, como tantos fazem.
Assim é que a expressão “pouco pão, muito circo” surge rabiscada no asfalto da Plácido de Castro certamente levando em conta toda a corrupção na Petrobras, elevação dos preços da gasolina, da luz e de todo o resto e as imensas dificuldades financeiras do Estado. Resgata, portanto, a polêmica antiga: como atirar-se aos braços da folia em um contexto assim? Ora, Carnaval é festa popular, de raízes culturais e comunitárias, como se fosse preciso lembrar. Triste o povo que não faz festa. O que não pode é desprezar a vida real e deixar de interessar-se por interferir nela.
Ainda sobre o polêmico asfalto da Plácido de Castro, ele foi uma escolha temerária. Sob o ponto de vista paisagístico, histórico e urbano, destoa do ambiente. Fica a sensação de que está fora de lugar. A pavimentação com pedras ou sextavada ajudaria a preservar o cenário histórico. Percebe-se que a intenção do asfalto foi ajudar o Carnaval e reforçar o entorno da Maesa como polo cultural, o que é interessante. Mas há esse efeito colateral.
Diante das dificuldades atuais da Sinimbu em obras, a Plácido é uma boa opção para o Carnaval caxiense Mas o asfalto destoa, e vai tornar a rua uma pista de corrida. Vai precisar de quebra-mola, até o Carnaval seguinte.

Culturas em prontidão

12 de janeiro de 2015 0

O momento é perigoso. Não só pelo risco potencial em si de novos atos terroristas que levam vidas inocentes, mas pelo confronto que está sendo exposto, quase um antagonismo cultural, entre os ditos iluminados ocidentais e fundamentalistas muçulmanos. A generalização é implacável, ainda mais quando feitas nas duas direções. Não é assim.
O iluminismo ocidental não vem de graça. Foi conquistado a partir da convivência, do conhecimento acumulado dos que vieram antes e da luta de espíritos democráticos, reunidos e forjados em ambientes históricos. Isso é um fato, ainda bem, plasmado nos ideários da Revolução Francesa – liberdade, igualdade, fraternidade – e na inclinação democrática norte-americana, naquilo em que é historicamente comprovada.
Mas o verdadeiro iluminismo não deve dar direito a arrogâncias, ao julgar-se mais do que os outros. Há muito nariz empinado por aí. Nessas ocasiões é que o enunciado do papa Francisco demonstra seu valor: “Quem sou eu…” resumiu ele sobre os gays e sua integração à igreja. É preciso ressalvar a defesa da vida e da dignidade, mas quem é qualquer um de nós, mesmo o mais iluminado, para julgar-se acima do bem e do mal?
Além disso, o iluminismo não foi democratizado e espalhado pelo ocidente afora. O que deve ser colocado na conta da mesquinhez, da falta de apoio à educação e à cultura e, mais modernamente, da mediocridade da indústria cultural, para a qual há causas bem definidas. Há regiões de muitas sombras em convívio com alguma claridade.
Já o propalado fundamentalismo muçulmano também é esquemático. O fundamentalismo não é característica inalienável dos muçulmanos – dito de outra forma, há muito muçulmano que não é fundamentalista. Mas encontrou naquela região terra fértil, um ambiente cultural para vicejar. Isso também é um fato. Há diferenças no convívio e na reação diante de uma crítica, em especial aquela mais ácida, irônica e corrosiva, e grupos que entendem que a sua verdade é a verdade universal. Uma questão essencial que nos sugerem os acontecimentos de Paris é o que fazer com essas diferenças culturais e encontrar – com humildade – a melhor forma de lidar com elas.
Tem se revelado pouco inteligente pressionar culturas.

É o que dá parar antes da faixa para o pedestre

10 de janeiro de 2015 3

O pai vinha com a filha pela mão, de 2 a 3 anos no visual. Coincidiu de cruzar com o caminho de ambos ao sair do trabalho ao fim da tarde, em uma esquina do Santa Catarina, na confluência da faixa de segurança. Foi nesta semana agora.
Ele, então, fez a travessia da primeira parte da rua, a segurar firmemente a mão da pequena, em seu passinho miúdo. Ao perceber que ofereceria passagem aos dois na segunda metade da travessia, sobre a faixa de segurança, o pai orientou a menina a agradecer e acenar para o motorista, ao que ela acatou com toda a simpatia do mundo e entregou-me o generoso aceno acompanhado de um gracioso sorriso de criança. Que maravilha! Ganhei o dia. É o que dá parar antes da faixa para o pedestre.
Mas não é assim que a cidade funciona, bem longe disso. O que é uma pena e um desperdício, como se vê. A faixa de segurança é instrumento de proteção ao pedestre que não funciona em cidades médias e grandes, onde o ritmo dos movimentos é vertiginoso e alucinado. Passei agora a virada de ano em uma cidade quase pequena, o Alegrete que me entregou ao mundo. Pois lá se respeita a faixa de segurança, com toda a naturalidade. Em todas as esquinas. O ritmo da cidade é pastoso, o que é muito bom. É assim que deve ser, aliás.
Mas as cidades médias, como Caxias, e grandes saíram do eixo. Desembestaram a correr. Seus moradores acreditam que elas só funcionam em velocidade máxima. É só olhar para as ruas de Caxias. É uma crença cega e fundamentalista, que não tem necessariamente base nas relações de convivência. Não é preciso que seja assim. A faixa é uma sinalização universal, aceita em todas as cidades do mundo, a comprovar cabalmente que o bailado da vida deve dar-se em passos mais lentos. A faixa de segurança exige ritmo lento para se impor. Quando colocada em cidades médias e grandes, a pressa geral pode levar por diante o motorista respeitador que cede a vez ao pedestre. A velocidade estimula o desrespeito.
Para a faixa de segurança funcionar e ser respeitada em cidades como Caxias, é preciso uma mudança de mentalidade, capaz de tornar a vida mais lenta. Quase um devaneio, mas nada é impossível.
Em troca, ganha-se a proteção de vidas, o sorriso largo e o aceno das crianças. Não é bastante?

Você sabe manusear um extintor?

09 de janeiro de 2015 1

Todo mundo dormiu no ponto. Governos, bombeiros, polícias rodoviárias, autoescolas, até a imprensa, sempre em prontidão para desferir a crítica. Comerciantes, fabricantes, motoristas e cidadãos também. Ninguém se deu conta, a não ser na véspera, de que era preciso substituir os extintores dos veículos pelo modelo ABC.
Convenhamos, foi uma trapalhada com a cara do Brasil, bem ao nosso feitio. Claro que somos capazes de coisas e iniciativas muito boas também. Não se trata da manifestação explícita da síndrome de vira-lata, mas apenas uma saudável capacidade de reconhecer nossa inacreditável inaptidão para fazer bem feito tarefas que poderiam ser encaminhadas com tranquilidade, sem sobressaltos. Tivemos cinco anos para providenciar a substituição dos extintores, e deu no que deu.
A medida, a troca de extintores em si, é meritória sob o ponto de vista da prevenção. Amplia-se a capacidade dos extintores de apagar o fogo. Bem melhor do que o famigerado kit de primeiros socorros de anos atrás. Claro que esse mérito inexiste na esperteza comercial em torno da medida, que redundou na trapalhada inacreditável, a falta de extintores do modelo previsto em lei no mercado e na elevação automática de preço onde ele ainda era encontrado. E ainda na ameaça de multa. Neste ponto, naufragamos como de costume. É que incidem aí questões éticas e, com frequência, não somos muito bons neste assunto.
Feitas essas considerações sobre o episódio da substituição de modelos, será essencial ponderar sobre um aspecto onde praticamente todos os mesmos que produziram a trapalhada de agora negligenciamos: pouquíssimos de nós sabemos manusear os extintores. De que adiantará, portanto, o modelo ABC incorporado ao veículo se, na emergência, muito poucos saberão empregá-lo? É sintomático, e traduz bastante nosso jeito de ser, que estejamos às voltas com a troca de modelo de extintores, sem nos alertarmos para o óbvio: será imprescindível que bombeiros, polícias rodoviárias, autoescolas, defesa civil, governos, comércio, escolas, igrejas e de novo a imprensa divulguem e ensinem maciçamente sobre como manusear extintores. Um cursinho básico, o bê-á-bá. Como de costume, metemos a carroça adiante dos bois e deixamos o elementar de lado. É a nossa cara.

Conviver é a questão

08 de janeiro de 2015 0

Esse mundo está alucinado. É um trem desgovernado. 2015 fica desde já manchado por esse atentado terrorista em Paris. Não havia ilusões de uma trégua para o barbarismo e a estupidez em 2015, que até vinha se comportando direitinho. Mas acabou qualquer pretensão. Não há muito mais a dizer sobre Paris, a não ser lamentar as mortes e condenar o ato sumariamente, com veemência.
Como lidar com essa realidade é a questão imediata, que está posta há muito tempo. E que a humanidade não tem sabido resolver. Como desarmar a bomba. O diagnóstico, sabe-se desde sempre, é a completa inaptidão e incapacidade de convivência com as diferenças e os antagonismos a acompanhar a história da humanidade, situação agravada pela velocidade atual das relações e dos contatos. Ressalvadas a Fórmula 1 e as emergências, a velocidade nunca será boa conselheira, e ela dá as cartas nesses nossos dias. Uma consequência imediata são os obstáculos à distensão dos espíritos, à boa reflexão, ao diálogo produtivo, que são a antítese do ovo da serpente.
Claro que detectaremos mil vezes a intolerância e o fundamentalismo na raiz dos desentendimentos, das guerras, dos atentados. Mas como saímos dessa enrascada? Como desmontamos a intolerância? Estamos condenados a ela? Se estamos, é melhor voltar para casa e vestir nossos pijamas. A humanidade é composta por gente que consegue conviver, os que conseguem até certo ponto e os que não conseguem. Conviver é a questão. Qualificar toda convivência, essa é a boa tarefa.
Jean Paul Sartre já disse que o inferno são os outros. Antes de um exagero, é uma generalidade que cabe como diagnóstico. Pois então, cada um de nós tem de conviver com os outros. E, apesar da leitura de Sartre, a tarefa tem de ser possível. E deve ser vista como desafiadora, em vez de um sacrifício. Conviver com os parecidos é mais fácil.
As diferenças, como se viu em Paris, são oceânicas. Até acabam em morte. E, apesar dos radicalismos e fundamentalismos diversos, é preciso lançar pontes, aproximar, em cada ato, por menor que seja. Saber dizer, e como dizer. Vale para muçulmanos, ocidentais que se consideram iluminados e todos os diferentes. Para desarmar bombas, não há saída: conviver é preciso.
O contrário são a guerra, as mortes, a violência.

A última barbaridade de 2014

07 de janeiro de 2015 1

O ano não terminaria sem uma última barbaridade. 2014 foi um escândalo, uma sucessão industrial delas. Está se falando de barbaridades, primitivismos, acontecimentos que em nada combinam com os ditos princípios da modernidade, como “sustentabilidade” e “diversidade”, palavras bem ao gosto de tanta gente. Barbaridades do gênero de um Jair Bolsonaro, da discriminação que sugeriu a senegaleses, haitianos e ganeses retornarem para o lugar de onde vieram. Ou da trapalhada recente com os extintores. Pois o ano não terminaria sem uma última barbaridade, e ela veio no penúltimo dia, sem tempo para a repercussão necessária: em Caxias do Sul, seguem matando pombos na praça central. Caxias do Sul é a cidade onde se matam pombos.
Aliás, esse tipo de barbaridade já havia se materializado em abril, também na Praça Dante. Aliás, outra vez: o extermínio de agora, de outras dezenas de pombos por envenenamento, talvez tenha se dado para “comemorar” o primeiro aniversário da primeira mortandade, em dezembro de 2013. Como ninguém nunca descobriu nada, o exterminador de pombos sente-se à vontade. Sente-se em casa em Caxias. Tem muita gente que até o elogia, porque os pombos têm mais é que saírem de cena para nunca mais, uma vez que causam efeitos nocivos à saúde pública. A mortandade é uma ação de vanguarda ambiental, quem sabe.
A Secretaria do Meio Ambiente, que é a quem cabe cuidar do ambiente, desfere a reação protocolar para essas ocasiões, diz que vai ver quem é que fez, e coisa e tal. Mas o fato é que nunca se descobre quem espalha veneno para os pombos em plena Praça Dante. O exterminador entende o recado e, em breve, deve entrar em ação novamente. Quem sabe a mortandade repetida três vezes não instigue os órgãos públicos a ficarem alertas para ver quem faz. Quem sabe, também, as câmeras de vigilância da Praça Dante não inventem de funcionar uma vez só, o suficiente para decifrar o mistério da identidade do exterminador.
Cogitar de matar pombos é uma barbaridade. Levar adiante a empreitada torna ainda maior o disparate. E cometê-la na Praça Dante, fica um absurdo mais grave ainda. Foi a última de 2014.
Caxias é a cidade onde se matam pombos. Mas que barbaridade!

O futuro começa agora, e começou mal

30 de dezembro de 2014 0

“Hoje é um novo dia de um novo tempo, que começou nesses nossos dias.” O jingle de fim de ano da Globo tem quatro décadas e coloca um senhor compromisso: o futuro começa hoje. Até já começou. Mas, para tanta gente, muitos caxienses entre eles, isso é uma sonora bobagem. Apesar de acharem a música bonitinha e até a adotarem para acalmar a própria consciência, esse papo de futuro não cola. Outro futuro começa daqui dois dias, quando será 2015. Mas o marco de fim de ano só serve quando se decide mudar de verdade, o que é bem raro. Em geral, resoluções pessoais e metas de governo estão fadadas ao fracasso, esfarelam-se já em janeiro e não resistem a fevereiro.
Mas, como bem lembra a musiquinha da Globo, o futuro já começou. E, se assim é, o futuro não recomenda. Vamos ficar apenas com dezembro: a Câmara aprovou um loteamento classe A em Caxias, ainda que o empreendimento vá exigir o corte de milhares de árvores. Milhares. Algumas coisas foram ditas pelo órgão municipal do meio ambiente, como por exemplo: o que se cortará no Samuara é mais ou menos o que se corta em pouco tempo para empreendimentos do gênero espalhados pela cidade. A “mancha verde” deixará de existir, um impacto evidente e indiscutível sobre o microclima, que depois interfere no clima sob forma de irregularidade das chuvas e falta d’água, estamos vendo bem. Agora, semana que passou, uma empresa pintou o Dal Bó e o Tega de verde com o despejo de seus dejetos industriais. Um escândalo. Um crime ambiental. Assim estamos.
A propósito da autorização da Câmara para o loteamento classe A, o jornalista Régis Vargas enviou um comentário à coluna, já inspirado pelo jingle da Globo, que todo dezembro costuma embalar as salas de estar dos lares caxienses. Escreveu ele: “Caxias do Sul está deixando de ser um bom lugar para se viver, se continuarmos somente visando às construções em concreto, em detrimento da preservação do verde, da água, da qualidade de vida. O futuro da cidade, embora alguns não queiram ver ou opinar, está sendo determinado agora.” Alguma dúvida?
O futuro, insiste o jingle da Globo, está sendo feito hoje, esse novo dia de um novo tempo. Na antessala de 2015, estamos mal. O futuro, portanto, está sendo muito mal feito agora.

A falta do atestado de óbito

29 de dezembro de 2014 0

Contexto é importante. Sinalizações também.As atitudes e comportamentos de cada um não devem desconsiderar o contexto. Ao mandar soltar o motorista embriagado que provocou o acidente causador da morte de uma jovem em Capão da Canoa, a juíza tomou essa decisão porque faltava o atestado de óbito. Ateve-se ao formalismo, desconsiderou o contexto.
Nem sempre o contexto deve ser preponderante, mas ele precisa ser considerado. Boa parte da população quer a pena de morte, por exemplo. É um contexto. Nem por isso ela deve ser incorporada ao regramento penal do país. Mas, com frequência, o contexto é fundamental. O formalismo do atestado de óbito não está tecnicamente incorreto. E há diferenças pessoais que produzem efeitos em todas as esferas, relações, profissões, que devem ser respeitadas. São diferenças de estilo. Há juízes mais rigorosos ao formalismo, outros menos. Mas o exame de contexto é imprescindível, porque as decisões correm o risco de ficar soltas no espaço, sem vínculos com a realidade. Não que se deva prender e arrebentar porque assim exige o clamor popular. Mas sim, recomenda-se sondar o ambiente ao redor para captar o impacto de uma decisão.
A realidade nacional clama por sinalizações pedagógicas capazes de moralizar um pouco o ambiente de impunidade. Nesse caso de Capão, alargar essa concessão não atropelava o formalismo não cumprido da inexistência do atestado, porque estava lá o corpo estendido no chão. A juíza poderia, sem violentar seu rigor formal, contemplar a pedagogia da pena. Mas julgou melhor dispensar o contexto. Foi uma oportunidade desperdiçada.
Tempos atrás, os vereadores caxienses decidiram aumentar de 17 para 23 o número de cadeiras na Câmara. Agiram dentro da previsão legal, até o limite possível, mas ignoraram o clamor popular, que não queria mais vagas. Neste caso, era importante sinalizar à população que ela pode ser ouvida pelos agentes públicos, pois se tratava de fortalecer a política como atividade, dar-lhe um pouco de credibilidade. Mas os vereadores entenderam por ignorar o contexto. Desperdiçaram oportunidade de ouro de fortalecer a política.
Sinalizações são decisivas. Para a população entender o recado, sentir-se valorizada e até protegida. Ou pode ser bem o contrário.