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Trabalho de Sísifo

20 de outubro de 2014 3

Essa Operação Sísifo, que a Polícia Civil fez sexta-feira, o nome não é de graça. Esses nomes não surgem por acaso, não são escolhidos pela suposta boniteza do vocábulo. Eles têm algo a dizer, a ser decifrado. A Sísifo, como qualquer dessas operações, nos informa inicialmente sobre a geografia da cidade: no caso, o bairro Santa Fé e outros adjacentes, na Zona Norte. Nos diz sobre componentes sociais da região e da cidade, nos remete a lições sobre história e mitologia grega, E fornece pistas para decifrar a realidade.
Primeiro que a Sísifo não foi uma operação qualquer. Envolveu 85 policiais civis, 11 delegados, mais de uma dezena de delegacias para desmantelar uma quadrilha que lidava com o tráfico de drogas na região. Sinal da importância que lhe foi atribuída. Mas seus idealizadores foram escolher Sísifo como nome de batismo. Na mitologia, Sísifo era considerado astuto. Enganou a morte e seu deus, Tânato, algumas vezes e morreu de velhice. Por isso, ao final de sua jornada, foi estigmatizado com a pecha de rebelde e recebeu como castigo a tarefa de rolar pela eternidade uma pedra de mármore até o cume de uma montanha, de onde ela rolava novamente montanha abaixo.
Portanto, a expressão trabalho de Sísifo indica toda tarefa que envolva esforços grandes e repetitivos, mas fadados ao fracasso. Como enxugar gelo. Como o combate ao tráfico. Quem nos dá essa informação preciosa é ninguém menos do que os idealizadores e executores da Operação Sísifo, os policiais civis. Porque assim que vaga a posição de gerente do tráfico em determinada região de uma cidade, logo aparecerá alguém para ocupá-la. Isso enquanto o combate ao tráfico tiver a configuração atual, da criminalização pura e simples. E toda essa movimentação no submundo vem acompanhada de furtos, roubos e mortes, muitas mortes. Esse é o indicativo que fica da Operação Sísifo: a sugestão para um bom debate sobre qual a forma menos dolorida e mais consequente de se combater o tráfico. É recomendável pensar em alternativas, sem preconceitos e com racionalidade.
Como está configurado atualmente, parece pouco produtivo, fadado ao fracasso. São os próprios policiais quem dizem: combater o tráfico é um trabalho de Sísifo.

Portas abertas, portões abertos

18 de outubro de 2014 4

Não se fecham portões, não se cercam parques. É uma posição de princípio. O contraponto é ocupar espaços. Vinte e cinco anos atrás, derrubou-se o muro que dividia a Alemanha, e aquilo foi comemorado quase como uma redenção para a humanidade. E de fato foi, até certo ponto. A Faixa de Gaza é a dor de cabeça que é, há 60 e poucos anos, porque é isso que se diz dela, uma faixa.
A UCS assumiu convicção de que deveria fechar aos finais de semana os portões que dão acesso a bairros e ruas adjacentes à Cidade Universitária por causa da insegurança. A posição é respeitável e compreensível. Há assaltos a quem circula pela universidade, e esses assaltos não são inventados. Acontecem de fato. Em Porto Alegre, crimes banais, mas também graves, são cometidos na Redenção e em outros parques, e volta e meia é retomada a discussão sobre o cercamento desses espaços. Tem boa justificativa. Ninguém está menosprezando a violência e suas consequências. No entanto, a posição de princípio deve falar mais alto, ainda que o crime se manifeste, não raramente. Porque fechar portões e cercar parques é a derrota das possibilidades e da convivência, a implosão da ponte para outra realidade melhor, que não se deve apagar nem esquecer como referência.
Então, deveria se buscar uma resposta contra a violência que permita manter abertos os portões e parques. O antídoto, deve-se reconhecer, é muito mais trabalhoso, de médio e longo prazos, sujeito a riscos e até a baixas ocasionais, que o risco sempre será inerente à existência. Mas esse antídoto existe: é a ocupação dos espaços por meio de atrativos os mais diversos, esportivos, culturais, de lazer, de convivência. Atrativos como a própria UCS dá o exemplo, em parceria com a Unimed: o Concerto da Primavera, que outra vez se realiza neste domingo no estacionamento – se chover, será no Bloco M.
Programações assim são a chave da melhor resposta, a melhor ocupação dos espaços, o que deve vir com uma boa iluminação, uma segurança melhor. A mesma UCS realiza neste domingo uma programação chamada Portas Abertas, que abrirá os laboratórios para visitação aos espaços das aulas práticas. Quer dizer: a própria universidade acredita que portas abertas são, sim, um caminho viável. E de fato assim é: toda ponte de aproximação é o melhor caminho para a humanidade.

A Avenida Júlio malcuidada

17 de outubro de 2014 2

Já atravesso dois terços da vida, um longo percurso, mas, durante esse tempo todo, algo sempre escapou à minha capacidade de entendimento: que dificuldade intransponível existe para que os equipamentos urbanos tradicionais de uma cidade funcionem com esmero e capricho? Em regra, as cidades relegam esses cuidados. Então fica aquela aparência de descuido e relaxamento nas ruas, que em nada contribui para a estima da população e a qualidade de vida.
Há um indicativo de que Caxias está malcuidada. Tomemos uma quadra aleatória da Avenida Júlio à noite, entre Borges e Alfredo Chaves. Ali há sete postes daqueles que foram escolhidos a dedo para fins decorativos e paisagísticos com as luzes apagadas. Um deles está desprovido do bojo superior, um desleixo maior ainda. Casualmente junto a esse poste sem a parte superior há uma árvore morta. É um cenário desolador.
Para quem guarda alguma distância das lides administrativas de uma cidade, não parece complicado garantir a manutenção básica, promover a troca de lâmpadas com presteza, controle e agilidade, a partir de mecanismos de identificação sobre onde as lâmpadas se apagam nas ruas, e fazer a substituição com rapidez. Não parece complexo tomar as providências para que cenários urbanos não adquiram a aparência do descuido, ainda mais de forma prolongada e permanente. É tristonho. Aquela quadra da Avenida Júlio, especificamente, bem no centro da cidade, foi feita para funcionar e encantar moradores e visitantes, visto que houve esmero na escolha dos materiais, inclusive com fins decorativos. Mas assim não é, a rua principal fica lá, como se estivesse atirada. E está mesmo. O que pensar, então, de ruas mais afastadas das atenções centrais!
Fica-se assim a especular: qual a dificuldade intransponível? A que mais parece se impor é a da falta de equipes para dar conta de toda a cidade. A exigência dos cuidados urbanos deve ser respeitável em uma cidade do porte de Caxias do Sul. Mesmo assim, é preciso se organizar, contratar mais servidores, se for o caso. E assumir como compromisso intransferível a ronda permanente para a qualificação dos equipamentos urbanos.
Parece simples, mas não é. Escapa a meu entendimento.

A hora de lavar a roupa suja é agora

16 de outubro de 2014 0

Há os que se escandalizam com o que é dito na campanha. Ficam estarrecidos, fazem muxoxos, caras e bocas. Onde já se viu, ficam batendo boca, não apresentam propostas, não esclarecem como vão fazer, é o que se diz. É um discurso fácil. Primeiro, que são apresentadas propostas, ainda que poucas, mas governo e oposição as apresentam. Se bem que, em 20 minutos diários, detalhar programas e mostrar propostas é obrigação.
A reação-padrão é aquela: “não dizem de onde vai sair o dinheiro”. Primeiro, no caso do Rio Grande do Sul, especialmente, não dizem porque não tem dinheiro. Segundo, não dizem porque não há mágica. O que resta para economizar ou arrecadar mais é privatizar, demitir, reduzir órgãos públicos e secretarias ou aumentar impostos. Mais o combate à corrupção, a economia de guerra, os baixos salários – para os primos pobres do funcionalismo, é claro – e a redução dos investimentos e gastos com serviços públicos. Resta esgrimir essas alternativas. É daí que sai o dinheiro ou entra um pouco mais. Não há como inventar a roda.
Se bem que, dessas alternativas para o manejo dos recursos públicos, já dá para tirar uma boa base sobre quais são os compromissos de cada candidato. Então, a crítica à campanha eleitoral se apega a essa questão, tida como chave: de onde vai sair o dinheiro. Só que a questão essencial não é a contábil, fechar a equação, zerar a conta. A questão primordial é a alternativa – uma ou mais – entre as disponíveis para equilibrar as contas.
De mais a mais, se fica escandalizado porque os candidatos se atracam e batem boca. Ora, o momento é esse, desde que mantido o respeito. A hora é de lavar a roupa suja, sim. É hora da cobrança contundente, de chamar à responsabilidade. É preciso entender Brasil e Rio Grande como a casa dos brasileiros e a casa dos gaúchos. E qual casa e qual família não tem o direito de lavar a roupa suja? Somos uma grande família, e estamos lavando a nossa roupa. Que bom. É hora de perguntar seriamente por que fez isso, deixou de fazer aquilo, o que pretende fazer e com quem cada candidato tem compromisso. Só precisa manter o nível e garantir o respeito.
Claro que a qualidade da campanha precisa melhorar, e muito. Mas a crítica a ela e aos candidatos também precisa se qualificar bastante.

O que as tragédias de trânsito revelam

15 de outubro de 2014 0

A vida é feita de golpes. São pancadas que atordoam os mais queridos. É preciso estar preparado. Cada morte no trânsito encerra uma história única, com enredos peculiares, não raro tocantes, que de outra forma não ficaríamos sabendo. Então as tragédias do trânsito têm esse efeito colateral denso e marcante, esse componente de trazer à tona, de destampar histórias de vida, ricas como são cada uma das histórias de vida em suas intenções, desdobramentos e detalhes.
As mortes, quem diria, nos aproximam dos pormenores das vidas. É uma pena e um desperdício que a sucessão habitual dos acontecimentos não tenha tamanho poder, o de alertar para a valorização de vidas no curso de seu roteiro. Não se fala aqui de bisbilhotice, mas da identificação e do reconhecimento do valor e das angústias de cada vida. Apenas a morte traz essa garantia. Aí sim, o obituário é escrito por obrigação, e surgem boas e tardias descobertas.
Por fim, a sucessão dessas violências do trânsito é capaz de expor histórias assim enfileiradas, unificadas, como que em episódios de uma trágica minissérie. Os dias recentes nos revelaram a história da jovem que morreu em acidente de trânsito horas depois de noivar e no dia em que completava 23 anos. O enredo é tão trágico quando inesperado. Assim, quando somos informados sobre tais detalhes, ficamos a cogitar com algum grau de compenetração sobre desígnios e coisas do gênero. O noivo, que estava na direção, resolveu fazer um súbito retorno, mas não viu um caminhão. E então se revelaram os detalhes da vida de Érika, que veio de Rosário do Sul, cidade da Fronteira Oeste, atrás de oportunidades na região, movida por sonhos e anseios. Mas veio para morrer no dia em que haveria de noivar.
O caso da mulher de 32 anos, jovem ainda, e das duas crianças de 3 e 7 anos que morreram em Teutônia horas depois tem o toque da modernidade. O motorista, marido e pai de família teria optado pelo GPS para guiá-lo de Venâncio Aires a Caxias do Sul. Assim é que teria se embrenhado em uma ponte escura e mal sinalizada de uma estrada remota, sem o guarda-corpo. A modernidade com frequência é desnecessária. Valem as vidas e suas trajetórias, às vezes curtas demais, é a lição que insistimos em desafiar.

Uma cidade mais agradável ainda não é prioridade

14 de outubro de 2014 1

Adotar ações para uma cidade mais agradável de se viver começa pela vontade de fazer. Está aí uma dessas ações, anunciada semana passada, a chamada Praça do Trem, parceria entre prefeitura e Shopping San Pelegrino. Em meio ano, a cidade deve ganhar uma praça. Isso será extraordinário, levando-se em conta o retrospecto da cidade.
Tomara seja a primeira de muitas iniciativas. Mas, até agora, a administração não quis o suficiente, a não ser ações esporádicas. Isto é, os administradores até admitem e consideram importante humanizar a cidade, mas essa compreensão não vem acompanhada de iniciativas prática. Em síntese, uma cidade mais humana ainda não é prioridade por aqui, e precisa ser.
Para ser prioridade, é preciso de ações sistemáticas, perceptíveis ao caxiense, de alcance sobre diversas regiões da cidade. Nesse caso, sim, estaríamos sob a vigência de uma prioridade. Mas assim não é. O pedestre não ganha espaço e ações de proteção, ao contrário. O trânsito torna-se mais agressivo no Centro, com uma pista a mais para veículos em movimento na Sinimbu e a Júlio mais congestionada. O pedestre deve redobrar a cautela. Nenhuma das mudanças veio em seu favor.
As áreas de lazer são outro capítulo. Uma praça sugerida aqui, na esquina da Ernesto Alves com Avenida Brasil, para resgatar a dívida urbana e comunitária da cidade com a região do bairro São Vicente não chega a ser considerada. E, se essa alternativa não é possível, que se tente outra. Mas não. O assunto humanização, como se disse, não é prioritário. Fica para depois. A comunidade e as crianças da região seguem sem área de encontro, lazer e convívio, o que é uma temeridade.
A saída das bicicletas da Perimetral Norte abriu mão de humanizar a via aos domingos, com mais pessoas e mais lazer. Outro exemplo: a Avenida Júlio tem bancos na quadra entre a Borges e a Marquês do Herval. Uma providência singela e barata poderia reproduzir esses bancos ao longo de outras quadras da Júlio. E mais: faltam calçadas na cidade, carros estacionam sobre elas e não há ações frontais para conter todo esse desrespeito.
Para ser prioridade, iniciativas que apontem para a humanização devem ser numerosas, permear as ações cotidianas e serem notadas como tal.
Não é o que se vê em Caxias.

O Calçadão de volta

13 de outubro de 2014 1

O Calçadão de volta, por que não? Lembram do Calçadão? Quem mora há mais de 12 anos em Caxias do Sul lembra sim. Havia uma pracinha e um espaço para circulação de pedestres no coração da cidade. Mas isso é muito simbólico. Espaço para pedestres no coração da cidade já tem na Praça Dante, então pra que mais? Não precisa, devolva-se aos carros, foi o que se pensou à época. E não importou que tenha sido levada junto uma pracinha para crianças.
Então, já que se falou em simbolismos, nada é mais simbólico em Caxias do Sul do que eliminar um espaço para a diversão das crianças e devolvê-lo aos motoristas. Alegava-se, à época, benefícios com a retirada do Calçadão para o comércio na região da Avenida Júlio que se estende da Praça Dante em direção ao bairro Lourdes. Não mudou rigorosamente nada. Alegava-se também insegurança no espaço, que funcionaria como ponto de atração para desocupados. Como se não houvesse outra solução menos radical do que a retirada do Calçadão e seu generoso espaço para convivência. Então, ele saiu de cena.
Pois uma das contribuições periféricas e colaterais da Feira do Livro foi esta, cogitar da volta do Calçadão. Ou pelo menos indicar para quem nunca viu ou estimular uma lembrança aproximada do que um dia foi esse espaço, porque a Feira do Livro de certa forma forçou – ou reivindicou e foi atendida – o fechamento da Júlio aos veículos no trecho da Praça Dante. E vê-se então que não se perde nada com a Júlio fechada aos carros. A Júlio já está mesmo toda congestionada, então trancar a avenida em uma quadra direciona os carros para fora do miolo central. O que é bom. E devolve-se, pelo menos temporariamente, o espaço aos pedestres para uma aproximação mais tranquila dos caxienses à Feira ou uma programação mais esparramada da Feira pela região da praça.
Claro que não há, por ora, nenhuma cogitação administrativa a respeito da volta do Calçadão. Para alguns técnicos e administradores, inclusive, a ideia deve deixá-los horrorizados, deve parecer absurda e um tanto maluca. Para quem pensa a cidade de forma mais ampla, sob o ponto de vista de sua humanização, de tornar a cidade mais agradável, de estar sintonizada com modelos urbanos mais abrangentes e menos funcionais, a ideia não tem nada de maluca. A Feira do Livro nos devolveu esta cogitação. Por que não repensar essa ideia?

As perguntas das crianças

11 de outubro de 2014 0

Houve um tempo em que desembestei a desenhar. Tinha uns sete, oito anos. Saí a rabiscar o que aparecia pela frente, depois mostrava orgulhoso a meus pais. Até que cheguei aos livros de história. Certa vez, minha mãe retornou do trabalho e encontrou colado com durex na parede da sala um pequeno cartaz no qual eu havia reproduzido a imagem do ex-presidente João Goulart com a inscrição em cima: “A revolução sem sangue”. Havia simplesmente copiado o que estava nas páginas de um livro de história da época.
Minha mãe olhou para aquilo preocupada e sumariamente retirou aquele inocente desenho da parede. Afinal, morávamos na mesma rua onde havia dois quartéis. Estávamos em 1968. Não entendi nada daquilo. Era criança, afinal de contas. Só achei esquisito. Coisas do mundo dos adultos, que me foi incompreensível naquele momento.
- Agora tu não entende. Mais tarde vai saber por quê – limitou-se a dizer minha mãe.
Há muitas coisas que as crianças não entendem. Corte para as crianças de 2014. Certamente elas têm uma série de perguntas, daquelas que desconcertam os pais:
- Mãããeee, pode carro parado em cima da calçada? E pode do lado do outro, no meio da rua?
- Paaiêêê, por que cortaram a árvore? Não ficam falando por aí que é para cuidar das árvores?
- Mãããeee, por que o salário do professor é tão pequeno?
- Paaiêêê, por que matam tanta gente? Por que as pessoas aparecem boiando na represa?
- Mãããeee, por que degolam gente e depois mostram na tevê? Por que queimam morador de rua? Aliás, por que tem morador de rua? Eles não têm casa pra morar?
- Paaiêêê, o que é propina, essa palavra esquisita? Pra que serve?
Vá entender o mundo dos adultos. E dizer que, quando somos crianças, é nele que queremos chegar tão logo seja possível. Santa inocência.
Claro que é bom ir se orientando desde cedo. Bons pais não devem esconder as coisas das crianças, com as devidas adequações para cada idade. Mas a melhor recomendação a elas é: brinquem e se divirtam enquanto é tempo. A hora é agora. E nunca percam esse brilho nos olhos. Vão precisar muito dele logo ali na frente, e a vida toda.

É preciso 'sorver' a cidade

10 de outubro de 2014 0

Tenho singela participação nesta sexta-feira na programação da Feira do Livro, para o qual os leitores estão convidados. Fico disponível para um bate-papo às 13h, no Leiturário, sobre humanização da cidade. É um tema fascinante, mas que, de muito usada a expressão, corre o risco de ser levado assim, de forma automática, sem que se detalhe exatamente o que significa na prática uma cidade mais humana. E mais: essa humanização não raro é entendida como desnecessária, importando mais a cidade “funcionar”, isto é, oferecer respostas práticas e rápidas aos serviços necessários à população.
Esse “funcionamento” é de fato imprescindível. Mas o conceito de tal funcionalidade deve ser alargado, incluindo o convívio e a relação de cada um com a cidade, seus prédios, suas ruas, seus espaços públicos, seus moradores. Sem isso, nada feito: a cidade será apressada e sem graça, da casa para o trabalho, do trabalho para casa, porque não haverá outros atrativos. E de fato assim é: a cidade, como hoje ela se apresenta, é apressada, por força da insegurança e do estilo de nossos dias, mas também porque cai nessa armadilha.
Para ter à disposição uma cidade mais humana, é preciso a seus moradores sentir a cidade, “sorver a cidade”. É preciso ter espaços para desaceleração, o que aparentemente conflita com outra necessidade, de fluência e mobilidade. Existem algumas características centrais quando se fala na humanização de uma cidade. Uma das principais é o respeito ao pedestre, e mais espaço ao pedestre. Vê-se, portanto, que deixamos muito a desejar. Há pouco, abrimos mão do espaço para uma ciclovia, e a confinamos na Festa da Uva. O conceito da desaceleração precisa se espalhar, impregnar a cidade, no entanto, o que temos feito é caminhar no sentido inverso. Exigimos e buscamos mais rapidez.
Há poucos dias, realcei a existência de bancos para sentar e conversar na Avenida Júlio, entre Borges e Marquês do Herval. É um achado. Humanização senta no banco. Até sugeri mais bancos ao longo da Júlio. Esta semana, a cidade teve a grande notícia da assinatura de parceria para a Praça do Trem. Iniciativas assim são fundamentais, para mudar o paradigma, o jeito de ser cidade. Pois esse nosso jeito precisa entrar em discussão. É a isso que se propõe o singelo bate-papo programado para hoje na Feira. Passe por lá.

Os três reféns da Sinimbu

09 de outubro de 2014 2

É um desespero. Certamente que há ocorrências policiais ainda mais aterrorizantes, mas o sequestro-relâmpago, crime bastante comum em cidades médias e grandes, como Caxias do Sul, é desesperador. A vítima não está mais no controle de nada, deixa de manejar os rumos da própria vida. É como se o chão escapasse debaixo dos próprios pés, em especial quando se é gentilmente convidado a subir em um veículo, geralmente o seu próprio que está sendo roubado, rumo ao desconhecido. É como se você estivesse sendo abstraído da vida normal.
Habitualmente, o ladrão quer os cartões da vítima para uma ronda bancária, com o propósito de raspar o dinheiro das contas. E quando está investido da maldade absoluta, não é de descartar que se desfaça da vítima para não deixar testemunhas. Essa descrição sucinta, longe de sintetizar toda a dramaticidade da situação, pelo menos deixa antever a sensação de alívio que deve ter tomado conta de três reféns de dois assaltantes, que conduziram as vítimas até o caixa eletrônico de uma agência bancária em Lourdes, na Sinimbu. Não contavam os bandidos que policiais militares fossem suspeitar e intervir. Estava desmontado o aparato criminoso, e o momento em que se dá essa resolução do crime é de prostração, pernas bambas e agradecimento eterno. Com frequência, no entanto, os ladrões logo retornam às ruas, e carregam de novo os mesmos propósitos ameaçadores. Só trocam as vítimas.
As de Lourdes escaparam. Devem levantar as mãos para os céus e agradecer a Deus e aos abençoados policiais. Já não tinham o chão sob os pés e acabavam de pisar em terra firme outra vez. No entanto, tal tipo de ocorrência assim resolvida é, se não a excepcionalidade, pelo menos minoritária. A revelar que, nas condições que nos envolvem, o policiamento preventivo é uma bênção. Desta vez funcionou, mas sabemos bem das limitações que alcançam os órgãos de segurança pública.
Enquanto a vida passava frenética na Sinimbu às 10 da noite de segunda-feira, os três reféns renasciam. Essa é a sensação. E assim seguimos a cada dia, em cada esquina, apalpando cada momento na tentativa da proteção contra golpes traiçoeiros. Nesta quadra da existência, mais PMs nas ruas é o que nos resta, mas é improvável. E muita fé, claro, que a fé não costuma falhar.