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Nenhuma morte é banal

14 de abril de 2015 0

Fui atraído por aquela notícia quase de enxerido, atração facilitada pelo vácuo do momento. Quem lê tanta notícia?, já vaticinava Caetano Veloso nos longínquos Anos 60, meio século atrás. Mas era possível lê-la, ainda mais que, de soslaio, em uma averiguação preliminar das palavras que saltavam do texto, percebi tratar-se de um crime no Jardelino Ramos, Humberto de Campos com a Vinte, já na transição para Lourdes. Violência no Jardelino interessa-me em especial, já foi tema central de um livro que escrevi, pelas características que envolvem a região. Então fui conferir: “Homem é assassinado a tiros perto de casa”.
Notícias pequenas, de canto de página, costumam render bons assuntos para crônicas. Foi o que aconteceu. O pequeno texto de 12 linhas tinha uma informação preciosa sobre a vítima de 38 anos, assassinada com um tiro na cabeça às 11 e meia da noite de um sábado de outono: o homem era solteiro, sem filhos e desempregado. Com passagem pela polícia por delitos diversos, ele morava com um irmão no Jardelino Ramos. Ou seja, em um primeiro exame encharcado de desapego, foi possível cogitar: pouca gente irá sentir sua falta. Mas sempre há quem sinta.
Nesta época de banalização da violência, quando a posse de um prosaico pote de catchup em uma barraca de cachorro-quente transforma-se em motivo para ameaças e agressões, diante de nossa reveladora falta de habilidade para resolver conflitos, a morte de um homem em uma rua deserta tem grande potencial de passar sem repercussão. Mas o rapaz era solteiro, sem filhos e desempregado, detalhe que estimulou a especulação acerca de uma trajetória que chegava a um desfecho assim, aparentemente sem proximidades maiores, a não ser com um irmão.
É um engano. Qualquer trajetória é encharcada de vida, e não pode ser banalizada. A cada momento, há temores, incertezas, encontros, desencontros, algumas alegrias, sonhos tímidos, provavelmente muitas frustrações. Toda pessoa é capaz de esboçar algum sonho na adolescência. Tudo isso vai orientando ou desorientando uma vida, em combinação com escolhas acertadas e equivocadas até que os passos conduzem a uma esquina sombria em uma noite de outono. Então sobrevem o desfecho.
Nenhuma morte é banal. Mesmo no caso de um homem solteiro, sem filhos, desempregado e com passagem pela polícia.

Reduzir a maioridade penal só fará piorar

13 de abril de 2015 0

Cinquenta tons de cinza deveriam sugerir variadas possibilidades. O título do livro é feliz e didático. Na verdade, há infinitos tons de cinza, infinitas possibilidades, nuances, superposições. Mas algo está mal estruturado em uma modalidade generalizada de raciocínio e reflexão. De tal forma que sobram apenas o preto e o branco, o vermelho e o azul, a praga da grenalização disseminada de forma burra e avassaladora, como um sintoma de que algo vai muito mal. Deveria acender o sinal vermelho, mas nem assim nos alertamos da simplificação das visões de mundo massificadas que circulam por aí sem nenhum embaraço.
O preto e o branco estão presentes, como de praxe, no debate em torno da redução da maioridade penal. Identificar-se com uma das duas alternativas parece revestir a pessoa, automaticamente, de todo o pacote esquemático de ideias e concepções a respeito do assunto. Claro que não é assim.
De pronto, é preciso assinalar: reduzir a maioridade penal, mandar jovens entre 16 e 18 anos para os presídios, definitivamente não. É uma questão de racionalidade, de lógica elementar. Enviá-los às penitenciárias será contribuir decisivamente para que nossa realidade torne-se ainda mais violenta e insegura. Simples assim. Imagina-se ser desnecessário esmiuçar os argumentos, tamanha a simplicidade dessa questão. O que não significa defender a impunidade para essa faixa etária, como tantos simplificam.
Há jovens que sabem muito bem o que fazem e é preciso haver para eles a noção de consequência quanto aos atos praticados. Porém, a solução não é a redução da maioridade penal, lamentavelmente em vias de ser aprovada no Congresso. Deus nos livre e guarde. As consequências serão terríveis.
Aperfeiçoar as sanções já existentes ao jovem infrator, combinado com a qualificação básica dos centros de atendimento, é a tarefa da qual não podemos fugir. Claro, isso dá mais trabalho. Bem mais simples é baixar de alto abaixo a norma da redução da maioridade penal, e fim de papo. Porém, há a riqueza das possibilidades intermediárias, o que, no nosso estágio de convivência com ideias diferentes, é algo quase impensável. Antes tarde do que nunca, precisamos considerar sutilezas, detalhes, circunstâncias e o contexto na hora de pensar sobre o que nos acontece. Mas ainda é pedir demais. Não somos treinados para os tons de cinza.
A vida é simples, só não deve ser simplificada.

O que Roberta, grávida de 7 meses, tem a dizer

11 de abril de 2015 3

A moradora caxiense Roberta Mugnol de Oliveira recorreu ao jornal para tratar de um assunto essencial. Ela reside no bairro Cidade Industrial, está grávida de 7 meses e quer chamar atenção para a falta de gentileza e consideração com pessoas em situação especial no transporte coletivo. Vejam o que ela relata:
“O povo caxiense comenta bastante sobre a corrupção política. Mas devemos nos perguntar: estamos fazendo a nossa parte? Nosso país é construído e formado por nós, cidadãos. Estou no 7º mês de gestação, mas, quando entro no ônibus, as pessoas não cedem lugar preferencial, e pior: olham para fora da janela, colocam fones de ouvido, mexem no celular…
Como se não bastassem os passageiros individualistas e desumanos, os próprios cobradores que deveriam intermediar a situação negligenciam diante dela. Passo por isso todos os dias. Ontem (quarta-feira), pedi a intermediação de um cobrador, pois tinha medo de cair no ônibus, mas ele simplesmente se negou a ajudar.
Nós _ todos os que fazem jus ao banco preferencial _ somos assim: invisíveis no transporte público em Caxias do Sul.”
Roberta Mugnol de Oliveira.
A publicação de sua indignação neste espaço é feita com o sentido de chamar atenção para a consequência prática daquilo que já se sabe: essa falta de gentileza, de consideração, de respeito, combinada com a inércia de quem deveria tomar providências para garantir um direito já consagrado, do lugar preferencial, mas que deveria ser, antes de mais nada, um gesto espontâneo e educado das outras pessoas.
Não é privilégio de Caxias, é coisa do nosso tempo, embora existam cidades com ambientes mais predispostos a manifestações gentis e respeitosas, e outras não. A gentileza e os gestos de aproximação estão amortecidos pelo nosso tempo. Cada vez mais nosso ambiente competitivo e distante inibe a prática da gentileza, e assim vamos navegando _ no munto real, e não no virtual.
De concreto, fica o alerta, nesse caso específico, para a Visate fazer valer um banco para grávidas e outras pessoas com necessidades especiais. Mas não só a Visate. É preciso cada um, na convivência diária, forçar a retirada dos muros que afastam e distanciam as pessoas.

A esfinge Michel Temer

10 de abril de 2015 0

Chamam atenção a longevidade, a discrição, a trajetória e a imposição política de uma nome da república: Michel Temer. Tantos outros são preferidos pela imprensa, alçados aos holofotes, a uma superexposição e até à execração pública. Não é o caso de Temer, que encarna o perfil da raposa política, no melhor sentido da expressão.
Esta semana, essa imposição política se manifestou de forma categórica, se ainda havia alguma dúvida. Alçado à condição de articulador político do governo, único em condições de fazê-lo a ponto de controlar o PMDB e sua tinhosa bancada, Michel Temer surgiu no cenário para enquadrar o peemedebista rebelde _ se é que isso é possível _ Eduardo Cunha, presidente da Câmara.
Também esta semana, em outro fórum, nos salões da CIC, ninguém menos do que Pedro Simon vaticinou: Temer é o nome do PMDB para 2018. Ninguém tem dúvida sobre as credenciais de Simon para emitir declarações sobre o partido e a república. Pois também ele está se rendendo a Michel Temer. É uma façanha. Vale lembrar que o PMDB gaúcho, durante muito tempo, inflou-se de orgulho por diferenciar-se do PMDB do resto do país. Pois Temer, a cada aparição em solo gaúcho, tradicionalmente hostil ao PMDB nacional, não perde a elegância em suas manifestações, demonstra paciência e bom humor e vai consolidando seu espaço para transitar também aqui com o respeito político necessário.
A imprensa, as redes sociais e as manifestações de rua apontam o dedo para tantos políticos. É uma vocação. Mas não conseguem chamuscar Temer, até porque ele faz seus movimentos com relativo resguardo e preservação. Temer sempre foi alvo de muitas ressalvas, representante máximo de um PMDB interessado em cargos, que não arreda pé dos governos. Mas ninguém, imprensa, Ministério Público e Polícia Federal, nunca cavoucou uma irregularidade capaz de voltar-se contra ele. Temer, apesar de sua trajetória _ próxima e até orientadora desse PMDB de verniz fisiológico _ sugerir coisa bem diferente, mantém-se impoluto e irretocável, como os ternos que veste e sua expressão facial.
Pois esse Temer que é o próprio centro político em pessoa, equidistante de tudo, consolida-se no cenário nacional com imposição política e uma credibilidade em outros tempos improvável. É fruto de fazer as coisas com respeito, habilidade e sem cometer deslizes. É um político tradicional, mas raro, uma esfinge ainda por ser decifrada.

O desamparo de Cristiano, um cidadão como os demais

09 de abril de 2015 0

A coluna recebeu o desabafo de um morador do bairro Colina do Sol. Seu nome é Cristiano Lucena dos Santos da Fonseca, e ele trabalha no estoque de uma loja de ferramentas. Tais características não deixam dúvidas: é uma pessoa comum. Vejam o que ele conta:
“Preciso de uma vaga em uma escolinha infantil para minha filha, pois minha esposa e eu trabalhamos e, ainda assim, não temos condições de pagar uma escolinha particular. Há algum tempo, protocolei um pedido de vaga na Secretaria da Educação, mas não conseguimos. Fui informado que deveria procurar a Defensoria Pública. Passei a semana tentando ligar para a Defensoria por várias vezes seguidas, sem que ninguém atendesse. Depois de me informar com um e com outro, fui lá na sexta-feira, pois neste dia tenho um horário de trabalho menor. Depois de chegar lá às 8 horas e descobrir que abria às 9, esperei na fila. Descubro, então, pelo atendente que na sexta só recebem urgências. Perguntei se o telefone estava com problema. O rapaz me disse que não. Achei no mínimo um deboche, pois órgão público tem que ser acessível.” Cristiano Lucena dos Santos da Fonseca.
A situação é frequente. Cristiano não deixou um telefone ou um e-mail para conferir o desfecho da história. Não importa. Ele passou pela situação que descreveu desanimado, frustrado e com uma ponta de tristeza. Assim como ele, muitas pessoas tropeçam desorientadas no serviço público todo dia. Mas não só no serviço público. Nas empresas privadas também. Há, sim, bons e até ótimos funcionários. Mas a sensação é de que existe um exército de servidores _ é o que todos deveriam ser _ que não se comovem e não facilitam a vida do cidadão. E as repartições nas quais trabalham _ as empresas privadas também _ reproduzem ou veem cristalizadas essa cultura de desinformação e desinteresse. O que custa à Defensoria Pública informar bem claro a quem precisa do serviço que às sextas-feiras só são atendidas urgências? E o telefone, por que ninguém atende?
Além de tudo a que é submetido, insegurança, ônibus lotados, serviços precários, taxas e filas de todo o tipo, a pessoa comum sente-se desamparada. É uma história triste e deplorável. Quem se habilita a modificar esse cenário? Mudá-lo depende de uma postura respeitosa diante das pessoas e da vida.

Os alvos preferidos da nação

08 de abril de 2015 0

O Brasil ficou sabendo nesta terça-feira à noite quem venceu o BBB 15: o caipira César ou a suspirosa Amanda. Ambos faziam parte do grupo de espirituosos desta edição do Big Brohter. Também integravam esse time a cinquentona Marisa e o platônico Adrilles. Eram capazes de sacadas bem-humoradas e divertidas, algumas até inteligentes, mesmo em momentos tensos do programa. Eram capazes de surpreender.
Ao tecer tais considerações, algumas pessoas reagiam estupefatas e perplexas:
- Mas como? Você olha o Big Brother?
Olhar não é propriamente a expressão. Não altero o rumo dos afazeres pessoais para olhar o Big Brother. Mas também não me esquivo nem me escondo se cruzo na frente da tevê, como fazem questão de apregoar tantas pessoas, sobre quem o contato com o Big Brother parece ter efeitos contagiosos, para quem alardear que não passa perto do Big Brother parece se transformar em atestado de uma suposta idoneidade cultural e intelectual. Então desandam a desancar o BBB. E tem coisa bem pior na televisão brasileira, como uma série de programas ditos humorísticos, desrespeitosos e de mau gosto. Mas o alvo é o BBB. É ele quem confere um certo charme fácil e fajuto a quem faz a crítica.
Esse comportamento guarda alguma dose de semelhança com a reação de boa parte dos brasileiros diante da presidente Dilma Rousseff no momento. Estão aí as pesquisas de impopularidade da presidente. Para muitos, Dilma tem encarnado todos os males da nação. Como presidente, esse raciocínio automático até tem lógica, uma lógica presidencialista, mas nem sempre há relação direta de causa e efeito, da presidente Dilma com o malfeito ou a incompetência. Não importa, Dilma é o alvo de comentários e sentenças definitivas, que desconsideram ou ignoram sua história e trajetória. É pau na presidente Dilma, e supostamente fica comprovada a capacidade de alguém formular um raciocínio político e mais: de perceber de longe tramas insuspeitas como ninguém.
O BBB e a presidente Dilma personificam os alvos preferidos da nação: a Globo e os políticos, a ideia popular de poder. Mas é bom abrir o olho. Há muitos detalhes e sutilezas em jogo. Não é tão simplificado assim.

O Caxias precisa ficar desnorteado

07 de abril de 2015 5

Fracassos se oferecem como momentos de profunda introspeção. Podem ser individuais ou coletivos, pontuais ou prolongados. Esses últimos, mais especificamente, são fruto da falta de planejamento, do afrouxamento dos controles, da incapacidade de correção de rumos. Quando eles chegam, são relativamente anunciados, era uma consequência possível e previsível. Já os fracassos individuais podem ter causas episódicas, circunstanciais, até mais acidentais. Nos coletivos, essas causas são entrelaçadas, o que torna mais aguda a falta de planejamento e de providências. É o caso do Caxias, fulminado por um fracasso retumbante que começou cedo e só culminou agora, para tristeza profunda de seu apaixonado torcedor.
Fracassos desnorteiam. Nem pode ser diferente, e é preciso desnortear para que seja possível readquirir o norte sem a contaminação do fracasso recente. O Brasil já levou os 7 a 1, o Juventude fez uma viagem da Série A à Série D sem escalas. O momento é de escombros no Centenário. E agora, estrago consumado, é produtivo que assim seja.
É preciso consternar-se com o fracasso, sim. É direito adquirido. Sangrar, até chorar. Olhar em volta, ruminar, buscar e oferecer apoio aos parceiros de sempre, alcançados pelo infortúnio. Respirar fundo. Curtir o momento. As grandes perdas são momentos intensos, únicos. Devem, sim, ser curtidas. Mas também é preciso logo retomar a visão. E se alguma coisa tem utilidade no fracasso, é o efeito gerador da reação, que ele favorece. Limpar a área, começar de novo, começar do zero, vacinar-se contra os mesmos erros são algumas das possibilidades oferecidas por um fracasso.
Essa é a tarefa do Caxias a partir de agora. Talvez não necessariamente de imediato. Nem precisa ser. Ainda há muita poeira em meio aos escombros, ainda é compreensível que o momento seja de recolhimento, de prostração, de perplexidade, de dor. É preciso respeitar as etapas. Só é intransferível: daqui a pouco, é preciso fazer tudo o que não foi feito com a competência que se exige. No caso do Caxias, ao que parece, exige pensar bem antes, traçar uma estratégia sobre o que se quer para o futebol, como vai ser, e fazer como foi pensado. Chega de improvisação, que vem de há muito tempo. Sangrar agora, sim. Mas fazer bem feito logo depois.

Ponto número 1 é a valorização do pedestre

06 de abril de 2015 0

Ou é para valer, ou não é. A ideia de imprimir a Caxias do Sul uma face mais humana foi empunhada desde o início pela atual administração e tomara esse seja ainda um desafio a ser enfrentado e respondido. Mas não é a realidade do momento. Para se ter uma cidade mais humana, o ponto número 1 é a valorização do pedestre. Porque humaniza o trânsito na relação pessoa x carro, e o trânsito, a mobilidade, os deslocamentos, a movimentação nas ruas, tudo isso está no centro do funcionamento de uma cidade.
Então, se, nessa relação, a valorização pende para o pedestre, maravilha: há um processo de humanização da cidade em curso. Mas assim não é. Não há orientações administrativas, nem diretrizes, nem providências visíveis na direção da proteção ao pedestre. E não só isso: elas precisam ser ostensivas, para sinalizar, para dar a indicação de que numa cidade está se vivendo um outro tempo, um outro momento, um outro ambiente, de valorização da pessoa a partir de sua condição de mais fragilidade, de maior exposição na relação com os carros. Há dois casos emblemáticos a comprovar que persiste a desatenção e o desrespeito ao pedestre em Caxias.
Atendendo a uma justa mobilização, foi repintada uma faixa de segurança no trevo do HG, na BR-116. Claro que não é suficiente. Nenhum motorista para. Na Perimetral Norte há faixas de segurança. Claro que, também ali, nenhum motorista para. Nunca pararam. Passam voando. Ação ostensiva de proteção ao pedestre é identificar a condição de fragilidade e tomar a providência preventiva imediata, visível. Precisa mais no HG. Precisa muito mais nas perimetrais. De forma ostensiva.
O caso mais escandaloso é o dos motoristas que estacionam seus carros sobre calçadas. Deixam os veículos em fila, ao lado um do outro, não restando espaço para o pedestre em ruas movimentadas, a Pinheiro Machado e a Sinimbu. Bem no Centro. É o desrespeito completo. Aqui, é preciso que a autoridade de trânsito venha a público e deixe bem claro: isso não pode, será severamente fiscalizado, não vai prosseguir assim. Precisa uma ação ostensiva, emblemática, para não deixar dúvidas. Mas os carros sobre as calçadas proliferam, cada vez mais. Um sinal claro de que os motoristas sentem-se à vontade.
Respeito ao pedestre, não há. Humanização da cidade, não há. Ou é para valer, ou não é.

Pau que nasce torto pode desentortar

04 de abril de 2015 0

Em linguagem mais cuidadosa, são os adágios populares, ou simplesmente ditados. Diz o ditado: e aí vem uma compreensão popular sintetizada, ou simplificada, em poucas palavras. Em alguns casos, esse poder de síntese fruto da chamada “sabedoria popular” é algo digno de nota. Em outros, é simplificação pura.
Há três casos clássicos desses ditados populares que não dá para engolir, mas muita gente engole. “De boas intenções, o inferno está cheio.” Esse ditado poderia muito bem ter surgido no Brasil de hoje, na sociedade de hoje. Porque torna explícita nossa preocupação com o resultado. O que importa é o resultado da intenção, não a intenção. Ora, nada mais nobre, comovente e honesto do que a boa intenção, em especial aquela que, por um motivo ou por outro, não chegou a ser concretizada. Mas foi tentada. Suspeito, inclusive, de que não há boas intenções habitando o inferno. Boas intenções tentadas vão direto para o céu. É bem o contrário de nossos dias, quando o resultado tem de se manifestar e, se assim não for, não vale a pena.
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.” Essa é uma máxima do Barão de Itararé, e deve ser dada a ela o desconto do humor. Mas é um primor de presunção e desprezo. As sutilezas da vida e a boa compreensão da realidade não são privilégio daqueles “de onde mais se espera”. Longe disso. Então, é bom estar de ouvidos e olhos bem abertos, inclusive e especialmente perto daqueles “de onde menos se espera”.
O terceiro ditado é o mais anticristão e antipascal que conheço: “Pau que nasce torto morre torto”, tão ao gosto de quem prega que “bandido bom é bandido morto”. Até rimou. Em primeiro lugar, nenhum pau nasce torto. Pois tal ditado decreta a impossibilidade do renascimento. Jamais vai renascer, “morre torto”. Ora, “pau que nasce torto” pode desentortar. Isso é a Páscoa. O renascimento está ao alcance de qualquer um, em qualquer masmorra, em qualquer depósito de presos, a qualquer momento. São os mistérios da vida, que se esgueira pelas frestas, indiferente a quem acha que sabe tudo sobre ela.
A mensagem central da Páscoa é o renascimento. Quem despreza renascimentos, ou decreta impossibilidades, lamento, mas não entendeu nada.
Boa Páscoa a todos os leitores.

Liturgias são importantes, na Semana Santa ou na ordenação de um bispo

03 de abril de 2015 0

Liturgias são repletas de símbolos, de sinais exteriores, de respeito às formas, mas vão além do mero formalismo porque elas encerram conteúdos convencionados por um grupo específico, em geral por comunidades religiosas. Liturgias costumam contar, portanto, com a atenção respeitosa e compenetrada. Precisam, no entanto, ter sentido, fazer parte da vivência de uma comunidade, traduzir e simbolizar experiências reais.
Liturgia, aparentemente, é coisa de religião. Mas não só. Envolve aspectos, procedimentos, detalhes característicos a uma instituição, a uma cultura. Por isso se fala, por exemplo, em “liturgia do cargo”. Diz-se que um líder está à altura do cargo que ocupa quando seus atos estão em consonância com essa “liturgia do cargo”. Isto é, quando esse líder faz jus a ocupar um cargo por entender sua real dimensão. A revista Veja, surpreendentemente, rendeu-se à presidente Dilma Rousseff na solenidade de posse para o primeiro mandato e disse que ela cumpriu com louvor a liturgia do cargo. Isto é inacreditável, mas aconteceu.
Religiões são o universo dos símbolos. A cruz, e daí por diante. E a liturgia dá forma e curso a esses símbolos, unifica-os a ponto de dar um sentido, de funcionar como um discurso simbólico que é expressão de uma religiosidade, de uma crença, ou de objetivos nobres _ o bem-estar social, por exemplo. A Semana Santa está cheia de símbolos e da recuperação de fragmentos históricos por meio de encenações. A liturgia unifica as etapas dessa celebração central para a vida cristã, da Paixão e Morte até a Páscoa, favorecendo um sentido para toda a mensagem, isto é, para a devoção e significado da experiência da Páscoa.
Dias atrás, tivemos uma ordenação episcopal que até agora dá o que falar. Esteve repleta de liturgia e paramentos. Nada contra liturgias. Só que elas devem fazer parte da vivência de uma comunidade. Sem isso, assumem o peso da formalidade. Liturgia pode não fazer sentido a quem é externo a um grupo, mas tem sua importância, pois símbolos são poderosos. E, de preferência, devem ser leves e simples. Isto é, não devem pesar nem serem vistosas a ponto de ofuscar o conteúdo. São os cuidados para uma boa liturgia, na Semana Santa ou na ordenação de um bispo. Há os que não a compreendem, mas ela tem seu sentido.