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A foto que não foi vista

11 de novembro de 2014 0

O governador José Ivo Sartori desdenha do rumor que existe no meio político caxiense. Chamou de “questiúncula”. Passaram-se, no entanto, duas semanas de sua eleição para governador e uma “questiúncula” permanece intrigante. Há uma foto que não foi vista. E isso, é claro, tem seus significados. Efeitos que já se projetam sutilmente para 2016. Embora até lá, pela proximidade política dos protagonistas e pela habilidade de um deles em particular, Edson Néspolo, é bastante provável que a dificuldade criada seja bem administrada. Na política é assim, o tempo costuma colocar as coisas em seus lugares.
Quinta-feira passada, o governador eleito foi fazer uma visita oficial, que classificou de “cortesia”, ao prefeito de Porto Alegre, José Fortunati. Teve foto, é claro. Uma semana antes, o prefeito Alceu Barbosa Velho e seu chefe de gabinete, o já referido Néspolo, receberam a visita de um dos coordenadores da campanha de Sartori, ex-secretário das Finanças de Alceu, Carlos Búrigo. Tudo em casa, portanto, registrado com foto.
Na segunda-feira após a eleição, Sartori veio a Caxias comemorar o feito com os caxienses na Praça Dante. O prefeito Alceu retornara da Alemanha no sábado a tempo de votar em Sartori para governador e Dilma Rousseff para presidente, segundo declarou seu voto. Na segunda, Alceu passou a tarde conferindo as obras do SIM. À noite, no entanto, contrariando a tendência natural das coisas, não foi ao encontro de Sartori na praça. Esse detalhe passou quase despercebido.
Desde então, o que intriga é que Sartori e Alceu não se encontraram para a confraternização natural. Se isso ocorreu, não houve foto, pelo menos não se viu. As agendas não convergiram. Politicamente, é intrigante, porque a foto selaria o êxito da aliança entre PMDB e PDT caxiense, um trunfo para fortalecer e consolidar desde já esta via política para 2016. O PDT, inclusive, fez foto de seus principais líderes, Alceu entre eles, reunidos em apoio a Sartori. Mas desde então, peemedebistas representativos se queixam de que Alceu praticamente não participou da campanha de Sartori. Gerou mal-estar, não desceu nada bem.
A eleição deste ano deixou desdobramentos para a política caxiense. Talvez a foto ainda apareça. Até agora, no entanto, ela não foi vista.

Como se muda o mundo

10 de novembro de 2014 0

Hoje em dia, há outras formas de mudar o mundo. Elas têm a ver com a tecnologia, especialmente. A tecnologia revolucionou a forma de se comunicar, de aproximar as pessoas. O mundo era um, agora é outro. No entanto, a tecnologia sequer arranhou o coração das pessoas. E o que muda de verdade o mundo é o que toca o coração das pessoas. Temos aí um impasse, portanto, um sério paradoxo.
A tecnologia facilita o trânsito do conhecimento, da cultura e das boas ideias, mas também das más. A mensagem pode chegar mais rápido hoje, o que é útil. Mas o conteúdo delas… E, com mensagens mais rápidas e ao alcance da mão, perdeu-se interesse, ao que parece, na redução das distâncias físicas, o que não é nada bom. Quase tudo pode se resolver à distância.
Há um comercial de tevê, de um dos principais bancos privados do país, que enumera algumas atitudes politicamente corretas e carimba o bordão: “isso muda o mundo”. Então, conforme o tal comercial, andar de bicicleta “muda o mundo”, estimular uma criança a ler “muda o mundo”.
Vamos ser claros: solto assim, não muda. Uma criança pode aprender a ler e aprontar misérias ao longo da existência. Temos fartos exemplos. O que muda o mundo é a superação do individualismo. Simples assim. Isso muda o mundo. Sintomaticamente, esse enunciado não consta do comercial do banco. Para convencer alguém a superar o individualismo é preciso tocar o coração, fazê-lo abrir-se para a generosidade. Isso muda o mundo.
Hoje o mundo é outro por causa da tecnologia. Mas não mudou, porque tal transformação não interferiu na superação do individualismo. Há boas suspeitas de que se verificou o contrário. Em outros tempos, 1968 mudou o mundo, porque resultou em conquistas do comportamento e da cultura que aproximaram as pessoas. O envolvimento político dos jovens para derrubar ditaduras mudou o mundo, porque pensava nas liberdades coletivas.
Há 25 anos, a queda do Muro de Berlim mudou o mundo, porque derrubou uma barreira simbólica, apontou para outro tempo, de uma vivência unificada possível. Nos nossos dias, o que realmente pode mudar o mundo é a disseminação da cultura de paz, que trabalha o desarme de conflitos a partir da vivência de valores essenciais, como o respeito ao outro.
Mudar o mundo sempre será possível. Perdemos completamente o foco, no entanto.

Nem tudo cabe no Parque da Festa da Uva

08 de novembro de 2014 1

O Parque da Festa da Uva deve ser considerado com cuidado. Por esses dias, muito do que não tem lugar na cidade está sendo remetido diretamente ao parque. Agora foi o Presépio de Rolhas. Nem tudo, no entanto, deve parar na Festa da Uva.
Tudo que tem perfil turístico relaciona-se com a vocação do parque. Pode ir para lá. É o caso, essencialmente, das réplicas, do salão comunitário recentemente construído, com capela, o que fomenta, inclusive, o convívio comunitário a partir do parque, com DNA no parque. Missas estão sendo celebradas no último domingo de cada mês. É superválido. É o caso, também, de piqueniques com propósitos solidários que já se realizam no parque. A junção e o convívio se dão no parque, é lá que tais programações adquirem mais sentido. Vale também para a ideia de Réveillon que a prefeitura quer fazer este ano. Está associada ao parque, nascerá no parque, estará intimamente ligada ao parque.
Mas nem tudo deveria parar por lá. O que tem raiz comunitária em outras geografias da cidade, o que promove o convívio em outros endereços, seria muito bom que não fosse levado ao parque. No entanto, parece que basta surgir um impasse que de pronto a Festa da Uva é lembrada como depositária de atividades com alguma dificuldade para acontecer. Aí é ruim.
É o caso do já citado Presépio de Rolhas. Nasceu em Ana Rech, fortaleceu a comunidade de Ana Rech, lembra Ana Rech, mas agora se vai rumo ao parque. Porque houve um impasse, havia um custo de manutenção, na Festa será mais visto, é o que se argumenta. Mas deveria estar no coração de Ana Rech,valorizado, protegido, viabilizado pela comunidade, porque foi lá que nasceu. A ciclovia saiu da Perimetral aos domingos justo no momento em que essa via começava a receber sopros de humanização. Pois a Perimetral Norte agora é só dos carros. Os desfiles da Festa da Uva, volta e meia se tenta retirar da Sinimbu para levar ao parque. Seria o confinamento do espírito da Festa. Felizmente, a lucidez está prevalecendo e parece estar consolidada a ideia de que os desfiles devem ser na Sinimbu.
É preciso cuidado no tratamento ao parque. Nem tudo cabe no parque. Ele não pode servir de pretexto para enfraquecer outros vínculos comunitários e oportunidade de convívio.

Bandoleiros da cidade média

07 de novembro de 2014 2

Estar do lado de fora está cada vez mais arriscado. Sempre foi. Mas agora em Caxias do Sul, reta final de 2014, não basta manter-se distante da confusão. As balas vão procurar quem está distraído, absorvido pelas preocupações mais íntimas. Pode-se pagar um preço por estar alheio à movimentação ao redor, mas às vezes nem essa precaução adianta. As balas chegam assim mesmo.
“São os tempos”, é como se diz usualmente. Os tempos são outros, mais alucinantes, confusos e perigosos. Caxias do Sul, por exemplo, coleciona três balas perdidas recentes. Claro que as razões para as balas perdidas e todas as outras balas que cortam o ar, centenas delas, não são assim tão simplistas. Mas não está errado lançar mão do recurso retórico de que “são os tempos”. São mesmo, só que, apenas assim, é incompleto.
Então, andar na rua em Caxias tem os riscos adicionais da época. Antes, era mais o risco do assalto, ou de algum acidente maluco. Agora tem de estar atento às balas traiçoeiras. Que o digam uma professora no Fátima Baixo, um menino de 2 anos no Fátima Alto e agora uma menina de 16 anos no De Zorzi. Todos baleados a esmo.
Até há pouco, era raro uma bala perdida em Caxias. Agora tornou-se habitual. Resultado do maior volume de adeptos do crime, que saem as ruas como bandoleiros da cidade média, dos tempos modernos. O resultado são as balas possíveis em qualquer rua, a qualquer momento. Tempos atrás, até se dizia que a violência e a ação da bandidagem eram um reflexo torto das oportunidades desiguais, uma tese “romântica”, por assim dizer, mas incompleta. Hoje, a popularidade do crime é resultado da impunidade.
Os bandidos não são burros, fazem análise de cenário, traçam estratégias de médio e longo prazo. Quer dizer, escolhem a carreira, diante das facilidades reinantes e da estimativa de retorno com baixo risco. Como no mercado de trabalho, alguns são mais qualificados, porém outros nem tanto no manuseio das técnicas e ferramentas de trabalho, das relações estabelecidas e dos estilos de atuação. Como são cada vez mais numerosos e não temem os órgãos de segurança, os “acidentes de trabalho” e os conflitos se sucedem pelo caminho. Então as balas se extraviam por aí. Cada vez mais. Muito cuidado, portanto.

A cara de Caxias muda, para um lado e para o outro

06 de novembro de 2014 0

Caxias do Sul muda de cara em velocidade espantosa. Pode mudar de acordo com o vento dos entendimentos urbanos, dos sentimentos e sensibilidades, além, é claro, dos interesses econômicos. Aí é que está: a cidade muda de cara de acordo com a correlação de forças. Por isso, a mudança se dá em efeito-sanfona: ora humaniza, ora coloca dificuldades a essa humanização – para não falar simplesmente que desumaniza.
O efeito-sanfona é nítido, e um bom sinal. Porque antes era pior. Agora, tem a Praça do Trem, por exemplo, uma bela providência a ser executada em São Pelegrino em parceria entre poder público e iniciativa privada. Ao mesmo tempo, porém, duas torres imensas se erguem a obstaculizar os raios de sol e a visibilidade da população ao inconfundível cenário da Casa Rosa da Alfredo Chaves, que ficará tão somente na lembrança. A cara da cidade muda, para um lado e para o outro.
A explosão imobiliária faz a cidade mudar de cara, com prédios que saem do chão todo dia. E, com frequência, a um custo elevado, da mutilação do patrimônio histórico, como ocorre com a Casa Rosa, ou do patrimônio ambiental. Na Visconde de Pelotas, saíram as instalações históricas de uma vinícola e o espaço foi aberto aos veículos, com a extensão da rua. Na Pinheiro Machado, saiu um barranco para dar lugar à abertura da rua e a empreendimentos imobiliários. Na UCS, abriu-se novo acesso, que passou por cima de cinco pinheiros de 75 anos de idade.
Em Caxias, a cidade muda de cara rapidamente porque há poderio econômico. Agora surgem duas belas possibilidades, os aproveitamentos da Maesa e da unidade da antiga Metalúrgica Eberle, no Centro, para que possam funcionar como ponto de encontro e convívio para a população. Se assim for, serão dois gols de placa. A revitalização do prédio da Sinimbu, agora autorizada pela Câmara, só precisará cuidar do equilíbrio da preservação das características sem a supremacia de modernidades excessivas e das atividades comerciais para sua ocupação. De resto, a autorização é bem-vinda, pois o prédio se deteriora por décadas.
A cara de Caxias muda, hoje de forma mais equilibrada. É um avanço. Mas ainda é preciso humanizar bem mais, sem os atropelos que volta e meia mutilam a cidade.

A desproteção dos moradores das cidades

05 de novembro de 2014 0

Não é só Caxias do Sul, é qualquer cidade, com uma ou outra honrosa exceção. O morador está desprotegido quanto a acidentes elementares. Por si só, a situação é inaceitável, mas tem complemento acintoso: os riscos estariam prevenidos com ações básicas de órgãos públicos, operadoras de serviços e até de outros moradores. Os problemas estariam cortados na raiz se houvesse capacidade de iniciativa, de fiscalização e de controle. Como ela não existe, o cidadão fica abandonado, desrespeitado, sem ter sequer a quem recorrer.
Há três casos clássicos e prosaicos, todos eles presentes em Caxias do Sul.
A falta de calçadas: tivemos agora uma mulher fatalmente atropelada na BR-116. Além da falta de passarelas em pontos críticos, o trecho em pista simples, movimentadíssimo, que vai de São Romédio ao Planalto, não dispõe de calçadas. E é trecho urbano. Tem de dispor. Simples assim. É direito básico. Tarefa para a prefeitura em parceria com o Dnit – pois essa rodovia é federal, mas concentra trânsito pesado que corta os limites do território e da zona urbana caxiense. Essa situação híbrida atrapalha, mas não pode ser desculpa. O pedestre tem de ter o passeio público para que possa caminhar em segurança.
As más calçadas: quando elas existem, são esburacadas, cheias de ondulações e buracos, uma armadilha para os pedestres. Cabe à prefeitura e aos moradores consertá-las e zelar pela melhor condição. Não é difícil. Porém, os órgãos públicos se enredam na execução, na fiscalização, na cobrança.
Os fios e postes: perigam cair sobre a cabeça dos passantes, perigam energizar cercas e cabos metálicos, perigam, portanto, causar acidentes fatais. E o cidadão não dispõe de um canal ao qual recorrer. A Anatel não funciona. A prefeitura diz não ter essa atribuição de controle e cobrança. Sequer é possível identificar a qual operadora se dirigir. E, quando essa passo é vencido, a muito custo, com frequência a operadora simplesmente ignora ou despreza a demanda, em geral causada pela má prestação de serviços e consertos por empresas terceirizadas.
Falta de calçadas, péssimas calçadas, postes e fios que se tornam armadilha são necessidades mínimas do cotidiano, mas todas desrespeitadas.
É dura a vida do cidadão.

Os tapetes azul-violeta nas calçadas de Caxias do Sul

04 de novembro de 2014 1

A floração dos jacarandás, esse espetáculo magnífico que nos é dado presenciar gratuitamente neste momento, pela graça da vida, desvenda a diversidade de sentimentos, compreensões, posturas e estado de espírito de cada pessoa. Desvenda, igualmente, a variedade de reações diante das calçadas cobertas pelo tapete azul-violeta da flor do jacarandá, que se despetala e esvoaça no ar. Uns enxergam belezas, outros mero lixo que se acumula ou uma armadilha aos pedestres.
Primeiro, o espetáculo. Este final de semana que passou, ainda este dias, ontem e hoje, estão a presenciar o auge da temporada. Os velhos jacarandás de troncos úmidos encontram-se generosamente floridos por toda a cidade, em especial no Centro, e parte das flores já forma o tapete deslumbrante. Parado em uma sinaleira no sábado, testemunhei quando o para-brisa do carro recebeu duas dessas lindas flores que ali repousaram gentilmente. E assim, voltei orgulhoso para casa a ostentar o troféu no para-brisa do carro.
As reações são variadas, no entanto. Há aqueles para quem as flores a tecer o tapete azul-violeta representam um êxtase, e tudo o mais pode esperar, ou se ajustar. Há outro grupo que tem alguns de seus integrantes vigilantes, de vassoura em punho à primeira flor que despenca para tratar de varrê-la logo, pois correspondem as pétalas a mera sujeira ou risco de algum resvalão sobre a calçada. Grupo para quem o tapete de flores dá um trabalhão danado. Há os intermediários, aqueles que até reconhecem a beleza em evidência, mas se preocupam em igual medida com o risco de um tombo, um escorregão.
Particularmente, reconheço o risco de uma queda, pois as flores são material orgânico que se deteriora sobre calçadas úmidas. Porém, faço parte entusiasmadamente do time dos que entendem que tudo o mais deve se ajustar. É espetáculo breve e esporádico, então o melhor a fazer é chamar atenção para o encantamento e facilitar sua contemplação. Aliás, a Codeca deveria pensar sobre como proceder diante das flores dos jacarandás, inclusive com orientações preventivas para evitar quedas e acidentes, quem sabe em conjunto com a Secretaria de Turismo, para divulgar a imagem de Caxias do Sul como a cidade dos tapetes azul-violeta e atrair visitantes. Fica essa ideia, ainda que um tanto imaginosa. Mas o show dos jacarandás merece ser reconhecido e compartilhado.

Por que Sarney votou em Aécio

03 de novembro de 2014 1

Marcos Rolim, ex-PT, tem uma frase demolidora e definitiva que nunca foi repercutida como deveria: “O PT surgiu para mudar a política brasileira e a política brasileira mudou o PT.”
O caminho do PT era para ser outro. Nesse caso, talvez não houvesse os 12 anos petistas na Presidência, que se estenderão no mínimo por 16. Esse movimento se dá em três momentos. O mentor da guinada foi Lula quando percebeu que, sem um leque de apoios na sociedade, o partido nunca chegaria ao governo. E assim surgiu a carta ao povo brasileiro, assinada por ele em 2002, com o objetivo, entre outros, de acalmar o mercado financeiro.
Foi assim, pela porta aberta de um coração descuidado, na letra de um célebre samba de um sambista chamado Luiz Ayrão, a partir dessa compreensão de que o PT sozinho não seria capaz de governar, que foi entrando o PMDB de Michel Temer e José Sarney. Era a introdução e a assimilação nas hostes petistas de um conceito-chave para se materializar o que tão bem traduziu Marcos Rolim, este palavrão que é a governabilidade – algo necessário para os governos como resultado de uma interlocução séria e responsável, mas que, na vivência política nacional, transforma-se no pernicioso e execrável balcão de negócios, o toma lá dá cá. Logo depois, já no exercício do poder, o PT sucumbiu inapelavelmente a essa chamada governabilidade com a operacionalização do mensalão.
Foi assim, sob a vigência do raciocínio das vantagens imediatas e da preservação de espaços de poder, que figuras do calibre de um José Sarney, depois Paulo Maluf e hoje em dia até Fernando Collor se aproximaram do PT sob forma de apoio simples ou de negociação mais explícita, sob a tolerância dos líderes petistas. Por isso, alguns se surpreenderam com a suposta infidelidade de Sarney ao votar em Aécio Neves, flagrada em vídeo que, ao que tudo indica, é autêntico.
Ao observador mais atento e familiarizado com a história deste país, não há surpresa alguma. Sarney e os interesses que o PT um dia defendeu são como água e vinho. São conflitantes, não se misturam. Então será útil lembrar Rolim: a política brasileira mudou o PT. Não por acaso, alguns líderes petistas, como Tarso Genro, falam da necessidade de refundar o partido.

Quero morrer ouvindo música

01 de novembro de 2014 0

A norte-americana que alterou a data de sua morte não mudou a convicção. Paciente terminal de câncer, ela inicialmente estabeleceu este sábado como o dia da despedida. Em um segundo momento, reviu sua posição por entender que ainda se sente bem e pode, portanto, esperar mais alguns dias com a qualidade de vida possível antes que lhe advenha o sofrimento capital. Casualmente, esse debate em torno da morte coincide com o Dia de Finados e as homenagens que prestamos a nossos queridos que já se foram. É uma boa reflexão.
A norte-americana até mudou-se de Estado para poder estar ao abrigo da legislação ao fazer sua opção pela morte programada. Ela entende que, chamando para si o controle sobre o mistério e o momento da morte, chama atenção para o direito da “morte com dignidade”.
Nenhum reparo acerca do direito de cada um de optar por retirar a própria vida, ainda mais quando a lei protege essa opção. É uma questão pessoal, aquela que se convencionou chamar de foro íntimo. No entanto, vale especular acerca disso que está se chamando de morte com dignidade. Pressupõe que a morte naturalmente morrida não seria digna. Claro que a referência a uma eventual “morte sem dignidade” é dirigida àquela em que o paciente não tem a escolha de intervir, e então ela se dá com sofrimento. Mas porque não teria dignidade esse tipo de morte? Ainda mais se viver até a última gota for, mesmo assim, uma opção consciente da pessoa.
No que me toca, aliás, é a minha preferência. Tempos atrás, ouvi de um religioso ancião, colega meu de igreja, íntimo das questões da vida e da morte, a seguinte frase solta: “Vou, mas vou sob protesto.” A interpretação desse fragmento é uma ardente devoção a essa vida terrena tão cheia de imperfeições, um atestado eloquente de gratidão. Gracias a la vida, portanto. Chega a ser comovedor. Alinho-me com o ancião. Talvez lá na frente mude de ideia, mas hoje digo que quero viver até a última gota, até a última experiência sensorial que esta vida me oferecer. Não quero saber de abreviar nada. Aliás, quero morrer ouvindo música em fone de ouvido, uma melodia suave a embalar o percurso inexorável até o outro lado da fronteira.
É só a minha percepção dessas questões da vida e da morte, sem pretensão de convencer ninguém. Essa seria a minha “morte com dignidade”.

Nossas escolhas e o fim da linha

31 de outubro de 2014 0

As trajetórias de cada um, sabe-se lá onde vão chegar. Elas são orientadas por escolhas e circunstâncias a cada momento, durante toda uma vida. Orientadas, não raro, por estar no lugar errado na hora errada. Há nessas trajetórias os rituais de passagem, em geral instantes solenes que dão formalidade a escolhas anteriores, esses sim momentos cruciais de uma existência. Até chegar ao fim da linha. Para cada trajetória, permeada por uma infinidade de escolhas, há um fim de linha. No trânsito, eles são frequentes. E trágicos.
Nos Estados Unidos, uma paciente terminal marcou a data do fim da linha para amanhã. É mais radical, o controle até sobre o que habitualmente é insondável, a resposta racional como antídoto a um provável sofrimento. É um fim de linha asséptico e programado, sem surpresas.
Em uma cadeia paulista, no Tremembé, as escolhas de agora direcionarão o fim de algumas linhas. Suzane von Richtofen, que idealizou a morte dos pais, casou-se com Sandrão, ex-namorada de Elize Matsunaga, que matou e esquartejou o marido. Sandrão, presa por sequestro e morte de um adolescente, terminou com uma para casar com a outra. São escolhas de peso. É o famoso triângulo amoroso, que vigora mesmo dentro da prisão. Lá adiante, haverá o fim da linha para cada uma, condicionado pelas escolhas de agora.
Em Caxias do Sul, houve um fim de linha não desejado para uma mulher, inevitavelmente mediado por escolhas anteriores. Deu-se perto de uma estrada deserta de chão batido que leva à 5ª Légua, próxima a uma localidade chamada emblematicamente de Nossa Senhora da Maternidade. Foi lá, atirado ao chão, que o corpo foi desovado depois de requintes de crueldade, sem as mãos, que foram decepadas. Ao lado do corpo, um sapatinho de bebê a compor o cenário. Um caso literal de fim de linha, macabro e desumano, composto por um ambiente e forma cruéis, não-imaginados nem nos piores pensamentos. Como se vê, há pessoas entre nós capazes de fabricar fins de linha meticulosos, dramáticos e macabros.
Você está seguro de suas escolhas, das escolhas que fará hoje? São elas, em combinação com as circunstâncias, que direcionam o fim da linha de uma existência. Que sejam dignos esses epílogos, é o que se espera. Mas nem sempre é assim.