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A criança baleada e o homem espancado

17 de julho de 2015 4

O que se tenta fazer é ocupar uma posição na trincheira. Não há ilusões sobre mudar o mundo de uma hora para outra com algumas crônicas, que tentam influenciar na contramão do que se vê na realidade diária de uma cidade de meio milhão de habitantes. Pode até soar um tanto quixotesco. Mas, como se disse, o que se busca é ocupar uma posição na trincheira. Já é alguma coisa.
Não vamos solucionar os dramas da violência e da insegurança apenas com o policiamento. Não resta dúvida de que policiamento nas ruas é importante. Especialmente pelo aspecto inibitório à violência. Porém, os policiais não são onipresentes, e o crime conta com o fator-surpresa, basta o policial virar as costas. Mais policiais, no entanto, ajudam a criar um ambiente, é essa é a ferramenta central para golpear a violência e a insegurança: construir um outro ambiente, no qual se reduza e se elimine a extensão de campo fértil para a violência, que hoje é um vasto latifúndio.
Nessa questão do ambiente, mais policiamento cria um ambiente ostensivo ou, como se disse, inibitório à violência. Claro que ajuda. Porém, essa é uma via limitada _ que o diga o Governo do Estado, que cortou horas-extras dos policiais, que não nomeia, que não prevê aumento de salário para o funcionalismo, policiais incluídos, em 2016.
Mas há a outra via para criação de outro ambiente que retira o campo fértil para a violência. Por esse caminho, passa o estímulo a valores cooperativos, menos competitivos, mais conversados, menos agressivos, mais disponíveis à convergência, mais disponíveis a ouvir e a conviver. É um outro mundo, em quase tudo diferente do que se vê por aí. É um caminho longo, mas poderoso e que precisa ser percorrido.
No ambiente ao qual nos acostumamos, o dia de ontem foi lamentável: um rapaz agredido a socos e pauladas em plena Avenida Júlio no início da madrugada, uma menina de 12 anos inexplicavelmente baleada no bairro Pio X quando ia para a catequese. Criança baleada é triste demais, não tem salvação. Essas são ocorrências primitivas, selvagens, mas florescem no ambiente que construímos em torno de uma cidade de meio milhão de apressados habitantes.
Mais policiamento nas ruas, sim. Mas se não estivermos dispostos a construir um outro ambiente, nada feito. A violência e a insegurança persistirão, porque não terá mudado o ambiente do cada um por si. A escolha é nossa.

Esses símbolos incompreensíveis no asfalto

16 de julho de 2015 0

Há alguns sinais incompreensíveis pintados no asfalto nas ruas de Caxias do Sul. São retângulos brancos pintados paralelamente, intercalados e contrastados por outros retângulos sem pintura, em que transparece a cor habitual do asfalto. Esses sinais surgem do nada. Você vai trafegando com seu carro e, não mais que de repente, aparece uma dessas pinturas à sua frente, como se fosse uma arte urbana de formas geométricas, mas elas não têm serventia alguma. Diante delas, ninguém adota qualquer mudança de comportamento, nenhum pedestre caminha por elas, até porque ninguém é louco. Essas faixas excêntricas existem, por exemplo, na Ludovico Cavinato, na Jacob Luchesi, na Perimetral Norte. Porém, esses símbolos incompreensíveis são ignorados 99% das vezes.
Caxias faz de conta que tem faixa de segurança. Nas esquinas do Centro, em condições muito especiais de temperatura e pressão, algum motorista ainda faz a reverência necessária ao pedestre. Mas leva a buzinada de praxe. Agora esses tapetes pincelados na pista, especialmente em vias de deslocamento rápido, em que o asfalto é elemento convidativo à velocidade, esses são sumariamente ignorados, sem chance.
Qualquer cidade onde a faixa de segurança não é respeitada, Caxias do Sul entre elas, deveria anunciar esse equipamento protetivo universal solenemente, de forma ostensiva, com placas indicativas graduais, do tipo “em 100 metros, faixa de segurança”, mais pintura marcante e refletiva. Ou deveria haver controle eletrônico sobre invasores de faixa. Do jeito que está, a faixa não vale nada. Deveria haver também campanhas educativas maciças. Só não vamos falar de fiscalização porque isso é devaneio, com cinquenta e poucos fiscais.
Caxias instalou a primeira das 60 sinaleiras adquiridas para pedestre esta semana, nas imediações da Escola Municipal Arnaldo Ballvê, no bairro Santa Lúcia. É uma boa iniciativa. Sintomaticamente, porém, uma mulher foi atropelada a algumas quadras dali, na Jacob Luchesi, uma rua que virou pista de corrida depois que ganhou asfalto. O pedestre é um estorvo nessas ruas de símbolos incompreensíveis no asfalto. Mas proteger o pedestre não se faz com ações isoladas.
Proteger o pedestre só se verifica quando for uma cultura, uma diretriz, com ações simultâneas e incansáveis para buscar esse objetivo. Ou é para valer, ou não é. Em Caxias do Sul, não é. A faixa não vale nada. Para que existe, então?

Campo fértil para a morte

15 de julho de 2015 0

Em algum momento, em algum lugar, deu-se o estalo: impôs-se a decisão de matar no espírito e na mente de uma pessoa determinada, quem sabe mais de uma, em consenso de vontades. E a roda das intenções começou a girar. Certamente que esta etapa, da decisão tomada até tudo acontecer, não é demorada nos maus espíritos. E as providências começaram a ser tomadas até o carro ser abordado no meio de uma via meio rua, meio estrada, na região do Portal da Maestra, posterior ao bairro Cânyon. Então os tiros, um para cada pessoa, foram desferidos de forma fria, mortal, sem hesitação.
Foram duas execuções: um rapaz de 26 anos, uma mulher de 30. No desfecho trágico de duas vidas em uma tarde de domingo, um corpo ficou sobre o outro dentro de um Escort, o rádio do carro a tocar, o locutor a falar sem saber que sua voz já não era mais ouvida e ecoava para ninguém ali naquele cenário. Pelo histórico do encadeamento dos fatos e relações que a polícia dispõe até agora, o rapaz tinha antecedentes criminais por tráfico. E tudo se encaminha para um acerto de contas em que, aparentemente, a jovem estava na hora errada, no lugar errado. Quem sabe resultado de escolhas erradas, mas isso, apesar da gravidade e da culminância dos episódios, ninguém poderá garantir com plena segurança.
O fato é que, em algum momento, em algum lugar perto de nós, cintilou a ideia da morte e passou-se às providências de ordem prática: a arma, a informação sobre o roteiro do alvo, a escolha pelo encontro, pelo percurso, pela abordagem, ou tudo não passou de uma mera circunstância ocasional como faísca. Mas todo esse enredo, com ou sem planejamento, desenrolou-se em um domingo, enquanto milhares de outras vidas seguiam seu curso natural até a segunda-feira. A ideia da morte como consequência para desavenças pessoais teve campo fértil para ser fermentada e se impor. E se impôs.
Campo fértil para a morte, essa é uma questão crucial. Esse campo tem largos horizontes em nossos dias de muita tecnologia e falta de habilidade para o convívio e o entendimento. Está presente em espíritos inclinados para o conflito, agressivos, violentos, mas também nos ambientes que forjam esses espíritos, ambientes, aliás, que nos são familiares.
Então é só cintilar a ideia da morte, e mais um estrago está feito. Mais hora, menos hora, a ideia cintila de novo. E ninguém a deterá.

As escolhas que a cidade faz

14 de julho de 2015 1

Que fique bem registrado: Caxias faz seus investimentos em lazer e em espaços para a convivência. Tem muitas praças revitalizadas pelos bairros, alguns espaços importantes. As Ameis, isto é, as academias da melhor idade, mais de 50 em todo o município, são uma iniciativa valiosa para a qualidade de vida de nossos idosos, especialmente. Interessante destacar que não chegam a ser registrados atos de vandalismo significativos nessas academias, cujos equipamentos ficam ao ar livre. Uma pista de que uma outra cidade é possível.
Mas falta escolha definitiva, a opção vital, a diretriz estratégica de incorporar o lazer e a convivência ao DNA da cidade. Se assim fosse, todas as ações seriam naturalmente orientadas, por gravidade, para o incentivo e o impulso ao lazer e à convivência. Mas o DNA de Caxias é outro, as escolhas centrais da cidade têm outro rumo, vão em outra direção.
Se a convivência e o lazer fossem centrais e vitais, quer dizer, se fossem considerados verdadeiramente importantes, a cidade trataria de oferecer ainda mais espaço para essas nobres atividades. Por exemplo, um só: a Perimetral Norte seria garantida como um espaço emblemático para a prática de atividades esportivas, como até esboçou ser um dia, com a criação de uma ciclovia. Receberia atividades de lazer aos domingos em pelo menos uma das faixas, no lugar dos carros, que circulariam uma vez na semana pela outra pista, em duas mãos. Os carros cederiam espaço para o lazer, com o simbolismo que isso deve ter. Mas não: a ciclovia saiu de lá, foi confinada na Festa da Uva, a Perimetral inteira voltou para os carros, voltou a ficar sem graça. E assim poderia e deveria ser em outras regiões da cidade.
Se a convivência e o lazer fossem escolhas da cidade, esses espaços e essas práticas estariam facilitadas e disseminadas pelos quadrantes urbanos. Seriam estimuladas. A cidade se encheria de gente pelas ruas, pulsaria mais e, por tabela, se tornaria menos insegura, relação que nem todos conseguem fazer. Se as associações de bairros fechassem ruas para atividades comunitárias, para o encontro e o convívio dos moradores, estariam fazendo uma revolução e seriam mais fortes.
Mas essa ficha não cai, e as pessoas vão sendo afugentadas para dentro de suas casas. Uma pena.

A Avenida Júlio está atirada

13 de julho de 2015 3

Neste sábado à noite, surpreendi-me percorrendo a Avenida Júlio, de Lourdes a São Pelegrino. O cenário é desolador e desanimador. Não é à toa que se encontram travestis em trajes sumários em muitas esquinas. Na passada, as pessoas bem vestidas que se aglomeravam na entrada do baile de escolha da Glamour Girl criavam uma efervescência isolada, ocasional, sintomática de um Centro que há muito perdeu a vitalidade.
A Avenida Júlio, à noite, está atirada. Nenhum sinal de cuidado, nenhum sinal de esmero com nossa principal avenida, que deveria ser distinguida com o glamour dos espaços que adquirem centralidade na vida de uma cidade. Esse desleixo com o Centro não é exclusividade de Caxias, senão que da maioria das cidades brasileiras. Mas é incompreensível esse desapego urbano da parte das administrações. E Caxias não foge à regra.
Os sinais mais estridentes partem dos postes que deveriam funcionar como elemento de decoração diferenciada para a área central e para isso foram instalados há 13 anos. E é o que basta. É sinal eloquente do descaso. Entre a Alfredo Chaves e a Marechal Floriano, há de tudo. Há postes completamente arrancados e que não foram repostos, outros em que ficou apenas o pedestal verde, em ferro. Há postes com o bojo pendente, como que cambaleantes, e que ali ficam por anos sem receber socorro. Há trechos sem postes, em que faltam três ou quatro deles. Há quadras que alternam um lado da calçada com postes e outro sem. Tem aqueles em que a luminária está simplesmente apagada. Há postes com luz amarela e outros com luz branca, dispostos aleatoriamente, sem nenhuma lógica estética, com luminosidades disformes, como se fossem remendos. E, para completar, todas as pantográficas das vitrines das lojas cerradas completamente. A insegurança vem a galope. É um cenário deprimente. Não há motivos para ir ao Centro. Atrativo nenhum. Pela Júlio, apenas passam pessoas que, por algum motivo circunstancial, precisam se utilizar dela. E só.
Se não há projetos urbanos para qualificar a avenida, que pelo menos se perceba o capricho de mantê-la bem cuidada e apresentável. Não custa muito, só um pouco de atenção. Esse maltrato todo é uma estrondosa injustiça que a cidade comete com sua principal avenida. A Júlio não merecia isso.

Lá no início, era o temor do câncer

11 de julho de 2015 1

Lá no início, o que se temia era que o celular causasse câncer. Mais exatamente, a radiação emitida por ele. De fato, quando se falava naqueles tijolos que eram os primeiros aparelhos, sentia-se o aquecimento produzido pelo celular quando em uso mais prolongado. Quase não se fala mais sobre aquele temor, e nunca ficou suficientemente esclarecido se havia razões para ele ou não. Àquela época, não se cogitava sobre os efeitos prodigiosos da evolução de celular nem sobre outras consequências prejudiciais que viriam depois.
A principal delas, sabe-se muito bem agora, é a devoção exorbitante ao celular, que evoluiu para o smartphone. As pessoas se apartam do lugar e das companhias que a cercam, com prejuízos à convivência, bem como ao estilo de vida. Prosperou uma noção maluca de que devemos estar à disposição de todas as pessoas o tempo todo. Então o celular deve ser onipresente. E está em curso uma evolução do “carimbador maluco” de Raul Seixas para o “digitador maluco”, que batuca sem parar nas teclas do smartphone, de olho o tempo todo nas janelinhas virtuais que se abrem no aparelho, quando as janelas reais são muito mais encantadoras e fascinantes.
Outro perigo é a utilização do celular onde quer que se esteja. Inclusive, atrás do volante ou quando se caminha na rua. É risco de acidente grave. E aos poucos, com a sofisticação tecnológica, o celular virou artigo de ostentação e moeda valiosa do crime. Essas duas características convergem para o perigo, pela exposição incontrolável dos aparelhinhos mais modernos e a espreita dos espertalhões. Na ocorrência extrema, pode funcionar como isca e resultar em adolescentes feridos de morte ou gravemente na saída de colégios, como se viu agora em Bento e Porto Alegre. Resulta em dor e tristeza, em combinação com a falta de policiamento, é claro.
O celular, o smartphone e o que mais vier abrem incríveis possibilidades. Mais do que nunca, no entanto, é bom domesticar esses equipamentos. Não lhes devemos submissão permanente. É valiosa orientação de vida, para cultivar nossas melhores relações por meio do olho no olho e como ação preventiva contra acidentes e a violência urbana. E, quando necessário, com cautelas e sem excessos, o celular está liberado, com toda tranquilidade.

Que tal convidar os gregos para um chimarrão?

10 de julho de 2015 0

Neste momento crítico, temos uma oportunidade pedagógica para visualizar o que significa concretamente o nosso velho conhecido “fim da linha”. Ou como os problemas são repassados para quem está lá na ponta. A grave crise das finanças públicas transfere seus efeitos para áreas ultrassensíveis, como saúde e segurança, por exemplo. Educação também, é claro. Chegou a hora de cortar ainda mais para tentar uma improvável resposta à equação das contas públicas, e o que se vê é corte de horas-extras para o policiamento, suspensão de nomeações de policiais, cortes de repasses para hospitais _ imaginem! _ que agora são obrigados a cortar atendimentos ou serviços.
A situação atual também é didática para entender o que se passa na Grécia, de que tanto ouvimos falar. Por lá, o governo, amparado pela população que se manifestou em plebiscito, tratou de estabelecer fronteiras para o ajuste fiscal, as quais não serão ultrapassadas. Isto é, definiu a partir de onde o povo não irá tolerar mais sacrifícios para transferir recursos aos credores.
Os gregos poderiam dar uma dica aos gaúchos sobre quais limites são esses, e como se faz. Por aqui, o governo já tentou parcelar o pagamento de salário aos servidores e reduziu o repasse aos hospitais. O resultado é que os prejudicados começaram a buscar a Justiça. Essa judicialização é ruim, mas ao mesmo tempo é boa. É ruim porque expõe a que ponto chegamos, o Judiciário dizendo para onde o Executivo deve destinar recursos. É bom porque é provável que os hospitais recuperem repasses por ordem da Justiça, para alívio de pacientes e famílias, é bom porque os salários ficam protegidos. É bom porque não vai caber tudo na conta dos recursos públicos, e talvez só assim se discuta olho no olho sobre o que fazer, o que priorizar.
O presidente do TJ não gostou que o governo anuncia congelamento orçamentário para os demais poderes para 2016. É daí de dentro desse estoque do esfarrapado cofre gaúcho que são pagos ótimos salários, o auxílio-moradia de R$ 4,3 mil ao mês e o auxílio-alimentação, aquele retroativo. É bom, então, que se esparrame tudo sobre a mesa para ver o que será pago antes. Porque, até agora, os privilégios para quem ganha mais são pagos sem vacilos, sob argumento de que é efeito-cascata, então tem de pagar e pronto. Mas repasses para os hospitais precisam ser brigados na Justiça.
Que tal convidar os gregos para um chimarrão?

Dr. Romário e a taxa de disponibilidade

09 de julho de 2015 2

Ah, os tempos! Mudam vertiginosos, e não é apenas por causa da tecnologia. Mudou o espírito dos tempos. Tempo não tem espírito, alguém dirá, mas cada época tem o seu, sim, um espírito coletivo, e me dou conta de que talvez esteja a sugerir uma categoria nova: o espírito dos tempos.
Pois bem, naquele tempo havia o médico comunitário. Ele tinha nome na minha cidade naqueles Anos 60 e 70: Dr. Romário Araújo de Oliveira. Toda a clientela que hoje vai ao SUS recorria ao Dr. Romário. “Igual a esse não vai ter outro”, comenta minha esposa, em resposta a uma informação que solicito sobre Dr. Romário para melhor compor seu perfil. Para logo completar: “Naquele tempo, ser médico era uma missão.” Dr. Romário não cobrava dos pobres. Se vivo fosse, seria hoje uma pedra no sapato da categoria.
De passos miúdos, caminhar corcunda, inclinado para frente e mãos nos bolsos do avental branco, era clínico geral e médico parturiente. A sala de espera de seu consultório estava sempre apinhada de gente humilde, que se esparramava do lado de fora, na Rua Venâncio Aires. Conta a lenda que o Alegrete inteiro nasceu pelas mãos de Dr. Romário. Exagero, pois ele não conseguia ser onipresente na maternidade. Mas era quase isso. Particularmente, fui um dos que nasceu pelas mãos do Dr. Romário. Uma cesariana, e era aqui que pretendia chegar.
Os tempos mudaram. O espírito de nosso tempo é outro. Os médicos já não conseguem dar a atenção integral a seus pacientes, teremos de compreender. Os pacientes aumentaram em número, de tal forma que aumentou a demanda dos médicos e eles passaram a cobrar a tal taxa de disponibilidade. E chegamos ao impasse atual: cesariana só com taxa de disponibilidade. Os tempos, talvez, é que não tenham se adequado ao espírito da medicina, uma vez que os bebês não têm hora para nascer, e isso está no pacote de quem escolhe a profissão. Então a Câmara resolve realizar uma audiência pública para discutir a tal taxa de disponibilidade para as cesarianas, mas os planos de saúde não estavam representados. E os médicos se apressam em sugerir: “cobrem dos planos”. Simples assim.
Enfim, os tempos são outros. Mas uma coisa é certa, a qualquer tempo: Dr. Romário jamais cobrou ou cobraria uma taxa de disponibilidade. Ele ajudou a construir o espírito de seu tempo.

Para ser justo com Leonardo Boff

08 de julho de 2015 4

Primeiro foi Jô Soares, que caiu em desgraça depois de entrevistar a presidente Dilma. Agora temos uma versão regional: Leonardo Boff, outrora frei, entendendo-se por regional a geografia em que a desinteligência aconteceu. Caiu ele na asneira de defender o presidente Lula, e pronto: passou a levar torpedo de tudo quanto é lado.
Aos mais afoitos, informo de pronto que não tecerei consideração de mérito sobre as declarações de Boff acerca do PT e de Lula. Portanto, desse pecado, de enveredar pelo rumo político da prosa, não poderei ser acusado. Minha preocupação é outra: assim como Jô, Boff passou a ser desqualificado por alguns – não todos, felizmente – por conta de opiniões ou suposições políticas. E, por extensão, sua vasta obra. Individualistas de carteirinha, do alto de uma visão restrita, singular e toda particular das coisas e da política, sentiram-se à vontade para passar um bom pito em Boff.
Dito isso, cabe lembrar que o teólogo Leonardo Boff é autor de mais de 60 livros em áreas como Teologia, Antropologia, Filosofia e meio ambiente, entre outras. É nome respeitado nos meios acadêmico, social e em diversos fóruns internacionais. Na área da Teologia, lançou as bases da chamada Teologia da Libertação, que se aproxima de uma visão marxista da realidade e do protagonismo da pessoa humana, mas com o singelo diferencial de contemplar o carisma da espiritualidade. Teologia essa que encontrou representatividade no âmbito da Igreja Católica, a ponto de gerar imensa polêmica. Por causa de um de seus principais livros nesta área, Igreja, Carisma e Poder, foi silenciado pelo então cardeal conservador Ratzinger, mais tarde Bento XVI.
Hoje em dia, muito mais do que transitar no terreno político propriamente dito, Boff advoga a tese de uma ampla transformação no planeta e defende a necessidade de uma tomada de consciência sobre essa “casa comum”, onde todos os seres vivos devem ser responsáveis por ela.
A crítica política a Boff é absolutamente legítima. Quem sai na chuva é pra se molhar. O pensamento político de Boff também é totalmente legítimo. Enquanto estivermos dentro desses parâmetros, está tudo bem. Só o que não pode é a desqualificação de quem quer que seja – A, B, C ou D – por causa das posições políticas que defende.

A revolução da convivência

07 de julho de 2015 0

A oferta por espaços de lazer na cidade não dá conta da demanda. Vai melhorar agora com a Praça do Trem, mas seguirá insuficiente. É preciso investimentos maciços em espaços de lazer. Essa é uma opção estratégica para os governos que alguns adotam, mas a maioria não. Caxias do Sul ainda adota timidamente, pode fazer bem mais.
Pois a oferta desses espaços não dá conta da demanda aqui em Caxias. Neste domingo de sol intenso, céu limpo e a temperatura possível, mas dentro dos parâmetros da civilidade, muitos caxienses foram aos parques e espaços de lazer. Os caxienses anseiam por lugares onde se esparramar, onde conviver. A Festa da Uva estava cheia de gente, a UCS também, o Macaquinhos e a Lagoa do Rizzo. O Jardim Botânico esteve assim no sábado e no domingo. Mas vejam que é muito pouco. Não tem muito mais do que isso em termos de alternativa.
É bonito de ver esses espaços públicos cheios de gente, interagindo, convivendo, gente que não se conhece engatando uma boa conversa. É boa dica para a Maesa. O investimento em espaços de lazer e pontos de encontro é, portanto, decisivo. Quando maciço, é capaz de mudar a cara de uma cidade. É anunciado para breve um megaparque em Caxias, que está sendo chamado de Ecoparque, na região do Jardim Botânico e das barragens do Dal Bó. Quando concretizado, será sensacional.
Por ora, no entanto, ainda há grandes extensões de cidade sem atrativos de lazer. Fazer e qualificar praças e espaços comunitários em bairros é a resposta básica e necessária. Precisa de mais em Caxias. A pracinha da Rua Botafogo, no bairro Universitário, é exemplo clássico. Abandonada há anos, ela é mais aproveitada por desocupados, e torna-se foco de insegurança. É didático
Outro exemplo clássico e premente, uma dívida social histórica, é um espaço de convívio para os moradores do Jardelino Ramos, do São Vicente, do Jardim América. Espaço há, um espaço nobre. A comunidade merece. No entanto, é particular, demanda investimento. Nesse ponto, é preciso a coragem do administrador. A relação custo-benefício fala por si, qualifica a cidade e a vida das pessoas. Por isso se diz: investir em lazer e em espaços de convivência é opção estratégica para os governos. Às vezes, bastam ideias simples. Em outras, a convicção da importância do investimento. Mas é escolha com retorno garantido.
Caxias pode – e deve – estimular mais pontos de encontro por toda a cidade. É uma revolução.