Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Os três reféns da Sinimbu

09 de outubro de 2014 2

É um desespero. Certamente que há ocorrências policiais ainda mais aterrorizantes, mas o sequestro-relâmpago, crime bastante comum em cidades médias e grandes, como Caxias do Sul, é desesperador. A vítima não está mais no controle de nada, deixa de manejar os rumos da própria vida. É como se o chão escapasse debaixo dos próprios pés, em especial quando se é gentilmente convidado a subir em um veículo, geralmente o seu próprio que está sendo roubado, rumo ao desconhecido. É como se você estivesse sendo abstraído da vida normal.
Habitualmente, o ladrão quer os cartões da vítima para uma ronda bancária, com o propósito de raspar o dinheiro das contas. E quando está investido da maldade absoluta, não é de descartar que se desfaça da vítima para não deixar testemunhas. Essa descrição sucinta, longe de sintetizar toda a dramaticidade da situação, pelo menos deixa antever a sensação de alívio que deve ter tomado conta de três reféns de dois assaltantes, que conduziram as vítimas até o caixa eletrônico de uma agência bancária em Lourdes, na Sinimbu. Não contavam os bandidos que policiais militares fossem suspeitar e intervir. Estava desmontado o aparato criminoso, e o momento em que se dá essa resolução do crime é de prostração, pernas bambas e agradecimento eterno. Com frequência, no entanto, os ladrões logo retornam às ruas, e carregam de novo os mesmos propósitos ameaçadores. Só trocam as vítimas.
As de Lourdes escaparam. Devem levantar as mãos para os céus e agradecer a Deus e aos abençoados policiais. Já não tinham o chão sob os pés e acabavam de pisar em terra firme outra vez. No entanto, tal tipo de ocorrência assim resolvida é, se não a excepcionalidade, pelo menos minoritária. A revelar que, nas condições que nos envolvem, o policiamento preventivo é uma bênção. Desta vez funcionou, mas sabemos bem das limitações que alcançam os órgãos de segurança pública.
Enquanto a vida passava frenética na Sinimbu às 10 da noite de segunda-feira, os três reféns renasciam. Essa é a sensação. E assim seguimos a cada dia, em cada esquina, apalpando cada momento na tentativa da proteção contra golpes traiçoeiros. Nesta quadra da existência, mais PMs nas ruas é o que nos resta, mas é improvável. E muita fé, claro, que a fé não costuma falhar.

Sem guarda-chuvas por aqui

08 de outubro de 2014 0

Os manifestantes ganharam as ruas, querem votar sem restrições. Milhares deles, em especial estudantes com expressões quase adolescentes. A cena é inspiradora. Pena que longe, bem longe de nós. Querem mais direitos políticos, o direito de escolher o governante regional sem o referendo do governo central. Portam guarda-chuvas para se protegerem do arsenal da repressão, como cassetetes e sprays de pimenta. É em Hong-Kong.
Por aqui, muitos não querem votar, um exército. Batem o pé. Não se interessam, são indiferentes, choramingam, resmungam impropérios. Consideram-se impolutos, limpinhos, incontamináveis diante da catrefa da política. Não querem saber de política, sob alegação de que falta qualidade aos políticos. E falta de verdade, mas não deve ser motivo. Se um político é ruim, mais razão ainda para escolher com atenção outro melhor, ou menos pior. O que falta, mesmo, é qualidade à cidadania. Menos choradeira e mais compromisso. Democracia é exercício, tentativas, erros e acertos, ensinamento que preferem desprezar. Assim é que a abstenção chegou agora a 16% por aqui, mais os elevados percentuais de brancos e nulos.
Do alto da falta de envolvimento de boa parte dos integrantes desse exército, o que lhes esvazia a autoridade sob o ponto de vista da cidadania, eles se animam a criticar e a colocar todos os políticos em uma cova rasa. Muito poucos são os que elaboram com alguma lucidez esse tipo de protesto que abre mão do voto. A maioria despreza e faz chacota. Chega a ser ofensivo, um desconhecimento histórico repulsivo, mas, afinal de contas, reflexo de nossa educação. Desconhecem ou desprezam os esforços e a luta de tanta gente, quando os tempos eram bem mais difíceis, para garantir o direito de escolher, que agora enxovalham. E surgem interpretações de que a intenção é transmitir um recado, o de que não se sentem representados. É uma interpretação possível _ mas só em parte. E muito pouco fazem para mudar esse cenário.
Os manifestantes de Hong-Kong, em especial os jovens e adolescentes, bem que podiam emprestar seus guarda-chuvas assim que possível a boa parte de seus pares brasileiros, como símbolo, com recomendações de que vale a pena. Quem sabe venha junto um vislumbre de interesse, de crença de que votar é essencial.

Em política, o confiável vale mais do que o novo

07 de outubro de 2014 2

Dois macroacontecimentos emergem dessa eleição. A vitória de José Ivo Sartori ao governo do Estado em 1º turno é o maior deles. O outro é a ausência de representação caxiense na Assembleia, que sabe pela primeira vez na história. Um fiasco.
A vitória de Sartori oferece uma lição preciosa. Antes de mais nada, é preciso registrar que Sartori cresceu na reta final lastreado na estrutura do partido, que é capilarizada no Estado inteiro, o que ajuda muito. Mas também no voto antipetista, que aderiu ao caxiense depois que Ana Amélia, que navegava em céu de brigadeiro, foi abatida em pleno voo pelo torpedo que revelou seu duplo emprego em Brasília. Algo imperdoável aos olhos de boa parte do eleitorado gaúcho.
Mas a vitória de Sartori não se explica apenas dessa forma. Na análise política, virou quase um consenso a noção de que o eleitor dá prioridade ao candidato que se apresenta com o manto da novidade. Mas não é necessariamente assim, e o resultado de 1º turno ajuda a desmistificar essa ideia. O eleitor dá preferência, isso sim, ao candidato que ele entende ser confiável. Foi a mensagem valiosa que Sartori conseguiu transmitir com seu jeito de ser, muito bem explorada pelo comando de campanha.
Claro que Sartori também incorporou o novo, em certa medida. Ele nunca foi candidato ao governo e, neste contexto eleitoral específico, é um nome novo. Mas, decisivamente, Sartori pareceu confiável aos olhos do eleitor, ainda que seja ele uma personalidade política de fachada tipicamente tradicional. O episódio revela, portanto, que não é preciso incorporar o novo para ser confiável, e que transmitir a sensação de ser confiável é muito mais importante do que aparentar renovação.
Sobre o segundo macroacontecimento, o fato de Caxias não eleger ninguém para Assembleia e apenas Pepe Vargas para a Câmara, ele pode ter várias causas. Mas a principal foi o comportamento verdadeiramente kamikaze dos principais partidos caxienses, ao lançar vários nomes na disputa. Se foi uma tática partidária para atrair mais votos para a legenda, ela revelou-se suicida sob o ponto de vista da representação caxiense. Não havia espaço para todo mundo, mas houve os que se recusaram a retirar o time de campo. Um sinal inequívoco de falta de humildade. O oposto do que sugere Sartori.

O que houve com a nova política?

06 de outubro de 2014 0

Foi uma eleição de reviravoltas na reta final, emocionante, cabeça a cabeça. A reviravolta no Estado teve suas explicações, com Ana Amélia sendo alcançada por denúncias e a valorização pelo eleitor da estratégia de campanha de José Ivo Sartori, que investiu no jeitão do candidato. A combinação de ambos os fatores deu no que deu.
O mais incompreensível foi o fenômeno Marina Silva. Não há explicações razoáveis para o que lhe aconteceu: disparou como meteoro rumo a uma vitória capaz de afastar o PT do poder. Mas foi recuando, recuando, a ponto de perder a vaga no 2º turno, sem que tenha sido alcançada por alguma denúncia contra si. Foi, isto sim, severamente atacada politicamente durante a campanha por Dilma e Aécio. Do que não pode reclamar, afinal, estava na frente, e os ataques ocorreram estritamente dentro de margens aceitáveis.
Mas o fenômeno Marina, que subiu e desceu, é de difícil explicação, visto que a ela foi atribuída pelos analistas políticos a capacidade de ser praticamente o único nome da política a incorporar os anseios expressados nos protestos de junho do ano passado. Então o que houve? Porque, ao fim do 1º turno, restam para a Presidência as opções tradicionais, PT e PSDB, que o eleitor conhece de sobra. Não era Marina a “nova política”, afinal de contas? Nesse caso, não teria sobrado espaço para o novo. Ou os protestos de junho esfumaçaram-se com o passar do tempo? Ou então o discurso do novo perdeu força? Ou não era exatamente Marina que incorporava a novidade? Com o tempo, essas respostas irão surgir.
Mas não se deve reclamar de ataques nesta campanha, estratagema usado sempre que algum candidato se vê a perigo e corre para choramingar: “Não estão jogando limpo.” Ora, é uma campanha eleitoral, espaço em que as cobranças devem mesmo ser fortes para que haja o esclarecimento do eleitor. E ninguém é pobrezinho. As cobranças devem existir, dentro de parâmetros respeitosos. Se elas extrapolarem, o eleitor saberá puni-las. E não houve golpes baixos agora. Desta vez, quando houve ataques, foram feitas as cobranças politicamente necessárias, no tom adequado.
Vem aí muita emoção no 2º turno, e mais espaço para os esclarecimentos ao eleitor e ao cidadão. O que é muito bom.

Goste ou deteste, é melhor fazer bem feito

04 de outubro de 2014 0

Que mistério é esse que coloca os cidadãos em dois grupos? Há os que gostam de política, são apaixonados até, e há os que a detestam. Gente para quem ter de votar é um calvário. Ainda há um terceiro time, os indecisos, os hesitantes, gente que é levada ao sabor das circunstâncias e dos humores. Está informada acerca da importância da politização, mas a maneja de forma utilitária, sem a chama interior de um ideal. E assim toca a vida. E ainda tem o grupo dos céticos e pessimistas.
Os dois opostos interessam mais. Primeiro, precisa subdividir os que gostam ou se interessam por política e se envolvem com ela em dois subgrupos: os que pensam e elaboram a realidade e ainda dão-se ao direito de ter uma ideologia e os que navegam na política atrás de privilégios pessoais ou do apego ao poder a qualquer custo, ou das duas coisas ao mesmo tempo. Como se explica, então, gostar e detestar? De forma bem simplificada, são a clareza ou a falta de clareza existencial, o entendimento da realidade, ou a falta desse entendimento, e o interesse ou o desinteresse em melhorar o mundo ao redor, a vida das pessoas, por iniciativa e participação pessoal. Então os que detestam encontram na má política, que existe e se dissemina, a justificativa perfeita para não se envolver. Assim, desvalorizam a oportunidade de votar, conquistada a duras penas.
Fui fisgado pelo gosto pela política na eleição de 1968 para prefeito lá no Alegrete. Era um guri, tinha 7 anos. Época difícil, mas o MDB ganhou por lá. A contagem dos votos chegava pelo radinho, o pai e a mãe presidentes de mesa. Era um suspense a cada urna anunciada, uma expectativa só. A apuração demorava dois dias. Gostei daquilo, nunca mais larguei o vício, que foi incrementado anos depois quando passei a entender um pouco mais da coisa, dos interesses que a movem, da ferramenta que é para melhorar o mundo e a vida de quem precisa, apesar da descrença e da má política.
Então essa época do voto torna-se um acontecimento ou um sacrifício. Gostar ou não gostar de política pode ser uma racionalização, mas também um mistério decifrado pelos valores, trajetórias e escolhas de cada um. Porém uma coisa é certa: goste ou deteste, as consequências se prolongam por quatro anos, ou até mais. Então é melhor fazer bem feito.

Uma notícia para mudar a feição de Caxias

03 de outubro de 2014 1

Essa notícia sobre um termo de convênio entre prefeitura e Shopping San Pelegrino para adoção do que virá a ser a Praça do Trem, um espaço de lazer nas imediações do shopping, é uma das melhores notícias dos últimos tempos sob o ponto de vista da humanização de Caxias do Sul. Apesar da frase feita, é um pontapé inicial. Mais do que isso, a enorme importância do convênio a ser assinado na próxima semana é que um espaço de lazer assim, encravado em São Pelegrino, terá o poder de mudar um paradigma em Caxias do Sul: o paradigma da qualificação do lazer e do convívio.
A ideia é que o espaço seja dotado de bancos, e bancos são um equipamento urbano aparentemente singelo, mas imprescindível, pois possibilitam encontros, conversas, convívio. Eles têm o poder de imprimir uma outra feição à cidade, que não a feição atual, marcada por pessoas que passam apressadas pelas ruas. Assim Caxias é hoje reconhecida. Devem os bancos, no entanto, ser acompanhados pela oferta de segurança. E de fato, está previsto um módulo de segurança, ainda não exatamente detalhado, para garantir espaço de lazer à noite – claro que nas noites em que a temperatura permitir. Parece inconcebível para a Caxias que conhecemos, mas é isso mesmo. O espaço, portanto, muda a característica de movimentação dentro da cidade e da ocupação do espaço urbano.
Voltando ao pontapé inicial, tomara seja isso mesmo. Há iniciativas similares que Caxias pode adotar para, aos poucos, transformar seu perfil para uma cidade mais amigável. A coluna tem sugerido uma área de lazer que aproxime a região do Burgo do centro da cidade. A ocupação da Maesa precisa cumprir esse requisito de valorizar o convívio.
Por fim, ainda há outro aspecto positivo neste anúncio da Praça do Trem: é que, na prática, é uma pequena parceria público-privada, que pode e deve se alastrar para outros espaços da cidade. A prefeitura logo pensa em repetir o formato no espaço adjacente da Estação Férrea, entre Feijó e Avenida Rio Branco. Quem dera funcionasse assim também na ideia da praça para a região do Burgo. O shopping irá mostrar que tais parcerias são um golaço comunitário e urbano marcado pela iniciativa privada. Uma Caxias mais humana pode começar a tomar forma a partir da Praça do Trem. É um grande alento. Tomara se confirme.

O xis da intransigência

02 de outubro de 2014 1

A bronca agora é protagonizada por Levy Fidelix, do pujante PRTB. Para quem não sabe, PRTB quer dizer Partido Renovador Trabalhista Brasileiro e tem candidato à Presidência e ao governo. É trabalhista, como tantos outros, e renovador. Baita renovação! A bronca já foi protagonizada pelo pastor Marco Feliciano e por integrantes incendiários do movimento tradicionalista, entre outros. Todos eles viraram sua alça de mira contra os praticantes das chamadas relações homoafetivas. Casório gay no CTG não, e passou-se fogo no CTG. Levy Fidelix disse que é para esse pessoal “que tem problemas” ser atendido “bem longe daqui”. Barbaridades têm trânsito livre. Marco Feliciano foi o pioneiro da reação recente contra os casais gays, com assinatura de certas igrejas evangélicas.
Tradicionalistas incendiários, Levy Fidelix, Marco Feliciano e barbarismos da espécie até merecem a resposta mais contundente. Mas realimentar a contundência não é lá muito inteligente. Implode outras pontes até corações e mentes, e implosão de pontes é tudo do que não precisamos no estágio atual de tantas intolerâncias. Só irá realimentá-las.
A expressão intolerância, aliás, em breve estará desgastada. Já os gaúchos são mesmo peculiares. Para parte de nós, os gaúchos, intolerância é chamada de convicção. Vejam que maravilha: o jogo de palavras dá verniz politizado à intolerância de sempre, como se ela fosse fruto de longa reflexão que resultou em uma ideia irremovível. Talvez a melhor definição seja mesmo intransigência. A partir de determinada fronteira de ideias, os intolerantes e convictos não transigem com a existência delas. Não que seja necessário transigir no conteúdo, mas sim considerar e admitir como possível a ideia diferente e até oposta. Esse é o xis da intransigência. Já do outro lado, quem reage com contundência a Fidelix e companhia acaba por fechar acesso de intolerantes e simpatizantes destes a outros territórios do pensamento e da experiência pela impossibilidade de convivência. O que certamente não adiantaria muito, mas já seria alguma coisa. O resultado é o reforço da intransigência, que não deve interessar a ninguém.
Transigir na aceitação da diferença vê-se que não é simples. Mas será um sinal de que outro mundo é possível, com o mínimo de transigência. Ou então é melhor ir embora para casa.

Os famigerados cavaletes

01 de outubro de 2014 1

A questão é que os cavaletes tornam a cidade mais feia. Há uma interferência para pior no ambiente urbano. Esse é o ponto. Ainda que haja um componente simbólico nos cavaletes e outras expressões de campanha, só compreendido e valorizado por quem gosta de política, vamos combinar que é um estrago visual. Esse componente simbólico é a expressão das ideias, ou da falta delas, que ganha as ruas, representadas em cada rosto estampado em um cavelete. E, mesmo que muitos não gostem e até detestem, tem sua importância para o ambiente democrático. Não é desprezível, portanto, esse entendimento.
Mas que os cavaletes enfeiam as ruas, ah, enfeiam. E estão por toda parte. Se serve como consolo, a situação é bem pior em outras cidades do Estado. Sem falar que, eleitoralmente, o recurso é um tiro no pé. Assim como se ganha em exposição da marca e do número, perdem-se votos diante da má vontade reinante contra os cavaletes, e o mais importante, diante da afronta ao que está previsto nas regras para uso desses instrumentos. Fica a constatação lógica e preocupante: se um candidato ignora as regras básicas da propaganda eleitoral, estará apto, durante um eventual mandato, a atropelar qualquer outra previsão legal vigente no país. E o raciocínio terá todo fundamento.
Existe, no entanto, um componente adicional e central nesta antipatia ao cavalete, que tanta gente faz questão de manifestar: é a má vontade generalizada com a política. Então os cavaletes oferecem uma chance para manifestação desse descontentamento, sob forma de resmungos generalizados e previsíveis. Para comprovar que se trata de má vontade específica com a política, basta mencionar que há elementos de publicidade comercial terríveis espalhados pela cidade ao longo de todo ano, que igualmente afrontam o ambiente urbano, mas não motivam reação alguma de desaprovação. É só com os cavaletes a implicância.
Portanto, resta incompreensível que esse instrumento de propaganda eleitoral seja empregado por candidatos de bom senso. O objetivo é único: divulgar nome e número. Mas os custos ambiental e urbano são altos e o eleitoral é bem arriscado. Então pra quê? Espaços públicos devem ser poupados da propaganda. É melhor devolver os canteiros às flores e à cidade.

A escola de tempo integral

30 de setembro de 2014 2

Já que estamos com o tema dos professores e da educação na pauta há duas colunas, e já que é época de eleição, e já que a questão suscita promessas de candidatos, vou admitir francamente: nunca fui convencido completamente acerca dessa proposta que é menina dos olhos de muitos governantes, a escola de tempo integral.
Eu sei, eu sei, é muita ousadia da minha parte, um mero jornalista sem amparo acadêmico na área, que atira em várias direções. A ideia conta com respaldo técnico, é vista como um ideal a ser perseguido por muitos educadores. E afinal, já existe comprovação científica de que, quanto mais tempo uma criança passa na escola, mais ela fortalece o aprendizado. Apesar de que parece existir uma lógica clara nessa constatação, que não se constitui propriamente em uma novidade. Mais tempo na escola, mais aprendizado. Faz sentido, parece que sempre fez.
Popularizar a escola integral, portanto, parece ser bom. A questão é que a escola de tempo integral é, por enquanto, perseguida dentro de determinada perspectiva, que consiste em preencher o famoso contraturno escolar. Então aí cabem atividades de todo tipo, claro que mediadas por gente que é do ramo, inclusive com atividades de reforço escolar. Mas ainda não há muita clareza sobre o caminho a seguir. E, como é uma modalidade que recém tenta se ampliar como oferta educacional, falta gente e falta a estrutura, e a boa intenção fica a meio caminho. Claro, sei bem: é importante conquistar o espaço para depois aproveitá-lo da melhor forma.
Mas o que mais me deixa com a pulga atrás da orelha é a repartição do tempo diário de atividades e convivência para a criança. Então a escola de tempo integral funciona como um tempo ampliado em que as crianças não estão com os pais.
É um campo de interação social que periga extrapolar as possibilidades infantis mais espontâneas ou antecipar o tempo de determinadas convivências. Sei bem, a família de hoje tem de trabalhar, não tem onde deixar os filhos, etcétera e tal, mas incomoda pelo menos a mim a sensação de que a escola de tempo integral desobrigue pais e reduza vínculos e aproximações familiares em uma época decisiva para a criança.
São meras impressões pessoais. Mas ainda não estou convencido.

Desautorizados

29 de setembro de 2014 1

Primeiro, os professores são desautorizados pelos queridos alunos. Parte deles está bem informada sobre seus direitos, desde cedo. Importante. É indício de cidadania nascente. Entre outras coisas, informam prontamente aos professores que não podem gritar com eles, ou constrangê-los de alguma forma. Professor não deve levantar a voz para o aluno. No mundo ideal, que passa a léguas interplanetárias do ambiente de uma escola pública, onde vigora o mundo real. Mas o mundo ideal deve ser perseguido desde já.
Pois ao menor sinal desses deslizes pedagógicos, há aluninhos que se apressam em levar essas informações para casa. Então os professores são desautorizados pelos queridos pais. Há casos em que se faz até boletim de ocorrência. Ou então os professores recebem de muitos desses pais a incumbência de oferecerem na escola os limites e as noções básicas de educação que não recebem em casa.
Os professores também são desautorizados pela sociedade, “nosotros”, e pelos governos. Quando se pagam a eles vencimentos indecorosos que os obrigam a empilhar horas em sua jornada para sobreviver. Essa é a maior das desautorizações. Ou quando falta a estrutura elementar, muitas vezes a internet básica para a promoção do ensino de qualidade. E cobra-se deles qualificação, que exige um tempo extra-jornada. Mesmo assim, muitos correm atrás. E qualificação custa dinheiro, que, no caso dos professores, como se sabe, é um pouco escasso. Não se cogita de oferecer a eles auxílio-moradia, como é tão comum por aí. E cobram-se as tais “aulas criativas”, que grande parte deles, está claro, não dispõe de tempo nem de energia para elaborar. Então, debita-se na conta dos professores o desinteresse dos alunos pela educação. Chega a ser maldade.
Todas essas cobranças à escola, de alunos, pais e sociedade, se analisadas isoladamente, têm seu nexo de cidadania. Mas quando tomadas conjuntamente, acabam por compor um cenário que não para em pé, completamente apartado da realidade. Nesse contexto, as exceções de costume são apenas isso, exceções, ou uma combinação circunstancial de fatores. Ainda assim, com todas as desautorizações, os professores estão autorizados à superação, e há os que se superam, outros fazem o que podem. Quem quiser falar em educação de qualidade, que fale antes em valorização do professor. E os pais, que prefiram o ambiente de colaboração ao de confronto. Já vai ajudar um pouco.