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Apertem os cintos, o ano começou pra valer

05 de janeiro de 2016 2

Agora o ano iniciou para valer, e o cartão de apresentação não recomenda. Não há novidade alguma nessa introdução, aliás. Mas será útil um rápido inventário inicial, dos primeiros dias, para evidenciar a diversidade do que já nos assola: aumento de combustíveis, indício de intolerância e reflexo prático da crise das finanças do Estado, em combinação com nossa histórica dificuldade para resolver questões singelas e prosaicas.
Todo início de ano, são habituais os aumentos do IPVA, do transporte coletivo, da água, do IPTU logo ali em março. O dos combustíveis não é obrigatório, mas este ano chegou de forma emblemática, a romper a barreira dos R$ 4 por aqui, a cerca de 100 quilômetros da refinaria, aproximando o preço do litro da gasolina ao praticado nas longínquas cidades da Fronteira Oeste, a 500 quilômetros da mesma refinaria, onde abasteci o carro neste domingo e paguei um pouco mais de R$ 4 pelo mesmo litro. Quem explica? Não é obrigatória esta pancada no início de ano, mas em 2016 ela veio, fruto do aumento do ICMS estadual. É um prenúncio temerário e sintomático.
Na fuga de três presos da Penitenciária Industrial, na BR-116, há dois fatores. O primeiro é a tradução visível e contundente da crise das contas do Estado. Falta dinheiro, falta policial na guarita, os presos estão na rua. Era para haver pelo menos seis policiais. Havia quatro, e um precisou sair por minutos. Foi o que bastou. Altamente pedagógico. O segundo fator, é que estamos condenados a não conseguir evitar a entrada de celulares nos presídios. É inacreditável. A cereja no bolo foi um preso filmar com um celular, de dentro da cela, a fuga dos três detentos sem policial na guarita.
No caso do vandalismo à santa de Caravaggio, há fortes indícios de intolerância religiosa. O caso é idêntico ao perpetrado dias atrás, em dezembro, contra a imagem de Nossa Senhora de Navegantes, no Desvio Rizzo, ao lado da lagoa. Dois motoqueiros chegam de noite e fazem o serviço. Nos dois casos, as faces das santas foram golpeadas. Fica a nítida sensação que é de caso pensado.
Aumento do combustível, falta de pessoal, tropeços crônicos, indício de intolerância. São percalços emblemáticos, digamos assim, já de saída. Não resta dúvida: apertem os cintos, o ano começou pra valer.

Um 2016 mais lento e menos emperrado

31 de dezembro de 2015 0

2015 foi um ano terrível, dramático, vertiginoso. Os acontecimentos se sucederam em avalanche e na gravidade de seus efeitos e consequências. O mundo, outra vez, andou rápido demais, ainda mais rápido, e pensou de menos. Essa tem sido nossa repetida tragédia, sem que nos interesse frear o trem desgovernado. Mas, se a velocidade tem se ampliado, a irracionalidade igualmente, o que explica atentados planetários, reféns sendo queimados dentro de jaulas. Ou, aqui no nosso quintal, uma menina de 11 anos baleada na rua e outra de 3 esfaqueada dentro de casa.
Por curiosidade, fui conferir o que havia anotado neste espaço na virada de 2014 para 2015: desejava um 2015 mais lento, de coração. Pois está valendo para 2016. A demanda segue cada vez mais urgente e premente. É muito do que precisamos para reencontrar um pouco do rumo, sob pena de a irracionalidade avançar cada vez mais a galope. Esta é, no entanto, uma tendência dessa modernidade de que nos orgulhamos. Seguimos seduzidos pela velocidade, queremos tudo ao mesmo tempo agora, com a ajuda dos smartphones, e a eles dedicamos nossa extrema devoção.
Se um mundo mais lento seria uma bênção em 2016 ou a qualquer tempo, para amadurecermos ideias, reflexões, pensamentos e projetos de vida, para ganharmos em clarividência, em lucidez, no serviço público os movimentos devem ser menos emperrados, mais ágeis no atendimento às necessidades das pessoas, especialmente de quem padece no cotidiano. É de dignidade que se está falando. A greve dos peritos do INSS prossegue meses a fio, e quem tem perícia por fazer para receber benefícios ou voltar ao trabalho mendiga dignidade. Ou a greve no Ministério do Trabalho, que emperra liberação do Fundo de Garantia e acesso ao seguro-desemprego. Ou o atendimento médico na rede pública. Chega de maltratar as pessoas, o cidadão.
Essas são nossas máximas premências, mas atingi-las em 2016 é mero devaneio. Mesmo assim, são objetivos obrigatórios no rumo de uma realidade melhor, mais decente, menos estressante: uma vida mais lenta, menos irracional, com atendimento digno às necessidades das pessoas. Não tenhamos ilusões, mas prosseguir é preciso.
O melhor 2016 possível a todos.

Só se pensa naquilo

30 de dezembro de 2015 1

Os primos pobres do funcionalismo estadual vão pagar boa parte da conta da crise das finanças públicas outra vez. É repulsivo. Na linha de frente dos primos pobres estão professores e policiais. A eles e a outras categorias serão acrescentadas severas restrições para a histórica necessidade de recomposição de seus salários. É o efeito perverso da aprovação de um dos projetos do pacotão enviado pelo governo do Estado à Assembleia, votado na madrugada de ontem, aquele que cria a chamada Lei de Responsabilidade Fiscal Estadual.
Teoricamente, uma lei de responsabilidade fiscal é boa. Vem para colocar ordem na casa e, então, organizar o crescimento. É a justificativa alinhada com as melhores práticas de gestão. Ocorre que tem o contexto, esse desagradável contexto. Então, se for dada prioridade cega à responsabilidade fiscal, vai naufragar a responsabilidade social, a responsabilidade educacional, e assim por diante. Porque a prestação de serviços será golpeada pelo desestímulo, pelos salários não recompostos, cristalizados em níveis indecentes. Não é à toa que se reduzem os interessados em seguir carreira no magistério e nos órgãos de segurança. Eis o contexto, límpido e terrível.
É importante esmiuçar. A responsabilidade fiscal aprovada: a) proíbe que o Estado amplie gastos acima do crescimento da arrecadação, e temos aí configurado um limitador para acréscimo de despesas; b) estabelece diretamente limites para a concessão de reajustes ao funcionalismo; c) determina que 75% da receita que vier a ser acrescida em um exercício sejam destinados a investimentos, e 25% a salário. Quer dizer: será preciso driblar mais esses obstáculos agora introduzidos para só então se pensar em recuperar a justiça salarial a servidores essenciais. É fácil ver quem é chamado a pagar a conta outra vez.
Há bolsões bem localizados de privilegiados, de setores com acúmulo de servidores, de CCs, de auxílios disso e daquilo para quem não precisa. Há primos ricos claramente identificados aboletados em benefícios acumulados. Esses setores são inatacáveis? O que o governo precisa fazer – mas não faz – é todo esse mapeamento de privilégios e promover justiça salarial. Faz o contrário, porém.
Só se pensa naquilo, na responsabilidade fiscal. Mas quem vai lembrar da responsabilidade social?

Dias de alto risco

29 de dezembro de 2015 0

Estes últimos dias do ano são praticamente insignificantes, uma semana reduzida de três dias antes do dia 31. Eles mal conseguem conter a avalanche de expectativa e preparativos pela agenda da virada. Constituem-se como um estorvo colocado pelo calendário, que deve ser transposto no ritmo das horas. Isso para quem ficou na cidade de ruas vazias, pois milhares decidiram ignorar a utilidade desta trinca de dias e retiraram deles a prerrogativa dos dias chamados úteis para as tarefas habituais.
Os que ficaram devem conduzir o trabalho com a responsabilidade de sempre, mas a concentração torna-se mais difícil. Esses últimos dias se arrastam, mas não para todos. Não para o governo do Estado, por exemplo, que entendeu de encaminhar à Assembleia para votação desde ontem, em sessões extras, uma penca de projetos que configuram um ajuste fiscal estadual.
Do meio deles, pende como uma espada para os servidores públicos aquele que define a criação da chamada Lei de Responsabilidade Fiscal Estadual. É de se perguntar por que ninguém propõe uma Lei de Responsabilidade Social, ou uma Lei de Responsabilidade Educacional, e por aí vai. Garante-se que a responsabilidade fiscal deve proporcionar uma condição social adequada. Mas não é o caso, essa responsabilidade fiscal não conduz de forma automática à responsabilidade social, que fica desatendida. Então, vale perguntar o que é mais premente: a responsabilidade fiscal ou atender às necessidades imediatas da população?
Além disso, essa Lei de Responsabilidade Fiscal Estadual propõe mais restrições aos vencimentos dos servidores. Claro que a conta da crise vai estourar, como sempre, nos primos pobres do funcionalismo, professores e policiais à frente. O que o governo precisa fazer, e não faz, é o diagnóstico correto sobre onde moram os privilégios, os auxílios de toda ordem para quem menos precisa. E chamar essa gente à responsabilidade. Nesse caso, a sociedade ficaria ao lado do governo que, justiça se faça, tenta arranhar de leve essa questão. Ao que o Judiciário esperneou na hora. Agora, atacar de novo os vencimentos de quem presta os serviços essenciais à população, colocando ainda mais restrições a correções históricas, isso não se faz. É o remédio de sempre!
Então, esses últimos dias do ano têm todo o jeitão de insignificantes. Mas não para os servidores do Estado. Para estes, são dias de alto risco.

O erro separa os homens dos meninos

28 de dezembro de 2015 0

O erro é a maior das humanidades. Nada pode ser igual. É resultado de nossas limitações e imperfeições. Por isso mesmo, não há tema mais fascinante do que o erro, e o que se faz com ele. Um erro queima nas mãos, ou deveria queimar. Um frio percorre a alma daqueles que flagram a si próprios em um erro cometido, ou deveria percorrer.
A semana passada encerrou-se com dois megaerros: o do apresentador do concurso Miss Universo, anunciando a miss errada, e o de um servidor do banco de sangue em Erechim que cedeu uma bolsa que continha o vírus HIV para uma transfusão. O primeiro erro foi um mico planetário sem maiores consequências objetivas, a não ser a frustração para uma das concorrentes. O outro, de efeitos bem mais sérios.
O apresentador assumiu o erro, quem sabe originado de uma distração ou de uma prepotência. Erros costumam associar-se à prepotência de quem se julga incapaz de errar. Mas a reação de humildade que se seguiu ao estrondoso equívoco foi um bom sinal. Agiu bem o apresentador, assim como a miss vítima do erro.
O segundo caso é mais complexo. Há fatores a considerar, que costumam estar presentes nos erros inevitáveis em relações pessoais ou profissionais. É preciso ler o contexto para lidar com erros, mesmo quando as consequências são graves. Há erros reiterados, o erro incompetente, o erro negligente, o erro arrogante ou o erro fruto da limitação humana. Não se pode ser concessivo com a indolência. Ao mesmo tempo, quem nunca errou que atire a primeira pedra. Quem erra pode ser também aquele que protagoniza logo depois o acerto providencial. A vida é fascinante. E quem sofre com o erro alheio, apesar da gravidade das consequências, terá o caminho aliviado quando se abre a ponderações mais compreensivas, quando este erro não é doloso ou mal-intencionado.
O que fazer e como agir diante de um erro é assunto tão delicado a ponto de distinguir os homens dos meninos. Os homens reconhecem e assumem um erro, pedem desculpas sinceras. Ou, se estão do outro lado, oferecem encaminhamentos sensíveis e são capazes de ler todo o contexto. Os meninos tentam esconder o erro, ou justificar o injustificável, ou então julgam e sentenciam sumariamente os que são flagrados em erro.

O Cristo deste Natal

26 de dezembro de 2015 0

Aquele homem estava ali no degrau da porta do Capitólio. O Capitólio era um daqueles tantos cinemas de rua que havia tempos atrás em Porto Alegre, na Borges de Medeiros, esquina com a Demétrio Ribeiro. Com um diferencial: os traços arquitetônicos imponentes e irretocáveis contavam a história. Abençoadamente, seguem contado. O Capitólio foi restaurado e hoje é um cinema de rua preservado sob forma de sala de exibição, a ser mostrado como uma espécie rara para aqueles que só conheceram cinemas em shopping centers.
Mas aquele homem estava ali no degrau único de uma das portas do Capitólio quando passei no meio da tarde rumo ao Zaffari uma quadra adiante, quase na Borges, para comprar itens faltantes para a ceia em família. Aquele homem foi o Cristo deste Natal. Equilibrava-se no degrau. O corpo pendia levemente para frente, e voltava a seu equilíbrio original. Era um maltrapilho clássico, sujo, com as roupas encharcadas da chuvarada, olhar perdido, ao longe, em alguma elocubração da alma que será para sempre um mistério insondável. Onde andaria a alma daquele homem que se equilibrava no degrau do Capitólio? Haveria algum resquício de alma? Era um morador de rua daqueles a quem o desencanto havia se apossado, era fácil de ver. Esses são mais silenciosos e enigmáticos.
Absorvido por aquelas cogitações, cheguei ao Zaffari, fiz as compras e, na volta para casa, passei outra vez pelo homem quase imóvel, não fosse porque persistia naquele leve pendor do centro de gravidade para a frente. Uma hora depois, novo item que falta para a ceia em família. Nova ida ao Zaffari, e o homem prosseguia no mesmo estreito degrau, em suas conjecturas, a mão a alisar a barba.
Com a zona de conforto comprometida, o pensamento já fazia a inevitável relação entre o homem do degrau do Capitólio e a ceia em família quando, ao retornar com a nova compra, ele não estava mais lá. Partiu sabe-se lá para onde, quem sabe ao encontro de alguém, de alguma ceia solidária ou para esconder-se do Natal. Na pracinha em frente ao Capitólio, no ponto de táxi, havia uma faixa estendida pelos taxistas dali com a inscrição “Somos contra a violência”, uma referência à recente agressão praticada contra um motorista do Uber. O mundo está aí para ser tornado melhor e mais justo. Desafios não nos faltam.

Ser um sinal de esperança é preciso

24 de dezembro de 2015 0

Natal é uma data que sinaliza essencialmente para a esperança. É uma data festiva. Nascimento é esperança de que uma vida nova possa redimir as dificuldades. Todas as possibilidades estão abertas diante de uma existência que principia. É o momento em que acreditar – um verbo muitas vezes difícil e penoso de se conjugar – é uma inclinação natural. O caminho a ser percorrido fica por conta de cada um. Claro que há condições desiguais que moldam, estreitam ou alargam essas possibilidades. Mas essas circunstâncias não são uma sentença. O que vem pela frente, logo se saberá. Tantas vezes a esperança sucumbe rapidamente. Em outras, ela persiste, vinga e dá frutos. Assim é a existência. Mas o nascimento, ah, o nascimento é o momento de se ter esperança. Está tudo por fazer. Vale acreditar. E se Natal é nascimento, Páscoa é re-nascimento, é outro capítulo, mais complexo e central para a compreensão do enredo completo do Cristianismo.
Entre as diversas programações comunitárias de Natal, há uma cujo nome é revelador: é o Natal Esperança, de Santa Lúcia do Piaí. Essa é a palavra central que deve ser exercitada a cada dezembro. Esperança é um manancial de possibilidades. É o que nos cabe, ter esperança, ainda que diante de um 2015 terrível, pesado, dramático. mesmo que muito se fale em economia sem perspectiva, em insegurança crescente, na intolerância que não recua, na nossa vocação para o conflito. Mas sempre haverá motivos para ter esperança enquanto houver um dezembro, um Natal.
O que precisamos é entrar nessa corrente. Simples assim. A realidade é dura, duríssima, impõe suas dificuldades? Não importa. Fazer nossa parte é viver de tal forma que nossa vida, nossa aparição, nossos gestos, nossas atitudes, nossas palavras tornem-se sinais de esperança para as outras pessoas ao redor. Que nossa presença faça acreditar. Assim, seremos capazes de incorporar o que o Natal sinaliza, bem além dos desejos protocolares de um feliz Natal. É preciso sinalizar, como o menino Jesus sinalizou. Esse deve ser o propósito de cada um. É meio caminho andado. Depois, falta correr atrás. Não é simples, está aí a realidade que não nos deixa mentir. Mas sinalizar e dar motivos para a esperança é incorporar o Natal.
Um Natal de esperança para todos os leitores.

Valhei-me, meu pequeno príncipe

23 de dezembro de 2015 0

O Natal é uma época do ano, uma data especial digna de ser celebrada, mas que transita em uma contradição. O Natal, além do significado essencial que assinala o nascimento de Cristo, remete ao valor da simplicidade, e a simplicidade é decisiva à existência. Cristo nasceu em uma manjedoura, é o símbolo maior da simplicidade.
A homenagem essencial, pois, está nos recônditos da alma. Não precisa ser rebuscada nem ganhar ares de publicidade. De novo vale citar o enunciado do pequeno príncipe, de Saint Exupéry, que frequenta pela segunda vez a coluna no espaço de uma semana: o essencial é invisível aos olhos. Mas essa homenagem pode ser exteriorizada, não é pecado, nem uma contradição insuperável. A contradição do Natal, portanto, é só aparente.
Houve um tempo em que Caxias tornava-se luminosa no período pré-natalino. Faz uns 20 anos, isso. Os prédios transbordavam de penduricalhos luminosos, e aquilo era um acontecimento. A decoração era estimulada, e aquele ambiente todo fortalecia o vínculo religioso e comunitário. Não era ruim, pelo contrário. Hoje a cidade é uma escuridão no Natal. Um que outro adereço cintila na noite, aqui e bem acolá. Alguém poderá lembrar Exupéry, que a devoção essencial está na simplicidade e não precisa de arabescos luminosos. Na verdade, o que fala mais alto é a conta da RGE, mas um efeito central é o enfraquecimento desse vínculo religioso e comunitário.
Então, a exteriorização ajuda? Valhei-me, meu pequeno príncipe. Claro que ajuda, desde que não seja ela um fim em si mesmo. O Natal Luz de Gramado é uma exuberância luminosa, como o nome já diz. Não há pecado em si, o pecado está em a luz ofuscar o que não pode ser ofuscado. Mas se a luz vem para reforçar, que bom.
Entre a maioria de casas que não se iluminam, uma chama atenção em um beco de chão batido perto do Enxutão. Ali, naquele ambiente simples, a casa se ilumina de luzes, pois é Natal. É uma vigorosa exceção. O dono traduziu com sinceridade:
– É uma forma de homenagear o nascimento de Jesus Cristo.
Está certo ele. Exteriorizar ou não, a homenagem sincera é quem deve decidir. Mas que as luzes contagiam, e hoje é uma pena a cidade às escuras, lá isso é.

O Natal é daqui três dias

22 de dezembro de 2015 1

A segunda-feira que introduziu a semana do Natal foi carrancuda e pesada. Não anunciou o verão, que começa hoje, tampouco esteve sintonizada com a época natalina. A semana entrou descompassada com o clima, com o calendário e com o simbolismo da época. O mundo está virado ao avesso, é um comentário popular para nosso tempo. Pois a segunda-feira ajustou-se à perfeição a essa percepção.
Entramos em uma semana de Natal pesada, e o que temos são mortes que não se compreendem, muitas mortes em sequência. O ano foi pontilhado delas. Começamos a segunda-feira apalermados com o assassinato desta jovem em São Francisco de Paula. Dois dias antes, o dono de uma boate e uma adolescente de 16 anos perderam a vida em uma rua movimentada. No mesmo dia, um adolescente foi baleado e morreu no Serrano. Um adolescente não pode morrer assim. Foram dois adolescentes em um único dia. Faz duas semanas, houve os assassinatos da pequena Emili, 3 anos, degolada, e de sua avó. Teve o crime do posto. No Vila Amélia, uma desavença entre vizinhas por causa de uma dívida terminou com uma delas sendo morta por asfixia e enterrada no canil de uma casa. E lá no meio do ano, a perda de Ana Clara, 11 anos, atrás da igreja do Pio X, baleada no meio da rua, no início de uma tarde, é até hoje incompreensível e de explicação de difícil convencimento.
São mortes acachapantes, casos emblemáticos e cortantes, de grande repercussão, que se desfiam como em um rosário. Que triste coleção! A cidade e a região estão mergulhadas neles, e ainda por cima se repetem mais no final do ano. Essas ocorrências configuram um ambiente, que parece predisposto a tragédias. São resultado de desavenças banais, crimes passionais, acerto de contas.
Não sabemos conviver, as questões e diferenças são resolvidas à bala e golpes de faca, e sequer poupam-se crianças de 3 anos. Já são 111 homicídios em 2016. Praticamente um a cada 3 dias. Os números são escandalosos, a exigir reflexão sobre o que está nos acontecendo, o reconhecimento do problema e um mutirão de esforços que não vem.
Este é o ano que estamos entregando para 2016. É vergonhoso e trágico.
E o Natal é daqui três dias.

O embate entre as boas e as más criaturas

21 de dezembro de 2015 0

Há um embate cotidiano nas ruas, na cidade. É o embate entre as boas e as más criaturas, como de resto é assim na vida, em qualquer lugar. O que diferencia um momento do outro, uma época da outra, uma região da outra, é a dimensão desse embate, a correlação de forças, o contingente de um lado e de outro, e aqueles que a tudo assistem passivamente, esses não estão computados. Isto é, não pesam do lado das boas criaturas.
A face mais crua desse embate voltou a explodir de sexta-feira para cá, com três mortes violentas, duas delas de adolescentes. As más criaturas manifestaram-se ruidosamente. Uma dessas mortes é o caso típico que tanto tem vitimado nossos adolescentes, sob a falta de reação da cidade: a situação de risco e de enfrentamento em que vive parte desses adolescentes nas ruas, onde eles se cruzam e se prometem. Um jovem de 17 anos foi morto nestas condições, desta vez no bairro Serrano, e outra vez haverá o silêncio. E assim vai prosseguir.
No entanto, há alguns sinais interessantes em Caxias do Sul. O que combate mesmo a violência, mais do que policiamento na rua, é comunidade organizada. Não se despreza policiamento na rua. Mas essas duas situações combinadas, policiamento mais comunidade que se organiza, elas podem mudar o ambiente de agressividade e de vocação para o conflito que nos sufoca.
Há sinais de reação, e de que isso é um começo. Primeiro sinal: as festas comunitárias de Natal fortalecem a convivência dos bons moradores e aproximam aqueles com capacidade de iniciativa. Podem parecer singelas essas festas de Natal nos bairros, mas elas são vitais. Segundo sinal: os círculos da paz, uma estratégia para combate à violência que parte da comunidade. Sem atuação da comunidade, não se constrói a paz. Pois temos esse início. Os círculos de paz formam-se nas comunidades para disseminar valores decisivos. Terceiro sinal: os comitês de cuidadores, assim chamados. Já surgiu um, na região da Escola Nova Esperança, motivado pela necessidade de proteger a escola. Eles devem proliferar pela cidade.
Esses sinais podem alterar a correlação de forças, que hoje é de desvantagem, para o lado das boas criaturas. Há uma mudança quase imperceptível na cidade, que parte das comunidades. É por aí o caminho. Logo, logo, os sinais serão visíveis.