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A vitalidade comunitária precisa se espalhar pelo ano todo

06 de dezembro de 2014 1

Nesta época do ano, Caxias do Sul, como de resto qualquer cidade, é tomada por uma vitalidade comunitária. É muito bom. Surgem festas de Natal, em especial motivadas pelo sincero desejo de levar um pouco de alegria a crianças pobres, em todo canto da cidade. Assim é que existem festas comunitárias de Natal no Pôr-do-Sol, no Pioneiro, no Santa Fé, no Santa Lúcia, no Fátima, no Fátima Baixo, no Reolon, na comunidade São Miguel, no Cruzeiro e onde mais for possível.
São festas providenciadas por gente humilde, de forma voluntária, que arregaça as mangas e vai atrás de quem ajude. E a festa sai, e os vínculos comunitários se reforçam, e a estima dos moradores sobe alguns pontos, e a criançada fica um pouco mais alegre… Esse pessoal que chama para si a organização dessas festas, eles são heróis da cidade, pode-se afirmar sem medo de errar. Uma modalidade de herói, porque eles próprios enfrentam dificuldades no dia-a-dia, mesmo assim correm atrás e conciliam a sobrecarga da organização da festa com a luta diária pela sobrevivência. Para isso, organizam a comunidade e distribuem tarefas. E a festa sai!
É uma pena que semelhante onda comunitária, um indicativo de que tem muita gente boa pelos bairros e pelas cidades, não seja suficiente para conter a sanha da maldade. Que, parece, leva vantagem na correlação de forças do cotidiano. Até porque essa vitalidade comunitária é maior em determinada época do ano, depois arrefece bastante. Assim é que os soldados do mal atacam por todos os lados, o ano inteiro, sob a forma da prática da violência, do tráfico de drogas, dos assassinatos sumários, dos assaltos covardes, da agressão a idosos, do abuso de crianças, do extermínio de animais, da maldade explícita, do levar vantagem sempre que possível, inclusive por meio dos privilégios e da corrupção, ataca sob forma do vandalismo gratuito.
São exércitos bem distintos que convivem e se cruzam o tempo inteiro. Então essa vitalidade comunitária, apesar dos esforços, não dá conta de reverter o jogo. Ainda. Porque é só por meio da vitalidade comunitária, da resposta conjunta, que se pode virar o jogo. E, sem ela, estaria muito pior.
A vitalidade comunitária tem cheiro de gente, que se encontra, se organiza e vai à luta. Não tem outro jeito de melhorar a vida. Mas ela precisa continuar crescendo, a envolver cada vez mais gente, e se espalhar pelo ano todo. O jogo é duro.

Falta de médicos, um embaraço histórico

05 de dezembro de 2014 0

Não paira qualquer sombra de dúvida: o atendimento médico na rede pública, em especial no pronto-atendimento, tem sido a maior dificuldade com que se defronta a administração municipal, a anterior e a atual. Já é um embaraço histórico recente, no qual a administração tem se enredado, e não consegue sair dele. Em 2011, houve uma greve dos médicos penosa para a população que se estendeu por oito longos meses, episódio que a prefeitura não soube conduzir, levando-o para a esfera judicial. O impasse, porém, não começou em 2011, pois houve duas greves anteriores, uma em abril e outra em agosto de 2010, que sinalizaram para o impasse que se avizinhava. A dificuldade toda, portanto, vem de cinco anos. É muito tempo para que não seja resolvido o impasse do atendimento médico em caráter de emergência.
O ano de 2011 foi o mais crítico, em que se submeteu a população a oito meses de atendimento precário e sem providências. Foi ficando assim a situação, levada com a barriga ao longo dos meses. Simultaneamente, prosperaram outros impasses inacreditáveis, como a recusa da categoria em registrar a jornada em ponto, situação que até hoje não foi contornada. E ficou por isso mesmo. O tempo todo, e ainda hoje, tem havido falta de médicos, algumas especialidades, como pediatria, em especial. A ponto de tornar-se comum a maior unidade de pronto-atendimento de uma cidade de 500 mil almas ficar entregue a um único médico.
O salário não atrai, o sindicato da categoria fala em R$ 10 mil para 20 horas. O município está longe disso. O fato é que é preciso encontrar um bom termo, mas não se notam diretrizes estratégicas em caráter de prioridade para atender a essa necessidade básica da população. Que deve ser atendida sem hesitação. Prefeitura e médicos precisam se entender, mas outra vez não se entendem. A situação chegou a tal ponto que o prefeito fez um apelo dramático aos médicos pela solidariedade e mandou contratar como autônomo.
Ora, o que precisa é ordenar de forma negociada uma carreira estruturada capaz de ser atrativa, e o sindicato dos servidores tem de entender essa necessidade. O atendimento médico continua precário há anos, e sem saída. É um quadro dramático, a enredar administrações sucessivas, que precisa ser resolvido de vez, e rapidamente.

53 mil carros depois

04 de dezembro de 2014 0

Agora está dimensionado. São 53 mil carros a mais em quatro anos em Caxias do Sul, informa o Detran. E as ruas continuaram praticamente as mesmas. Não há engenharia de tráfego que dê jeito. É um modelo condenado, mas governos e administrações resistem em reconhecer essa completa impossibilidade. Governos que, décadas atrás, fizeram sucumbir o modelo das ferrovias para decretar a supremacia do transporte rodoviário, que tantas vidas já nos roubou.
O governo federal tentou manter por um bom par de anos uma estratégia de crescimento contraditória e poluente, baseada na redução do IPI, ou IPI zero para determinados modelos. Isto é, empanturrava as ruas de carros e ao mesmo tempo sabia que a mobilidade das cidades passa pelo transporte coletivo. E nossa cultura estimula o carro como sonho de consumo. Estamos ferrados, porque a alternativa é, de fato, o transporte coletivo, mas esse caminho não tem como prosperar no curto prazo com o mínimo de qualidade, capaz de convencer as pessoas a abrir mão do carro.
Em Caxias, sem chance: a qualidade do transporte coletivo, apesar de alguns investimentos, tropeça na falta de acabamento do sistema, lá na ponta, com abrigos precários fora do Centro, ou a ausência deles, com dificuldades operacionais inacreditáveis, com atrasos, lotação e linhas queimadas, para um sistema que tem a pretensão de ter alguma qualidade. Ainda impera o descaso com os passageiros. Aí não tem jeito.
Agora o governo voltou a gravar os carros com o IPI e as vendas recuaram. A avalanche nas ruas de Caxias tende a seguir crescendo, só que em ritmo menor. Mas não há caminho possível. Viadutos são gastos imensos apostando em um modelo sem futuro. Não é lógico. No caso das cidades médias e grandes será preciso em pouco tempo adotar medidas drásticas, afugentar os carros de regiões conflagradas. Opções existem, mas não iremos mencioná-las para não ferir suscetibilidades, pois técnicos da área e donos de carros não querem nem ouvir falar nelas. Não adianta espernear, porém.
Logo, logo, em dois tempos, não haverá saída. Então será preciso pensar desde já em qual medida adotar quando esse dia chegar. Com 53 mil carros em quatro anos e mais outros tantos nos próximos quatro, esse dia está bem próximo.

O olhar dos cães de rua

03 de dezembro de 2014 4

Com boa probabilidade, quem mandou e principalmente quem cumpriu a ordem para a matança de mais de uma centena de cães em Bom Jesus não cruzou o olhar com os animais de rua que morreriam logo depois. Cachorros de rua, especialmente, parecem ser ainda mais amigáveis, mas sem o verniz e o manto protetor do zelo e até do refinamento que reveste os cães com dono. Se os olhares tivessem se encontrado, haveria alguma chance de hesitação por parte dos exterminadores, quem sabe até de serem demovidos da ideia. Porque o olhar dos cães, em geral, é poderoso e seduz pela expressividade. O segredo dos cães está em sua expressão corporal, orientada centralmente pelo olhar.
Certamente não cruzaram o olhar os animais e seus algozes, porque não há explicação civilizada para a mortandade de 126 cães pelo método do envenenamento, um método cruel, ainda por cima. E também não pararam para raciocinar, os exterminadores. Foram movidos pela cegueira ou pelo interesse, provavelmente por ambos. O que revela ser bastante comum e simples a manifestação dessa cegueira, de um apagão ou escuridão racional facilitado pela ausência de bons sentimentos, da mínima razoabilidade e do discernimento moral.
Mas vai muito além a barbaridade cometida em Bom Jesus. Pelo que revela a investigação policial, a solução encontrada foi quase uma política pública implementada por funcionários da prefeitura, ainda que não levada ao conhecimento do prefeito, para supostamente “resolver” os problemas causados pela proliferação de cães na cidade. Quer dizer, é a institucionalização da barbaridade. Teria faltado uma filigrana formal, o ambiente em que se deu a trama que decidiu pelo extermínio, a salvo de um espaço público. Mas a representação institucional, tomada por base a investigação, essa esteve presente na decisão pela matança.
Quando servidores de uma prefeitura decidem matar centenas de cães sem ressalvas é porque a barbaridade e o primitivismo ganharam espaço e avançaram até dentro da administração pública, sem freios administrativos, humanos ou morais. Quem sabe só o olhar dos cães de rua fosse capaz de operar o milagre de aliviar o embrutecimento humano, mas eles não tiveram essa chance.

E o torniquete ainda vai pegar

02 de dezembro de 2014 0

Fazia um dia abafado no domingo à tarde, e o pessoal que esperava atendimento no Postão 24 Horas estava em apuros. Como é frequente, aliás, situação a que muitos tendem a se conformar, amortecidos, sem reação. Outros não, e resolveram berrar, pedindo auxílio da imprensa. Fizeram muito bem. Não havia médico, ou havia apenas um, eram as notícias desencontradas que chegavam do Postão. A informação de que era preciso paciência, pois o domingo se prolongaria com apenas um médico era atribuída a uma enfermeira do pronto-atendimento. A secretária da Saúde, Dilma Tessari, confirmou os dias de enorme carência médica.
Qualquer das duas alternativas – nenhum ou só um médico – são inadmissíveis para uma cidade do porte de Caxias do Sul, às vésperas de chegar ao meio milhão de habitantes. Certamente que, entre as pessoas que esperavam, havia pacientes que não demandavam a urgência do atendimento, mas também não pode ser menosprezado que havia entre eles pacientes com grande desconforto, a quem é desumano justificar, sob o abafamento que fazia e uma espera de horas, que devem esperar a segunda-feira e buscar atendimento no postinho de saúde do bairro.
Enquanto isso, o Postão ficava entregue a um médico. Ora, que nos permita Boris Casoy, isso é uma vergonha. A própria secretária Dilma admite a agudeza da situação, que se reflete em péssimo atendimento à população. Diz ela: “Temos tido grande dificuldade de conseguir profissionais nessa área. Estou muitíssimo preocupada, é uma realidade bastante dura. O PA é o lugar que mais nos preocupa, é o mais frágil.”
A franqueza é atordoante. E para alarmar ainda mais, o prefeito veio a público no balanço de seus primeiros dois anos de governo e anunciou: “Precisamos ter cuidado com a saúde e a educação, mas lá o torniquete vai pegar”. Tradução: anunciou corte de gastos. Quer dizer: deve ficar pior em 2015.
A situação da saúde pública em Caxias do Sul, portanto, encontra-se em momento alarmante. Há investimentos anunciados, como uma UPA e um hospital materno-infantil. Mas o Postão precisa funcionar regularmente, e com eficiência. É hora de os administradores públicos prestarem esclarecimentos à população sobre o que farão para administrar esse quadro de dor.

A comunidade tem a força

01 de dezembro de 2014 0

Comunidade se faz com relações reais. Com encontros, conversações, o compartilhar de momentos e experiências. As redes sociais são uma ferramenta facilitadora de relações reais. Comunidade que pulsa e se organiza continua sendo a chave para conquistar melhorias para a rua, para o bairro, para retirar espaço de maus moradores e desocupados, que sempre existem e disputam o espaço da cidade para práticas daninhas, perniciosas e violentas. É preciso retirar, literalmente, o espaço dessa gente. Isso só se dá com comunidade forte e moradores que entendem a importância dos ambientes de convivência.
Ontem, a comunidade do bairro Santa Catarina esteve reunida para comemorar os 60 anos de criação da paróquia. Teve procissão motorizada pelas ruas do bairro, teve banda do colégio, teve moradores saindo às ruas para ver a santa passar, teve foguetório, teve caminhão com balões carregando o padre, a imagem da santa, os integrantes mais antigos da comunidade. Teve júbilo dos moradores e o sentimento de fazerem parte de um conjunto de pessoas com proximidade geográfica. Depois teve almoço. Foi uma festa comunitária simples e singela, mas que teve o essencial: pessoas reunidas. Palmas para a comunidade do Santa Catarina. Nesse caso, a comunidade esteve reunida a partir da paróquia. Não precisa ser este o fator de atração, pode ser outro, as melhorias comunitárias, o lazer, o clube de mães. O decisivo é que os moradores se encontrem.
As relações virtuais e o mundo online são valiosos, mas carregam uma imensa armadilha, à qual muitos se deixam sucumbir. Carregam a ilusão de que tudo pode se resolver por meio de teclados e clics. Então, muitos já não saem de casa. Alguns já nem se encontram e, quando se encontram, dedicam muito do tempo e da energia a teclar com quem está longe. Estamos desenvolvendo a inclinação preferencial do contato com quem está distante. É louvável, só não se pode deixar de lado quem está perto. Neste particular, a tecnologia conspira contra a comunidade, extrapolando a condição de ser ferramenta de aproximação. O mundo moderno, do jeito que o tornamos, afasta e conspira. Mas só comunidade forte tem a resposta para nossas mazelas e nossos males. É preciso facilitar o encontro das pessoas, mais do que nunca.

Os 2 anos do Governo Alceu e o ambiente da cidade

29 de novembro de 2014 0

Há alguns movimentos promissores para a cidade. Eles precisam se confirmar, no entanto, para que, aos poucos, vá se estabelecendo um novo ambiente sob o ponto de vista da humanização da cidade. É metade do governo do prefeito Alceu Barbosa Velho que está vencendo. Nessas ocasiões, a tendência é um balanço sobre questões duras, objetivas, concretas, investimentos e serviços palpáveis, mas o “ambiente da cidade” é aspecto que também se mede e, geralmente é desprezado.
Entre esses movimentos promissores para a humanização da cidade, a Praça do Trem, anunciada há dois meses, é o mais próximo de se tornar realizável. Tem grande chance de imprimir um outro jeito a essa fisionomia urbana tão dura e apressada que nos caracteriza. Poderá permitir que a cidade e os moradores se esparramem em um novo espaço de lazer no bairro São Pelegrino.
Outros dois movimentos eram muito aguardados: a ocupação da unidade Centro da Eberle e a transferência da Maesa para o município. Estes, no entanto, terão desenrolar de médio prazo. Ainda demoram, mas houve avanços agora. O que interessa, sob o ponto de vista da humanização, são pontos de encontro para o convívio da cidade, função que as duas unidades da antiga Eberle precisam cumprir. Em ambos os casos, também, será preciso garantir a preservação da memória, pois cidade viva é a que cuida de sua história.
Há um grande parque em gestação, o chamado Ecoparque. Os movimentos indicam que se tornará realidade, o que significará uma valorização do meio ambiente e da convivência inédita na cidade. Faltam, porém, nessa área, garantias de espaço de lazer e convívio para comunidades historicamente esquecidas e desprovidas desses espaços.
As ações no âmbito do trânsito, porém, não produziram efeito para melhor no jeito de ser cidade nessa primeira metade do Governo Alceu. O pedestre segue esquecido, desrespeitado e sem prioridade. Perdeu espaço e o trânsito segue furioso. Por esse lado, a cidade não se humaniza.
Há alguns movimentos promissores, portanto. É importante. Mas nestes dois anos, o ambiente urbano, nosso jeitão de ser cidade, ainda não mudou na prática. Seguimos apressados e convivendo bem menos do que se recomenda. Esse ambiente precisa mudar.

Nossa coleção de barbaridades

28 de novembro de 2014 0

Estupros e abusos na região têm sido noticiados com uma frequência alarmante. Agora mesmo, alguém envenenou mais de 100 animais domésticos em Bom Jesus. Soube-se ainda que uma idosa era agredida e espancada pelo neto há pelo menos quatro anos em Bento Gonçalves. São episódios repulsivos e atordoantes. O mundo segue vertiginoso e sem freios, ao mesmo tempo em que convivemos com a corrupção escancarada, em que o que mais importa é a vantagem pessoal, não interessa que seja preciso pisar no pescoço dos outros. Ou matá-los direta e objetivamente, como é o caso do submundo do tráfico.
A falta de escrúpulos e a opção pela violência mais crua parecem ser produzidas hoje em dosagens industriais. Ao mesmo tempo, tais barbaridades explícitas convivem com as atitudes nobres, a solidariedade e a humildade. O mundo é um paradoxo, nem maldade total muito menos bondade geral. Um mundo imperfeito, com a cara dos humanos, mas não era preciso exagerar.
Cabe considerar que a deturpação dos comportamentos e condutas tem causas que se combinam e se estimulam, uma à outra. A base, é claro, encontra-se na negligência à educação e, logo na sequência, na ausência ou na fragilidade de uma educação voltada ao coletivo e ao espírito de comunidade. Essa base interfere nas escolhas mais racionais e nas escolhas do coração, isto é, naquelas que optam pelo caminho da maldade explícita e gratuita, e estamos fartos de exemplos desse tipo de procedimento. Interfere ainda a falta de consequência para tantos malfeitos praticados, a estimular todo o círculo vicioso.
No caso da idosa espancada pelo neto em Bento Gonçalves, por exemplo, há pelo menos quatro anos ela registra na polícia que é agredida por ele. É uma espécie de Caso Bernardo voltado para os mais velhos, com pedidos de socorro, situação, aliás, que é mais frequente. Houve até procedimentos protetivos da parte da Justiça, mas que, vê-se agora, não resultaram em proteção. Isso é escandaloso, pois falharam sistematicamente os mecanismos de controle da sociedade, ou eles parecem de faz-de-conta, ou são negligenciados pelos órgãos públicos.
Leve-se todos esses ingredientes ao fogo alto de um ritmo de vida frenético e temos uma coleção de barbaridades, com um tempero de horrores.

Prendemos um flanelinha

27 de novembro de 2014 0

O repórter do Jornal Nacional noticiava diretamente de Genebra, na Suíça, as notícias da Operação Lava-Jato e a tentativa de autoridades brasileiras em conseguir junto a bancos suíços a devolução de recursos para os cofres públicos. Como cenário de fundo, uma das ruas de Genebra impecavelmente sinalizada, com suíços voltando para casa. Era noite, já, mas ainda assim não percebi qualquer vislumbre de comércio ambulante nas ruas, pichação em algum prédio, um flanelinha guardando alguma vaga ou algum carro estacionado em fila dupla ou sobre a calçada ou faixa de segurança. Por aqui, comemoramos inacreditavelmente a prisão do primeiro flanelinha, desses que extorquem motoristas à luz do dia e fica tudo por isso mesmo, tão amortecido está o senso de reação da população.
Não que nossas cidades devam ser como as cidades suíças. As culturas são diferentes, não devemos querer ser iguais aos suíços, nossos temperamentos são distintos, o grau de informalidade por aqui faz parte de nossa personalidade e querer viver sem ele de certa forma violentaria um pouco nosso jeito do ser. Assim é que improvisamos entre nós, por exemplo, o flanelinha do bem, aquele guardador de carro que é amigo dos motoristas, e não o que extorque. Quer dizer, civilizamos um pouco nossa informalidade.
Computadas as diferenças entre Genebra e nossas cidades, só do que não se pode abrir mão é do respeito nas relações urbanas, seja lá ou seja aqui. E convenhamos também, nosso grau de informalidade está exagerado demais. Tropeçamos no comércio ambulante na Avenida Júlio, da Praça Dante até São Pelegrino. Tudo bem que não sejamos como Genebra, mas por aqui está demais. Parecemos condenados a conviver com o mau jeito generalizado. Só que não. Basta fazer funcionar a máquina pública, com sensibilidade para nosso estilo de vida, mas o suficiente para controlar todos os exageros e desrespeitos.
Mas ainda há esperanças. Já prendemos um flanelinha, assim como grandes empresários estão presos na Lava-Jato e cogita-se até repatriar recursos. É surpreendente. Depois, falta controlar o comércio ambulante, enquadrar os maus motoristas, os pichadores, eliminar filas duplas, os privilégios nas Assembleias…

A ausência de opinião e a escola possível

26 de novembro de 2014 0

O estudante de serviço social José Antonio da Costa cobra do colunista “opinião” sobre o episódio da revista das mochilas no Santa Catarina. A crônica do final de semana sobre o assunto não o satisfez. Considerou-a ausência de opinião ou uma abordagem superficial. A provocação é saudável. Costa cita o artigo 5º da Constituição Federal e o artigo 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente, casualmente considerados pela crônica em questão, um indicativo de que a análise feita tentou a abrangência recomendável.
O assunto é importante e explosivo. Ele trata da escola que queremos, ou da escola possível. O que o texto do final de semana fez foi ponderar sobre a validade dos argumentos e posturas que vieram à tona. Como não levar em conta que uma direção precisa responder perante os pais de centenas de alunos pela segurança dos filhos? Ou que a decisão pela revista pode ter sido tomada pelo conselho escolar para responder a um ambiente difuso de violência? Isto é, haveria motivação concreta, ou foi um ímpeto de responder a esse ambiente? Considerar os diversos ângulos de uma questão não parece superficialidade, pelo contrário. Daí decorreu o desfecho daquele texto, que frustrou o leitor: o entendimento de que, ainda que se tenha uma opinião, em casos assim não se deve “montar barricadas em torno de uma posição”, porque há argumentos respeitáveis de ambos os lados.
Para deixar claro: o texto de sábado entendeu que a motivação para a revista não era suficientemente precisa. Ao mesmo tempo, entendeu a preocupação da diretora, e a valorizou. Mas o que Costa propõe é uma análise sobre “por que a escola perdeu o controle da situação”, como admitido pela coordenadora pedagógica, “eis que responsável pela condução da educação e formação de crianças e jovens”, diz ele. A escola perde mesmo o controle, mas será excessivo e injusto deixar de lado os pais e colocar todo o peso sobre a escola. Bem sabemos que há educadores que se atrapalham neste momento em que as orientações pedagógicas e o mundo mesmo passam por profundas transformações. Mas quem não se atrapalha? Esse peso todo não depositaremos sobre os ombros da escola pública, já oprimida por uma série de tarefas e diretrizes legais, pedagógicas e administrativas, mais os pais que atiram seus filhos no colo dos professores. É crueldade. O que importa, isto sim, é garantir um ambiente de conversa e reflexão.
Contextualizar não significa deixar de opinar.