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Agora chama-se 'food trucks'. Bonito!

22 de dezembro de 2014 0

Minha cidade, o Alegrete, não é uma cidade industrial. Longe disso. O forte é a agropecuária, arroz e criação de gado. Mas havia por lá uma indústria, quase 40 anos atrás. Chamava-se Montipó & Wasquevite e fabricava trailers para fins do comércio alimentício, com a estrutura de uma cozinha planejada para a finalidade de lanches rápidos, inclusive com uma prensa para prensar os tradicionais xis. Não havia cidade do Estado que não tivesse um trailer daqueles.
Passei boa parte da universidade comendo xis prensado, uma modalidade que não conquistou simpatia de Porto Alegre para o norte do Estado, Caxias do Sul inclusive, mas que, de Santa Maria para baixo, era extremamente popular. E saborosa. Xis prensado é uma delícia. Tanto que as prensas para prensar xis, de tanto uso que tinham, logo ficavam embebidas em gordura, o que era de fácil constatação a um exame visual preliminar. Mas isso não assustava ninguém, e aquele xis prensado de bacon com ovo encharcado de maionese era inigualável e comíamos a qualquer hora, até nas madrugadas, depois das festas de fim de semana. Bem ao avesso do que recomendam hoje os princípios de uma alimentação saudável.
Em Alegrete, ainda existem os trailers da Montipó & Wasquevite. Em Santa Maria, não havia esquina da generosa e ampla Avenida Rio Branco ou da Presidente Vargas sem um trailer para alimentação rápida, que quebrava o galho de muita gente. Tinha trailer por todo lado da cidade. E comia-se o lanche de forma improvisada com os amigos e colegas de faculdade, sentado em bancos de madeira ou nos canteiros de flores que havia ao redor.
Pois hoje noticia-se que a forte tendência da economia para o comércio de refeições rápidas são os chamados “food trucks” – só podia ser em inglês. São “caminhões de comida”, em bom português. Difunde-se o termo, imprime-se uma nova roupagem, dá-se uma feição moderna, bem ao gosto da moda, e vira “mania gastronômica”. Ora, os pratos oferecidos podem ser diversos, além do xis, mais refinados, mas comida de rua sempre houve, sempre fez parte do cenário urbano. Agora chama-se “food trucks”. Bonito! Os trailers da Montipó & Wasquevite eram “food trucks”, então. Assim cria-se o que se chama de tendência, e os desavisados acreditam que é tudo muito moderno. A publicidade e o marketing são fascinantes.

A utilidade do jornalismo comunitário

20 de dezembro de 2014 0

Esta sexta-feira revestiu-se das peculiaridades de um dia marcante. Particularmente, por revelar a importância de uma determinada modalidade do jornalismo, o jornalismo comunitário. Nesta sexta-feira, a passarela sobre a BR-116, no São Ciro, foi dada, enfim, como extraoficialmente concluída. Sempre pareceu improvável que a obra fosse finalizada, tantos foram os contratempos e as desconfianças. Mas, na prática, está pronta, e as pessoas já começam a fazer a travessia da BR por cima da passarela.
Desde o dia 18 de dezembro de 2008, um dia após a triste morte por atropelamento do menino Diego Zachi Carlotto, que caminhava pelo acostamento com sua mãe, e nem era uma travessia da BR, este colunista defendeu a necessidade de medidas preventivas para alunos, idosos e trabalhadores, todos numerosos nas margens da rodovia, na região do São Ciro. E acompanhou passo a passo todos os entraves, embaraços e o ritmo lento dos pequenos avanços ao longo desses seis anos. Até chegar esta sexta-feira, quando a passarela ficou pronta e a travessia foi liberada.
Por isso, o dia é marcante e gratificante: permite constatar a materialidade de uma obra que vai salvar vidas, à parte o desdém de muitos que se apressam em identificar os outros tantos que continuarão a se arriscar no meio da pista. Foi muito difícil a passarela chegar até o fim. Mas a mobilização comunitária, especialmente da comunidade da Escola Érico Veríssimo, apoiada por este jornalismo comunitário, tornou realidade outro cenário na BR, de respeito ao pedestre. A passarela do São Ciro, além de sua importância objetiva, é símbolo de outros tempos na 116, mais humanos e respeitosos.
Sintomaticamente, a conclusão da passarela coincide com a despedida do editor-chefe do Pioneiro, Roberto Nielsen, que cometeu a insanidade de franquear a este colunista o espaço da crônica diária. Essa coincidência torna-se, emblematicamente, uma homenagem a Roberto, pela capacidade de traduzir de forma palpável o que o exercício persistente e insistente do jornalismo comunitário, tão caro a ele, pode garantir em benefício de uma comunidade.
É uma feliz coincidência. Obrigado, Roberto. Parabéns, comunidade do São Ciro.

O país dos absurdos e a recaída da obviedade

19 de dezembro de 2014 0

A gente já nem fala, porque é de uma obviedade gritante. Fica chato falar de obviedades, é mais do mesmo. Então toca-se a vida atrás de outros temas mais empolgantes e surpreendentes, mas aí mora um problema: deixa-se de falar do absurdo da obviedade que é deputados federais e senadores estipularem salário de R$ 33,7 mil, igual ao dos ministros do Supremo. É muito dinheiro, claramente uma exorbitância, ainda que deputado devesse ter sua remuneração justa, porém austera, como exige a ocasião. O Brasil é o país dos absurdos. Começa aí, deputado federal ganhando mais do que a presidente da República. São dois absurdos em um golpe só: o valor estratosférico e a primazia sobre a primeira mandatária da nação.
Falar que o Brasil é o país dos absurdos é a recaída da obviedade, que tanto se teme e se quer evitar. Mas como evitar? O Rio Grande também é. Aqui, os deputados estaduais irão ganhar R$ 25,3 mil, como o governador. Ora, deputado, aqui e lá, não tem de ser o maior salário, isso é de uma limpidez constrangedora. Mas os absurdos não se esgotam aí. Por lá, os deputados, a exemplo dos ministros do Supremo, fixam os próprios salários, dentro de um teto pra lá de confortável, e estipulam faixas em cascata para seus colegas parlamentares dos Estados e municípios. E vem promotor, e vem delegado, e vem juiz, e vem procurador, e vem coronel da Brigada, e vem conselheiro do TCE, tudo na fila da cascata. E ainda tem o auxílio-moradia para os magistrados, os pobres.
Por aqui, a base aliada do governo eleito, que constata uma crise fenomenal nas finanças estaduais, vota o aumento dos deputados além da inflação. É estapafúrdio. E o Executivo abaixa a cabeça, sob alegação de que um poder não pode interferir em outro, mas o Legislativo interfere no Executivo, que tem a chave do cofre. Aí pode. O que não pode é dar o aumento justo, merecido e historicamente represado aos professores. Aí ressurgem a austeridade esquecida, a Lei de Responsabilidade Fiscal. E não haverá deputado, é claro, para fazer a seguinte lei: congelem-se vencimentos e privilégios dos primos ricos do serviço público enquanto professor não tiver o salário que merece. Simples assim.
Perdoem, por hoje, o surto de obviedade. Mas é preciso não negligenciar com o óbvio.

Mundo do faz de conta

18 de dezembro de 2014 0

O companheiro dos últimos dias da ex-princesa da Festa da Uva Henriette Vaccari anda postando fotos na prisão. Está de posse de um celular, ele e um batalhão de presos. Todos os dias entram celulares em presídios. É uma infração tão grave, pela regra desprezada e pelas consequências que um celular dentro da prisão acarreta, de apoio ao crime organizado, que deveria significar punição funcional automática para os agentes públicos que devem controlar a entrada dos aparelhos em presídios. Mas assim não é. E se assim fosse, nas constantes reincidências, eles não paravam em pé. O governo sabe há décadas que os celulares entram em presídios todos os dias, como entrou o celular do companheiro da ex-princesa. Mas é incapaz de resolver esse problema corriqueiro. Virou deboche.
Os pais continuam parando seus carros onde não devem, na Sinimbu, inclusive sobre a faixa de segurança, para deixar seus filhos no São Carlos. Param na cara dura, no atropelo mais deslavado e escancarado às regras de trânsito. É assim também com a fila dupla na frente das escolas particulares. É um jeitinho abominável, porque esses motoristas prejudicam outros motoristas e outras pessoas. Na regra geral, não há fiscalização, porque faltam fiscais, e as administrações não contratam mais fiscais porque a Lei de Responsabilidade Fiscal não permite empilhar fiscais, porque estouraria o teto do gasto possível com pessoal. Mas, com poucos fiscais, vira o reino do faz de conta.
Vale o mesmo para o vandalismo que campeia sem combate, para a pichação de prédios. Nada disso pode, está claro, mas são consideradas ações de “menor potencial ofensivo”, e são deixadas de lado, sem investigação policial, pois a polícia tem muito mais o que fazer, e também ela padece da falta de gente. Estamos condenados a essas infrações crônicas a leis e regrinhas elementares.
Vamos falar sério. Boa parte da população faz de conta que cumpre as leis e as regras. E as administrações e governos fazem de conta que governam. Passam os anos, e não conseguem impedir que celular entre na prisão, que motoristas parem em lugares onde atrapalham a vida da cidade. Não conseguem a mais singela organização para colocar ordem na casa. E não há qualquer sinal de que, no curto prazo, irão conseguir.
Atestado maior de incompetência não há.

UBSs atenderão 2 dias e meio em 12 dias

17 de dezembro de 2014 0

Com as festas natalinas e de final de ano, vem junto um período de dificuldades previsíveis para a saúde de Caxias do Sul. Com Natal e 1º de janeiro em uma quinta-feira, formam-se dois grandes feriadões, que dificultarão o atendimento médico nas UBSs. Essa organização, definida por ordem de serviço da Secretaria da Saúde, conspira contra orientação da própria secretaria, que conclama os moradores a evitarem o Pronto-Atendimento, buscando atendimento prioritário nos postos de saúde dos bairros.
Entre 24 de dezembro e 2 de janeiro, as UBSs abrirão na manhã do dia 24 e depois, somente nos dias 29 e 30, segunda e terça-feira. Isto é, em 12 dias, as UBSs atenderão em apenas dois dias e meio. Para os dias restantes, não tem saída: os moradores que precisarem terão de recorrer ao Postão.

A invasão das senhorinhas de bengala

17 de dezembro de 2014 0

Todos os recenseamentos indicam o envelhecimento da população. Seja qual for o setor sobre o qual se lance o olhar, o mundo terá de mudar para contemplar os interesses, a atenção e o respeito a esses que já nos deram e ainda nos dão décadas de contribuição. Desde a aposentadoria, aos planos de saúde, aos serviços públicos, até o trânsito. Neste particular da mobilidade urbana, as cidades caminham na direção oposta, estão cada vez mais rápidas. Há um enorme contrassenso aí, que se manifesta em obstáculos arriscadíssimos, que promovem até a exclusão dos mais idosos das ruas. Não pode ser assim, a cidade, seus técnicos, suas administrações, devem trabalhar no sentido de garantir utilidade duradoura a essas pessoas que envelhecem cada vez mais.
Que já existe uma saudável invasão das bengalas, as ruas nos mostram. Há dois episódios recentes, em duas segundas-feiras. No dia 8, a publicitária Renata Fochesatto testemunhou uma cena que a comoveu: “Uma senhorinha de bengala aguardava o ônibus na Rua Jacob Luchesi a caminho do Centro quando uma jovem, dona de uma escola infantil, ofereceu-lhe carona. A senhora, espantada, perguntou se a motorista iria lhe “sequestrar”. A jovem sorriu e respondeu que não se preocupasse, pois sua mãe também usava muletas e tinha dificuldade para subir no ônibus. Por isso, lhe oferecia a carona. A senhora agradeceu e seguiram em direção ao Centro. Foi uma atitude digna de reconhecimento, um gesto que não se vê mais. Que sirva de exemplo”, descreve Renata.
Na segunda agora, outra senhorinha de bengala, esta amparada em uma adolescente, tentava atravessar a movimentada e velocíssima Duque de Caxias, na pista da descida, onde os veículos embalam ainda mais. Então, o motorista de um carro preto, placas ITY-4466, que descia reduziu a velocidade aos poucos, ligou o pisca-alerta para avisar os motoristas que vinham atrás e parou o carro para a idosa atravessar a rua. Uma raridade.
Nem tudo está perdido. As cidades precisam se organizar muito melhor do que hoje para acolher essas pessoas que envelhecem. Na verdade, é o estilo de vida que precisa ser mais lento, com reflexo nas cidades. É quase uma guerra perdida, mas não é impossível. De resto, é preciso retomar o respeito, que se perdeu seriamente por aí.

Um 'Muro de Berlim' em Caxias

16 de dezembro de 2014 1

Em geral, observo aquela área da esquina da Ernesto Alves com a Avenida Brasil a partir do ângulo da cidade, vislumbrando o bairro com as casas que se empilham. A área é histórica. Um dia, ali funcionou parte das instalações da Cervejaria Leonardelli, que fabricava a Cerveja Pérola. Este sábado, participei da singela comemoração do primeiro ano de existência do projeto Vira Virou, na Igreja São Vicente. Um projeto essencial. Então pude ver a área no ângulo ao contrário, a partir do bairro, tendo a cidade como cenário.
O descortínio, a visão da área sob o ponto de vista inverso, apenas confirma o que se sabe: ela está virada em escombros, proporciona um bom esconderijo para quem quer consumir droga e realizar outras atividades nada edificantes. As paredes que ainda restam são o que os moradores bem caracterizam como um “Muro de Berlim” em Caxias do Sul: elas apartam e afastam a cidade dos bairros São Vicente e Jardelino Ramos, em especial. Introduzem essas paredes um obstáculo entre as históricas comunidades e a cidade, dificultando a inclusão e a aproximação dessas comunidades nos projetos e na vivência da cidade, aumentam a insegurança para os moradores. É um obstáculo também para a chegada de serviços públicos até esses bairros, como saúde, educação, segurança, redes de esgoto, transporte. E não menos importante, quem sabe até decisivo, o lazer. Ou seja: aquela área, do jeito que está, é o desastre total
A área é privada. Custa caro, vale uma pequena fortuna. Mas será uma marca para qualquer administrador público transformá-la em uma grande e simbólica praça ou parque capaz de incorporar o Jardelino Ramos, o São Vicente, a região da Antena à cidade. E resgatar uma dívida com o lazer daquela criançada, que o Vira Virou tenta direcionar com esforço voluntário e comunitário, para afastar da perigosa ociosidade. E ainda que o valor seja alto, o custo-benefício – analisado em futuro para crianças e adolescentes, convívio para moradores e resgate histórico e urbano – é garantido. Compensa tentar, portanto.
Alternativas administrativas existem, como parceria ou índices construtivos. A ideia é boa demais para ser deixada de lado sem maior esforço. A cidade precisa se convencer de que essa é uma iniciativa tão decisiva quanto a Maesa, por exemplo.

Therezinha Gollo foi imprescindível

15 de dezembro de 2014 1

Há pessoas que são imprescindíveis, com a devida licença de Bertold Brecht. Dedicam a existência a causas que lhes motivam, descobrem ou se apegam a causas nobres capazes de as motivar. Como essa “ocupação” está em falta nos dias de hoje! São incansáveis, contornam com maestria a futilidade dos dias e o desperdício das horas lançadas pela janela, envolvidas com causas que ajudam outras vidas a encontrar sentido. Tem o dom de remexer, de revolver a realidade, de ser o sal da terra. De melhorar o mundo, de deixar uma contribuição à vida.
Therezinha Gollo foi uma dessas pessoas. Para nossa ventura, viveu em Caxias do Sul, onde se dedicou por décadas ao trabalho da Pastoral da Mulher Marginalizada, depois Pastoral da Dignidade da Mulher. Em português claro, foi íntima das prostitutas, das mulheres que corriam enorme risco pela exposição e comercialização do corpo, esteve ao lado delas sem apregoar falsos moralismos, mas como presença, apoio, orientação. Por anos, décadas a fio, essa foi a causa a que Therezinha Gollo dedicou a vida. Não resta a menor dúvida, foi uma pessoa imprescindível.
Therezinha Gollo foi-se em silêncio quarta-feira passada, aos 89 anos. A cidade perdeu Therezinha Gollo e parece não ter se dado conta do que perdeu. Talvez até muitos nem saibam que ela se foi, tamanha a discrição de sua despedida. No entanto, Therezinha Gollo é das tais pessoas que qualificam, que dignificam a vida de uma cidade, porque se dedicam a cuidar de levar dignidade à vida de moradores e moradoras desta cidade.
Já há algum tempo, está faltando gente como Therezinha Gollo. Há cada vez menos. Então, quando essas pessoas especiais se vão, é preciso abrir espaços, iluminar generosamente sua contribuição à vida, pois gente assim é um monumento à generosidade. Ou estamos correndo tanto que não somos capazes de solenizar a perda de Therezinha Gollo e de pessoas como ela? Ou não somos mais capazes de identificar pessoas essenciais e de dar-lhes o devido valor?
Therezinha Gollo é uma perda imensa para Caxias do Sul. Deve-se, portanto, o honroso agradecimento por sua passagem entre nós. Foi um privilégio para a cidade. Há pessoas que são imprescindíveis. Therezinha Gollo foi uma delas.

O preço da liberdade singela

12 de dezembro de 2014 0

O relatório da Comissão Nacional da Verdade, recém divulgado, é uma aula de história. A reunião e organização do material todo valem por um curso inteiro, com todas as demais especializações e aprofundamentos. O tema, ainda hoje, quase 30 anos do fim do período que se convencionou chamar de regime militar, é explosivo e espinhoso. Não faltará quem se apresse na tentativa de emparelhar as ações violentas praticadas por um e por outro lado. Quando se viu, estava em curso uma guerra. O fato é que a Comissão da Verdade desempenhou sua tarefa de iluminar as violações de direitos humanos praticadas especialmente por organismos de Estado e prevenir para que nunca mais aconteçam. Não à toa, o relatório foi divulgado no Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Hoje, direitos humanos virou palavrão. Particularmente em Caxias do Sul, essa noção é muito popular. Tenta-se reduzir direitos humanos à atenção e apoio a vítimas de violência. Ora, isso é um meritório exercício de solidariedade. Direitos humanos são muito mais. Causam perplexidade a má vontade, a dificuldade de entendimento e a confusão em torno do tema. Valorizar direitos humanos é valorizar os direitos da pessoa humana, todos eles, simples assim – inclusive o direito à segurança, que também é inalienável e legítimo.
Ao nos reaproximarmos agora, com a divulgação do relatório da comissão, dos fatos ocorridos nos anos 60 e 70 no Brasil, com ecos, desdobramentos, espasmos e respingos nos anos 80, causa profundo desconforto constatar que direitos humanos ainda é palavrão – e de novo, particularmente em Caxias do Sul, onde essa noção é arraigada. Causam profundo desconforto o desconhecimento e o desinteresse preguiçoso pela história da parte de boa parcela dos jovens, a aversão à política, de um modo geral, e, por fim, causam desconforto e indignação os ecos e movimentos sombrios que simpatizam e flertam com a ditadura. Desconhecem, todos esses que assim pensam e agem, ou se omitem e se desinteressam, que a liberdade singela de que hoje desfrutam, desde o ato mais simples do cotidiano, precisou ser conquistada. E desvalorizam todas as lutas, esforços e vidas agora homenageadas pelo relatório da Comissão Nacional da Verdade.
Esse pessoal deveria se dignar e ter um pingo de interesse por saber o que aconteceu.

A construção civil tem a força

11 de dezembro de 2014 0

O setor da construção civil tem a força em Caxias do Sul. Quase tudo pode, mas ainda não tudo. Menos mal.
O setor da construção civil é capaz de traduzir visualmente, pelo impacto visual, aquilo que se fala orgulhosamente da pujança do crescimento de uma cidade, no caso, Caxias do Sul. Para qualquer lado que se lance a vista, se encontrarão prédios em construção. Alguns portentosos, suntuosos, de alto luxo, a demonstrar a força econômica da cidade. A construção civil em Caxias é um retrato próximo de um conceito um tanto abstrato do que se convencionou chamar de “poder econômico”. O conceito é abstrato, sua tradução na prática, não.
Há algumas evidências nítidas de que o setor da construção civil tem a força. A legislação municipal é alterada com frequência ao sabor das necessidades do segmento. Passa quase tudo na Câmara. É preciso força para isso. Exemplos não faltam: o Plano Diretor da cidade foi revisto para que edificações mais altas pudessem subir no entorno do Mato Sartori – uma delas já subiu, vertiginosamente.
O expressivo Casarão Rosa da Alfredo Chaves sumiu da vista da cidade, sem que o Compahc se importasse com isso. Por obra da construção civil. Agora a Câmara exercita uma ginástica legislativa para aprovar um loteamento de luxo no entorno do Parque Samuara e da bacia de captação do Samuara. Serão 1.600 lotes, algo assim como 6 mil pessoas na região, só para dar uma ideia. E um cinturão de loteamentos de alto padrão se forma, já avançando sobre a zona rural.
Só ainda não foi possível desmembrar a Maesa com a abertura da Rua Vereador Mário Pezzi, mas bem que já se tentou. O setor da construção civil ainda não consegue tudo, mas é bom ficar atento.
Nada contra o crescimento e a demonstração de vigor do segmento da construção civil. Ele expressa com clareza o crescimento da cidade, e traz importante retorno econômico, inclusive sob forma de empregos, além de ser uma aposta de que esse crescimento vai ainda mais longe. Só que ele deve se dar com calma, sem atropelos e empurrões, especialmente quando os efeitos se espalham pelas áreas ambiental e da memória. Coisa bastante comum por aqui, aliás, e os maiores exemplos relacionados não deixam nenhuma dúvida.