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Maria Eduarda e a luta pela vida

28 de outubro de 2014 3

Vidas de crianças que se perdem são episódios tocantes, capazes de comover mesmo quem está à distância ou às vezes é indiferente às artimanhas da vida. Estava pronto para seguir tratando dos desdobramentos da eleição, mas não será possível. Esse turbilhão eleitoral ou qualquer outra avalanche similar de informações tem seus prejuízos: corre-se o risco de encobrir ou retirar a visibilidade de episódios ou histórias de vida que não podem e não devem passar sem registro. A morte precoce da pequena Maria Eduarda e, principalmente, sua luta pela vida é um desses casos que devem fazer parar todo o resto, abrir espaço diante das demais intercorrências da realidade, quaisquer que sejam.
Maria Eduarda se foi no sábado. Ela estava às vésperas de completar seu primeiro aninho de vida, período que passou praticamente inteiro dentro do hospital, acompanhada o tempo todo por Bruna, a sua mãe. O pai da menina é caminhoneiro e tinha de viajar com frequência, o que fez da mãe sua companhia em tempo integral. Somente os primeiros 20 dias Maria Eduarda passou em casa. Ela tinha uma doença rara, a Síndrome de Omenn, que exigia um transplante de medula para ser controlada e vencida. Não deu tempo, apesar da mobilização da comunidade para ajudar a menina na busca por material compatível para doação.
Meses atrás, Bruna chegou a comemorar o nascimento do primeiro dente de Maria Eduarda. Sua dedicação à filha e o contato o tempo inteiro deixarão gravadas as lembranças e a intimidade de cada detalhe. Isso é forte demais, mas foi a experiência que a vida reservou para Bruna e o pai Moisés. Então o melhor é entregar-se a ela e vivê-la de forma única e intensa, sem ressalvas ou temores, para ficar eternizada a lembrança de Maria Eduarda e sua luta pela vida. Amor não faltou.
Não devemos fugir jamais das experiências intensas. A dedicação da família e especialmente da mãe a Maria Eduarda torna mais difícil o momento da perda. Mas fará da breve convivência inesquecível e marcante por toda a vida. Confesso que não sou dado a expansões forçadas da emoção, mas a pequena e brava existência de Maria Eduarda comoveu-me, mesmo à distância.
Maria Eduarda foi sepultada domingo em Santa Corona.

Venezuelização subiu alguns pontos

27 de outubro de 2014 0

Ponto 1: se não se lava a roupa suja deste país, deste Estado, agora, em época de eleição, vai se lavar quando? Dentro deste espírito, é preciso chamar à responsabilidade pelos atos praticados ou não-praticados ao longo da trajetória dos candidatos e partidos, claro que sim. O que não significa que seja preciso rebaixar o nível, claro que não. Esse aspecto da lavação de roupa suja, porém, não fica claro dentro de um processo eleitoral. Mas é como na casa de cada um: tem a hora de lavar a roupa suja. Foi o que se fez. Então, teve muita choradeira e muito mi-mi-mi além da conta. Não foi para tudo isso, mas também houve claros excessos: desrespeitos, agressividades e falseamento da verdade, o que é muito ruim e perigoso.
Ponto 2: é perigoso porque nossa personalidade coletiva está longe da maturidade civilizada e democrática para conviver com antagonismos. Não deveria ser complicado conduzir uma campanha com postura, autocontrole e sobriedade, mesmo que o componente da paixão incida nesse percurso eleitoral. No entanto, ainda é muito difícil. A agressividade corre solta, e se esquece que um candidato representa milhares de pessoas. Assim, o tom irônico e depreciativo ao se referir a um oponente é completamente dispensável, levando-se em conta que está se depreciando todo um exército de eleitores, que merece respeito.
Ponto 3: quando os candidatos e as coordenações de campanha deixam-se levar pela passionalidade do eleitor comum, o estrago fica visível no momento imediatamente pós-eleitoral. Nessa hora, na hora em que será preciso governar, é preciso inverter o discurso, reunir forças, mas então o estrago está feito. O acirramento de ânimos de uma campanha como a que agora chega ao fim só faz crescer um processo de venezuelização, em que a intolerância entre os opositores, espraiada pela população, é completa. E com divisão, não se vai a lugar nenhum. Esta eleição fez a venezuelização subir alguns pontos, no país e no Estado.
Ponto 4: a lavação da roupa suja deveria ser encarada com naturalidade e encerrar-se com um respeitoso e fraterno abraço no momento seguinte à apuração. Mas assim não será. Estamos muito distantes da maturidade desejada. Sartori e Dilma terão de lidar com a venezuelização crescente. Toda sorte, competência e inspiração a eles, portanto. Será preciso.

O conflito entre o ambiente e o fim

25 de outubro de 2014 0

A política padece de um conflito que devora suas entranhas: o conflito entre o ambiente e a sua finalidade. Seu fim é o mais nobre possível, estabelecer a supremacia da palavra, o que significa aquilo que as pessoas de bem tanto desejam, o naufrágio da violência. Muito poucos dão-se conta desse atributo central da política. E a desdenham severamente por causa do ambiente que a envolve. É uma tenebrosa armadilha, pois o contrário da política é a lei do mais forte.
Mas o ambiente da política é terrível e mal-cheiroso por conta da ação de maus políticos, que representam boa parcela da sociedade. No entanto, eles não surgem do nada nem vieram de Marte. Eles são eleitos. Quanto mais políticos corruptos, maior é o número de integrantes desta sociedade que são suscetíveis à corrupção. É a lei implacável da representação. O que significa que, no Brasil, existe uma dose enorme de corrupção na sociedade.
A contradição aguda se estabelece quando as pessoas tentam desconstruir a política – olha a desconstrução aí! – porque o ambiente é deplorável – e é de fato. Por isso, boa parte da população enche a boca para dizer que vai votar em branco ou anular o voto. Como se resolvesse! Outros encontram nessa constatação do mau ambiente a justificativa sob medida para não se comprometer e sair de fininho, sem meter a mão na massa para melhorar a realidade. Melhor ficar em casa.
Claro, há os que tentam consertar a realidade de outra forma, não necessariamente filiados a partidos políticos. Está valendo. O que não vale é a indiferença e a falta de envolvimento. Assim, o ambiente pecaminoso, ao contrário de ser argumento para desconstruir, deveria estimular para construir a melhor política. Um senhor desafio, que deve começar por votar bem neste domingo.
A política padece do conflito entre o ambiente e a sua finalidade. Devemos ter a capacidade de perceber o que deve prevalecer: o fim sobre o ambiente ou o ambiente sobre o fim. Só não vê quem não quer ver. Já passou da hora neste país de valorizar a política e a sua finalidade. E de consertar o ambiente político. Começa por não desprezar a oportunidade que a democracia oferece, e que não saiu barato, de escolher bem e não desperdiçar o voto.

A vida por aqui é um faroeste

24 de outubro de 2014 0

Enquanto o país se envolve com a reta final de um acirrado embate eleitoral, a vida por aqui segue um faroeste. E já achamos esse ritmo bem normal, tanto que nem nos surpreendemos. Vale recapitular os episódios recentes, portanto. A cereja nesse bolo explosivo é a criança de dois anos que interceptou uma bala que tinha como endereço um tio seu, com passagem pelo semiaberto. Que episódio comovente e dramático na frente da residência do menino!
Mas tem muito mais: uma saraivada de enfrentamentos para acerto de contas; festa de aniversário invadida para um desses acertos em Forqueta, que terminou em morte; o tráfico a todo vapor, dois a cada três assassinatos recentes atribuídos a disputas por território para o comércio de entorpecentes; uma perseguição desde a saída do presídio pela Perimetral e bairro Fátima que teve até carro blindado especialmente providenciado para se defender dos tiros; uma bala perdida que acertou uma professora que nada tinha a ver com a história como consequência dessa perseguição; assaltos praticados por motociclistas, que encostam as armas na cara das vítimas nas esquinas da cidade; um sequestro-relâmpago que se desenvolvia em uma agência bancária em plena Sinimbu, às 10 da noite de uma segunda-feira. Fora o trivial. Tudo isso já é corriqueiro. É faroeste puro, a exigir um estado de alerta permanente nas ruas, sem chance para o cochilo.
É esse estado de coisas que assimilamos como normal, e já não nos espantamos. E não há como coibir, pois os bandidos perderam o medo da polícia. Saem a se enfrentar e abrem perseguição com troca de tiros em ruas movimentadas em pleno dia. Em outros tempos, mais “românticos”, os crimes eram mais passionais, com rixas entre vizinhos ou oponentes por motivos os mais banais. Hoje é enfrentamento puro, com execução sumária, e por disputa de território. O faroeste sai das telas do cinema e ingressa na vida real, nas ruas agitadas de um tempo dito moderno.
E o embate eleitoral comendo solto, com outro tipo de tiroteio. Sobre como frear a violência, conter bandidos, recompor presídios, recuperar apenados, discutir a legislação, muito pouco, quase nada. O faroeste prossegue, já integrado à vida em sociedade. É bom professores e crianças saírem da frente da linha de tiro.

Trânsito é guerra perdida

23 de outubro de 2014 3

O fato é que o trânsito não tem saída, ou logo não terá. É uma guerra perdida. O veículo individual veio para comodidade e conforto. É uma justa pretensão de consumo, que ultimamente tem se alargado. Inclusive, a isenção do IPI para boa parte dos modelos foi política de governo para estimular o aquecimento da economia e a superação da crise internacional. Então, as montadoras jogaram carros nas ruas e estradas a valer. Enquanto isso, a compreensão que se universaliza é de que se deve fortalecer o transporte coletivo, com medidas restritivas ao meio de locomoção individual. Dessa forma, fica tudo muito desafinado, cada um com a sua lógica. Só pode dar confusão.
Ocorre que há uma incompatibilidade física nesta equação, que envolve comportamento, economia, mas também as grandezas físicas definidoras do espaço. Não cabem tantos carros nas ruas e estradas, como em Caxias. Então, se falta espaço, os motoristas improvisam para procurá-lo, e é por isso que a fiscalização aplicou 823 multas no primeiro semestre por dirigir na faixa exclusiva do ônibus. Faltou espaço, espirrou para o corredor. É só um dos tantos reflexos de que o trânsito é uma guerra perdida se prosseguir vigorando a concepção da preservação do espaço dos carros.
Guerra perdida porque não há solução. Já entupiu, ou quase isso. O espaço físico é limitado. E a política pública tem de levar esse aspecto em consideração – porque ele é inevitável – na hora de traçar as diretrizes e prioridades para o trânsito de uma cidade. Essa evidência deveria tornar mais digerível a necessidade de oferecer mais espaço aos pedestres e, assim, qualificar e humanizar a vida nos centros urbanos mais confusos.
Como não vai mesmo caber mais carros na ruas em breve, então já se deveria estar pensando em como reduzi-los nas áreas centrais. E o espaço resultaria disponível para ônibus e pedestres. As medidas de mobilidade, nesse caso, deveriam ser amplas e contemplar soluções para as restrições que já começam a ser aplicadas. Só com a restrição, mas sem medidas compensatórias, aí é que não vai funcionar mesmo.
Mas Caxias resiste em considerar o futuro inexorável. Segue tentando administrar carros e mais carros no Centro. É uma guerra perdida. Por que não pensar mais longe, desde já?

Desconstrução não é pecado

22 de outubro de 2014 0

O ambiente político está em transe. É o que se diz. Também pudera, estamos a cinco dias de uma eleição presidencial parelha. E há quem reivindique um debate protocolar entre candidatos, chato, polido, racional. Ingenuidade: isso é impossível. Os candidatos são sanguíneos, como sanguíneos são os brasileiros. Deixam-se contaminar pela dose de paixão existente no debate eleitoral. Não é ruim.
Seria importante, isso sim, conter a agressividade e manter um tom respeitoso. Somariam muitos pontos. Quem sabe os candidatos pudessem exercer algum grau de autocontrole. Seria uma jogada de mestre, mas ainda a ser testada. Ou uma estratégia política sujeita a riscos, mas que deu certo com Germano Rigotto e a indefectível marca “coração” e o “Lulinha paz e amor”. Em contrapartida, talvez soasse pouco autêntico, e isso também pode ser fatal. O caso de Dilma versus Aécio não recomenda o estilo paz e amor, sob pena de ficar para trás.
O fato inegável é que essa reação mais quente resvalou, em parceria com uma propaganda massacrante, para um ambiente pré-eleitoral cansativo, que esgota a paciência. Essa foi uma armadilha diante da qual as campanhas se deixaram sucumbir. Ultrapassaram os limites da overdose e desperdiçaram o melhor jeito de, como se diz, “desconstruir”.
Desconstruir é a palavra da moda, e muitos querem fazer crer que seja um pecado mortal. Longe disso, não é. Há desconstruções que vêm a calhar para o interesse do eleitor. Quando se desconstrói o mau candidato. É uma boa ação. Então a tentativa da desconstrução é uma alternativa válida, legítima e diria mais, até necessária quando um candidato não para em pé. O que está atazanando o eleitor é o massacre. Poderia ser bem melhor balanceado o horário eleitoral, com um pouco de graça e criatividade para aplacar o ambiente pesado inerente ao debate mais acirrado.
Essa campanha, apesar do que se diz dela, está menos comprometedora que a de 1989, quando se ingressou no terreno da vida pessoal. A tal da desconstrução não é problema. Quem não se deixa desconstruir dorme tranquilo. Então, nessa choradeira geral que se ouve, tem muito do ranço contra a política. Mas, apesar dela, recomenda-se prestar atenção ao que os candidatos ainda têm a dizer. É nossa obrigação com a democracia.

O cãozinho atropelado no Santa Catarina

21 de outubro de 2014 5

O mistério dos cães está no olhar e na estrita dependência que mantêm com humanos. Sabem se virar sozinhos, mas até certo ponto.
Sexta-feira passada, no meio da tarde, um cãozinho se aventurou nas dependências do jornal. Entrou portão adentro como se o ambiente lhe fosse familiar e percorreu sem hesitar o corredor e a rampa de acesso até a porta principal. Até que topou com ela fechada e ficou por ali a dar voltas. Logo estabeleceu relações de simpatia com vários dos funcionários, que o percebiam faceiro e disponível. Na passada, ele saltitou a meu redor e até tentou distribuir lambidas.
Ao final da tarde, com a tranquilidade de quem encerra a jornada de uma sexta-feira, tomei o caminho de casa. Na cruzada, porém, percebi o mesmo cãozinho que minutos antes me fazia festa estirado e esticado na calçada, ao lado da parada de ônibus, imóvel, de um jeito inerte. Uma preocupação me rasgou o espírito e fiz de forma automática a volta no quarteirão. Ao chegar, já outras pessoas da empresa em frente tratavam de cuidar do animalzinho, que recém havia sido atropelado e ficara ali. Ele não estava desacordado, mas não tinha forças, cambaleava e sangrava pela boca. Num esforço enorme, conseguiu erguer-se para fazer xixi, e tornou a se largar na calçada.
Foi uma mobilização geral. Era fácil perceber que, deixado ali sem socorro, não teria chance. Quem notava sua fisionomia não conseguia ficar indiferente. E logo a capacidade de iniciativa e de solidariedade tratou de socorrer o cãozinho. Ao mesmo tempo, tornava-se evidente que a cidade não dispõe de um serviço de socorro a cães atropelados. Mais de uma dezena de ligações foram disparadas a órgãos e entidades, sem que ninguém se interessasse pelo caso.
Claro que será lícito lembrar: há seres humanos que padecem de agudas necessidades, a esperar pelas melhores preocupações de quem pode ajudar. Uma coisa, no entanto, parece não conflitar com a outra. A nossa frente, naquele momento, o que havia era um cãozinho atropelado sobre a calçada.
Ele está se recuperando. Mas duas coisas ficaram evidentes: o mistério dos cães está no olhar, e a cidade não dispõe de um singelo canal ao qual recorrer para socorrer cães e outros animais atropelados.

Trabalho de Sísifo

20 de outubro de 2014 3

Essa Operação Sísifo, que a Polícia Civil fez sexta-feira, o nome não é de graça. Esses nomes não surgem por acaso, não são escolhidos pela suposta boniteza do vocábulo. Eles têm algo a dizer, a ser decifrado. A Sísifo, como qualquer dessas operações, nos informa inicialmente sobre a geografia da cidade: no caso, o bairro Santa Fé e outros adjacentes, na Zona Norte. Nos diz sobre componentes sociais da região e da cidade, nos remete a lições sobre história e mitologia grega, E fornece pistas para decifrar a realidade.
Primeiro que a Sísifo não foi uma operação qualquer. Envolveu 85 policiais civis, 11 delegados, mais de uma dezena de delegacias para desmantelar uma quadrilha que lidava com o tráfico de drogas na região. Sinal da importância que lhe foi atribuída. Mas seus idealizadores foram escolher Sísifo como nome de batismo. Na mitologia, Sísifo era considerado astuto. Enganou a morte e seu deus, Tânato, algumas vezes e morreu de velhice. Por isso, ao final de sua jornada, foi estigmatizado com a pecha de rebelde e recebeu como castigo a tarefa de rolar pela eternidade uma pedra de mármore até o cume de uma montanha, de onde ela rolava novamente montanha abaixo.
Portanto, a expressão trabalho de Sísifo indica toda tarefa que envolva esforços grandes e repetitivos, mas fadados ao fracasso. Como enxugar gelo. Como o combate ao tráfico. Quem nos dá essa informação preciosa é ninguém menos do que os idealizadores e executores da Operação Sísifo, os policiais civis. Porque assim que vaga a posição de gerente do tráfico em determinada região de uma cidade, logo aparecerá alguém para ocupá-la. Isso enquanto o combate ao tráfico tiver a configuração atual, da criminalização pura e simples. E toda essa movimentação no submundo vem acompanhada de furtos, roubos e mortes, muitas mortes. Esse é o indicativo que fica da Operação Sísifo: a sugestão para um bom debate sobre qual a forma menos dolorida e mais consequente de se combater o tráfico. É recomendável pensar em alternativas, sem preconceitos e com racionalidade.
Como está configurado atualmente, parece pouco produtivo, fadado ao fracasso. São os próprios policiais quem dizem: combater o tráfico é um trabalho de Sísifo.

Portas abertas, portões abertos

18 de outubro de 2014 4

Não se fecham portões, não se cercam parques. É uma posição de princípio. O contraponto é ocupar espaços. Vinte e cinco anos atrás, derrubou-se o muro que dividia a Alemanha, e aquilo foi comemorado quase como uma redenção para a humanidade. E de fato foi, até certo ponto. A Faixa de Gaza é a dor de cabeça que é, há 60 e poucos anos, porque é isso que se diz dela, uma faixa.
A UCS assumiu convicção de que deveria fechar aos finais de semana os portões que dão acesso a bairros e ruas adjacentes à Cidade Universitária por causa da insegurança. A posição é respeitável e compreensível. Há assaltos a quem circula pela universidade, e esses assaltos não são inventados. Acontecem de fato. Em Porto Alegre, crimes banais, mas também graves, são cometidos na Redenção e em outros parques, e volta e meia é retomada a discussão sobre o cercamento desses espaços. Tem boa justificativa. Ninguém está menosprezando a violência e suas consequências. No entanto, a posição de princípio deve falar mais alto, ainda que o crime se manifeste, não raramente. Porque fechar portões e cercar parques é a derrota das possibilidades e da convivência, a implosão da ponte para outra realidade melhor, que não se deve apagar nem esquecer como referência.
Então, deveria se buscar uma resposta contra a violência que permita manter abertos os portões e parques. O antídoto, deve-se reconhecer, é muito mais trabalhoso, de médio e longo prazos, sujeito a riscos e até a baixas ocasionais, que o risco sempre será inerente à existência. Mas esse antídoto existe: é a ocupação dos espaços por meio de atrativos os mais diversos, esportivos, culturais, de lazer, de convivência. Atrativos como a própria UCS dá o exemplo, em parceria com a Unimed: o Concerto da Primavera, que outra vez se realiza neste domingo no estacionamento – se chover, será no Bloco M.
Programações assim são a chave da melhor resposta, a melhor ocupação dos espaços, o que deve vir com uma boa iluminação, uma segurança melhor. A mesma UCS realiza neste domingo uma programação chamada Portas Abertas, que abrirá os laboratórios para visitação aos espaços das aulas práticas. Quer dizer: a própria universidade acredita que portas abertas são, sim, um caminho viável. E de fato assim é: toda ponte de aproximação é o melhor caminho para a humanidade.

A Avenida Júlio malcuidada

17 de outubro de 2014 2

Já atravesso dois terços da vida, um longo percurso, mas, durante esse tempo todo, algo sempre escapou à minha capacidade de entendimento: que dificuldade intransponível existe para que os equipamentos urbanos tradicionais de uma cidade funcionem com esmero e capricho? Em regra, as cidades relegam esses cuidados. Então fica aquela aparência de descuido e relaxamento nas ruas, que em nada contribui para a estima da população e a qualidade de vida.
Há um indicativo de que Caxias está malcuidada. Tomemos uma quadra aleatória da Avenida Júlio à noite, entre Borges e Alfredo Chaves. Ali há sete postes daqueles que foram escolhidos a dedo para fins decorativos e paisagísticos com as luzes apagadas. Um deles está desprovido do bojo superior, um desleixo maior ainda. Casualmente junto a esse poste sem a parte superior há uma árvore morta. É um cenário desolador.
Para quem guarda alguma distância das lides administrativas de uma cidade, não parece complicado garantir a manutenção básica, promover a troca de lâmpadas com presteza, controle e agilidade, a partir de mecanismos de identificação sobre onde as lâmpadas se apagam nas ruas, e fazer a substituição com rapidez. Não parece complexo tomar as providências para que cenários urbanos não adquiram a aparência do descuido, ainda mais de forma prolongada e permanente. É tristonho. Aquela quadra da Avenida Júlio, especificamente, bem no centro da cidade, foi feita para funcionar e encantar moradores e visitantes, visto que houve esmero na escolha dos materiais, inclusive com fins decorativos. Mas assim não é, a rua principal fica lá, como se estivesse atirada. E está mesmo. O que pensar, então, de ruas mais afastadas das atenções centrais!
Fica-se assim a especular: qual a dificuldade intransponível? A que mais parece se impor é a da falta de equipes para dar conta de toda a cidade. A exigência dos cuidados urbanos deve ser respeitável em uma cidade do porte de Caxias do Sul. Mesmo assim, é preciso se organizar, contratar mais servidores, se for o caso. E assumir como compromisso intransferível a ronda permanente para a qualificação dos equipamentos urbanos.
Parece simples, mas não é. Escapa a meu entendimento.