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A menina

03 de setembro de 2014 3

Claro que a menina foi na onda. E gritou “ma – ca – co” separado em sílabas para o goleiro do Santos. Claro que não foi a primeira, nem será a última. Claro que o ambiente de futebol costuma ser mais permissivo, digamos assim, como se estivesse ao desabrigo das boas regras de conduta, do respeito, até da ética. Tem uma ética própria, é o que se diz. Claro que se chama juiz de ladrão, ou adversário de f.d.p.. Claro que se tenta ludibriar a arbitragem, que se simula uma falta, que se dá o tapa e se esconde a mão, a tal da ética própria. Está claro tudo isso.
Então, muitos – não foram poucos – tentam diluir nesse ambiente a manifestação injuriosa da torcedora – e do grupo onde ela estava, que ela não estava sozinha. E então se sugere para ir devagar, que tanta gente comete “coisa muito pior” e não está na cadeia. Está se exagerando, muitos se apressaram em dizer. Claro que as demasias são condenáveis. Até já se apedrejou a casa da menina em Porto Alegre. Claro que será preciso lembrar que há muitos outros que já falaram “ma – ca – co”, igualzinho assim, claro que há criminosos da pior espécie soltos por aí. Esse contexto ajuda a posicionar as peças, a relativizar o que ocorreu.
Tudo isso faz parte. Só o que não pode ser esquecido é que ambiente de futebol não pode interditar a razão. Ou qualquer outro ambiente que favoreça manifestações em massa, que tornam as pessoas mais valentes. Nem pode exercer poder anestésico capaz de fazer esquecer a vida real e suas responsabilidades. Então a menina – de 23 anos, é bom lembrar – foi de uma imaturidade constrangedora, injuriosa e preconceituosa. Ela tornou-se a face visível do mal, e que não se torne só ela o bode aquele. Mas vai aprender e amadurecer na marra, de uma forma dolorida, mas não mais cruel do que o efeito causado por seu ato. Existe previsão legal para o que fez, e a menina não está imune, ainda que outros possam ter escapado na base da esperteza e da cultura da impunidade.
Está na hora de começar a se desmontar todo esse aparato de esperteza e permissividade. Lamenta-se pela menina, que foi na onda e provavelmente nem seja racista, se ela parar para refletir, o que já deve ter feito. Mas a sociedade deve lamentar pelo goleiro. O que a menina fez – e tantos outros fazem – tem nome, e é muito grave. Não dá mais para passar a mão na cabeça.

Sai da frente

02 de setembro de 2014 5

Amplia-se em mais duas quadras a retirada do estacionamento na Rua Sinimbu. Agora não é mais possível estacionar entre a Feijó e a Moreira César. Até então, já não era mais possível da Moreira até a Praça Dante. O objetivo é, em pouco tempo, estabelecer uma condição de fluidez duplicada para o transporte coletivo, o que é meritório.
Porém, o que isso significa na prática, com impacto ampliado desde ontem? Significa que a cidade está mais feroz. Antes, enquanto uma sinaleira estava com a luz vermelha acesa, havia nas horas mais agudas três fileiras de carros com o motor roncando à espera de o sinal verde aparecer. Agora, são quatro fileiras. Piorou ou não?
A conclusão é inequívoca: em pouco tempo, os ônibus estarão trafegando em duas pistas na Sinimbu. Muito bom. Porém, esse avanço não se dá às custas do espaço do automóvel, que mantém preservadas as duas pistas atuais. É a fileira de carros parados que sai, um respiro na rua diante da avalanche do tráfego. Agora não há mais, substituída que foi por mais uma pista de carros, a quarta, com o motor roncando à espera de o sinal verde aparecer. Sai da frente, portanto, em mais uma pista, a última que faltava.
Teoricamente, a cidade ganha em fluidez, até trancar de novo, pois a demanda de mais espaço para os carros logo se esgota outra vez. E tudo volta a trancar. É ruim. A batalha do trânsito é batalha perdida. A menos que seja restringido o espaço dos carros nas ruas centrais. Só assim, e não adianta fechar os olhos diante do que não tem escapatória.
Então, vale esmiuçar o que significam na prática mais duas quadras sem estacionamento na Sinimbu: as pessoas, em especial idosos, crianças e todas aquelas com alguma restrição de movimentos, têm desde ontem mais dificuldade em fazer a travessia da rua em um trecho maior, com quatro pistas de carros em movimento a transpor. Não custa lembrar: antes eram três.
Então o discurso oficial fala em cidade mais humana e demonstra ter a compreensão de que os pedestres precisam de mais atenção. Na prática, porém, as medidas anunciadas até agora não contemplam essa necessidade. Quando os pedestres terão mais espaço e segurança em Caxias do Sul?
Desde ontem, a cidade está mais feroz e menos humana em mais duas quadras.

O banco da Júlio

01 de setembro de 2014 0

Gosto das circunstâncias. Mais do que gostar, respeito-as, porque não cabe gostar ou não gostar delas, uma vez que circunstâncias existem, e ponto. Gosto, isso sim, de todo e qualquer raciocínio que as leva em conta, porque assim é que deve ser com as melhores reflexões. Circunstâncias não são acaso, é bom evitar essa confusão. São muito mais contexto. Têm força, as circunstâncias. E são capazes de produzir situações que, com frequência, nos colocam diante de descobertas, e descobertas são sempre bem-vindas.
Pois então, que bela descoberta fiz no início da tarde deste sábado! Por obra de circunstâncias cotidianas, vi-me colocado diante de um pequeno momento de espera que desembocou na esquina da Avenida Júlio com a Borges de Medeiros, em um início de tarde esplendoroso de fim de inverno. E foi aí que me dei conta: há nessa esquina um singelo banco de madeira com recortes coloniais e armação em ferro. Um encanto. Particularmente ali, na Júlio com a Borges, pendem acima do banco os galhos de uma árvore de porte pequeno ainda, em fase de crescimento, a produzir um cenário pitoresco.
O banco estava vago e sentei sem hesitar para desfrutar daqueles poucos minutos na Júlio, sob o frescor do sol e da temperatura agradável. Ah, a minha cidade, a cidade que tenho em mente, ela seria repleta de bancos como aquele, de onde se pode ver a cidade passar, um fugaz ponto de encontro para trocar impressões ou jogar alguma conversa fora. A minha cidade é bem mais uma cidade que tem muitos bancos do que uma cidade que se movimenta rápida, não estando impedido o atendimento a essas duas necessidades urbanas.
Foi então que me surgiu a curiosidade sobre se haveria na Júlio outros bancos iguais àquele. Descobri mais três, todos nesta mesma quadra, da Borges até a Marquês do Herval. Bancos que, se não estou enganado, foram colocados pela administração municipal para definir esse trecho da avenida como um espaço próprio para os Papais Noéis durante o período pré-natalino.
Pois quero fazer um pedido à prefeitura: que esparrame bancos como este da esquina com a Borges por toda a Júlio. E depois – por que não? – pela cidade inteira, ou pelo menos em pontos estratégicos. Eu sei que a vida hoje está mais corrida, que sentar em bancos parece ter mais a ver com décadas atrás. Só parece. Esses bancos tão prosaicos podem ajudar a tornar uma cidade mais humana, muito mais encantadora. E que baita ajuda seria!

O afastamento de antigos parceiros

29 de agosto de 2014 1

O PT cria seus próprios problemas. Agora tenta mais uma reeleição, o quarto governo da série petista, com Dilma Rousseff. Mas, conforme dados da mais recente pesquisa eleitoral, o partido pode ter os planos de mais quatro anos no poder seriamente atrapalhados por uma chapa composta em dobradinha por Marina Silva e Beto Albuquerque. Quer dizer, dois parceiros de longa data, com inegável aproximação doutrinária com o PT. Marina saiu dos próprios quadros petistas, Beto é representante clássico de um partido que leva o Socialismo no nome, da mesma matriz do PT.
Quer dizer: não precisava ambos estarem em alternativas distintas, concorrendo frontalmente na disputa pelo governo, mas sim somando forças em torno de um mesmo programa.
Porém, não estão. E isso se dá, esse afastamento, por uma falta de habilidade terrível, que de resto é histórica na esquerda, de promover a boa convivência entre os mais próximos, mesmo assim com suas diferenças, em nome do fortalecimento estratégico de uma alternativa mais de esquerda. É o olho gordo do poder. Ocupantes de escalões mais abaixo nas esferas partidárias e de governo ficam se bicando, emitem declarações provocativas, e a relação política vai se decompondo, se deteriorando. Foi o que aconteceu.
Enquanto isso, o mesmo PT vai de braços com o pedaço mais fisiológico do PMDB, em nome daquele palavrão político que se chama governabilidade. Em nome também do tempo na tevê.
Marina e o PT têm suas diferenças. Mas Marina nasceu dentro do PT. Petistas e socialistas têm suas diferenças. Mas sempre foram próximos, vizinhos no espectro político desde o surgimento de ambos no Brasil, desde o tempo de José Paulo Bisol e de Lula, parceiros de uma mesma chapa à Presidência.
No entanto, ao longo do caminho, as diferenças são supervalorizadas por falta de habilidade em tratá-las. Então o PT agora se vê ameaçado por uma alternativa que lhe é conhecida, com gente que se acostumou a transitar no mesmo espaço social e político, mas que traz junto adversários que não perdem tempo. Tivesse mais habilidade para garantir espaço e trânsito para quadros importantes, o PT hoje estaria mais tranquilo. O PT é bom em criar embaraços para si próprio.

No tempo da degola

28 de agosto de 2014 0

Decapitações havia em idades primitivas. Soubemos em algum livro de história que detalhava o funcionamento da guilhotina, muito popular na Revolução Francesa. O criador do aparelho, o médico francês Joseph-Ignace Guillotin, donde o nome, considerava esse método de pena de morte mais humano do que o enforcamento ou o uso do machado, informam as referências enciclopédicas. Ou soubemos das decapitações na Bíblia. Os registros da época atestam ter sido a cabeça do profeta João Batista, que batizou Jesus nas águas do Rio Jordão, servida numa bandeja a pedido de Salomé, que era filha de Herodíades, mulher do famoso Herodes, por ordem da mãe dela, porque João Batista teria denunciado malfeitos do governante. Malfeitos sempre deram problema.
A degola esteve nos entreveros, nas “guerra braba de irmão contra irmão”, como o fronteiriço Mário Barbará tratou magistralmente do assunto sob a ótica regional na música Colorada, nas memoráveis Califórnias dos anos 70: “Olha a faca de bom corte olha o medo na garganta / O talho certo e a morte no sangue que se levanta / Onde havia um lenço branco brota um rubro de sol por / Se o lenço era colorado o novo é da mesma cor (…) Era no tempo do inimigo não se poupa / Prisioneiro era defunto e se não fosse era exceção / Botavam nele a gravata colorada / Que era o nome da degola nestes tempos de leão”.
A degola sempre mexeu com o imaginário.
Pois agora a degola, a decapitação, enche o ambiente da sala de nossa casa toda noite, na hora do telejornal. No chão frio das celas em Pedrinhas no início do ano, agora na penitenciária de Cascavel, onde ainda se teve o requinte de jogarem-se os corpos de um altura de 15 metros. Ou por obra dos terroristas sírios no deserto, que colocaram a faca na garganta do jornalista americano. Tudo filmado com microfone de lapela para gravar o discurso do algoz, convicto da tarefa que assumiu com destemor, que entende ser messiânica e revolucionária. Tudo gravado por câmeras para logo ser disponibilizado na web. É a degola moderna, pelo menos no aparato.
A diferença é que hoje temos o universo online, a tecnologia mobile e as redes sociais. E, claro, um pouco mais de democracia, é um alento. Mas, entre peleias, fundamentalismos, revoluções e vinganças cruéis, as cabeças seguem rolando no chão.

Quem manda nas ruas

27 de agosto de 2014 6

As ruas de Caxias do Sul estão de pernas para o ar no que se refere a cada motorista fazer o que quer. É grave, mas é isso mesmo. Claro que parte deles é cumpridora dos regramentos, mas outra boa parte faz o que quer. A Secretaria de Trânsito, por meio da fiscalização, precisa colocar moral na pensão, mas não tem se concentrado o suficiente nesta tarefa. Certamente porque o time de fiscais é pequeno, e tem de revezar por turnos. Ainda por cima, a cidade é muito grande, e não pode a fiscalização estar em todos os lugares. No entanto, será justamente por isso que as ações contra os infratores no que se refere especialmente ao ato de estacionar veículos deveria ser ostensiva. Já que não é possível estar em todos os lugares, que fique o aviso, para não deixar dúvidas.
Porém, não é isso o que acontece. Há motoristas que deitam e rolam, e vamos nos fixar especificamente sobre esse ato de estacionar, que reflete de forma límpida e inequívoca o desrespeito aos menos aparelhados no trânsito, os pedestres.
Recentemente, dois motoristas estacionaram sem a menor cerimônia, em pleno dia, na Dezoito do Forte, altura da FSG, e – pasmem! – na Avenida Júlio. Neste segundo caso, ainda por cima em vaga para deficiente, e por cerca de quatro horas. É o cúmulo. Era caso de ação emblemática da fiscalização. Além desses dois exemplos acintosos, há outras situações gritantes: os motoristas não param de estacionar seus carros sobre calçadas sem serem molestados. Essa infração específica é crônica e vem de anos, os motoristas se achando os donos das calçadas a ponto de criar um ambiente pernicioso aos pedestres que já é cotidiano. Outra situação histórica é o escancarado, abusado e nunca resolvido jeitinho da fila dupla nos portões dos colégios. Será que não tem jeito de resolver?
A carga e descarga é outro escândalo. Na Alfredo Chaves, defronte à Casa Rosa, ex-Família Eberle, os caminhões interrompem o trânsito sistematicamente diante daquela obra que mutilou severamente a memória da cidade. Há regras com previsão de horários, e elas devem ser cumpridas, ou então que se alterem essas regras. E ainda tem carros sobre faixas de segurança e sobre vagas para idosos e deficientes. É desrespeito por todo lado.
A Fiscalização de Trânsito precisa mostrar quem é que manda nas ruas de Caxias do Sul.

Abra sua mente

26 de agosto de 2014 0

A Semana da Juventude, agora em agosto, utilizou o sugestivo tema Abra Sua Mente em uma das atividades, para mostrar que álcool e direção não combinam. Importante, mas um tema tão promissor estreitou-se assim, em um único foco.
“Abra sua mente” é bom conselho. Para isso, no entanto, muito parafuso há por apertar. E quando se trata de juventude, ou de ações politicamente corretas de âmbito universal, isto é, não somente direcionadas a jovens, essas recomendações focadas e específicas como forma de abrir a mente costumam vir desprovidas do que se pode chamar de enlace e, principalmente, de motivação.
Para ficar só em dois exemplos representativos, combate à mistura álcool-direção e preocupações ambientais são as recomendações específicas preferidas, ao mesmo tempo corretas e importantes. Mas costumam vir soltas, sem o dito enlace. Não dirigir depois de beber pura e simplesmente? Certo, mas precisa transpor o âmbito mais imediato e individual. Precisa essa decisão pessoal ter um alcance mais amplo, ter um enlace maior, uma determinação decidida pela proteção à vida, a sua vida e a dos outros, um ato ao mesmo tempo de respeito e humildade. Então, não dirigir depois de beber será uma entre tantas ações com esse propósito estratégico de melhorar a realidade.
Substituir sacolinhas de plástico pelas de tecido ou separar o lixo também precisam ser atitudes que vão além da necessária e imprescindível consciência ambiental. Se assim não for, elas estarão desplugadas da motivação essencial, que é a proteção do meio ambiente, sim, mas detalhe decisivo: meio ambiente que é de todos nós e de todas as espécies.
Abrir a mente de verdade é desapegar-se, é abrir-se à generosidade. Ser generoso é pensar nos outros. Precisamos fazer esse enlace de nossas atitudes com esse contexto vital mais amplo, onde existimos nós e todos os demais. E daí retirarmos nossa motivação, a propulsão para nossas atitudes, que passam a ter uma fonte contínua de energia, sem se esgotar cada ato em si mesmo. A motivação é querer o bem do outro. Abrir a mente, acima de tudo, é conectar-se a essas descobertas.

Desafios do nosso tempo

25 de agosto de 2014 0

Há uma tentação que nos persegue: a de compararmos os dias de hoje com os anos que nos antecederam. Em geral, a comparação é impiedosa, favorável àquele tempo do qual temos saudade, e que não é mais real, do qual temos inclinação quase irresistível para reter os melhores momentos, como num clipe. É um tempo que foi real, hoje é história, confrontado contra o tempo real, quando então examinamos com lupa todas as suas precariedades.
É injusta a comparação. Cada tempo tem sua marca, nem melhor nem pior, apenas diferente. Mas somos atraídos à tentação de comparar quando vivemos dias de desafio do balde de gelo nas redes sociais, ainda que ele traga embutida, teoricamente, uma causa, ajudar pacientes de esclerose lateral amiotrófica, o que logo fica em segundo plano.
Então é desanimador. Será que não ocorre outra ideia para ajudar esses pacientes, como a de convencer pela disseminação do conhecimento sobre a doença? Meses atrás, a ideia que ocorreu, só que daquela vez sem uma causa específica, foi a do desafio da cerveja, quando jovens postavam-se a beber de guti-guti na frente de uma câmera e depois multiplicavam o desafio pela internet.
Essas excentricidades, por assim dizer, certamente havia em outros tempos, mas de alcance bem mais microscópico. A internet multiplica conhecimento, possibilidades e mediocridades. Em outras épocas, também havia guerras, até bem mais sanguinolentas, também havia corrupção, que ficava debaixo do tapete. O desafio do balde de gelo nos chega em dias de uma esmerada novela da Globo que nos remete aos anos 70. A vantagem da novela é ser um território protegido do telefone celular, mas essa é uma questão pessoal, uma birra que desenvolvi contra esse símbolo da modernidade. O celular e seu filho mais esperto e travesso, o smartphone, são um mal necessário, dito assim, de forma provocativa.
Até se poderia tentar um inventário de épocas distintas. Por exemplo, Chico Buarque e Milton Nascimento tocavam antes na maioria das FMs. Mas é tarefa subjetiva, de resultados duvidosos. Não valeria a pena. O fato é que a sensação pró-anos dourados é poderosa. E sensações são um tanto arrebatadoras. Mas daqui um tempo, por incrível que pareça, sentiremos saudades dos dias de hoje. Nesse caso, Deus nos proteja do que vem por aí.

E os pedestres?

22 de agosto de 2014 1

A administração municipal tem anunciado muitas medidas para o trânsito da cidade e usa como justificativa melhorar o transporte coletivo. O motivo é nobre: mais gente andando de ônibus, menos gente andando de carro, uma cidade mais humana. Não é tão simples assim, mas é preciso tentar.
Então, não se converterá mais à direita na Sinimbu e na Pinheiro Machado, nem à esquerda na Avenida Júlio; será ampliada a retirada do estacionamento na Sinimbu; haverá duas faixas de pista para ônibus na Sinimbu, depois na Pinheiro; no Largo de São Pelegrino, sai um canteiro, entra uma faixa a mais de circulação para os ônibus. Tudo muito bonito, e com certa lógica.
Mas alguma coisa está faltando, alguma coisa está fora da ordem: e os pedestres? Ah, os pedestres, esqueceram deles, mais uma vez. Apesar do discurso de humanização da cidade, os pedestres estão ao desabrigo das alterações anunciadas até agora. Se não, vejamos.
Proibição da conversão à direita na Sinimbu e na Pinheiro _ uma medida acertada, aliás _ significa mais carros na Avenida Júlio. Uma avenida que _ no rigor da humanização a ser perseguida com coragem administrativa _ deveria ser franqueada aos pedestres. Pois ali eles perderão espaço, haverá mais disputa com os carros, logo na via onde mais circula gente em Caxias do Sul. Perdem os pedestres. Retirada do estacionamento na Sinimbu significa quatro faixas de tráfego, uma a mais. Já é difícil fazer a travessia da Sinimbu agora. Com quatro faixas de tráfego, parece lógico, é muito mais difícil. Perdem os pedestres.
Uma faixa a mais para o tráfego de veículos, um canteiro a menos no Largo São Pelegrino, neste primeiro momento. Logo haverá ali uma avalanche de veículos, que chegam da Feijó Júnior, da Avenida Itália.
Já é difícil atravessar a rua neste ponto, vai ficar muito pior. Perdem mais uma vez os pedestres.
Resta lembrar: cidade humana, aquela que frequenta o discurso oficial, é a que respeita o pedestre e amplia espaço para eles. Esse é um critério central. No entanto, nenhuma medida foi tomada em favor deles até agora, e a fiscalização de trânsito também negligencia e não ajuda, pois não faltam carros estacionados sobre calçadas.
Está mais do que na hora de os pedestres serem lembrados pela administração municipal. No discurso, está tudo muito bonito. Na prática, a teoria é bem outra, e o discurso não funciona.

Dias melancólicos

21 de agosto de 2014 0

É certo que a cidade tem suas belezas, políticas e ações administrativas que funcionam, nossa capacidade empreendedora é referência. No entanto, é preciso observar: há dias melancólicos, determinadas ações de nossos moradores são desoladoras. Nossos dias recentes têm sido melancólicos.
Em poucos dias, combinaram-se agressões aos arroios Dal Bó e Santa Fé e uma valiosa edificação sob o ponto de vista histórico, cultural e arquitetônico é posta abaixo na Rua Tronca. O Dal Bó ficou verde, o Santa Fé, marrom e malcheiroso. Assim como há vândalos que agridem escolas. Que lamentável sucessão de maltratos à cidade! Será pura maldade, indiferença ou completo descompromisso com a natureza e com a vida em comunidade? O que explica atos tão medonhos? Parte disso é estimulada pela falta de consequência. O que explica é um pouco de cada coisa, e tudo junto misturado, com o empurrão dos interesses pessoais que procuram tirar vantagem e resolver os problemas próprios, e o resto não interessa.
No caso da poluição aos arroios, fica explícito que há maus caxienses. Empresas lançam os despejos da produção diretamente nos mananciais, e danem-se a cidade, os arroios, o meio ambiente, a vizinhança. De alguém parte a ordem: é hora de lançar no arroio. A Secretaria do Meio Ambiente diz que está atenta à situação, mas o fato é que os maus exemplos ainda se reproduzem.
No caso da residência posta abaixo, há um sério agravante. O Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural não recomendou o desmanche, mas a prefeitura autorizou. Como pode a administração municipal permitir a demolição de uma casa cultural, histórica e arquitetonicamente valiosa? Estaria jogando contra o patrimônio? Parece que sim.
O desmanche da casa, é claro, está ligado ao famoso crescimento nem um pouco sustentável, a tal noção de que a cidade não pode parar, para surgir outro prédio envidraçado, daqueles que se dizem modernos. Ora, moderna era a casa rosa, um recurso caxiense para a promoção do crescimento a partir de uma identidade histórica, mas que agora não existe mais. É inconcebível que a prefeitura tenha permitido seu desmanche.
Os exemplos dos últimos dias não deixam dúvidas: o crescimento em Caxias tem um custo ambiental e histórico elevadíssimo.
Que momento melancólico!