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Nossa coleção de barbaridades

28 de novembro de 2014 0

Estupros e abusos na região têm sido noticiados com uma frequência alarmante. Agora mesmo, alguém envenenou mais de 100 animais domésticos em Bom Jesus. Soube-se ainda que uma idosa era agredida e espancada pelo neto há pelo menos quatro anos em Bento Gonçalves. São episódios repulsivos e atordoantes. O mundo segue vertiginoso e sem freios, ao mesmo tempo em que convivemos com a corrupção escancarada, em que o que mais importa é a vantagem pessoal, não interessa que seja preciso pisar no pescoço dos outros. Ou matá-los direta e objetivamente, como é o caso do submundo do tráfico.
A falta de escrúpulos e a opção pela violência mais crua parecem ser produzidas hoje em dosagens industriais. Ao mesmo tempo, tais barbaridades explícitas convivem com as atitudes nobres, a solidariedade e a humildade. O mundo é um paradoxo, nem maldade total muito menos bondade geral. Um mundo imperfeito, com a cara dos humanos, mas não era preciso exagerar.
Cabe considerar que a deturpação dos comportamentos e condutas tem causas que se combinam e se estimulam, uma à outra. A base, é claro, encontra-se na negligência à educação e, logo na sequência, na ausência ou na fragilidade de uma educação voltada ao coletivo e ao espírito de comunidade. Essa base interfere nas escolhas mais racionais e nas escolhas do coração, isto é, naquelas que optam pelo caminho da maldade explícita e gratuita, e estamos fartos de exemplos desse tipo de procedimento. Interfere ainda a falta de consequência para tantos malfeitos praticados, a estimular todo o círculo vicioso.
No caso da idosa espancada pelo neto em Bento Gonçalves, por exemplo, há pelo menos quatro anos ela registra na polícia que é agredida por ele. É uma espécie de Caso Bernardo voltado para os mais velhos, com pedidos de socorro, situação, aliás, que é mais frequente. Houve até procedimentos protetivos da parte da Justiça, mas que, vê-se agora, não resultaram em proteção. Isso é escandaloso, pois falharam sistematicamente os mecanismos de controle da sociedade, ou eles parecem de faz-de-conta, ou são negligenciados pelos órgãos públicos.
Leve-se todos esses ingredientes ao fogo alto de um ritmo de vida frenético e temos uma coleção de barbaridades, com um tempero de horrores.

Prendemos um flanelinha

27 de novembro de 2014 0

O repórter do Jornal Nacional noticiava diretamente de Genebra, na Suíça, as notícias da Operação Lava-Jato e a tentativa de autoridades brasileiras em conseguir junto a bancos suíços a devolução de recursos para os cofres públicos. Como cenário de fundo, uma das ruas de Genebra impecavelmente sinalizada, com suíços voltando para casa. Era noite, já, mas ainda assim não percebi qualquer vislumbre de comércio ambulante nas ruas, pichação em algum prédio, um flanelinha guardando alguma vaga ou algum carro estacionado em fila dupla ou sobre a calçada ou faixa de segurança. Por aqui, comemoramos inacreditavelmente a prisão do primeiro flanelinha, desses que extorquem motoristas à luz do dia e fica tudo por isso mesmo, tão amortecido está o senso de reação da população.
Não que nossas cidades devam ser como as cidades suíças. As culturas são diferentes, não devemos querer ser iguais aos suíços, nossos temperamentos são distintos, o grau de informalidade por aqui faz parte de nossa personalidade e querer viver sem ele de certa forma violentaria um pouco nosso jeito do ser. Assim é que improvisamos entre nós, por exemplo, o flanelinha do bem, aquele guardador de carro que é amigo dos motoristas, e não o que extorque. Quer dizer, civilizamos um pouco nossa informalidade.
Computadas as diferenças entre Genebra e nossas cidades, só do que não se pode abrir mão é do respeito nas relações urbanas, seja lá ou seja aqui. E convenhamos também, nosso grau de informalidade está exagerado demais. Tropeçamos no comércio ambulante na Avenida Júlio, da Praça Dante até São Pelegrino. Tudo bem que não sejamos como Genebra, mas por aqui está demais. Parecemos condenados a conviver com o mau jeito generalizado. Só que não. Basta fazer funcionar a máquina pública, com sensibilidade para nosso estilo de vida, mas o suficiente para controlar todos os exageros e desrespeitos.
Mas ainda há esperanças. Já prendemos um flanelinha, assim como grandes empresários estão presos na Lava-Jato e cogita-se até repatriar recursos. É surpreendente. Depois, falta controlar o comércio ambulante, enquadrar os maus motoristas, os pichadores, eliminar filas duplas, os privilégios nas Assembleias…

A ausência de opinião e a escola possível

26 de novembro de 2014 0

O estudante de serviço social José Antonio da Costa cobra do colunista “opinião” sobre o episódio da revista das mochilas no Santa Catarina. A crônica do final de semana sobre o assunto não o satisfez. Considerou-a ausência de opinião ou uma abordagem superficial. A provocação é saudável. Costa cita o artigo 5º da Constituição Federal e o artigo 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente, casualmente considerados pela crônica em questão, um indicativo de que a análise feita tentou a abrangência recomendável.
O assunto é importante e explosivo. Ele trata da escola que queremos, ou da escola possível. O que o texto do final de semana fez foi ponderar sobre a validade dos argumentos e posturas que vieram à tona. Como não levar em conta que uma direção precisa responder perante os pais de centenas de alunos pela segurança dos filhos? Ou que a decisão pela revista pode ter sido tomada pelo conselho escolar para responder a um ambiente difuso de violência? Isto é, haveria motivação concreta, ou foi um ímpeto de responder a esse ambiente? Considerar os diversos ângulos de uma questão não parece superficialidade, pelo contrário. Daí decorreu o desfecho daquele texto, que frustrou o leitor: o entendimento de que, ainda que se tenha uma opinião, em casos assim não se deve “montar barricadas em torno de uma posição”, porque há argumentos respeitáveis de ambos os lados.
Para deixar claro: o texto de sábado entendeu que a motivação para a revista não era suficientemente precisa. Ao mesmo tempo, entendeu a preocupação da diretora, e a valorizou. Mas o que Costa propõe é uma análise sobre “por que a escola perdeu o controle da situação”, como admitido pela coordenadora pedagógica, “eis que responsável pela condução da educação e formação de crianças e jovens”, diz ele. A escola perde mesmo o controle, mas será excessivo e injusto deixar de lado os pais e colocar todo o peso sobre a escola. Bem sabemos que há educadores que se atrapalham neste momento em que as orientações pedagógicas e o mundo mesmo passam por profundas transformações. Mas quem não se atrapalha? Esse peso todo não depositaremos sobre os ombros da escola pública, já oprimida por uma série de tarefas e diretrizes legais, pedagógicas e administrativas, mais os pais que atiram seus filhos no colo dos professores. É crueldade. O que importa, isto sim, é garantir um ambiente de conversa e reflexão.
Contextualizar não significa deixar de opinar.

Projetos e obras para conferir em vida

25 de novembro de 2014 0

A Praça do Trem, farei muito gosto em vê-la pronta um dia e aproveitar seu espaço. A última informação é de que as obras começam agora em dezembro. Que assim seja. A Praça do Trem muda a fisionomia da cidade. A passarela da 116 parecia improvável, mas está quase pronta. Também pudera: é uma obra singela, mas que demorou seis anos. Mesmo na sua singeleza, porém, ela é um símbolo de novos tempos – mais humanos – para a BR. Ela acontecer já é importante.
Há obras e projetos de grande porte – não são o caso da Praça do Trem e da passarela – que serão uma bênção testemunhá-los. O que mais me causa expectativa, e gostaria de estar vivo para ver, é a volta do trem, poder viajar como fiz um dia – Alegrete-Santa-Maria-Uruguaiana. Desta vez, pelos cenários da Serra. Viajar de trem é um acontecimento. Demora ainda, mas estamos às portas do projeto executivo. Um bom percurso já se venceu. Não tenhamos, no entanto, muitas ilusões sobre o trotar das iniciativas. Mas será inesquecível, se um dia me for concedida a oportunidade de viajar no Trem Regional. Eu acredito!
A Maesa já esteve mais longe. A Maesa não pode parar. Agora é tudo com Caxias: a definição das ocupações, um período para debate e, depois, a ocupação. Sem maiores delongas. Um polo de convivência, cultural, histórico e de lazer para a cidade. É o mínimo. Palmas para os caxienses. O ano de 2014 foi muito interessante sob o ponto de vista das boas notícias para a humanização da cidade. A cessão da Maesa para o município é a principal delas. Tem também a ocupação da unidade da Eberle no Centro, em que pese aquela torre prevista para a Sinimbu, que destoa de todo o conjunto. Mas será importante garantir esse outro polo, ao mesmo tempo de memória e convivência. A Maesa e a Eberle do Centro se inscrevem entre aqueles projetos que sempre imaginamos conferir em vida. Há boas chances, e muito se deve a este 2014 e toda a mobilização anterior.
A cidade começará a ter polos para a convivência. Resta que ofereçam programações e espaços capazes de atrair as pessoas. Faltam ainda mais e mais áreas de lazer. Mas a cara da cidade está mudando. Tomara ajude a mudar, também, nosso jeito de ser cidade, ainda excessivamente apressado. Mais vagar é preciso.

Por um Estatuto do Professor

24 de novembro de 2014 0

A escola pública está abandonada por muitos pais, é a essência da queixa da diretora do Santa Catarina após esse episódio da revista nas mochilas dos alunos. Não há dados precisos nem pesquisas para diagnosticar o fenômeno, mas é perceptível que muitos pais transferem à escola a tarefa de educar seus filhos, com um agravante: saem em defesa dos queridos filhos diante de medidas antipáticas tomadas pelas escolas. Não raro, vão até a delegacia de polícia.
Da mesma forma, a educação há décadas está abandonada pelos governos. Seguirá abandonada até que os governos decidam remunerar melhor os professores. O resto é perfumaria.
Por fim, a escola está cada vez mais manietada por diretrizes e tarefas legais, administrativas e pedagógicas. Quer dizer, a escola pública dispõe de espaço mínimo de movimentação, sem estrutura, mal remunerada e com um volume cada vez maior de tarefas. Diante desse cenário, levando-se em conta que já dispomos do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Estatuto do Idoso, a coluna propõe o Estatuto do Professor. A seguir, algumas anotações livres e avulsas (haverá muitas outras) para este estatuto:
// Aos moldes da Lei de Responsabilidade Fiscal, fica instituída a Lei de Responsabilidade Educacional, à qual todo governante terá de responder em caso de descumprimento.
// Por responsabilidade educacional entenda-se garantir a valorização da educação.
// Por valorização da educação entenda-se, antes de qualquer outra coisa, a remuneração adequada do professor.
// Para garantir essa obrigação remuneratória, ficam congeladas temporariamente todas as reposições e benefícios para categorias com vencimento acima de um teto a ser fixado.
// Ou se eliminam de forma sumária penduricalhos como auxílio-moradia ou eles são estendidos também para os professores. A escolher.
// Não irá vigorar qualquer avaliação por meritocracia enquanto a sociedade não cumprir a obrigação moral de valorizar adequadamente o professor. Depois, está liberado. Ainda assim, o professor não está impedido de, durante a fase de implementação do presente estatuto, dar o seu melhor e de responder administrativamente em caso de má performance.
A ideia de um Estatuto do Professor parece justa. Quem sabe algum deputado a adota.

Os muitos lados de uma mochila

22 de novembro de 2014 2

Ah, nada é tão simples assim. Às vezes, não se pode ser taxativo sobre uma questão, pois são muitos os ângulos. É o caso dessa revista nas mochilas no Santa Catarina. Pode parecer pacífico, de saída, que não foi a melhor medida. Deve ser considerado, no entanto, que a decisão veio com respaldo da comunidade escolar, o que já muda bastante. Mas, como íamos dizendo, nada é tão simples assim. Ainda bem que entre o preto e o branco há bem mais que 50 tons de cinza.
Foi lembrado com insistência que quem não deve não teme uma vistoria em mochilas. Ora, não é assim. Interfere nessa discussão o direito à privacidade, que está anotado lá no Artigo 5º da Constituição. Vale para adolescentes também. Dentro das mochilas estão guardadas a privacidade e a intimidade. Ninguém gostará que remexam em suas entranhas. Então vamos com calma.
Porém, então incide a questão da violência sobre o ambiente escolar. Como não entender a preocupação da direção de uma escola que precisa responder pela segurança de centenas de alunos? Os órgãos de segurança chutam para o alto o direito à privacidade em situações suspeitas, quando fala mais forte a proteção à vida. A direção levou o caso ao conselho de pais e da comunidade, que optou pela segurança privada e pela revista.
Talvez aqui a decisão tenha ocorrido, como alguém já disse, “no ímpeto”, para responder a uma cultura de violência que vence os muros das escolas. Olhando de longe, parece que as evidências de que poderiam ingressar armas e drogas nas mochilas estavam no burburinho das contravenções juvenis do final de ano – e quem não cometeu alguma um dia? O problema é que a evolução delas pode desembocar hoje nesse terreno pantanoso das drogas e das armas, com professores agredidos e atos tresloucados de algum aluno.
Não faltou também quem lembrasse de afronta ao Artigo 18 do famoso Estatuto da Criança e do Adolescente (“É dever de todos velar pela dignidade, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”). Ora, também não é simples assim: não é possível ignorar contextos, e a decisão da direção da escola tem contexto.
Essa questão tem muitos lados. Será simplista montar barricadas em torno de uma posição.

Este país tem jeito?

21 de novembro de 2014 0

O Brasil não tem mesmo jeito. Essa é uma cogitação popular diante desta barafunda da corrupção na Petrobras. O esquema é simples: há contratos bilionários e, para fechá-los, cobra-se uma taxa “módica” das empresas que se candidatam, dinheiro que chega até partidos, mas também enriquece os operadores de esquemas. A ponto de um dos protagonistas das espertezas de agora acenar com a devolução de 100 milhões de dólares ao governo, cerca de 250 milhões de reais. É dinheiro que não acaba mais, que foi amealhado por apenas um assessor subalterno da Petrobras.
O Brasil vem nesta batida da corrupção desde que se entende por gente dita civilizada, desde 1500. Corrupção também não é privilégio brasileiro, não fosse a diferença de que, em determinados países mais ao oriente do planeta, uma leve suspeição sobre um governante faz com que este considere o suicídio como um dever.
Por aqui, vigora o ambiente dos tempos de Dom João VI. Ocorre que desta vez há uma novidade. No início dos anos 90, chegou-se a sugerir no Congresso uma CPI para os corruptores. Assim se chegaria às empresas corruptoras, pois a equação da corrupção não fecha apenas com o corrupto. Nunca foi adiante aquela ideia de moralização.
Desta vez, estão passando alguns dias e noites na cadeia nada mais nada menos do que os presidentes da OAS e da Camargo Correia. Talvez a temporada seja breve. Esta é a tendência, mas o fato é que estão na cadeia. Isto é inacreditável. Sobre os condenados do mensalão, muito se fala que as penas foram modestas: regime semiaberto com trabalho fora da cadeia, evolução para prisão domiciliar. Mas são os regramentos penais em vigor, estabelecidos em códigos pela sociedade. E, independentemente do cumprimento da pena prescrita, a marca indelével da condenação faz um enorme estrago. Garantir a devolução do que é roubado são outros quinhentos, mas, como foi dito, está se falando que até isso haverá.
A corrupção prossegue entranhada, e continuamos a eleger corruptos. Mas alguma coisa está sendo diferente nesse escândalo da Petrobras. Que sigamos avançando com a Polícia Federal por perto, necessariamente. Até chegar um dia, quem sabe, em que possamos considerar a hipótese desse país vir a ter jeito.

Descobrir e viver a cidade

19 de novembro de 2014 0

A arquiteta Isabela Rech enviou precioso comentário ao blog sobre crônica O caos ao redor dos colégios (14/11). A coluna reproduz, porque a reflexão é valiosa:
“Eu, como arquiteta, urbanista e usuária do trânsito em escola particular, vejo que a desmoralização é geral, não somente em frente às escolas. É o motorista de ônibus que passa em sinal vermelho e não para na faixa de segurança; é o taxista que não obedece limite de velocidade; são os carros-fortes que param em pista dupla em todos os horários; os acessos ao shopping San Pelegrino, ao Zaffari também são um caos em horário de pico; são os pedestres que atravessam em qualquer lugar; etc.
Penso que, urgentemente, a cidade precisa se remodelar: criar espaços para os carros-fortes pararem; remover os estacionamentos em frente às escolas, criando espaços de embarque/desembarque para os alunos, assim como em outros lugares que demandam movimento de carros.
Por outro lado, temos que incentivar as pessoas a serem mais independentes das quatro rodas! É importante estimular a cultura de “viver a cidade”, saber o nome das ruas, saber onde fica determinado local, encontrar pessoas, respirar ar puro, ouvir as badaladas dos relógios, ouvir os bem-te-vis, pisar no chão!” (Ass. Isabela Rech)
O que Isabela propõe se dá em dois eixos. Um deles é descobrir a cidade, é sentir a cidade. Ou, como ela diz, viver a cidade, mesmo diante de suas contradições, como a insegurança. Isso contrapõe-se radicalmente à visão utilitária reinante, de valer-se da cidade para a satisfação rápida das necessidades e interesses individuais. O que é legítimo, mas o vínculo com uma cidade não pode se restringir a essa mera funcionalidade. A idade oferece muito mais, é vasto o exercício de descobri-la com vagar, e cuidar bem dela.
O outro eixo é que a cidade precisa ser pensada e planejada. Os problemas estão aí, a lista não é pequena. A obviedade é que eles precisam ser atacados. Exige pensar como fazer, e depois fazer. Será preciso organizar os espaços e fazer valer o que ficou estabelecido. Se falta gente para a empreitada de fiscalizar, e falta, é preciso reconhecer a carência, e tomar a decisão de supri-la. Se assim não for, a desmoralização vai continuar, e a cidade seguirá muito longe do que pode ser.

A princesa Henriette

18 de novembro de 2014 8

A morte da ex-princesa da Festa da Uva Henriette Vaccari comoveu os caxienses. Deu-se com pinceladas cruas e expõe temas delicados, como o consumo de álcool e a depressão. Os detalhes que aos poucos são revelados sobre seus últimos dias evidenciam um quadro de desalento, uma existência que foi se esfarelando, vê-se agora que com frágeis referências e pontos de apoio. Henriette, com seus dramas e inseguranças, residia emblematicamente no coração de Caxias, ao lado do Clube Juvenil, a poucos metros da Praça Dante.
Henriette foi escolhida princesa da Festa da Uva em 2000, quando tinha 25 anos. Morreu aos 40. Há entre esses dois momentos uma trajetória que não cabe julgar, mas que se desenrolou entre pessoas e ambientes que nos são familiares, partindo de um ponto para chegar até outro.
Em tese, Henriette tinha muito do que se busca. Era bonita, transitava com desembaraço na sociedade, conhecia pessoas aparentemente interessantes, viajava à Europa, também aparentemente não tinha problemas financeiros, chegou a ingressar na universidade, mas não foi até o fim, formou-se recentemente para ter uma ocupação socialmente útil, mas não desempenhava a profissão, apresentou um programa de tevê. Os pais eram falecidos, tinha a irmã geograficamente distante e com uma doença grave. Um amigo diz que Henriette fazia tratamento para a depressão. A depressão está sempre à espreita. Este é o contexto.
Contexto sempre é imprescindível. Sem esquecê-lo, porque carrega significados e consequências, vale deter-se na Henriette que foi princesa da Festa da Uva e glamour girl para ajudar a Liga Feminina de Combate ao Câncer. Foi uma Henriette participativa, alegre, comunitária e importante. Deu sua contribuição à cidade, portanto, mas já não havia continuidade nessa relação de duas mãos. Sua passagem foi se diluindo dentro dessa mesma cidade a ponto de, aos poucos, restar deslocada do que um dia foi. Até apagar-se no final.
O que se deu com Henriette está acontecendo agora com outras pessoas, com mais ou menos glamour, mais ou menos perto de cada um de nós. Esse é o paradoxo da cidade, isto é, das pessoas que a formam: são falhos os filtros para identificação dos dramas individuais. E, em geral, faltam tempo e interesse pelas providências decisivas.

Um dia de gigantes

17 de novembro de 2014 0

Foi um dia de gigantes, a quinta-feira. Nos salões da CIC, pela manhã, Paulo Bellini, Raul Randon, Adelino Colombo e Lourenço Castelan protagonizaram o que foi chamado de Encontro de Gigantes. Com espontaneidade e carisma, dividiram um pouco de suas trajetórias e experiências. Os quatro têm contribuição inegável ao crescimento da região. A capacidade empreendedora é exemplar. Muito mais não precisa ser dito. A obra de cada um, materializada em grandes empresas, produção e milhares de empregos, fala por si.
Nas ruas de Lourdes, à tardinha, dois senegaleses, Seringhe Khadim Fall e Makadon Goeye, frustraram as pretensões de um assaltante. Protagonizaram o que pode ser chamado de Atitude de Gigantes, pela força moral da iniciativa de perseguir um ladrão que havia atacado uma mulher. Fizeram eles o que não é comum, não só pelo desconhecimento da vocação nativa para a indiferença, mas fundamentalmente por caráter. Deixando para trás as desconfianças de que eles e seus patrícios são alvo por aqui, fizeram o que entenderam certo. Atitude que, coincidentemente, foi exemplar. Deram exemplo a muitos caxienses.
Tudo o mais já foi dito a respeito da atitude dos dois senegaleses. Apenas ainda cabe lembrar que, na Câmara, chegou a ser falado que essa gente deveria voltar para o lugar de onde veio. Cartas e cartas foram endereçadas ao jornal e mensagens das mais raivosas foram postadas no Facebook com teor discriminatório. A cidade deveria pedir desculpas aos senegaleses. Agora surge um indício daquilo que deveria ser o óbvio: senegaleses entre nós, ou qualquer imigrante, pode não ser tão ruim como tentou se vender. Muito antes pelo contrário.
Como bem lembrou tempos atrás um feliz painel publicitário assinado pela Soama, só existem duas raças no universo: a humana e a desumana. Esta segunda costuma fazer distinção onde não deve. À parte essa diferença decisiva, estamos todos no mesmo barco. Isto é, fazemos parte de uma só comunidade cósmica e universal. Ninguém é melhor do que ninguém de antemão e barreiras entre pessoas existem para fins administrativos. Vencido esse pormenor, cabe agradecer pela oportunidade da convivência. Em alguns casos, temos o privilégio de conviver com gigantes. Independentemente da origem de cada um.