Aprender com bons exemplos é uma estratégia que costuma dar resultado, por isso publicamos redações que receberam notas altas no concurso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e no Exame Nacional do Ensino Médio. Confira abaixo os textos e as análises da professora de redação Hilaine Gregis e da coordenadora de Redação do Grupo Unificado, Luisa Canella.

Propaganda docente – UFRGS
“Uma pesquisa realizada pela Fundação Carlos Chagas mostra que 67% dos jovens entrevistados descartam a ideia de ser professor em sua escolha profissional. Esse dado (desanimador para toda a sociedade) é o reflexo do modo com que  a Licenciatura vem sendo apresentada aos futuros membros do mercado de trabalho.
Um dos momentos mais importantes da vida de qualquer pessoa é a escolha de sua profissão futura. Assim, sua opção é resultado de uma série de fatores que contempla desde as motivações – advindas do interesse pela profissão – até as consequências, cujos principais exemplos são a satisfação pessoal e a estabilidade financeira. Tudo aquilo que o jovem escuta sobre a carreira docente influencia em sua opção por ser ou não ser um professor. Dados da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) mostram que o número de candidatos inscritos para a Licenciatura de Educação Física e de Química reduziram em 72% e 62%, respectivamente, em um intervalo de apenas seis anos. O resultado dessa
comparação revela uma triste realidade: os jovens já não veem na Licenciatura aspectos que os motivem para exercê-la.
Baixos salários, desemprego e falta de atrativos na área profissional dos professores são elementos que acarretam a troca da escolha pela Educação Física ou pela Química, por exemplo, por áreas como a Medicina e o Direito. Emile Durkheim, sociólogo francês do século XIX, afirma em sua obra “O Suicídio”, que as opiniões e tradições de um todo
são aquilo que condiciona as ações individuais de seus membros. Se uma profissão não é vista “com bons olhos” pela
sociedade, dificilmente, ela será atraente para um jovem na sua escolha. A fim de reverter esse quadro, o Governo  Federal já está se mobilizando com campanhas na mídia de valorização da carreira docente no Brasil.
Assim como existem incentivos fiscais para a instalação de indústrias e de empresas, devem existir atrativos para aqueles que, através de atitudes claramente altruístas auxiliam na construção de uma sociedade melhor: os  professores. Dessa forma, seguindo a teoria durkheimiana, podemos criar uma mentalidade coletiva que entenda o trabalho desses profissionais como sendo indispensável e muito gratificante.” André Comiran Tonon, 18 anos

Análise: É objetivo, segue todos os passos com pertinência e apresenta uma abordagem com um vocabulário simples. O título é criativo, intrigante e merece destaque. Isso demonstra um planejamento, pois desde o início ele já sabia aonde  chegar.A inserção da palavra “desanimador”no primeiro parágrafo demonstra a defesa de um ponto de vista. Há interpretação de dados: a banca fala 1.048 e densidade 13,44 e ele interpreta 72% e 62%. Soube interpretar a tabela e jogar esse dado no desenvolvimento dele. Outra coisa que chama a atenção é a organização de parágrafo. Quando ele cita Durkheim, mostra que é leitor e que tem domínio da obra ao fazer uma comparação com o comportamento da sociedade. Ele faz pequenas conclusões a cada parágrafo, o que ajuda a encadear os pensamentos até chegar a uma conclusão geral. Quando diz que a profissão de professor tem de ter algum atrativo para que os jovens queiram  exercê-la, mostra que é uma argumentação inteligente e não tem nada de ingênua.

A dignidade do homem – Enem
“Atualmente, o mercado de trabalho é muito competitivo se comparado há alguns anos. Provavelmente, isso se deve ao fato de as pessoas buscarem um futuro melhor para si e para sua família, ao mesmo tempo em que buscam a realização profissional.
O aumento da população forçou as autoridades a criarem uma maior infraestrutura, principalmente na educação e em outros setores básicos da sociedade, para preparar melhor o grande número de cidadãos aptos ao mercado de trabalho. Isso ajuda a fomentar a economia de um país, porque quanto maior for o número de pessoas empregadas recebendo salário, maior é o poder de compra do cidadão. Assim, o país cresce, e seus habitantes se sentem seguros para viver nele e realizar seus projetos de vida. Por conseguinte, o trabalho exerce um grande papel na construção da dignidade do homem, pois ele dignifica uma pessoa por ser merecedora de seu salário, enobrecendo-a por estar agindo de maneira correta sem prejudicar ninguém.
Então, quando um jovem está em busca da sua profissão por meio do vestibular, ele procura um futuro melhor para si,
tendo dignidade na sua vida à medida que vai conseguir suprir suas necessidades e dar exemplo para as futuras  gerações de como alcançar seus objetivos com o esforço em um emprego que o realize. Portanto, uma criança que
aprende desde cedo na escola e em casa que o trabalho enobrece o homem crescerá sabendo a importância que a profissão tem na vida de um indivíduo e de um país. O trabalho é o caminho para uma vida digna e honesta que faz a sociedade crescer e ser próspera. Assim, pais e professores têm um dever importante a cumprir: informar e dar exemplo do que o trabalho é capaz de fazer.” Muriel de Oliveira Habigzang, 19 anos

Análise: Apesar de haver algumas repetições de palavras, a redação está simples, correta e comportada, obedecendo aos critérios da banca. Ela se sai bem em expressão, pois não tem qualquer erro gramatical. Faz boa relação entre os parágrafos e tem coesão textual. Há apenas um parágrafo de desenvolvimento, onde aprofunda o que ela se propôs no início. Ou seja, é pertinente e tem clareza na exposição das ideias. Faz uma conclusão sugerindo uma proposta de intervenção social adequada, dizendo que, em casa, a família tem a incumbência de mostrar à criança que o trabalho é o caminho.

Reflexos da desvalorização – UFRGS

“A sociedade vive a era das transformações, inclusive no que diz respeito às profissões almejadas pelos jovens. Enquanto, há décadas, o sonho de ser professor povoava o imaginário de muitos, atualmente, essa idéia nem sequer é cogitada pela maioria dos jovens. Posto que muitos fatores entrem no cômputo dessa nova realidade, a falta de valorização financeira e a ausência de “status” social figuram entre os empecilhos apontados por quem não se vê exercendo a docência.
O ato de ensinar, transmitindo conhecimento, é uma das ações mais antigas desde o surgimento da vida em sociedade. Contudo, esse ofício tem sido cada vez menos almejado pelos jovens. Essa é a conclusão à que chegou a Fundação Carlos Chagas após uma pesquisa realizada com cerca de 1500 jovens concluintes do Ensino Médio em 2009. O que outrora era um desejo de grande parte dos brasileiros _ ser professor – hoje não é mais nem levado em consideração no momento da escolha profissional por 67% dos entrevistados. Essa mudança de rumos já era notada pelas escolas nas quais há a falta desses profissionais nos mercados de trabalho; porém, a existência de números concretos parece mais aterradora. Para que possamos entender um dos porquês dessa nova realidade, é importante olharmos para a política econômica que está mundialmente instituída: o capitalismo da sociedade de consumo. Vivemos tempos em que a pessoa tem sua importância mensurada por aquilo que ela consegue adquirir de bens materiais. Nesse contexto, o sonho profissional de muitos jovens se volta a atividades bem-remuneradas, que gerem retorno financeiro e que permitam esse consumismo que o capitalismo introjeta nos indivíduos por meio da associação de felicidade a consumo. Haja vista a remuneração precária que a docência recebe, fica claro que a barreira financeira tem grande influência para os que rechaçam essa opção profissional.
Reforçando a veracidade da pesquisa apontada acima, temos ainda as estatísticas do número de inscritos nos vestibulares da UFRGS em cursos de licenciatura: houve diminuição no número de candidatos quando comparados os anos de 2005 a 2011. No entanto, quando o assunto é o topo da lista de carreiras mais procuradas, o curso campeão segue inalterado –  medicina. Esse fato demonstra a importância atribuída à questão do “status” social na escolha profissional. A nossa sociedade deixou de valorizar o trabalho do professor em detrimento de outras profissões consideradas mais nobres e, conseqüentemente, mais admiradas. Todavia, o que muitos jovens buscam é justamente a admiração dessas comunidades que o cercam, como se fosse uma espécie de aceitação nesse grande grupo. Uma vez que o magistério não desperte essa admiração, ele é deixado de lado e suplantado por outras profissões que despertem esse sentimento.
Dessa forma, o desprestígio no qual se encontra a docência é resultado de uma sociedade que está em rápida modificação e que exige cada vez mais poder de consumo, dando em troca sua admiração e apreço. Entretanto, é preciso que essa mesma sociedade entenda que o professor é o alicerce que permite que todas as outras profissões se desenvolvam. Assim, para que a docência volte a ser atraente, é necessário um plano de carreira para o magistério, que inclua uma remuneração digna e, de fato, uma valorização profissional.” Cátia Scherer Hoppen, 31 anos, nota 23,64 no concurso da UFRGS. Ela passou para Medicina e ficou em 86° lugar

Análise: Já na introdução, se percebe um bom vocabulário evidenciado em palavras como aterradora, mensurada, rechaçam e suplantado. As frases estão bem construídas, e os parágrafos, conectados. Ela já encaminha uma resposta para o que a banca está pedindo logo no começo: por que o jovem não tem mais interesse em exercer a docência? A carreira está desprestigiada e os salários são baixos. Depois disso, aprofunda o tema. Ela consegue, a partir de um dado, fazer diversas relações e sai de um exemplo particular e consegue fazer uma análise profunda comparando com os fatos do mundo todo. No terceiro parágrafo, traz o segundo dado que está sendo exigido. Ela não esqueceu. Faz uma análise madura e sem moralismo. No final, apresenta uma solução para o problema, dizendo que “é necessário um plano de carreira para o magistério, que inclua uma remuneração digna e, de fato, uma valorização profissional”.

Evolução Trabalhista – Enem
“O trabalho está associado ao homem desde seus primeiros avanços em sociedade. Esse conceito tão necessário à vida social está constantemente sendo reformulado e, cada vez mais, contribui para a construção da dignidade humana. Todo e qualquer conceito de trabalho que não acompanhe essa evolução deve ser reformulado.
Caso analisemos qualquer período da história humana, evidenciaremos relações distintas do homem com seu ofício. Enquanto no Egito Antigo o trabalho era um tipo de servidão exercida por “medo” dos poderes do faraó, na Idade Média, os servos trabalhavam como forma de agradecimento à proteção oferecida pelos senhores feudais. Gradativamente, o homem, em seu ofício, tem sido valorizado por suas qualidades e virtudes; de um passado de escravidão, o trabalho vem se transformando em um ato de dignidade.

Vivemos em uma era em que o trabalho é entendido como forma de enobrecimento do homem. Valoriza-se, cada vez mais, a aptidão que o ser humano tem; assim, o ofício faz do homem um ser mais digno. Teoricamente, esse é o panorama que encontramos. No entanto, na prática, sabemos que muitos empecilhos ainda existem para a construção “sólida” dessa dignidade. O principal desses problemas é o trabalho quase escravo a que são submetidos os trabalhadores das grandes multinacionais. Ao preocupar-se apenas com os lucros, essas empresas ignoram a condição humana, submetendo seus empregados a pesadas cargas horárias e baixíssimos salários.
A fim de que possamos progredir no processo de construção da dignidade humana, devemos zelar pelos direitos dos trabalhadores. O principal veículo que temos para tal finalidade é nossa Constituição. Os órgãos públicos do Sistema Judiciário devem fazer campanhas de conscientização tanto no meio urbano quanto no rural para que o trabalhador saiba de todos os seus direitos. Além disso, deve ser obrigatória a explanação desses direitos na hora de uma entrevista de emprego.”André Comiran Tonon, 18 anos, nota 950

Análise: Fala que o trabalho sofreu essa evolução da escravidão até uma visão de dignidade que se tem, mas mesmo assim não é perfeita. Mostra uma visão clara do tema e da sociedade e obediência à valorização dos direitos humanos. Vocabulário excelente para um aluno que está saindo do Ensino Médio.  É comum o aluno falar em “desde os primórdios” para se referir a algo que ocorre há séculos. Ele fez diferente. O fato de ter citado a história, contextualizando o Egito e a Idade Média, contou pontos a favor dele. Seria um bom texto para a UFRGS também.