O conhecimento em Literatura vai muito além das leituras obrigatórias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apesar de 55% da prova ser sobre elas. Isso soma cerca de 12 ou 13 questões.

Publicamos dez questões da prova de Literatura da UFRGS de 2010 para você testar o seu conhecimento. Faça a prova e confira as respostas no final do post.

Vale lembrar que tem novidade nas leituras obrigatórias este ano. Confira a lista completa:
1. João Cabral de Melo Neto – A Educação pela Pedra;
2. José Saramago – História do Cerco de Lisboa;
3. Moacyr Scliar – O Centauro no Jardim;
4. João Simões Lopes Neto – Contos Gauchescos;
5. Guimarães Rosa – Manuelzão e Miguilim (Campo Geral e Uma Estória de Amor); (presente em 2010)
6. Dias Gomes – O Pagador de Promessas; (presente em 2010)
7. Rubem Fonseca – Feliz Ano Novo; (presente em 2010)
8. Cristóvão Tezza – O Filho Eterno; (presente em 2010)
9. Basílio da Gama – O Uraguai;
10. José de Alencar – Lucíola; (presente em 2010)
11. Poemas de Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa – ( 1. Mestre, Meu Mestre Querido!, 2. Ao Volante do Chevrolet pela Estrada de Sintra , 3. Grandes São os Desertos, e Tudo é Deserto, 4. Lisboa com suas Casas, 5. Todas as Cartas de Amor São, 6. Ode Triunfal, 7. Lisbon Revisited (1923), 8. Tabacaria, 9. Aniversário, 10. Poema em linha reta ); (presente em 2010)
12. Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas.

>>> Faça download das obras das Leituras obrigatórias UFRGS 2012

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1)  Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre o teatro do português Gil Vicente e do brasileiro Ariano Suassuna.

( )    Nos autos vicentinos, são comuns figuras da Igreja que não cumprem seus votos, a exemplo de padres envolvidos com amantes ou com a venda de indulgências.
( )     No Auto da Compadecida, a santa é apresentada de acordo com a perspectiva popular, já que protege os oprimidos.
( )    A postura moralista de Gil Vicente contraria a visão de mundo estratificada da Idade Média, pois condena os personagens a partir de seus defeitos individuais.
( )    Ariano Suassuna, inspirado nas tradições populares ibéricas, criou heróis que sobrevivem graças ao uso da astúcia que burla a ordem social, como é o caso de João Grilo.

A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é

(A)       F  –  F  –  V –  F.
(B)       F  –  F  –  F  –  V.
(C)       V  –  F  –  V –  V.
(D)       V  –  V –  F  –  V.
(E)       V  –  V –  V –  F.

2) Leia o trecho abaixo, retirado do Canto III de O Uraguai, de Basílio da Gama.

No perturbado interrompido sono
(Talvez fosse ilusão) se lhe apresenta
A triste imagem de Sepé despido,
Pintado o rosto do temor da morte,
Banhado em negro sangue, que corria
Do peito aberto, e nos pisados braços
Inda os sinais da mísera caída.
Quanto diverso do Sepé valente,
Que no meio dos nossos espalhava,
De pó, de sangue e de suor coberto,
O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:
Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,
Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas
Tua fraqueza e desventura encobre.
Ou, se acaso inda vivem no teu peito
Os desejos de glória, ao duro passo
Resiste valeroso; ah tu, que podes!
E tu, que podes, põe a mão nos peitos
À fortuna de Europa: agora é tempo,
Que, descuidados, da outra parte dormem.
Envolve em fogo e fumo o campo, e paguem
O teu sangue e o meu sangue.

Considere as seguintes afirmações sobre esse trecho e o conjunto do poema.
I – As palavras de Sepé a Cacambo são ditas depois da batalha principal narrada no Canto II e antecedem os episódios que envolvem os planos matrimoniais do Padre Balda e a morte de Lindoia.
II – O apelo de Sepé pretende interromper o descanso de Cacambo e provocar sua fuga em direção às Missões, advertindo que é preciso evitar o caminho destruído pelo fogo e pela fumaça.
III – A imagem de Sepé que aparece a Cacambo está abatida e marcada por ferimentos, mas o espírito do índio demonstra em seus conselhos que finalmente compreendeu a necessidade de negociar a paz com os portugueses.

Quais estão corretas?

(A)       Apenas I.
(B)       Apenas III.
(C)       Apenas I e II.
(D)       Apenas II e III.
(E)       I, II e III.

3) Em Lucíola, de José de Alencar, Paulo, protagonista do romance,

(A)       narra seu conturbado relacionamento sentimental com Lucíola a uma interlocutora que também já exercera a prostituição.
(B)       recorda que fora apresentado a Lucíola pelo devasso Sá, responsável também por orientar os investimentos financeiros de Lucíola.
(C)       conta que a jovem Lucíola/Maria da Glória foi assediada e desvirginada pelo vizinho Couto, do qual recebeu algumas moedas de ouro.
(D)       recorda uma festa em que Lucíola se despiu diante de vários homens para conquistar o papel principal em uma peça de teatro.
(E)       conta que Lucíola viajou para a Europa a fim de obter recursos e aliados para vingar-se de Couto, seu antigo amante.

4) A coluna da esquerda, abaixo, nomeia quatro poemas de Álvaro de Campos; a da direita apresenta, em outra ordem, comentários referentes a esses poemas.

Associe adequadamente a coluna da direita à da esquerda.


A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é

(A)       3 – 2 – 4 – 1.
(B)       4 – 1 – 3 – 2.
(C)       3 – 1 – 4 – 2.
(D)       2 – 4 – 3 – 1.
(E)       2 – 1 – 4 – 3.

5) Leia os seguintes fragmentos.

1  – Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da propriedade, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a pica-pau e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se.

Extraído de Monteiro Lobato, Velha Praga, do livro Urupês, de 1918.

2  – DESCOBRIMENTO

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei lá no norte, meu Deus!
[muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu...

Extraído de Mário de Andrade, Dois Poemas Acreanos, da obra Clã do Jabuti, de 1927.

Considere as afirmações que seguem, sobre esses fragmentos.
I - Tanto Monteiro Lobato quanto Mário de Andrade ilustram o princípio modernista de redescobrir o Brasil, elogiando os diferentes tipos regionais.
II - O eu-lírico do poema de Mário de Andrade manifesta um espírito nacionalista que, a partir de sua condição de paulista urbano e letrado, se emociona ao perceber-se tão brasileiro quanto o seringueiro do Norte.
III - O texto de Lobato revela uma visão de progresso identificada com a industrialização, a modernização das lavouras e a vinda de imigrantes europeus, estigmatizando o caboclo como resistente à civilização.

Quais estão corretas?

(A)       Apenas I.
(B)       Apenas II.
(C)       Apenas III.
(D)       Apenas I e II.
(E)       Apenas II e III.

6) Leia os fragmentos abaixo, da obra de Clarice Lispector, o primeiro extraído da crônica Mineirinho, do livro Para Não Esquecer,e o segundo, do conto Amor, do livro Laços de Família.

1 - É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. [...] Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito inarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo.
2 – Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse o outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

Sobre esses fragmentos, são feitas as seguintes afirmações.
I – O primeiro fragmento mostra a preocupação da escritora com os problemas sociais, ao compartilhar com os leitores a responsabilidade por não silenciar a respeito do fuzilamento do bandido Mineirinho.
II – O segundo fragmento faz um elogio discreto da autora ao cotidiano da típica dona de casa de classe média, que deve também cultivar sentimentos e ações de solidariedade para com os desvalidos.
III – O episódio contido no segundo fragmento manifesta a ocorrência da epifania, fenômeno comum nos textos da autora, que consiste na revelação súbita de algo até então desconhecido para a personagem.

Quais são corretas?

(A)       Apenas I.
(B)       Apenas II.
(C)       Apenas III.
(D)       Apenas I e II.
(E)       Apenas I e III.

7) Considere as seguintes afirmações sobre autores gaúchos.

I – Caio Fernando Abreu, em seus contos, enuncia a experiência da juventude urbana, com largo uso de referências contraculturais e de citações de música popular brasileira e estrangeira, sendo a narração em vários momentos fragmentada e experimental.
II – Lya Luft, em seus romances, constrói personagens femininas muitas vezes às voltas com um evento crítico que revela o desarranjo entre a consciência e a prática; daí a prosa explorar a intimidade feminina e revelar a repressão e os limites familiares e sociais.
III – Sergio Faraco, em seus contos de temática rural, expõe os dilemas de homens da região de colonização italiana, às voltas com as árduas lides da pequena propriedade e as dificuldades de endividamento, muitas vezes em um contexto familiar conflagrado por adultério e disputa entre irmãos.

Quais estão corretas?

(A)       Apenas I.
(B)       Apenas III.
(C)       Apenas I e II.
(D)       Apenas II e III.
(E)       I, II e III.

8 )  Considere as seguintes afirmações sobre obras de três escritores do século XIX.

I – Nas comédias de Martins Pena, os procedimentos típicos do gênero, isto é, intrigas amorosas, desentendimentos entre casais, revelações surpreendentes, etc., vêm acompanhados da representação de costumes e tipos humanos da sociedade brasileira da época.
II – Nos poemas de Casimiro de Abreu, registra-se forte tendência indianista, na qual os feitos heroicos e guerreiros associados à pujança da natureza brasileira exaltam o patriotismo e a identidade nacional.
III – Em Senhora, de José de Alencar, a herdeira de uma fortuna tenta conquistar seu noivo entre os jovens abastados da sociedade, mas acaba casando com um viúvo empobrecido.

Quais estão corretas?

(A)       Apenas I.
(B)       Apenas II.
(C)       Apenas I e III.
(D)       Apenas II e III.
(E)       I, II e III.

9) Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas.

( ) Como no típico romance realista, os capítulos são curtos e o relato é fragmentário.
( ) O protagonista manifesta desde a infância um caráter cruel e um comportamento hedonista, estimulados, respectivamente, pela concordância do pai e pelo exemplo do picaresco tio João.    
( ) Pode-se identificar um discreto elogio do autor ao comportamento das classes abastadas nas confissões de Brás, que se mostra, ao final do relato, arrependido de suas vilanias e satisfeito por não ter ninguém a quem legar tal herança.
( ) No capítulo “O Delírio”, é explicitada com detalhes a teoria do Humanitismo de Quincas Borba, que propõe a guerra como fator de controle da população.

A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é

(A)       F  –  V –  V –  V.
(B)       F  –  V –  F  –  F.
(C)       V  –  F  –  F  –  F.
(D)       V  –  V –  V –  F.
(E)       V  –  F  –  F  –  V.

10) Leia o seguinte poema de João Cabral de Melo Neto.

O QUE SE DIZ AO EDITOR
A PROPÓSITO DE POEMAS

Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.

E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,

terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.

Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do datilografá-lo.

Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.

Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?
Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.

Considere as afirmações que seguem sobre o poema.
I – O poeta solicita ao editor que o poema venha a ser publicado para que seja interrompida a convivência entre autor e obra, ao que o editor se recusa por considerar que o poema deve ser mais bem trabalhado.
II – O poema não encontra sua forma nem no processo de construção nem na reprodução datilográfica; na sua instabilidade, o poema multiplica-se ou divide-se enquanto estiver ligado a quem produz poesia.
III – O poema sofre os efeitos da química e do cobalto, que aumentam a instabilidade da obra, enquanto a mumificação em livro dispersa os versos entre os leitores.

Quais estão corretas?

(A)       Apenas I.
(B)       Apenas II.
(C)       Apenas I e II.
(D)       Apenas II e III.
(E)       I, II e III.

Respostas: 1D, 2A, 3C, 4C, 5E, 6E, 7C, 8A, 9B e 10B.

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