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Posts do dia 11 agosto 2014

Robin Williams: a face da comédia dos anos 90 nos deixou

11 de agosto de 2014 0

robin2

Difícil imaginar uma cara mais taxativa para a comédia dos anos 80/90 que Robin Williams. A princípio, a sua aparência debochada, ironicamente sutil, fina, podia enganar. Era um ator que extraía da graça o lamento somado com a esperança. Que um dia tudo poderia ser melhor. Sua filmografia dramática indicava sua notável capacidade para despertar essa ambiguidade.

Williams foi um gigante nas décadas passadas. Tão grande que, como não poderia deixar de ser, tropeçou diversas vezes. Algumas piores que outras. Patch Adams era uma bobagem, mas uma bobagem encantadora. O Casamento do Ano, Férias no Trailer, Quem é Morto Sempre Aparece, entretanto, não faziam jus à uma carreira que todos queriam que se mantivesse no auge.

Quem diria que a figura que nos fazia rir tanto, nos fizesse chorar tanto nesse 11/08?

Uma emoção que Gênio Indomável era capaz de provocar, agora se estende para a realidade. O ator de uma infância nos faz órfãos. Não foi só Williams que nos deixou, mas a Sra. Doubtfire, Adrian Cronauer, Tom Dobbs, Andrew Martin, Sean Maguire, Alan Parrish e John Keating. É noite no Vietnã, capitão, meu capitão.

A tensão do cinema de Lumet na década de 60

11 de agosto de 2014 0

limite de segurança

Embora tenha sido indicado a cinco Oscars durante sua carreira, Sidney Lumet continua um nome pouco lembrado em listas de melhores diretores de todos os tempos. Dia desses conversava com um crítico de cinema alemão e ele mesmo afirmava que só se interessava pelos últimos anos da carreira do cineasta. O que acho um insulto, se me permitem.

Caso pegarmos apenas o ano de 64, Sidney Lumet foi capaz de entregar duas pérolas da sétima arte. No domínio da guerra fria na mente dos americanos, o cineasta conseguia expor uma tensão extrema com personagens paradoxais em ambiente caóticos. Em O Homem do Prego, por exemplo, o cineasta compreendia a vida de um homem que já não existia mais. Havia tido o mesmo destino de outras milhares de vítimas dos campos de concentração nazistas. Ainda que a sua tortura posterior seja muito mais metafórica do que literal, a existência de Sol ainda era enclausurada. Sua paranoia entendida. Já na obra-prima Limite de Segurança, o diretor apontava uma visão temerosa acerca da guerra fria, que era ainda mais urgente. No auge da guerra, afinal, Lumet tentava diagnosticar sequelas de ataques nucleares numa trama angustiante e com perdas de ambos os lados. O que ocorreria se um avião cruzasse a fronteira?

Um dos pontos cruciais para se analisar Limite de Segurança, aliás, é o momento em que o Presidente dos Estados Unidos, em um ato de profunda coragem e empatia, manda seu fiel amigo, General Black, esperar a mesma ordem que o deus do velho testamento havia dado a Abraão, requisitando um sacrifício extremo. (“Toma agora teu filho; o teu único filho, Isaque, a quem amas; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que te hei de mostrar” [Gênesis 22:2]) O sacrifício de cinco milhões de vidas em troca de uma possível paz, na obra do americano.

Lumet não apenas expõe uma visão humana autocrítica em seu longa-metragem, como também constrói uma parábola acerca do duelo entre comunismo versus capitalismo. E, para isto, basta observar a cena que inicia o filme de 64: estamos nos sonhos de um personagem que se vê numa tourada. Poderíamos vê-lo como um espectador, mas ele representa muito mais. Ele está na ação. O touro persegue furiosamente uma bandeira vermelha, mas termina sendo morto por aquele que antes o “conduzia” até ela: o toureiro. O capitalismo tentando destruir a “ameaça comunista”. Sob a mesma ótica, o general lembra do sonho exatamente quando mexe numa nota de dinheiro.

Ambos os filmes carregam um grande sofrimento, em caminhos diferentes, mas iguais em essência. Ancorando-nos na época dos acontecimentos, auge da Guerra Fria, é com o personagem de Dan O’Herlihy que analisávamos a maior intenção de Lumet, que passava por muito mais do que a conscientização – afinal, criando uma coesão formidável ao fechar os olhos pela última vez, o personagem servia como uma mensagem de seu diretor: é hora de voltar ao pesadelo.