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As mudanças de gênero e o neo-giallo

16 de agosto de 2014 1

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Por Andrey Lehnemann

Caso buscássemos na fonte do giallo* o modelo mais incisivo cultivado pelos cineastas do gênero, eu assumo que a resposta seria o olhar. Muito antes do uso abundante das cores para definir a cenografia, a procura de diretores como Mario Bava, Dario Argento, Lucio Fulci era pavimentada pelo padrão da experiência ocular. O espetáculo visual do giallo nascia da exposição gráfica do assassinato, da sexualidade e do fascínio pelo crime. A importância do olhar era crucial tanto na investigação decorrente do enredo quanto da percepção exclusiva a quem se contava a história. A análise do comportamento humano no crime era a maior intenção; muito mais que o choque. Essa esfera comportamental não foi vítima de uma imensa mudança, mas adequou-se gradativamente a outras visões. O próprio Fulci desencadeou uma espécie de giallo rural posteriormente e Bava investiu num cenário mais fantasmagórico no futuro. A perda do giallo não foi apenas pela baixa procura ou a fuga dos cineastas para outros campos, mas por termos o acréscimo maior do splatter (obras centradas na reprodução gráfica da violência) em outros filmes, onde a abundância do sangue e da exploração física era mais irresistível ao público adolescente do que a razão aparente e o olhar. Não à toa, o cinema de Argento está parado no tempo até hoje e mesmo sua tentativa de neo-giallo com o seu filme de 2009, “Giallo – Reféns do Medo”, tornou-se um fracasso.

O rumo do horror recente, ao mesmo tempo, desencadeou nas prolíficas homenagens às décadas passadas. É coerente, consequentemente, que o giallo reaparecesse em determinada ocasião numa forma mais sutil e ambígua. E é exatamente o que ocorre no filme A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo, que chegou ao Brasil neste ano em festivais (inclusive no de Balneário Camboriú). No entanto, aqui, além da busca pelo olhar, que chega a seu auge numa cena de confronto entre o detetive e o marido à procura da esposa, o padrão narrativo é a inconsciência. A subjetividade da mente é a resposta que a dupla Hélène Cattet e Bruno Forzani almeja ao trabalhar a paranoia, a alucinação e o crime que intercede à vida de Dan.

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A dissonância do som das luvas, a lâmina da faca brincando com o mamilo da vítima, a fotografia em preto e branco e o slow motion acentuado na tortura: o objetivo geral é a exploração da arte conceitual para refletir os pensamentos. Tudo é calcado no inconsciente dos personagens. O tormento de Dan, por exemplo, é contínuo nas cores alusivas às histórias que ouve no decorrer do longa-metragem (o azul representando o desejo, o voyeurismo, o verde da luxúria, o vermelho da morte).

O fetichismo e a misoginia manifestados no giallo estão presentes no contexto das sensações de seus protagonistas – e o tormento e a agonia de Dan demonstram uma culpa inesgotável, como na sequência em que ao enlouquecer passa a perder pedaços de si, manifestados fisicamente no seu imaginário. A metáfora do crime, do prazer e da paranoia. O nosso corpo e nosso inconsciente servem como base para este desnude psicológico, como a proposta do contraponto entre Dan e o detetive, que culmina num split screen (divisão de tela) belíssimo que aponta ambos com a mesma intenção, apesar das perspectivas e semblantes divergentes. No neo-giallo de Cattet e Forzani, o olhar é fruto uma simetria dantesca.

*thrillers de terror originados na década de 60, onde o assassino geralmente usava luvas de couro pretas e continha um assassinato que motivava o enredo.

Comentários (1)

  • @luizcavalcant1 diz: 16 de agosto de 2014

    muito bem,andrey. muito bem.

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