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Dias 1 e 2 da Mostra de São Paulo

18 de outubro de 2014 2

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Na primeira cobertura da Mostra de São Paulo, algumas coisas ainda não ficam claras para um principiante: tempo, deslocamento e a correria de uma sessão para outra. Ontem, 4 horas da manhã, eu ainda não havia conseguido finalizar o apanhado dos filmes aos quais assisti no primeiro dia, o que me fez deixar a relação para cada dois dias. Agora, naturalmente, possuo um domínio maior sobre os três fatores cruciais da cobertura; ainda que o tempo seja escasso. Em primeiro lugar, o evento não só reúne o que de melhor passou em festivais ao redor do globo, como também carrega boas oportunidades para debates sobre novos diretores, gêneros e apostas com colegas e conhecidos. O contato com o novo, na sua melhor forma. Algumas das obras que tive contato nos últimos dois dias, seguem abaixo:

 

1) Life May Be (Dirigido por: Mania Akbari e Mark Cousins. Inglaterra/Irã, 2014)

É curioso como a direção de Mania Akbari e Mark Cousins reflete tanto sobre como a sexualidade deveria ser mais exposta do que reprimida para, sempre quando existe uma oportunidade dos próprios fazerem algo a respeito, a metáfora ser o instrumento utilizado. Ou algo no cenário interferir a “provocação”. De certa forma, isto diz muito sobre o documentário da dupla, onde a superficialidade domina temas tão pertinentes: a sexualidade da mulher na sociedade, a aceitação e a própria existência.

Querendo ser provocador, mas sem que saiba exatamente como, as cartas de Cousins são sempre frutos de uma grande masturbação intelectual, onde o diretor aproveita para demonstrar todo seu conhecimento sobre cinema, citar diretores que quebram paradigmas, usar palavras como realismo e paciência, além de destacar uma retórica social digna de um adolescente de oitava série. E há de se apontar a cena extremamente estúpida em que o diretor se filma num quarto de hotel, com itens calculadamente expostos, para falar sobre, bem, seu pênis. E como ele seria extraordinário. E que todos deveriam vê-lo.

A nudez, afinal, é o tema central no desenvolvimento das cartas. O que parece apenas uma discussão calma, mas prepotente, sobre cinema, termina como uma cumplicidade pela busca do choque. E até o contraponto de Akbari é falho, quando diagnostica seus conflitos internos no exílio com uma sequência em que depila sua perna ou um banho de espuma.

Life May Be é uma maçante troca de cartas que talvez fosse muito mais significativa na mão de outros protagonistas.

(1 estrela em 5)

  1. Filha (Dirigido e escrito por Afia Nathaniel. Elenco: Samiya Mumtaz, Mohib Mirza, Saleha Aref, Asif Khan. Paquistão, 2014)

À princípio, o paquistanês Filha é um drama intenso e chocante sobre uma menina de onze anos usada como moeda de troca por um pai ausente e um homem nojento que decide utilizar a garota como trégua para uma vingança que dura anos. Para começar, o diretor sabe o que está fazendo ao enquadrar cada personagem: a primeira cena do filme, por exemplo, é um belíssimo frame que surge quase como um splitscreen entre a mãe e o pai – juntos, mas separados no mesmo lugar. Aliás, o único instante em que os dois ficam no mesmo plano, é quando ela ultrapassa a linha com seu tronco, porém, ainda deixando o resto do corpo no outro lado. A dinâmica familiar é exposta exatamente aí: o único momento em que ambos estarão numa mesma linha de raciocínio será quando a esposa cruzar essa linha, adequar-se ao que deseja o marido. E, assim sendo, Filha funciona como uma narrativa que aponta a perda da juventude de mulheres que são forçadas a casar com um homem.

Não à toa, a protagonista de Filha, torna-se a mãe. Fugindo de um novo casório arranjado, agora para sua única criança, é ela que desfruta da liberdade, da diversão no parque e de novos amores proibidos. Seus instantes de felicidade só são vistos quando brinca com a filha, relembrando os tempos de ingenuidade (“A letra ‘B’ é como duas barrigas!”). “Deixa ela ser feliz, é apenas uma criança”, diz um personagem. Pois a mãe busca esse retorno à infância exatamente por isso: a felicidade. Sua lembrança mais distante: – Eu me casei com quinze anos. Depois disso, a minha história termina.

Entretanto, ainda que vários aspectos cênicos favoreçam o longa-metragem (o carro colorido ao meio do desfiladeiro é uma boa metáfora para as duas ou os figurinos – mais quentes e secos, quando atingem períodos de maturidade forçada; coloridos e vibrantes, na criança), o maior problema reside no tom piegas de seu clímax. Mas não só isso. A partir do segundo ato, o diretor parece ter medo de continuar o ritmo intenso e foge para longas caminhadas ao som de músicas indianas, momentos felizes e clichês românticos, que nada compactuam com toda sua abordagem prévia. E o que se torna pior ao enfatizar uma cena crucial da narrativa que envolve tiro, moças de branco na correnteza e mãos entrelaçando-se.

Não é o que um filme sobre um tema tão brutal merecia, certamente.

(3 estrelas em 5)

  1. A Vida Invisível (Dirigido por Vitor Gonçalves. Elenco: Filipe Duarte, João Perry, Maria João Pinho. Portugal, 2013)

O português A Vida Invisível poderia ser encaixado como uma obra que dialoga para si mesma e sofre de um luto constante que não chega a lugar algum. Vitor Gonçalves expõe sua visão como se estivesse fazendo um monólogo para si sobre como percebe a vida. E isso, claro, influencia o seu protagonista: Hugo. A narração em off do personagem, que trata de ressaltar as reações que observamos em tela, a sua solidão e o seu medo em ser apenas outro Antônio… Alguém que deixa como referência num hospital, o nome de um quase desconhecido. Sem família, sem nada. A vida de Hugo é quase uma escuridão total, como a fotografia trata de lembrar. Sempre frequentando ambientes escuros, silenciosos, o personagem sempre tenta encontrar algo que o afaste de algo que o mantenha na realidade: seu trabalho ou um relacionamento.

Assim, a cena em que pergunta para sua namorada para onde foram seus sonhos e sua mão gesticula algo se esvaindo é bastante emblemática. Da mesma forma, o seu descontrole é fruto de seu temperamento reprimido em pensamentos. As inserções, por sua vez, com os vídeos são sempre tentativas fracassadas de gerar alguma sensibilidade – além de vagos e sem propósito.

No fim das contas,A Vida Invisível talvez seja um perfeito título para um filme que não nos mostra nada além de um sentimento de perda infinito e carência de humanidade.

(2 estrelas em 5)

  1. Foxcatcher (Dirigido por Bennett Miller. Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Sienna Miller, Vanessa Redgrave. EUA, 2014)

Dono de um metódo que poderíamos diagnosticar como procedural, Bennett Miller é um dos diretores mais promissores da atual indústria norte-americana. No seu novo filme, Foxcatcher, o cineasta é extremamente maduro na forma como lida com cada um de seus personagens, transformando o filme não em uma narrativa de um homem só, mas de múltiplas camadas: sociais e introspectivas. Neste panorama, o personagem de Channing Tatum (surpreendentemente bem) é o fio condutor da tragédia. É nele que podemos observar inteiramente o declínio americano. O semblante forte, as marcas de treinamento, sua intensidade, frieza, tudo é trocado pela facilidade do poder e suas sequelas. O poster da conquista da honra e seu patriotismo, o desejo de ser reconhecido por um defensor de seu país, culmina numa cena avassaladora em que ouvimos os gritos de USA num inesperado terreno para ele.

O irmão interpretado pelo excelente Mark Ruffalo, por outro lado, reage disciplinarmente, mas depositando os votos econômicos totalmente em sua família. É o equilíbrio entre a luxuria e a extravagância de du Pont e a ingenuidade e humildade de Mark. A queda, portanto, é maior e muito mais inesperada. Enquanto isso, é John du Pont que precisamos desvendar. O seu critério misterioso no início, a influência constante e sua transformação são resultados de um homem paradoxal. Mesmo que seu nome e fortuna compre tudo, ele segue o garoto frustrado que tenta agradar sua mãe e busca arranjar alguma companhia – duas cenas são perfeitas ilustrações, aliás: a primeira, o treinamento forjado que faz com sua equipe; noutro momento, a maneira que deposita suas expectativas em Mark, tratando-o como único amigo, mas, muito mais do que isso, ancorando-se nele para vencer a “figura” de sombra. Não à toa, é exatamente depois de brigar com sua mãe, que du Pont dirige sua raiva e frustração para a sua própria figura refletida em Mark: afinal, como ele poderia achar que estava na hora de tomar decisões?!

Carrel, assim sendo, é a força dramática da narrativa. Estabelecendo o seu olhar singelamente triste, inquieto, aliado a uma aparência de imponência frágil (o que seria conflitante por natureza), o ator é perfeito em tratar todo o declínio dos du Pont. De uma criança mimada, como mostra a cena em que, triste por não ter a metralhadora que queria em seu tanque, joga os papéis no chão, emburrado, para alguém que ‘fabrica’ as opiniões positivas sobre ele: tudo é pontuado intensamente por Carell. E é emblemático o seu olhar para o documentário que fazem sobre seu espírito de liderança, quando avalia que o belo discurso de Mark num evento de gala foi fabricado por ele. É exatamente aí que seu personagem só vê uma saída: a necessidade de deixar o seu passado e sua herança para trás. Seguir o seu próprio caminho e fazer sua própria corrida. Algo precisava mudar. Claro que, infelizmente, a solução foi a mais brutal.

(4 estrelas em 5)

  1. O Vale Sombrio (Dirigido por Andreas Prochaska. Elenco: Sam Riley, Paula Beer, Tobias Moretti, Clemens Schick. Áustria/Alemanha, 2014)

A melhor definição que poderíamos arranjar para O Vale Sombrio seria: a vingança de um forasteiro em busca de reconhecimento familiar. É a forma mais simplista, claro. O filme de Andreas Prochaska é um western habilmente tenso, envolvente e estabelece dilemas entre a vingança e o doentio. Até onde poderíamos ir numa terra sem leis? Essa é a pergunta primordial que o personagem de Sam Riley parece entender no segundo em que a ultrapassa: ao forçar uma mulher gananciosa a comer moedas de ouro. É igualmente curioso, o fato da moral cristã ser tão reforçada em determinadas cenas e a crucificação desempenhar um papel tão significativo. E basta analisar a presença constante da cruz nos caminhos de Greider, com destaque para três deles: o primeiro, a maneira como uma grande cruz fica a esquerda do personagem; o segundo, a cruz centralizada na cabeça do padre responsável por ajudar o bárbaro crime que vitimou um casal; e, por fim, a cruz sendo ultrapassada, quando Greider percebe que já é o bastante.

Prochaska deixa suas intenções claras desde o inícío, não é imprevisível, mas utiliza ao seu favor: a cena em que a sequência do armazenamento de madeiras é parada por uma morte é excepcional, bem como os tiroteios trocados pelos personagens e, particularmente meu favorito, a queda do desfiladeiro de um dos irmãos para as mãos de Greider afundando numa pia de gelo (as duas, como o número de mortos). Ao mesmo tempo, o diretor extrai tensão de ambientes que supostamente seriam alegres, como indica o casamento silencioso e a festa tomada por um medo crescente. O Vale Sombrio possui sua parcela de erros, entretanto, no que diz respeito as músicas que pontuam a narrativa, os diálogos pouco inspirados ou o grande flashback que exprime a ideia central, mas é certamente uma execução bem sucedida na maior parte do tempo.

(4 estrelas em 5)

  1. O Retorno de Antígona (Dirigido por Yorgos Servetas. Elenco: Marina Symeou, Marianthi Pantelopoulou, Nikos Georgakis, Giorgos Kafetzopoulos. Grécia, 2013)

Não há como não enquadrar o retorno da grega Antígona para sua terra natal como uma viagem pela antiga Grécia e a atual. A pré-crise e o pós-caos econômico. Disfarçado de romance dramático, onde as mulheres são vítimas constantes de abusos de homens socialmente e sexualmente reprimidos, o filme de Servetas dialoga eficientemente com o desemprego, a submissividade ao governo e a austeridade, entre outros. As salas comprimidas que seus personagens habitam, os seus carros, suas casas, o clima deserto, tudo colabora para a análise: desde a sala irrisória de um apartamento de uma personagem, onde ela chora e há um colchão no meio do recinto até a sala dos professores, já que a educação parece abandonada. Por consequência, Antígona visualiza na figura de Nodas a sua própria juventude, passado de possibilidades, sonhos e futuro, algo que não existe mais. E é poético, portanto, quando é exatamente ele que passa a agir como o opressor canalha do seu serviço, culminando numa grande reflexão da personagem-título: onde estamos com a cabeça?

São mundo diferentes que são vistos – o dela e o de Eleni, e a montagem com as duas transando com seus respectivos parceiros demonstra isso. É intencionalmente interessante, aliás, que Servetas aproveite as bandeiras dos países para destacar a atmosfera violenta: seja hasteada numa escola esquecida ou num ferro-velho. Do mesmo modo, os rostos que não querem ser observados pela vergonha, como o de Eleni, após transar com o amante. É uma terra de lamentos e insegurança, afinal. E quando até o único homem imóvel do lugar decide se mexer para não ser engolido, é hora de repensar o tempo.

(4 estrelas em 5)

  1. O Fim de uma Era (Dirigido por Bruno Safadi e Ricardo Pretti. Elenco: Leandra Leal, Mariana Ximenes, Fernando Eiras. Brasil, 2014)

Procurando instantes de felicidade ou magia para raciocinar sobre o amor cinematográfico, O fim de uma era aposta num apanhado de trechos de filmes antigos para abastecer sua obra de sentimentos. É uma intenção boa, quando ouvimos poesias dedicadas à grandes musas, mas prepotentemente infantil. Desde a escolha da fotografia em preto e branco aos closes, a dupla Safadi e Pretti tenta brincar com suas escolhas de delinear as ações: nas passagens, esboços e intermissões. Uma delas, por exemplo, caracteriza-se por, bem, filmar pessoas dormindo ou descansando. Do mesmo modo, os diretores decidem usar zooms de aproximação puramente como exercício técnico, o que nos leva a fatídica cena em que chegamos próximos de um animal empalhado por diversas vezes.

Desta forma, nem mesmo o drama das duas irmãs consegue avançar, já que a natureza experimental da obra almeja sublinhar mais seu estilo do que seu enredo. Narrações em off novelescas, uma tela branca utilizada para uma acapella e o silêncio proveniente do pedido do próprio, pouco fazem para destacar o apelo sentimental e de isolamento e solidão que os diretores necessitam. Algo que seria muito mais satisfatório, talvez, como um projeto final de uma faculdade de cinema.

(2 estrelas em 5)

  1. Dois Dias, Uma Noite (Dirigido por Jean-Pierre e Luc Dardenne. Elenco: Marion Cottilard, Fabrizio Rongione, Pili Groyne, Simon Caudry, Catherine Salée. França, 2014)

Uma das coisas mais estimulantes de desvendar num novo trabalho dos Dardenne é aonde nos levará a sensibilidade habitual com que os irmãos franceses tratam temas tão profundos. A facilidade de extrair o riso e o choro de situações aparentemente tão simples. Dois Dias, Uma Noite nos leva mais uma vez para essa jornada: aqui, um caminho que é percorrido por um casal que literalmente trilha uma nova estrada para conseguir se fortalecer.

Tratando de temas tão pesados, mas com uma fineza avassaladora, como o domínio financeiro do empresariado sobre o proletariado, os Dardenne apontam a personagem de Cottilard como o centro estável, de caráter inabalável, da balança. Ainda que seja alguém demasiadamente insegura consigo mesma e com seu futuro, mudando de ideia a todo momento ou continuamente desistindo, Sandra é alguém que nunca aceita ser tratada por pena ou por benefício pessoal – é motivada somente pela sua sobrevivência e família, mas sem que isso a faça mudar. E é exatamente por isso, não saber do futuro de suas finanças, que ela é sempre enquadrada de perfil, num cenário lateral e levemente indicativo ao retrovisor do veículo: ela não sabe o que está a sua frente (nunca a vemos de olho na estrada), apenas o presente (lateral) e ainda olhando para trás (a firma simbolizada pelo retrovisor). Ou a sinalização do figurino, quando a protagonista usa roupas da mesma cor da parede de tijolos da casa de Juliette, como se sentisse exatamente aquilo: uma parede.

É exatamente nesses pequenos gestos grandiosos, mas que parecem banais, a força cênica dos Dardenne. Note, igualmente, a forma como ambos constroem o vício de Sandra por suas pílulas, a naturalidade como ela as esconde até chegar a tentativa de suicídio. Da mesma forma, o raciocínio sobre a hipocrisia da classe média, ao pessoalizar a economia, agir por interesse próprio, é bem exposto – e há de se aplaudir a cena em que uma das trabalhadoras se desculpa com Sandra por não ajudar ela a ficar com seu emprego porque necessitava reformar o terraço.

Como um bônus de 1000 euros influenciaria no relacionamento de empregados? Ainda mais numa França precária. A resposta pode parecer simples, mas é profunda como poucas.

(5 estrelas em 5) 

  1. Leviatã (Dirigido por Andrey Zvyagintsev. Elenco: Elena Lyadova, Vladimir Vdovichenkov, Aleksey Serebryakov, Roman Madyanov, Anna Ukolova. Rússia, 2014)

Indicando que uma sociedade feliz e bem servida é aquela em que bebida, carne e armas são exemplos de fartura, Leviatã é um finíssimo exemplo de como o humor negro pode intercalar o drama intenso e o colapso social e familiar. O diretor Andrey Zvyagintsev, afinal, raciocina acerca da destruição dos sonhos e futuro visualizada na demolição de uma casa. Mais que isso, analisa inteligentemente uma justiça que funciona para poucos e cria quase uma obsessão com os pequenos infratores. Assim, a lei sendo lida com extrema rapidez, como se fosse somente um cumprimento de metas, sem se importar com quem está sendo julgado, é um exemplo natural desse apelo; bem como o retrato de Putin com os olhos tapados no enquadramento, que salienta uma reunião na prefeitura para discutir uma chantagem. É notável também, além disso, o terreno que o russo constrói para nos indicar que, sim, a justiça é ausente naquela região: numa excelente sequência com Dmitri procurando algum oficial para tratar de uma prisão ilegal. Do mesmo modo, o uso satírico da política é sempre inspirado, o que resulta no hilário tiro ao alvo com retratos de políticos. Sem contar a reveladora conversa entre um cardeal e um político, a qual denuncia dois tipos de poderes lascivos (“Você tem o seu território, eu tenho o meu!”).

Igualmente, a família também é fruto da análise do cineasta. Começando pela personagem de Elena, que se vê impedida em sua própria casa – e basta observar, neste caso, como a câmera sempre costuma ficar afastada dela, apenas se aproximando intensamente no momento em que beija Nikolai no primeiro ato; depois, as reações nos closes, onde notamos a primeira vez que Dmitri encanta Lilya (o instante em que ambos entram no mesmo quadro, bêbados e felizes. Uma felicidade que ela necessitava); e, finalmente, o despreparo familiar para lidar com perdas e instabilidade: Lilya se sentindo sufocada pelo braço do marido, o filho com complexo de édipo, a despreocupação com o paradeiro das crianças (“Onde estão os seus filhos?”), etc. Zvyagintsev faz do humor a sua principal arma, o que torna o desolador terceiro ato ainda mais cruel. Se num primeiro momento a briga de bêbados entre prefeito e desempregado era um gracejo popular; noutro, a sentença de que o “estado cuidará de alguém” surge amedrontadora. No tempo de instabilidade econômica, corrupção e a religião como instrumento propagador de ódio, o recado do russo acaba sendo muito mais brilhante do que poderíamos imaginar. Para ele: tudo é culpa de todos.

(5 estrelas em 5)

  1. Tsili (Dirigido por Amos Gitai. Elenco: Andrei Kashtar, Leah Koenig, Adam Tsekhman. Israel, 2014)

Daria para associar imediatamente Tsili com pinceladas da obra de Resnais, principalmente Hiroshima e Noite e Neblina – a apresentação cuidadosa dos dois estranhos que fazem parte do mesmo mundo, a contemplação do corpo e, claro, as imagens de arquivo dos campos de concentração. Mas a comparação acaba aí. Não se dando conta de que o tom contemplativo atrapalha o envolvimento com o drama da personagem-título, Gitai trabalha toda a sua narrativa por metáfora, mas sem que isso ocasione numa visão provocadora ou desafiadora da segunda guerra mundial. É a visão de Tsili sobre o ocorrido. Somos guiados pelo seu estado de espírito e sua paixão.

Alimentando-se de seivas de árvores, vivendo como um animal, numa terra devastada, vítima da guerra, a protagonista desenvolve um aguçado sentimento pela natureza, que culmina num grande ninho feito por ela para se proteger, além de se comunicar com os pássaros através do olhar. Da mesma forma, Gitai expõe a menina quase como uma leoa, como não deixa de destacar o imenso cabelo, o qual mais parece uma grande juba. Vivendo no limite, Tsili se aproxima de nós com cuidado, personalidade e insegurança, fazendo com que nos importemos com ela e soframos, como não poderia deixar de ser, com o fim de sua relação amistosa com Marek.

Todavia, Gitai também trava demais a comoção com a situação, ao criar quase gags com violinistas e insistir em monólogos embaraçosos (como aquele em que a narradora repete três vezes o ódio que nunca terminou). Tsili pode beber da água de Resnais, claro, porém com uma execução muito longe de sua inspiração.

(2 estrelas em 5)

 

Comentários (2)

  • fi do PTA diz: 18 de outubro de 2014

    veráres acima das nuvens?

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