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Dias 3 e 4 da Mostra de São Paulo

20 de outubro de 2014 1

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Algo recorrente na Mostra 2014 é a representação da crise econômica em diversos filmes, desde representantes da Turquia até os da França. Dos 19 filmes vistos até então, nesses quatro dias de festival, eu arrisco afirmar que 10 deles possuíam a crise como uma de suas subtramas.

Cássia, de Paulo Henrique Fontanelle (o mesmo gênio de Dossiê Jango), é meu filme favorito até agora. A sensibilidade e a maneira de nos envolver na família e na intimidade de Cássia Eller é singular. O filme estreará em janeiro do ano que vem.

Os filmes aos quais assisti no 3º e 4º dia de Mostra, segue abaixo:

11. Em Qualquer Outro Lugar (Dirigido por Ester Amrami. Elenco: Neta Riskin, Golo Euler, Hana Laszlo. Alemanha, 2014)

Discutindo a oposição introspectiva da própria protagonista, criando uma figura paradoxal, o que mais surpreende no Em Qualquer Outro Lugar é o desenvolvimento que produz: a nostalgia quanto a infância e o nosso relacionamento com nossos pais. Num país em guerra, crises e sem prospectiva, o colo de nossa mãe parece muito mais sedutor que nossos anseios, temores e inquietações.

Portanto, não apenas a situação divisória entre o relacionamento de uma judia com um alemão (note as roupas de camas com cores diferentes), a diretora tenta expor um grande paralelo entre significados, dicionários, teoria e prática. Noa é alguém que ainda não decidiu o que realmente quer fazer no futuro e isso a atormenta. Existe um duelo interno muito grande, o que a leva a fazer suas ações durante a narrativa (dar em cima de alguém que ela não gosta ou procurar o carinho da mãe, que parece não existir).

Não deixa de ser uma proposta curiosa por natureza: o cotidiano de uma família de Tel Aviv – com seus abrigos antibombas e adulação aos soldados israelenses. É um retrato simples, mas contundente.

(4 estrelas em 5)

12. Pequeno Pássaro na Nevasca (Dirigido por Gregg Araki. Elenco: Eva Green, Shailene Woodley, Christopher Meloni. EUA, 2014)

Wooley parece ter se especializado em adolescentes familiarmente problemáticas que divagam sobre suas vidas em narrações off nada envolventes. Na nova obra melodramática de Greg Araki, é o ponto de vista dela que nos leva a confiar e desconfiar de cada personagem. Entretanto, se essa natureza poderia ter rendido grandes momentos cênicos para a obra, o diretor não convence pelo tratamento dado a ela: produzir uma série de pistas falsas para buscar um choque nada convincente em seu final.

Criando esse referencial de mãe brincalhona e feliz que vira uma depressiva transtornada com a sua juventude perdida, dedicando parte do ódio à filha, o filme de Araki desnuda essa concepção para transformar a mãe numa figura nocivamente temperamental, fazendo com que o pai surja como alguém que sofre dia a dia, não como um obsessivo ciumento. E este é um bom resultado, somando-se ainda a a sensualidade de algumas cenas: a minha favorita, claro, é Woodley seduzindo Jane pela primeira vez.

Entretanto, o diretor é raso em lidar com o sumiço, as desconfianças são previsíveis, os sonhos contemplativos na neve não funcionam e as decisões no terceiro ato são risíveis (a combinação do cadeado, o flashback e a resolução estúpida corroboram com isto). Algo que só não fica intragável pela presença dos atores, em especial Meloni, que utiliza seu semblante fechado para construir alguém metódico, misterioso e dono de um olhar constantemente carregado de tristeza. É uma grande bobagem na maior parte do tempo, mas que não é uma fraude maior pela construção dos personagens. Sempre verossímeis.

(2 estrelas em 5)

13. A Viagem de Yoani (Dirigido por Raphael Bottino e Peppe Siffredi. Brasil, 2014)

É extremamente difícil criar uma obra de natureza política, sem arriscar tomar um lado. Os grandes documentaristas, por exemplo, tornaram-se referências justamente pela parcialidade do lado do mais pobre, de um contexto ou de um cinismo com figuras importantes. Curiosamente, portanto, os diretores de A Viagem de Yoani decidem não se expor, mas deixar os dois lados falarem e tomarmos o lado que desejarmos – criando contrapontos entre os discursos e, principalmente, debate acerca da liberdade de expressão.

“Eles têm a oportunidade de gritar contra mim, manifestar-se favoravelmente ou contra; em Cuba, nós, não!”, afirma a cubana num de seus discursos. Exatamente depois de Raphael Bottino e Peppe Siffredi também indicarem o discurso dos que a acusam de ser comprada pelos americanos. Assim, deixando a blogueira expor sua opinião, a obra vira genuinamente um grande debate sobre o intervencionismo, a liberdade, o direito da liberdade de expressão, entre outros.

Com uma montagem dinâmica, igualmente, favorecendo a conexão discada, sistema operacional clássico, fotos, vídeos e discursos, o filme denuncia o aproveitamento de reacionários da figura da blogueira, ao passo que, ao mesmo tempo, reproduz uma discussão moral grande no papel de Suplicy como principal mediador na câmara. Afinal, o candidato está certo quando diz que Cuba não representaria o socialismo em geral. A orientação é falar sobre isso, não fugir ou censurar o tema. Deixar opiniões divergentes terem voz. Algo que também serve de diagnóstico para o documentário. As vaias e aplausos no fim de sua passagem por aqui, por exemplo, simbolizam exatamente a democracia.

(5 estrelas em 5)

14. Muitos Homens num Só (Dirigido por Mini Kerti. Elenco: Vladmir Brichta, Alice Braga, Pedro Brício. Brasil, 2014)

Um dos mais interessantes personagens que já viveu no Brasil do século XIX, possivelmente, é João do Rio. Malandro, possuidor de um faro raro para histórias singulares e apaixonado pelo que considerava “ratos de rua”, João passeava narrativamente por entre bares, cabarets, saias de moças e hotéis de beira de esquina. Um bon vivant. É dele, por exemplo, o célebre texto sobre o mendigo original, o qual indicava um senhor de idade que vivia na rua porque tinha tudo o que precisava. O Muitos Homens num Só, entretanto, trata-se mais de uma crise de identidade de um dos primeiros estelionatários do país. Ainda um crime minimamente conhecido, o protagonista se infiltrava em quartos sem preocupação ou proteção, usava velas para iluminar novas percepções, cartas e pensar novas vidas, além de, igualmente, perambular pelas ruas observando o que ninguém observa – indicando um parentesco com o próprio escritor.

É uma pena, portanto, que a narrativa não chegue ao patamar que ela deseja: sabotando-se, principalmente, pela atmosfera novelesca que envolve a história de Eva e Arthur, criando obstáculos tolos, previsíveis e quase absurdos (sempre os que envolvem o marido dela). Da mesma forma, o geralmente eficiente Caio Blat não consegue doar muito ao papel de um J. Edgar brasileiro, alguém maravilhado com o futuro da identificação digital. Mesmo nas cenas em que Eva procura desenhar retratos de pessoas tristes, trazendo uma semiótica bacana, o relacionamento e o futuro se tornam peças de um jogo de tabuleiro que sabemos o final, mas nos forçamos a ficar olhando e ver a queda do rei.

(2 estrelas em 5)

15. Boa Sorte (Dirigido por Carolina Jabor. Elenco: Debora Secco, Edmilson Barros, Fabrício Belsoff, Felipe Camargo, Cássia Kiss. Brasil, 2014)

Priorizando planos centrais e poucos cortes, Boa Sorte é uma obra que tenta extrair o máximo de seus ambientes, sem que para isso use tanto invencionismo gráfico – a princípio, o filme da interessante Carolina Jabor busca dizer muito com pouco, ainda que o roteiro fruste essas intenções. Girando em torno de uma clínica de psiquiatria, lugar em que João conhece Judite e Felipe, o longa-metragem investe em temas como HIV, crises existencialista e tempo, mas buscando encontrar um equilíbrio numa ingenuidade que já nasce morta. Assim, as divagações dos personagens sobre saliva, invisível e a fanta misturada com remédio só não soam piores porque Secco e Zappa acreditam no papel que desempenham, fazendo com que consigamos observar nascer uma química entre eles. Igualmente, o roteiro expositivo abusa das soluções fáceis no relacionamento entre João e Judite, inclusive colocando o tão esperado flagra e usando uma superficialidade confortável para gerar o ponto de virada necessário. Mesmo destino que encontra o raciocínio entre corpo e mente, que é discutido continuamente no longa, aliás.

Por outro lado, Jabor é perfeccionista em seus movimentos de câmeras: chegando a usar a imagem para diagnosticar o que está acontecendo entre os protagonistas na piscina – note, neste caso, o plano/contra plano que nos indica a desconfiança de João e a tentativa dele fugir do tópico que o faz assim; e, após isto, como a diretora enquadra os dois nas mesmas condições, como se João compreendesse o que precisava ser compreendido: ele a amava, e isto basta. Jabor, ao mesmo tempo, consegue introduzir a “sorte” de seu título na trama: a intercalação entre bem-vindo e os créditos iniciais ou o pensamento final refletem bem. Além do meu momento favorito, o plano sequência da dança. Todas elas, cenas que ofuscam as outras falhas, como o uso da câmera em primeira pessoa no protagonista, de vez em quando, ou a conversa por pensamento.

Boa Sorte é um filme simpático, mas levemente frustrante por ter podido oferecer mais.

(3 estrelas em 5)

16. Opium (Dirigido por Arielle Dombasle. Elenco: Gregoire Collin, Samuel Mercer, Arielle Dombasle. França, 2013)

Dá para dizer que, caso David Lynch e Honoré tivessem um filho e ele decidisse realizar um musical sobre alucinações, o resultado seria exatamente este longa-metragem francês. Situado nos anos 20, durante uma miscelânea de sexo, relacionamentos, amor, arte e amizade, o filme acompanha a vida do poeta Jean Cocteau, que se apaixona por um jovem escritor chamado Raymond. Após uma fatalidade inesperada, a vida do poeta muda completamente, levando-o à viagem proporcionada pelo ópio. E é exatamente nessas viagens que a narrativa de Arielle Dombasle busca uma proximidade com o surrealismo extremo para denunciar o que o protagonista está passando – porém, para isto, utilizando inserções que limitam o ritmo da história: a sequência em que Jean tenta autodesvendar seus problemas ou a entrada de Mnémosyne com suas roupas metafóricas são desconfortáveis.

Igualmente, os números musicais não possuem timing, lembrando Bem Amadas em seus ritmos, além das cenas que os originam serem deslocadas: o gracejo com todos subindo aos céus como estrelas dançarinas, por exemplo. Arielle ainda tenta naturalizar o ópio como uma forma mais ampla no enredo, apontando para o tédio desses personagens e o subsequente apego à arte de modo geral. Não deixando de contar os monólogos existencialistas de Jean.

No final, Opium é um filme que deve muito ao relacionamento doloroso e apaixonado entre Jean Cocteau e Raymond Radiguet. Uma narrativa que busca o exagero sempre, mas com uma execução pífia.

(2 estrelas em 5)

17. A Caverna (Dirigido por Alfredo Montero. Elenco: Marta Castellote, Xoel Fernandez, Eva García-Vacas. Espanha, 2014)

Estabelecendo uma linha narrativa linear desde o começo, A Caverna é o exemplo de filme atual que não sabe decidir a maneira de filmagem: um mockumentary ou um found footage – que não são equivalentes, fique bem claro. Acompanhando um grupo de amigos que decidem fazer uma exploração numa caverna sem qualquer equipamento ou lógica para isso, o longa-metragem se aproxima da convenção de que, para as mudanças gradativas de cada um, nós precisaremos vê-los felizes, sorridentes, sem conflito e unilaterais até o momento derradeiro. Assim sendo, é risível o instante em que o diretor tira uma foto quando os amigos estão entrando na caverna, como se aquilo sinalizasse o último segundo de felicidade daquelas pessoas.

Da mesma forma, Alfredo Montero não convence em como instituir a câmera em primeira pessoa, chegando a passear no primeiro ato pelo acampamento com travellings desnecessários, apenas para indicar que jovens estão sumidos há dias. Além disso, ele procura produzir seus conflitos, sustos e terror com os próprios amigos influenciando o estilo, o que é uma boa ideia, mas sem a execução almejada. Ivan, por exemplo, mostra-se um sujeito troglodita a todo momento, e o maior ponto de virada do roteiro é justamente prejudicado por sugerir algo antinatural para o que foi produzido até então. Do mesmo modo, as tomadas na caverna são continuamente sem inspiração, não fazendo com que o espectador se sinta tenso ou sinta agonia por amigos tão mal construídos. Por sua vez, o uso da mocinha numa adrenalina vingativa no fim é um dos bons minutos da narrativa. Uma pena que Montero se sinta tão pressionado a chocar, para não tornar sua história mais maçante, algo que ressalta sua ineficiência nos dois últimos atos.

(2 estrelas em 5)

18. Winter Sleep (Dirigido por Nuri Bilge Ceylan. Elenco: Haluk Bilginer, Melisa Sozen, Demet Akbag. Turquia, 2014)

Há uma certa tensão em Winter Sleep, que é muito específica. Investindo em cenas longas, explorando cuidadosamente cada relacionamento e usando a metáfora como auxílio, não como guia, o diretor Nuri Bilge Ceylan é profundo e intenso na maneira como se dirige ao espectador com uma própria autocrítica, além de sustentar a reflexão econômica que pontua na trama. A premissa é basicamente simples: um ator aposentado é dono de um hotel em Anatólia e vive junto de sua esposa Nihai, a quem o tempo deixou cicatrizes dolorosas no relacionamento. Ambos vivem praticamente vidas separadas, ainda que estejam casados. Tudo muda quando uma pedra acerta a janela do carro de Aydin, porém. E é exatamente aí que a obra de Ceylan começa a trabalhar a metáfora da influencia social-econômica em uma cidade pequena da Turquia: a primeira cena do longa-metragem, nesta perspectiva, aproxima-nos de Aydin olhando pela janela para a cidade, sem realmente a vê-la; após isto, é exatamente a janela de seu carro que é atingida por uma pedra, lembrando-lhe que há outras pessoas ali.

Desta forma, aliás, o diretor explora diversos campos: a cultura do tapa, a brutalidade, o machismo e, claro, a divisão econômica. A casa de Ismail, por exemplo, situa-se quase num rochedo, onde, para não sentir frio, o cobertor é a única saída. É emblemática, portanto, a sequência de Ismail queimando a solução de seus problemas, tão-somente para não dar nenhum segundo de felicidade para uma pessoa rica se sentir bem consigo mesma. Igualmente, tratando como centro da narrativa essa linha – senhores e proletariado – e sendo bastante autocrítico no caminho (principalmente nas citações de orgulho e novelas), Ceylan sempre surge confiante e firme na condução, o que nos leva a intimidade das discussões e leituras de cartas, bem como o uso dos animais como retrato da classe pobre: a sequência com cavalos e a caça indicam bem isso, passando pela lama, luta e, desistência, após o encurralamento. Ainda que seu final não seja exatamente esperançoso, a flexibilidade e a abertura de uma janela por parte de Aydin podem significar muito naquele contexto.

(5 estrelas em 5)

19. Cássia (Dirigido por Paulo Henrique Fontanelle. Brasil, 2014)

Caso pegarmos para comparação Loke, Dossiê Jango e Cássia, eu acredito que não conseguiríamos definir quem é Paulo Henrique Fontanelle. Adaptando-se a cada resgate histórico que faz sobre seus protagonistas, o diretor transmite mudanças genuínas conforme a obra é tratada – no filme sobre o ex-presidente, por exemplo, as nossas dúvidas giravam sobre a morte de João Goulart, enquanto em Cássia somos envolvidos por uma figura que simplesmente não conhecíamos. Não desta forma, ao menos.

Fazendo um apanhado sobre toda a vida de Eller, numa linearidade maravilhosa, o diretor nos transporta às fotos de Cássia e Eugênia, a fim de nos deixar mais íntimos de uma mulher que divergia da vida para o palco, onde era seu verdadeiro lar. Repetindo a sua já conhecida montagem dinâmica, imprimindo elegância de uma transição para outra – como nas das fotos, a do cd acústico e, a minha favorita, de um show para uma foto de Cássia cantando (um simbolismo belo), Fontanelle é calmo ao trazer a vida dessa personagem para as telas, o que faz com que pareça estarmos realmente vendo uma carreira sendo construída em tempo real.

Desta forma, a comovente entrevista com Nando Reis fica para o final, bem como a do filho da cantora, que influencia muitas escolhas. O cineasta não tem medo de colocar o passado experimental da cantora, idem, onde muitos falam sobre envolvimentos com drogas, relacionamentos abertos e uma futura depressão começando a se instalar. Pelo contrário, Fontanelle gosta de evidenciar essas inúmeras facetas de Cássia, que nos aproximam de sua principal: o amor pela música. Assim sendo, o vínculo se torna mais forte a medida que vamos reconhecendo mais a genuinidade da cantora, bem como seus momentos polêmicos. Além disso, o diretor ainda arranja tempo para desarticular manchetes sensacionalistas sobre a morte de Cássia Eller, em sequências politicamente engajadas que soam excelentes.

Eu me lembro que existia uma cena antológica em Dossiê Jango, logo no começo, que apontava para as águas pertencentes ao famoso Rio Uruguai sendo observadas pela figura de Jango tomando chimarrão à beira do rio, o seu único confidente. Em Cássia, o microfone aponta certeiramente para a resposta: quem era aquela mulher!?

(5 estrelas em 5)

Comentários (1)

  • Pássaro Branco na Nevasca ganha debate no Ciclo de Cinema e Psicanálise | Clube do Cinema diz: 14 de maio de 2015

    […] crítica do filme pode ser lida completa no nosso especial da Mostra de SP no ano […]

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