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Dias 5 e 6 da Mostra de São Paulo

22 de outubro de 2014 0

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Em poucas palavras, o resultado em comentários e estrelas dos últimos dois dias de Mostra:

20. Pequenas Atrações (Dirigido por Aleksandra Gowin e Ireneusz Grzyb. Elenco: Helena Sujecka, Agnieszka Pawelkiewicz, Szymoh Czack. Polônia, 2014)

Há uma cena bem definidora no polonês Pequenas Atrações: uma mulher começa a dançar constrangedoramente no quarto de Peter. Fica dançando por vários minutos, como se não tivesse nada para fazer, a não ser ficar ali.

A história aponta para um triângulo amoroso formado por Kasia, Peter e Asia, que trabalham numa empresa de limpeza. A direção, no entanto, entende que para explicitar essa tensão, e para possuir a atenção desejada, seus personagens têm que disputar para ver quem chama mais a atenção (e a cena em que a mãe de Peter se cobre de curativos para telefonar para o filho apenas para ele ir vê-la reflete bem esse problema). Assim, a narrativa transforma-se numa grande e constrangedora novela, onde não conseguimos formar carinho por nennhuma daquelas pessoas.

Explorando a edição de som, além de inserções de fotos e músicas deslocadas, Pequenas Atrações é equivocado na maior parte do tempo, transformando uma história de amor em um exercício de paciência.

(2 estrelas em 5)

21. Profecia: A África de Passolini (Dirigido por Enrico Menduni e Gianni Borgna. Itália, 2013)

Para um documentário que explica continuamente que Pasolini foi um dos cineastas mais provocadores e vanguardistas de sua época, Profecia é ironicamente burocrático e ultrapassado. Explorando a época de Pasolini abordando o continente africano, a obra usa passagens em jornais, fotografias, imagens de arquivo e uma narração em off biográfica que dificulta a aproximação com o que é mostrado, bem como nasce quase como um trabalho acadêmico, onde a poesia é caricata e a fotografia em preto e branco dá sinais de cultismo tolo.

A própria forma como os realizadores tratam a África, sob esta ótica, mostra-se algo tirado dos anos 60: como se aquele continente de alguma forma ainda fosse um conceito, não um lugar habitado por seres humanos. A única passagem que oferece alguma profundeza à Profecia, assim sendo, é quando o documentário não procura ser pretensioso e apenas ouve Bertolucci falando sobre a primeira vez que conheceu Pasolini, na casa de seu pai.

Profecia: A África de Pasolini, por fim, é fruto de uma análise superficial e metalinguística que acha que aproveitar trechos de filmes conhecidos ou passagens cantadas favorecerá uma intimidade intelectualizada. Não funciona. E saímos sem compreender qual afinal era a arte de seu realizador.

(2 estrelas em 5)

22. Tudo Que Amamos Profundamente (Dirigido por Max Currie. Elenco: Brett Stewart, Sia Trokenheim e Ben Clarkson. Nova Zelândia, 2014)

Abordar o luto no cinema é um exercício que rende diversas dinâmicas familiares, geralmente com o afastamento entre o casal. Tudo que Amamos Profundamente, por sua vez, acredita que apenas as últimas consequências de uma perda poderia trazer um renascimento, um recomeço. Clint e Vanessa são pais que sofrem em diferentes perspectivas: ela não consegue encontrar algo que a faça querer viver sem seu filho, ele não consegue viver sem sua família e o afastamento de sua mulher só o faz alimentar sua angústia. Tommy é um equilíbrio para os dois, ainda que não saiba de seu exato papel na vida do que acredita ser seus pais. A ingenuidade do garoto, aliás, rende grandes momentos dramáticos, sem cair no melodrama: a sequência em que sai correndo do banheiro com medo de sua mãe o esquecer ali ou a tristeza de não poder brincar no playground são bons exemplos dessa sua aura juvenil – alguém que está alheio ao luto dos outros.

O diretor encontra uma sustentabilidade, neste caso, quando percebe que pode explorar a depressão da família como fio condutor: a maneira como a mulher lida com a presença de Tommy e cada etapa de envolvimento do casal. Note que os eletroeletrônicos sendo religados na casa representam exatamente esse recomeço para o casal, ao acharem que tudo dará certo, ou como a polícia surge depois de sua última briga, como se, finalmente, após desabafarem sobre o caso de seu filho real, eles pudessem deixar que aquilo tudo acabasse. É um adeus triste, claro, com duas mãos não querendo se separar, mas que revelam a eficiência de uma obra simples, mas madura.

(4 estrelas em 5)

23. Jack (Dirigido por Edward Berger. Elenco: Ivo Pietzcker, Georg Arms, Johann Fohl, Luise Heyer. Alemanha, 2014)

Alguns de nós crescemos muito rápido. Pode ocorrer por inúmeros fatores: abandono, perda de pais, a necessidade de cuidar de alguém próximo, etc. Jack é um garoto que procura pela presença de sua mãe (note, por exemplo, como o garoto interrompe a mãe no sexo porque quer “comer” alguma coisa). É ele que sustenta sua casa, sem grande ajuda. Cuida do irmão, prepara o banho, faz a comida; é o elo forte familiar, porém um garoto que necessita de atenção materna. E nunca a tem. Não à toa, o que o leva às medidas extremas de acertar o garoto que o humilha, com um bastão, é o binóculos que aquele joga no mar, fruto de um presente do pai de um amigo para este. Jack sabe a carência da figura do pai e o que as memórias representam. Ele está perseguindo isso ao mergulhar em busca do objeto. Está à procura de memórias, uma ligação. É também uma ligação, mas de sua mãe, que ocasiona o desespero que o leva a desabar, sem nunca abraçar a professora. Uma rima visual belíssima.

A partir daí, a busca se acentua. Está na hora de encontrar sua mãe. As metáforas, idem. Jack dorme num carro, enquanto tenta descobrir o paradeiro de Sanna, precisa de uma chave para entrar, assim por diante. Igualmente, Berger enquadra os dois irmãos sempre com camisetas justas/largas ou falando de seus pais como pessoas sábias, experientes. Procuram desculpas. Parece óbvio, para eles, que a ausência poderá ser explicada. Como odiar a família? Assim sendo, a pergunta: “Onde você está? Estamos te procurando”, torna-se extremamente poderosa.

(5 estrelas em 5)

24. A Pequena Morte (Dirigido por Josh Lawson. Elenco: Bojana Novakovic, Josh Lawson, Damon Herriman, Ben Lawson, Patrick Brammall, Lisa McCune, Lachy Hulme, T.J. Power, Stephanie May, Kate Mulvany, Tasneem Roc, Kate Box, Darren Gallagher, Erin James. Austrália, 2014)

Extraindo sensibilidade de sua loucura verossímil, A Pequena Morte é uma comédia pessimista sobre os pequenos prazeres da vida. Não apenas as discussões hilárias dos casais acerca de seus fetiches ou vontades contam com um timing brilhante (“Nossa, mas eu sempre chego em má hora”), como também, apresentando todos os personagens como pessoas genuínas e palpáveis, o filme investe na comovente fragilidade do lar – além de levantar inúmeras reflexões impressionantes para um filme tão leve.

Dividido em quatro casos conjugais que se cruzam ao decorrer da narrativa, o longa-metragem dirigido pelo estreante Josh Lawson é certeiro na leveza com que explora seus temas, assim, rendendo cenas impagáveis, como a reação de Paul ao saber que a fantasia de Maeve é ser estuprada por alguém – e há de se aplaudir que o tom de cinismo nunca seja retraído, ficando fácil rir de algo tão complicado como o tema proposto. Os diálogos em que Paul reflete que não sabe se seria um bom estuprador e o amigo fala que isso é uma coisa boa são surpreendentes, aliás. Da mesma forma, o caso de tesão por lágrimas que cerca a vida de Dan e Evie é excelente: perceba que o que mais é tocante é a forma como que Evie tenta fugir de sua fantasia por se achar doente, não a graça em tudo aquilo, bem como a revelação de que não goza desde o dia do casamento é algo incrivelmente honesto.

Lawson desenvolve parábolas sobre o cotidiano, a rotina do sexo e uma forma de lidar com nossos maiores fetishes. Mesmo quando ele embarca em caminhos perigosos, como o uso da esposa ao dormir, a obra não perde seu fio condutor em nenhum momento: o seu absurdo. As músicas, do mesmo modo, corroboram com o tom proposto e satirizam as situações. A cena da tentativa fabricada de um estupro na garagem e a reação do marido ao acordar no hospital, apenas querendo saber se atendeu aos pedidos da futura esposa é assustadoramente comovente. Como não notar o amor de ambos, ainda que seja tão estranho? O mesmo para a relação do homem que deseja se tornar ator e usa cenários na cama para suprir suas carências.

Mas talvez o mais interessante de todos eles seja o relacionamento entre Monica e Sam, que gira através da imagem e dos sinais. Num cenário em que apenas a imagem pode tornar a vida aceitável para um surdo-mudo, a forma como o diretor lida com o disque-sexo e o primeiro momento em que os dois se apaixonam é inesquecível. E mesmo que o momento seja para provocar o riso, note que até a vida da atendente do tele-sexo surge para nos comprovar como, na realidade, os problemas estão em todo o lugar.

A Pequena Morte não é um filme esperançoso, afinal; é pessimista. As mentiras começam a se adaptar, na sequência. E o único momento em que as nossas vidas poderão se cruzar é numa tragédia.

(5 estrelas em 5)

25. Motivação Zero (Dirigido por Talya Lavie. Elenco: Dana Ivgy, Nelly Tagar, Shani Klein. Israel, 2014)

Se o filme anterior que havia visto na Mostra, A Pequena Morte, conseguia retirar graça exatamente da maneira burlesca de suas situações, mas sem que perdesse sua sensibilidade no processo, o erro desse israelense, Motivação Zero, é tentar conquistar esse cinismo numa relação machista que cria em um quartel. Os motivos das risadas seriam a situação desfavorável vivida pelas soldadas israelenses, que serviriam apenas para lustrar botas, grampear folhas, jogar paciência no computador, servir como consolo para trogloditas e servir café. E é demasiadamente problemático quando a diretora não se dá conta de que seu filme está sendo bastante insensível ao criar uma série de gags desconfortáveis, nas quais, as mulheres, vítimas de um ambiente misógino, descontam uma nas outras suas insatisfações e frustrações.

Dividindo em três capítulos a sua narrativa – a substituta, a virgem e a comandante –, o longa-metragem flerta com uma inocência que reflete em seu desfavor, como quando enquadra uma soldada dormindo chupando o dedo ou Zorah, que acredita que só será feliz quando finalmente perder sua virgindade (e a forma com que a direção encara esse aspecto, em específico, é muito estúpida). Talya Lavie, ainda, filma suas personagens com closes em suas bundas, a fim de dar um olhar mais crítico, conflitando diretamente com sua intenção inicial, além de fundir suas três histórias de uma maneira tragicômica que não funciona. Entretanto, quando a diretora insinua uma profundidade maior no relacionamento de duas amigas extremamente opostas, mas que são donas de uma mesma infelicidade, o filme ensaia alguma mensagem; mas que acaba não ocorrendo, mais uma vez, pela ingenuidade de Lavie: o fim dos jogos na sala é uma cena absurda.

Mesmo com uma sequência excelente envolvendo a personagem Irena, Motivação Zero é um filme que sofre em arrancar risadas por tentar ironizar o machismo. Uma linha tênue que é cruzada geralmente para o pior lado.

(2 estrelas em 5)

26. Golpe por Golpe (Dirigido por Marin Karmitz. Elenco: Simone Aubin, Jacqueline Auzellaud, Elodie Avenel. França, 1972)

Dirigido por Marin Karmitz, Golpe por Golpe retrata o período de greve de tecelãs de uma fábrica localizada em Elbeuf, luta liderada pelas mulheres que trabalhavam no local, e que criou uma tensão sintomática pela falta de resolubilidade dos patrões. É exatamente na falta de controle, no alastramento e no aprisionamento literal do patrão, que reside a carga dramática do filme francês. Porém, é na falta de profundidade, na direção megalomaníaca de Karmitz e no tom quase documental que traz para a obra, que estão seus defeitos. É uma obra conflitante, portanto.

Criando um mundo em que o barulho das máquinas dominam a vida daquelas pessoas, é uma decisão sábia a de Karmitz a de colocar uma trabalhadora entrando numa loja de roupas e só o que consegue ouvir seja o som dos equipamentos que fabricaram, por exemplo. Assim, os ataques ansiosos são entendíveis no decorrer do longa-metragem e o que faz aquelas pessoas tomarem as atitudes que tomam. Igualmente, a parcela do sindicato em lidar com o problema, muitas vezes aderindo apenas as vontades dos empresários e insistindo no discurso de agitadores. Por outro lado, o filme de Karmitz suaviza demais o drama ao explorar o ritmo alegre com que as moças em greve cantam músicas de revolta ou nas poucas inspiradas cenas que citam as consequências da greve ao redor do país.

Não é um retrato digno para o que aquelas pessoas passaram, certamente.

(2 estrelas em 5)

27. Jamie Marks Está Morto (Dirigido por Carter Smith. Elenco: Cameron Monaghan, Noah Silver, Morgan Saylor, Liv Taylor, Judy Greer. EUA, 2014)

Existe uma história do escritor Neil Gaiman que mostra um menino que foge de casa, após testemunhar o cenário de um crime, e vai parar num cemitério. Conhece as pessoas que “moram” lá e começa a fazer parte da vida delas. É um retrato interessantíssimo para nosso contato com a morte e a forma com que lidamos com ela. O novo filme de Carter Smith (do competente As Ruínas) tenta seguir pelo mesmo caminho, mas, para isto, criando um relacionamento inusitado e precário entre dois jovens que se aproximam devido a um “assassinato”.

Começando o longa com um quadro aleatório de uma menina andando pelo rio até achar o corpo de Jamie morto, e passando pelas circunstâncias sociais que nos denunciam a probabilidade daquela morte estar inserida num contexto de bullying (e a cena em que um garoto é encurralado num banheiro é muito eficiente), Smith ainda deixa claro que a morte é tão sem importância naquela realidade que mesmo um animal pendurado numa cesta de basquete pode passar despercebido. O problema é o destino a lá “Restless” que o cineasta procura produzir em Jamie Marks, principalmente no relacionamento de Adam e Gracie, fruto do contato com a morte (e é nada sutil que o quarto da garota lembre uma cripta). Assim sendo, o roteiro acha que frases como “Camas parecem túmulos” e “Acho que ele só precisava ser amado” são de uma profundidade ímpar, bem como palavras aleatórias feitas para suprir um vício do fantasma sempre soam risíveis (“assassinato, mágoa, amor”). Como se não bastasse, o roteiro esquece da própria investigação quanto ao corpo de Jamie, que nos indica uma vítima de um estupro, mas muda completamente seu argumento conforme sente necessidade.

Não que o amor entre um fantasma e um humano, as adversidades que passariam juntos, não sejam tópicos interessantes, mas talvez na mão de outro diretor soariam melhores. É uma obra que carece da sensibilidade que acha que tem.

(1 estrela em 5)

28. A Despedida (Dirigido por Marcelo Galvão. Elenco: Nelson Xavier, Juliana Paes. Brasil, 2014)

É impossível acreditar que o mesmo diretor responsável por uma obra tão ineficaz quanto Colegas seja o mesmo cineasta maduro de A Despedida. Dando voz à angústia do velho Almirante, um senhor de idade que quer aproveitar os seus últimos momentos de felicidade, pois sabe que não durará muito mais tempo por aqui, Galvão já é eficiente ao enquadrar uma parede tomada por relógios, quando o personagem decide sair de casa, como se precisasse ser lembrado que a expiração de sua vida estava para chegar.

Cultivando essa tensão de que algo está para acontecer, o diretor sempre sublinha uma atmosfera opressiva e nos faz temer pelo seu personagem principal: seja numa travessia por uma rua movimentada, no empréstimo de um cartão de débito para uma desconhecida ou no reencontro de velhos amigos.

Mas para Almirante, o medo não existe. Não há nada a perder. “Não há depois”, como diz para o dono de uma cantina. Precisa experimentar seus últimos bons momentos. É nessa genuinidade, bastante palpável, que Galvão indica o sentimento jovem do protagonista, inclusive intercalando atores nos momentos mais indicativos: a primeira maconha ou o sexo. Entretanto, talvez seja na cena inicial que a direção seja ainda mais notável: todo o esforço de Almirante em se levantar, a comemoração de cada etapa vencida, a fralda limpa, até o manuseio do aparelho de audição; é uma das grandes cenas desta Mostra de SP. É o resultado de um trabalho poderoso de Nelson Xavier, idem, numa das melhores atuações da carreira. E, obviamente, um amadurecimento nítido de Galvão.

(5 estrelas em 5)

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