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Dias 7 e 8 de Mostra de São Paulo

25 de outubro de 2014 0

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Faltando alguns dias para terminar o evento, as prioridades acabam virando filmes de festivais e grandes apostas. Nos últimos dois dias, o filme mais curioso ao qual tive o prazer de assistir foi A Gangue, que se passa todo em linguagem de sinais. Logo depois, o novo do Vecchiali, um apanhado de segmentos sobre religiões, uma obra dos Pythons sem os Pythons e a estreia de Alceu Valença na direção. Foram dois dias interessantes e segue abaixo os comentários dos filmes vistos:

29. A Gangue (Dirigido por Myroslav Slaboshpytskiy. Elenco: Grigoriy Fesenko, Yana Novikova, Rosa Babiy, Alexander Dsiadevich. Ucrânia, 2014)

Com um premissa interessante por natureza, o ucraniano A Gangue é um filme eficiente em se manter na proposta que percorre e explorar o silêncio em sua natureza mais assustadora: a do crime.

O grupo que nos orienta pelo longa-metragem, afinal, é uma espécie de quadrilha de drugues modernos e tão violentos quanto os pensados por Anthony Burgess. Só que sem assovios ou cantaroladas em cenas de crimes. Apenas o ódio em sua mais bruta face. E é cultivando ao máximo este ambiente vil que o diretor Myroslav Slaboshpytskiy evidencia a chegada de Sergey, jovem surdo-mudo, num internato especializado.

Estabelecendo de imediato a liderança da rede da “tribo” e o primeiro contato de Sergey com Anna, o cineasta consegue aproveitar os sintomas de cada uma das ações dos personagens ao decorrer da narrativa, o que resulta num terceiro ato incrível. Principalmente, em duas cenas específicas: a primeira delas, o chocante aborto caseiro de uma personagem; noutra, a vingança final e acumulada de Sergey.

E não há como gritar por socorro.

(4 estrelas em 5)

30. Noites Brancas no Píer (Dirigido por Paul Vecchiali. Elenco: Astrid Adverbe, Pascal Cervo. França, 2014)

Já na primeira afirmação que o personagem do (fraquíssimo) Pascal Cervo faz em Noites Brancas no Píer é fácil o espectador captar que se trata de algo escrito por Dostoiévski; a autorregeneração, a autocrítica existencial, o que há de melhor na obra do russo está nesse tipo de conflito. É terrível, portanto, que, no filme francês, este tipo de sátira humanista e reflexiva, aqui representada na aproximação de duas pessoas frustradas, morra por uma direção sentimentalmente esquizofrênica.

Baseado no livro de Fiodor Dostoiévski, o roteiro gira em torno de Fiodor e a personagem de Adverbe, os quais se encontram uma noite, após ela ser abordada na rua e ser salva por aquele. A partir daí, os dois viram amigos e começam a contar suas respectivas histórias, criando sentimentos confusos um pelo outro.

Expondo uma mise-en-scene quase que completamente inspirada em uma peça teatral, onde os personagens vem e vão para conferir uma dose dramática excessiva para seus monólogos sobre vida, morte e relacionamentos, Vecchiali prefere os diálogos da obra ao invés de apreciar a estética envolvida. Assim, quando muito, o diretor insiste em números de dança que mais servem como uma intermissão do que qualquer outra coisa.

Limitado, ainda, pelos atores escolhidos, já que Pascal não consegue ser verossímil e Astrid é sabotada pelo companheiro, a essência dos sentimentos dos dois nunca fica claro na direção conferida por Vecchiali. E o próprio clímax, onde uma chamada atrapalha a felicidade de ambos, carece de sensibilidade; ou da frieza necessária, se esta fosse a intenção.

Deste modo, a aproximação de duas pessoas que necessitam um do outro acaba se transformando numa introspecção megalomaníaca sem imaginação.

(1 estrela em 5)

31. Falando Com Deuses (Dirigido por Guillermo Arriaga, Hector Babenco, Álex de la Iglesia, Bahman Ghobadi, Amos Gitai, Emir Kusturica, Mira Nair, Hideo Nakata, Warwick Thorton. México, 2014)

O problema dos filmes de segmentos é que, geralmente, a narrativa que liga as histórias não é bem estabelecida e ela dificulta encontrar uma razão aparente para a lógica do longa-metragem. A qualidade dos segmentos é o que acaba ditando a excelência ou não. No caso de Falando Com Deuses, que possui uma proposta muito interessante de unir num único trabalho de ficção diferentes visões religiosas ao redor do globo, a linha narrativa existe, mas é prejudicada pela mediocridade dos segmentos.

Deixando de lado o segmento acerca da espiritualidade aborígene e a divertidíssima do catolicismo, os diretores almejam um tom mais exagerado para os segmentos e que não deixa claro qual o envolvimento ou profundidade daquilo. Por mais que a de Hector Babenco seja discreta e coesa, por exemplo, a Ubanda não fica muito clara, ainda que exista o bonito plano mostrando o personagem de Chico Díaz, perdido na vida, entrando num lugar que parecia o esperar. Outros, por outro lado, apostam num lado mais tragicômico que não funciona, como o exemplo do islã (os siameses representando a dualidade) ou o breguíssimo sobre o ateísmo (que não é uma religião, fique claro).

Com cada diretor dando um apelo visual autorreferencial e com elementos que intercedem os segmentos, que mais parecem um exercício publicitário feito num Corel Draw, Falando Com Deuses é uma oportunidade perdida: por possuir um apanhado de ideias pobres, irrealistas e sem grande sensibilidade.

(2 estrelas em 5)

32. O Retorno a Ítaca (Dirigido por Laurent Cantet. Elenco: Isabel Santos, Jorge Perugorría, Fernando Hechevarria, Néstor Jiménez, Pedro Júlio Diaz Ferran. França, 2014)

É difícil não se sentir fisgado pela proposta narrativa do interessante Laurent Cantet, em O Retorno a Ítaca. Conferindo uma pessoalidade tão forte aos seus personagens que as discussões acaloradas parecem como aquelas em que sentimos amigos se exaltar em mesa de bar, os amigos dançam, divertem-se, refletem, criticam e amam – sem ordem pré-estabelecida. Claro que o cineasta sintetiza a evolução da conversa numa linha crescente, mostrando que da chegada de Amadeo em Havana até o sol nascer muito se desenvolve em dessabores e amarguras, mas sem que para isso deixe a sensibilidade de lado.

E é sempre muito bem humorada e inteligente, a forma como Cantet discute família, sociedade, casa e amizades. A própria inserção de Eddie, como o alívio cômico que tenta mudar os assuntos para evitar grandes conflitos, mas que também traz o seu, indica essa natureza. Sendo honesto com sua proposta, afinal, sem se interessar em grandes pontos de virada, a leveza do filme acaba influenciando ao seu favor, e faz com que nos importemos com o teor das conversas entre Amadeo, Eddie, Tanía, Rafa, Aldo.

Cantet é um diretor que extrai muito do pouco. E aqui prova mais uma vez este talento.

(4 estrelas em 5)

33. Detetive D: O Dragão do Mar (Dirigido por Hark Tsui. Elenco: Angelababy, Mark Chao, Kun Chen. China, 2013)

Possivelmente um dos piores filmes da Mostra desse ano, o longa de Hark Tsui é uma grotesca tentativa de épico alegórico chinês. Transitando entre um clima cômico insuportável, onde o diretor acha graça que uma cura seja uma urina ou que o mistério gire em torno de um chá, o filme se passa numa China em guerra. Dee Renjie, o protagonista, é o encarregado em terminar com esse “mistério”.

Contando com um design de produção que concentra seus esforços em recriar uma ambientação imperial extremamente colorida, Tsui, além de escancarar o CGI nas cenas do monstro atacando as embarcações, é ainda pior nas cenas de batalhas e auto-apresentações dos personagens – nunca podendo deixar de destacar os inúmeros closes e sobreposição de imagens que deixa tudo ainda mais brega. Além disso, o slow motion nunca encontra o timing e a ação precária também freia grandes intenções.

Chegando ao cúmulo de mostrar uma ferida em “raio x”, Detetive D é algo que tenta rir de si mesmo, mas o máximo que consegue é se apontar com vergonha e pesar.

(1 estrela em 5)

34. Branco Sai Preto Fica (Dirigido por Adirley Queirós. Elenco: Marquim do Tropa, Shockito, Dilmar Durães. Brasil, 2014)

Intercalando um sci-fi com documentário, Branco Sai Preto Fica é, na maior parte do tempo, um drama eficiente sobre homens não ouvidos em Brasília por ter uma cor da pele diferente. Assim, o discurso que inicia o longa-metragem, onde o personagem conta de uma ação brutal da polícia durante um baile, é bastante assustador por evidenciar essa realidade que muitos se atrevem a dizer que não existe.

“Não se envergonhe, volte ao seu núcleo habitacional” é fortíssimo, por exemplo, bem como a realidade futurística dominada por uma teocracia odiosa, ainda que não seja mostrada na tela. Igualmente, perceba como os negros sempre são enquadrados por Adirley cercado por grades, como se sentissem constantemente numa prisão. Da mesma forma, a música se torna o único instrumento que pode os tirar daquela situação, o que gera uma semântica cínica e interessante.

Por outro lado, o sci-fi presente no filme é bastante problemático: desde o “contêiner” servindo como apoio logístico e nave temporal até os desenhos finais que demonstram o clímax. Sem deixar de citar as cenas de forrós deslocadas, que só têm o propósito de despertar risadas. Não é um filme ruim, mas não é brilhante. É uma curiosidade previsível.

(3 estrelas em 5)

35. Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência (Dirigido por Roy Andersson. Elenco: Holger Andersson, Nisse Vestblom. Suécia, 2014)

Possivelmente, a melhor definição para Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência é que é um filme dos Pythons sem os Pythons. Porque, praticamente dividido em esquetes, o cinismo e o nonsense evidenciado pela narrativa de Roy Andersson trata seus temas sempre com uma suavidade hilária e despretensiosa, aproveitando a sua fina auto-ironia: observe, por exemplo, um dos personagens saindo assustado de um cabeleireiro, após vê-lo fazendo um monólogo para a câmera.

Da mesma forma, estabelecendo suas esquetes sempre em planos centrais, registrando todo o ambiente, como se aquelas pessoas fossem realmente observadas por algum pássaro, o cineasta é brilhante em estruturar a solidão e a melancolia irreverente que rege a vida daquelas pessoas: os dois vendedores ambulantes, que vendem “novidades”, assim sendo, não percebem que pararam no tempo e a própria lembrança de que estão ali para divertir pessoas, além de cômica, reflete um desejo de espelhar seus sentimentos em outras pessoas (na busca pelo que os faça rir também).

Igualmente, Andersson encaixa o seu raciocínio humano acerca da loucura da vida nas esquetes que mostram: um macaco sendo eletrocutado enquanto a cientista diz que fica feliz ao saber que outra pessoa está bem, pessoas entrando numa churrasqueira para o deleite da alta classe, os encontros com a morte (a cena em que um homem pede para ficar com o chopp no aeroporto é brilhante), entre outras. Ao mesmo tempo, as homenagens aos Pythons são bem visíveis em três instantes, além da própria interação monossilábica entre os atores: a primeira delas, a cavalaria chegando a um bar para o rei tomar água mineral e um homem é chicoteado é assumidamente inspirada na famosa “Inquisição Espanhola” da trupe liderada por Cleese; a segunda, os soldados cantando sobre como pagar a conta com beijos num ritmo de música gospel; e a terceira, onde uma mulher para a fim de literalmente retirar uma pedra de seu sapato.

Conscientizando-nos de seu fim, com o bar sempre mais próximo da porta, Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência é uma experiência agradabilíssima que nos faz lembrar da primeira vez em que vimos os Pythons. Com seu nonsense e suas ideias brilhantes. E que ideias.

(5 estrelas em 5)

36. A Luneta do Tempo (Dirigido por Alceu Valença. Elenco: Irandhir Santos, Hermila Guedes, Hélder Vasconcelos. Brasil, 2014)

Uma das coisas mais divertidas e notáveis do filme de estreia de Alceu Valença é a marca do cantor deixada a todo o momento na narrativa – transformando-se quase num enorme clipe musical criado pelo pernambucano com resquícios da história do cangaço. Misturando circo, western e cordel, o diretor até explora consideravelmente a liderança de Lampião (o maravilhoso Irandhir Santos) e o rastro que seu bando deixa no sertão de Pernambuco, mas é na assinatura que deixa na obra o que de melhor enxergamos. Ainda que o diretor afirme que não quis se inspirar em ninguém, o circo chegando à cidade não deixa não nos lembrarmos de Os Trapalhões no Auto da Compadecida, uma semelhança que se prolonga no decorrer.

Os números musicais imaginados por Valença são sempre inspirados, além disso, Irandhir parece ter nascido para interpretar monólogos e a maneira como o cordel é lidado é fascinante; porém, o amadorismo ainda é bem visível na estrutura dos fade in e out usados a todo instante para passar de uma cena para outra, bem como as mortes demasiadamente ensaiadas dos personagens. Nada que apague a contagiante forma de filmar de Valença, todavia, o que desperta uma curiosidade quanto a sua filmografia futura.

(3 estrelas em 5)

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