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Dias 9 e 10 da Mostra de São Paulo

27 de outubro de 2014 0

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Em poucas palavras, o resultado em comentários e estrelas dos últimos dois dias de Mostra:

37. Tristeza e Alegria (Dirigido por Nils Malmros. Elenco: Jakob Cedergren, Helle Fagralid, Ida Dwinger. Dinamarca, 2013)

Existe uma proposta bastante dura em Tristeza e Alegria: criar um paralelo entre um matricídio e o relacionamento familiar entre duas pessoas que estão tentando retomar a vida, após a fatalidade. Mas não é um recomeço qualquer ou uma aceitação comum: trata-se do perdão social e moral quanto ao abandono. Consequentemente, misturando a vida profissional e pessoal com uma eficiente coesao, o longa se torna bem mais assustador por se tratar uma experiência real de seu próprio diretor.

Na história, ao chegar em casa, um promissor diretor de cinema descobre que sua esposa assassinou sua filha de 9 meses. Johannes está convencido de que a depressão da mulher e uma perda abrupta de controle seriam responsáveis pelo ato, não algo planejado. Assim, nós embarcamos numa série de flashbacks em conversas entre Johannes e o psiquiatra da esposa para a compreensão da tragédia que assola a vida do casal.

Dividindo as etapas da vida dos dois basicamente no que o título indica – tristeza e alegria –, o diretor é hábil em permear a atmosfera com amostras da sensibilidade de Signe, que, após parar de tomar os remédios, torna-se uma outra pessoa, sintomaticamente. O ciúmes de uma estudante que começa a flertar com seu marido, por exemplo, bem como o seu apego a presença dele, ainda que esta não signifique nada, são indicadores da bela composição de Helle Fagralid. O triângulo amoroso, igualmente, é muito bem articulado, conferindo uma tensão constante: a cena em que Johannes passa o dedo pela boca de sua atriz é revelador.

Deixando de lado o seu maior choque, Tristeza e Alegria é um drama sobre abandono. De todos os tipos, mas principalmente familiar. E que, às vezes, os maiores culpados somos nós.

(4 estrelas em 5)

38. Aprendi a Jogar com Você (Dirigido por Murillo Salles. Brasil, 2014)

É muito possível que a linha narrativa seguida por Murillo Salles no seu documentário, Aprendi a Jogar com Você, que aborda a vida hiperativa do DJ Duda e sua mulher cantora Mika Reis, fora-se construindo ao decorrer do filme. Não só por não saber o destino de todas as pretensões empresariais de Duda ou mostrar a trambicagem do dia a dia nas ruas do país, sem nenhuma lição de moral (o que é ótimo), mas por sublinhar a complexa vida matrimonial, onde duas pessoas podem ter perspectivas completamente diferentes quanto ao futuro.

Nesta ótica, a mulher apenas quer um marido que a elogie, ame-a, além de trazer um dinheiro fixo para a casa, dando um exemplo aos filhos; ele, por outro lado, somente quer seguir no seu maior sonho: tornar-se rico. Um negócio que dê certo: tudo o que precisa. Duda, aliás, é uma figura brasileira marcante. Adaptando-se a tudo o que a vida lhe deixa pelo caminho, os sonhos de grandeza que possui, mas ao mesmo tempo sua frustração por não conseguir seus objetivos são muito genuínos. Além disso, as brigas no lar parecem ser muito honestas – as saídas de casa em silêncio e a maior discussão sobre o futuro sugerem um ligeiro ensaio, mas que soa coesa com o restante.

Terminando com uma sequência dúbia muito bem feita, Aprendi a Jogar com Você está longe de ser um filme brilhante, mas, apontando para uma figura típica de malandro, torna-se um documentário interessantíssimo.

(3 estrelas em 5)

39. Love Project (Dirigido por Carole Laure. Elenco: Magalie Lépine Blondeau, Céline Bonnier, Pascale Bussières. Canada, 2014)

Numa trama maniqueísta quase que imaginável, Love Project é um filme que decide liquidificar todas os clichês do gênero num filme só, originando algo incrivelmente mais brega que Rent. Afinal, nós temos: a familiar drogada, prostituta, sem chances na vida, a mulher que sofre para se aproximar do cara que ama, o homossexual sexualmente ativo que reprime uma carência, o pai doente, o filho abandonado, a mãe que teve filho muito cedo, pais que perderam um filho e sintetizam seu amor num desconhecido e, juro, até um funeral de cachorros chorando pela morte de seu companheiro mais novo.

Raciocinando que apenas músicas e danças bem produzidas dariam conta do recado, o roteiro nunca consegue seguir uma lógica, interligando seus personagens como se fossem bonecos na mão de uma criança de três anos. Mas talvez a história fosse mais inteligente, claro.

Criando, ao mesmo tempo, números musicais sofríveis e que não funcionam narrativamente, um dos momentos retrata os protagonistas correndo numa floresta em slow motion e pássaros vindo na direção da tela, Love Project manipula o máximo de sofrimento que poderia conceber numa só obra. Algo quase que admirável.

(1 estrela em 5)

40. Medo, O (Dirigido por Jordi Cadena. Elenco: Roser Camí, Alícia Falcó, Guillem Fernàndez-Valls, Ramon Madaula. Espanha, 2013)

Tenso e impactante, O Medo é uma obra sombria que deixa a violência à espreita a todo o momento, como se estivesse prestes a acontecer algo terrível. Desta forma, usando-a na figura opressiva do pai da família, Jordi Cadena conduz com habilidade os temores que assolam aquelas pessoas: e a própria cena inicial, em que o pai sai de casa e volta para buscar a chave, enquanto todos estão parados e amedrontados, é indispensável para compreender isso.

Sem ser apelativo, além do mais, escancarando as marcas presentes no corpo da esposa como algo do dia a dia, o que é assustador, o filme não acentua a sua tensão ao passar do tempo; pelo contrário, a angústia acaba sendo constante desde o primeiro minuto, o que faz com que abominamos a figura repulsiva do “homem da casa” rindo com os amigos num restaurante, ao passo que sua filha leva os ensinamentos de casa para o colégio. A menina, que é a melhor atriz do longa-metragem, diga-se de passagem. E a sequência em que tapa os olhos da boneca, antes do que está para acontecer, é devastadora.

Fazendo com que sintamos a figura do pai sempre presente na vida da família, O Medo é uma obra assustadora e fria sobre a submissão das vítimas perante aos opressores, por se tratarem de familiares ou parentes próximos. Às vezes, o perigo pode estar muito mais perto do que imaginamos.

(4 estrelas em 5)

41. Nabat (Dirigido por Elchin Musaoglu. Azerbaijão, 2014)

É uma tarefa árdua escrever sobre Nabat, já que, embora seja dono de um visual arrebatador, o filme nunca avança ou se propõe a expor mais profundamente a realidade que todas aquelas pessoas vivem. Preferindo metáforas ao invés de um diagnóstico um pouco mais simples, a obra de Musaoglu flerta com a contemplação nas suas inúmeras tomadas de gruas, bem como sugestiona muitas cenas importantes: o que dá certo, porém. Entretanto, mostrando-se complacente com a rotina da protagonista, o diretor é lento nas transformações e nos pontos de virada, algo que gera um certo incômodo e fica um pouco pior nas metáforas mais óbvias no terceiro ato (a maior, talvez, seja a da porta).

Na história, Nabat e Iskender estão vivendo afastados numa cidadezinha isolada. Ela cuida do marido, já que este não consegue mais levantar da cama para afazeres mínimos. Além de passar na cidade vez ou outra, a protagonista cuida das coisas na fazenda, como ordenhar a vaca, etc. Numa dessas ocasiões, todavia, Nabat acaba se deparando com uma pequena surpresa.

Aliando, ainda, a guerra como pano de fundo, e é um retrato impecável os olhos abertos de uma Nabat apreensiva na cama ao ouvir os sons de explosões lá fora, o diretor também oferece tensão ao enquadrar um lobo rondando a casa da personagem-título. Note, neste caso, como o animal sugere os principais temores de Nabat: ficar encurralada, sem saída de sua situação.

A comparação com Mungiu pode surgir, claro, por nos mergulhar nessa ambientação crua e inerte, além dos enquadramentos fantásticos, mas o azerbaijano não consegue sustentar a comparação na intensidade.

(3 estrelas em 5)

42. Jauja (Dirigido por Lisandro Alonso. Elenco: Viggo Mortensen, Diego Roman, Ghita Norby. Argentina/Dinamarca/França/EUA/México/Alemanha/Brasil/Holanda, 2014)

Jauja pode ser considerado um filme de cenários, onde, talvez, o maior deles é também o mais seco, algo que serve como um retrato para a carência de sensibilidade do filme.

Jurando que a trama de Viggo procurando por sua filha é o bastante para solidificar todas as intenções da obra, Alonso não consegue fornecer razões o suficientes para criarmos um vínculo com a trajetória de seus personagens à procura do tal paraíso prometido (jauja). É, portanto, uma pena que Lisandro Alonso insista em planos contemplativos e vazios, fazendo com que passamos sua narrativa acompanhando os personagens andando no deserto ou colecionando cenas deslocadas (como aquela em que alguém se masturba num rio).

Expondo o cachorro como uma espécie de guia numa jornada inerte, Jauja ainda nos conduz para uma sequência passada numa caverna demasiadamente fantástica, além de tentar ampliar sua profundidade na sequência final. Não funciona. E o filme do argentino acaba sendo algo tão insosso quanto a trajetória.

(2 estrelas em 5)

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