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Dias 11 e 12 da Mostra de São Paulo

29 de outubro de 2014 0

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Nos últimos dias de mostra, você finalmente começa a se familiarizar com os locais, acha que pode andar por toda a cidade (não pode!) e um gás novo aparece. Mas não dura muito. Até o segundo filme, talvez. Nesta terça-feira, eu assisti ao IMAX de Interestelar, do diretor Christopher Nolan, o qual não contabilizei na Mostra, claro, mas que já estou preparando crítica para divulgar em breve. Os filmes brasileiros, enquanto isso, seguem surpreendendo no festival. Abaixo, segue os filmes vistos nos últimos dois dias:

43. Noite Decisiva (Dirigido por Pirjo Honkasalo. Elenco: Johannes Brotherus, Jari Virman. Teijo Eloranta. Finlândia, 2013)

Pode-se dizer que Noite Decisiva é uma obra extremamente antipática sobre decisões, consequências e o certo/errado. Calcando-se numa fotografia preto e branco nada imaginativa, o filme tenta apresentar a realidade dura do adolescente Simo, de 14 anos, que se encora no irmão mais velho, Ikka, para construir uma visão desagradável sobre o mundo que vivem. É uma narrativa dolorosa, mas sem que para isso soe contundente.

A própria cena em que Simo observa duas pessoas transando com a imagem de uma santa ao fundo é bem enquadrada, nesta perspectiva, mas carece de sentimentos. Algo que conflita diretamente com o olhar penoso do ótimo Jari Virman ao final do filme, percebendo o que as suas influências significaram ao irmão.

Carregada de desilusão, Noite Decisiva é um longa que se desvincula do espectador ao decorrer da narrativa e se torna ainda mais frio que seus protagonistas, ficando difícil criar a empatia final.

(2 estrelas em 5)

44. Queen and Country (Dirigido por John Boorman. Elenco: Callum Turner, Caleb Landry Jones, Pat Shortt. Inglaterra, 2014)

O inglês Queen and Country foi o segundo filme ao qual assisti na Mostra de São Paulo deste ano, que, decidido a extrair graça da burocracia, falha na construção de seus intragáveis personagens, geralmente envolvendo falta de escrúpulos, ignorância e desestabilidade emocional.

Na história, concentrada pouco depois da II Guerra Mundial, acompanhamos o oficial Bill Rohan e seu amigo Percy, os quais, numa função vista como ingrata dentro do quartel, ensinam soldados a datilografar. Ao mesmo tempo, os dois começam a conspirar contra o Sargento Bradley, oficial linha dura que leva todas as regras à risca, além de se apaixonarem por mulheres inacessíveis.

Sendo rasteiro no ritmo que dá para a trama, o diretor John Boorman é confortável na maneira com que lida com todos os clichês de sua narrativa (a narração em off de Bill, a paixão à primeira vista, o tormento da mulher rica que não pode ficar com um simples soldado) e acha que citar filmes aleatoriamente cria um paralelo histórico interessante. Observe, neste caso, como os personagens sempre surgem falando sobre algum filme que acabara de estrear (Rashomon) com nenhum propósito. E mesmo a subtrama levemente inspirada em A Princesa e o Plebeu passada no mesmo ano de lançamento do filme é fraca em sua composição. Sem contar o tabu da virgindade que mais uma vez é tratado de forma asquerosa ou o presumível incesto mal explorado.

Queen and Country é uma obra que reflete o personagem de Percy, quando este forçava risadas, sugerindo que tudo o que falavam era hilário. Igualmente imatura, é a história da amizade de dois homens que zombam da disciplina se ancorando nela.

(1 estrela em 5)

45. Brincante (Dirigido por Walter Carvalho. Elenco: Antônio Nóbrega, Rosane Almeida. Brasil, 2014)

Num clima circense solitário e constrangedor, Brincante é uma grande bobagem pretensiosa e monotemática de Walter Carvalho. Abordando a vida de seu protagonista, Tonheta, com números musicais que apontam seu mundo de imaginação próprio e um baião quase místico, a estética de Carvalho, como o diretor de fotografia que é, mostra-se mais importante que seus monólogos. Assim, as divagações de Tonheta, embora o ator tal esteja muito bem, soam como palavras aleatórias jogadas na narrativa: e uma das cenas salienta esse aspecto ao indicar o personagem fazendo rimas com nomes. Mesmo que todo o mundo de Carvalho tenha um significado, o acompanhamento de uma vida (a infância, juventude, velhice e a posteridade), o conjunto não funciona na pretensão do diretor.

Buscando sons de violinos contantes, um ambiente colorido para retratar a realidade ímpar que vemos no mundo sonhador de Tonheta, Carvalho ainda brinca com vozes na cabeça do tal Brincante, quando este ouve uma voz lhe dizer para construir uma carroça e percorrer o mundo com tudo o que tiver ali. Noutro instante, idem, o diretor usa Tonheta com uma máscara de coruja para salientar a elevação de criatura assustada da noite para a maturidade. Mas uma maturidade que o filme nunca atinge. E mesmo sua ingenuidade forçada nas cenas do confronto com a morte, por exemplo, conflitam com a transformação proposta.

Brincante se torna uma fábula particular e nada acrescentadora. Algo que Guel Arraes faria com mais qualidade.

(1 estrela em 5)

46. Obra (Dirigido por Gregório Graziosi. Elenco: Irandhir Santos. Brasil, 2014)

Concentrando todas as suas atenções num homem atormentado pelos pecados do avô, Obra é um longa-metragem instável que simula uma sensibilidade apenas pelo comprometimento físico e narrativo do talentosíssimo Irandhir Santos. Ofuscando uma dramaturgia pobre, onde os personagens se acusam como se estivessem numa novela das 9 (“como você dorme durante a noite”), o filme de Graziosi apenas se sustenta na luta de João Carlos quanto ao seu corpo e consciência. E é interessantíssimo como os dois se interligam aos poucos na trama, como indica o começo da manhã do protagonista em três oportunidades: a primeira, após uma transa com duas mulheres; a segunda, acordando para um alongamento em casa, com o corpo já dolorido; a terceira, a demora angustiante ao colocar a roupa para o trabalho.

O paralelo entre vida profissional e pessoal, assim sendo, é suficientemente competente pelo drama vivido por um inspirado Irandhir Santos, em outra grande atuação. Avalie, igualmente, que podemos notar grandes problemas na família sem precisar adivinhar: o casal falando outra língua um com o outro ou a falta de respostas. Da mesma forma, o arquiteto fala em legado às vésperas do nascimento do filho como se levasse o mundo nas costas, uma simbologia bacana, mas que escorrega no ritmo proposto.

É um filme superficial, afinal, onde os prédios se sobrepondo a figura humana carrega um reflexo para a linha narrativa.

(3 estrelas em 5)

47. Casa Grande (Dirigido por Fellipe Barbosa. Elenco: Marcello Novaes, Suzana Pires, Thales Cavalcanti, Clarissa Pinheiro. Brasil, 2014)

É fascinante assistir a Casa Grande nos tempos de debate político que estamos vivendo. Habitando uma casa muito maior que o necessário, cultivando empregados para fazer coisas banais, como levar o filho na escola, e discutindo ideologias como se realmente se importassem, os pais de Casa Grande são figuras típicas de um cenário brasileiro elitizado que se vê preocupado pela queda financeira de suas ações. E é assim que, enquadrando uma empregada comendo noutro cômodo, enquanto o pai fala sobre a economia americana, o atual sistema de cotas e o plano real, o diretor começa a indicar ironicamente a figura do homem de família, interpretado excepcionalmente por Marcelo Novaes.

Nesta simplicidade, aliás, que ressoa tão fortemente um filme como Casa Grande – a rotina diária do colégio, o violão sendo tocado na turma, os clubes, para, aos poucos, a mudança de cenário: o primeiro ônibus, as brigas intensificadas e as expectativas quanto ao futuro. É interessante, assim sendo, como o próprio preconceito do filho, que se julga tão diferente, é analisado quando um negro senta ao seu lado no ônibus ou como pensa que uma estudante mora na Rocinha. Da mesma forma, a repetição das frases do pai, principalmente sobre economia, é reveladora. Ao mesmo tempo, Novaes sugere a famigerada “pessoa do bem”, que aos filhos comenta racionalmente que o preconceito é algo terrível, mas aos amigos julga cotistas e despreza o assistencialismo.

É curioso, do mesmo modo, as mudanças sucessivas na casa e o desespero do pai em fazer com que as crianças não percebam a real situação financeira da família (a justificativa da demissão de Severino por férias com a família, a casa se esvaziando), quando o mais próximo de Hollywood que estão é de um motel perto de casa. Eficiente, igualmente, a cena em que buscando emprego por skype, o pai veste apenas o blazer do terno, ficando de cuecas, comprovando a dissimulação que vive momentaneamente, assim como o orgulho em não deixar seu currículo girando no mercado.

Refletindo as mudanças sociais no filho, ainda que sejam irrisórias (principalmente quando a decisão de vender o casarão poderá gerar R$ 5 milhões), Casa Grande é um filme sobre expectativas e consequências. E que quanto maior a casa, mais vazia ela pode ser.

(4 estrelas em 5)

48. Sinfonia da Necrópole (Dirigido por Juliana Rojas. Elenco: Eduardo Gomes, Luciana Paes. Brasil, 2014)

Na mistura de ritmos proporcionado pela excelente Juliana Rojas, Sinfonia da Necrópole expõe uma aura de filmes como The Rocky Horror Picture Show, por almejar uma dubiedade no estranho. Aqui, a profissão de coveiro sendo retratada como um dos grandes sonhos sociais – já que, o fato de enterrar outras pessoas, sublinharia uma sensação de estabilidade existencial. Nesta perspectiva, Rojas acompanha o dia a dia de Deodato (a semelhança com Mojica Marins é notável), um rapaz que exibe uma falta de confiança como assistente de coveiro por justamente ainda possuir o medo da morte.

Mas é brincando com a natureza estranha de sua narrativa, um musical dentro de um cemitério, e contendo canções brilhantemente escritas por ela e seu parceiro Marco Dutra, que a diretora desafia o convencional ao enquadrar anjos lamentadores com aspectos tragicômicos (um fazendo um sinal de positivo, outro com despreocupação) e misturar ritmos brasileiros com seu humor macabro. O samba que inicia o longa-metragem, aliás, é digno da malandragem de Bezerra da Silva.

Do mesmo modo, as danças são sempre bem coreografadas, a miscigenação dos ritmos bem estruturada (variando os gêneros) e as subtramas são curiosíssimas – o senhor que quer morrer e procura um lugar no cemitério ou o padre comendo óstia, tomando água benta e fazendo palavras cruzadas no confessionário são figuras marcantes.

Sem esquecer do seu passado no terror, além do mais, Rojas salienta teias de aranha, pó e o silêncio obliterante no cemitério, rendendo uma das melhores sequências do longa-metragem, em seguida, quando Deodato é encurralado por uma série de mortos-vivos reivindicando seu lugar na terra (a referência a Romero é ótima).

Deixando um ar pessimista em seu final e julgando a falta de sensibilidade dos patrões em otimizar o cemitério de uma forma sutil, Sinfonia da Necrópole é outro excelente trabalho de Juliana Rojas, que aqui pondera sobre a existência e o sofrimento num musical finíssimo.

(4 estrelas em 5)

49. Duas Irmãs, uma Paixão (Dirigido por Dominik Graf. Elenco: Hannah Herzsprung, Henriette Confurius, Florian Stetter. Alemanha, 2014)

Girando em torno de um menáge à trois sparskiano, Duas Irmãs, uma Paixão apresenta uma pequena província alemã, onde uma disputa pela atenção de um poeta chamado Friedrich Schiller influencia diretamente o relacionamento amoroso entre duas irmãs – Lotte e Line.

Desenvolvendo diálogos risíveis, como aquele em que uma personagem diz que não acredita ter a coragem necessária para amar ou quando outro diz que é importante para uma história de amor existir obstáculos, o trabalho do diretor Domink Graf tenta emular a sensibilidade épica de Joe Wright, mas sem a certeza do que está fazendo. Assim, a montagem confusa (as letras indicativas da época são de uma estupidez ímpar, inclusive) e os seus constantes closes são constrangedores. O mesmo se pode dizer da trilha sonora onipresente com seus tons agudos no piano tentando transmitir algo melancólico.

Por sua vez, ainda mais hilário, são as cenas escolhidas por Graf para produzir o melodrama da história de amor do triângulo amoroso. Desta forma, o poeta indo em direção à água sem saber nadar para resgatar uma criança é sobotada não só pela falta de tensão, mas pelo uso de um cachorro ao tentar gerar graça da situação. Além disso, as mãos dadas das irmãs para aquecer o rapaz só não conseguem ser mais bregas do que a narração sem sentido algum ou Schiller entrando numa sala como professor apenas para ser aplaudido.

Assumindo-se como um dramalhão de quinta categoria ao decorrer da narrativa, Duas Irmãs, uma Paixão é um filme leve, imaturo e inadequado. E é surpreendente que não seja o nome de Glória Perez ao aparecer nos créditos finais.

(1 estrela em 5)

50. Jia Zhang-ke: Um Homem de Fenyang (Dirigido por Walter Salles. França, 2014)

O crítico francês Andre Bazin afirmou uma vez que estava na essência da captação e perpetuação da imagem a base existencial do cinema: a busca pela verdade. Não à toa, Walter Salles não interfere na conversa do diretor Jia Zhang-Ke com um conhecido na rua para tirar uma fotografia na melhor posição possível. É, afinal, um momento antológico, onde todo o entrevistado é retratado numa única sequência: um cineasta que improvisa em seus cenários, o prazer centrado no popular e a busca constante pelo melhor enquadramento.

Não só isso.

Salles também é brilhante ao destacar a personalidade de seu entrevistado através da sua linha narrativa, fazendo um paralelo genial entre as caminhadas pela China filmada por Jia Zhang-ke (inclusive, nos ambientes das filmagens) e um passeio pela filmografia do cineasta. Igualmente, o diretor arruma tempo para sublinhar o reconhecimento do chinês através da pirataria de seu filme, o que gera um paradoxo, bem como intercala trechos de filmes com as imagens presentes eficientemente.

Sempre inteligente na forma como lida com a figura fascinante de Jia Zhang-ke, o documentário acaba sustentando a afirmação feita pelo próprio diretor chinês: “o cinema é público, mas pode ser muito pessoal”. E como!

(5 estrelas em 5)

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