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Dias 13 e 14 da Mostra de São Paulo

01 de novembro de 2014 0

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Foram 14 dias de Mostra de São Paulo, onde 55 foram vistos e comentados por este correspondente que vos fala. Neste domingo, eu publicarei um vídeo com meu relatório final focado no evento e deixarei meu top 10 e meu bottom 10. Como foi a primeira experiência, o resultado pode não ter sido o esperado, mas certamente foi divertido e curioso.

Até breve,

Andrey.

Segue a lista dos últimos filmes aos quais assisti na 38ª Mostra de SP:

51. Um Brinde à Vida (Dirigido por Uwe Janson. Elenco: Hannelore Elsner, Max Riemelt. Alemanha, 2014)

O alemão Um Brinde à Vida sofre do mesmo mal que inúmeros filmes que se propõem a estabelecer uma tristeza carregada nas doenças enfrentadas pelos protagonistas e decidem sabotar sua própria estrutura para buscar uma mensagem esperançosa. Assim, ficando difícil se entregar para uma realidade depressiva, onde uma tentativa de suicídio ou o combate a esclerose múltipla são trocados por números musicais felizes e tolos para indicar o prazer de ainda estar vivo.

Girando em torno da história de duas pessoas díspares, Ruth e Jonas, mas que sofrem de uma tristeza constante, o filme acompanha a chegada de Jonas em Berlim, o qual encontra uma antiga cantora de cabaret, Ruth, que havia tentado contra sua própria vida. Os dois desenvolvem laços a medida que vão se conhecendo e tentam se ajudar mutuamente. 

Construindo esse drama pessoal com dramatizações excessivas e que não são bem executadas, bem como juntando lembranças em flashbacks deslocados e uma trilha efusiva, a direção de Janson até possui algumas cenas curiosas (como aquela em que uma cortina é fechada num momento decisivo, criando uma rima visual agradável), mas sem a contundência precisa. O rapaz interpretado por Riemelt é mais um adolescente mimado e marrento do que qualquer outra coisa, igualmente, o que afasta ainda mais de seus problemas.

Um Brinde à Vida é uma obra que tenta ser açucarada quando deveria ser amarga e vice-versa. É um longa-metragem que, por se render aos caprichos melodramáticos convencionais, frustra sua própria essência.

(2 estrelas em 5)

52. Cavalos e Homens (Dirigido por Benedikt Erlingsson. Elenco: Ingvar Eggert Sigurasson, Charlotte Boving, Helgi Bjornsson. Islândia/Alemanha, 2014)

A passagem mais reveladora de A Revolução dos Bichos, apesar de óbvia, é seu clímax, onde Orwell destaca que em algum momento não dava mais para saber quem era homem e quem era porco. O alemão Cavalos e Homens é igualmente claro quanto sua estrutura, embora não seja tão competente, ao abordar a comunhão de regras semelhantes entre homens e animais. Assim, o primeiro plano do diretor Erlingsson espelha a figura masculina no olhar marcante do cavalo, enquanto aquele tenta dominar o animal.

Da mesma forma, na pacata região que os habitantes moram, o uso do binóculos é comum para espionar o que os vizinhos estão fazendo. Numa sociedade ditada por regras, portanto, é interessante o enquadramento em que denuncia uma divisória tripla na janela, onde temos o campo vazio, o homem e o cavalo morto. Entretanto, as tentativas de gracejos do filme nunca soam eficientes, e o momento em que o morador busca vodka num navio com seu cavalo é incompatível com o restante, além da sequência do arame arrancar uma brutalidade cômica que não se encaixa.

Ainda que interligue suas subtramas sem grandes problemas, Cavalos e Homens é uma reflexão social instável, mas curiosa.

(3 estrelas em 5)

53. A Professora do Jardim de Infância (Dirigido por Navad Lapid. Elenco: Sarit Larry, Avi Shnaidman, Lior Raz. Israel/França, 2014)

Em determinado momento da sessão de A Professora do Jardim de Infância, eu constatei com surpresa o espanto do casal na fileira ao lado quando a personagem magistralmente interpretada por Sarit Larry sequestra a criança interpretada por Avi Shnaidman. Porque, embora seja mais sugestivo do que explícito, o roteiro indica continuamente do que a obra se trata: um fortíssimo amor platônico entre uma professora solitária e uma criança de cinco anos.

Acompanhando o ponto fora da curva que a vida de Nira dá quando lê um poema de Yoav e a atenção específica depositada no garoto, a direção já denuncia a vida sem graça de Nira até esse momento, onde vemos a figura do marido sentado no sofá assistindo a televisão, mas podendo ser qualquer um, já que não vemos sua forma definida. A própria realidade dos dois é interrompida pela presença frequente de Yoav, como quando ela interrompe o sexo para atender uma ligação da criança.

É curioso, igualmente, a ingenuidade nossa e da criança com os apelos de Nira no início – tanto que o desenvolvimento é tão natural que sugere que a atração dela possa ser inconsciente, como, por exemplo, após uma tentativa de sexo com o marido, ela decide dar banho em Yoav, bem como o seu massagear nos tornozelos do menino aponta uma sensualidade assustadora: note o olhar da professora tentando oferecer o mesmo prazer que ele dá a ela com seus poemas.

Bastante pessimista (“ser poeta nesse mundo é ir contra sua natureza”), Yoav ainda sente ciúmes da atenção dada de outras professoras para o garoto e oferece bombons escondidos (!) para roubar seu carinho e atenção. E, após um close nos lábios da atriz, é bastante revelador a afirmação final categórica: – diga para eles que não fiz nada.

Ficou nas entrelinhas.

(4 estrelas em 5)

54. Campo de Jogo (Dirigido por Eryk Rocha. Brasil, 2014)

Provavelmente o maior problema do documentário brasileiro Campo de Jogo é abordar uma única partida para procurar retratar uma análise contundente acerca da pobreza e suas ramificações. Focando num jogo de futebol disputado por Geração e Juventude, a obra de Rocha tenta se enriquecer da importância da disputa para aquelas pessoas, principalmente pela realidade que vivem, mas ela nunca parece ser mais séria que um simples jogo de futebol.

Mesmo quando a direção enquadra uma pessoa entrando no cenário para estabelecer um campo para a disputa, e a câmera salta da areia para os pés e as mãos sujas de tinta, ou a grama quase nula acentua a precaridade daquele lugar, o filme não sustenta a base que almeja. Até mesmo, porque Rocha insiste em nos inserir no campo de futebol quase em primeira pessoa, algo constantemente ineficaz nos filmes do gênero. Assim, as sequências passadas no jogo mais parecem algo saído de Gol do qualquer outra coisa.

Uma pena, pois o título parecia mais importante do que o filme deixa claro.

(3 estrelas em 5)

55. Círculo, O (Dirigido por Stefan Haupt. Elenco: Matthias Hungerbuhler, Sven Schelker, Anatole Taubman. Suiça, 2014)

Intercalando-se entre documentário e ficção, o suíço O Círculo é uma obra instável, mas doce, sobre sexualidade. Começando com um número musical que revela a natureza corajosa e quase poética daquelas pessoas (“se sou apenas um sonho ou se estou vivo”), Stefan Haupt utiliza a época literária e social como apoio para suas intenções, inclusive abordando os anos de Camus. Mas, muito mais que isso, o cineasta é suficientemente competente ao introduzir o tom documental, ainda que seja desajeitado no começo, por não indicar em nenhum momento esta natureza, e acerta na dramatização.

Desta forma, observe o apartamento de Ernst e como o personagem parece viver comprimido, como se não estivesse livre, para depois a aceitação de sua própria natureza. A cena extremamente tensa que se passa no colégio, após uma morte, nesta perspectiva, é bem explícita quanto a afirmação final do protagonista e a compreensão dos outros de que homossexuais também seres humanos (e perceba no tom de voz de Ernst que ainda há um medo na revelação).

Ao mesmo tempo, o relacionamento e química entre Hungerbuhler e Schelker são excepcionais e nos guiam pelo mundo do Círculo de maneira bem eficiente, jogando-nos ainda numa subtrama passada no submundo dos favores sexuais e do medo constante.

Sensível em sua concepção documental, O Círculo trata sobre seres humanos que são perseguidos por amar. Uma obra doce, porém urgente acerca de preconceitos absurdos e atuais.

(3 estrelas em 5)

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