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Lista: 10 filmes brasileiros em 5 anos

04 de maio de 2015 0

(por Andrey)tropa-de-elite-2-wagner-moura-secretário

Quando o debate recai em filmes nacionais, é seguro afirmar que alguém concluirá erroneamente: “ah, filme brasileiro é só favela, pobreza e futebol” ou “nada presta no cinema nacional” ou “não lembro qual foi a última vez que vi uma obra nacional que fosse realmente boa“. E é difícil condenar o espectador, quando os melhores longas que chegam ao circuito ficam restringidos às grandes mostras de cinema ou, numa escala maior, ao consumo ilegal (dvds piratas, downloads, etc).

Nesse ano, o brasileiro Casa Grande, um dos maravilhosos exemplares de nosso cinema e que apontam a grande variedade dele, não deu às caras em Santa Catarina. A Viagem de Yoani, tampouco. Foram forçados a dar espaço para a Globo Filmes. Numa primeira escala, a implicação que a ANCINE planeja conceder ao circuito é ótimo, pois restringiria as inúmeras salas destinadas a um filme e abraçaria outras obras menos comerciais. Porém, a prática é outra, quando olhamos o catálogo e é difícil encontrarmos brasileiros fora da Globo Filmes. A distribuição ainda não tem a mesma publicidade ou dinheiro investido, claro, e isso acaba sendo fácil de perceber.

O que fazer? No momento, a dica é se apegar aos cinemas alternativos da cidade. Em Florianópolis, nós temos o CIC (ainda precário) e o Paradigma. Cobremos deles. Nos multiplexes, a saída é escassa. Não temos conseguido nem o pouco: as estreias de Grande Hotel Budapeste e Boyhood foram uma vergonha. E estamos falando de filmes estrangeiros comerciais.

Em compensação, quando conseguimos saborear essas obras, ter o contato que procuramos, a recompensa pode ser ótima. E na variedade cultural de nosso cinema, que oferece estilos impressionantemente opostos (um país que produz histórias sobre um homossexual cego, um viciado em drogas, um estilo musical, um documentário sobre o brega, o palhaço que não conseguia ser feliz, um empreiteiro que carrega o mundo em suas costas, o rapaz que viaja ouvindo Roberto Carlos), as escolhas para uma lista como esta decai sobre o gosto pessoal.

Aqui estão os meus dez filmes favoritos dos últimos cinco anos:

10. Entre Nós

Caso exista algo que a vida nos ensina é que a maioria de nossos sonhos não irá se concretizar. E isso não é necessariamente algo ruim, se pensarmos que muitos dos nossos devaneios juvenis são, bem, juvenis. Desconhecemos o pessimismo dos dias que virão e ignoramos os obstáculos que são reflexos de nossas escolhas. Seus amigos do colegial dificilmente ganharão um Nobel, escreverão livros de sucesso ou serão referências em suas áreas. Dentro desse panorama, o diretor Paulo Morelli nos apresenta o retrato de uma juventude que se move por esse princípio: que pensa que, de alguma forma, somos especiais. E somos, obviamente. Cada um à sua maneira; contagiando alguém próximo com sua essência, autocompartilhando-se. Entre Nós é uma narrativa que constrói esse sentimento como raros filmes conseguem: quem seremos amanhã? Estaremos aqui? Seremos alguém nesse imenso mundo em que todos querem ser alguém? O que perderemos neste percurso? Quem perderemos?

9. Raul, O Início, O Fim e o Meio

Walter Carvalho, por meio de depoimentos interessantíssimos, apresenta as várias facetas de um dos maiores nomes da música brasileira, explorando também assuntos mais polêmicos e a transição de sua carreira. E se somos agraciados com uma verdadeira homenagem ao cantor (e a cena da mosca pousando em Paulo Coelho é inesquecível), igualmente vemos sua deterioração através dos anos – oferecendo, assim, uma parcela de melancolia que nunca deixou de estar presente nas músicas de Seixas.

8. Dossiê Jango

Existe um velho ditado que diz “estamos navegando em águas turbulentas”. Em Dossiê Jango, as águas pertencem ao famoso Rio Uruguai, que se situa na fronteira entre Brasil e Argentina. Os nossos olhos não são os únicos a observar a corrente, não; os outros pertencem ao presidente deposto João Goulart, que aproveita – a medida do possível, logicamente – momentos de calmaria no município de São Borja, onde nasceu. Ele acaba de ser derrubado da presidência por um complô envolvendo o próprio congresso nacional e os militares. Bebe seu chimarrão à beira do rio, o único que pode confiar no momento. Na tela? Um quadro branco com vários nomes de figuras implicadas numa possível conspiração. Assim inicia o documentário dirigido pelo talentoso Paulo Henrique Fontenelle, que pretende entrar de cabeça nas dúvidas provocadas pela morte de João Goulart e as pessoas que de alguma maneira poderiam desvendar essas questões. Obtendo como ponto de partida uma época em que o intervencionismo americano era quase irrestrito e as mortes eram constantemente abafadas, o diretor explora os depoimentos de historiadores, jornalistas, políticos, familiares para explicar o otimismo brasileiro sendo preterido por um pesadelo militar de extrema-direita e as sequelas que o período deixou na política nacional.

7. Trabalhar Cansa

Usa o terror de sua obra apenas para especificar o trauma de cada um de seus personagens, interessando-se muito mais em dar uma profundidade ao seus protagonistas do que ao aspecto sobrenatural de sua história. Torna-se no caminho, portanto, um falso drama, onde o horror é apenas uma ferramenta subjetiva.

6. Um Dia na Vida

Retrato impressionante sobre a programação da televisão brasileira, é praticamente uma despedida com classe do maior documentarista do Brasil. Durante a seleção de imagens e programas que invadem as telas de nossas TVs todos os dias, manhã/tarde/noite, não se ouve a voz de Eduardo Coutinho, mas a sua crítica: indireta, porém presente. A sua exibição é freada por infringir direitos autorais; sua vida na internet, contudo, é facilmente encontrada. O resultado é recompensador.

5. Cássia

Fazendo um apanhado sobre toda a vida de Cássia Eller, numa linearidade maravilhosa, o diretor nos transporta às fotos de Cássia e Eugênia, a fim de nos deixar mais íntimos de uma mulher que divergia da vida para o palco, onde era seu verdadeiro lar. Repetindo a sua já conhecida montagem dinâmica, imprimindo elegância de uma transição para outra – como nas das fotos, a do CD acústico e, a minha favorita, de um show para uma foto de Cássia cantando (um simbolismo belo), Fontanelle é calmo ao trazer a vida dessa personagem para as telas, o que faz com que pareça estarmos realmente vendo uma carreira sendo construída em tempo real.

4. Febre do Rato

Diferente de seus últimos filmes, a nudez e o sexo não são demonstrados de forma gratuita ou para chocar; muito pelo contrário. Cláudio Assis encontra em Zizo sua forma de criticar abertamente os valores sociais atuais e, com isso, realiza seu melhor filme.

3.  O Lobo Atrás da Porta

Há uma fábula gaimaniana que aponta a descrença dos familiares de uma pequena garotinha quando esta afirma ter ouvido lobos dentro das paredes. “Não, só podem ser camundongos”, diz o pai; “ratazanas imensas”, sugere o irmão; mas a menina e nós sabemos que na verdade os barulhos são o que indicam ser: lobos. Eu me lembrei deste conto infanto-juvenil quando assistia ao filme de Fernando CoimbraO Lobo Atrás da Porta. Não pela similaridade do nome ou pelo fato de ser uma história infantil (pois não o é), mas pela metáfora semelhante. O longa-metragem brasileiro não traz uma narrativa de difícil entendimento ou com um clímax final impensado, muito pelo contrário, ele trabalha uma trama simples desenhada desde o princípio de forma irrepreensível, combinando o que poucas vezes observei no cinema: uma reconstituição singela de uma investigação policial.

2. O Som ao Redor

É fácil enxergar O Som ao Redor como um retrato social pertinente e uma obra sensorial. Após um curta extremamente inteligente e ideológico sobre a cidade em que nasceu, em Recife Frio, Kleber Mendonça Filho já mostrava sua visão social dos costumes brasileiros e nossas piores neuras. Agora, é traçando o domínio da classe média alta aos mais pobres, no seu novo filme, que ele explora nossas constantes aflições com o que nos cerca e oprime seus personagens ao mais alto grau de loucura. Porque O Som ao Redor nos remete a nossos problemas como indivíduos em comprar mais do que precisamos, fugir do que não nos atinge e clamar por uma falsa tranquilidade momentânea. Para Mendonça, se não formos forte o bastante para ver o lado do mais fraco e pararmos de olhar apenas para nós mesmos, algum dia alguém chegará para cobrar essa dívida.

1. Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro

Importante registro histórico e fundamental para compreender o cinema nacional contemporâneo, José Padilha esquece a “sutileza” do primeiro filme e sua mensagem se torna pessimistamente evidente, quando sugere que o maior crime organizado está nas entranhas do poder.

Vale a menção: Tatuagem, Casa Grande, Quando Eu Era Vivo, Faroeste Caboclo, O Palhaço, Os Famosos e os Duendes da Morte, Mar Negro, Tropicália, A Despedida, A Viagem de Yoani.

Um abraço e até breve!

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