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Todos nós somos criminosos?

22 de junho de 2015 3

netflix

O entretenimento sempre existirá. Ele poderá se adequar ao que as pessoas querem ou necessitam dele, mas ele estará lá. E não nos aprofundemos em filosofias políticas, como os grandes coliseus do império romano ou esportes e lutas que se arrastaram e moveram multidões, encheram os cofres pessoais de milhares de pessoas na história. A arte de entreter é um processo em constante transposição – o que seja, literária, televisiva, educacional ou cinematográfica. O contato nos chega diariamente, nas discussões que você ouve entre amigos comentando Game of Thrones, a nova morte da ficção científica do momento, o filme do momento e, por deus, de onde saiu aquele ator ou aquela atriz e onde encontro outros trabalhos. A arte de entreter é uma cobiça maldita, pois o entretenimento é significativo, mas não é o bastante. Quando nos desvinculamos de uma série que fez parte de nossas vidas pelos últimos cinco anos, a tendência é ansiar por outra que nos faça companhia pelos próximos cinco; quem sabe, seis. “A arte entra em nós à força“, discorre Amanda Palmer, no seu livro, A Arte de Pedir.

E como viveríamos sem ela?

Em tempos em que o fantasma da inflação volta a assombrar, as pessoas povoam os fortes atacadistas estocando comidas e produtos para casa, sem correr o risco de acordar num amanhã imprevisível. Os cortes são feitos. Os gastos controlados. E, sim, manteremos o entretenimento. Não ficaremos sem a televisão a cabo. Se ficarmos, o Netflix é só R$ 17,90 ao mês. Dá para somar. O Spotify? Menos de trinta reais. É só economizar em outra coisa por 24 horas, vinte e quatro horas (!), dá para sobreviver, e aí conseguiremos ter o conforto de ouvir a música que queremos sem se preocupar com mais nada. Nem com comida!

Mas como consumir de forma legal, acessível e ilimitada, as formas de entretenimento que nos deparamos hoje em dia? Neste quesito, eu acredito piamente que a indústria fonográfica saiu na frente, nas experimentações e catálogos musicais que deram certo. Uma jogada que se popularizou em solo americano com a compra individual de músicas no ITunes, aprofundou-se no Spotify e, hoje, com a vasta opção do acervo do aplicativo, pelo valor cobrado, satisfaz efusivamente a maioria de seus clientes. O download, na música, tornou-se supérfluo. Afinal, quem iria se aventurar em sites de torrent, com riscos de vírus, muitas vezes, para baixar um disco, quando você pode ter acesso a uma infinidade deles sem se preocupar em estar cometendo uma infração? Não apenas isso, mas as vendas físicas em determinadas modalidades se tornaram algo lucrativo. Bandas como a Fresno encontraram nas suas lojas virtuais maneiras de vender o mesmo produto com diferencial: na compra de seus CDs, eles chegam até você autografados. Uma outra maneira de criar um vínculo com o artista.

Na literatura, os próprios kindles tentam amenizar os preços cada vez mais exorbitantes das grandes livrarias, oferecendo um catálogo mais compreensível e internacional. A Amazon, neste aspecto, saiu na frente.

Mas, e no cinema?

Dias desses, eu li uma colega afirmando que não queria assistir a um filme de comédia através de um download ilegal, uma vontade cada vez mais rara. Uma obra lançada há dois anos nos Estados Unidos, porém, sem data de previsão por aqui. O download, logicamente, não foi uma imposição, mas nos moldes atuais de como as coisas funcionam no Brasil se tornou um facilitador para o acesso ao longa-metragem. Num estudo publicado em 2014, o país aparecia entre os cinco maiores consumidores de produtos ilegais.

Ainda que a perspectiva do Netflix tenha se tornado um grande auxílio para combater a prática no Brasil, o acervo do site é muito mais limitado que o americano, por exemplo; por isto, não sendo o suficiente. Numa enquete que realizei com 50 pessoas que usam o serviço, 80% delas revelaram que assinam o programa por algum seriado: House of Cards, Demolidor, entre outros. E essa natureza parece estar bem clara em solo nacional, diante do acréscimo cada vez maior de séries e novas temporadas, sempre buscados pelo público, em detrimento de outros gêneros. No documentário, observe, o conteúdo do Netflix vem cada vez mais se restringindo a produtos de sua marca.

Se a plataforma ainda não oferece um serviço expansivo, como o Spotify, os recursos da televisão a cabo são bem mais problemáticos por embarcar numa rua sem saída: a popularização (forçada) da dublagem nos canais. O que antes começava com os Telecines Pipocas, mudou-se para basicamente mais da metade dos canais de assinatura. A legenda se tornou uma opção e boa parte dos cinéfilos migraram para a internet, em busca de novas ferramentas. Nos Estados Unidos e outros lugares da Europa, o uso de downloads comerciais já são uma realidade: VODs, ITunes e Netflix (além de outros streamings) já oferecem serviços condizentes com a expectativa do público. Os preços variam de acordo com cada título. Alguns deles, inclusive, servem como fonte para impulsionar cinemas mumblecores (independentes), algo ainda não visto no Brasil. As experiências do Netflix brasileiro foram com programas de algumas subcelebridades, como Rafinha Bastos e Felipe Neto, mas não conseguiram solidificar experimentos futuros com essas empreitadas.

Quando Scarry Eyes chegou ao Netflix no começo do ano, eu publiquei um texto celebrando a oportunidade que se estendia para um gênero tão pouco comercializado no Brasil: o terror. Ali estava uma opção maravilhosa: filmes independentes de terror, que o público pouco tem contato nos multiplexes, chegando ao mercado com pouco tempo de diferença de sua estreia mundial. Os títulos consequentes, Babadook, Honeymoon e outros, reforçam a minha tese de que nossas esperanças recaem sobre o site. Hoje, além de reviews, o Horror Show TV também é uma excelente plataforma para estímulo da produção em solo americano: com valores pequenos de assinatura, o site oferece todo o seu acervo. Não há nada no Brasil parecido com isso: de casos específicos de gênero. O máximo que nos deparamos é com a variedade de sites de downloads de terror alternativo, alimentados por fãs que apenas procuram espalhar a cultura, sem grandes formas de ganhar dinheiro com isso, tirando os sites gigantescos de uploads.

A opção no Brasil para se atualizar com o circuito ou adquirir contato com o clássico se tornou cada vez mais problemática, portanto. As locadoras sobreviventes mudaram consideravelmente os rumos do negócio: as de Florianópolis, ou as que ainda não fecharam, trabalham com o sistema de mensalidades; outras do sul do país começaram a proporcionar o aluguel/venda de pôsteres, games, livros e outros serviços, casos de locadoras como a E O Vídeo Levou. Os cinemas continuam tentando chamar um público novo ao cinema, porém, com preferência pelos filmes dublados, comerciais e sem qualquer alternativa. Com o preço mais salgado que a pipoca que vendem nas bomboniéres. Falei sobre os preços do cinema da Grande Florianópolis recentemente e a constatação do quanto pagamos pelo prazer de usufruir da projeção por cerca de duas horas é assombroso. Faixas que giram em torno de 20 até 40 reais. Os cinemas independentes ainda são precários, mas saídas viáveis. Não o bastante, todavia.

O que resta ao cinéfilo?

A pergunta pode ser feita para a mesma jovem que se impediu de assistir a uma comédia por download. Após não conseguir achar algo que a agradou na sua coleção, ela foi baixar uma série de comédia que nunca chegou ao país.

Comentários (3)

  • Renato Fonseca diz: 22 de junho de 2015

    Matéria bem interessante, mas chamar Rafinha Bastos e Felipe Neto de subcelebridades pegou bem mal, hein? Subcelebridade é o termo designado para Ex-BBBs, os dois caras já conquistaram muito mais coisas por aí.

  • Fábio F diz: 20 de outubro de 2015

    O texto é bom, mas a realidade do cinéfilo brazuca, nem tanto. Se eu morasse nos EUA estaria certamente afastado dos downloads ilegais, mas moro no Brasil. Como em geral, em matéria de cinema, fujo do convencional mais comercial, encontro por aqui poucas opções, e acabo apelando. Sou colecionador de filmes, gosto de encarte, embalagem, edições especiais. Podes ter certeza que eu preferia comprar boas edições dos filmes que me interessam do que baixar ilegalmente, ser obrigado a ficar catando legendas, muitas vezes traduções sofríveis, ajustando sincronia, e muitas vezes assistindo ao filme com imagem e som ruins. Mas não tenho opção. Só um exemplo, recentemente fiz um curso online sobre filmes noir, oferecido pela Ball State University. Dos mais de 120 filmes indicados pelo curso, aqui no Brasil consegui achar legalmente lançados, aproximadamente 20 (isso pq a Versátil recentemente distribuiu edições de coleções Noir lançando uns 12 em um intervalo de uns 3 meses, pq antes disso era ainda pior), sendo que lá fora estão todos lançados em boas edições, com imagem restaurada e som decente. Resultado? Tive que correr atrás de download ilegal, entrei em um grupo que faz troca troca de arquivos de filmes “off” e consegui achar uma boa parte… Infelizmente é assim…

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