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Blackface no cinema - Uma história de racismo

24 de junho de 2015 0

Nesta semana, um caso em Joinville ganhou repercussão nacional. A professora de uma escola particular da cidade, ao se fantasiar para uma festa junina, maquiou o rosto de preto, com a intenção de homenagear as bonecas de gesso negra conhecidas como “Namoradeiras de Minas Gerais”. As fotos da festa foram publicadas nas redes sociais e os movimentos negros da cidade questionaram a fantasia, levantando um grande debate sobre racismo.

Para muitas pessoas que desconheciam o termo blackface, a reação em torno do fato foi exagerada. Para situar a blackface na história, o Clube do Cinema dá sua contribuição com exemplos do cinema.

Quem começou?

No início da história do cinema, a blackface era usada para que atores brancos fizessem os personagens negros. A maquiagem escura era aplicada no rosto e em todas as partes da pele que ficassem visíveis. Às vezes, a boca era pintada de branco, fazendo com que os lábios ficassem exageradamente grandes.

Estas caracterizações já havia sido criada pelo menos meio século antes, em espetáculos de menestréis nos Estados Unidos, nos quais os comediantes se apresentavam caracterizados como personagens estereotipados de pessoas negras, sempre com o intuito de ridicularizá-las. Estes espetáculos eram sucesso principalmente entre imigrantes (como italianos e irlandeses), que também sofriam preconceito na América. Assistir à ridicularização dos negros era uma forma de fazer com que estas pessoas se sentissem “mais brancas” por ver outro grupo ser inferiorizado.

Um dos primeiros registros de uso da blackface no cinema é datado de 1903, no filme A Cabana do Pai Tomás (que seria transformada em novela brasileira, também com um ator branco no papel de negro) . Neste filme, todos os atores com papéis mais importantes eram feitos por brancos representando negros.

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Muito mais conhecido (principalmente por ser uma obra extremamente racista), o filme O Nascimento de uma Nação, em 1915, usou atores brancos com maquiagem preta para representar todos os personagens negros. Na história, que se passava após o fim da Guerra Civil nos Estados Unidos, os negros eram os vilões que tomavam o poder utilizando fraude e aprovavam “absurdos” como o casamento inter-racial. No fim, o mocinho é o homem que cria a Klu Klux Klan…

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Outro filme famoso que utilizou a blackface foi O Cantor de Jazz, de 1927, conhecido por ser o primeiro filme sonoro. Nele, o ator Al Jolson passa boa parte da história fantasiado de negro. Com uma história bem parecida, Diabinha de Saias, protagonizado por uma jovem Judy Garland em 1938, trazia a personagem principal fantasiada de negra para uma audição de jazz.

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Qual a semelhança entre esses casos?

Todos eles ou ridicularizavam a figura do negro ao criar personagens com sotaques esdrúxulos e comportamentos reprováveis — um dos estereótipos mais usados é conhecido como “Buck” e tratava-se de um personagem negro que era ameaçador e estava sempre “tarado” por mulheres brancas — ou serviam como forma de exclusão dos negros, já que não era permitida a eles o emprego no cinema. Quando havia negros “de verdade” em cena, eles eram figurantes atuando como empregados.

Por que só não pode falar dos negros?

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O termo blackface não está sozinho, assim como não estão sozinhos os negros entre os estereótipos ridicularizados. Os asiáticos, os árabes, os judeus, os hispânicos e os índios também foram (e, às vezes, em nome da comédia, ainda são) representados por atores de outras raças, por motivos às vezes incompreensíveis.

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Um dos mais famosos casos de yellowface é o do filme Bonequinha de Luxo. O ator Mickey Rooney assumiu o papel de Mr. Yunioshy, o vizinho japonês “abobalhado” da protagonista. Rooney era ruivo e sardento, nada tinha de semelhante a um asiático para viver este papel. Era como se, naquele momento (1961), não houvesse um mísero ator japonês para interpretar o personagem em todo os Estados Unidos. Além, é claro, de este ser um personagem extremamente ofensivo.

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E quando é ao contrário?

O filme As Branquelas, de 2004, trazia os irmãos Wayans como dois policiais afro-americanos que, para um caso, precisavam se passar por duas jovens loiras protegidas pelo Estado. O filme, que foi um grande sucesso, é um ninho de preconceitos. E sim, um deles é contra os brancos, principalmente contra as garotas brancas. A comédia de As Branquelas é feita por piadas machistas, homofóbicas e racistas contra brancos e negros — aliás, utiliza o esterótipo Buck citado acima no personagem de Terry Crews, um homem negro que não resiste às mulheres brancas e, de forma quase psicopata, persegue uma das “protagonistas branquelas”.

Quando vale Oscar?

Em 2008, a discussão sobre blackface aflorou nos Estados Unidos depois que Robert Downey Jr. a utilizou em Trovão Tropical… e concorreu ao Oscar de melhor ator coadjuvante por isso. No caso, a defesa do ator e de Ben Stiller (que protagonizava e dirigia o filme), é a de que a blackface de Trovão Tropical não ridicularizava os negros, mas os racistas. Explica-se: Downey Jr. interpretava um ator egocêntrico e idiota que, sem se saber racista, coloria a pele e assumia o papel de um general negro em um filme. Ao longo da história, a ignorância e o racismo velado do personagens é que faziam rir.

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Parece ser a lição famosa de Charlie Chaplin: não precisa deixar de fazer comédia, mas os melhores comediantes souberam (e tiveram coragem de) fazer humor com o opressor, não com o oprimido.

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