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O FAM e o diálogo com as novas gerações

24 de junho de 2015 0

O Festival Audiovisual Mercosul é dos poucos no país com uma programação de longas latinos que praticamente não circulam pelas salas comerciais, oportunidade rara, para não dizer única, de assistir filmes paraguaios, colombianos e bolivianos, e refletir sobre os rumos do audiovisual em nossa região, a integração do Brasil com os países vizinhos e, principalmente, a maneira como esses filmes dialogam com as novas gerações de público e também de realizadores.

A programação de longas latinos do FAM foi aberta na sexta-feira com o filme A História da Eternidade, de Camilo Cavalcanti. O filme foi o grande vencedor da última edição do Festival de Paulínea. Como cheguei ao FAM somente no sábado, não estive na abertura, mas tudo indica que é mais um exemplo da onda de produções mais inventivas do cinema brasileiro contemporâneo.

los hongos

O filme de sábado, Los Hongos, veio da Colômbia. Uma ficção que mistura imagens documentais, não atores e a cultura do grafite e do hip-hop. Um longa feito por jovens, com um olhar que pode refletir as semelhanças entre gerações unidas pela internet e suas insatisfações, independente da nacionalidade. O filme de Oscar Ruiz Navia e Cesar Augusto Acevedo traz personagens masculinos que buscam uma conexão entre a arte que fazem, o grafite, e a própria existência. E são as mulheres que tomam as decisões: as jovens que nunca dependem dos homens, mesmo na busca pela satisfação sexual e a avó, dona da sabedoria que falta aos demais. 

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O representante catarinense, exibido no domingo, é o último longa de Penna Filho, falecido há cerca de um mês. A sessão começou com uma homenagem ao diretor paulista, que fez seus últimos filmes em Santa Catarina. O longa foi filmado com o diretor já muito doente, mas a determinação para contar aquela história o fez descer até as minas de carvão, contrariando determinações médicas, conforme contaram os membros da equipe durante a homenagem.

Das Profundezas conta a história de operários das minas de carvão no sul do estado, entre os anos 60 e 80, que culminou na primeira greve daquela classe. O filme tem o estilo dos últimos longas de Penna: traz temas indiscutivelmente relevantes, mas a narrativa pouco dialoga com o público dos dias atuais. Esse diálogo não poderia faltar numa obra que pretende contar e eternizar um fato político e histórico, abafado pela mídia e equecido por parte dos que desejam que a história seja contada da maneira “oficial”. 

latas vacias

A segunda-feira teve um raro exemplo do cinema paraguaio, Latas Vacias, dirigido pelo jovem cineasta Herib Godoy. O filme de suspense, baseado em mitos da cultura Guarany, foi muito bem no termômetro dos aplausos. É louvável o que conseguiu fazer o diretor, num país em que não existe incentivo do Estado para produção audiovisual, filmando com amigos e com uma Canon semi profissional. Latas Vacias mostra a luta de um povo excluído e o diretor é inteligente ao se utilizar de uma linguagem de gênero. De certa maneira, moderniza a maneira de contar o mito. 

olvidados

Olvidados, filme boliviano de Carlos Bolado, foi exibido na terça-feira e teve cena aplaudida no meio da sessão. O cinema político latino americano tem um papel de militância e Bolado fez um filme hollywoodiano com intenso potencial para inflamar plateias. O filme conta o período inicial da Operação Condor, que uniu a repressão militar na Argentina, Bolivia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. Até agora foi o filme que mais dividiu opiniões, talvez por fugir do estilo dos demais, ser um filme mais “comercial”. Creio que esse fato deixa a mostra de longas mais rica. Olvidados poderia muito bem competir com os filmes que dominam as salas de cinema dos shoppings, com uma temática que diz respeito a nossa história, contada de uma forma que não se fecha na narrativa, pelo contrário, pretende chegar ao grande público, como se viu na sessão de ontem no auditório da UFSC.

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