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Confira os filmes que se destacaram no Florianópolis Audiovisual Mercosul 2015

27 de junho de 2015 0

Por Ivo Muller

O Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM) é dos poucos no Brasil com uma programação de longas latinos que praticamente não circulam pelas salas de cinema do país. Oportunidade rara, para não dizer única, de assistir a filmes paraguaios, colombianos e bolivianos e refletir sobre os rumos do audiovisual em nossa região, a integração do Brasil com os países vizinhos e, principalmente, a maneira como esses filmes dialogam com as novas gerações de público, e também de realizadores.

FAM anuncia vencedores da edição 2015

 3 longas

O destaque da mostra de longas latinos foi o filme A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante, já bastante premiado em festivais nacionais e internacionais. Apesar da mostra de longas não ser competitiva, o filme pernambucano foi o mais comentado da semana e se houvesse um prêmio do júri popular, certamente levaria.

Em segundo lugar o belo filme de Jorge Durán, Romance Policial, coprodução entre Brasil e Chile, filmado nas belas paisagens do Deserto do Atacama, com um bom roteiro e um ótimo jogo de atuações entre o brasileiro Daniel de Oliveira e os chilenos Álvaro Rudolphy e Daniela Ramirez.

Latas Vacías, filme do jovem diretor paraguaio Herib Godoy, é o terceiro destaque. Um exercício de resistência, levando em conta que o país não recebe estímulo do Estado para a produção cinematográfica, com um roteiro que inova um mito da cultura Guarany em forma de filme de suspense.

 Competitiva de Curtas

Nas mostra competitivas Curtas Catarinenses e Curtas Mercosul um filme barriga verde disputou com um do Ceará a maior parte das láureas. Dona Bilica – Naquele Tempo ganhou cinco prêmios: Melhor Filme Catarinense para o Júri Oficial e Popular, Melhor Documentário, Melhor Montagem (Marco Martins) e Melhor Diretor (Renato Turnes).

Documentário Dona Bilica - Naquele Tempo foi o grande vencedor do FAM.

Documentário Dona Bilica – Naquele Tempo foi o grande vencedor do FAM.

 O documentário sobre o processo de pesquisa para a composição da personagem Dona Bilica, da atriz Wanderleia Will, é uma pérola da produção cinematográfica catarinense recente. Ao misturar cinema e teatro, diretor e atriz em busca da personagem, Renato Turnes conseguiu retratar os descendentes da imigração açoriana de maneira complexa, humana, portanto universal, como pouco se viu até hoje.

 O filme cearense Joaquim Bralhador também ficou com quatro prêmios: Melhor Filme, Melhor Ficção, Melhor Roteiro (Márcio Câmara, também diretor) e Melhor Ator (Paulo José, não confundir com o homônimo e veterano ator).

 

O curta de ficção apresentou uma fábula sobre uma criança que vivia adoentada até descobrir que era metade homem, metade fera, e que “andava como cavalo”. Quando adulto aprende a bralhar, o passo mais macio e mais difícil de ser executado por um cavalo. É um filme narrado em terceira pessoa, com referências da literatura de Guimarães Rosa e João Cabral de Mello Neto.

Outro destaque foi o curta Feriado, de Alexander Siqueira. Com roteiro bem costurado e atores bem conduzidos e extremamente entrosados, o diretor mostrou que é um dos jovens talentos do novo cinema catarinense. O filme ganhou o prêmio de Direção de Arte (Michelly Hadassa).

Os diretores Cíntia Domit Bittar e Ricardo Weshenfelder também mostraram seus novos curtas. O Segredo da Família Urso, de Cíntia, era convidado do FAM, portanto não competiu, mas foi um dos filmes mais aplaudidos e comentados. Talvez Neve na Serra, de Weschenfelder, tem um ótimo roteiro, com destaque para a sequencia final, em que a atriz Margarida Baird se desloca até a praia, uma metáfora que presenteia o espectador com a liberdade para o exercício da imaginação.

Entre as animações, dois dos mais votados pelo Júri Popular: Guida, de Rosana Urbes foi considerada a melhor animação. Um sensível retrato de uma senhora de meia idade, embalado pela música de Ruben Feffer e Gustavo Kurlat, vencedores do prêmio de Melhor Trilha Sonora Original.

O filme Edifício Tatuapé Mahal, de Carolina Markowicz, tem um dos melhores roteiros do festival e critica o insano crescimento imobiliário da capital paulista nos últimos anos. A maneira original de fazer isso foi através de um narrador que é um boneco de maquete, desses que mostram como será o empreendimento. O boneco com o tempo se torna amorfo, como a cidade. O curta levou o prêmio do Canal Brasil, que além de um valor em dinheiro, dá a chance do filme concorrer a um prêmio nacional e garante a exibição no canal.

Os documentários mais votados pelo público foram Escute, de Manoela Meyer, e Capital da Fé, dirigido por Gabriel Santos e Renan Silbar. O primeiro começa colocando o espectador no lugar daqueles que não enxergam, vemos uma tela preta ou borrada, enquanto ouvimos a audiodescrição. Mesmo quando as imagens começam a aparecer, ouvimos tudo o que está no quadro, a descrição das pessoas entrevistadas, a cor do cabelo, a cor da pele.

É um curta importante, que discute nossos preconceitos e faz  muita gente conhecer como um deficiente visual percebe o cinema. Capital da Fé, Melhor Filme do Mercosul para o Júri Popular, talvez seja o que tem o tema mais atual: o crescimento das novas igrejas evangélicas e a maneira como pretendem dominar a mídia e o espaço político. O filme questiona como essas entidades religiosas podem ter tanto poder financeiro, e lembra que uma igreja é a empresa perfeita para lavagem de dinheiro.

O único filme que estava completamente fora de lugar era o documentário Arte Cor e Vida, que mais parece um vídeo para ilustrar uma exposição do artista e não uma obra de cinema sobre um artista.

Como um todo, a Mostra de Curtas do FAM 2015 mostrou um panorama de roteiros criativos e uma melhora na produção catarinense. Há que se apostar nos jovens realizadores que exercitam em seus primeiros trabalhos.

 

 

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