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Wes Craven (1939 - 2015), o gênio do terror

31 de agosto de 2015 1

Não há como dissociar nossa paixão pelo cinema do que sentimos por seus realizadores. Em cada um de nós, críticos, cinéfilos, amantes da sétima arte, carrega-se algum plano, diálogo ou ponto de virada que transcende a quarta parede de uma forma inimaginável.

Da peregrinação científica da arte para a emocional.

E o que gera mais emoção ou mexe mais com nossos corações e mentes do que os sustos? O instante em que a imagem pode ser tão impactante que o melhor a fazer seria não olhar; mas, como? Estamos agarrados nas nossas poltronas, seduzidos e fascinados pela criatividade e ousadia de alguém que usa da arte para criar um cenário que não nos permita nos refugiarmos em lugar algum.

Nem nos nossos sonhos.

Woody Allen descrevia seus filmes como microfones para seus anseios, neuras e pensamentos. Wes Craven o usava para outra coisa: expor seus tormentos. Não à toa, fundiu-se com sua maior franquia na obra-prima O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Kruger, ao metabolizar seus medos do personagem criado, as consequências do seu mundo de imaginação com a realidade que assombrava as pessoas mais próximas, como Heather.

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É de seu primeiro filme, de 72, igualmente, que observamos o extremismo da vingança, como tantos procuraram copiar mais tarde. Adepto da cacofonia sanguinária perpetuada pela Hammer Studios a partir da década de 60, o cinema de Craven teve seu primeiro impacto com o insano Aniversário Macabro. Um terror tão adverso que fez com que o americano chegasse em seu primeiro filme importante: Quadrilha de Sádicos. Com Verão do Medo e Benção Mortal, passou a entrar em terrenos ainda desconhecidos e sobrenaturais, algo que foi culminar na sua maior franquia cerca de cinco anos depois. Os falhos O Monstro do Pântano, Convite para o Inferno e a continuação de Quadrilha de Sádicos pouco anteciparam, contudo, a chegada do maior monstro que Craven criaria para o cinema, sua maior contribuição: Freddy Krueger.

“One, two, Freddy’s coming for you!
Three, four, better lock your door!
Five, six, grab your crucifix!
Seven, eight, better stay up late!
Nine, ten, you’ll never sleep again!

A motivação de Craven havia provindo de histórias verídicas que captaram sua atenção: em um país assolado pela guerra, crianças estavam morrendo dormindo, após se recusar a sonhar por medo. O diretor combinou o mistério do fato com uma velha figura que o assombrou quando era criança: um homem que o olhava da rua para a janela do seu quarto. Wes não dormiu aquela noite e fez com que milhões de pessoas, décadas mais tarde, também não dormissem.

Até o americano usar os sonhos como gancho para o terror, os filmes se mantinham na porta do cinema, não ultrapassavam a linha imaginária da tela e vida real. Wes Craven trouxe nossos maiores medos para a nossa cama, no conforto do lar, num lugar que achávamos inabalável. Vivendo ou não em Elm Street, os espectadores achavam difícil dormir a noite.

Durante longos anos, a franquia se sustentou, ainda que sem a mesma excelência do original ou a do excepcional terceiro filme, também escrito por Craven; mas atingiu outro nível quando seu diretor entregou sua primeira grande aventura na metalinguagem, no sétimo filme. Uma metalinguagem tão irresistível que fez com que voltasse a explorá-la na sua última franquia: Pânico.

Novamente, em 1996, Wes Craven iria até onde ninguém havia chegado no horror com tanta excelência, satirizando o slasher e, ao mesmo tempo, ressuscitando o subgênero com uma sobrevida que traria tantos outros filmes influenciados, como Lenda Urbana Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado. Sidney era uma protagonista como Nancy: esperta, pontualmente cínica e contrária aos clichês pré-estabelecidos. Um filme em que a atriz mais famosa morria na cena inicial, onde a faca transformava os assassinatos em algo mais pessoal do que estávamos acostumados a ver na época e em que as referências ao gênero eram sempre geniais. Desde os monólogos de Randy no original, passando pela conversa na classe da sequência até as improvisações do terceiro longa-metragem.

Também foi proveniente de um estranho filme de Wes Craven, chamado Música do Coração, uma das indicações de Meryl Streep ao Oscar. Terreno talvez tão curioso quanto foi o seu trabalho em Voo Noturno, ainda que este tenha sido um acerto e tanto. E mesmo que Wes tivesse momentos inoportunos, como A Sétima Alma e Amaldiçoados, a essência de sua atmosfera estava lá. Sempre. Coberta por cinismos, irreverências, espiritualidade, terror. Um diretor que cobriu grande parte dos subgêneros (e como esquecer do ótimo A Maldição dos Mortos-Vivos?); alguns ajudou a popularizar.

Acabou sua carreira como deveria, proporcionando-nos uma última obra-prima: Pânico 4. Ali, auto satirizando-se, bem como toda a indústria de remakes.

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Wes Craven foi um cineasta que se reinventou durante toda a carreira. Quando algo não dava certo, ele trazia algo superior. Quando uma narrativa não saía totalmente como queria, ele encontrava novas formas de experimentar. De entrar em nossas imaginações e medos.

Não são só Woodsboro e Elm Street que amanhecem silenciosas e sem seu principal criador. O terror surge neste último dia de agosto com um vazio ensurdecedor. É Wes Craven nos assustando pela última vez: agora, com sua ausência.

Comentários (1)

  • João Helder diz: 31 de agosto de 2015

    Maravilhoso texto!!
    Um resumo brilhante da carreira desse gênio.

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