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[Crítica] Que Horas Ela Volta?

10 de setembro de 2015 0

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Idem, Brasil, 2015. Direção: Anna Muylaert. Roteiro: Anna Muylaert. Elenco: Regina Casé, Helena Albergaria, Michel Joelsas, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Camila Márdila. Duração: 112 min.

Poucas personagens brasileiras são tão típicas como a Val de Regina Casé. A dona de casa que faz a comida, cuida dos afazeres, cria o filho, fala como o povo e o único reflexo que vê num ônibus lotado é a estampa de Neymar reluzente numa propaganda como um sonho brasileiro distante. No universo cinematográfico de Anna Muylaert, ela é basicamente a linha tênue da separação de gerações brasileiras. Talvez, no momento mais propício, para ela dar as caras.

É em Val que observamos a segurança do lar, no início de Que Horas Ela Volta?, ao apenas avaliarmos sua silhueta de costas, como a guardiã daquelas pessoas e daquele lugar; o qual ironicamente não pertence. E ainda que as mesmas cores azuis da piscina também sejam vistas no que Val veste no dia a dia, a separação de cômodos não deixa de indicar o contraste entre classes sociais. (Aliás, um parênteses pode ser aberto para discorrer sobre essa diferença no figurino: ao passo que a vestimenta de Val pode significar para ela uma proximidade com a família; para os patrões, pelo que se entende principalmente por parte de Bárbara, ela é apenas mais um objeto da casa. Para ser usado, conforme a necessidade.)

Não à toa, o espectador recebe inúmeros impactos no decorrer da obra, que são construídos com excelência pela diretora, como se deixasse uma trilha de ações/consequências para irmos descobrindo as resoluções pretendidas. Até a chegada de Jéssica, Val segue invisível na rotina da casa: ela é a mão que afaga os cabelos do filho da patroa, mas sem mostrar o seu rosto (como tantas outras); igualmente, é a que serve convidados sem receber qualquer troca de olhar ou simpatia. Assim, o choque da chegada do desconhecido, na figura da filha, fortalece-se neste início, mostrando brilhantemente o conflito entre gerações e a assustada Val, que pensa que tudo está passando dos limites. A tensão que Anna Muylaert passa a gerar é proposital, a partir da inserção de Jéssica na intimidade da família, além do pesado relacionamento com o pai artista, que vê nela uma novidade que o inspira e que lhe desperta a atenção.

Desta forma, o conflito acaba sendo os subúrbios e os quartinhos de encontro aos prédios majestosos e desproporcionais de São Paulo. Como O Som ao Redor, as grades se tornam um símbolo para outro problema: a de se sentir prisioneira numa realidade que não aguenta mais viver. Mas, aos poucos, e felizmente, as novas gerações atraem ideias, culturas e abordagens diferentes. Por isso, a alegria estampada no rosto de Val ao andar pela piscina pela primeira vez celebra um fim – a linha tênue finalmente foi rompida.

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