Coisa de Gordo - 453
Antes que os cariocas e paulistas estranhem, lembro que o “negrinho” aí do título é aquilo a que você chama de “brigadeiro”, o docinho de festa de criança. Já escrevi nos tempos do site ou mesmo do blog anterior que em relação a festas de aniversário, tenho visto muitas variações, muitas invenções, mas nenhuma que bata em sabor e categoria um trio que denomino “a santíssima trindade”.
Nada de pai, nem filho e nem espírito santo. Para mim, festa de aniversário doméstica, ou infantil, ou juvenil tem que ter PASTELZINHO FRITO, BRANQUINHO e NEGRINHO.
Por óbvio, sendo eu um degustador nato, sempre aprecio as novidades, os lançamentos, mas até o presente momento nunca me converti a outras correntes.
Numa época vieram os tais docinhos caramelados! Mas que droga! Os tais docinhos eram até que bem bonitinhos, reluziam ao flash das máquinas fotográficas, brilhavam por entre os copos de Fanta Uva. Mas quando a gente provava…tinha aquela carapaça endurecida de açúcar, que maculava completamente o conteúdo do docinho propriamente dito. Provei uma vez, duas, passei a reclamar. O que me incomodava ainda mais é que os tais doces caramelados eram mais caros que os convencionais. Após intensos embates filosóficos em torno do tema, eu sempre lançava mão do argumento derradeiro, aquele que por vezes encerrava a discussão: - a opinião pública. Obtemperava eu que do meio da festinha para o fim, bastava se observassem as bandejas de docinhos. Nelas não havia mais nenhum negrinho ou branquinho, e no entanto sobravam os tais caramelados. Ou seja, o povo também não gostava. Ah, mas são tão bonitinhos…. - diziam as nossas mulheres que eram quem os encomendavam. Pois é, caímos naquele obtusa lógica feminina que alega que se vai numa festa com o pé doendo o tempo todo, incluindo dança, janta e bebedeira, bastando para isso que o sapato apertado seja “deslumbrante!!”
Portanto, os tais caramelados não eram lá grande coisa em termos de sabor, mas elas os compravam em nome da estética da mesa. Mesa que após decorada cuidadosamente por seis horas, seria destroçada em seis minutos pelos coleguinhas endiabrados do seu filho. E que ao comerem os tais caramelados, cuspiam alguns nos cantos do salão, ou devolviam ali mesmo, babados, sobre a outrora lindíssima mesa. Aí mesmo é que ficavam reluzentes. Deu nojo , né? Então por que encomendar isso?
Senhor, senhor, tende piedade de nós.
Houve um tempo em que os docinhos tinham caras de pessoas, de bichinhos. Tinha um que era a cada duma mucama, uma negra com sorriso aberto e um lenço xadrez na cabeça, para dizer que ela era da cozinha. Para dar tanta identificação àquele pedaço de caloria engordante, as confeiteiras tinham que usar uns corantes misteriosos para fazerem lábios, olhos e nariz. E para completar a função botavam um pedacinho de pano na cabecinha da crioula, para dar o toque final. Não venham me taxar de racista, racista é quem inventou este docinho, com esse estereótipo da mulher negra. Aí a gente ia comer (o docinho, não a mulher) e se deparava com corantes, panos e tudo o mais. E aí a gente se queixava para a nossa “negra” (a mulher, não o docinho) e ela dava de ombros alegando: - Mas fica tão bonitinho…..
Senhor, escutai a nossa prece.
No setor de salgados, fecho a equipe com o citado Pastelzinho Frito. Simples, saboroso, fácil de encomendar, fácil de fazer, acompanhado de uma Coca-light ou uma cerveja bem gelada, leva ao delírio todos que dele provarem. O melhor ainda é o dia seguinte. O povo todo se foi, você ficou até a uma da manhã recompondo a sua casa, tirando copo de refri de cima do computador, removendo cera de vela da sua TV de LCD, catando forminhas pisoteadas no gramado do vizinho. Tomou aquele banho e adormeceu. Na manhã seguinte, ao abrir os olhos, um agradável desjejum o aguarda. Sim, você “inconscientemente” escondeu um prato de Pasteizinhos Fritos atrás dos livros da estante, e agora pode abrir o dia com todas as honras. Delícia, delícia.
Como citei antes, nada contra as variações. O que se questiona é a proporção nas encomendas. Sugiro assim. Para cada cento de Pastel Frito, uns vinte Risólis de Fungi. Para cada cento de Negrinho, uns dez Olhos de Sogra. E para cada cento do Branquinho, uns dois caramelados ou umas duas “mucamas” essas do paninho na cabeça. Aí a festa vai dar boa! O que eu temo é quando a mediocridade sobrepuja os clássicos da santíssima trindade, relegando-os a um papel secundário. Inadmissível! Pecado Mortal!
Quer me ver satisfeito numa festinha? Negrinho em profusão, Branquinho à vontade, Pastelzinho a valer. Aí você me diz:
- Silvano, onde está aquele pratinho cheio que estava por aqui?
E eu devolvo:
- Ele está no meio de nós.
Silvano - o impossível, herege e sacrílego
Crédito das fotos: Silvano Marques







