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Arquivos de 8 de novembro de 2009

Coisa de Gordo - 453

453 - NEGRINHO BÁSICO

Antes que os cariocas e paulistas estranhem, lembro que o “negrinho” aí do título é aquilo a que você chama de “brigadeiro”, o docinho de festa de criança. Já escrevi nos tempos do site ou mesmo do blog anterior que em relação a festas de aniversário, tenho visto muitas variações, muitas invenções, mas nenhuma que bata em sabor e categoria um trio que denomino “a santíssima trindade”.

Nada de pai, nem filho e nem espírito santo. Para mim, festa de aniversário doméstica, ou infantil, ou juvenil tem que ter PASTELZINHO FRITO, BRANQUINHO e NEGRINHO.

Por óbvio, sendo eu um degustador nato, sempre aprecio as novidades, os lançamentos, mas até o presente momento nunca me converti a outras correntes.

Numa época vieram os tais docinhos caramelados! Mas que droga! Os tais docinhos eram até que bem bonitinhos, reluziam ao flash das máquinas fotográficas, brilhavam por entre os copos de Fanta Uva. Mas quando a gente provava…tinha aquela carapaça endurecida de açúcar, que maculava completamente o conteúdo do docinho propriamente dito. Provei uma vez, duas, passei a reclamar. O que me incomodava ainda mais é que os tais doces caramelados eram mais caros que os convencionais. Após intensos embates filosóficos em torno do tema, eu sempre lançava mão do argumento derradeiro, aquele que por vezes encerrava a discussão: - a opinião pública. Obtemperava eu que do meio da festinha para o fim, bastava se observassem as bandejas de docinhos. Nelas não havia mais nenhum negrinho ou branquinho, e no entanto sobravam os tais caramelados. Ou seja, o povo também não gostava. Ah, mas são tão bonitinhos…. - diziam as nossas mulheres que eram quem os encomendavam. Pois é, caímos naquele obtusa lógica feminina que alega que se vai numa festa com o pé doendo o tempo todo, incluindo dança, janta e bebedeira, bastando para isso que o sapato apertado seja “deslumbrante!!”

Portanto, os tais caramelados não eram lá grande coisa em termos de sabor, mas elas os compravam em nome da estética da mesa. Mesa que após decorada cuidadosamente por seis horas, seria destroçada em seis minutos pelos coleguinhas endiabrados do seu filho. E que ao comerem os tais caramelados, cuspiam alguns nos cantos do salão, ou devolviam ali mesmo, babados, sobre a outrora lindíssima mesa. Aí mesmo é que ficavam reluzentes. Deu nojo , né? Então por que encomendar isso?

Senhor, senhor, tende piedade de nós.

Houve um tempo em que os docinhos tinham caras de pessoas, de bichinhos. Tinha um que era a cada duma mucama, uma negra com sorriso aberto e um lenço xadrez na cabeça, para dizer que ela era da cozinha. Para dar tanta identificação àquele pedaço de caloria engordante, as confeiteiras tinham que usar uns corantes misteriosos para fazerem lábios, olhos e nariz. E para completar a função botavam um pedacinho de pano na cabecinha da crioula, para dar o toque final. Não venham me taxar de racista, racista é quem inventou este docinho, com esse estereótipo da mulher negra. Aí a gente ia comer (o docinho, não a mulher) e se deparava com corantes, panos e tudo o mais. E aí a gente se queixava para a nossa “negra” (a mulher, não o docinho) e ela dava de ombros alegando: - Mas fica tão bonitinho…..

Senhor, escutai a nossa prece.

No setor de salgados, fecho a equipe com o citado Pastelzinho Frito. Simples, saboroso, fácil de encomendar, fácil de fazer, acompanhado de uma Coca-light ou uma cerveja bem gelada, leva ao delírio todos que dele provarem. O melhor ainda é o dia seguinte. O povo todo se foi, você ficou até a uma da manhã recompondo a sua casa, tirando copo de refri de cima do computador, removendo cera de vela da sua TV de LCD, catando forminhas pisoteadas no gramado do vizinho. Tomou aquele banho e adormeceu. Na manhã seguinte, ao abrir os olhos, um agradável desjejum o aguarda. Sim, você “inconscientemente” escondeu um prato de Pasteizinhos Fritos atrás dos livros da estante, e agora pode abrir o dia com todas as honras. Delícia, delícia.

Como citei antes, nada contra as variações. O que se questiona é a proporção nas encomendas. Sugiro assim. Para cada cento de Pastel Frito, uns vinte Risólis de Fungi. Para cada cento de Negrinho, uns dez Olhos de Sogra. E para cada cento do Branquinho, uns dois caramelados ou umas duas “mucamas” essas do paninho na cabeça. Aí a festa vai dar boa! O que eu temo é quando a mediocridade sobrepuja os clássicos da santíssima trindade, relegando-os a um papel secundário. Inadmissível! Pecado Mortal!

Quer me ver satisfeito numa festinha? Negrinho em profusão, Branquinho à vontade, Pastelzinho a valer. Aí você me diz:

- Silvano, onde está aquele pratinho cheio que estava por aqui?

E eu devolvo:

- Ele está no meio de nós.

Silvano - o impossível, herege e sacrílego

Crédito das fotos: Silvano Marques

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CONTO A QUATRO MÃOS

Fui contar uma história dos tempos de faculdade para uma amiga e ela enlouqueceu. Contei-lhe que naqueles tempos reunimos um grupo de quatro amigos e nos metemos a escrever um conto em conjunto. Um de nós dava a largada, um ou dois parágrafos, aí passava a bola para o seguinte e assim, sucessivamente. Essa minha amiga de agora, CÁSSIA, que também se aventura nas páginas da rede com seu blog, gostou da idéia e topou na hora. Fazer o quê? Tive que começar, aí enviei o negócio para ela e aguardei a continuação. Assim, como dizem os paulistas e atendentes de telemarketing, vou estar publicando aqui neste espaço os capítulos dessa nossa empreitada. O primeiro é meu. Logo virá o dela.

Silvano - sempre inventando coisas

CAPÍTULO 01 - Silvano

Ele pegou o sabonete na pia do banheiro e esfregou no dedo, molhando. Precisava tirar aquela aliança logo, duma vez…PRÁ SEMPRE - gritou sozinho dentro de casa. Enquanto lutava para remover a aliança, as lágrimas vertiam sem cerimônia, molhando sua camisa. Fazia calor, talvez o dedo estivesse meio inchado e por isso aquilo era tão difícil. Se precisar eu corto este dedo fora - bradou de novo, para que somente as suas paredes o ouvissem. Mesmo se dando conta de que estava sozinho ele continuava falando de quando em quando, como se quisesse tirar um sarro de si próprio. Como se não bastasse o que estava passando, ele como que saía de si para fazer aquela autocrítica. Auto-piedade. Autocomiseração.

Por fim, a aliança se desprendeu e ele fez menção de jogá-la janela afora. Mas algo o segurou. Algo o impediu.

As lágrimas voltaram fortes e então ele se deu conta de que ao arrancar a aliança de seu dedo ele tirara de sua vida muito mais coisa do que só ouro. Ele meio que tentava exorcizar um passado recente e que, até ali, o fizera feliz. Mas aquilo agora era passado. Saiu a aliança e ele sentiu arrancar de si mesmo lascas de afeto, de carinho, do amor que um dia houve. As lágrimas eram como que um símbolo de seu sofrer, eram sangue emocional a escorrer.

Isso mesmo. Ali, no silêncio de sua casa, ele tinha uma “hemorragia afetiva”, ele sentia saírem de si as mais belas páginas de sua existência. Ele estava para morrer.

Lavou as mãos e a aliança. Secou tudo. Pôs a aliança no bolso da calça e suspirou. Ligou a TV da sala e estava no fim do programa do Faustão. Anoiteceu.

(em breve, a continuação desta história)

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PICANHA TRANSATLÂNTICA

Essa me foi contada por uma comadre. Tem ela uns parentes e amigos brasileiros que moram na Itália. Sabe-se desde sempre que comer carne por lá é uma coisa mais cara, mais elaborada, difícil do que aqui em terras brasiliensis.

Assim, ela citou um cara que estando lá na Itália pede a todos que o visitam que levem umas PICANHAS na bagagem! Isso mesmo, leitor(a), umas picanhas na bagagem.

A mãe do cara estava para embarcar e recebeu dele a estranha encomenda, queria cinco cortes de picanha para fazer churrasco. Preocupada ele se informou por aqui acerca de eventuais problemas no caso de ser pega com a “mercadoria” a bordo. A pessoa que lhe esclareceu disse que se rastreassem a mala e achassem a picanha o que os caras fariam seria tirar a picanha da mala e ela prosseguiria a viagem normalmente.

Assim, fez e parece que deu certo. O plano consiste no seguinte. Congelar a picanha (ou picanhas), acondicionar nesses potes tupperware, enrolar bem em jornal, ou outro isolante térmico e colocar na mala, por entre as roupas.

Já pensou nisso? O pior é que mais de uma pessoa já fez isso para o cara e ele ta lá na Itália mandando ver na gordurinha bovina.

Picanha na mala…se isso não é uma COISA DE GORDO… não sei o que será.

Silvano - com inveja

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