Conto a Quatro Mãos (versão na íntegra)
Ufa, acabamos. Eis aqui, logo abaixo o capítulo final desse nosso conto ou novela! A pedido de alguns leitores, estou publicando o texto todo aqui abaixo, na sua versão linear, do início ao fim. Aproveite..
SILVANO
SILVANO ESCREVE: (cap 01)
Ele pegou o sabonete na pia do banheiro e esfregou no dedo, molhando. Precisava tirar aquela aliança logo, duma vez…PRÁ SEMPRE - gritou sozinho dentro de casa. Enquanto lutava para remover a aliança, as lágrimas vertiam sem cerimônia, molhando sua camisa. Fazia calor, talvez o dedo estivesse meio inchado e por isso aquilo era tão difícil. Se precisar eu corto este dedo fora - bradou de novo, para que somente as suas paredes o ouvissem. Mesmo se dando conta de que estava sozinho ele continuava falando de quando em quando, como se quisesse tirar um sarro de si próprio. Como se não bastasse o que estava passando, ele como que saía de si para fazer aquela autocrítica. Auto-piedade. Autocomiseração.
Por fim, a aliança se desprendeu e ele fez menção de jogá-la janela afora. Mas algo o segurou. Algo o impediu.
As lágrimas voltaram fortes e então ele se deu conta de que ao arrancar a aliança de seu dedo ele tirara de sua vida muito mais coisa do que só ouro. Ele meio que tentava exorcizar um passado recente e que, até ali, o fizera feliz. Mas aquilo agora era passado. Saiu a aliança e ele sentiu arrancar de si mesmo lascas de afeto, de carinho, do amor que um dia houve. As lágrimas eram como que um símbolo de seu sofrer, eram sangue emocional a escorrer.
Isso mesmo. Ali, no silêncio de sua casa, ele tinha uma “hemorragia afetiva”, ele sentia saírem de si as mais belas páginas de sua existência. Ele estava para morrer.
Lavou as mãos e a aliança. Secou tudo. Pôs a aliança no bolso da calça e suspirou. Ligou a TV da sala e estava no fim do programa do Faustão. Anoiteceu.
CÁSSIA ESCREVE: (cap 02)
Sentado no sofá, os programas se sucederam sem que ele percebesse. Há quanto tempo estava ali? Não sabia. Apenas se alimentava daquela luz, daqueles sons. Dos rostos daqueles íntimos desconhecidos. Esperava se sentir menos só. Até que aquelas imagens tão familiares se transformaram em indiferentes listras coloridas, que ele pensava não existirem mais. Sentia pena de si.
Andou pela casa, a mesma casa que abrigara recentes momentos felizes. Levou a mão no bolso. Para seu desespero, a aliança ainda estava lá.
Queria gritar, fugir, correr para qualquer lugar onde não houvesse lembranças. Mas sabia que ela voltaria para casa, na esperança de que ele não estivesse mais.
Iria surpreendê-la Agora era livre, e estava feliz. Começava uma nova vida. Autoconfiança.
Olhou-se no espelho e percebeu que aquela noite durara um século. Parecia cansado. Pensou em tomar um banho, se barbear. Tirou aquelas roupas impregnadas de sofrimento e culpa. A aliança caiu do bolso, e decidiu não juntá-la.
Limpo, barbeado e vestido, fazia um esforço sobre-humano para se sentir forte. Enquanto assistia o jornal da manhã, escutou a porta se abrindo.
SILVANO ESCREVE: (cap 03)
Parou desconfiado e então, estarrecido, quase como se levasse um susto, enxergou Manoel entrando pela porta.
O recém-chegado também se assustou ao vê-lo por ali e disse:
- Desculpe, ela me disse que você estaria trabalhando a esta hora…não queria importunar..
- Importunar? IMPORTUNAR? - ele bradou para o outro. A minha vida escorreu por entre meus dedos, perdeu-se no chão, caiu, quebrou e você ainda tem coragem de vir aqui e me dizer que não quer me importunar?
- Calma, eu nem devia ter vindo. Só vim porque ela pediu, estava com medo.
- Medo? Ela com medo?
- Certo, talvez um pouquinho de remorso também.
Ele roçou a mão direita no dedo vazio da aliança e lembrou-se dela. Onde está a aliança? - pensou. Correu os olhos pelo chão da sala e a avistou ali, perto do abajur, a assistir o duelo. Que ironia, aquele dourado objeto que testemunhara segundo a segundo a sua felicidade, agora assistia passivamente ao seu calvário. Pensou em juntá-la, mas desistiu. Fazer aquilo na presença de Manoel seria ainda mais humilhante. Voltou sua atenção ao visitante e lascou:
- O que você veio fazer aqui?
- Ela me pediu para pegar umas roupas, o notebook, uns troços dela.
Ele imaginou aquele estranho a tocar nas roupas de sua mulher, seus objetos, suas blusas, seus sutiãns, sua intimidade, enfim. E só de pensar nisso um frio lhe congelava a espinha e ele se via obrigado a silenciar, engolir sapos, jacarés e dinossauros de indignação. Deu um passo para trás e cedeu espaço a que o outro passasse. Passasse para dentro de seu quarto, dentro de sua vida, dentro de sua alma.
O barulho das gavetas se abrindo e fechando no quarto ao lado, as portas do armário em seu vaivém, eram estocadas cruéis que ele recebia em seu coração. Pensou que choraria de novo, mas, furioso, tratou de segurar as lágrimas.
Sem motivo aparente, seu olhar correu os móveis da sala e parou na gavetinha central. Foi até ali e abrindo a pequena gaveta, pegou o revólver carregado. O peso da arma o assustou.
Neste momento Manoel retornou à sala e deu um grito :
- O que é isso? CALMA!!
- Não é o que você está pensando. Este revólver era do pai dela. Pode levar.
Manoel, ainda assustado, pegou a arma e, trêmulo, a guardou dentro da mala que agora carregava.
Começou a chover lá fora. Além de ser segunda-feira, de estar ali com aquele cara e de estar vendo sua vida indo pelo ralo, ele ainda teria que enfrentar a chuva do início de semana. E a essas todas, a aliança parece que ria dele, jogada ali, naquele canto da sala.
CÁSSIA ESCREVE: (cap 04)
Ficou ainda algum tempo digerindo os acontecimentos. Manoel arrumando as coisas dela, e ele como um coadjuvante na própria vida, permitindo que circulasse pela casa, a casa que compraram no momento mais feliz de seu casamento - ou pelo menos ele pensava que fosse. Aquele estranho devassava suas melhores lembranças.
De repente, chamou Manoel e disse que bastava: fosse embora com o que havia juntado, e ela que viesse para buscar o resto, ou deixasse mesmo por ali. Ele trataria de jogar tudo fora. Despeito.
- Pega leve, Ciro. Ela está tão abalada quanto tu. Por isso não veio.
- Não importa. Chega. Vai embora.
Saiu e ele tornou a olhar a aliança no chão. Que piada. Ele era uma piada. Como poderia enfrentá-la, mostrar-se forte na frente dela, se mal conseguiu encarar Manoel?
Estava cada vez mais arrasado. Aquele dia cinzento pesava em seu peito. A chuva era cada vez mais forte. Sentia cada minuto passar.
Abalada, ela? Que nada. Sabia que ela havia pensado muito antes de tomar essa decisão, e não mudaria de idéia.
Ligou para o escritório e disse que não estava se sentindo bem. Talvez só aparecesse no outro dia. Que cancelassem qualquer reunião e resolvessem qualquer coisa sem ele. Mas não o importunassem.
Além de tudo o que estava passando, teria que enfrentar os outros. As perguntas, opiniões e o pior, a piedade dos outros. Não estava pronto.
Sem pensar, juntou a aliança e colocou-a de volta no dedo.
Lembrou do dia em que se conheceram, em como tudo começou. As primeiras saídas, o rápido namoro e o casamento. E agora estava terminado.
Tornou a olhar para a mão esquerda, a aliança novamente encaixada na marca feita durante esse anos, como se nunca tivesse saído dali. Como se tudo estivesse como ele sempre pensou que seria.
E novamente as lágrimas brotaram, com raiva, com dor, com toda a desilusão que ele nunca imaginara possível.
Atirou-se no sofá e dormiu, ainda aos soluços.
SILVANO ESCREVE: (cap 05)
O som de uma furadeira o acordou no meio da tarde. O vizinho devia estar pendurando alguma coisa na parede. Levantou e rapidamente apalpou a aliança, no seu eterno lugar, ali no seu dedo. Sim - pensou ele - ainda tenho a aliança.
Bateram na sua porta. Levantou meio grogue e foi atender. Um policial o surpreendeu perguntando se conhecia um Manoel, mostrando a identidade daquele que saíra dali horas antes.
- Claro, claro que conheço. Ele esteve aqui mais cedo. Por quê?
- Pois saiba que balearam o tal Manoel aqui na frente do seu prédio. E o porteiro viu ele saindo daqui. E tem outra coisa. A arma do crime está no seu nome. Teremos que conversar.
Era só o que faltava. A ruptura, a visita de Manoel, a chuva, a segunda-feira, a furadeira do vizinho e agora, para completar, um policial o acusando de assassinato. Meu Deus - pensou Ciro atordoado - o que mais me pode acontecer?
O telefone tocou, ele pediu licença ao policial e atendeu. Do outro lado da linha…..
CÁSSIA ESCREVE: (cap 06)
Argh! Ana Carolina. Perguntando se Manoel ainda estava lá. Nem ‘boa tarde’, nem ‘tudo bem’, nada. Apenas ‘Ciro, é a Carol… O Manoel ainda está aí?’, como se os dois tivessem se falado há um minuto atrás.
Devia estar sonhando. Alguma coisa mais podia dar errado? Respondeu qualquer absurdo para a ex-mulher - era estranho pensar nela assim -, e desligou.
Voltou para o policial, que agora já estava dentro do apartamento. O que dizer? Por um instante, lembrou de uma notícia na TV, ou algum filme no Corujão, em que um homem traumatizado pela morte da mulher e dos filhos tem lapsos de consciência e mata pessoas, não lembrando de nada depois. Devia ser mesmo um filme. Essas coisas não acontecem na vida real. Outra vez ele se sentia uma piada. Só que agora era uma piada sem graça.
- Tudo bem? Podemos continuar? perguntou o policial. O senhor quer chamar um advogado antes de conversarmos?
- Não, não. Podemos conversar. O quê? Estou sendo acusado?
- Não senhor, mas como já disse, a arma do crime está no seu nome.
- Ok, ok.. - e contou ao policial toda a história - a separação, Manoel vindo buscar as coisas da mulher, a arma que lhe entregara.
Sem qualquer cerimônia o policial perguntou se Manoel era o motivo da separação.
- Quê?! Aquele veado? Claro que não!
Na verdade, detestava Manoel. Aliás, não era do tipo que ficava amigo dos amiguinhos gays da mulher. Não, isso não. Considerava-se um homem moderno, mas isso não. Engolia Manoel por causa de Ana Carolina, mas detestava aquele tipo. Mas daí a matá-lo…
O policial aguardava que ele continuasse. Mas ele só queria ficar sozinho. Que se danasse o Manoel, pouco lhe importava. Queria se livrar daquilo, e voltar para o sofá. Aquele sono o havia reconfortado.
Mas o policial continuava olhando para Ciro com aquela cara de ‘claro que foi crime passional’. Que piada! Fez mais umas duzentas perguntas que Ciro respondeu com o que lhe veio à cabeça e concluiu o interrogatório:
- Mais alguma coisa de que o senhor lembre?
- Acho que é só. Se o senhor me der licença, gostaria de ficar sozinho. Quero ligar para minha mulher, afinal Manoel era amigo dela, e ela deve saber o telefone de algum familiar. A não ser que eu esteja sendo acusado de alguma coisa?…. - a pergunta ficou no ar.
- Tudo bem, Sr. Ciro. Mas peço que o senhor me dê seu telefone, e o mantenha ligado, caso a polícia precise de mais esclarecimentos.
E se foi..
Ciro jogou-se novamente no sofá. Não conseguia nem sofrer. Estava estupefato. Em menos de 24 horas tinha perdido a mulher para uma porcaria de curso no exterior, sua vida estava de cabeça pra baixo, e agora, como se tudo isso não fosse o bastante, aquele veado do Manoel morre na porta do seu prédio, assassinado com sua arma. Bem, agora não lhe faltava acontecer mais nada.
Olhou a aliança. Girou-a no dedo. Estava presa de novo.
Antes que conseguisse organizar os pensamentos, o telefone tocou. Era Ana Carolina de novo…
SILVANO ESCREVE: (cap 07)
- Alô?…Alô…
- Sim, Carol, sou eu, pode falar - ele gostava de ouvir a voz da mulher.
- Olha só, sei que vai parecer meio chato, mas tenho que te falar uma coisa antes da viagem.
- Liga não. To sabendo do Manoel.
- O que é que tem o Manoel? - disse ela meio preocupada.
Ele silenciou do outro lado da linha, que raiva, ela ainda não sabia do crime. E agora? O que fazer?
- Ciro…Ciro…você ainda está aí?
- Claro, claro. Esquece o Manoel. O que você quer me falar?
Agora foi a vez dela silenciar. Suspirou e então lascou:
- Lembra das nossas alianças, né? Claro que lembra. Então você deve recordar que quando casamos a minha Avó derreteu as alianças dela e do meu Avô e nos deu de presente. Foi com aquele ouro que fizemos as nossas alianças.
- Sim, e daí?
- E quero a sua aliança de volta. Aliás, sua não. Minha aliança, porque o ouro dela era da minha Avó.
A faca do sofrimento penetrou fundo em seu coração, deixando-o em silêncio, quase congelado. Uma lágrima teimou em escorrer de seu olho esquerdo.
- Alô, Ciro! Tá me ouvindo?
Com raiva ele disse:
- Entreguei tudo ao Manoel. E outra coisa. Mataram ele aqui na entrada do prédio. Não fui eu, não sei quem foi. Não sei nada da droga da aliança.
Ele disse aquilo e roçou o dedo polegar na aliança, como que acalmando-a em sua morada.
A ligação caiu. Ele largou o telefone e foi atender de novo a porta (mas que dia de encheção de saco!!).
O policial sem nem entrar apenas lhe disse:
- Esqueci de lhe dizer uma coisa. O carinha aquele não morreu. Foi levado baleado ao Pronto Socorro. Até onde eu o vi, estava vivo. Essas “bichinhas” não morrem fácil assim - disse ironicamente e foi embora rindo pelas escadas.
CÁSSIA ESCREVE ( cap 08):
Mas então Manoel estava vivo! Não podia ser real.
Talvez estivesse dormindo. Talvez fosse acordar ainda no domingo de manhã. Aquilo tudo poderia ser apenas um pesadelo: Carol andando de um lado para o outro no quarto, contando que havia decidido ir pra Alemanha. Já havia assinado o contrato e tudo! Três anos morando na Alemanha. E o marido por quem ela se dizia tão apaixonada, era o último a saber!
Mas não, definitivamente estava acordado, totalmente acordado. E afinal, não tinha sido o último a saber. Ela havia implorado para que ele pensasse a respeito desde o dia que recebeu o convite da faculdade. Mas ele nem cogitou sair do país, nem por um único instante.
Agora pagava o preço. No fundo ele achava que ela não teria coragem. Sabia que era a chance de sua vida, mas achava que ela desistiria de tudo pelo amor dos dois. Estava enganado.
E o Manoel. Aquele veado do Manoel. Foi ele quem indicou Ana Carolina. Fez campanha pra que ela fosse aceita. Veado desgraçado. E ainda por cima estava vivo.
Bem, ele iria contar que Ciro não tinha nada a ver com o roubo, o tiro, o que quer que fosse. Pelo menos Ciro achava que não tinha. Lembrou do filme. Que filme idiota… Que pensamentos sem sentido. Estava cansado.
Pensou em Carol. Sua Carol. Ontem chorava se despedindo, e hoje já estava pedindo a aliança de volta.
A aliança! Presa de novo no dedo, e agora Ana Carolina pedira de volta.
Foi novamente para o banheiro, abriu a torneira, fez espuma com o sabão. Tudo de novo! E por culpa dele.
Agora podia admitir para si mesmo que a culpa era dele. Sabia que era o grande sonho de Carol. E que depois que ela houvesse se decidido, não mudaria de idéia. E ele, o que ele fez? Nada. Foi arrogante e pretensioso. Poderia muito bem tirar umas férias prolongadas do escritório, redistribuir o serviço, passar um ano só com ela, a lua-de-mel que nunca tiveram. Trabalhou a vida toda no escritório do pai, ele e os dois irmãos. Agora, tinha a chance de curtir a vida ao lado da mulher que ele amava tanto, e só pensou em dizer não, em ser mais forte, testar os sentimentos dela.
Se tivesse outra chance, faria tudo diferente. Mas era tarde demais…
SILVANO ESCREVE(cap 9):
Naquela noite ele chamou Carol para uma conversa. Ela chegou meio constrangida, reticente. Parece que nem queria entrar no apartamento. Uma das primeiras coisas que falou foi:
- Posso pegar a aliança?
Ele, quieto, botou a mão no bolso e lhe entregou a aliança. Ela pegou nervosamente e guardou.
- Carol, quero te dizer uma coisa. Talvez a gente possa recomeçar, sei lá, replanejar…
- Ai, não começa, por favor. Já falamos disso tantas vezes.
- Calma, calma, eu posso mudar desta vez.
- Ninguém muda, Ciro. Ninguém muda - ela sentenciou.
Baixou um silêncio entre os dois. O coração de Ciro apertava, ele como que sentia uma fria lâmina penetrando-lhe o peito. A cada frase, cada palavra dura dela, a fio da lâmina adentrava mais e mais seu coração. Ele tentava respirar, mas ela mantinha a dor ali, cravada em seu sentimento.
Enfim - pensou ele - talvez isso tenha mesmo acabado.
- Era só isso que você queria, a aliança? - ele disse.
- Acho que sim. Depois com calma eu venho buscar o resto das minhas coisas.
Ciro respirou fundo e mudou o tom de voz:
- Eu sei de uma coisa….não é só o seu curso na Alemanha..
- Como assim? - Carol meio que assustada.
- Eu li um torpedo no seu celular um dia que você estava no banho…eu sei que há outra pessoa.
A mulher gelou, não esperava por aquilo.
Ciro estendeu a mão e disse:
- Me devolve a aliança! AGORA! - gritou.
Ana Carolina gelou a deu um passo atrás. Viu a fúria nos olhos do seu marido. Viu a dor. Viu tanta coisa. Só não via saída para aquela situação…
CÁSSIA ESCREVE (cap 10 - final da história)
Ele não conseguia se controlar. Sentia aquele ódio, aquela dor, lhe apertando o peito, era mais forte que ele, lhe tirava o ar.
Ela ali, parada, a porta do apartamento ainda aberta.
Por um instante ele pensou que podia matá-la. Seria a única maneira de se livrar daquele sentimento. Ele não merecia aquele sofrimento, tinha sido um bom marido, amigo, companheiro, fiel, e se considerava também um bom amante. Sim, ele fazia sucesso com as namoradas antes de Carol. E mesmo com as amigas da esposa, ela sempre dizia que as amigas o achavam um charme.
Mas ela o tratava como um qualquer. Todo aquele tempo juntos, e ela, além do curso, ainda havia arrumado um amante! E nem se dava ao trabalho de negar.
Sentiu suas mãos se contraírem, chegou mesmo a imaginá-las na gargante de Ana Carolina. Mas aquilo não seria uma vingança suficiente. Afinal, ele era um homem, e não um rato que não sabia o que fazer quando levava um fora.
- Ciro! - ela o tirou daquele devaneio.
- Me dá a aliança. E tem outra coisa: quero saber toda a verdade.
- Ciro, por favor. Está tudo acabado, não interessa o que aconteceu, por favor.
Ele fechou a porta do apartamento:
- Eu tenho o direito de saber a verdade, que droga!
Ela suspirou e concordou com a cabeça:
- Senta, Ciro.
- É um cara da faculdade, tenho certeza.
- Se quer saber, me deixa contar. Foi só depois que surgiu o curso na Alemanha. Você disse que não iria, começamos a nos desentender. Acabamos brigando, e passei aquelas noites fora.
- Bem, eu pensava ter ouvido você dizer que estava na casa da sua mãe.
- Claro que eu estava. Mas uma noite o Manoel ligou e me convidou pra dar uma volta, conversar. Eu precisava muito conversar. Fomos pro apartamento dele, e aconteceu, nem sei como.
- O QUE?! Como assim ‘aconteceu, nem sei como’. Ora essa. O Manoel é veado, pô!
Ele se deixou cair no sofá. Estava começando a detestar aquele sofá.
- Continua.
- Foi isso, chega Ciro. Vou pra Alemanha, Manoel também. Agora chega.
Ela largou a aliança em cima da mesa.
- Vai embora. E não volta mais aqui, mando entregar suas tralhas na casa daquela vaca da sua mãe.
- Ciro!
- Sai, Ana Carolina.
Ela saiu em silêncio. Não estava feliz com aquela situação. Amava Ciro, afinal, mas não queria aquela vida, aquela rotina que tinham. Queria um mundo novo.
E Manoel lhe daria este mundo. Na Alemanha tudo seria melhor.
Ele continuou no sofá. Ligou a TV. E como não tinha mais lágrimas para chorar, apenas deixou que os pensamentos se seguissem. Sofria. Penava.
Estava no final da novela das oito, mas ele não prestava atenção à TV.
Logo o sono voltou, desta vez ainda com mais força. Só teve um último pensamento antes de adormecer. Esqueceu de contar para Carol que a polícia havia ligado pouco antes dela chegar: - o veado estava morto!
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25 de novembro de 2009 às 15:03
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