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Posts de novembro 2009

Coisa de Gordo - 456

28 de novembro de 2009 3

456 – ÚLTIMA CEIA

Sem muitos rodeios. Imagine-se você sentado num catre, numa masmorra semi-escura, num daqueles banquinhos que ficam presos na parede por duas correntes, tendo sido sentenciado(a) à morte. Sim, em poucas horas você será executado(a). Na sua frente, um guarda mal humorado tem um caderninho nas mãos e veio lhe fazer uma pergunta:

- Qual a sua última refeição? O que você quer comer antes de morrer?

Você nem acredita naquilo, mas aí se lembra da expressão “última ceia” e, por minutos, tem uma espécie de euforia.

- Posso pedir uma refeição completa, com sobremesa e tudo?

- Sim – diz ele suspirando de tédio.

- Deixa eu ver, então….

A partir daí você se perde em devaneios gastronômicos, esquece-se por um momento de todos os detalhes do seu julgamento, da acusação, da defesa, da sentença, da apelação ao juiz, ao governador, ao presidente da república, a Deus….e decide morrer feliz.

Após um rápido pânico, você então começa a organizar o seu pedido. De cara afasta aquelas coisas que você nunca gostou, como Mondongo, Dobradinha, Carne de Coelho, Lagarto e Rã. Tira também as coisas com ervilha. Não que sejam ruins, mas tem coisa melhor prá se comer na hora da morte. Tira o Doce de Laranja cujo amargo nunca lhe satisfez. E começa a selecionar…

Quem sabe um Risoto de Camarão…hum….aquele gostinho de leite de coco, o tempero forte, a pimenta, você chega a salivar, só de lembrar.

Poderia ser um Pastelão de Palmito, douradinho na casca, saindo fumaça do interior. Ou então uma bandeja de Pastéis Fritos, de carne, frango, camarão, romeu e julieta, queijo.

Outra possibilidade seria uma Pizza grande metade de Quatro Queijos e metade Calabresa. Ou então de quatro sabores, acrescentando Alho e Óleo com Portuguesa.

Um Quibe Cru do Baalbek, acompanhado do saboroso Chanklishi, com azeite de oliva e sal, seria de arrasar.

O guarda começa a se impacientar, muda de perna, bate a caneta no caderninho.

Você fica de novo meio que em pânico, e resolve sintetizar tudo num Ala Minuta. Sim, eu sei que a grafia correta desse prato seria “à la minuta”, mas os cartazes e placas desse país já consagraram o neologismo Ala Minuta. Você imagina o Arroz Branquinho, as Batatas Fritas crocantes, a maionese, o Bife suculento e o ovo, ai meu Deus, o Ovo Frito. Você imagina-se diante do prato, tomando do ovo cuidadosamente para poder apreciá-lo. O ovo é a parte mais sensível do Ala Minuta. É delicado, magoa-se facilmente, chora ao ver a novela das oito. Você então planeja pegar o ovo frito com educação, quase com respeito, para assentá-lo sobre o arroz. Você pede licença ao arroz e o coloca ali. Ato contínuo, com o garfo, você vai furar a carapaça dele, permitindo que a gema morninha inunde os grãos alvejantes, passando a tingi-los com a cor dourada do prazer. Mais uma pitada de sal…e o guarda percebe que você dá uma babada, só de imaginar a cena. Você se desculpa, seca a boca, e desvia sua memória às variedades de um Churrasco.

Hummmmm – é você gemendo alto – já pensou uma Picanha ao ponto, um Vazio mal passado, uma Alcatra fumegante? Uma lingüiça assadinha, corações de frango no espeto, lascas de Maminha… Meu Deus…o que escolher para a minha “última ceia”?

Uma coisa lhe vem clara. Seja o que for, a sobremesa vai ser uma Lata de Leite Moça. In natura, apenas com dois furinhos nas bordas. Para acalmar o guarda você diz:

- Anote aí, o doce será um lata de Leite Moça, a bebida vai ser um copão de Coca-light e uma cerveja Heineken bem gelada.

O guarda anota educadamente.

De soco, lhe entra na lembrança uma Lasanha de Presunto. Um Souflê de Queijo. Um prato de polentas fritas. Um Talharim inundado por molho bolonha. Logo a seguir um Carreteiro de Charque, um Sanduíche de Pastrami, uma Tábua de Queijos e Salames.

- Eu tenho que me ir… – é o guarda dando um ultimato.

Você toma do caderninho e escreve o seu pedido. Entrega ao guarda e suspira fundo, esperando sua última refeição. Pelo menos isso…. você pensa.

Eu sei o que EU escreveria ali, acima do Leite Moça e das bebidas. Apenas me intriga uma coisa…O que será que você escreveria?

Silvano – o impossível

Crédito da foto: STOCK PHOTOS – Id:1218513

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Conto a Quatro Mãos (versão na íntegra)

24 de novembro de 2009 1

Ufa, acabamos. Eis aqui, logo abaixo o capítulo final desse nosso conto ou novela! A pedido de alguns leitores, estou publicando o texto todo aqui abaixo, na sua versão linear, do início ao fim. Aproveite..

SILVANO

SILVANO ESCREVE: (cap 01)

Ele pegou o sabonete na pia do banheiro e esfregou no dedo, molhando. Precisava tirar aquela aliança logo, duma vez…PRÁ SEMPRE – gritou sozinho dentro de casa. Enquanto lutava para remover a aliança, as lágrimas vertiam sem cerimônia, molhando sua camisa. Fazia calor, talvez o dedo estivesse meio inchado e por isso aquilo era tão difícil. Se precisar eu corto este dedo fora – bradou de novo, para que somente as suas paredes o ouvissem. Mesmo se dando conta de que estava sozinho ele continuava falando de quando em quando, como se quisesse tirar um sarro de si próprio. Como se não bastasse o que estava passando, ele como que saía de si para fazer aquela autocrítica. Auto-piedade. Autocomiseração.

Por fim, a aliança se desprendeu e ele fez menção de jogá-la janela afora. Mas algo o segurou. Algo o impediu.

As lágrimas voltaram fortes e então ele se deu conta de que ao arrancar a aliança de seu dedo ele tirara de sua vida muito mais coisa do que só ouro. Ele meio que tentava exorcizar um passado recente e que, até ali, o fizera feliz. Mas aquilo agora era passado. Saiu a aliança e ele sentiu arrancar de si mesmo lascas de afeto, de carinho, do amor que um dia houve. As lágrimas eram como que um símbolo de seu sofrer, eram sangue emocional a escorrer.

Isso mesmo. Ali, no silêncio de sua casa, ele tinha uma “hemorragia afetiva”, ele sentia saírem de si as mais belas páginas de sua existência. Ele estava para morrer.

Lavou as mãos e a aliança. Secou tudo. Pôs a aliança no bolso da calça e suspirou. Ligou a TV da sala e estava no fim do programa do Faustão. Anoiteceu.

CÁSSIA ESCREVE: (cap 02)

Sentado no sofá, os programas se sucederam sem que ele percebesse. Há quanto tempo estava ali? Não sabia. Apenas se alimentava daquela luz, daqueles sons. Dos rostos daqueles íntimos desconhecidos. Esperava se sentir menos só. Até que aquelas imagens tão familiares se transformaram em indiferentes listras coloridas, que ele pensava não existirem mais. Sentia pena de si.

Andou pela casa, a mesma casa que abrigara recentes momentos felizes. Levou a mão no bolso. Para seu desespero, a aliança ainda estava lá.

Queria gritar, fugir, correr para qualquer lugar onde não houvesse lembranças. Mas sabia que ela voltaria para casa, na esperança de que ele não estivesse mais.

Iria surpreendê-la Agora era livre, e estava feliz. Começava uma nova vida. Autoconfiança.

Olhou-se no espelho e percebeu que aquela noite durara um século. Parecia cansado. Pensou em tomar um banho, se barbear. Tirou aquelas roupas impregnadas de sofrimento e culpa. A aliança caiu do bolso, e decidiu não juntá-la.

Limpo, barbeado e vestido, fazia um esforço sobre-humano para se sentir forte. Enquanto assistia o jornal da manhã, escutou a porta se abrindo.

SILVANO ESCREVE: (cap 03)

Parou desconfiado e então, estarrecido, quase como se levasse um susto, enxergou Manoel entrando pela porta.

O recém-chegado também se assustou ao vê-lo por ali e disse:

- Desculpe, ela me disse que você estaria trabalhando a esta hora…não queria importunar..

- Importunar? IMPORTUNAR? – ele bradou para o outro. A minha vida escorreu por entre meus dedos, perdeu-se no chão, caiu, quebrou e você ainda tem coragem de vir aqui e me dizer que não quer me importunar?

- Calma, eu nem devia ter vindo. Só vim porque ela pediu, estava com medo.

- Medo? Ela com medo?

- Certo, talvez um pouquinho de remorso também.

Ele roçou a mão direita no dedo vazio da aliança e lembrou-se dela. Onde está a aliança? – pensou. Correu os olhos pelo chão da sala e a avistou ali, perto do abajur, a assistir o duelo. Que ironia, aquele dourado objeto que testemunhara segundo a segundo a sua felicidade, agora assistia passivamente ao seu calvário. Pensou em juntá-la, mas desistiu. Fazer aquilo na presença de Manoel seria ainda mais humilhante. Voltou sua atenção ao visitante e lascou:

- O que você veio fazer aqui?

- Ela me pediu para pegar umas roupas, o notebook, uns troços dela.

Ele imaginou aquele estranho a tocar nas roupas de sua mulher, seus objetos, suas blusas, seus sutiãns, sua intimidade, enfim. E só de pensar nisso um frio lhe congelava a espinha e ele se via obrigado a silenciar, engolir sapos, jacarés e dinossauros de indignação. Deu um passo para trás e cedeu espaço a que o outro passasse. Passasse para dentro de seu quarto, dentro de sua vida, dentro de sua alma.

O barulho das gavetas se abrindo e fechando no quarto ao lado, as portas do armário em seu vaivém, eram estocadas cruéis que ele recebia em seu coração. Pensou que choraria de novo, mas, furioso, tratou de segurar as lágrimas.

Sem motivo aparente, seu olhar correu os móveis da sala e parou na gavetinha central. Foi até ali e abrindo a pequena gaveta, pegou o revólver carregado. O peso da arma o assustou.

Neste momento Manoel retornou à sala e deu um grito :

- O que é isso? CALMA!!

- Não é o que você está pensando. Este revólver era do pai dela. Pode levar.

Manoel, ainda assustado, pegou a arma e, trêmulo, a guardou dentro da mala que agora carregava.

Começou a chover lá fora. Além de ser segunda-feira, de estar ali com aquele cara e de estar vendo sua vida indo pelo ralo, ele ainda teria que enfrentar a chuva do início de semana. E a essas todas, a aliança parece que ria dele, jogada ali, naquele canto da sala.

CÁSSIA ESCREVE: (cap 04)

Ficou ainda algum tempo digerindo os acontecimentos. Manoel arrumando as coisas dela, e ele como um coadjuvante na própria vida, permitindo que circulasse pela casa, a casa que compraram no momento mais feliz de seu casamento – ou pelo menos ele pensava que fosse. Aquele estranho devassava suas melhores lembranças.

De repente, chamou Manoel e disse que bastava: fosse embora com o que havia juntado, e ela que viesse para buscar o resto, ou deixasse mesmo por ali. Ele trataria de jogar tudo fora. Despeito.

- Pega leve, Ciro. Ela está tão abalada quanto tu. Por isso não veio.

- Não importa. Chega. Vai embora.

Saiu e ele tornou a olhar a aliança no chão. Que piada. Ele era uma piada. Como poderia enfrentá-la, mostrar-se forte na frente dela, se mal conseguiu encarar Manoel?

Estava cada vez mais arrasado. Aquele dia cinzento pesava em seu peito. A chuva era cada vez mais forte. Sentia cada minuto passar.

Abalada, ela? Que nada. Sabia que ela havia pensado muito antes de tomar essa decisão, e não mudaria de idéia.

Ligou para o escritório e disse que não estava se sentindo bem. Talvez só aparecesse no outro dia. Que cancelassem qualquer reunião e resolvessem qualquer coisa sem ele. Mas não o importunassem.

Além de tudo o que estava passando, teria que enfrentar os outros. As perguntas, opiniões e o pior, a piedade dos outros. Não estava pronto.

Sem pensar, juntou a aliança e colocou-a de volta no dedo.

Lembrou do dia em que se conheceram, em como tudo começou. As primeiras saídas, o rápido namoro e o casamento. E agora estava terminado.

Tornou a olhar para a mão esquerda, a aliança novamente encaixada na marca feita durante esse anos, como se nunca tivesse saído dali. Como se tudo estivesse como ele sempre pensou que seria.

E novamente as lágrimas brotaram, com raiva, com dor, com toda a desilusão que ele nunca imaginara possível.

Atirou-se no sofá e dormiu, ainda aos soluços.

SILVANO ESCREVE: (cap 05)

O som de uma furadeira o acordou no meio da tarde. O vizinho devia estar pendurando alguma coisa na parede. Levantou e rapidamente apalpou a aliança, no seu eterno lugar, ali no seu dedo. Sim – pensou ele – ainda tenho a aliança.

Bateram na sua porta. Levantou meio grogue e foi atender. Um policial o surpreendeu perguntando se conhecia um Manoel, mostrando a identidade daquele que saíra dali horas antes.

- Claro, claro que conheço. Ele esteve aqui mais cedo. Por quê?

- Pois saiba que balearam o tal Manoel aqui na frente do seu prédio. E o porteiro viu ele saindo daqui. E tem outra coisa. A arma do crime está no seu nome. Teremos que conversar.

Era só o que faltava. A ruptura, a visita de Manoel, a chuva, a segunda-feira, a furadeira do vizinho e agora, para completar, um policial o acusando de assassinato. Meu Deus – pensou Ciro atordoado – o que mais me pode acontecer?

O telefone tocou, ele pediu licença ao policial e atendeu. Do outro lado da linha…..

CÁSSIA ESCREVE: (cap 06)

Argh! Ana Carolina. Perguntando se Manoel ainda estava lá. Nem ‘boa tarde’, nem ‘tudo bem’, nada. Apenas ‘Ciro, é a Carol… O Manoel ainda está aí?’, como se os dois tivessem se falado há um minuto atrás.

Devia estar sonhando. Alguma coisa mais podia dar errado? Respondeu qualquer absurdo para a ex-mulher – era estranho pensar nela assim -, e desligou.

Voltou para o policial, que agora já estava dentro do apartamento. O que dizer? Por um instante, lembrou de uma notícia na TV, ou algum filme no Corujão, em que um homem traumatizado pela morte da mulher e dos filhos tem lapsos de consciência e mata pessoas, não lembrando de nada depois. Devia ser mesmo um filme. Essas coisas não acontecem na vida real. Outra vez ele se sentia uma piada. Só que agora era uma piada sem graça.

- Tudo bem? Podemos continuar? perguntou o policial. O senhor quer chamar um advogado antes de conversarmos?

- Não, não. Podemos conversar. O quê? Estou sendo acusado?

- Não senhor, mas como já disse, a arma do crime está no seu nome.

- Ok, ok.. – e contou ao policial toda a história – a separação, Manoel vindo buscar as coisas da mulher, a arma que lhe entregara.

Sem qualquer cerimônia o policial perguntou se Manoel era o motivo da separação.

- Quê?! Aquele veado? Claro que não!

Na verdade, detestava Manoel. Aliás, não era do tipo que ficava amigo dos amiguinhos gays da mulher. Não, isso não. Considerava-se um homem moderno, mas isso não. Engolia Manoel por causa de Ana Carolina, mas detestava aquele tipo. Mas daí a matá-lo…

O policial aguardava que ele continuasse. Mas ele só queria ficar sozinho. Que se danasse o Manoel, pouco lhe importava. Queria se livrar daquilo, e voltar para o sofá. Aquele sono o havia reconfortado.

Mas o policial continuava olhando para Ciro com aquela cara de ‘claro que foi crime passional’. Que piada! Fez mais umas duzentas perguntas que Ciro respondeu com o que lhe veio à cabeça e concluiu o interrogatório:

- Mais alguma coisa de que o senhor lembre?

- Acho que é só. Se o senhor me der licença, gostaria de ficar sozinho. Quero ligar para minha mulher, afinal Manoel era amigo dela, e ela deve saber o telefone de algum familiar. A não ser que eu esteja sendo acusado de alguma coisa?…. – a pergunta ficou no ar.

- Tudo bem, Sr. Ciro. Mas peço que o senhor me dê seu telefone, e o mantenha ligado, caso a polícia precise de mais esclarecimentos.

E se foi..

Ciro jogou-se novamente no sofá. Não conseguia nem sofrer. Estava estupefato. Em menos de 24 horas tinha perdido a mulher para uma porcaria de curso no exterior, sua vida estava de cabeça pra baixo, e agora, como se tudo isso não fosse o bastante, aquele veado do Manoel morre na porta do seu prédio, assassinado com sua arma. Bem, agora não lhe faltava acontecer mais nada.

Olhou a aliança. Girou-a no dedo. Estava presa de novo.

Antes que conseguisse organizar os pensamentos, o telefone tocou. Era Ana Carolina de novo…

SILVANO ESCREVE: (cap 07)

- Alô?…Alô…

- Sim, Carol, sou eu, pode falar – ele gostava de ouvir a voz da mulher.

- Olha só, sei que vai parecer meio chato, mas tenho que te falar uma coisa antes da viagem.

- Liga não. To sabendo do Manoel.

- O que é que tem o Manoel? – disse ela meio preocupada.

Ele silenciou do outro lado da linha, que raiva, ela ainda não sabia do crime. E agora? O que fazer?

- Ciro…Ciro…você ainda está aí?

- Claro, claro. Esquece o Manoel. O que você quer me falar?

Agora foi a vez dela silenciar. Suspirou e então lascou:

- Lembra das nossas alianças, né? Claro que lembra. Então você deve recordar que quando casamos a minha Avó derreteu as alianças dela e do meu Avô e nos deu de presente. Foi com aquele ouro que fizemos as nossas alianças.

- Sim, e daí?

- E quero a sua aliança de volta. Aliás, sua não. Minha aliança, porque o ouro dela era da minha Avó.

A faca do sofrimento penetrou fundo em seu coração, deixando-o em silêncio, quase congelado. Uma lágrima teimou em escorrer de seu olho esquerdo.

- Alô, Ciro! Tá me ouvindo?

Com raiva ele disse:

- Entreguei tudo ao Manoel. E outra coisa. Mataram ele aqui na entrada do prédio. Não fui eu, não sei quem foi. Não sei nada da droga da aliança.

Ele disse aquilo e roçou o dedo polegar na aliança, como que acalmando-a em sua morada.

A ligação caiu. Ele largou o telefone e foi atender de novo a porta (mas que dia de encheção de saco!!).

O policial sem nem entrar apenas lhe disse:

- Esqueci de lhe dizer uma coisa. O carinha aquele não morreu. Foi levado baleado ao Pronto Socorro. Até onde eu o vi, estava vivo. Essas “bichinhas” não morrem fácil assim – disse ironicamente e foi embora rindo pelas escadas.

CÁSSIA ESCREVE ( cap 08):

Mas então Manoel estava vivo! Não podia ser real.

Talvez estivesse dormindo. Talvez fosse acordar ainda no domingo de manhã. Aquilo tudo poderia ser apenas um pesadelo: Carol andando de um lado para o outro no quarto, contando que havia decidido ir pra Alemanha. Já havia assinado o contrato e tudo! Três anos morando na Alemanha. E o marido por quem ela se dizia tão apaixonada, era o último a saber!

Mas não, definitivamente estava acordado, totalmente acordado. E afinal, não tinha sido o último a saber. Ela havia implorado para que ele pensasse a respeito desde o dia que recebeu o convite da faculdade. Mas ele nem cogitou sair do país, nem por um único instante.

Agora pagava o preço. No fundo ele achava que ela não teria coragem. Sabia que era a chance de sua vida, mas achava que ela desistiria de tudo pelo amor dos dois. Estava enganado.

E o Manoel. Aquele veado do Manoel. Foi ele quem indicou Ana Carolina. Fez campanha pra que ela fosse aceita. Veado desgraçado. E ainda por cima estava vivo.

Bem, ele iria contar que Ciro não tinha nada a ver com o roubo, o tiro, o que quer que fosse. Pelo menos Ciro achava que não tinha. Lembrou do filme. Que filme idiota… Que pensamentos sem sentido. Estava cansado.

Pensou em Carol. Sua Carol. Ontem chorava se despedindo, e hoje já estava pedindo a aliança de volta.

A aliança! Presa de novo no dedo, e agora Ana Carolina pedira de volta.

Foi novamente para o banheiro, abriu a torneira, fez espuma com o sabão. Tudo de novo! E por culpa dele.

Agora podia admitir para si mesmo que a culpa era dele. Sabia que era o grande sonho de Carol. E que depois que ela houvesse se decidido, não mudaria de idéia. E ele, o que ele fez? Nada. Foi arrogante e pretensioso. Poderia muito bem tirar umas férias prolongadas do escritório, redistribuir o serviço, passar um ano só com ela, a lua-de-mel que nunca tiveram. Trabalhou a vida toda no escritório do pai, ele e os dois irmãos. Agora, tinha a chance de curtir a vida ao lado da mulher que ele amava tanto, e só pensou em dizer não, em ser mais forte, testar os sentimentos dela.

Se tivesse outra chance, faria tudo diferente. Mas era tarde demais…

SILVANO ESCREVE(cap 9):

Naquela noite ele chamou Carol para uma conversa. Ela chegou meio constrangida, reticente. Parece que nem queria entrar no apartamento. Uma das primeiras coisas que falou foi:

- Posso pegar a aliança?

Ele, quieto, botou a mão no bolso e lhe entregou a aliança. Ela pegou nervosamente e guardou.

- Carol, quero te dizer uma coisa. Talvez a gente possa recomeçar, sei lá, replanejar…

- Ai, não começa, por favor. Já falamos disso tantas vezes.

- Calma, calma, eu posso mudar desta vez.

- Ninguém muda, Ciro. Ninguém muda – ela sentenciou.

Baixou um silêncio entre os dois. O coração de Ciro apertava, ele como que sentia uma fria lâmina penetrando-lhe o peito. A cada frase, cada palavra dura dela, a fio da lâmina adentrava mais e mais seu coração. Ele tentava respirar, mas ela mantinha a dor ali, cravada em seu sentimento.

Enfim – pensou ele – talvez isso tenha mesmo acabado.

- Era só isso que você queria, a aliança? – ele disse.

- Acho que sim. Depois com calma eu venho buscar o resto das minhas coisas.

Ciro respirou fundo e mudou o tom de voz:

- Eu sei de uma coisa….não é só o seu curso na Alemanha..

- Como assim? – Carol meio que assustada.

- Eu li um torpedo no seu celular um dia que você estava no banho…eu sei que há outra pessoa.

A mulher gelou, não esperava por aquilo.

Ciro estendeu a mão e disse:

- Me devolve a aliança! AGORA! – gritou.

Ana Carolina gelou a deu um passo atrás. Viu a fúria nos olhos do seu marido. Viu a dor. Viu tanta coisa. Só não via saída para aquela situação…

CÁSSIA ESCREVE (cap 10 – final da história)

Ele não conseguia se controlar. Sentia aquele ódio, aquela dor, lhe apertando o peito, era mais forte que ele, lhe tirava o ar.

Ela ali, parada, a porta do apartamento ainda aberta.

Por um instante ele pensou que podia matá-la. Seria a única maneira de se livrar daquele sentimento. Ele não merecia aquele sofrimento, tinha sido um bom marido, amigo, companheiro, fiel, e se considerava também um bom amante. Sim, ele fazia sucesso com as namoradas antes de Carol. E mesmo com as amigas da esposa, ela sempre dizia que as amigas o achavam um charme.

Mas ela o tratava como um qualquer. Todo aquele tempo juntos, e ela, além do curso, ainda havia arrumado um amante! E nem se dava ao trabalho de negar.

Sentiu suas mãos se contraírem, chegou mesmo a imaginá-las na gargante de Ana Carolina. Mas aquilo não seria uma vingança suficiente. Afinal, ele era um homem, e não um rato que não sabia o que fazer quando levava um fora.

- Ciro! – ela o tirou daquele devaneio.

- Me dá a aliança. E tem outra coisa: quero saber toda a verdade.

- Ciro, por favor. Está tudo acabado, não interessa o que aconteceu, por favor.

Ele fechou a porta do apartamento:

- Eu tenho o direito de saber a verdade, que droga!

Ela suspirou e concordou com a cabeça:

- Senta, Ciro.

- É um cara da faculdade, tenho certeza.

- Se quer saber, me deixa contar. Foi só depois que surgiu o curso na Alemanha. Você disse que não iria, começamos a nos desentender. Acabamos brigando, e passei aquelas noites fora.

- Bem, eu pensava ter ouvido você dizer que estava na casa da sua mãe.

- Claro que eu estava. Mas uma noite o Manoel ligou e me convidou pra dar uma volta, conversar. Eu precisava muito conversar. Fomos pro apartamento dele, e aconteceu, nem sei como.

- O QUE?! Como assim ‘aconteceu, nem sei como’. Ora essa. O Manoel é veado, pô!

Ele se deixou cair no sofá. Estava começando a detestar aquele sofá.

- Continua.

- Foi isso, chega Ciro. Vou pra Alemanha, Manoel também. Agora chega.

Ela largou a aliança em cima da mesa.

- Vai embora. E não volta mais aqui, mando entregar suas tralhas na casa daquela vaca da sua mãe.

- Ciro!

- Sai, Ana Carolina.

Ela saiu em silêncio. Não estava feliz com aquela situação. Amava Ciro, afinal, mas não queria aquela vida, aquela rotina que tinham. Queria um mundo novo.

E Manoel lhe daria este mundo. Na Alemanha tudo seria melhor.

Ele continuou no sofá. Ligou a TV. E como não tinha mais lágrimas para chorar, apenas deixou que os pensamentos se seguissem. Sofria. Penava.

Estava no final da novela das oito, mas ele não prestava atenção à TV.

Logo o sono voltou, desta vez ainda com mais força. Só teve um último pensamento antes de adormecer. Esqueceu de contar para Carol que a polícia havia ligado pouco antes dela chegar: – o veado estava morto!

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Coisa de Gordo - 455

20 de novembro de 2009 0

455 – LASANHA DIET

A sra Kátia tem por missão tentar me manter dentro de um certo parâmetro de forma física. Certo, certo, você vai dizer que ele tem fracassado, mas lhe afirmo que a não ser por ela eu estaria em outro patamar. Quem sabe noutro mundo. O mundo espiritual.

Assim, munida de seu talento natural para a culinária, ela faz uma mescla de qualidade com baixa caloria. Dessa vez a idéia era comer uma lasanha. Isso mesmo, uma lasanha.

Mas como fazer isso sem engordar demais?

Simples, caro(a) leitor(a), muito simples. Bastaram três camadas.para fazer o milagre.

Vamos aos três tópicos em questão.

BERINJELA - tome de uma berinjela grande, no ponto, e ela será o lastro da lasanha. Mas veja bem. Há um ritual a ser feito com ela. Corte a “berinja” em fatias finas, redondas, tiradas no sentido transversal, não no longitudinal. Essas estranhas fatias devem ser flambadas, quase que fritas, numa frigideira com T-Fal. Fatia por fatia, dê uma tostada, e como é uma coisa diet, evite o azeite. Ou então o use frugalmente, muito bem lembrado. Vá separando essas fatias fritas, essas quase que bolachas esverdeadas que se vão avolumando. Elas serão (já o disse) o lastro da lasanha. O que vai dar estrutura, forma e sabor. Elas são o astro da festa.

O MOLHO – ora o molho pode ser um simples molho vermelho, daqueles que você começa com cebola tinindo na panela, depois tomate, sal, pimenta, essas coisas. Esse molho vai dar ma certa coloração ao prato final, contrastando com os outros dois tópicos, ambos meio pálidos. Se você vai acrescentar Pomarola ao seu molho é uma decisão pessoal sua. Tem quem considere isso uma ofensa, que desvirtua o tempero do cozinheiro, que descaracteriza o gosto do prato. Sei lá, a mim não parece ser pecado algum, e dá aquele gostinho bem balanceado.

O QUEIJO – pode ser de um tipo ou conter tipos variados. Fica a seu  critério. O queijo poderá ser usado em lascas, pedaços, fatias. Tais porções, no aquecer do forno, vão derreter aos poucos, dando o toque final a esta bela e dietética lasanha. Pode ser muzzarela, prato, gorgonzola, cavalo, provolone ou qualquer outro que você tenha conseguido.

PREPARO – coloque num prato refratário os três ingredientes, alternadamente. Assim, você faz uma camada com as rodelas de berinjela que vão forrar o fundo da travessa. A seguir, envolva-as carinhosamente com o molho. Passo seguinte deite os pedaços de queijo sobre tudo.  Mais uma camada com as rodelas de berinjela, mais molho, mais queijo. Faça tantas camadas quanto achar necessário. Uma vez que a travessa esteja cheia, coloque no forno em temperatura alta, e deixe o calor do forno fazer o trabalho daqui para a frente.

Fica uma delícia, a coisa adquire uma textura maravilhosa, um gosto inigualável. E para alegria dos que brigam com a balança, a coisa é diet. Sim, você usou apenas molho, berinjela e queijo. Você não usou massa em momento algum.

Confira nas fotos (de minha autoria) a qualidade do prato.

Silvano – o impossível

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Quibe Cru

20 de novembro de 2009 0

Sempre que aqui escrevo sobre comida árabe, vejo-me instado a delinear as delícias e iguarias do Baalbek, aquele restaurante ali da Av. Dr Timóteo, bairro Floresta, na capital gaúcha. Quando dá aquela saudade, aquela nostalgia, quando você começa a ver quibe cru em tudo que lhe passa pela frente, eis chegada a hora de se refestelar. Olhe a textura desse quibe, onde se vê o trio perfeito: – o quibe, a cebola e o hortelã. Arrasador. Para mim, compromisso imperdível.

Silvano – viciado

Crédito da foto: Silvano Marques

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Coisa de Gordo - 454

12 de novembro de 2009 1

454 – QUEM QUER DINHEIRO?

Sim, gosto de cultura geral. Gosto de cultura inútil, ali no alto deste blog, no seu subtítulo, isso está contemplado. Me atrai o saber. Talvez por saber tão pouco das coisas eu tenha esta sede inexplicável por conhecimento, leitura, etc.

Por força disso, sempre me atraíram na TV brasileira esses programas onde se testam os conhecimentos das pessoas. Isso mesmo, programas de perguntas e respostas.

Voltando aos tempos de minha infância (coisa do milênio passado, crianças), lembro que tem um cara na mídia que sempre foi afeito a este tipo de programação. O nome dele? Silvio Santos.

Na minha infância, quando transitava pela pequena cidade de Castro, interior do Paraná, arredores de Ponta Grossa, víamos o Silvio Santos passar o domingo todo fazendo seu programa na Globo. Sim, sim, não pense que me enganei. O Silvio era empregado da Globo, fazendo um programa direto das onze da manhã do domingo até as oito da noite. Aí lançaram um programa noturno chamado Fantástico para prosseguir a programação. O Silvio desligava as turbinas e entrava o Fantástico. Anos depois ele sairia da Globo, fundando sua própria TV, a TVS, atual SBT.

Chega de rodeios. Naquele tempo, o Silvio (estou ficando íntimo) apresentava um quadro chamado SÓ COMPRA QUEM TEM, onde três ou quatro participantes respondiam perguntas de esporte, história, atualidade, artes e outras coisas. Quem conseguisse acertar as perguntas e eliminasse os outros concorrentes, ganhava o prêmio máximo, um Fusca Zero KM!

Nós adorávamos o Só Compra Quem Tem, era uma diversão garantida. Mais tarde lançaram até um jogo pela Estrela, onde a gente podia, em casa, brincar de Silvio Santos. Com muita cultura geral!

Passadas décadas, virado o milênio, o Silvio lançou o SHOW DO MILHÃO, consagrado não apenas na TV, mas também nos computadores, onde foi um hit de vendas. Lançaram um, dois e venderam a mil. Com muita cultura geral.

Outras programas pipocaram aqui e ali, o Luciano Hulk tentou, assim como outros.

Então quem vem de novo nos trazer cultura geral? Ele mesmo. O mega-comunicador do SBT. Mas dessa vez não é ele que apresenta o show. O escalado agora é o Roberto Justus.

Não tenho por hábito assistir o SBT aqui em casa. Mas aí a SKY botou esse canal ali no 09. Assim, vez que outra, zapeando, passava por ali. Até que um dia fui fisgado.

O nome do programa é UM CONTRA CEM e é exibido nas quartas-feiras, às 22:30h. Um auditório, espécie de arquibancada circular, envolve o candidato e o apresentador. Ali, no meio de cem pessoas, cada candidato enfrenta uma série de perguntas que, se vencidas, o podem levar a um milhão de reais. O Roberto Justus está enlouquecido pois até agora todos que avançaram foram apenas até os 200 mil reais. Quando chegam aí desistem, com medo de perder tudo. As cem pessoas ao redor, à medida que vão errando as respostas, vão sendo eliminadas e isso é que aumenta o prêmio do solitário candidato.

Perceba o tipo de perguntas: – O mitológico personagem Ícaro, se conhecesse as marcas a seguir, escolheria qual produto? Skol, Fanta ou Red Bull? Nesse dia era uma mulher candidata e ao ler o enunciado comentou que não conhecia esse tal de Ícaro. Mal sabia ela que Ícaro desejava voar e teve suas asas, coladas com cera, derretidas ao sol. Assim, ele escolheria Red Bull, pois “Red Bull te dá asas.” São coisinhas desse tipo.

Às vezes mais complicadas. Ontem pediram o nome de um designer de calçados brasileiro. A resposta era Fernando Pires e eu nunca tinha ouvido falar no cara.

Enfim, trata-se de diversão garantida, e principalmente, um alegre exercício de cultura geral.

A sua quarta à noite eu não sei, mas a minha já ta ocupada. Um contra Cem!

Dá-lhe Silvio Santos, mago da TV mundial!

Silvano – o impossível

Crédito da foto: Reprodução a partir do site do SBT

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Naira envia frase da semana:

12 de novembro de 2009 0

Enquanto isso, em Itaipu, alguém falou para o estagiário: – Quando sair, desliga tudo!

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Coisa de Gordo - 453

08 de novembro de 2009 2

453 – NEGRINHO BÁSICO

Antes que os cariocas e paulistas estranhem, lembro que o “negrinho” aí do título é aquilo a que você chama de “brigadeiro”, o docinho de festa de criança. Já escrevi nos tempos do site ou mesmo do blog anterior que em relação a festas de aniversário, tenho visto muitas variações, muitas invenções, mas nenhuma que bata em sabor e categoria um trio que denomino “a santíssima trindade”.

Nada de pai, nem filho e nem espírito santo. Para mim, festa de aniversário doméstica, ou infantil, ou juvenil tem que ter PASTELZINHO FRITO, BRANQUINHO e NEGRINHO.

Por óbvio, sendo eu um degustador nato, sempre aprecio as novidades, os lançamentos, mas até o presente momento nunca me converti a outras correntes.

Numa época vieram os tais docinhos caramelados! Mas que droga! Os tais docinhos eram até que bem bonitinhos, reluziam ao flash das máquinas fotográficas, brilhavam por entre os copos de Fanta Uva. Mas quando a gente provava…tinha aquela carapaça endurecida de açúcar, que maculava completamente o conteúdo do docinho propriamente dito. Provei uma vez, duas, passei a reclamar. O que me incomodava ainda mais é que os tais doces caramelados eram mais caros que os convencionais. Após intensos embates filosóficos em torno do tema, eu sempre lançava mão do argumento derradeiro, aquele que por vezes encerrava a discussão: – a opinião pública. Obtemperava eu que do meio da festinha para o fim, bastava se observassem as bandejas de docinhos. Nelas não havia mais nenhum negrinho ou branquinho, e no entanto sobravam os tais caramelados. Ou seja, o povo também não gostava. Ah, mas são tão bonitinhos…. – diziam as nossas mulheres que eram quem os encomendavam. Pois é, caímos naquele obtusa lógica feminina que alega que se vai numa festa com o pé doendo o tempo todo, incluindo dança, janta e bebedeira, bastando para isso que o sapato apertado seja “deslumbrante!!”

Portanto, os tais caramelados não eram lá grande coisa em termos de sabor, mas elas os compravam em nome da estética da mesa. Mesa que após decorada cuidadosamente por seis horas, seria destroçada em seis minutos pelos coleguinhas endiabrados do seu filho. E que ao comerem os tais caramelados, cuspiam alguns nos cantos do salão, ou devolviam ali mesmo, babados, sobre a outrora lindíssima mesa. Aí mesmo é que ficavam reluzentes. Deu nojo , né? Então por que encomendar isso?

Senhor, senhor, tende piedade de nós.

Houve um tempo em que os docinhos tinham caras de pessoas, de bichinhos. Tinha um que era a cada duma mucama, uma negra com sorriso aberto e um lenço xadrez na cabeça, para dizer que ela era da cozinha. Para dar tanta identificação àquele pedaço de caloria engordante, as confeiteiras tinham que usar uns corantes misteriosos para fazerem lábios, olhos e nariz. E para completar a função botavam um pedacinho de pano na cabecinha da crioula, para dar o toque final. Não venham me taxar de racista, racista é quem inventou este docinho, com esse estereótipo da mulher negra. Aí a gente ia comer (o docinho, não a mulher) e se deparava com corantes, panos e tudo o mais. E aí a gente se queixava para a nossa “negra” (a mulher, não o docinho) e ela dava de ombros alegando: – Mas fica tão bonitinho…..

Senhor, escutai a nossa prece.

No setor de salgados, fecho a equipe com o citado Pastelzinho Frito. Simples, saboroso, fácil de encomendar, fácil de fazer, acompanhado de uma Coca-light ou uma cerveja bem gelada, leva ao delírio todos que dele provarem. O melhor ainda é o dia seguinte. O povo todo se foi, você ficou até a uma da manhã recompondo a sua casa, tirando copo de refri de cima do computador, removendo cera de vela da sua TV de LCD, catando forminhas pisoteadas no gramado do vizinho. Tomou aquele banho e adormeceu. Na manhã seguinte, ao abrir os olhos, um agradável desjejum o aguarda. Sim, você “inconscientemente” escondeu um prato de Pasteizinhos Fritos atrás dos livros da estante, e agora pode abrir o dia com todas as honras. Delícia, delícia.

Como citei antes, nada contra as variações. O que se questiona é a proporção nas encomendas. Sugiro assim. Para cada cento de Pastel Frito, uns vinte Risólis de Fungi. Para cada cento de Negrinho, uns dez Olhos de Sogra. E para cada cento do Branquinho, uns dois caramelados ou umas duas “mucamas” essas do paninho na cabeça. Aí a festa vai dar boa! O que eu temo é quando a mediocridade sobrepuja os clássicos da santíssima trindade, relegando-os a um papel secundário. Inadmissível! Pecado Mortal!

Quer me ver satisfeito numa festinha? Negrinho em profusão, Branquinho à vontade, Pastelzinho a valer. Aí você me diz:

- Silvano, onde está aquele pratinho cheio que estava por aqui?

E eu devolvo:

- Ele está no meio de nós.

Silvano – o impossível, herege e sacrílego

Crédito das fotos: Silvano Marques

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CONTO A QUATRO MÃOS

08 de novembro de 2009 0

Fui contar uma história dos tempos de faculdade para uma amiga e ela enlouqueceu. Contei-lhe que naqueles tempos reunimos um grupo de quatro amigos e nos metemos a escrever um conto em conjunto. Um de nós dava a largada, um ou dois parágrafos, aí passava a bola para o seguinte e assim, sucessivamente. Essa minha amiga de agora, CÁSSIA, que também se aventura nas páginas da rede com seu blog, gostou da idéia e topou na hora. Fazer o quê? Tive que começar, aí enviei o negócio para ela e aguardei a continuação. Assim, como dizem os paulistas e atendentes de telemarketing, vou estar publicando aqui neste espaço os capítulos dessa nossa empreitada. O primeiro é meu. Logo virá o dela.

Silvano – sempre inventando coisas

CAPÍTULO 01 – Silvano

Ele pegou o sabonete na pia do banheiro e esfregou no dedo, molhando. Precisava tirar aquela aliança logo, duma vez…PRÁ SEMPRE – gritou sozinho dentro de casa. Enquanto lutava para remover a aliança, as lágrimas vertiam sem cerimônia, molhando sua camisa. Fazia calor, talvez o dedo estivesse meio inchado e por isso aquilo era tão difícil. Se precisar eu corto este dedo fora – bradou de novo, para que somente as suas paredes o ouvissem. Mesmo se dando conta de que estava sozinho ele continuava falando de quando em quando, como se quisesse tirar um sarro de si próprio. Como se não bastasse o que estava passando, ele como que saía de si para fazer aquela autocrítica. Auto-piedade. Autocomiseração.

Por fim, a aliança se desprendeu e ele fez menção de jogá-la janela afora. Mas algo o segurou. Algo o impediu.

As lágrimas voltaram fortes e então ele se deu conta de que ao arrancar a aliança de seu dedo ele tirara de sua vida muito mais coisa do que só ouro. Ele meio que tentava exorcizar um passado recente e que, até ali, o fizera feliz. Mas aquilo agora era passado. Saiu a aliança e ele sentiu arrancar de si mesmo lascas de afeto, de carinho, do amor que um dia houve. As lágrimas eram como que um símbolo de seu sofrer, eram sangue emocional a escorrer.

Isso mesmo. Ali, no silêncio de sua casa, ele tinha uma “hemorragia afetiva”, ele sentia saírem de si as mais belas páginas de sua existência. Ele estava para morrer.

Lavou as mãos e a aliança. Secou tudo. Pôs a aliança no bolso da calça e suspirou. Ligou a TV da sala e estava no fim do programa do Faustão. Anoiteceu.

(em breve, a continuação desta história)

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PICANHA TRANSATLÂNTICA

08 de novembro de 2009 0

Essa me foi contada por uma comadre. Tem ela uns parentes e amigos brasileiros que moram na Itália. Sabe-se desde sempre que comer carne por lá é uma coisa mais cara, mais elaborada, difícil do que aqui em terras brasiliensis.

Assim, ela citou um cara que estando lá na Itália pede a todos que o visitam que levem umas PICANHAS na bagagem! Isso mesmo, leitor(a), umas picanhas na bagagem.

A mãe do cara estava para embarcar e recebeu dele a estranha encomenda, queria cinco cortes de picanha para fazer churrasco. Preocupada ele se informou por aqui acerca de eventuais problemas no caso de ser pega com a “mercadoria” a bordo. A pessoa que lhe esclareceu disse que se rastreassem a mala e achassem a picanha o que os caras fariam seria tirar a picanha da mala e ela prosseguiria a viagem normalmente.

Assim, fez e parece que deu certo. O plano consiste no seguinte. Congelar a picanha (ou picanhas), acondicionar nesses potes tupperware, enrolar bem em jornal, ou outro isolante térmico e colocar na mala, por entre as roupas.

Já pensou nisso? O pior é que mais de uma pessoa já fez isso para o cara e ele ta lá na Itália mandando ver na gordurinha bovina.

Picanha na mala…se isso não é uma COISA DE GORDO… não sei o que será.

Silvano – com inveja

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Olha nós ali na Feira, gente!

04 de novembro de 2009 0

Não tem como não se emocionar. Era aquele domingo de calorão, o dia 01 de novembro de 2009, para o resto do mundo apenas mais uma véspera de feriado. Para nós, eu e meu amigo Jerri, era uma data memorável. Tivemos nossa Sessão de Autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre. Rodeados de amigos, familiares, leitores, curiosos, eis que recebemos o carinho e a atenção adivinha de quem? Isso mesmo, do Patrono da Feira, o grandioso Carlos Urbim. Numa simpatia só, ele veio até nós, e nos acolheu carinhosamente naquele ambiente de cultura. Emocionante, já o disse. Olha só na foto, ele com o nosso livro na mão (FAMÍLIA FRENTE & VERSO). Demais, né? E vejam o efeito que ficou na foto….acima da minha cabeça…letras brotando em profusão! Rá, rá, essa foi demais. Que dia, meu(minha) amigo(a). Que dia! Haja coração.

Silvano – agora é que ninguém aguenta mais – mas que cara chato

Crédito da foto: Silvano Marques

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