469 - MEGASSENA
O estado do Rio Grande do Sul viveu uma semana anômala, esta que passou. Tudo se deu por conta de uma confusão armada, sabe-se lá por qual motivo. Numa Agência Lotérica na cidade de Novo Hamburgo apostadores compraram cotas de um "Bolão", a lotérica não pôs o jogo on line e para azar de todo mundo (ou será sorte?), o tal bolão teria acertado as seis dezenas se tivesse sido jogado. A confusão foi armada.
Deve a Caixa Federal pagar o prêmio? Pelo jeito não, afinal, o jogo não foi feito.
Deve a Lotérica pagar o prêmio? Ora, de onde uma loja vai tirar 53 milhões de reais para pagar os apostadores? Pelo jeito, também não.
Devem os apostadores jogar em coisas do tipo "Bolão", uma vez que os prêmios da loteria são pagáveis ao portador e não a supostos grupos? Não, não deve.
Essa foi a celeuma criada. Para minha admiração e desplante, a mídia foi tomada por este tema, entrevistas estão sendo colhidas, depoimentos ajuntados, testemunhos relacionados. Gente opinando, gente se envolvendo, gente ameaçando.
Isso ilustra bem o país em que vivemos.
Fosse uma celeuma em torno de uma vaga numa universidade, mal mereceria uma nota de pé de página no jornal. Fosse uma confusão por causa do salário atrasado de um trabalhador, nem seria notícia. Mas fala-se de um prêmio milionário...o Estado pára para discutir.
Os supostos prejudicados são um grupo de quarenta pessoas, sendo que cada um faria jus a um prêmio de um milhão e trezentos mil reais.
Aqui entra, talvez, a explicação disso tudo.
Dizem os especialistas que nós nos identificamos com os apostadores, eles representam simbolicamente os nossos anseios. Por essa lógica, é como se quiséssemos ter apostado no lugar deles, para enfim sermos contemplados com a grana toda.
Talvez isso me entristeça. Sim, sim, dinheiro é bom. Todos precisamos dele.
Mas esse é o caminho, a saída de emergência que nos apresentam. Um prêmio na loteria.
Ninguém falou numa bolsa de estudos numa Universidade. Ninguém deu bola prá um estágio profissionalizante. Poucos atentaram para um curso de investidores no Sebrae. O que nos chama a atenção é a magia de um dinheiro súbito e exagerado. Diante da notícia todos ficamos imaginando o que faríamos.
A nenhum de nós ocorreu imaginar um trabalho novo. Uma atividade nova. Imaginar o começo de um novo estilo de vida, com mais tempo para caminhar com os filhos e os cachorros e diminuir o tempo dedicado a pagar contas. Não, não pensamos nisso.
O que nos despertou a imaginação foi onde gastar aquele um milhão e trezentos. Carro novo. Apartamento na praia, viagem a Paris. E aí quase que fazemos uma listinha de prioridades só para ver onde gastaríamos primeiro.
Por isso o assunto está nas primeiras páginas dos jornais e nos debates do rádio. Porque diz respeito a todos nós. Tristemente, infelizmente. Mediocremente.
Pelo menos aqui em terras gaúchas ninguém deu muita bola à visita do Lula a Cuba bem no dia em que um dissidente morreu de greve de fome. Ué, não eram tão preocupados com direitos humanos? Ninguém falou da nova denúncia contra o Zé Dirceu. Ninguém foi conferir se o José Roberto Arruda ainda está preso. Nada disso. Por aqui, nos ocupamos com a Megassena. Saber se houve estelionato. Saber quem vai pagar.
Quem deve estar rindo disso são os banqueiros do Bicho. No Jogo do Bicho não tem perdida. O prêmio é pago com a honra do dono da banca. Já nas loterias do governo federal....vamos ver o que a justiça vai dizer.
Silvano - fora da lista que jogou no bolão


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