Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de outubro 2010

Remexendo no Baú - 2004

27 de outubro de 2010 1

No ano de 2004 eu ainda escrevia num site e naquela época publiquei um FOLHETIM, uma novela em capítulos. Publicava os capítulos junto com os posts e então, na hora do desfecho, abri uma enquete para ver qual o final preferido dos leitores. Tomei do resultado dessa votação e escrevi o capítulo final. Dia desses fui remexer no BAÚ e achei esta historieta. Achei por bem postá-la aqui. As fotos utilizadas tem o crédito do site STOCK PHOTOS.

Silvano – sempre inventando

FOLHETIM – 01

Aquela segunda-feira seria apenas mais um dia comum na vida de Amadeu. Triste, chuvosa, chata, ele tendo que sair cedo de casa para chegar a tempo de pegar o ônibus e ir trabalhar. Mas algo a tornava diferente. Depois de longos oito anos de relacionamento, finalmente seu caso com Paula terminara. Sim, longos oito anos. Por isso Amadeu sentia o dia um pouco diferente. Olhava a encosta do morro no trajeto do ônibus e agora percebia certos detalhes que antes nunca tinha visto. Umas casinhas coloridas, um belo rochedo que dava um aspecto de quina ao morro, a verde vegetação. Como pudera ele passar tanto tempo por ali e nunca ter visto aquilo? Puxa, e como isso tudo é lindo, gente! Era o nosso prezado Amadeu abrindo os olhos para o mundo.

A conversa com Paula começara no segundo tempo do Gre-nal, ali pelo meio da tarde, o Inter recém tinha feito o primeiro gol, isso ele lembrava. Bem nessa hora Paula o interrompera na sua alegria para dizer que precisava falar com ele já há algum tempo. Calma, Paulinha, deixa eu ver o replay , que golaço!

Amadeu, eu estou falando sério. Desliga essa droga e escuta. Não quero mais viver contigo!

Tarde da noite ele ficou sabendo do resultado do Gre-nal, vitória do Inter por 2 a 1. Pelo menos isso, pensou ele. Pelo menos isso.

O ônibus continuava sua viagem e Amadeu sentia o coração mais leve. Meio triste, é verdade, mas um tanto mais leve. Colocou a mão no bolso e tirou aquele papelzinho que ele redigira no meio da madrugada, ao ler um livro de citações: “Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.” Palavras de Platão, e que nosso Amadeu agora lia e relia e mais uma vez relia.



FOLHETIM – 02

Eles já tinham tido outras brigas anteriores, eles já tinham passado por vários percalços, mas aquela frase realmente o surpreendera. Não querer mais viver com ele? O que teria acontecido? Ela não podia estar no seu estado normal. Uma pessoa que vive com você há oito anos pode se irritar, pode reclamar, pode querer mesmo mudar algumas coisas, mas afirmar peremptoriamente que não quer mais viver com você é realmente muito forte. Muito estranho. Na verdade, é assustador!

Amadeu desceu do ônibus e se dirigiu ao escritório de engenharia onde trabalhava. Era desenhista antigo na casa, tinha uma mão boa para plantas e nanquins. Dona Nina logo soube do ocorrido, pois sendo secretária da firma estava sempre por dentro de tudo e antes mesmo do cafezinho das 10 horas da manhã ela já descobrira que Amadeu tinha sido deixado pela mulher.

Enquanto mexia ruidosamente seu cafezinho dentro da xícara Dona Nina dava palpites e tentava consolar Amadeu. Ora, Amadeu, você ainda é jovem, tem a vida pela frente. Essas coisas acontecem a qualquer homem. E além do mais tem sempre a chance de ela querer voltar.

- Não, Dona Nina. Ela disse literalmente que não queria mais viver comigo. Isso é irrecuperável. Não tem como remendar. E não que eu não a aceitasse. Sinto que ainda a amo, mas vejo que a decisão dela foi, por assim dizer, letal.

O que será de Amadeu? E por que Dona Nina mexe tão furibunda a xícara de cafezinho enquanto sua mente dá voltas e mais voltas? E esse batom vermelho que ela não usava desde o reveillon, por que resolveu colocar logo agora sobre seus carnudos lábios? Sim, uma mulher de cinqüenta anos pode ter lábios carnudos. E o que Platão tem a ver com esse rolo?

Não perca a resposta dessa e outras perguntas nos próximos atos.



FOLHETIM – 03

Enquanto Amadeu olhava o infinito pela janela Dona Nina mexia vigorosamente o seu cafezinho, e sentava olhos justamente em Amadeu. Ciente do que acontecera ao belo desenhista, ela tratara de tirar da última gaveta aquele provocante batom vermelho que ela usara apenas no reveillon. Sim, um homem triste é presa fácil – pensara ela.

Calma, Amadeu, você vai se recuperar logo dessa situação – era Dona Nina dando início ao seu plano. Sim, mulheres de cinqüenta anos com batom provocante sempre têm um plano. Amadeu com olhar tristonho pensava na frase de Platão. Não esperar por uma crise para dar valor ao que realmente importa em nossa vida. Puxa vida! O que afinal importa em minha vida? O que será agora? – Era nosso prezado Amadeu cheio de dúvidas.

Então Dona Nina lascou:

- Passa lá em casa mais tarde, Amadeu. A gente pode conversar melhor sobre isso. Vou te esperar às oito da noite. Toca o interfone que eu abro a porta do prédio. Ninguém aparece por lá. Estaremos a sós.



FOLHETIM – 04

Amadeu voltou para casa e notou um imenso vazio no espaço físico de seu lar. Um pouco pela falta de uns móveis, poucos quadros, muitas roupas e calçados. Mas outro tanto, e este era o que fazia diferença, pela ausência de Paula. Oito anos de relacionamento e agora esse silêncio. Se ao menos o tal do Platão estivesse aqui para me dizer outra daquelas frases suas. Avistou sobre a mesa um dos livros que Paula deixara aberto. E para suprema ironia, ela havia sublinhado uma citação de Platão: “O amor é um grave distúrbio mental!”

Puxa vida, mas até isso agora? Que diabos Paula queria dizer com aquilo? E os oito anos? Quanta injustiça, quanta coisa jogada ao vento assim, numa frase sublinhada, em um livro aberto, numa sala, numa casa abandonada, num coração masculino ferido.

Menos de meia hora e Amadeu subia as escadas do pequeno prédio de Dona Nina. Ainda movido pelo sentimento de rejeição, dava passos largos pelos degraus, subindo-os de dois em dois.

Na porta, a figura diferente de Dona Nina. Sim, no escritório ela tinha um ar mais senhoral, mais distante. Ali, diante da porta aberta, o que ele via era diferente. Via uma mulher de olhos ávidos e lábios úmido-avermelhados.

-Entre , Amadeu. Eu já estava ficando impaciente!



FOLHETIM – 05

Amadeu entrou e fechou a porta ruidosamente atrás de si. Sentia no ar o ambiente de lascívia que o aguardava. Dona Nina estava em chamas, por assim dizer. As palavras foram brotando da boca de Amadeu em turbilhão. Ele falava de Paula, dos anos todos, das duas frases de Platão, do vazio em sua vida. Neste momento sentiu a mão doce da mulher a apalpar-lhe o corpo. Meio confuso continuou falando, na solidão no medo……Dona Nina o que é isso? Puxa vida…… Dona……

Amadeu foi tragado, devorado, abusado pela madura secretária. A noite foi curta para tantas investidas. Já nem se lembrava de certas coisas que a sedutora mulher agora o fazia recordar. Num dos intervalos notou que ela possuía diversos equipamentos como câmeras, filmadoras. Inclusive num dado momento ela suplicou ao jovem que se deixasse fotografar. Surpreso nosso assustado Amadeu permitiu, sem entender muito bem o que era aquilo.

Quase amanhecendo, levantou, despediu-se e foi para casa tomar um banho. Tinha que trabalhar. E agora, como seria o encontro com Dona Nina no escritório?

Será que Platão vai continuar se metendo nessa história? Quem poderia esperar tanta luxúria num corpinho de uma secretária de cinqüenta anos, hein? E Paula? Não aparecerá mais nesta novela? No próximo capítulo a resposta de algumas dessas perguntas imbecis.



FOLHETIM – 06

Falávamos de Amadeu. Cabelos ainda molhados, o jovem desenhista entrou no escritório cedo e já encontrou Dona Nina e outros colegas de trabalho. A mulher foi impassível, tratou-o gentilmente como sempre o fizera, apenas agora ela mexia o cafezinho um pouco mais calma. Parece que descarregara alguma energia.

No meio da tarde ele teve que pedir a ela um ofício para remeter à Prefeitura. Dona Nina, eu preciso do ofício padrão da prefeitura. Por favor, imprima um para mim. – era Amadeu com a voz tensa falando com ela. Estavam sozinhos na sala. A mulher foi tão impassível quanto seu batom avermelhado e seu coque no alto da cabeça. Amadeu agradeceu, pegou o papel, já ia saindo quando a fêmea, digo,  a secretária, balbuciou cantarolando:

- “Difícil demais, te amar assim….”

- Eu lhe devo desculpas, Dona Nina. – falou ele. E além do mais eu não gosto de música do Zezé di Camargo e Luciano. Mas me desculpe mesmo assim.

- Desculpas por me fazer tão feliz? Por arrancar de dentro de minha alma sensações e sentimentos que eu não sabia mais que tinha? Por me fazer sentir-me viva de novo? Por me mostrar que aquela frase de Fernando Pessoa ainda é atual?

- Que frase? – ele pulou intrigado.

- “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena!”

Não, ele não agüentaria mais citações. Chega disso. Sua cabeça dava voltas. Um engenheiro entrou na sala e quebrou o clima. Amadeu saiu calmamente.

Sentou em sua mesa de trabalho, o telefone tocou, era Dona Nina. Antes que ele suspirasse, ela passou uma ligação telefônica, dizendo: – Sua esposa na linha dois.

Sim, amigos, eis que Paula volta a aparecer nesta história.

O que Paula quer de Amadeu? E as citações? Será que Platão deu lugar ao poeta português? E o corpo dolorido de Amadeu já se recuperou da noitada? No próximo capítulo, a continuação.



FOLHETIM – 07

Sua esposa na linha dois! Sim, era Paula ao telefone. Amadeu congelou, dizendo apenas o Alô tradicional, os olhos marejados, o que será que Paula queria com ele?

- Oi, Amadeu. Eu apenas te liguei para avisar que vou ter que passar hoje de tarde lá no apartamento para buscar umas coisas que eu esqueci. Deixo a chave sobre a mesa e prometo não voltar nunca mais.

- Espera! Vamos conversar…..

- Tchau, Amadeu. Vê se não vai aparecer por lá na hora que eu for! Não quero mais conversa.

- Mas e os oito anos, não significaram nada? Acabou simplesmente assim?

- “Quando as palavras valem menos que o silêncio, deve-se manter silêncio!” – sabedoria oriental. – Paula disse isso e desligou.

Não, não, não….mais citações. Amadeu passava a odiar citações. E que história era aquela de palavras serem mensuradas em relação ao silêncio. Como podia isso? Eram coisas diferentes.

Com o telefone ainda encostado ao ouvido, meio zonzo, Amadeu viu Dona Nina aparecer diante de sua mesa com papéis na mão. O xerox que você pediu – disse ela em voz alta. Vou te esperar às onze da noite, depois do Big Brother, dessa vez vamos olhar juntos algumas coisas que filmei – disse ela agora num sussurro.

- Dona Nina, por favor…

- Eu não sabia que você fotografava tão bem quando sem roupa, Amadeu….

Ele estava perdido. O que essa mulher estava aprontando para ele? E Paula, por que fora tão seca ao telefone?

Chegou a noite. Amadeu assistiu ao paredão do Big Brother e saiu da casa em direção ao encontro com Dona Nina. Notara a falta de algumas coisas em seu apartamento, coisas que por certo Paula viera buscar. Que injustiça. Tanto tempo juntos e ela ainda vinha pegar as quinquilharias. Puxa vida – ele se deu conta só agora – ela levou a escultura da entrada!

Era uma carranca, uma daquelas caras feiosas que a gente compra quando vai ao Nordeste brasileiro. Numa viagem a dois eles compraram a tal cara, sendo que tiveram um trabalho enorme, era muito grande, tiveram que contratar transporte, coisas assim. Paula sempre gostara da tal carranca, tinha dado um apelido a ela, às vezes até conversava com a carranca de gozação.

Amadeu subia as escadas do prédio de Dona Nina com todas essas coisas fervilhando em sua cabeça, quando passou a escutar gemidos e sussurros sensuais. Que estranho. Ao chegar diante da porta do apartamento de Dona Nina viu que era dali que vinham os ruídos, gemidos, gritos. Dona Nina abriu a porta e sussurrou:

- Entra, Amadeu! Eu estava olhando as imagens do filme que nós fizemos no outro dia…

- O que? – disse ele admirado.

- Sim, está tudo filmado. Olha o que tu fizeste comigo. O prazer que me deste. A loucura a que me arrastaste….

- Mas como que a senhora filmou tudo assim tão nitidamente???…..

Tarde demais. Amadeu foi novamente tragado pela onda de sensualidade que rolava entre ele e a coroa, entregando-se aos mais desregrados prazeres. Nesta noite ela pediu até mesmo para usar cordas, algemas, chicotes. Amadeu estranhava, mas atendia aos pedidos da fogosa mulher.

Isso ainda vai me matar – pensou Amadeu.



FOLHETIM – 08

Isso ainda vai me matar – era Amadeu pensando nas noitadas que passava com Dona Nina e que o levavam à loucura. Que mulher enlouquecida! Ela pede de tudo e faz de tudo, coisas que eu nem sabia que se fazia nessa área.

Foram várias as noites e muitos paredões do Big Brother se sucederam.

Numa quinta-feira Amadeu bateu à porta do apartamento de Dona Nina. Ela o chamara para uma conversa séria. Desta vez sem sexo – ela avisara.

A porta se abriu e pela primeira vez, ali naquele ambiente, Amadeu encontrou aquela senhora discreta e refinada do escritório. De óculos, ainda de coque no cabelo, trajando as roupas usuais dela no escritório.

- Dona Nina, eu não….

- Sente-se, Amadeu. Hoje quero apenas conversar. Um pensador chamado Juvenal disse que “a vingança é o prazer abjeto de um espírito abjeto.” Não sei se concordo com ele, mas passei grande parte de minha vida esperando esse dia.

- Dona Nina, chega de citações. Eu não agüento mais isso. Mas se a senhora quiser eu posso usar delas também. Vamos lá: – “A vingança é um prato que se come frio!”

- Eu não estou brincando, Amadeu. Por anos e anos esperei por esse dia. Antes que você tente algum tipo de violência já o alerto que tomei medidas de segurança. Se algo me acontecer há uma fita gravada acusando você pela violência. E além do mais, “a violência faz até justiça injustamente”, como dizia Carlyle.

- Dona Nina, pare de usar citações. O que significa essa conversa maluca toda? O que eu tenho a ver com isso? Por que a senhora quereria se vingar de mim? E por que ainda estamos vestidos e sem transar?

- Hoje não tem transa, meu jovem. Aliás, nunca mais! Tudo o que eu fiz foi pela memória de Adalgisa, a minha princesa que se foi. Deus há de me perdoar.

Amadeu começava a ficar atônito. Aquele diálogo maluco o intrigava. Quem era Adalgisa? E será que Dona Nina enlouquecera? Por que a mulher falava em violência? E por que diabos sua vida estava tão repleta de citações. Vinham de todos os lados. Seria uma praga?

Nos próximos capítulos, a continuação da saga de Amadeu, o homem que se envolveu (rá,rá,rá – pensaram que era outra coisa).



FOLHETIM 09

No apartamento de Dona Nina, Amadeu ouvia atônito as palavras e citações da mulher. O que tinha mudado?

Dona Nina pegou um lenço branco e, secando uma pequena lágrima no olho esquerdo, começou a explicar. Ela tinha uma jovem filha de nome Adalgisa, uma linda e morena moça. Sempre estudiosa, Adalgisa dava muita alegria à mãe, com notas boas e elogios na escola. No grupo de amigos ela era uma unanimidade, sempre requisitada para atividades sociais. Era prestativa, sociável, uma jóia de pessoa. Até que…

O quê Dona Nina? – Amadeu emendou curioso, diante do silêncio da mulher.

Até que ela fez quinze anos. Aquele ano todo foi de alegria para mim e para o pai dela. Preparamos uma grande festa de quinze anos, planejamos tudo, desde o fotógrafo até a decoração do pátio do clube. Ela exultava com a chegada da data. E então ela conheceu um rapaz do terceiro ano em sua escola, o Marquês do Pombal.

- Ué, mas é o mesmo colégio que eu estudei – disse Amadeu mais e mais intrigado.

- Sim, Amadeu, era o mesmo colégio que você estudava. Ela conheceu esse rapaz numa apresentação da semana santa e decidiu que iria convidá-lo para ser seu par em sua festa de quinze anos. Tudo estava acertado, a festa se aproximando, e aí ela foi convidar o tal rapaz. Ele falou rapidamente com ela, tinha que estudar para uma prova, ao que parece, ficou de confirmar depois. Ela mal dormia nos dias seguintes, esperando pela resposta. E finalmente o rapaz concordou e aceitou o convite.

- Dona Nina , espera aí..

- Sim, Amadeu, esse rapaz era você! Você foi o causador de tudo! Você me fez perder a minha princesinha Adalgisa.

- Mas Dona Nina, deve haver algum engano…

- Cala a boca, rapaz. Se houve algum engano foi o fato de Adalgisa ter escolhido você para ser o par dela em sua festa de quinze anos. Mas deixe-me continuar. Tenha paciência, pois “a paciência é amarga, mas seu fruto é doce”, já dizia Rousseau.

- Por favor, sem citações, Dona Nina.

- Deixe-me falar. Uma semana antes da festa ela foi enfim saber de você a confirmação e você disse que estava tudo certo, que poderia aparecer lá na festa para ser o par dela. No dia combinado, tinha um jogo no Beira-Rio, você foi ao jogo e esqueceu de ir à festa. Era um Gre-nal, mais uma vez o seu time colorado ganhou, e em meio àquela euforia você se esqueceu de ir à festa que nós levamos tanto tempo planejando.

- E a Adalgisa?

- Ela ficou arrasada! Para ela aquilo foi o castigo do ano, a derrota da educação, a desilusão a penetrar-lhe o coração logo ali….na sua festa de quinze anos!

Gente, de Deus, que novela mais enredada! O que mais virá agora? Adalgisa? Festa de Quinze Anos? Te explica, Amadeu!!!!… No próximo número a continuação da saga.



FOLHETIM 10

Dona Nina faiscava fogo pelos olhos. Amadeu sentado, quieto, estranhava aquilo. A visão que tinha dela era bem outra. Ou outras. Tinha uma visão inicial dela que era aquela senhora respeitável de coque, com quem ele convivia profissionalmente.

Tinha a segunda visão dela que consistia numa fogosa coroa que o levava à loucura através de noitadas infernais. E agora se defrontava com essa terceira visão, uma mulher em ódio, vertendo todo o seu ressentimento.

- Naquela época, Amadeu, a nossa Adalgisa ficou profundamente magoada com a recusa de sua ida ao baile. Um verdadeiro bolo que você deu nela. Depois daquilo, ela nunca mais se recuperou. Ficou tristonha, perdeu a alegria de viver. Uns meses depois ela se envolveu com drogas. Saiu com uma porção de gente, destrambelhou. Um ano mais tarde ela saiu de casa para uma festa e nunca mais voltou. Sumiu. A polícia pensa que mataram ela. E tudo por culpa sua, seu desalmado.

- Dona Nina, isso tudo é um grande equívoco. Eu era um adolescente….

- Que matou a minha filha! – berrou a mulher. Mas a sua hora chegou, Amadeu, espere o dia de amanhã e você verá.

No dia seguinte Amadeu foi trabalhar assustado. O que aquela mulher poderia fazer contra ele? Pedir a sua demissão? Isso ele contornava.

Ao chegar na frente do prédio havia toda uma movimentação de carros e pessoas. Gente de cara estranha por ali. E sim, um dos carros era da polícia. Subiu no elevador e esperou ansioso a porta se abrir. Ao parar no andar dele, a porta se abriu e então ele viu ali, parada diante de si, a figura de Dona Nina. Ela o fitou por uns segundos e então desandou num choro berrado, quase que histericamente, e começou a dizer:

- Foi ele, doutor, foi ele….esse monstro me torturou!

Sem entender nada Amadeu foi arrancado de dentro do elevador por policiais fortões que imediatamente o algemaram. O tumulto estava feito. Calma gente – ele pedia. Eu posso explicar. Mas os rostos dos colegas de trabalho não eram dos melhores. Pareciam assustados.

- Sr Amadeu – disse o delegado Ilha. O senhor está preso por crime de seqüestro, atentado violento ao pudor, cárcere privado, tentativa de assassinato e outras coisas mais que não me ocorrem agora, mas que terei o prazer de enviar ao juiz na hora certa.

- Delegado, isso tudo é um grande engano. Eu posso explicar….

- Aqui não! Na delegacia.

E foram embora levando Amadeu algemado e sob os olhos atônitos de seus colegas de trabalho. Ao passar pelo chefe ouviu-o dizer:

- Que canalhice, Amadeu. Nós confiávamos em você e você foi capaz de fazer essa barbárie com a pobre da nossa secretária.

- Mas……

Tarde demais para nosso prezado Amadeu. O que terá feito Dona Nina?



FOLHETIM – 11

Levado para a delegacia Amadeu foi cientificado do que houvera. A versão de Dona Nina era de que Amadeu a aprisionara em sua própria casa e, violentamente, a forçara aos atos mais libidinosos possíveis, coisa que ela teve que fazer para não ser morta. Nos dias seguintes ele voltara ao apartamento da pobre senhora e continuara as sessões de tortura. E não adiantava ele negar – disse o delegado Ilha – está tudo gravado nas fitas que você mesmo gravou, seu pervertido. As cenas são chocantes. A pobre mulher amordaçada, amarrada, sendo submetida a toda sorte de sevícias. As lágrimas a verterem dos olhos da pobre infeliz denotam o horror pelo qual ela passou.

- Mas, delegado, isso tudo é uma cilada uma armação, ela pediu para eu fazer aquilo, ela é que filmou tudo…

- Há, há, há…essa é boa meu rapaz. Uma coroa cinqüentona ia fazer aquilo tudo e depois te denunciar? Inventa outra! E tem mais, “meu astro pornô” (disse o delegado Ilha em tom irônico), acho que hoje você vai sair das telas da delegacia para o Jornal Nacional.

Para desmazelo de Amadeu, o delegado acertara. Oito da noite, de dentro do xadrez em que estava preso, junto com mais oito bandidos, eles foram “presenteados” pelo carcereiro que virou uma TV pequenina para que eles pudessem ver as notícias. E logo no início do Jornal Nacional, a notícia:

“Preso hoje cedo um maníaco que seqüestrou e violentou uma pobre senhora, colega sua de trabalho. O crime foi documentado pelo próprio bandido através de câmeras. A polícia desconfia que ele possa fazer parte de uma rede de pornografia e que distribuísse as imagens pela internet.”

E aí Amadeu viu, de dentro da cela lotada, a sua foto, o seu nome completo, e até algumas cenas devidamente censuradas pela TV, mas onde se ouviam os gritos de Dona Nina em aparente súplica: “Por favor, não me mate…por favor eu não agüento mais!”

A gritaria foi geral na cela. Os outros presos urraram e se deliciaram com a cena mostrada. E passaram a hostilizar Amadeu, vendo nele uma espécie de estuprador. Demorou até que fossem acalmados pelo carcereiro.

No dia seguinte o delegado Ilha teve que providenciar uma cela separada, pois Amadeu corria risco de vida. Não que você não mereça ser linchado, seu verme, – disse o delegado – mas eu quero poder ajudar na sua condenação no tribunal. Pena perpétua dói mais que morte violenta.

Pobre Amadeu.



FOLHETIM 12

Passada uma semana um advogado apareceu para falar com Amadeu. Começou dando uma idéia geral do que se transformara a vida de Amadeu:

- Você foi demitido por justa causa. Sem direitos trabalhistas. Seus bens estão indisponíveis em seu apartamento, à disposição do judiciário. O juiz negou o habeas corpus que eu impetrei no dia que você foi preso. Suas imagens correram o país e já passaram até na CNN de Miami. Sim, meu caro, aquelas imagens estão correndo o mundo. Sua família me contratou com uma condição…. que você nunca mais os procure. A coisa está feia, Amadeu.

- Mas Dr Fernando (esse o nome do advogado), foi tudo uma armação. Eu posso lhe explicar. Tudo começou com uma adolescente chamada Adalgisa…

- O que? Você já tinha feito isso antes? E com uma adolescente?

- Não, Dr. Fernando, deixe que eu lhe explico.

- Olha, meu caro, eu não tenho tempo para bobagens. Por favor, eu já estou correndo risco de vida e até ameaças por ter vindo aqui para tentar defendê-lo. Veja bem! O país está de olho nesse caso. Eu tenho uma reputação a defender. Você já destruiu a sua, mas eu ainda tenho a minha.

Amadeu desistiu de fazer o advogado ouvi-lo. O homem já o havia condenado antes mesmo de entrar na cela. É, parece que Dona Nina tinha conseguido o que ela queria. Sua vida tinha sido destroçada. “Ao perdedor, as batatas “- pensou ele, já ficando com raiva de si mesmo por ter pensando numa citação. Chega de citações, falou em voz alta.



FOLHETIM 13

Amadeu estava desolado. Não bastasse toda a armação de Dona Nina, agora ele tinha virado o inimigo público número um do país, as imagens correndo o mundo. Ficava até envergonhado só de pensar nas coisas mirabolantes que tinha feito com Dona Nina, a serviço da aparente lascívia dela. Lembrou que ela fazia pedidos realmente estranhos, pedia algemas, chicotes, e que ele, Amadeu, tinha atendido a tudo que ela pedira. Estava perdido. Ralado. Todas as nuances de sua vida tinham ruído. Seu casamento. Sua vida profissional. Sua vida pessoal. Sua intimidade. Sua liberdade. Tudo isso tinha ido para o espaço. Sua vida tinha sido zerada.

Deprimido, magro, barba por fazer, passava seus dias na cela da delegacia enquanto aguardava o andamento do Inquérito Policial. Era hostilizado por outros presos, pelos carcereiros, pelo delegado Ilha, pelo seu próprio advogado.

Um dia, após mais um jogo de futebol (ele tinha ouvido pelo rádio de um preso da cela ao lado), mais um Gre-nal com vitória do Inter, o delegado Ilha veio falar com ele. Estava sério. Devia ser torcedor do Grêmio.

- Olhaí, ô estuprador, trata de ficar bem bonitinho, tomar banho, fazer a barba que amanhã você tem uma visita.

- Delegado Ilha, eu…..uma visita? Puxa, que surpresa! Pensei que não receberia visita de ninguém.

- Eu também, seu vagabundo. Mas sua mulher vem vê-lo amanhã de manhã.

- Paula? Que legal! Pensei que ela jamais viesse aqui.

- Paula, não! É uma tal de Adalgisa. Na verdade ela não disse que era sua mulher. Eu é que pensei isso. Mas o que importa é isso. A tal Adalgisa vem ver você logo cedo amanhã.

O delegado se afastou e Amadeu ficou congelado no canto da cela. Adalgisa? Mas só se for um fantasma. Essa guria já morreu! Ai, meu Deus, ai, meu Deus!

E agora. O que acontecerá a Amadeu? Como Adalgisa voltou do além? E como vai fazer barba se nem gilete ele tem? Não percam na próxima semana. E não se desesperem. A história está próxima do fim!



FOLHETIM 14

Sem poder fazer a barba, sem poder entender muito bem o que se passava, Amadeu foi levado a uma sala especial para receber visitas. Andava algemado, com dois carcereiros ao seu lado, até que foi deixado no local onde falaria com a tal visita. Constantemente ficavam três homens parados no fundo da sala, observando a movimentação. Esse aparato todo não seria dado a qualquer chinelão, é que com a notoriedade do caso, Amadeu acabou ganhando regalias como essa.

A porta se abriu, apareceu uma mulher alta, morena, linda, cabelo comprido, olhos penetrantes, boca bem pintada por um batom vermelho labareda. Ao entrar na sala o ambiente ficou tomado de uma aura de mistério e de um perfume que se confundiam um com o outro.

- Oi, Amadeu. Eu sou a Adalgisa!

- Mas, eu não entendo, não pode ser. Você morreu!

- Bobagem, Amadeu. Na verdade eu nem era para estar aqui. Estava de saco cheio das incomodações da minha mãe naquele tempo de minha juventude. Não podia mais viver com ela tentando me controlar. Aproveitei aquela história do baile para simular uma crise emocional e dei no pé.

- Mas, Adalgisa, como você está linda! E como mudou! Me desculpa pela história do Baile. É que o Inter estava mais uma vez massacrando o timinho do Grêmio e eu não podia deixar de ver. Eu não pensei que…

- Deixa disso, Amadeu. No final você até que me ajudou. Eu moro numa cidade do Paraná e vi as imagens na TV, ouvi toda a história e achei que devia vir aqui para inocentá-lo. A minha mãe é uma louca.

- Puxa, obrigado, Adalgisa. Vou ficar te devendo essa. Ninguém estava acreditando em mim até agora. Fico mais aliviado.

- Só que tem uma coisa, Amadeu – disse a morena com a voz mais rouca e misteriosa.

- O que foi?

- Você tem que prometer que ao sair daqui vai me levar para a cama. Depois de ver o que você fez com minha mãe, fiquei completamente perturbada. Nunca tinha visto um amante tão perfeito. Eu quero você, Amadeu. Eu quero você…

Um guarda se aproximou e avisou que o horário da visita tinha acabado. A morena se levantou e saiu deixando atrás de si aquele rastro de sensualidade e mistério.

E agora, gente, o que será de Amadeu?



FOLHETIM 15

Nos dias seguintes Amadeu receberia mais duas visitas que o deixariam perplexo. A primeira foi de Paula, sua ex-esposa.

- Paula, eu nem sei por onde começar. Olha só…

- Calma, Amadeu. Eu vim aqui para te falar uma coisa. Sim, eu vi as cenas gravadas nas fitas e de cara percebi que você não estava forçando a coroa a fazer nada. Ela estava a fim daquilo.

- Puxa, que alívio, mas vê só…

- Eu sei que errei com você, Amadeu. Me perdoa. Eu acho que podemos tentar reerguer nosso casamento. Afinal, a esperança é a última que morre.

- Por favor, sem citações. Isso me deixa louco.

- O que eu vi nas fitas me transtornou, Amadeu. Eu quero você de volta. Logo que te soltarem após essa barulheira toda eu estarei lá fora te esperando. Eu te amo, Amadeu. Eu te desejo.

Fim da visita – gritou o guarda. Amadeu estava congelado. Não entendia mais nada. Num dia o tarado em rede nacional. No dia seguinte um Don Juan de plantão. Que doideira.

Dia seguinte, nova visita. Era Dona Nina! Silêncio pesado na sala de visitas do xadrez. Amadeu em silêncio sem entender mais nada do que se passava. A secretária de coque no alto da cabeça o olhava aflita, suspirava, virava-se para o outro lado. Até que tomou coragem e iniciou:

- Me perdoa, Amadeu. Eu estou perdida em meio a isso tudo que eu mesma armei. A volta de Adalgisa me ajudou a ver melhor as coisas. Eu fui uma mãe possessiva, meio louca, que dediquei toda uma vida a me vingar de você. E que no final sequer tinha culpa alguma.

- Dona Nina, eu…

- Espera, Amadeu, deixa eu falar. O que acontece é que ao fazer toda a execução do meu plano, seguido passo a passo, dia a dia, eu acabei sendo atingida por você em minha parte mais vulnerável. O meu sentimento! Você fez brotar coisas em mim que eu julgava mortas, Amadeu. E desta vez eu falo isso de coração. O que nós fizemos nas noitadas intermináveis de prazer ficou gravado em minha memória para sempre. E desde aqueles dias eu não durmo mais sem desejá-lo do fundo do meu ser.

- Mas e as acusações?

- Eu prestei um longo depoimento ao delegado e ao promotor, contando tudo. Fiz as pazes com a Adalgisa. Retirei tudo que fiz contra você. Só te peço uma coisa. Volta prá mim, Amadeu, eu sou e sempre serei tua…..

Que enrascada. O que será de nosso prezado Amadeu? O que deu nessa mulherada, gente? O cara não entendeu mais nada! Naquela noite o Delegado Ilha veio até a cela e pediu desculpas a Amadeu, dizendo-lhe que seria solto na manhã seguinte, que não levasse a mal. E para finalizar pediu um autógrafo de Amadeu numa das fitas de vídeo que até então fora usada como prova contra ele. É para fazer uma surpresa para minha esposa – explicou o delegado Ilha.

Amadeu foi dormir após dar o autógrafo na fita de vídeo. Que dilema! O que será de mim, pensou ele ao dormir?

Pois é, gente, o que será de Amadeu?

Não percam no próximo capítulo o desfecho desta novela.



FOLHETIM 16 – o capítulo final

Eis chegado o momento do CAPÍTULO FINAL. Hoje acaba a saga de Amadeu. Felizes vocês que estarão livres de tanta asneira. Mas vamos ao que interessa.

Naquela noite Amadeu não conseguiu pregar o olho. Que loucura virara a sua vida. Depois de tantas citações literárias fajutas, tantas noitadas de lascívia, tantas surpresas e traições, a vida parece que dera uma volta completa e resolvera agora brindá-lo com a fama, o perdão e a glória. Tinha sido inocentado perante a lei e perante a mídia. Tinha sido perdoado pelas três mulheres com quem se enredara recentemente. Vira a volta quase miraculosa de Adalgisa, como que saída do além para esclarecer a história. Vira Paula se reaproximar tentando reconciliação. E vira Dona Nina vir revelar sua trama inocentando-o de tudo.

A noite passou, ficara o tempo todo ouvindo ao fundo um rádio de outro detento, onde os comentaristas falavam de mais uma vitória do Inter em Gre-nal. Só isso não muda – pensou Amadeu. O Inter sempre massacra o pobre time do Grêmio. Mas o resto de minha vida…

Amanheceu. O barulho do xadrez voltando à rotina do dia, as pessoas se mexendo, até que o delegado Ilha apareceu. Pronto, Amadeu, aqui está sua ordem de soltura. Você está livre. Desculpe alguma coisa, o pessoal às vezes exagera.

Amadeu sorriu amarelo, pegou os papéis e foi saindo. Do lado de fora a imprensa o sufocava com máquinas fotográficas, câmeras e microfones. Ele falou rapidamente que agradecia a Deus e à consciência das pessoas que o tinham ajudado. Logo dispersou o grupo da imprensa e foi sendo levado para um carro da empresa onde trabalhava. Sim, ele tinha sido readmitido e com um salário bem maior.

Diante da Van Amadeu congelou. Ali, paradas ao lado da porta, as três mulheres. Na frente estava Paula. Ele se aproximou dela e falou:

- Paula, eu pensei que fosse feliz com você, mas quando você partiu daquele jeito percebi que nosso casamento era só uma ilusão. Tenho um carinho muito grande por você, mas não conseguiria mais ser casado com você.

Ele deu um longo abraço e um longo beijo na face de Paula, que saiu silenciosa e com uma lágrima no canto do olho. Logo a seguir se dirigiu a Adalgisa:

- Adalgisa, você é uma mulher fascinante e misteriosa. Apareceu na minha vida, sumiu e agora vem para colocar as coisas em ordem. Juro que gostaria de ter te conhecido quando jovem, mas a vida passou. Seja feliz e mais uma vez obrigado por ter aparecido.

Ele igualmente a beijou a abraçou demoradamente, liberando a morena que saiu caminhando rápido. E então Amadeu parou diante de Dona Nina:

- Dona Nina, eu tinha mais é que mandar a senhora se lascar, depois de tudo o que a senhora me fez passar. Bagunçou a minha vida pessoal, profissional, amorosa, sexual. E quase que me condenou à prisão perpétua, no final das contas. Mas nada disso aqui importa. O que ficou para mim, depois disso tudo, é que jamais conheci alguém que tenha me feito sentir o que eu senti naquelas noitadas, naqueles dias, naquele tempo em que tivemos o nosso caso. Sim, Dona Nina, eu lhe digo que ali eu fui o mais feliz dos homens. E em nome disso é que eu quero lhe dizer uma coisa. Vamos viver juntos para sempre. A vida, a fama e as nossas noitadas nos aguardam.

Disse isso e beijou a mulher que já estava em lágrimas na boca, abraçando-a vigorosamente. Logo a seguir entraram na Van e foram saindo devagarinho. Toca para a empresa, disse o gerente no banco da frente. Mas antes passa na casa do “Doutor Amadeu” que ele tem umas coisinhas para acertar com a nossa secretária.

A Van deslizou pelas ruas e mais um dia de sol se ensaiava por cima das nuvens e do vento a farfalhar.

“Nada de novo há no rugir das tempestades” – dizia o poeta russo Maikovski.

FIM DA HISTÓRIA



Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 496

22 de outubro de 2010 3

496 – O PAIZINHO DOS POBRES

Esta eleição para presidente do Brasil tem uma coisa muito maluca. Você já sabe, falarei o óbvio. As pessoas não estão votando na Dilma, as pessoas estão reelegendo o Lula. Ah, mas ele não é candidato – dirão alguns. Isso não importa, ele está sendo re-reeleito!

Ao que me parece (e assim também pensam todos os institutos de pesquisa) o Lula vai ganhar esta eleição. Bacana, uma bela conquista. E que bota por terra todos os conceitos do PT de organizar as massas, formar comitês, tirar propostas, levar às plenárias, escolher a vontade da maioria. Nada disso. Isso foi por terra.

Por uma série de fatores que não caberia aqui elencar, o Lula caiu nas graças do povo e virou mito. Apareceu um escândalo. Dois. Três. Inúmeros. O povo não quer saber disso. Mito não rouba. E se roubou, teve lá os seus motivos.

Imagine você um escândalo desses da Erenice Guerra, essa roubalheira na Casa Civil, acontecendo aqui no Rio Grande do Sul, no governo da Yeda Crusius! Meus Deus!!! Tinha dado até tiroteio na praça! O CPERS tava na rua! O SINDIPREV bloquearia o trânsito. A OAB local convulsionaria! No entanto, lá em Brasília, isso caiu no descaso aos olhos populares. Você pergunta a qualquer pessoa se ela acha que houve crime, e todos concordam: – Houve crime! Aí você pergunta se isso mudará o voto dela para presidente e elas, com ar de enfado, diz que não. Que mesmo com roubo, ela vai votar no Lula!

Esse pequeno ato falho eu já vi várias vezes. Em vez de citar a Dilma, a pessoa começa falando da eleição, vai falando e sem se dar conta diz que vai votar no Lula! É isso aí, a exemplo do Getúlio Vargas, o Lula virou o PAIZINHO DOS POBRES. Um mito, uma lenda, um semi-deus!

Se lhe dissessem que o Silvio Santos sonega imposto, o que você diria? Ah, mas o Silvio é maravilhoso! Deixa ele em paz! Exatamente! O Silvio Santos também é mito! O Ayrton Senna era mito. O Lula virou mito.

Portanto, não se desespere, passados esses rápidos quatro anos da Dilma, o Lula voltará nos braços do povo com 80% dos votos! Para mais oito anos.

O Getúlio tinha sua polícia repressora, era torturador. Pelas mãos do delegado Filinto Muller muita gente sangrou e morreu nos porões do governo daquele tempo. Disso ninguém fala. Quando chega o aniversário da morte do Getúlio, a gauchada se manda prá São Borja e vai lá na beira do túmulo fazer homenagens. E vão políticos de todos (ou quase todos) os partidos, e choram e fazem discurso. E beijam a grama ao redor do túmulo do assassino presidente!

Se alguém comenta que ele mandou matar o Carlos Lacerda (e errou), seu crítico ferrenho, a resposta de todos é: – Ah, mas era o Getúlio, deixa ele em paz!

Que eu saiba nenhuma pessoa daquele tempo recebe boladas milionárias e pensões vitalícias por força das perseguições, mortes e torturas engendradas pelo Getúlio Vargas. Será que esqueceram de cobrar? Não, é que do lado de lá está um outro Paizinho dos Pobres.

O Lula fez e aconteceu, nunca se roubou tão abertamente dentro do Palácio do Planalto e adjacências, os escândalos se sucedem e nada disso o atinge. Isso é de fato notável! E chega a ser irônico. Para um partido que se arvorava em defender a cidadania, os direitos do povo e a retidão, ter gestado e criado um mito (ou será monstro?) deste porte é uma façanha!

Por mérito seu, exclusivamente seu, o Lula está blindado contra tudo e contra todos! Se pegarem ele numa roda de maconha, abusando sexualmente de adolescentes, dentro de um carro oficial, na hora do expediente e ele ainda por cima atropelar um grupo de velhinhas cegas sobre a faixa de segurança……no fim do dia ele dirá que não sabia de nada e a vida continuará exatamente do ponto onde tinha parado! O cara é inalcançável!

A Dilma? Ora a Dilma. É apenas a bola da vez. É peão neste tabuleiro!

Acima dela, e de todos nós, paira Lula, o nosso Homem de Ferro, o nosso PAIZINHO DOS POBRES!

Olha a musiquinha….“Lula lá…brilha uma estrela…”!

Silvano – o impossível

Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 495

15 de outubro de 2010 3

495 – ENFIM, O CANTO DOS GUILHERMES

Após semanas de preparação, após acertar detalhes aqui e ali, neste domingo que passou (10 out) fizemos enfim a nossa CAMINHADA AO CANTO DOS GUILHERMES. Já comentara no texto anterior, trata-se de uma localidade do interior aqui de Santo Antônio.

O dia não podia estar melhor! Cedinho do domingo, levantamos para nos paramentar e o dia estava lindo, sol claro, tempo aberto, nem muito frio, nem muito calor.

Nos reunimos no ponto combinado e, após a chamada inicial, lá nos fomos interior adentro.

Os primeiros sete quilômetros eram-nos conhecidos, lembro que nossa primeira caminhada fora justamente até essa “perna” inicial, o Monjolo. Tendo saído do ponto de partida às 8:00h da manhã, chegamos então nessa nossa primeira e única parada em torno das 10:15h. Até ali fomos muito bem, todos eufóricos com o evento.

Nunca é demais lembrar das coisas que acontecem nessas caminhadas. O ar puro, as paisagens se sucedendo, os pássaros, as ovelhas, tudo isso são coisas que vão compondo as cores desse belo cenário que percorremos. Você que lê isso aqui e ainda não se aventurou, talvez não consiga dimensionar as delícias de uma caminhada dessas. Os problemas vão se desprendendo pela estrada, as picuinhas, as coisinhas tolas do dia-a-dia vão se desmanchando. A gente vai se aliviando, respirando melhor, conversa com um , conversa com outro, dá uma risada aqui, outra ali. O clima entre os participantes é dos mais leves e descontraídos. Coisa prá fazer pressão arterial baixar.

E as fotos….ah as belas fotos. Quisera eu poder voltar ali mais vezes para fazer e refazer as fotos daquelas paisagens lindas. No calor da caminhada, nem sempre se pode parar para fotografar as coisas, às vezes o grupo está afiado, passo aberto e a gente não pode desgarrar. Na noite após o feito, quando sento diante do computador para ver as fotos fico impressionado com a paisagem registrada. Que vistas! Que imagens!

Mas falávamos da paradinha inicial no ponto dos sete quilômetros. Sim, chegamos no Mercado, Açougue e Padaria Dois Irmãos,  onde pudemos beber aquela água geladinha, alguns fizeram um rápido lanche, outros apenas alongaram.

Passados uns dez minutos, nos fomos então para a parte nova do trajeto, aqueles oito quilômetros ainda desconhecidos da maioria do grupo.

Aí a caminhada como que se renova, o ânimo da gente ganha mais força, parece que se está começando. Mais paisagens, mais fotos, mais coisas bonitas para se ver, se curtir, se apreciar.

Impossível esquecer Olavo Bilac quando dizia.. “a natureza ali, eternamente em festa.”

Nessa segunda parte o grupo meio que dispersou. Uma parte tomou a dianteira e acelerou em busca do final. Uns outros ficaram mais para trás, em função de fotos, cansaço, ritmo.

Neste ponto, ali pelos dez quilômetros de pernada, o Carro de Apoio nos alcançou, devagarzinho, verificando se todos estavam bem, se alguém queria alguma coisa. Paramos rapidamente para tomar um chimarrão com os apoiadores (Gilnei, Lílian e João). E continuamos.

Após termos passado por uma Igreja Adventista, e após termos virado à direita numa encruzilhada, chegamos à placa de 12Km! A partir daí confesso-lhe que as pernas começaram a pedir água. Um dorzinha aqui, um desconforto ali. Mas sabíamos que faltavam três quilômetros por percorrer. Para compensar essa aparente dificuldade, as vistas e imagens se sucediam uma mais bela que a outra. Isso nos servia de combustível. Na altura dos 14Km percorridos, chegamos na frente de um lindo HOTEL FAZENDA que está sendo construído ali. Todo margeado por uma cerca de taipa, aquela obra de arte na qual se empilham pedras e se desenha o muro. Lindo. Lindo. A paisagem desse hotel promete um estabelecimento grandioso, magnífico. Tomara que inaugure logo!

Mas faltavam os mil metros derradeiros! Era quase o final da caminhada!

Desse lugar a gente já avistava o núcleo da localidade, área onde se acomodam o Salão Paroquial, a Igreja, a Escola e o Cemitério. Nos arredores, inúmeros carros e ônibus, afinal era o dia da Festa deles. Assim, após termos concluído o trajeto, após termos transposto a linha de chegada, nos dirigimos ao Salão para a festa.

Fomos carinhosamente recepcionados e ali, em meio à comunidade do Canto dos Guilhermes, almoçamos e nos recompusemos. Um belo churrasco de interior! Com direito a Cuca na entrada, saladas de repolho, cebola, tomate, maionese, arroz, aipim cozido, lingüiça, carne de gado, carne de porco e tudo mais que se imaginar!

Perto das 13:00h chegou o nosso ônibus e voltamos prás nossas casas, nossas vidas.

A pergunta que sempre fica no ar: – Quando vai ser a próxima? Respondo que me aguardem porque, quando menos esperarem….voltaremos!

Silvano – empoeirado

Crédito das fotos: Silvano Marques

Bookmark and Share

Quer nos ver em vídeo?

14 de outubro de 2010 0

Amigo, TAMOS NO YOUTUBE!!

Confira no link abaixo o “filme” da nossa caminhada ao CANTO DOS GUILHERMES.

Emocionante!!!!!

Já sabe, né, clique no link abaixo, e , dependendo da sua conexão, espere até carregar todo.

E depois confira a nossa façanha.

Bah, e o narrador ofegante, quase infartado….só vendo.

SILVANO

Crédito do Video: Silvano Marques

Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 494

07 de outubro de 2010 0

494 – O CANTO DOS GUILHERMES

O interior do município de Santo Antônio da Patrulha tem os mais variados recantos e passeios, paisagens lindas e desconcertantes. Munidos de uma certa dose de otimismo, temos desbravado este interior através de nossas CAMINHADAS, já fizemos duas bem legais, mais tarde tivemos que adiar uma terceira e neste fim-de-semana vamos enfim realizá-la.

O nome da localidade é CANTO DOS GUILHERMES e dista 15Km da sede. A gente sai da cidade em direção ao norte e se dirige até uma localidade chamada Monjolo. Ali se chega aos 7Km de percurso. Seguindo pela esquerda na praça, vai-se então em direção ao Campestre. Após umas duas ou três encruzilhadas se vira à direita e se dirige então ao CANTO DOS GUILHERMES.

Um amigo (Jaime) me enviou dados sobre a localidade, dizendo isto:

Este local nem sempre foi chamado assim. Uma parte recebeu o nome de Catarineta – local onde moravam algumas famílias originárias de Santa Catarina; e, Canto dos Guilhermes – onde residiam muitas famílias que tinham o sobrenome de Guilherme, daí a origem do nome. Muitos eram os moradores deste local, era quase um vilarejo, onde viviam da agricultura (piretro, mandioca, cana, vassoura e, mais tarde, o fumo). Seus produtos eram vendidos em armazéns, alambiques, engenho, etc. Por falta de opção de trabalho, hoje, esta comunidade tem poucos moradores.

Fizemos uma expedição de reconhecimento e as paisagens nos seduziram. Açudes espelhados, árvores variadas, pássaros de diferentes cores e cantos, tudo isso vai se mostrando ao visitante. Saindo da cidade de Santo Antônio, o percurso apresenta ínfimas elevações, na verdade a gente vai quase que o tempo todo descendo, suavemente descendo, o que facilita as pernas e pés dos peregrinos.

Quase na chegada, do lado esquerdo da estrada, a gente se depara com uma bela edificação, um Hotel Fazenda que está sendo construído ao lado da estrada. Por mais de um quilômetro a gente vai caminhando ao lado de uma linda cerca de taipa, dessas feitas de pedra, todas encaixadas umas na outras. Logo adiante se chega ao portão do Hotel. A área é enorme, o verde, o ar puro, a paisagem ao derredor completam o cenário bucólico.

Indo adiante se chega então ao núcleo do povoado, com uma Escola, a Igreja e o Salão Paroquial. Bem nesta chegada, o marcador do carro registra exatos 15Km ! Este é o tamanho do nosso desafio, exatos 15Km.

Para aqueles que temem o cansaço e o sol, teremos carro de apoio dando guarida aos caminhantes.

E a exemplo das outras vezes, após toda a função um ônibus nos buscará e nos devolverá ao centro da cidade.

Por uma serie de fatores, neste exato domingo 10 de outubro no qual caminharemos, a localidade estará fazendo a sua FESTA. Assim, ao completarmos a caminhada, adentraremos o Salão Paroquial e comeremos um lauto almoço de churrasco, saladas, arroz, etc. Só coisa boa e coisa de festa do interior!

O plano é este, portanto. Sairemos aqui da cidade de Santo Antônio às 8:00h da manhã do domingo 10 de outubro de 2010, para fazer o trajeto de 15Km em cerca de quatro horas. Talvez menos.

Temos inscritos dois maratonistas que vão correr o percurso. E parece que vai ter gente de bicicleta também.

Se alguém quiser participar, é só mandar o nome prá mim (silvano@via-rs.net ) e chegar na hora certa no domingo. Não esqueça de tênis confortável, roupa bem usada, boné, protetor solar, camiseta bem colorida e vistosa para que eventuais motoristas nos enxerguem fácil. Sim, é bom ter aquela garrafinha de água para o trajeto. No meio do percurso faremos uma parada estratégica para beber uma água mineral, na altura dos 7Km. Logo em seguida vamos para os oito quilômetros finais.

E sabe do que mais? Vai ter MEDALHA para quem cumpri o percurso! Já pensou?

Então , tá esperando o quê? Faça logo sua inscrição e pé na estrada.

Sempre gosto de lembrar umas coisas. Nós não caminhamos por dinheiro, nem por política, nem por religião, nem por nenhum interesse mais. Nós caminhamos para viver ao ar livre, para sermos felizes, para rir da vida, para tirar fotos, encarar esta natureza de Deus e sentir vontade de prosseguir. No retorno você trará uma poeira em seu tênis. E terá uma outra poeira em seu coração. Esta segunda poeira, você levará vida afora, através das lembranças desse momento feliz. Tá duvidando? Então apareça.

Silvano – com o pé na estrada

Crédito da foto: Silvano Marques

Serviço:

Preço do ônibus da volta: 3,00 reais / pessoa

Preço do almoço: 15,00 reais /pessoa

Bookmark and Share