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Posts de janeiro 2013

Coisa de Gordo - 551

20 de janeiro de 2013 0

551 – TANGOS E TRAGÉDIAS

Tinha assistido ao espetáculo Tangos e Tragédias fazia uns vinte e quatro anos, acredito eu. Foi no mesmo lugar, o Teatro São Pedro de Porto Alegre. E da mesma forma, lá atrás, ao fim do show o público foi levado pelos músicos-artistas até a rua, para então ser liberado. Ontem fui de novo.

O que mudou em mim e o que mudou no Tangos nesse quase quarto de século? Os dois artistas soberbos, Nico Nicolaievski e Hique Gomes bolaram um roteiro, um esquete, uma seqüência de histórias, músicas e piadas tão perfeita que, passados vinte e seis anos (tempo que eles estão fazendo isso), o sucesso permanece.

Que coisa mágica! Que coisa inusitada. Fazer uma criação teatral dar certo já é algo de destaque. Mas mantê-la em cena por tanto tempo, ingressos esgotados, fila, atropelo, correria…isso é inacreditável.

Em que pese já tivesse assistido a encenação, toda ela me pareceu muito nova, muito atual, sem nada deixar a desejar. E o tempo todo, não se iluda, a arte que conduz a narrativa é a música. Música linda, melódica, música triste, alegre, engraçada, música do passado e do presente, mas acima de tudo música. O Nico mantém sua mão esquerda sempre ocupada fazendo o som do baixo na gaita. Para tudo, para as piadas, para as danças, os acontecimentos, as histórias. E o Hique, com seu violino, vem com sua expressão corporal perfeita, que leva o público ao delírio só mexendo os olhos, mantendo a atenção da platéia o tempo todo, dominando a assistência como um veterano maestro diante da sua orquestra.

Show perfeito. Show nota dez! Nota mil. Vá e assista. Muitos que lá estavam já tinham visto e voltaram. Outros tantos se inauguravam nessa adoração. Show de humor ao estilo Chaplin, que nos faz rir sem dizer palavrão, sem gritar, sem ofender ninguém. É o humor em sua essência mais pura.

Ora, o que mudou nos artistas passado esse tempo todo. Eles estão melhores a cada dia, mais afinados, mais sintonizados, fazem o espetáculo minuciosamente encaixado um na atuação do outro. Imagine você, eles estão treinando faz 26 anos! E como interagem com a platéia, estão aptos a qualquer intervenção, a gracinhas de qualquer marmanjo sem graça, a criança gritando, a velho reclamando, a mulher guinchando. Imagine de novo, em vinte e seis anos eles já viram e ouviram de tudo! Não há o que o público vá dizer ou gritar que eles já não tenham visto ou ouvido. Se quiser fazer graça, portanto, prepare-se, eles vão arrasar.

O que eu mudei nesse tempo? Menos cabelos, e os remanescentes estão mais brancos. Mais peso, talvez, mas nem tanto, pois sempre estive nas gramas mais altas da balança. Mais emoção, sim, mais emoção em meu coração. Assisti de novo ao show numa outra circunstância de vida, e pude rir a ponto de chorar, e às vezes chorar sem conseguir parar de rir. Meus ouvidos mais domados pelo tempo, perceberam acordes e sonâncias tão belos que antes não conseguiria ouvir. Meus olhos mais cansados pelas batalhas, viram emoção no palco, viram luzes e cores, viram paixão no ato de encenar uma música. Meu coração, mais cansado, pôde debulhar-se em êxtase para sentir todas essas sensações em turbilhão, nessa noite mágica de janeiro de 2013.

Obrigado, Nico, obrigado Hique, por ficarem este tempo todo preparando esse novo show para mim. Obrigado por terem se atrelado a este projeto vitorioso e perene que embala o coração de tanta gente, mundo afora. Obrigado por me esperarem crescer,  trabalhar, casar, ter filhos, sofrer, sorrir e por fim voltar para rir e chorar com vocês! Voltei depois de vinte e quatro anos e vocês estavam lá. Ainda melhores, ainda maiores, ainda mais sensacionais.

Obrigado, Tangos e Tragédias.

Silvano – com o coração deliciosamente em frangalhos

Crédito das fotos: Silvano Marques


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