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Coisa de Gordo - 565

12 de setembro de 2014 2

565 – A NOIVA DA LAGOA – Relato de um crime que virou lenda

Tive a chance de me dirigir ao Pólo Universitário de Santo Antônio da Patrulha para assistir ao historiador Fernando Lauck apresentar seu Trabalho de Conclusão de Curso, numa pós-graduação que ele está fazendo, cujo tema foi este do título, um crime acontecido no Rio Grande do Sul em 1940 e que virou uma lenda.

maria luiza03Até hoje, quem passa pela rodovia Porto Alegre-Tramandaí, ali nas imediações da Lagoa dos Barros, lembra da história de uma noiva que aparece aos motoristas na madrugada e que seria o fantasma de uma moça assassinada ali na Lagoa.

A trama é das mais comuns. Um jovem playboy (Heinz Werner João Schmeling) encontra sua namorada (ou ex-namorada) num baile da Sociedade Germânia, na capital gaúcha, mais tarde resolvem ir de carro até um lugar ermo, dar uns amassos, uns beijos sabe-se lá, lembre que estavam no ano de 1940. Foram então até o Morro do Mont Serrat, ali onde hoje está o IPA, na rua Casemiro de Abreu. Na manhã do dia seguinte os dois foram dados como desaparecidos, por fim o rapaz foi encontrado num bar em Belém Velho. A moça nunca mais foi vista viva.

Assim como nos dias de hoje alguns crimes tomam proporções enormes junto à opinião pública (por exemplo o do Menino Bernardo, o do Casal Nardoni, o caso Daudt, entre outros), esse crime em especial ganhou as páginas dos jornais da época (TV não existia e rádio era menor que hoje). As páginas do Correio do Povo e do Diário de Notícias traziam os fatos, os depoimentos, as fotos do ocorrido. O historiador Fernando Lauck comentou que em diversas situações inclusive a imprensa se antecipou à polícia, localizando testemunhas, colhendo versões, opinando, concluindo. Assim, o crime foi fartamente divulgado e logo que acharam o corpo da moça a lenda parece ter começado a se formar. É interessante perceber que no imaginário popular a moça era uma noiva, quando na verdade era só uma namorada. Na lenda ela estaria de vestido de noiva e o bandido teria usado do véu para estrangular a vítima. Na verdade ela estava de roupa normal e a arma do crime foi um revólver.

Quem for visitar o Cemitério Evangélico de Porto Alegre encontrará o túmulo de Maria Luiza Haussler. Segundo a lenda local aqui de Santo Antônio, a “noiva” apareceria para motoristas que transitam ali na escuridão da estrada, pedindo ajuda. O ano dos eventos também é obscuro para a lenda, eu mesmo achava que tudo tinha se dado nos anos sessenta, quando na verdade foi ali, dentro dos eventos da Segunda Guerra Mundial.

hanz03Fernando Lauck comentou exatamente isso. Os dois enamorados eram de origem alemã. Mas a moça tinha por padrasto um empresário inglês. Assim, em pleno tempo de nazismo, guerra mundial, de um lado um matador alemão, de outro uma moça com ligações com a Inglaterra. Isso ajudou a exacerbar o interesse no crime. O rapaz era egresso de uma relação familiar turbulenta. Seus pais se divorciaram (vamos de novo, o ano era 1940!! – imagine divórcio nessa época) e ele morou com o pai e um irmão. Como era afeito a esportes de velocidade, pertencia a um grupo de motoqueiros, era um playboy – já o dissemos – se envolveu num acidente com a morte de uma criança e a partir daí passa a morar com a mãe e o padrasto. Isso tudo culminaria naquela noite de 18 de agosto de 1940, quando a moça foi morta.

Vamos aos fatos. O casal estava na festa e saiu em direção ao morro do Mont Serrat. Aparentemente houve uma briga, o rapaz teria dado um tiro na moça e saiu no intento de esconder seu corpo. Tomou o rumo da praia (ainda não existia a Free-Way) e na estrada que hoje chamamos RS-030, na beira da Lagoa dos Barros, saiu para desovar o corpo. Amarrou tijolos no corpo e o jogou na Lagoa. Voltou a Porto Alegre, deu em si mesmo um tiro de raspão no peito e perambulou por vários lugares até ser encontrado e levado a um hospital. Na manhã do dia seguinte as duas famílias registraram o desaparecimento dos jovens, logo em seguida localizaram o assassino no Hospital, levaram-no a um hospital melhor. O crime começou a ser investigado. Nas primeiras confissões o rapaz disse que lá no morro tiveram uma discussão e foram brigando a caminho da praia. Lá naquele ponto da lagoa a moça o teria alvejado, para logo em seguida cometer suicídio. Ele, assustado, escondeu o corpo. Assim, seguindo o que ele dissera, a polícia encontrou rapidamente o corpo da moça.

A partir daí entra em cena o Instituto de Identificação e Medicina Legal (IIML), que depois viraria IML, atual Instituto Geral de Perícias (IGP). Lembre de novo que os tempos eram precários, mas a atuação da perícia foi crucial na condenação do acusado. Os profissionais provaram que no carro usado por Heinz havia vestígios de sangue. Tomaram dos tijolos usados e viram que eles tinham o logotipo da fábrica. Foram ao fabricante e esse afirmou que estes tijolos poderiam estar em duas edificações. Um prédio já concluído e uma obra na confluência da Avenida Cel Bordini com Marquês do Pombal. Ou seja, uma obra que estava numa rota de fuga a partir do Morro do Mont Serrat. Assim, concluíram os peritos, a moça já estava morta quando saíram do morro, tanto que na saída o matador já pegou tijolos para ocultar o corpo. Foram até um Posto de Gasolina na região do Passo d’Areia na capital e o frentista confirmou que o rapaz tinha passado por ali, sem ninguém com ele no carro, ou seja, comprovava que a moça já estava morta, no porta-malas do carro. Houve ainda provas de pólvora na mão de Heinz, provas nas roupas dele, vestígios dos tijolos no banco do carro, marcas de sangue no carro, entre outras. Heinz foi acusado de rapto, estupro e homicídio. Seus advogados conseguiram absolvê-lo de todas as acusações, exceto HOMICÍDIO, crime pelo qual foi condenado a dez anos de prisão, mais tarde prolongada a pena para doze anos. Cumpriu seis anos, foi posto em liberdade, a família toda se mudou para São Paulo. Ele lá viveu até morrer nos anos oitenta.

corpo02A polícia da época se valeu dos acontecimentos para reivindicar junto ao Governo e à opinião pública mais recursos para a área da Perícia, da medicina legal. E conseguiu!

Partimos de um simples crime passional para chegar a algo que sacudiu a sociedade da época, que afetou a atuação da polícia daí para frente, algo que acirrou os ânimos contra e a favor do nazismo, mas o que ficou disso tudo foi a LENDA, a Lenda da Noiva da Lagoa. Como sempre acontece nesses casos, a realidade dá lugar às fantasias e medos das pessoas, os mitos substituem a lógica e a razão, e as avós e comadres contam, ao cair da noite, a história daquela noiva sofrida que vem em busca de socorro, de ajuda, noiva que vem assombrar quem a enxerga.

O Trabalho de Conclusão de Curso do Historiador Fernando Lauck foi brilhantemente apresentado. E trouxe luzes sobre esse mistério de décadas que ainda hoje se faz presente a quem, numa noite escura, se aventurar a cruzar por ali, a caminho da praia. Arrisque-se, solte sua imaginação. Pelo menos a viagem eu posso garantir que é muito legal. Quanto ao fantasma, isso é com você!

Silvano – o impossível

Crédito das fotos, das informações, dos dados aqui postados e publicados: Fernando Lauck

As fotos foram reproduzidas a partir da revista VIDA POLICIAL de setembro e outubro de 1940

E-mail de contato do autor deste trabalho: fernando.rocha.lauck@gmail.com
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Comentários (2)

  • Rosalva diz: 12 de setembro de 2014

    Olha, a D. Nita via … RS. Imaginário ou não, ela afirmou pelo menos umas duas vezes o fato. E veja que ela tinha 8 anos na época, mas nunca esqueceu.

  • Celina Garcia Delmonaco Tarrago Grovermann diz: 17 de maio de 2015

    Ótima apresentação da matéria. Naquele tempo e ainda agora, a vida de uma mulher não valia uma pena maior. Será que com a nova lei de crimes contra a mulher, o feminicídio, isso mudará no RS e no país? Parabéns e obrigada.

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