Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Coisa de Gordo - 572

16 de outubro de 2016 1

572 – Bob Dylan

Serei o soldadinho do passo certo ao escrever isso aqui! Causarei revolta entre os roqueiros. Gerarei dissensões no público culto. Mas causa-me indignação a indicação do músico Bob Dylan ao Prêmio Nobel de Literatura!

Quando soube da novidade fiquei estupefato  – deve ser piada, pensei – só que não era! E aí minha sensação de absurdo ficou reforçada quando, no dia seguinte, os piadistas de plantão anunciaram: “- Keith Richards recebe o Nobel de Química por seu profundo saber na área das substâncias!” Sim, as duas notícias soam como piadas aos meus ouvidos, só que uma delas é verdadeira!

Aberto esse precedente, o público passará a esperar a premiação do David Gilmour, do Stevie Wonder, de algum dos Beatles, do Michael Jackson, por que não? Sim, abrir o Nobel de Literatura a músicos, roqueiros, pops, bota a perder toda uma consideração que se tem por gente do meio literário, da escrita, gente das letras!

dylanRecordo de um tempo em que nosso sonho terceiro-mundista sugeriu a ideia de que estava na hora de laurear um Jorge Amado, um Carlos Drumond de Andrade , e eu emendaria um Machado de Assis, um João Ubaldo Ribeiro, um dos Veríssimos, o Scliar. Ninguém foi lembrado ou citado, morreram nossas esperanças pátrias. Mas Bob Dylan? Como se diz na gíria: – tão de sacanagem!

Imagino que no futuro vão confessar  que tudo não passou de um mal-entendido , na verdade um estagiário fez uma brincadeira colocando o nome do Dylan num envelope, esqueceram do destrocar, ficaram com vergonha de reconhecer o erro, deixaram assim! Só que não!

Fico a me perguntar, de quantas Feiras do Livro o Bob Dylan participou? Quais os livros que escreveu ou publicou? Quantas reuniões editoriais ele teve? Quantas colunas de jornal ou revista redigiu? Ele sabe o que significa uma Bienal? O que foi escrito nas orelhas dos livros que assinou? Sim, sou um ignorante sobre seus dotes literários. Leio no G1 que “o primeiro livro lançado por Dylan foi o volume de poesias experimentais “Tarantula”, de 1971. Dois anos mais tarde, saiu “Writings and drawings”, com textos e desenhos. Ele é autor ainda do best-seller autobiográfico “Chronicles: Vol. One.”, de 2004. No Brasil, foram traduzidos os seguintes títulos: “Tarântula”, “Crônicas – Vol.1″; “Forever young”; e “O homem deu nome a todos os bichos“.

Certo, certo, então ele até que é escritor. Mas não para um Nobel. Letras de música grandes e lindas o Renato Russo também faz! E para músicos já existem diversas láureas, premiações, reconhecimentos. Deixem aos Escritores de verdade a única premiação mundial que existe.

Enfim, estou indignado. Do alto de minha total insignificância, estou “ofendido”. Deram um prêmio de literatura mundial a um roqueiro.

Uma pena!

Silvano – escritor de meia tigela

Crédito da foto: Vince Bucci/Invision/AP – que está postado no G1

Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 571

22 de março de 2016 1

571 – OVELHA NÃO PODE

 

O todo dourado Rodrigo Hilbert acabou trombando com esse elefante branco da atualidade, foi atropelado pelo tal “politicamente correto”. Coitado – anotaram a placa? – acabou se desculpando. Por um erro que não cometeu.

Ora, o Hilbert não está lançando nenhuma novidade ao fazer suas delicias culinárias diante das câmeras, explicando o passo a passo do preparo. Na atualidade há uma profusão  interminável de programas de TV com essa proposta. E como uma espécie de marca registrada dele, as comidas que ele prepara se valem de coisas caseiras, sobras de um arroz, uma bolacha que a avó dele fez, um assado diferente, coisas assim.

Muito bem, a nrodrigo-hilbert1ova temporada do seu “Tempero de Família” abriu a série com carne de ovelha no cardápio.


O que fez ele? Seguindo sua tradição, foi lá no campo, pegou a ovelhinha e a abateu, mostrando os rituais que cercam esse ato. Sangrar a ovelha, tirar o pelego, carnear, separar vísceras, tomar a carne boa pra consumo, enfim, coisas que na minha infância-juventude muitas vezes assisti.

Foi o que bastou.

As patrulhas do “politicamente correto” ergueram vozes, soaram trombetas, eriçaram-se todas sentando as mais duras chineladas no Rodrigo. Que barbárie! Que crueldade! Que sanguinário! Quanta violência!

Hipócritas que falam mal disso mas não abrem mão de um bom bife acebolado. Ou de um churrasco. Ou de um Big Mac dentro do qual tem carne moída. Sim, hipocrisia, portanto.

Como o Rodrigo Hilbert é um cara da paz, bonachão, acabou se desculpando e prometeu tirar algumas cenas do ar. Venceu a estupidez. Não acho que matar um animal seja um espetáculo agradável de se ver. Prefiro comer a carne direto. Mas isso não me autoriza a atacar nas redes sociais aqueles que fazem isso. Se uma coisa não me agrada na TV, basta trocar de canal! Pronto!

Para que censurar os outros? Li numa das redes sociais que as pessoas que atacam coisas como essa, em defesa dos animais, são os primeiros a se posicionarem a favor do aborto. Em mulheres!!! Aí pode!

Além de hipócritas, estamos ficando muito, masmuito sem graça.

Silvano – pelo jeito gosta de ovelha

Crédito da foto: reprodução do R7

Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 570

01 de janeiro de 2016 4

570 – Pobre Rio Grande do Sul 

O Rio Grande do Sul, assim como seu co-irmão Rio de Janeiro, vive uma crise aterradora em suas finanças. A mim não causa estranheza, diria que semeamos vento, agora colhemos tempestade!

O povo gaúcho se orgulha, quando deveria se envergonhar, de querer ser diferente. Aqui, tudo é diferente.

Festejamos o Vinte de Setembro, uma guerra que perdemos. Mandamos a Ford embora porque, ora bolas, grande coisa ter uma montadora de automóveis em solo gaúcho. Quando as indústrias calçadistas começaram a alçar vôo em direção ao nordeste, não fizemos menção de conquistá-las a que aqui ficassem com seus milhares de empregos. Nada disso, fossem embora.

Certa feita num réveillon em Capão da Canoa, onde quase cem mil pessoas aguardavam um show de fogos à beira-mar, tudo foi cancelado por causa de quatro corujas (isso mesmo, quatro pequenas aves) que tinham feito ninho justamente ali, onde se soltariam os fogos. A multidão foi mandada embora sem festa, sem show..por causa de quatro corujas.

Aqui em solo gaúcho o Movimento dos Sem-Terra canta de galo, a tal ponto que a Fazenda Ana Paula, empreendimento colossal na área da pecuária, cansada das sucessivas invasões, sem qualquer medida por parte das autoridades, acabou indo embora para o Uruguai, levando consigo os empregos, os impostos, a riqueza do Estado. Ficamos com a miséria do MST.

Somos assim. Afugentamos investidores porque somos metidos a diferentes.

Sentenças judiciais inovadoras, badalações jurídicas, aqui fazem sucesso.

Na capital, a beira do Guaiba encontra-se divorciada do seu povo, porque basta alguém lance uma idéia de urbanização, mil vozes contrárias se levantam! Deixa o Guaiba atrás do muro, não mexam com o Guaiba. Quem quiser curtir orla urbanizada que vá a Florianópolis, Montevideo, Buenos Aires. Aqui não pode.

Aí você vem viajando pela rodovia BR-101 desde Santa Catarina até aqui. Ao longo de todo percurso, cruzando áreas urbanas, pontes, etc, a velocidade máxima permitida ao motorista é de 110km/hora. Quando o motorista chega ao Rio Grande do Sul, exatamente na ponte que nos separa de Santa Catarina (sobre o rio Mampituba), justo ali tem um controlador de velocidade de 60km/h!!! De 110 para 60, assim somos nós.

Alguém se queixou do sinal de celular em Porto Alegre. Aí responderam que nós criamos leis tais que o tempo de espera para instalar uma antena de telefonia celular na capital é de dois anos e meio!!

Ouso dizer que este é o Estado do atraso, do desmando, do predomínio do inútil sobre quem produz, o Estado que afugenta o progresso e a tecnologia.

Como disse antes, semeamos vento. Ora, tendo essa postura em todos os setores da vida, estranho seria se estivéssemos nadando em riqueza. É óbvio que um dia a casa ia cair. Casa essa que vem sendo demolida, dia a dia, tijolo a tijolo, multa a multa, por nós gaúchos.

Imagino-me sendo um investidor do centro do país, que estivesse aventando trazer meu precioso dinheiro para cá, estivesse pensando em abrir uma indústria, uma fazenda, um ramo de negócios qualquer. Ao cruzar a ponte do Mampituba já receberia um “choque de realidade”, e a partir daí seria uma sucessão de entraves e dificuldades. Que faria eu? Meia volta, volver! Vou investir noutro lugar.

Pois é, fiquemos aqui no canto do país, entre corujas e invasores de terra, afinal, temos essa mania de sermos diferentes! O Estado está falido? Mas esperávamos exatamente o quê, agindo dessa maneira?

Pobre de nós.

Silvano Marques – o impossível

Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 569

07 de agosto de 2015 1

569 – UMA FEIRA DO LIVRO, UM PATRONO, UMA RAPADURA
A cidade de Santo Antônio da Patrulha via estar às voltas com a edição de sua 5ª Feira do Livro, de 13/08/2015 a 16/08/2015, no Parque Municipal local. Por uma coisa do destino, do carinho das pessoas, por uma enorme demonstração de afeto acabei sendo escolhido como Patrono deste evento, veja você. Eu, Patrono de uma Feira do Livro.
logo feirasap5O convite me foi feito e entre estupefato e feliz, aceitei a honraria e portanto, estarei participando ativamente de tal festividade. Há muitas atrações ao redor disso tudo. Paralela à Feira do Livro, acontece a consagrada Moenda da Canção, festival de música tradicional em terras gaúchas. Músicos, público, gente do showbizz, artistas, muito agito se dará por conta disso.
No entorno do evento, como não poderia deixar de ser, haverá os estandes das Fábricas de Rapadura, marca registrada da cidade, o que sempre é um atrativo para quem nos vem visitar.
O escritor homenageado da Feira do Livro será o José Camargo, colunista do Caderno Vida da Zero Hora, uma celebridade que transpôs o mundo da medicina e atinge o público em geral. Na quinta-feira de noite, abertura do evento, às 19:00h, esse escritor fará uma palestra do Espaço Cultural Qorpo Santo (se você quer assistir esta palestra, inscreva-se aqui https://docs.google.com/forms/d/1gRE1kcgQgeuhOrCCZMJUuuMMsGH8iwwSIWMbG70iUuY/viewform  ).
Sempre é bom ver uma comunidade agitar-se em torno de uma feira do livro, para mim que ouso escrever, isso é uma alegria, uma glória, fico encantado com eventos como esse. E é óbvio que eu não perderia a chance de lançar livros, afinal o Patrono tem que dar exemplo (rsrsrs).
coisademagro capaAssim, na tarde de sábado estarei autografando meus dois novos “filhos”, minhas mais recentes criações literárias. Virá o livro COISA DE MAGRO, que faz o papel de ser uma continuação de meu livro anterior (Coisa de Gordo). Ambos trazem os textos que ao longo de anos publiquei aqui neste blog. O primeiro tinha material dos primeiros anos de blog, este segundo é mais recente. O primeiro era mais centrado no estômago, este aqui é mais centrado no coração. Sim, os anos passaram e a gente fica mais filosófico, os cabelos (raros) brancos dão uma outra visão da vida.
E para agitar um pouco a leitura de bolso, cometo a ousadia de lançar o FOLHETIM DAS CITAÇÕES. Quando fui organizar material para o livro que citei, acabei me deparando com essa novela, um pequeno enredo de sexo, paixão, ódio e vingança. Na época fui postando em capítulos semanais e conduzi a historinha ao sabor dos leitores. Gostei do material, separei e aqui está este livreto, uma coisa mais despojada, menos pretensiosa, mais divertida.
Para quem quiser matar a saudade, meus outros dois livros anteriores estarão por lá também, o FAMÍLIA FRENTE & VERSO (coautoria com o Professor Jerri Almeida) e o citado COISA DE GORDO.
Viu só? Um patrono cheio das escritas!! Vá aguentar!
Enfim, espero sua presença em terras patrulhenses. O evento será sensacional. Num tempo de tanta violência, desencanto com a política, tempo de tanta amargura, ver uma cidade parar para fazer uma Feira do Livro é, e sempre será, algo digno de nota! Entrada gratuita.
Nos vemos nas bancas!
Silvano – mas que é que aguenta um cara desses?

Crédito das fotos: Silvano Marques e reprodução do cartaz do evento

folhetim capa

Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 568

25 de junho de 2015 0

568 – Pedalar é preciso

A coisa veio meio assim por acaso. Eu andava às voltas com mais uma tentativa de emagrecer, moderando a alimentação, usando shakes, e precisava uma atividade física que me ajudasse nisso.
Já houvera tentado o vôlei, comecei a participar de um grupo aqui da cidade, parceria das mais alegres, turma acolhedora. Só que os joelhos pediram socorro. Muito peso, um esporte de impacto. Não deu para continuar.
bici01Aí lembrei da minha boa e velha bicicleta. Parada lá na garagem, empoeirada, esperando por mim. Revisão feita na oficina (Keko Ciclo), tudo pronto, então vamos lá, vamos começar mais uma empreitada em busca de uma vida mais saudável.
Um dia de cada vez, um trajeto aqui, outro ali, assim fui escalando essa montanha.
No início não conseguia cumprir todo trajeto, cansava, acabava empurrando a bicicleta na chegada. Aos poucos fui adquirindo condicionamento físico, logo já não precisava descer da bicicleta. As distâncias igualmente foram sendo ampliadas, comecei a desbravar estradas rurais ao redor de Santo Antônio, cada passeio mais lindo que o outro. Assim, conseguia conciliar atividade aeróbica com lazer anti-stress.
Os resultados começaram a aparecer, o peso veio baixando e minhas “proezas” pedalando foram ficando mais “ousadas”. Tudo isso dentro do meu universo, do meu mundo, das minhas capacidades.
Andar de bicicleta foi virando um hobby, um lazer, um relax, um exercício, tudo junto. E aí a gente vai pondo uma coisinha aqui na bici, um velocímetro ali, isso vira um brinquedo, uma diversão. A gente começa a se desafiar, quer bater recordes de distância, de velocidade, andando cada vez mais e melhor.
bici02Estou muito feliz com isso tudo. Após anos e décadas de tentativas frustradas, finalmente eu consegui sair do patamar da obesidade, agora sou sobrepeso! Para você isso talvez não signifique muito, para mim é uma verdadeira conquista.
Ando sempre em segurança, uso capacete, roupa reflexiva, respeito muito o trânsito de automóveis e também os pedestres. São cuidados para que a coisa dê certo. Até agora está dando!
Então cito o poeta português para lembrar que pedalar é preciso. Viver não é preciso.
E vamos nessa estrada.

Silvano – o impossível

Crédito das fotos: Silvano Marques

Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 567

30 de março de 2015 1

567 – O FANTASMA

O filme Birdman, vencedor do Oscar, trouxe a mim uma metáfora que adorei. O protagonista passa o filme todo sendo assombrado pela figura do Birdman, personagem com o qual ele, ator, tinha ficado marcado. Todos temos os nossos “Birdmans”. (sim, o plural em inglês seria birdmen, mas aqui perderia força).

lata01Nessa luta de todo gordo contra a balança, o vaivém é intenso, algumas batalhas são vencidas, outras tantas (a maioria) são perdidas. Depois de ver o filme passei a simbolizar isso na minha vida da mesma forma. A gente até pode se dedicar a perder peso, caminhar, pedalar, correr, mas o fantasma da gordice está sempre ali, paradinho do nosso lado, pronto prá se manifestar.

Você vem se cuidando, controlando o que come e o que bebe, a balança vem mostrando seu sucesso, tudo parece vir bem até que..passa na sua frente aquela bandeja de Branquinhos com Negrinhos. Pronto, o fantasma toma conta do seu braço, da sua mão, da sua boca, do seu corpo todo e, quando dá por si, você deglutiu dezesseis docinhos. Em cerca de três minutos!

Esse ato desvairado vai lhe custar uma semana de sacrifícios apenas para voltar ao ponto zero, ao peso que você tinha ANTES do fantasma aparecer. Valeu a pena? Tarde demais. Como um serial killer que tivesse acabado de trucidar sua vítima, ali jaz você, embriagado de prazer e culpa.

lata02No meu estrito caso ainda faço manobras para manter o fantasma por perto. Cometo atos premeditados que alimentam a gula do fantasma, lhe dão energia. Desde minha singela noite de autógrafos do livro Coisa de Gordo, tenho uma lata gigante de Leite Moça, que estou envelhecendo como se um vinho fosse. Quanto mais velho, melhor. Em fevereiro agora que passou, a lata expirou sua validade. Delícia. O leite condensado fica espesso, grumoso, denso, saboroso! Ops, quase babei no teclado. Sim, o meu Birdman me ajuda a escrever textos, inclusive. Sim, sim, ele está entre nós agora. Esse tipo de coisa mantém o Fantasma por perto.

Morrerei um dia tendo essa entidade ao meu lado. Tem sido uma constante na minha vida. Resta combatê-lo, reduzir quilos na balança, se conter. A cada pequena vitória ele nos olha sorridente, cara de descrédito, certo de que cairemos de novo.

Não lhe tenho ódio, raiva. Longe disso. Esse convívio ao longo de décadas nos fez íntimos. Tenho respeito, sim, aprendi a respeitá-lo.

Que seja assim. Fica apenas a dúvida: – Até quando vou guardar aquela lata antes de devassá-la?

Birdman, Birdman..

Silvano – impossível

Crédito das imagens: Silvano Marques
Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 566

17 de março de 2015 3

566 - PESO

Há muito tempo atrás, na aurora da minha vida (como diria o Casemiro de Abreu), lá pelos meus 16 ou 17 anos, estava de férias na Fazenda da minha avó e um tio meu ficou curioso sobre o meu peso. Sim, o meu malfadado peso.

Crítico de meu hábito alimentar, esse meu tio alegou que eu não poderia ser pesado numa balança comum, ele teria que me levar a uma balança de pesar gado. Assim o fez e lá constatou meu peso: 104Kg.

peso001Aquilo foi assunto para o resto do dia, ele me criticando, que absurdo – já pensou? – alguém pesar tudo isso, e ainda mais, ter que pesar numa balança animal, blá, blá, blá.

Aquele peso me acompanharia pelo resto de minha vida, mal eu imaginaria. Naquele breve momento ele era o topo de uma cadeia, o alto de uma escala de massa corporal. Ah, se eu soubesse. Nos anos e décadas vindouras eu me distanciaria muito desse peso, viria a pesar muito mais, de tal sorte que sempre imaginei que se voltasse a pesar 104Kg isso seria um sonho.

Nessa caminhada descobri outra coisa. Usando as tabelas de IMC, esse peso de 104Kg – para mim – é uma espécie de fronteira. Até 104Kg eu me classifico como SOBREPESO. A partir daí, sou OBESO.

Fui obeso a maior parte de minha vida, portanto. Ou seja, estive muito acima dos tais 104Kg.

Passaram-se os anos. Recentemente dediquei-me a controlar a alimentação, usar shakes, praticar ciclismo (tenho pedalado bastante), o que me fez então reduzir bastante a marca na balança. Assim, passados bons meses de esforço, um dia me vi ali de novo, na fronteira dos 104Kg. Sim, o peso se avizinhava de minha vida, e numa semana faltavam três quilos, na outra dois e meio, assim vim vindo, vindo, chegando. Seja por isso ou por aquilo, consegui enfim baixar dos 104Kg. No dia lembrei do meu tio, gostaria que ele estivesse vivo e eu lhe telefonaria para contar. Tio, pode buscar uma balança de gente, baixei dos 104. Mas ele já morreu.

peso002Resta agora um novo desafio que terei que levar vida afora. Não mais me aproximar dos 104. Fugir dele, distanciar-me dele.

Escalei o Everest da minha vida física. A partir de agora, resta me equilibrar diante do vento e do frio da vida, para não escorregar e cair de novo no abismo da obesidade. Soa dramático aos seus ouvidos? Imagine então aos meus, que carreguei esse peso todo vida afora.

Consegui, Tio Leonel. Consegui.

Silvano – o impossível

Crédito das imagens: Silvano Marques

Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 565

12 de setembro de 2014 2

565 – A NOIVA DA LAGOA – Relato de um crime que virou lenda

Tive a chance de me dirigir ao Pólo Universitário de Santo Antônio da Patrulha para assistir ao historiador Fernando Lauck apresentar seu Trabalho de Conclusão de Curso, numa pós-graduação que ele está fazendo, cujo tema foi este do título, um crime acontecido no Rio Grande do Sul em 1940 e que virou uma lenda.

maria luiza03Até hoje, quem passa pela rodovia Porto Alegre-Tramandaí, ali nas imediações da Lagoa dos Barros, lembra da história de uma noiva que aparece aos motoristas na madrugada e que seria o fantasma de uma moça assassinada ali na Lagoa.

A trama é das mais comuns. Um jovem playboy (Heinz Werner João Schmeling) encontra sua namorada (ou ex-namorada) num baile da Sociedade Germânia, na capital gaúcha, mais tarde resolvem ir de carro até um lugar ermo, dar uns amassos, uns beijos sabe-se lá, lembre que estavam no ano de 1940. Foram então até o Morro do Mont Serrat, ali onde hoje está o IPA, na rua Casemiro de Abreu. Na manhã do dia seguinte os dois foram dados como desaparecidos, por fim o rapaz foi encontrado num bar em Belém Velho. A moça nunca mais foi vista viva.

Assim como nos dias de hoje alguns crimes tomam proporções enormes junto à opinião pública (por exemplo o do Menino Bernardo, o do Casal Nardoni, o caso Daudt, entre outros), esse crime em especial ganhou as páginas dos jornais da época (TV não existia e rádio era menor que hoje). As páginas do Correio do Povo e do Diário de Notícias traziam os fatos, os depoimentos, as fotos do ocorrido. O historiador Fernando Lauck comentou que em diversas situações inclusive a imprensa se antecipou à polícia, localizando testemunhas, colhendo versões, opinando, concluindo. Assim, o crime foi fartamente divulgado e logo que acharam o corpo da moça a lenda parece ter começado a se formar. É interessante perceber que no imaginário popular a moça era uma noiva, quando na verdade era só uma namorada. Na lenda ela estaria de vestido de noiva e o bandido teria usado do véu para estrangular a vítima. Na verdade ela estava de roupa normal e a arma do crime foi um revólver.

Quem for visitar o Cemitério Evangélico de Porto Alegre encontrará o túmulo de Maria Luiza Haussler. Segundo a lenda local aqui de Santo Antônio, a “noiva” apareceria para motoristas que transitam ali na escuridão da estrada, pedindo ajuda. O ano dos eventos também é obscuro para a lenda, eu mesmo achava que tudo tinha se dado nos anos sessenta, quando na verdade foi ali, dentro dos eventos da Segunda Guerra Mundial.

hanz03Fernando Lauck comentou exatamente isso. Os dois enamorados eram de origem alemã. Mas a moça tinha por padrasto um empresário inglês. Assim, em pleno tempo de nazismo, guerra mundial, de um lado um matador alemão, de outro uma moça com ligações com a Inglaterra. Isso ajudou a exacerbar o interesse no crime. O rapaz era egresso de uma relação familiar turbulenta. Seus pais se divorciaram (vamos de novo, o ano era 1940!! – imagine divórcio nessa época) e ele morou com o pai e um irmão. Como era afeito a esportes de velocidade, pertencia a um grupo de motoqueiros, era um playboy – já o dissemos – se envolveu num acidente com a morte de uma criança e a partir daí passa a morar com a mãe e o padrasto. Isso tudo culminaria naquela noite de 18 de agosto de 1940, quando a moça foi morta.

Vamos aos fatos. O casal estava na festa e saiu em direção ao morro do Mont Serrat. Aparentemente houve uma briga, o rapaz teria dado um tiro na moça e saiu no intento de esconder seu corpo. Tomou o rumo da praia (ainda não existia a Free-Way) e na estrada que hoje chamamos RS-030, na beira da Lagoa dos Barros, saiu para desovar o corpo. Amarrou tijolos no corpo e o jogou na Lagoa. Voltou a Porto Alegre, deu em si mesmo um tiro de raspão no peito e perambulou por vários lugares até ser encontrado e levado a um hospital. Na manhã do dia seguinte as duas famílias registraram o desaparecimento dos jovens, logo em seguida localizaram o assassino no Hospital, levaram-no a um hospital melhor. O crime começou a ser investigado. Nas primeiras confissões o rapaz disse que lá no morro tiveram uma discussão e foram brigando a caminho da praia. Lá naquele ponto da lagoa a moça o teria alvejado, para logo em seguida cometer suicídio. Ele, assustado, escondeu o corpo. Assim, seguindo o que ele dissera, a polícia encontrou rapidamente o corpo da moça.

A partir daí entra em cena o Instituto de Identificação e Medicina Legal (IIML), que depois viraria IML, atual Instituto Geral de Perícias (IGP). Lembre de novo que os tempos eram precários, mas a atuação da perícia foi crucial na condenação do acusado. Os profissionais provaram que no carro usado por Heinz havia vestígios de sangue. Tomaram dos tijolos usados e viram que eles tinham o logotipo da fábrica. Foram ao fabricante e esse afirmou que estes tijolos poderiam estar em duas edificações. Um prédio já concluído e uma obra na confluência da Avenida Cel Bordini com Marquês do Pombal. Ou seja, uma obra que estava numa rota de fuga a partir do Morro do Mont Serrat. Assim, concluíram os peritos, a moça já estava morta quando saíram do morro, tanto que na saída o matador já pegou tijolos para ocultar o corpo. Foram até um Posto de Gasolina na região do Passo d’Areia na capital e o frentista confirmou que o rapaz tinha passado por ali, sem ninguém com ele no carro, ou seja, comprovava que a moça já estava morta, no porta-malas do carro. Houve ainda provas de pólvora na mão de Heinz, provas nas roupas dele, vestígios dos tijolos no banco do carro, marcas de sangue no carro, entre outras. Heinz foi acusado de rapto, estupro e homicídio. Seus advogados conseguiram absolvê-lo de todas as acusações, exceto HOMICÍDIO, crime pelo qual foi condenado a dez anos de prisão, mais tarde prolongada a pena para doze anos. Cumpriu seis anos, foi posto em liberdade, a família toda se mudou para São Paulo. Ele lá viveu até morrer nos anos oitenta.

corpo02A polícia da época se valeu dos acontecimentos para reivindicar junto ao Governo e à opinião pública mais recursos para a área da Perícia, da medicina legal. E conseguiu!

Partimos de um simples crime passional para chegar a algo que sacudiu a sociedade da época, que afetou a atuação da polícia daí para frente, algo que acirrou os ânimos contra e a favor do nazismo, mas o que ficou disso tudo foi a LENDA, a Lenda da Noiva da Lagoa. Como sempre acontece nesses casos, a realidade dá lugar às fantasias e medos das pessoas, os mitos substituem a lógica e a razão, e as avós e comadres contam, ao cair da noite, a história daquela noiva sofrida que vem em busca de socorro, de ajuda, noiva que vem assombrar quem a enxerga.

O Trabalho de Conclusão de Curso do Historiador Fernando Lauck foi brilhantemente apresentado. E trouxe luzes sobre esse mistério de décadas que ainda hoje se faz presente a quem, numa noite escura, se aventurar a cruzar por ali, a caminho da praia. Arrisque-se, solte sua imaginação. Pelo menos a viagem eu posso garantir que é muito legal. Quanto ao fantasma, isso é com você!

Silvano – o impossível

Crédito das fotos, das informações, dos dados aqui postados e publicados: Fernando Lauck

As fotos foram reproduzidas a partir da revista VIDA POLICIAL de setembro e outubro de 1940

E-mail de contato do autor deste trabalho: fernando.rocha.lauck@gmail.com
carro02morro02

 

 

 

 

 

 

lagoa02

 

Bookmark and Share

DICAS NEGATIVAS DO SILVANO - DNS 01

10 de setembro de 2014 1

Não faça isto. Deixe que eu faço. Sair de um plantão numa manhã fria do litoral norte, parar na Pastelaria Litoral, ali em Osório, e dar um “tapa” num PASTEL DE CARNE feitinho na hora! Olha, jamais faça isso! Você vai ser muuuuito feliz! É muito prazer prá uma pessoa só. Rá

Silvano – sempre em busca de serviço

dns01

pastel01

 

 

 

 

 

 

pastel2

Bookmark and Share

Coisa de Gordo - 564

01 de agosto de 2014 0

564 – Enfim o livro

Ao longo desses anos em que mantive este blog, sempre esteve presente na minha ideia o fato de que um dia ele se tornaria um livro. A gente vai postando, postando, escrevendo, imaginando que um dia aquilo deixará de ser virtual para se tornar real. Palpável, carregável, riscável. Pois bem, essa hora chegou.

Agora em agosto de 2014, vai ser lançado o livro COISA DE GORDO, pela Editora Pragmatha.

Neste volume sentei olhos nas primeiras 300 postagens para dali extrair cerca de 50 textos que valeriam a pena serem publicados. Esse aproveitamento de vinte por cento me pareceu similar às fotos digitais que se faz hoje em dia. A gente leva a máquina fotográfica a um passeio, faz umas 500 fotos, para dali tirar umas 100, ou mesmo menos. Com os textos foi assim.

Tinha bastante coisa escrita, mas daí a aparecer nas páginas de um livro vai uma grande distância. Tive a chance de rever textos lá do início, opiniões mais “juvenis”, pude ver um certo evoluir no conteúdo do blog.

Da mesma maneira relembrei a interação com inúmeros leitores que semanalmente mandavam suas opiniões, suas respostas, curiosidades.

capa livro coisa de gordoChegamos ao livro, portanto.

Em que pese já houvesse estreado nesse mercado editorial com o livro FAMÍLIA FRENTE E VERSO (em coautoria com Jerri Almeida), um livro de cunho espírita, agora me aventuro sozinho nesta publicação. Faço tal empreendimento com a noção do meu universo, da minha realidade. Fazer esse livro nessa altura da minha vida é uma realização, um hobby, algo a ser compartilhado com amigos e conhecidos. É quase uma confraternização.

O que não impede que a partir disso o livro alce voos maiores, seja conhecido por você, por um amigo seu, por um amigo de um amigo seu, até chegar à mesinha de cabeceira do Davi Coimbra.

Sim ele terá outras utilidades, também poderá servir de peso de papeis sobre uma mesa. Poderá servir de calço para aquela mesa que estava em falso. Poderá ainda ajudar a equilibrar a porta da geladeira antiga que teima em ficar entreaberta.

Se um dia você tiver a chance de folheá-lo, espero então que faça o uso mais nobre que um livro pode ter. Que você mergulhe nos textos, nas histórias, nas bobagens, nos relatos ali presentes. Que consiga compartilhar comigo essa caminhada.

O lançamento vai ser na quinta-feira dia 28 de agosto de 2014, na Livraria Cultura do Bourbon Country (aquele shopping que fica ao lado do Iguatemi), de Porto Alegre. Vai ser às 20:00h! Se você quiser ser um dos dezessete leitores que vão aparecer, ficarei feliz. A partir do evento, o livro estará à venda no site da Cultura. Ou então através da Editora Pragmatha (http://www.pragmatha.com.br).

Sim, meu amigo, enfim chegou o livro! Aproveite!

Silvano – o impossível

Crédito da foto: reprodução da capa

Bookmark and Share