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Stevie Wonder é o cara

30 de setembro de 2011 0

Não, não vou falar do show de Steveland Morris, ontem, no Rock In Rio.

Me desculpem os moços e moças que descobriram, na última noite, que Stevie Wonder é um dos maiores que já pisaram na terra e ganharam a vida fazendo essa coisa estranha e sedutora chamada música.

Aqui no núcleo gestor do ContraVersão, não é de hoje que se pensa dessa forma. Sem dúvida, os grandes anos de Stevie já estão longe. Mesmo em tempos de entressafra, ele nunca deixou de ser um artista gracioso, craque em arranjos e em tratar sua audiência como deve ser tratada (acreditem, nem todos os medalhões são capazes de fazer isso).

Abaixo, um textinho que escrevi e foi publicado como Obra-Prima no Variedades do Diário Catarinense, em 28 de novembro de 2007:


“Dar espaço a um dos trabalhos de Stevie Wonder aqui na Obra-Prima somente quatro anos e meio depois de iniciada a seção _ e olha que ela é semanal _ é crime inafiançável. Enquanto corremos atrás de bons advogados para buscar a absolvição improvável, é possível recuperar algum tempo perdido com Innervisions.
Stevie Wonder é um dos cinco maiores gênios da música pop do século passado. O fato de ter lançado embaraçosos abacaxis após Hotter than July (1980), seu último grande disco, não ameaça seu status. Afinal, a seqüência de quatro obras-primas inquestionáveis que lançou entre 1972 e 1976 (Talking Book, Innervisions, Fullfillingness’ First Finale e Songs in the Key of Life) lhe dá crédito de sobra.
Nenhum artista conseguiu aliar o sincretismo, a inventividade instrumental e um seqüência fantástica de composições num intervalo semelhante. Nem mesmo Dylan, Bowie e os Beatles. Detalhe: ainda existem os predecessores Where I’m Coming From e Music of My Mind, os primeiros que realizou com total liberdade artística. Mesmo um pouco irregulares, valem cada centavo.
Innervisions, de 1973, é a cristalização da fase autoral de Stevie. A sofisticação de sua música já havia atingido o primeiro pico em Talking Book, com clássicos como Superstition e You Are the Sunshine of My Life. No entanto, os temas amorosos abrem maior espaço à crítica social em seu sucessor. O que manteve Innervisions atual foi o amplo poderio sonoro de Stevie. É funk e soul music soberba, inovadora, que usa sintetizadores Moog e Arp de modo que até hoje emulado pelas bandas de black music.
Um década antes da cristalização do rap, ele investia em narrativas sofisticadas, abordando a pobreza, o tráfico e falta de perspectivas dos guetos negros americanos (Living for the City). Mas também há o flerte com a espiritualidade oriental, destacado em Jesus Children of America e Higher Ground ( um dos grande momentos da história do funk), e momentos de pura alegria ( Don’t You Worry ‘Bout a Thing).
Wonder foi talvez o mais brilhante em um tempo de gigantes do soul e funk ( Marvin Gaye, Curtis Mayfield, Sly Stone, Isaac Hayes e George Clinton). Ilustrá-lo na capa de Innervisions como um ” cego visionário” _ aquele que tudo vê, num plano muito além do visual _ nunca deixou de ser exato, e justo. Poucos dias após o lançamento do álbum, Stevie sofreu um acidente automobilístico que quase lhe tirou a vida. Mas essa é uma outra história.

Innervisions, Stevie Wonder. 9 faixas, 1973.


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