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Desafinaram com João Gilberto

16 de julho de 2012 0

Como não esperar o melhor de uma semana, quando ela começa saudada por uma boa prosa logo no início da segunda-feira. O músico e leitor Nelson Padilha liga ao final da manhã para lançar mais luzes sobre a obscura passagem de João Gilberto por Florianópolis, assunto tratado na coluna do mesmo dia. O show, promovido pelo disc jockey Ourivaldo Goulart, da rádio Diário da Manhã (hoje CND Diário), foi um fracasso de público.

Mas o que se sucedeu após a pouco prestigiada apresentação no Teatro Álvaro de Carvalho, entre os anos de 1964 e 1965 segundo a memória de Padilha, foi uma daquelas dádivas que de tão fantástica entrou para o roll dos ocasos da cidade. Na época ele integrava a Orquestra do Lira Tênis Clube e com a sua turma acompanhou a jornada quase anônima do então expoente da Bossa Nova que terminou em um seresta que varou a noite no Bar do Goiano, no Mercado Público da Capital.

E fez uma retificação: Luiz Henrique Rosa não estava com o músico. João parou no botequim para fazer fazer umas horas até tomar o voo de volta para o Rio de Janeiro, na manhã seguinte. _ Imagine se o Goiano tivesse que pagar por aquilo. Teria que vender o bar, a casa e endividar-se para o resto da vida _ brinca Padilha. …como um sussurro Não é exagero, ano passado, por ocasião dos 80 anos de João Gilberto, uma turnê nacional foi anunciada com ingressos a partir de R$ 1 mil.

Problema de saúde e a baixa procura por ingressos levaram ao cancelamento da tour. Padilha foi ao TAC e presenciou o teatro vazio, algo que não o surpreendeu dada a pouca familiaridade da então provinciana Capital com um gênero e um ídolo em ascensão no mundo. Soava um tanto elitista ainda na época. João Gilberto foi subestimado _ como viria a se repetir na década seguinte com outra sumidade, o dramaturgo Nelson Rodrigues.

Naquela madrugada no balcão do Bar do Goiano, João sacou o violão, cantou todo o repertório, apresentou a melancólica Chega de Saudade, a frívola Lobo Bobo. Saiu da cidade como chegou: como um sussurro. João Gilberto não deixou saudades porque ninguém o viu, e muito menos demonstrou qualquer tipo de rancor, segundo Padilha. Estava mais preocupado em manter seguro o cachê que guardava no bolso.

João Gilberto veio a Florianópolis por obra do disc jóquei (ou discotecário) Ourivaldo Goulart, da rádio Diário da Manhã (hoje CND Diário). Ele promovia shows, como Ângela Maria, mas se notabilizou como um desses radares que farejavam tendências e novas ondas. Um cara que antecipava os acontecimentos da sua época. Sua loja de discos na Praça XV de Novembro, por exemplo, foi o ponto de desembarque da beatlemania na Capital, há cinco décadas. Foi da vitrola posicionada na porta do estabelecimento, nos idos de 1963, que a Ilha ouviu o primeiro compacto dos Beatles: Love Me Do. E depois nunca mais foi a mesma.



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